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LINGUAGEM
VERBAL E NÃO VERBAL NO TEXTO PUBLICITÁRIO: CONSTRUÇÃO
DA REFERENCIAÇÃO E PRODUÇÃO DE SENTIDO
Anneliese
Maria Bento de Carvalho - Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais
1 Considerações iniciais
1.1 Objeto
do trabalho
O ser humano
é cercado por linguagem verbal, textos orais ou escritos, e linguagem
não verbal, imagens visuais, auditivas, olfativas, etc. Ele é
um ser essencialmente constituído na e pela linguagem. Basta considerar,
por exemplo, que ele se pensa ser humano através da linguagem,
seja ela verbal ou não verbal (cf. SANTAELLA e NÖTH, 2001).
Seria impossível, então, pensar na vida humana sem a presença
da linguagem e, assim, sem a presença da produção
e efeito de sentidos pelo homem e no homem.
A linguagem é um domínio público de construção
interativa do social e do histórico. Ela permite e promove a própria
sobrevivência da espécie humana, constituindo-se na sua própria
essência, ou seja, a linguagem é responsável pela
forma de ser do ser humano (MARCUSCHI, 2000). Assim, o homem se define
como um ser sócio-histórico-discursivo (BRONCKART, 1999),
na medida em que seu agir comunicativo produz formas simbólicas
que transmitem conhecimentos coletivos e sociais definidores do contexto
da sua própria forma de agir.
Essas formas simbólicas podem ser realizadas através de
diversas formas de expressão e substâncias, ou seja, o homem
pode significar através de diferentes sistemas semióticos
(discursos) de diferentes naturezas, tais como a língua (português,
inglês, francês, etc.), a música, a pintura, a escultura,
a dança, a arquitetura, entre outros. Esses diferentes discursos,
ou linguagens humanas, podem ser definidos como ação e interação
estabelecida entre os seres humanos, em um tempo e espaço determinados.
E os efeitos de sentidos emergem desses sistemas como resultado da relação
entre os sujeitos interactantes e suas qualidades históricas, ideológicas
e sociais, dentro de uma determinada situação enunciativa.
Assim, o homem pode produzir e interpretar sentidos a partir de signos
lingüísticos (enunciados verbais) e não lingüísticos,
como fotografias, desenhos, gestos, sons, melodias, teatro, filmes cinematográficos,
etc. A produção de efeitos de sentidos não pressupõe
somente a ação de elementos verbais no processo de referenciação,
mas também a participação ativa dos elementos não
verbais.
Diante dessa perspectiva, pretendeu-se, analisar a relação
entre a linguagem verbal e a linguagem não verbal em textos publicitários,
com o intuito de estudar a conjugação entre estas duas formas
linguageiras diferentes: a verbal e a não verbal (fotografia ou
desenho). Objetivou-se investigar a relação entre o elemento
verbal e a imagem, bem como estudar a influência das condições
de produção e das práticas discursivas na produção
de efeitos de sentidos e, conseqüentemente, na construção
da referenciação (cf. MAINGUENEAU, 2002).
É válido salientar, aqui, que o processo de referenciação
pode ser identificado na materialidade de qualquer texto pela introdução,
retomada, remissão e transformação de objetos do
discurso, construídos pelos sujeitos interactantes. Analisar esse
processo é, pois, delimitar as formas de enquadre da realidade
realizadas pelos sujeitos envolvidos na interação (cf. MATENCIO,
2003), em determinada situação enunciativa, isto é,
no espaço em que a interação é constituída,
ou seja, um espaço dialógico que pressupõe a participação
e o engajamento de dois ou mais interactantes, in praesentia ou in absentia,
negociando os sentidos (SILVA, 2002).
Pode-se dizer que o processo de produção de referência
e o processo de produção de sentido pressupõem a
interação entre o verbal e o não verbal, entre os
indivíduos interactantes, assim como a interação
destes indivíduos com o mundo em que vivem.
