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PREFÁCIOS E DEDICATÓRIAS IMPRESSAS: CERIMÔNIAS DE APROPRIAÇÃO
DAS OBRAS DE ANTÔNIO ALVAREZ PARADA
Larissa Frossard* - UERJ Este estudo
pretende fazer uma análise dos elementos intermediários
que compõem as obras de um professor e escritor macaense que contribuiu
intensamente para a construção da memória da cidade
de Macaé. Antônio Alvarez Parada era professor. Conhecido
carinhosamente por todos como professor Tonito, era macaense, nascido
em 27 de dezembro de 1926. Lecionou química, física, espanhol
e matemática no Ginásio Macaense, no Colégio Estadual
Luiz Reid e no SENAI, onde também foi diretor. Recebeu a medalha
do Mérito Municipal de Macaé e título de Benemérito
do Estado do Rio de Janeiro. Foi membro fundador da Academia Macaense
de Letras. Primogênito de imigrantes espanhóis que se instalaram
na cidade através de atividade comercial e se integraram à
sociedade macaense, teve um papel importante no que se refere às
pesquisas históricas de Macaé. É pois, na atividade
de pesquisador que tem início a publicação da maior
parte de suas obras, já que apenas um de seus seis livros publicados
em vida não faz referência à cidade . TONITO: UM AUTOR LOCALISTA Paulo Knauss (2004) , em trabalho recente sobre Macaé , oferece leituras múltiplas da história desta cidade, por meio dos vestígios do passado da sociedade local. O livro é uma coleção de imagens, de documentos variados, acompanhados de pequenos textos que se apropriam de trabalhos de escritores da cidade, como Tonito, no sentido de tomar como análise a construção da memória coletiva e o desenvolvimento do processo histórico de Macaé. Antônio Alvarez Parada tem sido considerado por pesquisadores macaenses como um dos mais importantes escritores da cidade: “No campo da literatura, o município de Macaé tem produzido escritores de renome – Godofredo Tinoco, Antônio Parada, Alberto Figueiredo Pimentel, entre outros (KNAUSS, 2004, p.117)”. Ressalta ainda que Tonito se distinguia no cenário intelectual por sua produção memorialística: Um outro importante suporte de identidade de uma comunidade é a produção de seus memorialistas. O processo de construção de identidade desta cidade e de seus habitantes deve muito a alguns de seus ilustres escritores. Os nomes de Godofredo Tinoco e Antônio Alvarez Parada se destacam na historiografia da cidade de Macaé. (...) Durante toda as suas vidas de cidadãos, estes escritores e construtores da memória local, produzem registros diversos – depoimentos, artigos de jornais, livros, ensaios – sobre acontecimentos e práticas sociais do passado da região, contribuindo para a constituição de um acervo precioso da memória local. A imagem nostálgica de Macaé como um balneário tranqüilo é elaborada, por exemplo, através dos escritos de Antônio Alvarez Parada. A memória de um tempo que não volta mais eternizou-se através de sua pena, indicando pistas para que seus conterrâneos de hoje demarquem as suas identidades a partir do confronto com a Macaé das plataformas de petróleo, sintonizada com os dois lados do progresso (KNAUSS e GABRIEL, 2004, p.121). O livro pode
ser considerado, de acordo com Pierre Nora (1977), como um lugar de memória
já que se constitui num suporte físico da memória.
