Cristiane Salete Florek - Universidade Federal
de Pelotas – UFPEL
O presente trabalho objetiva relatar a experiência
realizada por alunos da área de Letras, visando construir uma nova
prática pedagógica na abordagem de textos em sala de aula.
A metodologia de ensino-aprendizagem baseou-se em produções
textuais com temas e enfoques diferenciados. Posteriormente, através
da seleção e organização de dados e informações,
produziram-se artigos, que foram reunidos e publicados. A aquisição
de parâmetros de correção, contra-argumentação
e análise de textos foi impulsionada pela leitura crítica
e global destes artigos. Para comprovar a eficácia desta metodologia
tanto no ensino superior quanto no ensino fundamental e médio o
projeto foi estendido ao conhecimento de professores e alunos da rede
pública.
INTRODUÇÃO
As habilidades de produção oral e escrita estão intimamente
conectadas a todas as áreas do conhecimento. Notoriamente, no âmbito
educativo, a aquisição e a aplicação destes
domínios aduzem inúmeras carências, que alicerçam
constantes discussões a respeito da eficácia dos métodos
de ensino-aprendizagem utilizados nas aulas de língua materna.
Para transpor esta problemática e quebrar a hegemonia do modelo
tradicional, muitos professores de língua portuguesa têm
buscado subsídios nos postulados metodológicos do socioconstrutivismo
. Nesta perspectiva, o conhecimento é uma elaboração
social em que as informações nunca são absorvidas
diretamente, são sempre influenciadas por significações
sociais e históricas.
Também por este viés, PERRENOUD (2000, p. 20-21) propõe
que a educação comprometida com o desenvolvimento discente
é estruturada pelo contato efetivo entre família e escola
em prol da construção de saberes. O trabalho em equipe e
o comprometimento dos alunos com a própria aprendizagem, em consonância
com a administração séria do progresso educativo
e dos dispositivos de diferenciação consolidam a educação
como um processo cíclico de aprendizagem.
Valendo-se de tais acepções, na atualidade, por meio da
lingüística aplicada a linguagem é entendida como uma
atitude de natureza dialógica (BAHKTIN 1929) que opera em harmonia
com o plano da interlocução efetiva e com o plano do conteúdo.
Em qualquer um de seus níveis – verbal ou escrito –
a linguagem é compreendida como um fato essencialmente social.
Deste modo, na busca de um projeto metodológico coerente com as
novas propostas de análise e produção textual, vimos
relatar uma experiência que ao ser finalizada atingiu com êxito
seus propósitos e, portanto, espera-se que sirva de incentivo a
outros professores da área. Tal projeto transcorreu durante o primeiro
e o segundo semestres de 2004, associado aos conteúdos programáticos
da disciplina de Produção Oral e Escrita I e II, do curso
de Letras da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) .
METODOLOGIA
Adotou-se um método que procura agregar este novo
modelo de abordagem do texto em sala de aula a um pensamento em torno
do processo educativo igualmente inovador. Propomos que a construção
do conhecimento se dá em níveis, partindo sempre do indivíduo,
que a cada etapa se modifica: instruindo-se, desenvolvendo senso crítico
e interagindo com a sociedade.
Desta forma, cada etapa da metodologia possui um correspondente dentro
desta visão de ensino. Uma vez que, entendemos educação
como um ato social, adotamos igual concepção para o trabalho
com a produção oral e escrita em sala de aula. Assim, o
texto é construído sob a confluência de quatro competências
elementares:
- competência lingüística;
- competência textual;
- competência discursiva;
- competência organizacional.
Partimos da produção livre, ancorada apenas no que se denominou
bibliografia vivencial , ou seja, o conhecimento empírico do educando
para dar conta da competência discursiva. Seguindo o postulado de
BAHKTIN (1929, apud DUCROT 1984), o fenômeno da linguagem humana
é essencialmente dialógico e polifônico, conseqüentemente,
isto faz do texto um emaranhando de vozes diversas que precisam ser organizadas
dentro de um discurso novo de informações novas, viabilizadas
por uma intertextualidade. Para tanto, o avanço da prática
discursiva à prática textual efetivou-se a partir de coleta
bibliográfica e subseqüente elaboração de um
artigo.
A aquisição dos parâmetros lingüísticos
suficientes para consolidar o discurso – já organizado textualmente
– dentro dos padrões formais foi provocada por exercício
prolongado de leitura crítica. Com o propósito de retornar
à sociedade o trabalho cunhado através dela e avaliar a
eficácia desta proposta no confronto com o sistema educacional
adverso de nossas instituições de ensino, estendemos o projeto
à rede pública. Uma vez que, o mesmo atingiu em nível
superior cerca de 140 graduandos e que dependíamos exclusivamente
do acolhimento e da disponibilidade das escolas, pode-se afirmar que boa
parte do ensino fundamental e médio de Pelotas teve conhecimento
de nossa proposta.
