Susanna Busato – Universidade Estadual Paulista
– UNESP – Campus de São José do Rio Preto -
SP
Cerca de 35 professores de várias disciplinas da
grade curricular do Ensino Fundamental e Médio da Rede Estadual
de Ensino do Estado de São Paulo reuniram-se para a primeira aula
do curso de Letramento do Curso de Metodologias de Ensino da Leitura em
todos os Componentes Curriculares do ciclo II do Ensino Fundamental e
do Ensino Médio (ler para aprender) do Programa de Formação
Continuada – Teia do Saber, ministrado em Fernandópolis,
SP, nas dependências da Delegacia de Ensino daquela cidade, em 09
de outubro de 2004. Enquanto professora da área de Literatura Brasileira,
tinha a missão de promover um encontro de descobertas entre esses
professores e a literatura, como parte do processo de ensino-aprendizagem
que a noção de letramento pressupõe enquanto um processo
de aquisição de um saber sobre a leitura e a escrita, promovendo
no indivíduo uma alteração nos modos de uso desse
instrumental, em termos cognitivos, psicológicos, políticos,
econômicos, lingüísticos e culturais, conforme atesta
Soares (2001).
O que meus conhecimentos sobre literatura poderiam contribuir para inserir
esses professores de ciências, matemática, português,
desenho, história, geografia, biologia e química numa discussão
acerca da compreensão dos modos pelos quais a leitura e a escrita
elaboram o conhecimento?
Iniciei meu raciocínio a partir do pressuposto de que o processo
de reflexão sobre a prática parte do exercício dessa
prática. Assim, procurei levar os professores a vivenciarem um
exercício de leitura, ou melhor, um exercício de percepção.
Principiei pela leitura de formas em três momentos, a partir de
três quadros de Alfredo Volpi (1896 – 1988), intitulados:
“Casario de Mogi das Cruzes” (década de 50), “Fachada
com Bandeirinhas” (década de 50) e “Composição”
(década de 70), nos quais se percebe uma evolução
das formas em termos de uma abstração a que se vai chegando
ao deixarem as formas geométricas os seus referentes imediatos.
O que era decifrável (“Casario de Mogi das Cruzes”),
reconhecível como casa, telhado, bandeirinha, mastro, vai aos poucos,
num movimento de aproximação do objeto ao observador no
quadro seguinte (“Fachada com Bandeirinhas”), se transmutando
em formas geométricas quase que sobrepostas: telhados sobre telhados,
paredes retangulares, janelas e portas disputando o espaço, se
acumulando para o observador que vai projetando seu olhar e interpretando
algo mais do que a mera paisagem composta de casas e telhados e bandeirinhas.
O terceiro e último quadro (“Composição”)
leva à abstração a composição das formas
geométricas, que perdem aquela referencialidade primeira dos quadros
anteriores que ainda levavam o observador a reconhecer objetos familiares
para ele. Do concreto ao abstrato: eis o processo de apreensão
das formas. Neste primeiro momento, o exercício de leitura iniciava
um percurso interessante, pois, motivados a olhar em redor da sala, a
partir do questionamento sobre a forma e a funcionalidade dos objetos
(aquela janela é uma janela somente? Ou: esta mesa é uma
mesa ou é algo mais?), os professores foram incitados a perceber
para além do objeto na sua natureza funcional. Foram incitados
a perceber as formas por trás dos objetos e a abstrair esse mundo
de símbolos, de formas convencionadas pelo uso, e a entrever linhas,
volumes, texturas, formas em si que se repetiam e que dialogavam entre
si.
Esse exercício de leitura propiciou uma discussão acerca
de como o nosso aluno ainda criança e o adolescente poderiam ter
perspectivas diferentes dos objetos que nos circundam. O pragmatismo cotidiano,
ao qual o adulto está condicionado por uma série de fatores,
é algo que impede uma percepção mais apurada do mundo.
O contato unilateral que temos com os objetos do cotidiano impede que
tenhamos um olhar mais abstrato em torno deles. O processo de estranhamento
não é algo exclusivo da arte. Segundo Victor Chklovski,
teórico formalista russo (segunda década do século
vinte), afirmava que “a automatização engole os objetos,
os hábitos, os móveis, a mulher e o medo à guerra”.
(1978, p. 44) No cotidiano de muitas pessoas, os objetos passam de forma
a reconhecerem apenas a sua superfície, os seus primeiros traços:
“sob a influência de tal percepção, o objeto
enfraquece, primeiro como percepção, depois na sua reprodução”.
