Andrea da Paixão Fernandes - Universidade
do Estado do Rio de Janeiro – Instituto de Aplicação
Fernando Rodrigues da Silveira (CAp-Uerj) / Secretaria Municipal de Educação
do Rio de Janeiro (SME-RJ)
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes e o lance...
João Cabral de Melo Neto
INTRODUÇÃO:
O mundo está impregnado das mais variadas formas
de linguagem. Mas a linguagem oral e a escrita são meios privilegiados
que usamos para nos comunicarmos e constituem uma diferenciação
importante em relação aos outros seres vivos. Só
os seres humanos se comunicam através delas. Apesar das grandes
diferenças sócio-culturais em sua utilização,
os indivíduos se apropriam delas para interagir com o mundo e seus
semelhantes.
Aprende-se a ler lendo e é lendo que nos tornamos leitores. Aprender
a ler e a escrever requer que uma imensa rede seja tecida. Essa tessitura
se constrói a partir dos contatos diários, das histórias
contadas, das informações trocadas e enriquecidas pelo saber
que já adquirimos e, também, pelo saber do outro.
Assim – e para que a prática da leitura faça sentido
– vamos lendo o mundo, como nos ensinou o mestre Paulo Freire. Aprendendo
a ler, lendo. Aprendendo a escrever, escrevendo. Compreendendo e se apropriando
do que é lido. E, para isso, é preciso que sejamos capazes
de fazer, primeiramente, uma leitura contextualizada do mundo, com tudo
o que nos cerca. Ou seja, é preciso que, antes de estarmos alfabetizados
na língua materna, estejamos alfabetizados politicamente, pois,
assim, teremos melhores condições de nos apropriarmos do
sentido e do conceito de/sobre o que lemos.
O século XXI nos requer a necessidade de interagirmos, de forma
cada vez mais ágil, com as diferentes linguagens que perpassam
o cotidiano da nossa sociedade. Apresenta, também, a necessidade
dessa mesma sociedade ousar propor ações que se voltem para
a preservação da nossa sobrevivência enquanto espécie
no planeta Terra. Diante disso, ousamos desafiar nossos estudantes da
Classe de Alfabetização ao 3º ano do Ensino Médio
a transformar em texto escrito, de diferentes estilos literários,
o que pensam sobre uma temática tão debatida no tempo presente
e que vem causando tanta preocupação à humanidade:
o Meio Ambiente.
Nessa perspectiva, nosso trabalho retrata um pouco da experiência
do aprender a ler e escrever com sentido para si e para o coletivo. Retrata,
também, como o prazer de ler e de escrever pode se ampliar em experiências
vividas por turmas da educação básica e permite a
formação de conceitos e de valores acerca da necessidade
de se desenvolver a conscientização sobre a importância
da realização de práticas ambientais sustentáveis.
Contudo, vale ressaltar que, neste momento, nos deteremos mais à
produção textual desenvolvida nas turmas da Classe de Alfabetização
(CA) à 4a série.
O PRAZER DA ESCRITA EM ESPAÇOS-TEMPOS ESCOLARES
Para abordar o prazer da escrita em espaços-tempos
escolares é preciso considerar que a escola é, apenas, um
dos espaços de formação do leitor. Para grande parcela
da nossa sociedade, muitas vezes, o único desses espaços.
Contudo, a leitura e produção da escrita só são
efetivamente tecidas a partir do momento em que há o encontro dialógico
do sujeito com o texto lido e, também, com o sentido do que possa
ser escrito.
Considerando o encontro com o prazer necessário para que essas
produções sejam possíveis, Marina Colasanti conta
em um de seus textos uma experiência que demonstra como é
importante a leitura contextualizada. Nessa experiência, a escritora
fala sobre o encontro de suas filhas com o gosto pela leitura. Com as
duas ela tentou transferir a sua experiência de se descobrir como
leitora, ainda na infância. Com uma deu certo, com a outra...
Minha filha – ocupemo-nos aqui da que não nasceu leitora
– foi criada em Ipanema. Numa cidade que parecia um eterno playground.
Na era da televisão. Cheia de amigos, praias, programas. Em um
colégio animado, inteligente, com fonte de prazer, mas como algo
que tomaria o tempo de um prazer mais imediato, ou pelo menos mais evidente.
(...)