Nas análises de todos os textos publicitários considerou-se,
portanto, a noção de texto como um sistema de conexões
entre vários elementos, quais sejam: palavras, tipos de letras,
cores, fotografias, desenhos, luz, significações, participantes,
contextos, discursos, ou seja, como uma organização multi-sistêmica
que envolve aspectos lingüísticos e não lingüísticos.
1.2 Objetivos
da pesquisa
No intuito
de demonstrar que o sentido dos signos verbais e não verbais é
resultado de relações entre elementos históricos,
ideológicos e sociais dos sujeitos envolvidos, ou seja, dos sujeitos
produtor e leitor e com a própria situação enunciativa
pode-se destacar como objetivos principais do trabalho:
(i) o estudo do processo de referenciação em textos do domínio
publicitário nos quais se recorre à linguagem verbal e à
não verbal;
(ii) a investigação de como a introdução,
a retomada, a remissão e a transformação de diferentes
objetos de discurso (através do verbal e do não verbal)
contribuem para o processo de referenciação em textos publicitários;
(iii) a análise do traço do desenho da fonte de letra utilizada,
da qualidade da foto e da natureza das cores em termos de sua influência
na relação entre elementos verbais e não verbais,
levando em conta o processo de referenciação na produção
de efeitos de sentidos;
(iv) o estudo da relação de complementaridade ou não,
assim como a relação de reiteração ou não
entre linguagem verbal e não verbal;
(v) a investigação de como o mesmo recurso imagético
pode produzir efeitos de sentido distintos em textos publicitários
considerando as práticas discursivas nas quais eles emergem.
2 Desenvolvimento
2.1 Quadro
teórico
A fundamentação
teórica da pesquisa considerou a Teoria da Análise do Discurso
bem como a contribuição de determinadas categorias conceituais
da Teoria Semiótica para a investigação do processo
de referenciação e produção de sentido.
A partir da Análise do Discurso considerou-se o princípio
de que os elementos verbais escritos e os elementos não verbais
(no formato de imagens, como fotos ou desenhos) não possuem um
sentido imanente, mas sim um sentido que se constitui como efeito em uma
determinada situação enunciativa, a partir de um gênero
de discurso, em um certo tempo e espaço sócio-histórico,
através da interação entre determinados sujeitos.
Da Análise do Discurso, destacaram-se, neste estudo:
(i) os princípios epistemológicos do interacionismo sócio-discursivo
que, segundo BRONCKART (1999), analisa toda conduta humana como uma ação
significante, como um produto da socialização, em que as
condutas verbais são definidas como formas de ação
interdependentes em relação às ações
não verbais incluindo, aqui, as imagens, ou seja, os elementos
não verbais;
(ii) e a Teoria Semiolingüística que, segundo CHARAUDEAU (1983),
define o sentido discursivo como resultante de dois componentes: o situacional
e o lingüístico baseado no reconhecimento mútuo dos
interlocutores enquanto parceiros de comunicação que se
“reconhecem um ao outro em seu papel de interlocutante”.
Charaudeau (1996) postula a necessidade da construção de
um modelo discursivo no qual o espaço externo, ou seja, o lugar
de legitimidade penetre o espaço interno sendo ao mesmo tempo construído
por este, ou seja, pelo lugar de credibilidade. Dessa forma, o perfil
do “sujeito-leitor-consumidor em potencial” do texto publicitário
será resultado da conjugação entre a sua identidade
psico-histórico-social (“TU interpretante”) e a sua
atuação efetiva durante o processo de interação
(“TU destinatário”), a partir da leitura e interpretação
dos elementos linguageiros (verbais ou não verbais) presentes no
conjunto de estratégias discursivas elaboradas pelo sujeito-produtor
(“EU comunicante”) na situação enunciativa.
No campo da Teoria Semiótica recorreu-se mais especificamente à
Semiótica Plástica, principalmente na figura do estudioso
francês Jean-Marie Floch. Esta teoria atuou como importante ferramenta
no desenvolvimento da análise do corpus na medida em que a materialidade
textual das propagandas serviu de base indicadora dos elementos constituintes
da situação discursiva, bem como dos sujeitos envolvidos
e elementos sociais, históricos e culturais presentes no processo
de interação.