(1978, p. 44) Torna-se, portanto, prosaico, não percebido de forma
consciente.
De fato, o exercício de leitura efetuado nesse primeiro momento
exponenciou um aspecto da prática cotidiana que é o de perceber
os objetos, os materiais, as pessoas, os gestos corriqueiros, sem qualquer
esforço nosso por compreender o que já tomamos como codificado.
Segundo Soares (2001), a leitura é um “processo de relacionar
símbolos escritos a unidades de som e é também o
processo de construir uma interpretação de textos escritos.”
(2001, p.68) Inclui a autora nesse processo materiais de leitura verbais
e não-verbais, o que amplia a noção de leitura neste
caso. A tipologia de textos citada por Soares é ampla: “literatura,
livros didáticos, obras técnicas, dicionários, listas,
enciclopédias, quadros de horário, catálogos, jornais,
revistas, anúncios, cartas formais e informais, rótulos,
cardápios, sinais de trânsito, sinalização
urbana, receitas...” (2001, p.69)
A leitura, segundo a autora, implica, portanto, “a habilidade de
captar significados; a capacidade de interpretar seqüências
de idéias ou eventos, analogias, comparações, linguagem
figurada, relações complexas, anáforas; e, ainda,
a habilidade de fazer previsões iniciais sobre o sentido do texto,
de construir significado combinando conhecimentos prévios e informação
textual, de monitorar a compreensão e modificar previsões
iniciais quando necessário, de refletir sobre o significado do
que foi lido, tirando conclusões e fazendo julgamentos sobre o
conteúdo.” (Soares, 2001, p. 69)
O sentido de leitura do qual partimos em sala de aula nos levou ao conceito
de “texto”, tomado como um espaço codificado no qual
se dá a transmissão de significados e a geração
de novos sentidos. (Lotman, 1996) O texto didático, tomado como
um espaço monossêmico para a construção dos
significados (e conceitos) específicos, deve ser construído
sobre um código comum para o emissor e o receptor. O conhecimento
pontual é veiculado por meio de textos com essa natureza. De igual
modo, na literatura, há textos que têm a função
de garantir a memória comum da coletividade e reuni-la numa moral,
ideologicamente aceita por essa coletividade, por meio de um mecanismo
de identificação, de abolição das diferenças,
conforme afirma Lotman (1996, p.94-5). É o caso dos contos maravilhosos
e das fábulas.
Entretanto, o conhecimento toma formas diferenciadas. Textos com função
pensante (“dispositivo pensante”, em Lotman, p.96) são
textos que geram novos sentidos, por serem formados como um sistema de
espaços semióticos heterogêneos no seio dos quais
se constrói a(s) mensagem(ens): textos polissêmicos. (Lotman,
1996, p.96) O leitor é levado a construir no processo de leitura
desses textos um pensamento abstrato, reflexivo, uma vez que ele, enquanto
sujeito do processo, vai promover as relações entre as formas
observadas na construção do discurso textual e projetar
no tecido do texto a sua voz, ou seja, a sua memória textual, de
mundo, de experiência e conhecimento herdado.
Após termos realizado o exercício de leitura das três
obras de Volpi com os professores e apresentarmos os conceitos de leitura
e de texto (como explanado acima), apresentamos sinteticamente as três
propriedades do texto, segundo Fiorin (1997): a coerência de sentido,
que se refere à organização relacional entre as frases
de um texto, as quais obedecem a uma logicidade interna, dada pelo sentido
construído nesse movimento; a delimitação do texto
(verbal ou não verbal) no suporte em que aparece, a que também
se dá o nome de “moldura”, como espaço demarcatório
do texto, assinalando os espaços em branco (que indicariam um “antes”e
um “depois”) ou os espaços demarcados por elementos
figurativos, como no caso da pintura, que separam o interno do externo,
o dentro e o fora, o ideal e o real, ou ainda, os espaços limítrofes
entre o texto e outros textos, apreendidos por meio do diálogo
que os procedimentos de construção do discurso mantêm
com outros textos e outras linguagens; e, por último, a presença
de um sujeito operador dos sentidos, que irá operar as relações
sígnicas dadas pelos sintagmas textuais de modo a mobilizar os
paradigmas que se projetam num jogo de reciprocidade ou de alteridade
com os anseios, idéias, expectativas e concepções
desse sujeito e de seu grupo social.
