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REPRESENTAÇÕES DOS PROFESSORES DAS SÉRIES INICIAIS
SOBRE A PEDAGOGIA DE PROJETOS: REFLEXOS DE UMA POLÍTICA DE FORMAÇÃO
CONTINUADA.
Odair França de Carvalho - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS Este texto nasce de alguns apontamentos resultantes da
revisão de literatura que é parte de minha pesquisa de Mestrado
“AS REPRESENTAÇÕES DOS PROFESSORES DAS SÉRIES
INICIAIS SOBRE A PEDAGOGIA DE PROJETOS: REFLEXOS DE UMA POLÍTICA
DE FORMAÇÃO CONTINUADA” que tem por objetivo analisar
as representações sociais (Moscovici) dos professores sobre
a Pedagogia de Projetos. O confronto far-se à por meio das matrizes
teóricas presentes nos Parâmetros Curriculares Nacionais
do primeiro ciclo do ensino fundamental, e tem como foco a perspectiva
de formação ocorrida na década de 90, especificamente
a formação de professores em serviço: Programa de
formação “Parâmetros Curriculares em Ação
– PCNs em ação”. nessa perspectiva, há um desafio posto a educação brasileira, em especial a educação contínua, no qual o ensino, o profissional do magistério, enfim, a profissão docente tem se tornado foco das atenções, por excelência, para as normas, decretos e leis para efetivação de diversas reformas educacionais, qual seja, que essa mesma legislação dê suportes a escola e garanta uma jornada de trabalho para educadores em escolas básicas que preveja tempo e espaço para aulas e atividades pedagógicas-administrativas de formação contínua e pesquisa Neste contexto a formação de professores
tem sido alvo de vários estudos, na Europa (França e Portugal),
desde década 1970 e no Brasil, a partir dos anos 80, como uma reflexão
inicial. Mais precisamente, na década de 1990, os resultados desses
estudos indicam duas modalidades de formação, uma em caráter
inicial e outra, continuada. que o maior desafio da escola não é o ensinar, mas o aprender. Não existe inclusão sem aprendizagem e sem acesso ao conhecimento. Os resultados apresentados pelo Sistema Nacional de Educação Básica têm demonstrado uma tendência de queda de rendimento na aquisição de competências cognitivas básicas por parte dos alunos. Os resultados SAEB de 2001 indicam que 59% das crianças na 4ª série do ensino fundamental não adquiriram os conhecimentos e as competências básicas de leitura e 52% não adquiriram os conhecimentos básicos de matemática apropriados a essa faixa de escolarização. (BRASIL, 2003, p.9) Assim sendo várias indagações vão
surgindo dentro das quais destacam se: a organização dos conteúdos em torno de projetos, como forma de desenvolver atividades de ensino-aprendizagem favorece a compreensão da multiplicidade de aspectos que compõem a realidade, uma vez que permite a articulação de contribuições de diversos campos do conhecimento (PCNs, vol.,1997 , p.61). E,ao tratar da interdisciplinaridade a situação não é diferente, pois nas linhas do documento a interdisciplinaridade apenas questionaria; [...] a segmentação entre diferentes campos de conhecimento produzida por uma abordagem que não leva em conta a inter-relação e a influência entre eles – questiona a visão compartimentada (disciplinar) da realidade sobre a qual a escola, tal como é conhecida, historicamente se constitui. Refere-se, portanto, a uma relação entre disciplinas (ibidem,1997, p.40). Observa-se, no entanto, que a Interdisciplinaridade e
a Pedagogia de Projetos são matrizes teóricas abordadas
pelo Programa PCN em Ação, sendo que estão presentes
no documento oficial (Os Parâmetros Curriculares Nacionais). No
entanto parece que a proposta oficial compreende (ou limita) a Interdisciplinaridade
como sendo a integração entre as disciplinas do currículo
da educação básica, visão limítrofe
quando confrontada ao conceito de interdisciplinaridade discutido pela
academia. E neste sentido não valorizando o saber produzido pelos teóricos que trabalham nesta perspectiva como Fazenda e outros teóricos a conceituam. Interdisciplinaridade não é uma categoria de conhecimento, mas de ação (Fazenda:1994:28) e enquanto ação, a interdisciplinaridade não é uma simples forma de conhecer, um paradigma de conhecimento, mas uma atitude frente ao conhecimento o que, por sua vez, implica em perceber-se interdisciplinar como o primeiro movimento em direção a um fazer interdisciplinar e um pensar interdisciplinar(id.,1991:14) Para Japiassu (1976:74), a interdisciplinaridade caracteriza-se