Floch (1985) defende a necessidade de se analisar todos os detalhes dos
signos verbais e não verbais atentando para os seus valores culturais,
históricos e sociais para a textura e saturação das
cores para a posição das imagens e dos enunciados na página.
Através da materialidade textual percebe-se que os elementos não
verbais podem também acionar conceitos pré-construídos
e/ou discursos anteriores de modo a explicitar como as formas de expressão
visual dos signos verbais e não verbais se relacionam com o plano
do conteúdo do texto publicitário. Com base nessas premissas
almejou-se, de alguma maneira, prever as eventuais intenções
e o perfil do interlocutor idealizados pelo sujeito produtor do anúncio.
2.2 Constituição
do corpus
Quando da
seleção do corpus impôs-se, como principal critério
para a escolha dos anúncios publicitários comerciais a presença
de signos verbais e não verbais. As propagandas foram extraídas
das revistas: Caras, Época, Veja, Exame, Isto É, Carta Capital,
Conjuntura Econômica, Revista TAM, Revista Gol, Próxima Viagem,
Ícaro, Encontro Gastronomia, Brasil Óculos & Moda, PC
World, Olimpíadas 2004, Blue Living (Portugal), Evasões
(Portugal), Welding Journal (EUA) e de um “flyer” que anuncia
uma peça de teatro, entre os anos 2003 e 2004.
Vale dizer que o discurso publicitário tomado como objeto de análise
é uma atividade que nasce e se constitui pela relação
interativa e dialógica entre os sujeitos envolvidos no processo
discursivo em um determinado tempo, espaço e numa sociedade específica;
como um instrumento de persuasão e convencimento, no intuito de
induzir a compra de produtos não essenciais às necessidades
básicas, como comer, morar e vestir através de estratégias
discursivas que despertem o desejo e a necessidade de compra nos consumidores,
enaltecendo o objeto pelo objeto e não por seu valor de utilização
prática.
A partir do estudo das imagens e dos enunciados utilizados no anúncio
publicitário publicado em revistas objetivou-se analisar o “percurso
que segue a produção de sentidos”, bem como determinar
as estruturas de expressão e de conteúdo responsáveis
pela sua condição de existência (cf. FLOCH, 1985:
144).
2.3 Procedimentos
de análise
No processo
de análise do corpus realizou-se uma análise horizontal
(comparativa) entre os anúncios publicitários, dividindo-os
em seis grupos: (i) GRUPO 1: propagandas contendo fotografias ou desenhos
de mulheres (ou de partes do corpo feminino); (ii) GRUPO 2: propagandas
contendo fotografias ou desenhos de homens (ou de partes do corpo masculino);
(iii) GRUPO 3: propagandas de automóveis; (iv) GRUPO 4: propagandas
de produtos para cabelo (tintas, xampus, cremes); (v) GRUPO 5: propagandas
pertencentes a uma mesma campanha publicitária; (vi) GRUPO 6: propagandas
diferentes, que utilizam o mesmo elemento não verbal.
Em seguida, sete peças publicitárias foram retiradas das
revistas: Caras, Veja, Isto É e Conjuntura Econômica e reunidas
no GRUPO 7. O critério utilizado na seleção dessas
sete propagandas baseou-se no fato de, nesses textos, a relação
entre o plano da expressão e o plano do conteúdo poder ser
localizada e compreendida de modo um pouco mais explícito. Nesse
grupo, foi realizada uma análise vertical, ou seja, uma análise
mais detalhada dos elementos lexicais (enunciados), espaciais (disposição
das palavras e imagens no texto) e imagéticos (figuras, desenhos,
cores, tipo de letra e textura, luz, etc.), investigando-se, mais a fundo,
a relação entre o verbal e o não verbal (cf. FLOCH,
1985; cf. MAINGUENEAU, 2002) no processo de referenciação
e produção de efeitos de sentidos.