Conscientes da complexidade que o assunto poderia alcançar numa
sala tão heterogênea em termos da especialidade de cada professor,
concluímos de forma didática o assunto, afirmando que uma
leitura não pode basear-se em fragmentos isolados do texto, já
que o significado das partes é determinado pelo todo em que estão
encaixadas; e que uma leitura, por um lado, não pode levar em conta
o que não está no interior do texto e, de outro, deve levar
em consideração a relação, assinalada, de
uma forma ou de outra, por marcas textuais, que um texto estabelece com
outros.
Menos preocupados com as relações formais do que com as
relações semânticas, os professores confessaram sua
inabilidade em lidar com a estrutura textual de um texto específico
de sua disciplina, ao sugerir sua leitura a seu aluno. Sua preocupação
é voltada à apreensão dos conceitos e dos fatos que
envolvem os assuntos pertinentes à sua área de conhecimento.
Não discutimos aqui a necessidade da leitura em sala de aula, uma
vez que sua presença é necessária no processo de
percepção do mundo e sua codificação, por
via de representações de um saber sobre o mundo (científico
ou artístico, em suportes verbais ou não-verbais, visuais
ou auditivos). Discutimos com os professores os modos como o texto chega
ao aluno e os modos de como lidar com o texto enquanto mediadores que
somos desse processo escolar da aquisição do conhecimento.
Lembramos que o processo de letramento continua acontecendo nesse espaço
escolar, uma vez que, enquanto professores, estabelecemos roteiros, problematizamos
as assertivas que nos chegam do mundo que experimentamos diariamente,
numa ação que envolve a leitura e a escrita nas práticas
sociais que envolvem o indivíduo. (Soares, 2001)
Com o objetivo de levar esses professores a vivenciarem o processo de
codificação na leitura de textos (compreensão) e
de construção de sentidos (interpretação),
apresentamos dois poemas construídos por meio de formas gráficas:
“poema sem título”, de Hugo Mund Jr., e o poema-código
“Fome”, de José de Arimatéia Soares Carvalho,
ambos pertencentes à segunda metade do século vinte (poema-processo).
A idéia de promover a leitura em sala desses poemas que não
se valem exclusivamente da linguagem verbal estava centrada no caráter
estranho, porém familiar que eles promovem no leitor (a familiaridade
se relaciona com a massiva disseminação de textos não-verbais
em nossa cultura, com os quais estabelecemos uma relação
muito próxima, embora isso não garanta uma completa decodificação
de seus sentidos). Em outras palavras, objetivamos promover uma experiência
de leitura análoga à experiência pela qual submetemos
nossos jovens alunos ao apresentar-lhes um texto escrito em língua
materna, portanto num código que supomos dominado por esse nosso
leitor, o qual, todavia, não consegue estabelecer de imediato as
relações entre as partes desse texto, pois muitas vezes
esse nosso leitor não consegue passar do nível denotativo
para o conotativo da linguagem, que num grau ou noutro percorre os textos
de uma maneira geral, independente desses textos serem artísticos
ou não. Muitos “estranhamentos” em termos da organização
sintagmática dizem respeito às formas pelas quais é
realizada a combinação das palavras no texto e o modo como
chegam diferentemente a um leitor e a outro, dependendo do grau de familiaridade
que esse leitor tem com a leitura em geral e com as formas de representação
operadas por esse código em sua cultura. A compreensão desse
fenômeno é eficaz para termos consciência de que muito
mais do que conteúdos e referências, devemos trazer para
o diálogo as formas como esse conteúdo e referências
são tecidas no texto, organizadas e apresentadas ao leitor.
O “poema sem título”. de Hugo Mund Jr., por exemplo,
traz seis quadros, dispostos numa seqüência análoga
à seqüência das histórias em quadrinhos. Cada
quadro está dividido por uma linha vertical de modo a separar o
espaço em duas partes, dando a cada uma dimensão diferente:
um quarto na primeira parte e três quartos na segunda parte. Em
cada quadro uma informação diferente vai se oferecendo ao
leitor, a partir do canto esquerdo em direção ao canto direito
do quadro (processo em que se dá a leitura em nossa cultura ocidental).