... podemos até especular se o fato de ser na minha família
a única que não lia não era usado por ela como uma
forma distintiva.
É evidente, porém, que o pouco que havia lido na infância
não havia conseguido lhe transmitir a sensação de
que os livros contêm coisas importantes e prazerosas.
Até hoje tento entender por quê.
Tinha à sua disposição, desde o início, vasta
escolha. Entre o que lhe era oferecido estava, sem sombra de dúvida,
o melhor. Podia pegar um livro começar e, se não achasse
interessante, trocá-lo na mesma hora por outro ainda, até
achar o que lhe agradasse, sem qualquer tipo de problema – como
observações da nossa parte ou até mesmo restrições
econômicas. Não estava, nessa caçada, limitada à
terrível faixa etária. Pois dispunha de livros para todas
as idades, uma vez que a irmã leitora é seis anos mais velha.
Nem estava presa às escolhas da irmã, já que, como
autores e jornalistas, meu marido e eu constantemente, recebíamos
livros das editoras.
O fato inegável é que, apesar disso tudo, nenhum livro aderiu
nela. Até Christiane F. (COLASANTI, 2004, p. 30-31).
A história que Marina Colasanti conta, nos faz perceber que o gosto
pela leitura só aflora quando nos identificamos de alguma forma
com o texto que está sendo lido. E por que estou dizendo isso?
Por que ler não tem sentido e não nos causa prazer se não
tocar a nossa emoção de alguma maneira. Ler é gostoso
somente quando interagimos com o que estamos lendo; quando o lido nos
tem significado. Quando isso acontece nos agarramos ao livro ou ao texto
e não queremos parar até chegar ao seu ponto final. E essa
emoção, a busca do prazer é fundamental para que
tanto crianças, como adolescentes queiram se tornar leitores. E,
antes disso, queiram aprender a ler e a escrever.
O trabalho de construção da leitura e da escrita não
é tecido individual ou isoladamente. Da formulação
de suas hipóteses até a apropriação do sentido
dessa leitura pelo leitor e sua compreensão, essa tessitura pressupõe
a pesquisa investigativa do que é significativo para o grupo, a
reflexão sobre o que se lê e sobre o que se pretende escrever,
constituindo-se como etapas (ou caminhos possíveis) para a produção
textual do grupo.
O trabalho pedagógico desenvolvido no Instituto de Aplicação
Fernando Rodrigues da Silveira (CAp-Uerj) propõe como um de seus
eixos principais a formação do leitor. Para que a tessitura
tenha sentido para os diferentes sujeitos – estudantes e professores
– que interagem nesse processo, valorizamos a pesquisa e o contato
com diversas situações de leitura e de escrita, desde a
Classe de Alfabetização até o Ensino Médio.
Formamos leitores a partir de diferentes situações que visam
estimular essa formação tais como: as rodas de notícias
e as rodas literárias, dentre outras atividades.
As rodas de notícias possibilitam um amplo debate sobre as notícias
do cotidiano local, regional, nacional e mundial. Após a leitura
da notícia levada para a sala de aula pelos meninos e meninas,
as professoras estimulam o debate e a reflexão acerca das informações
apresentadas e atividades se desdobram a partir daí. A leitura
de gráficos, tabelas, percentuais, símbolos é bastante
explorada e permite o confronto entre uma “nova” informação
com um conhecimento ou com conceitos que já vêm sendo elaborados,
etc. As rodas literárias permitem e motivam o contato com o mundo
mágico da literatura infanto-juvenil, possibilitando que os estudantes
ampliem os seus conhecimentos sobre a literatura, além de proporcionar
a troca de impressões e opiniões sobre as histórias
lidas ou contadas.
Esses são apenas dois exemplos de como a leitura está presente
no cotidiano das salas de aula do CAp-Uerj. Além desses materiais,
lê-se tudo! Encarte de supermercado, folhetos, receitas, imagens,
enfim... A partir do gosto pela leitura que assim vai sendo tecido e do
(re)encontro com o prazer de ler, tornamos possível o despertamento
do prazer de ser e tornar escritor.