pela intensidade das trocas entre os especialistas e pelo grau de integração
real das disciplinas no interior de um mesmo projeto de pesquisa. definirmos Interdisciplinaridade como junção de disciplinas, cabe pensar currículo apenas na formatação de sua grade. Porém, se definirmos Interdisciplinaridade como atitude de ousadia e busca frente ao conhecimento, cabe pensar aspectos que envolvem a cultura do lugar onde se formam professores e ainda complemento, e onde atuam como profissionais. Portanto o domínio do conceito de Interdisciplinaridade se faz necessário ao exercício da prática educativa que valoriza as redes que se estabelecem na construção do conhecimento. O CAMINHO QUE ESTA SENDO TRILHADO Na tentativa de desvelar representações
acerca da pedagogia de projeto a metodologia desta pesquisa enquadra-se
no corpus teórico da pesquisa qualitativa e da pesquisa documental,
sob a ótica do referencial da teoria das representações
sociais (TRS). Segundo Bogdan e Biklen: Nesta perspectiva os dados serão coletados através das técnicas: análise documental, a observação participante, questionário e entrevista nos quais buscarei as representações através das historias de vida dos professores, pois sendo que o eu pessoal e o eu profissional caminham numa relação estreita. Januário (JANUÁRIO APUD ANTÓNIO, 1996) destaca que as histórias de vida são aplicadas preferencialmente para determinar como os participantes se colocam e agem face a determinadas orientações educativas, acontecimentos ou inovações particulares, estudando em profundidade os motivos, pensamentos e crenças pessoais, constituindo uma autentica biografia da vida profissional ( p.63)
Enfoca-se aqui a possibilidade da associação
do uso da análise do conteúdo ao analisar as representações
sociais (RS) por se reconhecer, como Moscovici (1978), que existe uma
correspondência entre linguagem temática e representação
social. Ao trabalhar com a técnica da análise do conteúdo
primeiro se elegem as unidades de análise que estão divididas
em: unidades de registro e unidades de contexto. é o filtro por onde ele enxerga a realidade, sugerindo perguntas e indicando possibilidades. Os problemas de pesquisa gerados por cada pesquisador tendem a refletir seus vieses teóricos. A teoria surge como possibilidades de integra-los e, neste sentido, é sempre um recorte imperfeito da realidade (LUNA, 1998, p. 31-32). Com o caminho delineado buscarei as representações sociais (RS) dos sujeitos da pesquisa porque estas designam um [...] conhecimento, o saber do senso comum, cujos conteúdos manifestam a operação de processos generativos e funcionais socialmente marcados. Mais amplamente designa uma forma e pensamento social. As representações sociais são modalidades de pensamento prático orientadas para comunicação, a compreensão e o domínio do ambiente social, material e ideal. (JODELET,1984, p.361-2) Não esquecendo que a representações sociais apresentam características específicas no plano da
organização dos conteúdos, das operações
mentais e da lógica. Além deste enfoque existe o de Moscovici (1976),
a partir de quem é possível definir representação
social (RS) como um tipo de saber, socialmente negociado, contido no senso
comum e na dimensão cotidiana, que permite ao indivíduo
uma visão de mundo e o orienta nos projetos de ação
e nas estratégias que desenvolve em seu meio social. Representações
sociais (RS) são, portanto, conhecimentos culturalmente carregados,
que adquirem sentido e significado pleno no contexto sócio-cultural
e situacional em que se manifestam. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DA PEDAGOGIA DE PROJETOS Encontramos nas leituras de teóricos três
abordagens que tratam de projetos com os seguintes enfoques: projetos
de trabalho, projetos a partir de cooperação e projetos
com sistemas complexos. Em todos estes enfoques encontramos a participação
ativa da criança associada à tentativa de amenizar a fragmentação
do conhecimento através de currículos flexíveis.