Quadro 1: impressão digital inteira; quadro 2: impressão
digital em processo inicial de apagamento; inicia a segunda parte do quadro
um traço de linha curvo; quadro 3: impressão digital em
processo nítido de apagamento; o traço de linha curvo começa
a tomar proporções maiores ao se deslocar para a direita,
acentuando uma verticalidade na continuidade do traço inicial;
quadro 4: impressão digital em processo avançado de apagamento;
as proporções aumentam na figura que começa a surgir
do lado direito do quadro, mas ainda não se revelando como algo
conhecido do leitor; quadro 5: impressão digital esvanecida quase
por completo; a figura se desloca mais para a direita do quadro e revela
os índices que levaram o leitor a decodificá-la como uma
letra do alfabeto no quadro 6; quadro 6: nenhum vestígio da impressão
digital e a completa aparição da figura indiciada no quadro
anterior: surge a letra “a” do alfabeto.
A compreensão dos elementos figurativos do texto poético
leva o leitor a interpretar os movimentos realizados pelas figuras. Que
relações haveria entre a impressão digital e seu
processo de apagamento concomitante à presença da letra
“a”que invade aos poucos o espaço do quadro? A organização
dos sintagmas dos quadros, da esquerda para a direita, orienta-nos a leitura
e marca o ritmo das imagens, dos processos de construção
de sentidos a que o leitor está exposto aqui. Este tem como elementos
apenas duas figuras e um espaço que elas dividem. Ao avançar
os sintagmas, o olhar percebe alterações na representação
dessas figuras. O movimento de leitura parte do reconhecível (impressão
digital) ao estranho (traço) e se altera no movimento de leitura,
do despojamento das marcas de reconhecimento (a impressão digital
que se esvanece no espaço e perde sua identidade de figura) para
a aquisição de sentido do traço da letra que vai
adquirindo identidade e reconhecimento por parte do leitor no movimento
da leitura dos quadros. O tema da identidade é plausível
neste texto, pois, levando-se para a esfera cultural, podemos observar
a perda da identidade codificada do ser analfabeto (simbolizada pela impressão
digital) em contraponto à letra “a”, simbolizando o
alfabeto e a linguagem codificada da língua como substituta das
marcas digitais do sujeito. Sua identidade vai se transformando a partir
do momento em que a presença da letra, marca da sociedade letrada
e da cultura erudita, toma corpo e preenche o espaço ocupado pela
marca do não-letrado; a alfabetização como presença
necessária na sociedade que organiza seu conhecimento e suas normas
de funcionamento com base no código escrito da língua: o
conhecimento do código que verbalizamos como marca adquirida pelo
sujeito cultural. Assim, as oposições não-saber X
saber, não letrado X letrado, por exemplo, vão surgindo
na estrutura profunda deste texto.
O segundo texto apresentado aos professores, “Fome”, de José
de Arimatéia Soares Carvalho, traz uma seqüência de
seis quadros, dispostos verticalmente, nos quais figuras geométricas
se sucedem e se sobrepõem, tecendo no interior da moldura quadrangular
(que também se transforma no processo de leitura) um diálogo
geométrico, ou seja, um diálogo entre formas geométricas
que vão adquirindo aspectos diferentes, até finalizar no
encilhamento da figura quadrangular num círculo. Este poema visual
é acompanhado de uma chave léxica. Para cada forma geométrica
há uma palavra correspondente, grafada de forma diferente, como
é o caso da palavra “fome” que tem sua grafia alterada
de letras minúsculas para a letra maiúscula “F”que
inicia a palavra e, depois, em letras maiúsculas que grafam toda
a palavra. As oposições claro e escuro também são
outro aspecto importante desse movimento realizado pela seqüência,
a partir do jogo feito com as formas geométricas.
A questão que propúnhamos no processo de leitura pretendido
pelo poema neste momento era como compreender o movimento das figuras
em termos da construção de um sentido. Analogamente, em
termos da leitura de um texto escrito com o código verbal, muitos
leitores, embora conheçam as palavras, saibam de seus significados,
não conseguem apreender o seu sentido, elemento que percorre o
processo de compreensão e interpretação da mensagem.
As palavras se sucedem, promovem relações de vários
níveis de raciocínio nos sintagmas que se formam, e o leitor
procura desconstruir esses elementos para restaurar os sentidos buscados
pelo movimento da leitura.
