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  O PRAZER DA ESCRITA COLETIVA EM ESPAÇOS-TEMPOS ESCOLARES COMO SUPORTE ÀS PRÁTICAS AMBIENTAIS SUSTENTÁVEIS

Andrea da Paixão Fernandes - Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp-Uerj) / Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME-RJ)

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes e o lance...
João Cabral de Melo Neto
INTRODUÇÃO:

O mundo está impregnado das mais variadas formas de linguagem. Mas a linguagem oral e a escrita são meios privilegiados que usamos para nos comunicarmos e constituem uma diferenciação importante em relação aos outros seres vivos. Só os seres humanos se comunicam através delas. Apesar das grandes diferenças sócio-culturais em sua utilização, os indivíduos se apropriam delas para interagir com o mundo e seus semelhantes.
Aprende-se a ler lendo e é lendo que nos tornamos leitores. Aprender a ler e a escrever requer que uma imensa rede seja tecida. Essa tessitura se constrói a partir dos contatos diários, das histórias contadas, das informações trocadas e enriquecidas pelo saber que já adquirimos e, também, pelo saber do outro.
Assim – e para que a prática da leitura faça sentido – vamos lendo o mundo, como nos ensinou o mestre Paulo Freire. Aprendendo a ler, lendo. Aprendendo a escrever, escrevendo. Compreendendo e se apropriando do que é lido. E, para isso, é preciso que sejamos capazes de fazer, primeiramente, uma leitura contextualizada do mundo, com tudo o que nos cerca. Ou seja, é preciso que, antes de estarmos alfabetizados na língua materna, estejamos alfabetizados politicamente, pois, assim, teremos melhores condições de nos apropriarmos do sentido e do conceito de/sobre o que lemos.
O século XXI nos requer a necessidade de interagirmos, de forma cada vez mais ágil, com as diferentes linguagens que perpassam o cotidiano da nossa sociedade. Apresenta, também, a necessidade dessa mesma sociedade ousar propor ações que se voltem para a preservação da nossa sobrevivência enquanto espécie no planeta Terra. Diante disso, ousamos desafiar nossos estudantes da Classe de Alfabetização ao 3º ano do Ensino Médio a transformar em texto escrito, de diferentes estilos literários, o que pensam sobre uma temática tão debatida no tempo presente e que vem causando tanta preocupação à humanidade: o Meio Ambiente.
Nessa perspectiva, nosso trabalho retrata um pouco da experiência do aprender a ler e escrever com sentido para si e para o coletivo. Retrata, também, como o prazer de ler e de escrever pode se ampliar em experiências vividas por turmas da educação básica e permite a formação de conceitos e de valores acerca da necessidade de se desenvolver a conscientização sobre a importância da realização de práticas ambientais sustentáveis. Contudo, vale ressaltar que, neste momento, nos deteremos mais à produção textual desenvolvida nas turmas da Classe de Alfabetização (CA) à 4a série.

O PRAZER DA ESCRITA EM ESPAÇOS-TEMPOS ESCOLARES

Para abordar o prazer da escrita em espaços-tempos escolares é preciso considerar que a escola é, apenas, um dos espaços de formação do leitor. Para grande parcela da nossa sociedade, muitas vezes, o único desses espaços.
Contudo, a leitura e produção da escrita só são efetivamente tecidas a partir do momento em que há o encontro dialógico do sujeito com o texto lido e, também, com o sentido do que possa ser escrito.
Considerando o encontro com o prazer necessário para que essas produções sejam possíveis, Marina Colasanti conta em um de seus textos uma experiência que demonstra como é importante a leitura contextualizada. Nessa experiência, a escritora fala sobre o encontro de suas filhas com o gosto pela leitura. Com as duas ela tentou transferir a sua experiência de se descobrir como leitora, ainda na infância. Com uma deu certo, com a outra...
Minha filha – ocupemo-nos aqui da que não nasceu leitora – foi criada em Ipanema. Numa cidade que parecia um eterno playground. Na era da televisão. Cheia de amigos, praias, programas. Em um colégio animado, inteligente, com fonte de prazer, mas como algo que tomaria o tempo de um prazer mais imediato, ou pelo menos mais evidente.