Em 2004 o CAp-Uerj recebeu o convite do jornal Folha Dirigida para participar
do projeto de redação que organizam anualmente. Este projeto
– intitulado, então de Projeto Redação 2004
– é realizado pelo jornal Folha Dirigida, em parceria com
a Fundação Biblioteca Nacional e tem como objetivo incentivar
a produção escrita de estudantes do ensino fundamental e
médio das escolas publicas e privadas do Rio de Janeiro. Cada escola
participante tem publicado um livro com cinqüenta redações
dos estudantes e três dessas são selecionadas para compor
outro livro, que reúne redações que representam todas
as escolas participantes. Estávamos diante de um grande desafio...
possibilitar aos nossos estudantes a realização de um sonho
que muitos de nós cultivamos na nossa infância ou adolescência:
o sonho de escrever um livro!
A escolha do tema é feita por cada uma das escolas participantes.
Para o livro que seria produzido pelos alunos-autores do Instituto de
Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira o tema escolhido
foi “Meio Ambiente”. Essa escolha considerou a relevância
da temática nos diferentes espaços-tempos em que transitamos,
vivemos, interagimos e a preocupação em construir com os
sujeitos estudantes do CAp-Uerj a conscientização acerca
da importância do exercício de uma prática ambiental
sustentável.
Entendemos que um dos desafios possíveis ao se refletir sobre a
questão ambiental é potencializar o desenvolvimento da percepção
sobre quem somos nós, seres humanos, sujeitos potencialmente transformadores
de nossas ações e que tentamos, a todo tempo, intervir na
forma como o mundo se apresenta, considerando as riquezas naturais.
A tarefa de organização e leitura dos textos que compõem
o livro, nos permitiu reconhecer como essas questões encontram-se
tão presentes e marcadas nos escritos apresentados por nossos estudantes,
como é possível identificar nos trechos que se seguem, extraídos
de diversos textos dos estudantes do Ensino Fundamental e Médio.
Embora o enfoque central do nosso trabalho não seja a análise
das redações a partir da 5a série, gostaríamos
de pontuar uma das produções textuais que compõe
o livro “Meio Ambiente – Projeto Redação 2004”,
de autoria de uma estudante da 6a série, que apresenta essa reflexão:
Quando pensamos em meio ambiente, preservação é a
primeira palavra relativa à natureza da qual nos lembramos. Mas
nem todos agem de maneira coerente e o resultado é a destruição
da sua fonte de vida.
Ainda nesse mesmo texto, a autora faz uma importante reflexão sobre
os dois lados da reciclagem...
Muitos países adotaram formas de preservação do meio
ambiente e a mais conhecida delas é a reciclagem, um processo de
reutilização de materiais como papel, alumínio, plástico,
aço, etc.
Mas a reciclagem também possui um lado ruim, porque nesse processo
são utilizados produtos tóxicos que, geralmente, não
possuem lugar adequado para ficar depois da utilização,
e isso pode resultar na poluição das águas, tornando
impróprio seu uso e destruindo o ecossistema marinho.
Cada texto lido traz uma emoção diferente sobre a preocupação
que já ocupa o cotidiano dessas crianças e adolescentes.
Narrando um pouco da experiência desse trabalho em uma turma de
Classe de Alfabetização, foi possível perceber que
as reflexões e discussões realizadas em sala de aula tinham
continuidade no espaço-tempo da casa daquelas crianças.
Certo dia, ao conversarmos sobre a necessidade de preservação
da água, um estudante de 6 anos comenta que, na sua casa, seu pai
tem o hábito de ligar o chuveiro e ir fazer outras coisas enquanto
a água (aquecida à gás) esquenta. Continuando ele
afirma que, agora que já aprendeu o quanto é necessário
preservar a água para sobrevivermos, vai até o banheiro
e desliga o chuveiro. A criança completa esse diálogo dizendo
que não se pode desperdiçar água.
Conhecimentos como esses, que são construídos a partir das
rodas realizadas em sala de aula e que têm por objetivo principal
o estímulo à formação de leitores são
imprescindíveis, não apenas para o saber escolar de que
vão se apropriando, mas também para a construção
da leitura de mundo a que fizemos referência anteriormente.