Para melhor ilustrar a conexão intrínseca desta metodologia
com uma concepção diferencial do processo educativo, propomos
o quadro a seguir:
É importante ressaltar que tanto a perspectiva
de educação quanto de produção oral e escrita
adotadas partem e culminam no aluno (eu) que está em constante
evolução dentro de um processo, sem termo, de aquisição
cognitiva. O eu que deu início ao projeto não é o
mesmo que dá cabo ao primeiro ciclo. Após esta etapa ele
está acrescido de novos conhecimentos e habilidades. Isto, porém,
não significa que está completo, apenas mais experiente.
Basta que o ciclo seja novamente ativado e o eu reassumirá sua
posição inicial no interior do processo.
A EXPERIÊNCIA PROPRIAMENTE DITA
Na primeira aula de Produção Oral e Escrita recebemos um
caderno brochura simples (denominado Caderno Lala), que nos acompanhou
por boa parte do semestre e no qual produzimos quinze textos:
1 - O que é um texto para mim? (em torno de reflexões individuais);
2 - Meus pimentões. (tomando uma fotografia de pimentões
como referência);
3 - Formação profissional / mercado de trabalho / eu (produção
subjetiva em torno da avaliação de gravuras retiradas de
revistas);
4 - Elaboração de carta (a partir de rótulos de embalagens
– destinatário livre);
5 - Desenvolvimento de descrição (a partir de charge de
jornal);
6 - O que é sentido? (considerando as próprias experiências
vivenciais);
7 - O que é leitura? (considerando as próprias experiências
de leitura);
8 - Tema/foco (delimitados sobre análise de reportagem de jornal);
9 - Como desenvolver o hábito da leitura? (partindo da opinião
própria);
10 - O que é argumentar? (tomando a bibliografia vivencial);
11 - O que é ironia? (discussão sobre marca encontrada em
texto jornalístico);
12 - O que é ser um leitor crítico? (com base na bibliografia
vivencial);
13- Contra argumentação (partindo de um texto jornalístico);
14 - O que é estilo em um texto? (tomando como referencia a bibliografia
vivencial);
15 -Adequação de linguagem (com base em análise de
texto de uma cartilha informativa do TCE – Tribunal de Contas do
Estado – distribuída às escolas de rede pública
do RS).
A autonomia lingüística e estrutural foi predominante nesta
etapa. Em momento algum focalizamos o trabalho em teorias ou normas de
aquisição da competência escrita. Apenas, a partir
da quarta produção textual, entramos em contato com um roteiro
de questionamentos possíveis de ocorrer no ato discursivo (denominado
“Os seis mandamentos”) :
- o que tenho a dizer?
- por que preciso dizê-lo?
- a quem pretendo dizê-lo?
- quais são as minhas relações sociais com esse(s)
interlocutor(es)?
- que reações/comportamentos pretendo provocar em meu(s)
interlocutor(es)?
- onde e quando esse texto ocorre?
Na segunda etapa da metodologia, com o propósito de transpor o
entendimento do texto como mero produto e tomá-lo como processo
contínuo, sempre passível de gerar novos conhecimentos,
fomos sugestionados a escrever um artigo, desconstruindo a idéia
de que o texto se articula em torno da forma. De maneira simples, comparamos
a produção textual à receita de um bolo (denominamos
esta etapa, justamente, de receita do bolo de banana), em que:
- ingredientes básicos: são os questionamentos que o ato
discursivo procura responder (os seis mandamentos);
- especiarias: é o tema sobre o qual o texto trata;
- insumos e ferramentas: coletânea bibliográfica em torno
do tema.
Neste ponto concentra-se um dos diferenciais basilares da metodologia.
Enquanto no modelo tradicional seguem-se rigorosamente estes elementos
em ordem progressiva, em nossa abordagem utilizamo-os de maneira inversa.
Iniciamos o texto à volta da coletânea bibliográfica
incitada pelo tema, para então darmos conta dos questionamentos
que a transmissão plena de informação procura solucionar.
Assim sendo, em senso comum, estabelecemos o tema gerador de nossos artigos:
a educação. Partindo da concepção de pesquisa
como diálogo inteligente e crítico com a realidade (DEMO,
2001- p. 10), buscamos selecionar uma coletânea bibliográfica
vinculada ao tema. Na prática, constatamos que a produção
escrita requer a organização de várias vozes, ou
isotopias dentro de um esquema estrutural harmônico e coerente,
encontramos na retroalimentação o meio para selecionar o
material coletado e dar forma ao artigo.
A proposta de retroalimentação parte do princípio
de troca mútua, em que um indivíduo alimenta o outro, portanto,
cada aluno partilhou com a turma o material coletado e a focalização
escolhida para desenvolver o tema. A partir da focalização
adotada pelo aluno esboçava-se um esquema de tópicos em
que as principais idéias, discussões e polêmicas provocadas
pela busca bibliográfica eram organizadas e interligadas dentro
do plano do discurso. Esta fase, com muita propriedade, foi chamada de
sopão. E, realmente, era como se fôssemos à cozinha
e, entre frutas, cereais, verduras e legumes, tivéssemos que optar
por aquilo de mais apropriado para fazer uma sopa. Para definir o sabor,
bastava selecionar um ingrediente em maior quantidade e combiná-lo
com os demais.