(...)
... podemos até especular se o fato de ser na minha família a única que não lia não era usado por ela como uma forma distintiva.
É evidente, porém, que o pouco que havia lido na infância não havia conseguido lhe transmitir a sensação de que os livros contêm coisas importantes e prazerosas.
Até hoje tento entender por quê.
Tinha à sua disposição, desde o início, vasta escolha. Entre o que lhe era oferecido estava, sem sombra de dúvida, o melhor. Podia pegar um livro começar e, se não achasse interessante, trocá-lo na mesma hora por outro ainda, até achar o que lhe agradasse, sem qualquer tipo de problema – como observações da nossa parte ou até mesmo restrições econômicas. Não estava, nessa caçada, limitada à terrível faixa etária. Pois dispunha de livros para todas as idades, uma vez que a irmã leitora é seis anos mais velha. Nem estava presa às escolhas da irmã, já que, como autores e jornalistas, meu marido e eu constantemente, recebíamos livros das editoras.
O fato inegável é que, apesar disso tudo, nenhum livro aderiu nela. Até Christiane F. (COLASANTI, 2004, p. 30-31).
A história que Marina Colasanti conta, nos faz perceber que o gosto pela leitura só aflora quando nos identificamos de alguma forma com o texto que está sendo lido. E por que estou dizendo isso? Por que ler não tem sentido e não nos causa prazer se não tocar a nossa emoção de alguma maneira. Ler é gostoso somente quando interagimos com o que estamos lendo; quando o lido nos tem significado. Quando isso acontece nos agarramos ao livro ou ao texto e não queremos parar até chegar ao seu ponto final. E essa emoção, a busca do prazer é fundamental para que tanto crianças, como adolescentes queiram se tornar leitores. E, antes disso, queiram aprender a ler e a escrever.
O trabalho de construção da leitura e da escrita não é tecido individual ou isoladamente. Da formulação de suas hipóteses até a apropriação do sentido dessa leitura pelo leitor e sua compreensão, essa tessitura pressupõe a pesquisa investigativa do que é significativo para o grupo, a reflexão sobre o que se lê e sobre o que se pretende escrever, constituindo-se como etapas (ou caminhos possíveis) para a produção textual do grupo.
O trabalho pedagógico desenvolvido no Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp-Uerj) propõe como um de seus eixos principais a formação do leitor. Para que a tessitura tenha sentido para os diferentes sujeitos – estudantes e professores – que interagem nesse processo, valorizamos a pesquisa e o contato com diversas situações de leitura e de escrita, desde a Classe de Alfabetização até o Ensino Médio.
Formamos leitores a partir de diferentes situações que visam estimular essa formação tais como: as rodas de notícias e as rodas literárias, dentre outras atividades.
As rodas de notícias possibilitam um amplo debate sobre as notícias do cotidiano local, regional, nacional e mundial. Após a leitura da notícia levada para a sala de aula pelos meninos e meninas, as professoras estimulam o debate e a reflexão acerca das informações apresentadas e atividades se desdobram a partir daí. A leitura de gráficos, tabelas, percentuais, símbolos é bastante explorada e permite o confronto entre uma “nova” informação com um conhecimento ou com conceitos que já vêm sendo elaborados, etc. As rodas literárias permitem e motivam o contato com o mundo mágico da literatura infanto-juvenil, possibilitando que os estudantes ampliem os seus conhecimentos sobre a literatura, além de proporcionar a troca de impressões e opiniões sobre as histórias lidas ou contadas.
Esses são apenas dois exemplos de como a leitura está presente no cotidiano das salas de aula do CAp-Uerj. Além desses materiais, lê-se tudo! Encarte de supermercado, folhetos, receitas, imagens, enfim... A partir do gosto pela leitura que assim vai sendo tecido e do (re)encontro com o prazer de ler, tornamos possível o despertamento do prazer de ser e tornar escritor.