Primeiramente, ofereceu-se o poema sem a chave léxica. Percebeu-se
uma lógica na organização das figuras e um movimento
de formas que iam procurando uma outra definição ao longo
dos quadros. Muito embora a verbalização fosse difícil,
uma vez que os professores não detinham os significados de cada
forma geométrica, percebeu-se a organização de uma
mensagem no poema. A abstração das formas produzia uma mensagem
de caráter estritamente estético, assim como num caleidoscópio,
que, ao ser rodado, vai oferecendo ao olhar formas diferentes espelhadas
nos três cantos do triângulo interno e refletidas do fundo,
imagens de formas geométricas que se transmutam em outras, sem
qualquer definição prévia, sem qualquer simbologia
que as associe a um conceito.
Diferentemente, a linguagem de um texto de natureza verbal está
prenhe de significados convencionados pelo léxico da língua.
Quanto mais científico ou didático esse texto, menos polissêmico
ele será. Quanto mais estético (mais complexo em termos
de informação estética) ele se realize, menos monossêmico
ele se oferecerá ao leitor. Sua função é promover
relações novas entre as formas, ou seja, entre as palavras,
entre os sintagmas, acionando o eixo do paradigma e mobilizando novos
sentidos para o texto.
Mesmo de posse da chave léxica, os professores, ao associarem os
significados às formas geométricas, sentiram dificuldade
em tecer os sentidos, em verbalizarem o movimento. Pediu-se, então,
que expressassem a seqüência de figuras em palavras, em frases,
de modo a traduzirem para o texto verbal a organização de
sentido, os paradigmas mobilizados na seqüência. Os resultados
foram vários, desde os mais sintéticos na composição
até os mais analíticos na construção das frases.
Aqueles economizavam nos conectivos e demais palavras que servissem de
conexão entre as frases; estes complexificavam a construção
por meio de sentenças mais elaboradas do ponto de vista do raciocínio.
O tema da fome no mundo, ocasionando a morte do homem foi recorrente,
uma vez que as palavras da chave léxica eram: mundo, homem, fome,
morte, e a sua tradução em figuras geométricas organizava
a relação entre os sentidos desses vocábulos e promovia,
portanto, novos sentidos para o todo.
Afirma Chklovski, citado em outro momento deste relato, que “o objetivo
da arte é dar a sensação do objeto como visão
e não como reconhecimento”, ou seja, como algo já
visto, já reconhecido pelos sentidos humanos da percepção.
Continua o teórico afirmando que “o procedimento da arte
é o procedimento da singularização dos objetos”.
Assim, o “ato de percepção em arte é um fim
em si mesmo e deve ser prolongado”. (1978, p. 44-5)
Com essa assertiva levamos para a sala de aula uma estratégia de
trabalho: o processo de ensino-aprendizagem protagonizado pelo aluno e
orientado pelo professor é algo tão cotidiano em nossas
salas de aula, tão familiar à nossa profissão de
ensinar, que passamos ao largo muitas vezes dos modos como lidamos com
o fazer em sala de aula. Fixamos nossa atenção nos conteúdos
programáticos e nos esquecemos dos métodos e dos meios de
abordagem desses conteúdos nos textos em geral (não somente
didáticos, mas os textos que de uma forma geral, na sua construção
lingüística ou visual, geométrica, musical, são
unidades de sentido transmissoras de conhecimento). Se tenho de ensinar
como as vitaminas e os sais minerais são importantes para o funcionamento
do organismo humano, valho-me de um texto descritivo, informativo que
atinja o meu objetivo. Muitas vezes o texto de minha escolha pode entrelaçar
a importância de tais substâncias no organismo humano a um
caso de avitaminose ocorrido numa região dada do estado de São
Paulo, cuja vítima é uma criança desnutrida, cuja
família, numerosa, não tem condições de oferecer
uma alimentação adequada a todos os seus, por conta de sua
situação de miséria absoluta. O contexto no qual
o conteúdo se insere é importante para a compreensão
das conseqüências que a carência de nutrição
pode desencadear numa criança. Fatores sociais são também
analisados aqui, muito embora minha disciplina de ciências não
tenha como objetivo tratar dessas questões. O texto que apresento
poderia ter sido retirado de um jornal ou revista específica da
área de nutrição, ou ainda de um periódico
sobre a problemática urbana em termos dos níveis econômicos
e sociais que ocasionam diferenças de qualidade de vida numa população
específica de uma região, por exemplo. Ou ainda, poderia
ser um texto narrativo de natureza literária, cujo objetivo se
coloca muito além da mera veiculação desses assuntos
pertinentes a minha disciplina, mas pela riqueza das imagens aguça
a percepção para uma realidade urbana inconfessavelmente
atual: “dois e dois: quatro”, de Ferreira Gulart, por exemplo,
ou a pintura de Portinari, poderiam também figurar como textos
possíveis nos quais o conhecimento específico se daria ao
lado de um conhecimento dos modos como a linguagem teceria esse conhecimento
(no caso da pintura de Portinari, a imagem que o traçado do desenho
dos retirantes, figuras disformes e estupefatas, expressa em termos de
uma sensibilidade que amedronta o observador e lhe oferece um saber que
vai além do conteúdo semântico do quadro: um saber
sobre a representação da realidade que toma formas complexas
de acordo com a intencionalidade do sujeito que traduz em cores e linhas
o mundo que lhe chega pelos sentidos.