3 Análise
de alguns exemplos
No Exemplo
01 (ver Anexo I), pode-se verificar como a interação entre
elementos culturais e aspectos da relação signo verbal e
signo não verbal na materialidade textual são responsáveis
pelo enquadramento contextual determinando a produção de
objetos de discurso, durante a situação enunciativa. O texto
é composto por uma cena que contém duas mulheres na frente
de uma casa: uma delas está sentada e a outra está segurando
uma “Vassoura Noviça” produzida pela empresa “Bettanin”.
Pela natureza material dos traços das cores e da luz utilizados
na imagem, percebe-se que se trata de uma pintura e não de uma
fotografia. E através das características, também
visuais, das roupas, dos penteados das mulheres, bem como a partir do
estilo arquitetônico da janela da porta do muro da casa, pode-se
deduzir que se trata de uma pintura que retrata uma época antiga,
anterior à época atual, ou seja, anterior ao tempo da enunciação
em que vive o sujeito leitor.
O único desenho que parece não fazer parte desta época
antiga é o desenho da “Vassoura Noviça” cujo
“design” e cores não correspondem aos das vassouras
usadas no passado, ou seja, às vassouras de antigamente. As características
visuais da vassoura que aparece na cena são de uma vassoura moderna
fabricada pela “Bettanin”.
Pode-se inferir que a palavra “antigamente” está relacionada
à cena imagética global, excluindo-se, apenas a imagem da
vassoura. O produtor traz para o texto publicitário uma idéia
culturalmente compartilhada, ou seja, ele pressupõe um conceito
pré-construído existente de que os objetos feitos antigamente
eram melhores e mais bem feitos, explicitando, aqui, uma relação
de interdiscursividade.
Entretanto, o significado do enunciado “Não se fazem mais
vassouras como antigamente” é desconstruído durante
o processo de referenciação textual, ou seja, a idéia
de que as melhores vassouras eram aquelas fabricadas antigamente é
refutada através do enunciado “Pelo menos na Bettanin”
e pela própria imagem da vassoura que possui um “design”
muito moderno para a época representada na pintura, levando o leitor
a inferir que na empresa “Bettanin” não se fabricam
mais vassouras como antigamente, mas sim vassouras melhores que as de
antigamente.
É possível verificar, então, que através da
interação entre os elementos linguageiros verbais e não
verbais da situação enunciativa a produção
dos referentes intencionados pelo produtor pode se efetivar, considerando-se,
é claro, os aspectos sócio-histórico-culturais constituintes
dos sujeitos envolvidos.
O Exemplo 02 (ver Anexo I) faz parte do grupo em que se investigou mais
detalhadamente como o elemento verbal e o não verbal podem revelar
a relação existente entre o plano da expressão e
o plano do conteúdo no discurso publicitário, bem como a
relação que expressão e conteúdo estabelecem
com a situação de enunciação no processo de
referenciação e produção de sentidos.
O sujeito produtor deste anúncio parece possuir a intenção
de conquistar o seu leitor, ou seja, de persuadi-lo a comprar o creme
dental “Close Up Whitening”, através do argumento verbal
e não verbal de que o produto anunciado possui a característica
de tornar os dentes mais brancos no período de quatro semanas.
O enunciador utiliza a materialidade formal e visual do próprio
anúncio para demonstrar o poder de clareamento da pasta de dentes.
Com essa finalidade, ele colocou como fundo para os enunciados verbais
a cor branca, podendo induzir o seu receptor referenciar a cor “branca”
como sendo aquela que os seus dentes terão após o uso do
creme.
O enunciado: “Vai usar ou vai amarelar?”, grafado na cor amarela,
deve relacionar-se, provavelmente, à cor que os dentes terão
caso o leitor não utilize o creme dental “Close up Whitening”.
O próprio recurso lingüístico “Whitening”
poderá remeter, também, ao elemento conceitual “cor
branca”, uma vez que “white” significa branco em inglês
e “Whitening” , aqui, funciona como um modalizador que caracteriza
a cor “branca” dos dentes que o “creme dental”
irá proporcionar. Assim, o sujeito produtor desse anúncio
pode ter pretendido um leitor capaz de ativar um discurso anterior referente
à língua inglesa (considerando-se o “Whitening”)
bem como o conceito pré-construído de que na sociedade ocidental
em que vivemos, possuir dentes brancos e não amarelos é
um sinal de higiene e cuidado com a saúde.