Assim são compreendidos os livros de Antônio Alvarez Parada
pois desempenham a função explícita de apresentar
aos leitores uma dada noção do que foi a história
de Macaé, representando a cultura, a geografia, a economia, enfim
a história da cidade, contribuindo no espaço intelectual
da sociedade macaense para a produção de uma memória
local. O primeiro amor é a sala de aula. Onde ganhei e ganho a vida. Amando como somente pode ser amado quem nos ama ainda mais. (...) O segundo amor é Macaé. Amor sem freios, sem medidas. Amor de admiração. Amor de filho. Amor de gratidão (...) O terceiro amor, os que me conhecem sabem quem é. Amor primeiro e único. Amor, amor. Não necessito citá-lo. Ele está em mim e isso me basta. Fazendo uma
análise da trilogia amorosa de Tonito encontramos em primeiro lugar
a sala de aula, espaço destinado a sua principal atividade profissional:
professor, iniciada em 1950 quando descobriu, ao aceitar um convite do
professor Miguel Ângelo, do antigo Ginásio Macaense, para
lecionar química e física, que esta seria a carreira que
desejaria seguir. Macaé segue a ordem sendo o motor que fará
com que desenvolva outras dimensões de sua trajetória: de
pesquisador, escritor, jornalista e historiador . A dedicação
à escrita e, conseqüentemente a produção de
suas obras é resultado desta admiração pela cidade.
Exemplo disso pode ser observado através de seus livros, pois todos
têm o nome Macaé compondo seus títulos e expressam
sua paixão pela cidade. Maria Bernadete Almeida Castro Alvarez,
a Detinha, completa a trilogia, como amor primeiro e único, sendo
sua companheira durante, aproximadamente, 40 anos de convivência.
Hoje ela é a guardiã de seu arquivo pessoal: o seu escritório. CAPA: PRIMEIRO CONVITE À LEITURA A capa de
um livro sugere um sentido prévio à leitura de um texto.
Em sua maioria, é composta pelo título e nome do autor,
podendo ter outros elementos, como subtítulos, ilustrações,
nome da editora, data de publicação, edição,
entre outros. As imagens
que estampam as capas dos livros podem ser decifradas como um conjunto
de signos, como um suporte para representações ideológicas;
a linguagem dos títulos aguça a imaginação
e faz pensar em seu conteúdo, e a linguagem das disposições
tipográficas pode dar uma organização mais ou menos
clara à leitura. Isso nunca escapa aos leitores... (p. 51)
Coisas e
Gente da Velha Macaé (1958), seu primeiro livro, tem como autor
de capa João Paulo Cantuária que utilizou as cores preta
e vermelha, no fundo branco, para brincar com as letras, traçar
retas e desenhar em torno do título. As imagens são diversas
e representam personagens como escravos e heróis da história,
jornais, igreja, entre outros. O próprio desenho do jornal, com
o nome O Século nos remete uma das fontes que o autor utilizou
para produzir seus escritos. Os jornais
dos séculos XVIII e XIX são suas principais fontes de pesquisa,
como O Século, O Autonomista, O Regenerador, O Rebate, O Jornal
de Macahé, O Constitucional, O Telegrapho, O Monitor Macaense,
além de obras como de Antão Vasconcellos, Jean de Léry,
Alberto Lamego, Auguste de Saint-Hilaire e Gil de Mantuá.
Meu nome, crianças, é Macaé (1983), última obra publicada em vida, destinada às crianças, como já indica o próprio título, não traz informações explícitas sobre quem desenhou a capa. Porém, no canto inferior direito da capa, verticalmente, pode-se ler uma assinatura que tudo indica ser de José Cláudio.
É uma capa bastante colorida onde no centro, um desenho que sugere a imagem de Macaé associada aos elementos naturais,
rodeado por imagens que caracterizam momentos distintos da história
desta cidade. A representação, através de desenhos,
de figuras diversas em volta de uma natureza paradisíaca parece
estar ligada a uma necessidade de apresentar muitas das mudanças
importantes pelas quais a cidade passou. O porta-retrato no centro, com
a imagem colorida sobreposta a um fundo acinzentado, reforça a
intenção de apresentar a cidade de forma nostálgica.
Em volta dele, imagens tricolores que trazem a história (bustos,
trem a vapor, caravela, padre, carta, etc).
Vários
são os textos que têm a função de apresentar
o livro aos leitores: os prefácios do próprio autor ou de
um crítico; as orelhas, contracapas ou badanas; frontispícios
ou introduções; prólogos; posfácios; notas,
apêndices ou anexos; informações bibliográficas
ou quaisquer outros sinais que mantenham relação com o livro.