Para finalizarmos nosso exercício didático de percepção
no processo de leitura, realizamos um exercício de leitura de um
poema de Augusto de Campos, de 1963, chamado “cidade”, com
o objetivo de observar o processo de relação implicado na
organização textual, agora focalizando a linguagem verbal
como o código de base do texto. Elaboramos para isso uma metodologia
de leitura que segue sete passos: motivação; primeira leitura
do texto (leitura de contato, de forma oral ou escrita); leitura compreensiva
do texto; leitura profunda do texto; leitura crítica do texto;
elaboração de textos criativos a partir do texto-base; leitura
de outros textos que tenham como tema a cidade.
Formular uma metodologia eficaz que dê conta de como orientar a
leitura do poema para o aluno é uma tarefa inerente à função
do professor como mediador do conhecimento. A leitura de um texto no cotidiano
de todos nós não necessita de metodologia, ou seja, ela
se faz livre, impulsionada pelo desejo do sujeito em conhecer. No processo
de leitura, as descobertas naturalmente são feitas, acionando os
dispositivos cognitivos desse sujeito que elabora as informações
recebidas e que expressa seus sentimentos pelo material lido.
Entretanto, como assumimos enquanto professores o papel de mediadores
do conhecimento, a leitura em sala de aula acaba tornando-se um elemento
necessário, que necessita muitas vezes (e aqui reforço a
presença da leitura livre pelo aluno, ou seja, aquela escolhida
por ele e desenvolvida individualmente) da orientação do
professor. Um dos motivos é fazer o aluno perceber os modos de
organização textual e a esfera lúdica dos movimentos
realizados na dinâmica dos eixos paradigmáticos e sintagmáticos
da linguagem. Assim, o exercício proposto para os professores foi
o de leitura do poema “cidade”, de Augusto de Campos, sendo
meu objetivo levá-los a perceber por meio do material poético
como se podem processar os arranjos da linguagem verbal na construção
do discurso textual de forma condensada e exponencial. Minha intenção
aqui era que os professores pudessem carregar dessa experiência
um saber sobre o texto que os auxiliasse a reter a idéia de que
um texto necessita ser percebido em seus aspectos estruturantes, pois
é a partir deles que o conteúdo do texto é elaborado.
Iniciamos esse exercício, solicitando que escrevessem no tempo
de dez minutos o que era para eles uma cidade (não havia ainda
mencionado o poema de Augusto ainda). Foi feita a leitura dos pequenos
textos, cuja formulação era bastante variada, desde uma
lista de palavras que definiam a cidade até descrições
geográficas e sociais, mencionando muitas vezes impressões
pessoais da cidade.
Posteriormente liguei o cd-player e os professores puderam ouvir a oralização
do poema feita pelo próprio autor e disse a eles que se tratava
de um texto sobre a cidade. Foram necessárias cinco audições
do poema para que pudessem chegar perto de compreender as palavras. Neste
estágio do exercício, a cada audição feita
pedia a eles que me dissessem o que haviam entendido. As palavras que
eles podiam reconhecer eram escritas na lousa por mim. E a cada audição
eu perguntava a eles se era exatamente aquilo que haviam ouvido. O poema
“cidade”, na oralização ouvida, traz a voz,
que sem descanso pronuncia todas as sílabas num só fôlego
e num tempo e ritmo acelerados. A dificuldade em compreender o que o poeta
diz está na própria organização escrita do
poema, cuja seqüência linear é representada sem intervalos.