Em 2004 o CAp-Uerj recebeu o convite do jornal Folha Dirigida para participar do projeto de redação que organizam anualmente. Este projeto – intitulado, então de Projeto Redação 2004 – é realizado pelo jornal Folha Dirigida, em parceria com a Fundação Biblioteca Nacional e tem como objetivo incentivar a produção escrita de estudantes do ensino fundamental e médio das escolas publicas e privadas do Rio de Janeiro. Cada escola participante tem publicado um livro com cinqüenta redações dos estudantes e três dessas são selecionadas para compor outro livro, que reúne redações que representam todas as escolas participantes. Estávamos diante de um grande desafio... possibilitar aos nossos estudantes a realização de um sonho que muitos de nós cultivamos na nossa infância ou adolescência: o sonho de escrever um livro!
A escolha do tema é feita por cada uma das escolas participantes. Para o livro que seria produzido pelos alunos-autores do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira o tema escolhido foi “Meio Ambiente”. Essa escolha considerou a relevância da temática nos diferentes espaços-tempos em que transitamos, vivemos, interagimos e a preocupação em construir com os sujeitos estudantes do CAp-Uerj a conscientização acerca da importância do exercício de uma prática ambiental sustentável.
Entendemos que um dos desafios possíveis ao se refletir sobre a questão ambiental é potencializar o desenvolvimento da percepção sobre quem somos nós, seres humanos, sujeitos potencialmente transformadores de nossas ações e que tentamos, a todo tempo, intervir na forma como o mundo se apresenta, considerando as riquezas naturais.
A tarefa de organização e leitura dos textos que compõem o livro, nos permitiu reconhecer como essas questões encontram-se tão presentes e marcadas nos escritos apresentados por nossos estudantes, como é possível identificar nos trechos que se seguem, extraídos de diversos textos dos estudantes do Ensino Fundamental e Médio.
Embora o enfoque central do nosso trabalho não seja a análise das redações a partir da 5a série, gostaríamos de pontuar uma das produções textuais que compõe o livro “Meio Ambiente – Projeto Redação 2004”, de autoria de uma estudante da 6a série, que apresenta essa reflexão:
Quando pensamos em meio ambiente, preservação é a primeira palavra relativa à natureza da qual nos lembramos. Mas nem todos agem de maneira coerente e o resultado é a destruição da sua fonte de vida.
Ainda nesse mesmo texto, a autora faz uma importante reflexão sobre os dois lados da reciclagem...
Muitos países adotaram formas de preservação do meio ambiente e a mais conhecida delas é a reciclagem, um processo de reutilização de materiais como papel, alumínio, plástico, aço, etc.
Mas a reciclagem também possui um lado ruim, porque nesse processo são utilizados produtos tóxicos que, geralmente, não possuem lugar adequado para ficar depois da utilização, e isso pode resultar na poluição das águas, tornando impróprio seu uso e destruindo o ecossistema marinho.
Cada texto lido traz uma emoção diferente sobre a preocupação que já ocupa o cotidiano dessas crianças e adolescentes.
Narrando um pouco da experiência desse trabalho em uma turma de Classe de Alfabetização, foi possível perceber que as reflexões e discussões realizadas em sala de aula tinham continuidade no espaço-tempo da casa daquelas crianças. Certo dia, ao conversarmos sobre a necessidade de preservação da água, um estudante de 6 anos comenta que, na sua casa, seu pai tem o hábito de ligar o chuveiro e ir fazer outras coisas enquanto a água (aquecida à gás) esquenta. Continuando ele afirma que, agora que já aprendeu o quanto é necessário preservar a água para sobrevivermos, vai até o banheiro e desliga o chuveiro. A criança completa esse diálogo dizendo que não se pode desperdiçar água.
Conhecimentos como esses, que são construídos a partir das rodas realizadas em sala de aula e que têm por objetivo principal o estímulo à formação de leitores são imprescindíveis, não apenas para o saber escolar de que vão se apropriando, mas também para a construção da leitura de mundo a que fizemos referência anteriormente.