Além disso, o enunciado “Vai usar ou vai amarelar?”,
escrito em letras grandes e na cor amarela, pode induzir o sujeito leitor
a interpretar que se ele não usar o creme dental anunciado, seus
dentes ficarão “amarelos”. Esse enunciado (“Vai
usar ou vai amarelar?”) pode trazer, também, para a cenografia
textual a expressão verbal “Vai amarelar?”, que denota
um sentimento de medo diante de alguma ação a ser tomada;
afinal, no cotidiano, quando algum um indivíduo está prestes
a realizar um determinado ato e alguém pergunta: “ –
Vai amarelar?”, a pessoa que perguntou quer, provavelmente, indagar
se o outro está com medo ou vai desistir de executar a ação.
Nesse exemplo a pergunta “Vai usar ou vai amarelar?” pode
referenciar uma pergunta em relação aos dentes: se o leitor
vai deixá-los amarelados ou não; bem como a pergunta relativa
à coragem de usar ou não a pasta de dentes, ou seja, o produtor
desafia o seu leitor, que poderá comprar o produto anunciado para
provar que não “amarelou”, ou seja, que não
teve medo, ou que não quer deixar seus dentes amarelados.
Na materialidade textual desse exemplo foram colocados também,
a imagem da embalagem do creme dental e a imagem da “escala de brancura
que vem na caixa”, que traz, por sua vez, a imagem de dez quadradinhos
enumerados, com cores que variam do “amarelado” para o “branco”.
Nessa escala, foi colocada a imagem de uma seta vermelha do quadrado nº6
para o de nº5, indicando um movimento para a direita, podendo funcionar
como um indicativo de que a cor amarelada do dente vai ficando mais branca,
à medida que o leitor (consumidor) use a pasta de dentes “Close
Up Whitening”.
Verifica-se, nesse anúncio, a tentativa de o sujeito produtor provocar
no sujeito receptor a ativação de uma relação
direta entre os elementos verbais e não verbais no processo de
referenciação e produção de sentido, através
do fundo branco da página, da cor amarela das letras, da figura
do produto, da escala, da seta vermelha, etc).
Os Exemplos 03, 04 e 05 (ver Anexo II) referem-se a três propagandas
de produtos diferentes que possuem na composição da sua
materialidade textual elementos não verbais com a configuração
visual muito semelhante. Trata-se, neste caso, da imagem de uma “pimenta”.
O Exemplo 03 é um panfleto (um “flyer”) que anuncia
a estréia da peça de teatro “Beijo partido com tempero
de pecado”, o Exemplo 04 é um anúncio publicitário
das lojas de jóias “Dryzun” e o Exemplo 05 é
uma propaganda divulgada na revista técnica da área de metalurgia
“Welding Journal”.
A qualidade dos traços das figuras indica, no Exemplo 03 (“flyer”)
a presença de um desenho da figura de uma “pimenta”,
no Exemplo 04, uma jóia feita no formato de uma “pimenta”,
e, no Exemplo 05, uma fotografia de uma “pimenta”. Em todos
os textos a cor utilizada na pimenta é o vermelho.
No anúncio da peça de teatro a imagem da pimenta encontra-se
posicionada perto da imagem do desenho de uma boca feminina. As palavras
“tempero” e “pecado” (que está escrita
na cor vermelha e cuja letra ‘p’ possui uma linha curva que
se assemelha ao signo do rabo da imagem do “capeta”) se relacionam
à figura da pimenta, na medida em que referenciam o “sabor-ardor”
da pimenta, classificada como um alimento “quente”, pelo fato
de ser picante. Essa idéia do sabor “quente” se relaciona,
de certa maneira, à idéia do “fogo do inferno”,
lugar em que, supostamente, reina o “capeta” referenciado
pelo formato da letra ‘p’ de “pecado”. Além
disso, o recurso lingüístico “beijo” pode também
ativar o efeito de sentido de “relação amorosa”,
a qual também pode ativar o modalizador “quente”. Assim,
nesse texto publicitário, os elementos verbais: “beijo”,
“tempero”, “pecado”, e não verbais: a curva
da letra ‘p’ de “pecado” em forma de “seta”,
a figura da pimenta, a cor vermelha da pimenta, da palavra “pecado”
e da boca desenhada da mulher, atuam conjuntamente no processo de referenciação
e produção de efeitos de sentidos pretendidos pelo produtor.