O movimento natural de nosso cérebro é querer reconhecer
os signos que se vão dispondo no tempo da fala. Assim, reconhecemos
o que parece ser familiar aos ouvidos. O que não é reconhecido
é posto de lado. A exploração da leitura auditiva
foi realizada dessa forma. A pergunta que fiz foi: “o que uma palavra
tem a ver com a outra?” A resposta foi óbvia e imediata:
“tem a ver com a cidade”. E continuei: “e como uma palavra
se relaciona com a outra? E os outros segmentos que vocês não
compreenderam e fizeram parte da seqüência? O que fazemos com
eles?” Como a reposta não veio, parti para o estágio
seguinte.
Apresentei o poema escrito para cada um dos professores e a surpresa foi
geral. A filipeta de papel com a digitalização do poema
foi recebida entre sorrisos. E afirmei que esse era o poema que haviam
acabado de ouvir. Logo trataram de ler e os comentários foram simultâneos:
“o que é isto? Não entendo o que está escrito.
As palavras estão cortadas...” Lembrei-lhes das palavras
que me haviam ditado minutos antes: “de onde vocês retiraram
estas palavras?” As palavras existiam ou não no poema? Passou-se,
então, à leitura analítica do poema. Procederam a
listar todas as palavras que já haviam percebido como fragmentadas.
Descobriram que todas elas terminavam com a palavra “cidade”,
que compunha o final do poema, a única palavra inteira a se repetir
em duas outras línguas: city, cité. Esclareci que a palavra
“cidade” que aparecia no final do poema funcionava, ao se
acoplar às demais palavras, como sufixo (-dade), designando uma
qualidade ou um modo de ser ou estado, propriedade. Assim, cada palavra
que surgia no poema nessa dinâmica da composição operada
pelo sujeito leitor designava uma qualidade da cidade, um modo de ser
da cidade, não um modo de ser particular, mas universal como as
palavras city, cité indicavam.
Descobriu-se também neste estágio o modo de combinação
das palavras pela justaposição, cujo ritmo se acelera pela
ausência da pontuação e pela seqüência
linear com que o poema se representa no papel. Como compreender esse modo
de representação das palavras no poema? Que sentidos poderia
haver nessa forma de representação e por que o poeta haveria
de dispor as palavras nessa forma fragmentada?
Na tentativa de dar resposta a essas indagações que surgiram,
solicitei que observassem novamente o poema e procurassem que lógica
estrutural estava presente na seqüência, no eixo combinatório
do sintagma. Alguns dos professores logo perceberam que a ordem alfabética
era a responsável pela escolha das palavras e isso organizava a
seqüência delas no poema. Assim, do caos inicial passou-se
à ordem: o poema tinha uma estrutura calcada numa lógica
que ordenava a seqüência. Entretanto, essa ordem estrutural
procurava representar o caos que o olhar do poeta percebe na cidade, um
caos que se faz representar pela seqüência ininterrupta das
palavras fragmentadas que se aglomeram num ritmo acelerado análogo
ao ritmo do passante das ruas que engole cartazes, letreiros, faixas,
sinais, acontecimentos, gestos, notícias, sons, de forma a construir
em sua memória um mosaico da cidade. O poema surgia para os professores
como um texto que informava algo sobre a cidade, e essa informação
era dada pela forma com que a linguagem se elaborava na dinâmica
dos eixos de construção do discurso: o paradigma e o sintagma.
As palavras no poema passavam do mero significado denotativo, concreto,
para o conotativo, mais abstrato, por força das relações
entre elas, na conjunção em que estavam ordenadas, em torno
do tema da cidade, do qual se irradiavam e para o qual convergiam num
mosaico de diversidades a marcar a alma da cidade, vista da perspectiva
do poeta.
A partir deste ponto procurei lembrá-los dos quadros de Volpi que
havíamos observado no início da aula. Os elementos que reconhecíamos
como casas, telhados, portas, mastros, bandeirinhas, se aglomeravam no
último quadro como signos de composição geométrica
de formas no espaço a se organizar em ritmos variados e a produzir
sentidos plásticos, de cores, volumes e movimento e a perderem
sua referencialidade anterior. Abstração pura de um sentido
que há por trás dos cenários que Volpi desenhava:
pura forma, sem função definida pelo uso, apenas forma plástica
a se reproduzir no espaço da tela em movimentos diferentes e a
produzir uma beleza que é inerente ao lúdico da composição.