Esses estudantes aprenderam que o cuidado que a humanidade precisa ter
com a água é muito maior que, somente, fechar o chuveiro
que se encontra aberto desnecessariamente. Aprenderam que a água
é essencial para a continuidade da vida no planeta Terra. Aprenderam,
cantaram e produziram outros textos a partir de músicas, poesias,
textos jornalísticos e de literatura infanto-juvenil, aulas-passeio,
etc. Na história que compõe o livro a que fazemos referência,
eles ensinam e aprendem como cuidar mais da água, como se pode
observar:
O rio estava sujinho porque as pessoas jogavam muito lixo na água.
Elas jogavam latas, papéis, garrafas, cocos, pneus, sacos de biscoito,
vidros, plásticos. Além disso, o esgoto sem ser tratado
ia para esse rio e ficava um cheiro ruim. Por isso, o rio foi ficando
cada vez mais sujo e a vida por lá foi acabando.
(...)
Se a gente não cuidar da água, os nossos filhos não
vão poder nascer e viver.
Todos nós sabemos que a água é fonte de vida!
Com isso, tecem outros fios estabelecendo, desde os primeiros anos das
séries iniciais, uma compreensão ecossistêmica e,
também, uma visão crítica do que é preciso
fazer para, efetivamente, contribuir com a melhoria das condições
de vida no Planeta.
A partir do contato com a leitura das histórias que compõem
o livro, percebemos que cuidar do meio ambiente é uma necessidade
presente em cada um dos textos dos nossos escritores e que se complementam
pelas produções das/nas diferentes séries. Assim
vão sendo evidenciadas, também, as contradições
sociais e culturais:
Precisamos tomar algumas medidas: ao escrever numa folha de papel, aproveite
os dois lados, pois as folhas saem da árvore e estragando uma folha,
estamos estragando uma árvore.
Os alunos de uma turma de 3a série, por sua vez, dizem: “O
homem constrói e destrói ao mesmo tempo. Como pode isso?
É fácil, ele desmata para construir coisas modernas”.
Retrata-se neste texto uma visão paradoxal que evidencia as contradições
sociais e culturais existentes no “mundo” consumista não
sustentável. Sob esse ponto de vista, há que se ter cuidado
nas discussões sócio-ambientais para não se produzir
o ser humano que, por detrás do “dever” de ser “ecologicamente
correto”, provoca uma ação consumidora exacerbada.
Concordamos com Silva (2003), ao afirmar que:
devemos, desde já, esclarecer que nosso posicionamento é
amplamente favorável às discussões sócio-ambientais
e à constituição de uma ética ambiental que
sejam, ao mesmo tempo, uma utopia e uma “cultura”, examinando
as condutas destrutivas e predatórias das sociedades industriais
e pós-industriais, abrindo espaço para concepções
preservadoras e preventivas que possibilitem repensar os usos e costumes
da modernidade e seus impactos nas vidas humanas e ambientais.
Esses usos e costumes, bem como seus impactos na sociedade atual estão
apresentados nas variadas produções que mostram a riqueza
do trabalho com diferentes tipos de textos. Do literário ao folheto,
com toda a diversidade de informações.
Mas não podemos esquecer que apenas 3% da água do mundo
é doce e menos de 3% da água da Terra é potável.
(...)
As pessoas desperdiçam muita água e acabam prejudicando
o meio ambiente. Você sabia que uma pessoa viveria bem com quarenta
litros de água por dia? Mas pesquisas mostram que as pessoas gastam
em média duzentos litros de água diariamente e desse jeito
ela vai acabar, pois a água não é infinita.
E permite-nos, ainda, reconhecer que:
o homem realiza ações a fim de suprir as condições
necessárias à manutenção da espécie.
Ele necessita aprender a natureza a fim de apreendê-la. Deste modo,
a relação entre o homem e o seu entorno é um processo
sempre renovado que tanto modifica o homem quanto a natureza. É,
a todo tempo, uma múltipla modificação entre ambos
e por ambos (SILVA, 2003).
Retomando a reflexão acerca da leitura e da produção
escrita, faz-se mister ressaltar que os textos citados aqui corroboram
com a “idéia” do quanto a leitura precisa ter sentido;
significado para os estudantes. Essa leitura com sentido precisa estar
presente nas séries iniciais, desde a Classe de Alfabetização,
momento em que os sujeitos estão se apropriando dos usos possíveis
do ler e do escrever para ir além...