O anúncio publicitário da joalheria “Dryzun”
(Exemplo 04) é composto pela fotografia da boca de uma mulher usando
batom vermelho com um pingente no formato de uma pimenta posicionado perto
dessa boca entreaberta, da qual é possível ver os dentes
e uma parte da língua. A partir desses elementos visuais pode-se
estabelecer uma relação com os enunciados: “Pimenta”
e “Paixão” que se encontram, em fonte de letra bem
pequena posicionados perto da boca. A relação dessas palavras
(pimenta e paixão) com a fotografia pode estimular ou reforçar
o efeito de sentido provocado pela figura da pimenta como símbolo
de paixão “forte”, “ardente” e “picante”,
modalizadores ambíguos que tanto podem ser relacionados ao vegetal
“pimenta” como ao sentimento da “paixão”.
O sujeito produtor utiliza-se dessa ambigüidade semântica para
criar uma cenografia que “ofusque” o leitor e que lhe permita
atingir seu imaginário, seduzindo-o através da imagem, criando
uma idéia de paixão e desejo pelo objeto anunciado. Caso
o leitor seja uma mulher, por exemplo, essa composição visual
pode estimular na mesma o “desejo”, a “paixão”
pela jóia anunciada. E, caso o leitor seja um homem, poderá
incutir no mesmo a vontade de comprar o pingente como presente para uma
mulher fazendo-o confundir o objeto de desejo “jóia”
com o seu próprio desejo pela mulher que irá usar essa jóia,
estimulado pelo formato de “pimenta” do pingente.
No anúncio da revista técnica de soldagem (Exemplo 05),
a imagem visual da “pimenta” aparece para referenciar o calor,
ou seja, a temperatura quente que deve sentir aquele trabalhador que não
utiliza o colete “Clima Tech” quando está soldando
alguma peça de aço a “300ºC”. A imagem
da pimenta é colocada como antítese em relação
à imagem da caneca de “chopp” bem gelado que se encontra
ao seu lado oposto direito.
Pode-se dizer, então, que, nos três exemplos (03, 04 e 05),
a imagem da pimenta pretende ativar referentes como “calor”
(nos Exemplos 03 e 05) e “paixão” (nos Exemplos 03
e 04). Entretanto, embora a imagem da pimenta seja recorrente nos três
textos, a conjugação com os outros elementos verbais e não
verbais presentes na materialidade textual é essencial para a ativação
do(s) efeito(s) de sentido(s) pretendido(s) pelo sujeito produtor.
4 Considerações
finais
Na cultura
humana, os signos se manifestam como formas de representação
dos conceitos elaborados por um determinado grupo de indivíduos.
Para sua efetiva realização, um signo necessita ser reconhecido
como a (re)apresentação do conceito a que se refere, dentro
de um sistema maior que o inclua. Esse reconhecimento pressupõe
a participação do homem como sujeito sócio-histórico-discursivo,
ou seja, como aquele ser que se afirma e se constrói na e pela
linguagem, inserido em um lugar histórico e social específico.
Os efeitos de sentidos resultam, portanto, de atividades essencialmente
discursivas, dinâmicas e dialógicas, em que, pelo menos,
dois sujeitos interactantes pertencentes a um grupo social, com intenções
e papéis discursivos específicos, participem.
Neste trabalho investigativo, realizado em dissertação de
mestrado, pôde-se investigar e demonstrar como a linguagem verbal
e não verbal atuam, conjuntamente, no processo de referenciação,
ativando conceitos pré-construídos e discursos anteriores,
delimitando pistas que indicavam as prováveis intenções
pretendidas pelo sujeito produtor, bem como o perfil do interlocutor por
ele almejado.