Esses estudantes aprenderam que o cuidado que a humanidade precisa ter com a água é muito maior que, somente, fechar o chuveiro que se encontra aberto desnecessariamente. Aprenderam que a água é essencial para a continuidade da vida no planeta Terra. Aprenderam, cantaram e produziram outros textos a partir de músicas, poesias, textos jornalísticos e de literatura infanto-juvenil, aulas-passeio, etc. Na história que compõe o livro a que fazemos referência, eles ensinam e aprendem como cuidar mais da água, como se pode observar:
O rio estava sujinho porque as pessoas jogavam muito lixo na água. Elas jogavam latas, papéis, garrafas, cocos, pneus, sacos de biscoito, vidros, plásticos. Além disso, o esgoto sem ser tratado ia para esse rio e ficava um cheiro ruim. Por isso, o rio foi ficando cada vez mais sujo e a vida por lá foi acabando.
(...)
Se a gente não cuidar da água, os nossos filhos não vão poder nascer e viver.
Todos nós sabemos que a água é fonte de vida!
Com isso, tecem outros fios estabelecendo, desde os primeiros anos das séries iniciais, uma compreensão ecossistêmica e, também, uma visão crítica do que é preciso fazer para, efetivamente, contribuir com a melhoria das condições de vida no Planeta.
A partir do contato com a leitura das histórias que compõem o livro, percebemos que cuidar do meio ambiente é uma necessidade presente em cada um dos textos dos nossos escritores e que se complementam pelas produções das/nas diferentes séries. Assim vão sendo evidenciadas, também, as contradições sociais e culturais:
Precisamos tomar algumas medidas: ao escrever numa folha de papel, aproveite os dois lados, pois as folhas saem da árvore e estragando uma folha, estamos estragando uma árvore.
Os alunos de uma turma de 3a série, por sua vez, dizem: “O homem constrói e destrói ao mesmo tempo. Como pode isso? É fácil, ele desmata para construir coisas modernas”.
Retrata-se neste texto uma visão paradoxal que evidencia as contradições sociais e culturais existentes no “mundo” consumista não sustentável. Sob esse ponto de vista, há que se ter cuidado nas discussões sócio-ambientais para não se produzir o ser humano que, por detrás do “dever” de ser “ecologicamente correto”, provoca uma ação consumidora exacerbada.
Concordamos com Silva (2003), ao afirmar que:
devemos, desde já, esclarecer que nosso posicionamento é amplamente favorável às discussões sócio-ambientais e à constituição de uma ética ambiental que sejam, ao mesmo tempo, uma utopia e uma “cultura”, examinando as condutas destrutivas e predatórias das sociedades industriais e pós-industriais, abrindo espaço para concepções preservadoras e preventivas que possibilitem repensar os usos e costumes da modernidade e seus impactos nas vidas humanas e ambientais.
Esses usos e costumes, bem como seus impactos na sociedade atual estão apresentados nas variadas produções que mostram a riqueza do trabalho com diferentes tipos de textos. Do literário ao folheto, com toda a diversidade de informações.
Mas não podemos esquecer que apenas 3% da água do mundo é doce e menos de 3% da água da Terra é potável.
(...)
As pessoas desperdiçam muita água e acabam prejudicando o meio ambiente. Você sabia que uma pessoa viveria bem com quarenta litros de água por dia? Mas pesquisas mostram que as pessoas gastam em média duzentos litros de água diariamente e desse jeito ela vai acabar, pois a água não é infinita.
E permite-nos, ainda, reconhecer que:
o homem realiza ações a fim de suprir as condições necessárias à manutenção da espécie. Ele necessita aprender a natureza a fim de apreendê-la. Deste modo, a relação entre o homem e o seu entorno é um processo sempre renovado que tanto modifica o homem quanto a natureza. É, a todo tempo, uma múltipla modificação entre ambos e por ambos (SILVA, 2003).
Retomando a reflexão acerca da leitura e da produção escrita, faz-se mister ressaltar que os textos citados aqui corroboram com a “idéia” do quanto a leitura precisa ter sentido; significado para os estudantes. Essa leitura com sentido precisa estar presente nas séries iniciais, desde a Classe de Alfabetização, momento em que os sujeitos estão se apropriando dos usos possíveis do ler e do escrever para ir além...
É dessa concepção de alfabetização que nos apropriamos. Entendemos como sujeito alfabetizado aquele que, além de ler e escrever, faz uso social dessa leitura e escrita, a partir do seu envolvimento nas diversas e enriquecedoras práticas sociais e seu uso cotidiano, visto que já se apropriou das tecnologias necessárias para ler e escrever (SOARES, 2003).