Na prática pedagógica esta “estratégia”
vem sendo uma das práticas pedagógicas mais usadas desde
a educação infantil, ensino fundamental e até mesmo
no Ensino Superior. Diante desses enfoques, como estariam representadas,
na prática pedagógica dos professores dos quatro primeiros
anos do ensino fundamental? OS PROJETOS DE TRABALHO Partindo da possibilidade de um currículo integrado que avança do currículo disciplinar (centrado nas matérias) para um currículo transdisciplinar (centrado em problemas transdisciplinares) tendo como centro o processo de aquisição do conhecimento globalizado e relacional, Hernández e Ventura afirmam que a função do projeto é favorecer a criação de estratégias de organização dos conhecimentos escolares em relação a: 1) o tratamento da informação, e 2) a relação entre os diferentes conteúdos em torno de problemas ou hipóteses que facilitem aos alunos a construção de seus conhecimentos, a transformação da informação procedente dos diferentes saberes disciplinares em conhecimento próprio(1998, p.61). Luna e Moita ao citar Bomtempo (2000) colocam que “a
pedagogia de projetos, apresenta-se como uma concepção de
posturas pedagógicas e não meramente como uma técnica
de ensino mais atrativa (2004, p.1354). a organização dos Projetos de Trabalho se baseia fundamentalmente numa concepção da globalização entendida como um processo muito mais interno do que externo, no qual as relações entre conteúdos e áreas de conhecimento tem lugar em função das necessidades que traz consigo o fato de resolver uma série de problemas que subjazem na aprendizagem. A aprendizagem, nos projetos de trabalho, se baseia em sua significatividade, à diferença dos Centros de Interesse, que segundo uma professora da escola, ”baseiam-se nas descobertas espontâneas dos alunos” (1998, p.63). Para o autor a globalização e a significatividade
são aspectos que permeiam a concepção de projetos
de trabalho apresentando uma diferença em relação
aos centros de interesse que trabalha com o princípio da descoberta.
Cabe destacar alguns pontos diferenciais:
Hernández assim define a proposta de trabalho com projetos: é de alguma maneira, uma via para dialogar e dar respostas a esta situação em mudança, que não só está transformando a maneira de pensar-nos a nós mesmos, mas também de nos relacionarmos com o mundo que nos rodeia.(1998, p.45) PROJETOS A PARTIR DE COOPERAÇÃO A origem
da cooperação (vida cooperativa) está em Celestin
Freinet (1896 – 1966) que procurou práticas ou técnicas
pedagógicas que envolvessem as crianças no processo de aprendizagem,
em uma pedagogia prática e cooperativa. Freinet em sua Pedagogia
do Acontecimento rejeita a Pedagogia Tradicional “concebe um movimento
cooperativo de ajuda mútua, que não abolia as individualidades”
(ELIAS, 1997, p.64). A sua pedagogia alicerça-se em 4 eixos fundamentais:
viver numa escola alicerçada no real, aberta a múltiplas relações com exterior: nela a criança trabalha ‘pra valer’ e dispõe dos meios para afirmar-se. [...] a escola não é mais o lugar para transmissão de conhecimentos do professor às crianças que recebem um ensinamento. Para mobilizá-las é preciso que saibam o que estão fazendo e porque o fazem. Jolibert ao propor um enfoque ao ensino cooperativo afirma que é acabar com o monopólio do adulto que decide, recorta, define ele mesmo as tarefas. É fazer a escolha de um processo que leva a turma a se organizar a dar-se as regras de vida e funcionamento, gerir seu espaço, seu tempo e seus orçamentos (1994, p.20). Nesta abordagem
os projetos nascem da partilha de saberes de alunos e professores, os
conteúdos descem ao mundo das crianças que a priori eram
decididos pelos professores e agora são decididos pelo grupo. A
partir desse contexto a criança constrói conceitos individualmente
e /ou coletivamente. conhecimento
sobre uma metodologia com as seguintes etapas: incentivo (sensibilização),
formulação do propósito (objetivo), elaboração
cooperativa do plano, desenvolvimento (realização das tarefas
e atividades planejadas), culminância e avaliação
e auto-avaliação (ibidem, p.36). No enfoque
por projetos como sistemas complexos há presença marcante
das redes de comunicação, pois os envolvidos comunicam-se
elaborando uma teia de trocas de experiências e idéias. [...] uma educação baseada nas relações, nas interações e cooperação. Os projetos desenvolvem a partir [...] do conceito de complexidade, [...] (MALLAGUZZI,apud RABITTI, 1999, p.63). Nessas escolas
os projetos são definidos como estudos em profundidade “é
um projeto que começa com uma semente de uma idéia que evolui
por um longo período de tempo para um estudo longo e complexo”
(LLEKEENAN & NIMMO, 1999, p.256). E está organizado nas seguintes