Foi possível, através da análise do corpus, comprovar:
(i) o fato de a introdução, a retomada e a remissão
a diferentes objetos de discurso (através do verbal e do não
verbal) contribuírem para o processo de referenciação;
(ii) como o mesmo recurso imagético pode produzir efeitos de sentido
diferentes; (iii) como o traço do desenho, a fonte de letra utilizada,
a qualidade da foto e a natureza das cores exercem influência na
relação entre o verbal e o não verbal; (iv) a existência
de relações de complementaridade ou não, de reiteração
ou não entre linguagem verbal e não verbal; (v) a influência
da relação entre elemento verbal e não verbal no
processo de composição e integração de espaços
referenciais e discursivos; (vi) o papel linguageiro dos elementos imagéticos
na construção da referenciação na situação
enunciativa.
Neste estudo pôde-se investigar e demonstrar como a linguagem verbal
e não verbal atuam, conjuntamente, no processo de referenciação
ativando conceitos pré-construídos e discursos anteriores
delimitando pistas que podem indicar as prováveis intenções
pretendidas pelo sujeito produtor bem como o perfil do interlocutor por
ele almejado.
Percebeu-se que os recursos não verbais também são
fundamentais no percurso da produção de efeitos de sentidos.
Elementos como: a luz, as cores e o tamanho das fontes de letras dos enunciados,
a textura do papel, a posição e o tamanho das palavras,
das imagens dos produtos e dos personagens figurativos na página
atuam como elementos linguageiros. Confirmou-se que o signo não
verbal não possui um sentido único e fechado. O signo, seja
ele verbal ou não verbal, participa da construção
de objetos de discurso ativando conceitos pré-construídos
e discursos anteriores, a partir da interação entre sujeitos
e situação enunciativa.
Pôde-se concluir que a relação entre conceitos, signos
(verbais e/ou não verbais) e a construção de objetos
de discurso não se define arbitrariamente, mas se realiza a partir
de um feixe de referências e inferências resultantes da interação
entre sujeitos, espaço, história, ideologia e sociedade,
reforçando, mais uma vez, a idéia do caráter dialógico
e social de todo sistema semiótico, ou seja, de toda e qualquer
linguagem desenvolvida pelo homem. No caso específico deste estudo,
da linguagem publicitária.
Referências
bibliográficas
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Jean-Paul. Atividades de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo
sócio-discursivo. Tradução de A. Rachel Machado e
Péricles Cunha. São Paulo: EDUC, 1999.
CHARAUDEAU, Patrick. Para uma nova análise do Discurso. In: CARNEIRO,
Agostinho Carneiro (org.) O discurso da Mídia. Rio de Janeiro:
Oficina do Autor, 1996.
CHARAUDEAU, Patrick. Uma teoria dos sujeitos da linguagem. In: MARI, Hugo
et al (orgs.) Análise do Discurso: fundamentos e práticas.
Tradução de Ida Lúcia Machado, Renato de Mello e
Williane Viriato Rolim. Belo Horizonte: NAD/FALE-UFMG, 2001. p. 23-38.
FLOCH, Jean-Marie. Petites mythologies de l’oeil et l’esprit.
Paris: Hàdes, 1985.
MAINGUENEAU, Dominique. Análise de Textos de Comunicação.
Tradução de Cecília P. de Souza-e-Silva e Décio
Rocha. São Paulo: Cortez, 2002.
MATENCIO, Maria de Lourdes Meirelles. Referencialização
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do resumo e da resenha. Texto publicado nos ANAIS DO III CONGRESSO INTERNACIONAL
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SANTAELLA, Lúcia & NÖTH, Winfried. Imagem: cognição,
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2001.
SILVA, Jane Quintiliano Guimarães. Um estudo sobre a carta pessoal:
das práticas comunicativas aos indícios de interatividade
na escrita de textos. 209f. Tese (Doutorado em Estudos Lingüísticos).
Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte,
2002.
Anexo
I |
Exemplo 03 |
Exemplo 04 |
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|
Anexo
II |
Exemplo
03 |
Exemplo
04 |
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| Exemplo
05 |
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