Dessa forma, estamos valorizando a busca pela leitura com sentido, que nos causa prazer. Assim como valorizamos escrever para o outro sobre aquilo que por ser significativo e ter sentido para nós, também nos dá prazer.
DOS SENTIDOS DA ESCRITA ÀS PRÁTICAS AMBIENTAIS SUSTENTÁVEIS

Kostrowichi (1988) atentava que, qualquer que seja nosso pensamento sobre os problemas sócio-ambientais, devemos ter em mente, sempre, que estes problemas são, antes de tudo, sociais. Nesse sentido faz-se mister, por um lado, o conhecimento das fontes psicológicas de avaliação relacionadas ao ambiente, aos hábitos culturais, à receptividade, à informação, e de outro, às motivações biológicas das escolhas.
O conhecimento das bases psico-fisiológicas tem um papel particularmente importante no estudo dos problemas ambientais. Sem integrarmos os aspectos psicológicos e sociais no modelo de compreensão e “otimização” do meio, nos arriscamos a construir ou propor soluções e mudanças que, embora sejam plenamente justificáveis do ponto de vista científico, serão recebidas “friamente” ou mesmo tratadas como “desumanas” e, por conseqüência, não serão aceitas pela sociedade. Esta visão aproxima-se da elaborada por Guattari (1990), para quem é essencial que se organizem novas práticas micro-políticas e micro-sociais, novas solidariedades, uma nova suavidade, juntamente com novas práticas estéticas e novas práticas analíticas das formações do inconsciente. Certeau (1994) chama a atenção, para a necessidade de serem pensadas todas essas práticas até aqui tão negadas pela própria epistemologia da ciência e, aprofunda ao afirmar que :
Cada vez mais coagido e sempre menos envolvido por esses amplos enquadramentos, o indivíduo se destaca deles sem poder escapar-lhes, e só lhe resta a astúcia no relacionamento com eles, “dar golpes”, encontrar na megalópole eletrotecnicizada e informatizada a “arte” dos caçadores ou dos rurícolas antigos. A atomização do tecido social dá hoje uma pertinência política a questão do sujeito. Comprovam-no os sintomas que são as ações individuais, as operações locais e até formações ecológicas pelas quais se preocupa, no entanto, de modo prioritário, a vontade de administrar coletivamente as relações com o meio ambiente (CERTEAU, 1994, p.52).

O conceito de sustentabilidade, por sua vez, é visto como um ponto central na discussão sócio-ambiental. Por ele se interpretam propriedades e atributos dos diferentes sistemas ambientais que compreendem a capacidade de funcionamento, de produção e de renovabilidade de suas características críticas. Como apontara Rodríguez (1997), desenvolver a sustentabilidade é um requisito imprescindível em todo processo de desenvolvimento que incorpore a dimensão ambiental com qualidade, como parâmetro de partida. Para Alva (1997, p. 60-61) “a sustentabilidade pode ser entendida como um conceito ecológico – isto é, como a capacidade que tem um ecossistema de atender às necessidades das populações que nele vivem – ou como um conceito político que limita o crescimento em função da dotação de recursos naturais, da tecnologia aplicada no uso desses recursos e do nível efetivo de bem-estar da coletividade”.
Concordamos plenamente com Morin & Kern (1996), para quem, as questões são interdependentes no tempo e no espaço, sendo preciso mobilizar o todo. Supera-se a abordagem reducionista que consiste em remeter-se a uma única série de fatores para resolver, a totalidade dos problemas que atravessamos. Isto é menos a solução que o próprio problema. Para estes autores, a fórmula complexa da antropolítica não se limita ao “pensar global, agir local”. Ela se exprime pelo “acasalamento pensar global/agir local, pensar local/agir global”, na verdade, entendida por alguns autores como “as sustentabilidades”, a saber: “a sustentabilidade ecológica, incorporando a exploração dos recursos naturais, os custos ambientais, os subsídios necessários para a urbanização e o planejamento ambiental; a sustentabilidade social, abarcando questões como a pobreza, as desigualdades étnicas, os direitos políticos, a desigualdade regional e os acessos ao emprego, saúde e a educação; a sustentabilidade política, levando em conta a cidadania, problemas culturais, econômicos, sociais e políticos, incluindo os relacionados à instituição política e constitucional das nações e; a sustentabilidade individual, contemplando valores, crenças, ética e desejos ancorados na arqueologia virtual, interna ‘que possibilite a reflexão individual no desenho coletivo’.” (SANTOS & SATO, 2001, p.39).