É dessa concepção de alfabetização
que nos apropriamos. Entendemos como sujeito alfabetizado aquele que,
além de ler e escrever, faz uso social dessa leitura e escrita,
a partir do seu envolvimento nas diversas e enriquecedoras práticas
sociais e seu uso cotidiano, visto que já se apropriou das tecnologias
necessárias para ler e escrever (SOARES, 2003).
Dessa forma, estamos valorizando a busca pela leitura com sentido, que
nos causa prazer. Assim como valorizamos escrever para o outro sobre aquilo
que por ser significativo e ter sentido para nós, também
nos dá prazer.
DOS SENTIDOS DA ESCRITA ÀS PRÁTICAS AMBIENTAIS SUSTENTÁVEIS
Kostrowichi (1988) atentava que, qualquer que seja nosso
pensamento sobre os problemas sócio-ambientais, devemos ter em
mente, sempre, que estes problemas são, antes de tudo, sociais.
Nesse sentido faz-se mister, por um lado, o conhecimento das fontes psicológicas
de avaliação relacionadas ao ambiente, aos hábitos
culturais, à receptividade, à informação,
e de outro, às motivações biológicas das escolhas.
O conhecimento das bases psico-fisiológicas tem um papel particularmente
importante no estudo dos problemas ambientais. Sem integrarmos os aspectos
psicológicos e sociais no modelo de compreensão e “otimização”
do meio, nos arriscamos a construir ou propor soluções e
mudanças que, embora sejam plenamente justificáveis do ponto
de vista científico, serão recebidas “friamente”
ou mesmo tratadas como “desumanas” e, por conseqüência,
não serão aceitas pela sociedade. Esta visão aproxima-se
da elaborada por Guattari (1990), para quem é essencial que se
organizem novas práticas micro-políticas e micro-sociais,
novas solidariedades, uma nova suavidade, juntamente com novas práticas
estéticas e novas práticas analíticas das formações
do inconsciente. Certeau (1994) chama a atenção, para a
necessidade de serem pensadas todas essas práticas até aqui
tão negadas pela própria epistemologia da ciência
e, aprofunda ao afirmar que :
Cada vez mais coagido e sempre menos envolvido por esses amplos enquadramentos,
o indivíduo se destaca deles sem poder escapar-lhes, e só
lhe resta a astúcia no relacionamento com eles, “dar golpes”,
encontrar na megalópole eletrotecnicizada e informatizada a “arte”
dos caçadores ou dos rurícolas antigos. A atomização
do tecido social dá hoje uma pertinência política
a questão do sujeito. Comprovam-no os sintomas que são as
ações individuais, as operações locais e até
formações ecológicas pelas quais se preocupa, no
entanto, de modo prioritário, a vontade de administrar coletivamente
as relações com o meio ambiente (CERTEAU, 1994, p.52).
O conceito de sustentabilidade, por sua vez, é
visto como um ponto central na discussão sócio-ambiental.
Por ele se interpretam propriedades e atributos dos diferentes sistemas
ambientais que compreendem a capacidade de funcionamento, de produção
e de renovabilidade de suas características críticas. Como
apontara Rodríguez (1997), desenvolver a sustentabilidade é
um requisito imprescindível em todo processo de desenvolvimento
que incorpore a dimensão ambiental com qualidade, como parâmetro
de partida. Para Alva (1997, p. 60-61) “a sustentabilidade pode
ser entendida como um conceito ecológico – isto é,
como a capacidade que tem um ecossistema de atender às necessidades
das populações que nele vivem – ou como um conceito
político que limita o crescimento em função da dotação
de recursos naturais, da tecnologia aplicada no uso desses recursos e
do nível efetivo de bem-estar da coletividade”.
Concordamos plenamente com Morin & Kern (1996), para quem, as questões
são interdependentes no tempo e no espaço, sendo preciso
mobilizar o todo. Supera-se a abordagem reducionista que consiste em remeter-se
a uma única série de fatores para resolver, a totalidade
dos problemas que atravessamos. Isto é menos a solução
que o próprio problema. Para estes autores, a fórmula complexa
da antropolítica não se limita ao “pensar global,
agir local”. Ela se exprime pelo “acasalamento pensar global/agir
local, pensar local/agir global”, na verdade, entendida por alguns
autores como “as sustentabilidades”, a saber: “a sustentabilidade
ecológica, incorporando a exploração dos recursos
naturais, os custos ambientais, os subsídios necessários
para a urbanização e o planejamento ambiental; a sustentabilidade
social, abarcando questões como a pobreza, as desigualdades étnicas,
os direitos políticos, a desigualdade regional e os acessos ao
emprego, saúde e a educação; a sustentabilidade política,
levando em conta a cidadania, problemas culturais, econômicos, sociais
e políticos, incluindo os relacionados à instituição
política e constitucional das nações e; a sustentabilidade
individual, contemplando valores, crenças, ética e desejos
ancorados na arqueologia virtual, interna ‘que possibilite a reflexão
individual no desenho coletivo’.” (SANTOS & SATO, 2001,
p.39).