A escrita efetiva do artigo foi individual, alicerçada no esboço
resultante do sopão. Desta maneira, com todas as marcas de um texto
experimental, os artigos vieram a compor publicações intituladas
Veracidade em Letras .
Empregando um exercício de leitura crítica, todos os artigos
foram lidos dentro de um programa de trocas – caudatário
da retroalimentação – em que cada aluno-autor passou
a ser também aluno-avaliador. A sistemática dos selos (nome
designado a esta etapa) propunha que a cada artigo poder-se-ia encaminhar,
no máximo, três observações versando sobre
a ordem lingüística, discursiva ou estrutural . Como leitores
críticos, avaliadores e avaliados tomamos consciência de
alguns critérios que necessariamente devem constar em um texto
que tenha a intenção de transmitir informação,
o que, aliás, configura o texto como uma atividade efetivamente
verbal e não formal.
Produzir selos provocou o que PAULO FREIRE (1997) chama de construção
do conhecimento. Por certo que não dominávamos eximiamente
todos os parâmetros de escrita, mas através da leitura crítica
sabíamos identificar falhas e a partir delas buscar o aparato teórico
capaz de esclarecê-las metalinguísticamente.
Para consignarmos a qualidade metodológica da proposta, fez-se
indispensável estendê-la a outros níveis de ensino.
Levamos a edição do Veracidade às escolas da rede
pública e coletamos produções textuais destes alunos
em torno da leitura que fizeram de nossos artigos. Esta etapa visou, além
de avançar nossa posição de alunos-avaliadores à
alunos-professores, avaliar efetivamente as condições em
que a abordagem da leitura e da produção textual se desencadeia
em sala de aula. Trabalhamos com as produções dos alunos
pautados na produção de selos, comparando as deficiências
encontradas nestes textos às encontradas nos nossos.
Assim, fecha-se o primeiro circuito de nossa proposta, que é cíclica
e, portanto não tem fim: por meio de um intercâmbio social.
Primeiramente, em uma relação professor – aluno, passando
pela relação indivíduo – grupo e finalmente
indivíduo – sociedade. Além de estabelecermos o texto
como um processo, procuramos situá-lo dentro de uma visão
em que a educação também é concebida como
tal.
CONCLUSÃO
A circulação de propostas metodológicas ligadas às
novas políticas educacionais dentro do espaço escolar confirma
que o ensino instituído em nossas escolas não é alienado
e anacrônico como costumeiramente supõe-se. Ocorre que dificilmente
há um método e um sistema suficientemente sólidos
e coerentes que lhes sustentem. Dessa forma, o desejo constante de construir
uma linha de pensamento produtiva e qualitativa para o ensino de língua
materna (em que a produção textual e a leitura são
fundamentalmente importantes) carece de articulação gradativa
e sistemática dos postulados metodológicos que, embora existam,
se encontram desconectados dentro das diversas vertentes que circundam
o rol educacional.
Esta proposta procura dar conta deste fato. Trata-se de extrair da prática
de ensino-aprendizagem a sua qualidade política , isto é,
reconhecer que a educação impreterivelmente é um
fenômeno de cidadania e que da sua qualidade depende o nível
democrático de uma nação inteira. Assim, a produção
oral e escrita em sala de aula nos propiciou aplicar um método
que seguisse a visão construtivista do ensino e dialógica
da linguagem, num entrelaçamento homogêneo e congruente.
Como aluna e futura docente, relato e afirmo os resultados positivos deste
método, usufruindo reflexos próprios, o que é inegavelmente
um privilégio. As reações de satisfação
e consciência de que este não foi um trabalho despropositado
e vago são gerais nas turmas por ele atingidas. Despertamos para
algo muito importante que é o senso de comprometimento profissional
e, quanto ao ensino de produção oral e escrita, agora sabemos
que é bem fácil e eficaz quando aplicado como processo subjacente
ao processo educativo.
Nas escolas atingidas pelo Veracidade em Letras , os resultados e o envolvimento
com a idéia são ainda muito esparsos, ratificando nossa
posição de que existe uma relutância na aceitação
de modelos que desestabilizem e questionem o padrão historicamente
instituído de ensino. Será preciso que muitos textos visando
exclusivamente estética de mercado, forma e competição
sejam escritos até que professores mais esclarecidos e engajados
com o processo de ensino-aprendizagem sobrepujem esta situação
castradora. Somos, portanto, alguns que em uma lentidão aritmética,
mudamos nosso comportamento para buscar espaço e adeptos que queiram
construir um ensino que prepare cidadãos conscientes, tanto de
seu poder cognitivo quanto social. Sujeitos que construam a partir do
conhecimento um novo eu.
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