Nos textos produzidos para o livro “Meio Ambiente” percebemos a presença marcada de algumas dessas “sustentabilidades”.
Numa turma de Classe de Alfabetização, a sustentabilidade ecológica se faz presente quando os autores afirmam: “Temos que saber a hora de pescar os peixes para os filhotes não morrerem nem as mães deles” (2005, p. 23) . A mesma situação, acrescentada da percepção da sustentabilidade política, é explicitada na seguinte afirmação:
O homem está poluindo você, jogando lixo nos rios e nos mares, desmatando florestas, caçando animais sem necessidade e desperdiçando a água que é tão importante para todos os seres vivos. (2005, p. 25).
A sustentabilidade individual – e também a social e ecológica –, por sua vez, apresenta-se na produção da turma 21, da 2a série:
A poluição provocada pelas pessoas e a sujeira dos esgotos podem causar muitas doenças e contaminações nas águas do Brasil. Além de prejudicar a natureza, isso pode matar pessoas inocentes e animais como a raia, os peixes, os tubarões, os golfinhos, os botos, as baleias, os pássaros e os outros animais da Terra.
Precisamos tomar algumas medidas: ao escrever numa folha de papel, aproveite os dois lados, pois as folhas saem da árvore e estragando uma folha, estamos estragando uma árvore; recicle plásticos, garrafas e papel, assim você estará preservando a natureza; o balão é a principal causa de incêndios florestais. As quedas dos balões causam incêndios enormes em montanhas, morros, serras e até em casas. Balões só em festas juninas e em lugar seguro; quando estiver tomando banho, não fique muito tempo no chuveiro, pois a água é um bem da natureza que pode acabar um dia; ao escutar música muito alta, você pode estar poluindo também, pois música alta, além de poluir nossos ouvidos, polui também o meio ambiente; se você tem cachorro, leve sempre um saquinho para limpar o coco, quando levá-lo para passear na rua.
Perceber o impacto a construção da noção de sustentabilidade e dessas práticas, leva-nos a acreditar o quanto vem sendo importante o investimento em ações que levaram (e levam) nossos estudantes a aprender e ensinar nos debates enriquecedores realizados no espaço-tempo da sala de aula e, ainda, nos textos produzidos. Essas situações vividas cotidianamente constituem um dos vieses necessários para que continuemos com o processo “sustentado” de pensar no coletivo as práticas sócio-ambientais necessárias para a construção de uma sociedade mais humana e de uma relação planetária mais ética. Nesse sentido, todas as mudanças que se fazem necessárias só podem se dar no mundo do qual tomamos parte, não apenas como uma criação do espírito, pois ele, o mundo, existe concretamente . É dele que devemos partir para construir outra coisa, ou seja, outro mundo. Um mundo melhor.
Como exemplo da continuidade desse processo “sustentado” ressaltamos a participação do Departamento de Ensino Fundamental do CAp-Uerj na VI Semana Uerj de Meio Ambiente , por meio do concurso de redação. Consideramos que o prazer da escrita do texto para esse concurso foi possível na medida em que continuamos mantendo acesa a chama e o significado da importância da construção do processo sustentável e da busca por relações sócio-ambientais mais éticas.
E enquanto essa chama vai se mantendo acesa, novos fios e novas redes vão sendo tecidas e muitas outras experiências poderão ser contadas...
Dessa forma, continuaremos tecendo e (re)tecendo manhãs que brilham nas diversas manifestações do prazer de ler e de se construir a escrita nos diferentes espaços-tempos do/no CAp-Uerj.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis:Vozes, 1994. 351p.

COLASANTI, Marina. Fragatas para terras distantes. Rio de Janeiro: Record, 2004. 253p.

GUATTARI, T. As três ecologias. Campinas: Papirus, 1990. 56p.

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