etapas: exploração, organização de idéias,
discussão e a etapa conclusiva. Ainda neste enfoque encontramos
as contribuições de Helm e Katz (2001). ALGUNS APONTAMENTOS ACERCA DO TRABALHO... Até
o presente momento esta pesquisa de caráter interdisciplinar uma
vez que busca na diversidade de fatores que interferem no processo de
ensino aprendizagem desde as políticas públicas, as teorias
de aprendizagem, os saberes docentes constituídos no decorrer da
formação docente e da prática docente em sala de
aula e perpassando sua formação cultural. Aponta que essas
políticas como PCNs em Ação contribuíram muito
pouco com a prática cotidiana dos educadores e com a melhoria da
própria educação, a não ser nos municípios
que tomaram as rédeas do programa e os adequaram às suas
necessidades fugindo da modalidade tarefeira de repasse e multiplicação
e acabaram criando ou adotando uma política de formação
continuada da partir da experiência com o Programa em questão. Destaca-se
também o caleidoscópio de definições sobre
formação inicial e contínua e espera-se que este
estudo contribuirá para uma análise ampla de programas de
formação, propostos pelo governo. Em Ribeiro encontramos a seguinte definição (a formação contínua, a que chama formação em serviço), como conjunto de actividades formativas de professores que vêm na seqüência da sua habilitação profissional inicial e do período de indução profissional (quando existe), e que visa o aperfeiçoamento dos seus conhecimentos, aptidões e atitudes profissionais em ordem à melhoria da qualidade da educação a proporcionar aos educandos (RIBEIRO apud FLORES E PACHECO, 1999, p.128).(grifos meus) Encontramos em Pacheco (1995) que ao trabalharmos a formação contínua temos que levar em consideração as necessidades concretas dos atores e este estabelece três critérios: - critério
pessoal – necessidades de autodesenvolvimento; Parto do pressuposto de que os estudos sobre representações sociais permitem elucidar os elementos constituídos de sentido isolado ou associados em “constructos representacionais”, que são produzidos e transformados por sujeitos e grupos em condições sociais peculiares. As representações sociais não se constituem num agrupamento de opiniões ou num simples reflexo da realidade. Elas traduzem-se em reconstrução, em organização da realidade, que orienta as relações e as ações da pessoa com o contexto social (COSTA e JUREMA, 2004, p.3092). A partir
das concepções sobre a Pedagogia de Projetos, parece que
tal prática pedagógica pode trazer contribuições
significativas ao processo de ensino-aprendizagem, mas implica no domínio
de saberes (conhecimentos) acerca de cada abordagem, pois, segundo Freire
“saber ensinar não é transferir conhecimentos, mas
criar as possibilidades para a sua própria produção
ou a sua construção” (1996, p.52). Ainda se
tratando de saberes Tardif (2002) nos coloca que há diversos tipos
de saberes que circundam a prática docente: saberes experenciais
(baseados no trabalho cotidiano), disciplinares (de diferentes campos
do conhecimento) ou curriculares (referentes aos conteúdos organizados
pelas instituições de ensino) produzidos em determinado
contexto no exercício da construção de suas práticas.
os professores não ensinam do modo como fazem simplesmente em resultado das destrezas que aprenderam ou que deixaram de aprender. A forma como ensinam também está enraizada nos seus antecedentes, nas suas biografias e no tipo de docentes em se formaram. As suas carreiras as suas esperanças e sonhos, oportunidades e aspirações, ou a sua frustração também são importantes para seu empenhamento, entusiasmo e morale. O mesmo pode ser dito das suas relações com colegas que sob a forma de comunidades de apoio que trabalham em conjunto na perseguição de objetivos comuns e de um aperfeiçoamento contínuo, quer enquanto indivíduos trabalhando em isolamento, com as inseguranças que tal situação por vezes acarreta. (HARGREAVES, 1998, p.9) Ao término
deste artigo, recorro à continuidade da pesquisa na expectativa
de que ao fim dela possa além de apontar, contribuir com novos
conhecimentos sobre a pedagogia de projetos, formação de
professores em serviço e com erros desta política de formação,
possamos elaborar políticas de formação na concepção
micro-macro que consiga contribuir de maneira significativa na formação
dos educadores e na produção de conhecimentos a partir da
ótica desses profissionais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANTÓNIO,
Ana Sofia. Histórias de vida: auto – representações
e construção das identidades docentes. . In: TEODORO, António.
(Org.) (2004). |
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