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ETHOS NA CONSTRUÇÃO DO DISCURSO PEDAGÓGICO
Rosângela A.Ribeiro Carreira (GELEP/PUC-SP) Este trabalho apresenta uma análise de Planos de Aula para identificar o ethos na construção do discurso pedagógico, levando em consideração seus aspectos ideológicos e suas estratégias retórico-discursivas a partir da Nova Retórica inseridas numa abordagem pautada na Análise do Discurso . 1.Subjetividade da linguagem: manifestação e constituição de um ethos. A linguagem é o recurso pelo qual o sujeito se
instaura na sociedade e é por meio dela que a comunicação
se estabelece e os indivíduos exercem seus papéis sociais.
As diferentes estratégias comunicativas possibilitam aos indivíduos
a manifestação e a construção de uma identidade
e a constituição de uma sociedade. A subjetividade da linguagem
está presente em todas as manifestações discursivas
da sociedade e se concretiza na construção de diferentes
ethos culturais instituídos a partir de um determinado lugar social. Vê-se que a Análise do Discurso segundo Maingueneau retoma as noções de quadro figurativo apresentadas por Benveniste e de ethos, proposta por Ducrot, dando-lhes uma expansão significativa. A maneira de dizer autoriza a construção de uma verdadeira imagem de si e na medida que o locutário se vê obrigado a depreendê-la a partir de diversos índices discursivos, ela contribui para o estabelecimento de uma inte-relação entre o locutor e seu parceiro. Participando da eficácia da palavra, a imagem quer causar impacto e suscitar a adesão. Ao mesmo tempo, o ethos está ligado ao estatuto do locutor e à questão de sua legitimidade, ou melhor, ao processo de sua legitimação. Pensar nesse ethos, de certo modo é refletir sobre
a manifestação do “sujeito” no processo discursivo,
“sujeito” que se materializa na enunciação,
deixa suas marcas no texto, atua no processo de interação
e constrói as manifestações discursivas que possibilitam
que se pronuncie como identidade social e interaja com outros sujeitos.Ao
mesmo tempo essa interação cria e recria a própria
linguagem que atualiza valores sociais, instaura e mantém o poder
social; que por sua vez, constrói e reconstrói ideologias.Os
sujeitos criam o discurso e se assujeitam a ele de tal modo que certos
papéis sociais estabelecem instâncias discursivas e identificam
instituições. Os meios que dizem respeito à afetividade são,
por um lado, o etos, o caráter que o orador deve assumir para chamar
a atenção e angariar a confiança do auditório,
e por outo lado o patos, as tendências, os desejos, as emoções
do auditório das quais o orador poderá tirar partido. De
modo um pouco diferente, Cícero distingue docere, delectare e movere: 2. . O ethos cultural na constituição e manifestação do discurso pedagógico no Plano de Aula. A atividade docente assim como qualquer outra atividade
profissional apresenta determinadas peculiaridades próprias ao
exercício da função que a identifica, do mesmo modo
que o médico é associado à ação de
salvar vidas, o professor é associado ao saber. A aula é
uma instância que fortalece e afiança o “ethos cultural”
que o identifica como “detentor do saber”. Apresentamos os enunciados como sendo o produto de uma enunciação que implica uma cena. Mas isso não basta: toda fala procede de um enunciador encarnado; mesmo quando escrito, um texto é sustentado por uma voz – a de um sujeito situado para além do texto. Na docência o professor lida, diariamente, com diferentes
gêneros textuais/discursivos que servem tanto para subsidiar seus
estudos quanto para elaborar material para trabalhar com os alunos em
sala de aula.Tratando-se do discurso pedagógico e, sobretudo, os
gêneros produzidos para o ensino, que é o caso do Plano de
Aula, a voz que sustenta o texto é, simultaneamente, sustentada
por ele. Pois, o professor que não planeja bem suas aulas, não
atinge seus objetivos e não tem como mensurar o aprendizado de
seus alunos. Com efeito, o texto escrito possui, mesmo quando o denega, um tom que dá autoridade ao que é dito. Esse tom permite ao leitor construir uma representação do corpo do enunciador (e não, evidentemente, do corpo do autor efetivo). A leitura faz, então, emergir uma instância subjetiva que desempenha o papel de fiador do que é dito.Esse tom permite ao leitor construir uma representação do corpo do enunciador (e não, evidentemente, do corpo do autor efetivo) A leitura faz, então, emergir uma instância subjetiva que desempenha o papel de fiador do que é dito.(Maingueneau,2001a:98) Embora o Plano de Aula, a priori, seja um texto produzido
para orientação do próprio produtor (professor),
muitas vezes é solicitado por coordenadores ou diretores pedagógicos.