O próximo estágio foi o de colocá-los na posição
de sujeitos criadores de um texto que representasse a cidade por meio
de outras linguagens, além da verbal. O objetivo da atividade estava
ligado ao de experenciarem um modo novo de representar o pensamento, sem
se valerem somente da palavra escrita. Além disso a atividade estava
também centrada no modo como os alunos se sentem ao se depararem
com as palavras e seus significados e serem levados a organizá-las
em seqüências lógicas a fim de exprimirem o pensamento.
Assim, foi proposto o exercício de, a partir do jornal, elaborarem
um texto que representasse a cidade. O jornal foi escolhido por mim neste
exercício por ser um material à mão, barato e bastante
representativo da esfera urbana. O jornal, com sua organização
diagramática, leva-nos a lê-lo de forma dinâmica. Letras
maiores que outras, legendas e fotos, anúncios, tudo se mistura
e constrói um mosaico da vida, um retrato da cidade.
Sugeri quatro maneiras de “construir essa cidade de letras e papel”:
folhear o jornal e procurar notícias ou manchetes que tivessem
como referência a cidade; colagem desse material em forma de poema
(o que implica a leitura e a fragmentação do texto de base);
selecionar as manchetes, os fatos e transformá-los num texto sobre
a cidade (não importa o gênero); construir uma cidade de
jornal, uma cidade de letras (poesia figurativa).
O resultado final foi interessante, apesar do pouco tempo que nos restava.
Solicitei que expusessem o processo de construção desde
a abertura da folha de jornal até a organização do
material selecionado e sua transformação em texto.
O exercício suscitou um aspecto autocrítico entre os professores.
Observaram seus procedimentos de leitura enquanto sujeitos do fazer e
perceberam que a dinâmica da leitura envolve não somente
o conhecimento do código, mas a capacidade de estabelecer relações
entre as palavras do código da língua, num exercício
que implica muitas vezes a transcendência dos significados literais
das palavras para percebê-las como construtoras de imagens, de novos
sentidos para o texto. A literatura neste percurso protagonizou um papel
importante, pois exponenciou as possibilidades construtivas das palavras,
assim como chamou a atenção para o aspecto da forma como
mobilizadora de sentidos que levam o sujeito da leitura a elaborar um
pensamento sobre o mundo.
As três etapas da aula, centradas nos três tipos de textos,
procurou evidenciar esse aspecto da relação entre o conteúdo
que tentamos apreender nos textos visuais e verbais (tentativa de reconhecimento
dos elementos e organização deles segundo o paradigma que
preconcebemos) e a forma como tal conteúdo nos chega aos sentidos
por meio das palavras, das formas geométricas, das cores, dos volumes,
do ritmo que ordena e perpassa a composição em termos temporais
e espaciais.
Se a leitura nos leva para um conhecimento sobre as coisas e sobre nós
mesmos, o exercício de leitura que os professores protagonizaram
durante a aula possibilitou que percebessem que há muito mais a
observar num texto do que meramente seu conteúdo imediato. Que
muitas vezes o texto pode se apresentar ao leitor (nosso aluno) como uma
incógnita (como se sentiram durante a leitura do poema visual,
construído com formas geométricas) e que é necessário
prestarmos mais atenção nos elementos e compreender como
se relacionam e como produzem sentido. Que a forma é um elemento
importante na construção de um texto. É ela que traça
o sentido das relações entre as palavras, entre as formas
geométricas, entre as figuras. E que a estrutura textual está
alicerçada numa relação entre um eixo de seleção,
semântico, paradigmático e um eixo de combinação,
sintático, sintagmático.
O conhecimento, enfim, que adquirimos durante a leitura não tem
a ver somente com as informações que as palavras veiculam,
com os conceitos que estão sendo construídos; o conhecimento
vai além e se situa também nos modos de relação
entre as palavras, nas informações que elas trocam em termos
da plasticidade, das analogias mórficas, sonoras e semânticas.
Levar nosso aluno a obter um conhecimento sobre os modos como o discurso
está estruturado no texto, possibilitar-lhe perceber de maneira
profunda que a(s) mensagem(ns) se constroem na dinâmica interna
das palavras, nas escolhas feitas pelo texto em exponenciar certas combinações
de palavras, é, enfim, torná-lo mais independente enquanto
leitor, mais perceptivo e mais crítico com relação
ao mundo. O processo de letramento no qual esse nosso aluno está
inserido deve situar a leitura como o modo de desvendar o mundo por meio
da linguagem e o modo de desvendar a própria linguagem no mundo.
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