Nos textos produzidos para o livro “Meio Ambiente” percebemos
a presença marcada de algumas dessas “sustentabilidades”.
Numa turma de Classe de Alfabetização, a sustentabilidade
ecológica se faz presente quando os autores afirmam: “Temos
que saber a hora de pescar os peixes para os filhotes não morrerem
nem as mães deles” (2005, p. 23) . A mesma situação,
acrescentada da percepção da sustentabilidade política,
é explicitada na seguinte afirmação:
O homem está poluindo você, jogando lixo nos rios e nos mares,
desmatando florestas, caçando animais sem necessidade e desperdiçando
a água que é tão importante para todos os seres vivos.
(2005, p. 25).
A sustentabilidade individual – e também a social e ecológica
–, por sua vez, apresenta-se na produção da turma
21, da 2a série:
A poluição provocada pelas pessoas e a sujeira dos esgotos
podem causar muitas doenças e contaminações nas águas
do Brasil. Além de prejudicar a natureza, isso pode matar pessoas
inocentes e animais como a raia, os peixes, os tubarões, os golfinhos,
os botos, as baleias, os pássaros e os outros animais da Terra.
Precisamos tomar algumas medidas: ao escrever numa folha de papel, aproveite
os dois lados, pois as folhas saem da árvore e estragando uma folha,
estamos estragando uma árvore; recicle plásticos, garrafas
e papel, assim você estará preservando a natureza; o balão
é a principal causa de incêndios florestais. As quedas dos
balões causam incêndios enormes em montanhas, morros, serras
e até em casas. Balões só em festas juninas e em
lugar seguro; quando estiver tomando banho, não fique muito tempo
no chuveiro, pois a água é um bem da natureza que pode acabar
um dia; ao escutar música muito alta, você pode estar poluindo
também, pois música alta, além de poluir nossos ouvidos,
polui também o meio ambiente; se você tem cachorro, leve
sempre um saquinho para limpar o coco, quando levá-lo para passear
na rua.
Perceber o impacto a construção da noção de
sustentabilidade e dessas práticas, leva-nos a acreditar o quanto
vem sendo importante o investimento em ações que levaram
(e levam) nossos estudantes a aprender e ensinar nos debates enriquecedores
realizados no espaço-tempo da sala de aula e, ainda, nos textos
produzidos. Essas situações vividas cotidianamente constituem
um dos vieses necessários para que continuemos com o processo “sustentado”
de pensar no coletivo as práticas sócio-ambientais necessárias
para a construção de uma sociedade mais humana e de uma
relação planetária mais ética. Nesse sentido,
todas as mudanças que se fazem necessárias só podem
se dar no mundo do qual tomamos parte, não apenas como uma criação
do espírito, pois ele, o mundo, existe concretamente . É
dele que devemos partir para construir outra coisa, ou seja, outro mundo.
Um mundo melhor.
Como exemplo da continuidade desse processo “sustentado” ressaltamos
a participação do Departamento de Ensino Fundamental do
CAp-Uerj na VI Semana Uerj de Meio Ambiente , por meio do concurso de
redação. Consideramos que o prazer da escrita do texto para
esse concurso foi possível na medida em que continuamos mantendo
acesa a chama e o significado da importância da construção
do processo sustentável e da busca por relações sócio-ambientais
mais éticas.
E enquanto essa chama vai se mantendo acesa, novos fios e novas redes
vão sendo tecidas e muitas outras experiências poderão
ser contadas...
Dessa forma, continuaremos tecendo e (re)tecendo manhãs que brilham
nas diversas manifestações do prazer de ler e de se construir
a escrita nos diferentes espaços-tempos do/no CAp-Uerj.
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