E é nesse momento em que a leitura é feita por outrem que
o texto adquire o que Maingueneau (2001a e b) chama de caráter
e corporalidade.A análise do texto por si só não
serve para o julgamento da prática pedagógica porque,seguramente,
encontraríamos textos desconexos com a prática que poderiam
apresentar;
O esquema demonstra a conjugação de diferentes aspectos discursivos para a efetivação do discurso e na produção do texto “Plano de aula” esses elementos se desdobram no âmbito real e no âmbito virtual, uma vez que o professor deve prever a situação comunicativa e mediante as representações mentais que faça em relação à situação deve criar estratégias pedagógicas que se organizarão no texto e se concretização na aula propriamente dita. Nesse sentido, os estudos de Maingueneau(2001) contribuem para a compreensão da criação da cena enunciativa, que inclui as ideologias, valores, crenças do enunciador (professor) e do contexto. Nessas estratégias de produção textual dos “Planos de Aula” os alunos são, simultaneamente, co-enunciadores e enunciatários reais e nessas instâncias o ethos do professor se faz presente tanto na produção quanto na atuação reproduzindo, recriando e transformando o texto criado em situação comunicativa, mobilizando o pathos e sendo mobilizado pelo ethos dos alunos.Tendo em vista esses aspectos o esquema poderia ser reestruturado para apresentar a seguinte configuração:
Ao produzir
o “Plano de Aula” o professor idealiza a situação
comunicativa e todos os componentes da situação.O ethos
que o professor constrói é parte constitutiva de seu discurso
e é esse ethos que vai mobilizar as paixões em sala de aula,
por sua vez o aluno, como interlocutor cria uma imagem desse professor,
mas também constrói a sua própria imagem, seu ethos
também interage com o professor e também mobiliza o pathos
em sala de aula, assim, o texto produto final em sua organização
prevê essa relação e na aplicação das
atividades esses componentes retóricos sempre estão presentes. 1. A discriminação
racial; (1) Ao tratar
da discriminação racial, a proposta da professora era trabalhar
com a temática a partir do gênero dramático e para
isso, segundo sua proposta elegeu o filme “Homens de Honra”
e estabeleceu os seguintes objetivos: reconhecer a discriminação
racial e a enclusão (sic) nos dias de hoje; analisar a situação
da raça negra em território dominado pela raça branca,
observar nos outras qualidades e abertura para cidadania (sic). Observa-se
que ao escolher um filme atual o ethos do professor faz uma escolha que
particular e atualiza seu discurso para, provavelmente, aproximar-se no
universo discursivo de seus alunos, prevendo estratégias de comunicação
e, na escolha da temática esse ethos imprime seus valores e suas
ideologias que demonstram questões sócio-culturais e relações
discursivas de poder evidente na escolha lexical do termo dominado. O ethos sob a égide de professor se constrói a partir das escolhas e da organização da superestrutura do Plano de Aula que prevê, então, uma dimensão virtual constitutiva da produção textual e nesse processo a identidade do professor constrói e manifesta seu ethos discursivo que se imbrica ao ethos cultural imposto pela imagem do “professor” criada pelo grupo social a que pertença. Assim, tem-se: Professor--------------------------Produção
Textual--------------------------------------Texto Produto 1. Apresentação
oral do professor, expondo os objetivos desta atividade. (sic) Essas escolhas lexicais dos termos professor, docente, educador, leitor, mediador e professora adquirem aspectos semânticos nessa produção textual/discursiva que permitem perscrutar a presença constitutiva do ethos e sua corporalidade no texto/discurso. Se, por um lado, há professores que em seu discurso criam um simulacro de impessoalidade para criar um distanciamento subjetivo, por outro lado, esse ethos que expõe sua voz no texto, não expõe apenas a sua subjetividade, mas uma intersubjetividade social instaurada na figura dos substantivos masculinos selecionados, que reificam o ethos no texto e representam o professor, ethos cultural, que imprime ao discurso a relação de poder e a hierarquia entre o professor “detentor do saber”, regente da aula expositiva e o aluno ouvinte, ainda que esse seja considerado como participante do processo de ensino-aprendizagem e da construção de conhecimentos. Esse posicionamento discursivo não nos serve para a análise pedagógica, mas permite a análise do papel da linguagem no discurso e a identificação de que essa representação desempenha o papel de fiador que se encarrega da responsabilidade do enunciado (Maingueneau, 2001b: 139) 4. Considerações Finais. Nessa primeira
reflexão sobre o ethos na construção do discurso
pedagógico foi possível perceber que, obviamente, a subjetividade
é inerente à linguagem e quando o professor produz um plano
de aula, seja na escolha dos textos e das estratégias, seja nas
escolhas lexicais apresentadas na superestrutura, o ethos se manifesta
explícita ou implicitamente. 5.Referência Bibliográfica. AMOSSY, Ruth
(2005) Imagens de si no discurso – a construção do
ethos. São Paulo: Ed.Cortez |
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