Suas funções são múltiplas e podem influenciar
a recepção do texto, ou seja, são mediadores entre
o leitor e o livro. Chartier (apud CUNHA, 1999, p. 57) afirma que “qualquer
compreensão de um texto, não importa de que tipo, depende
das formas com as quais se apresenta à leitura”. O que nos
interessa, neste sentido, é entender como as obras de Antônio
Alvarez Parada são apresentadas aos leitores. Não é um livro definitivo e, o que mais importa, ao pretende sê-lo. É mais a conseqüência de um desejo irresistível e incontrolável, qual seja o de levar para o papel, em letras impressas, (...) a respeito do passado de sua terra (...). É finalmente, uma obra modesta com a qual pretende o autor iniciar um ciclo de livros sôbre as coisas macaenses, sempre com um único objetivo: o “conhece-te a ti mesmo”. (1958, p.10) Duas Palavras
obedece ao mesmo espírito que presidiu o anterior: “revelar
aos macaenses, mais ainda, a sua terra, sempre em busca do ‘conhece-te
a ti mesmo’. Desta feita, porém pretendo servir também
àqueles que nos visitam, de quando em vez, fazendo dêste
livro um pretenso guia informativo e turístico” (1963, p.5). O vasto conhecimento histórico de Macaé, acumulado em decênios de pesquisa metódica (...) confere a Antônio Alvarez Parada não só uma agigantada autoridade, mas uma erudição especializada ímpar, colossalmente sólida, variada e profunda, povoada e comprovada em obras que antecedem, em copiosa colaboração jornalística, conferências e cursos tão apreciados em toda Macaé contemporânea. Diante deste verdadeiro enciclopedista de Macaé (...) ao invés de construir (...) um vasto e monumental painel histórico (...) o autor tenha preferido concentrar-se pacientemente, como um miniaturista, nos detalhes desta história, compondo um mosaico (...). A única idealização que não logrou escapar é a que está implícita e evidente em cada crônica, em cada página: o seu espírito localista, o amor a Macaé, causa primeira e final de seu fecundo trabalho. (1980, p. 11-12) E Herivelto
Ferreira do Couto termina o prefácio deixando claro que os macaenses
são devedores por mais esta contribuição cultural
de Antônio Alvarez Parada e que, os leitores, poderão aproveitar
o estilo do autor que temperam “agradavelmente um possível
sabor de viagem entre ruínas” (1980, p.13). (...) Imagem da Macaé Antiga, o sue mais recente trabalho, traz à luz os tempos e imagens perdidas em nossa memória, memória viva, forte e representativa da nossa infância. (...) O livro é um resgate do passado, despertando a nossa responsabilidade social (...). A legenda explicativa em cada foto, detalhando os aspectos históricos, revela a preocupação maior desse homem-professor, pedagogo nato, consciente de seu tempo, da sua atuação como cidadão que participa e faz a história de Macaé (p. 7). Em Meu nome, crianças, é Macaé (1983) , na apresentação, Antônio Alvarez Parada afirma a participação de uma empresa no financiamento da edição da obra: Ele, o livro, surgiu pelo desejo da Petrobrás participar, cada vez mais, da vida de Macaé. É uma forma encontrada por ela – a mais nova macaense – de integrar-se a essa condição. Que esse desejo, e agradeço à Petrobrás fazer-me seu instrumento, possa atingir seu objetivo (p. 5). Interessante
observar que na época da instalação desta empresa,
década de 1970, o autor foi combativo na imprensa, colocando-se
contra à sua instalação. Na década de 1980
sua resistência é vencida, pois a Petrobrás, reconhecendo
nele a importância como pesquisador da história de Macaé,
encomenda esta obra, direcionada para o público infantil. As duas
obras póstumas, Histórias Curtas e Antigas de Macaé
(1995), também tiveram o apoio da empresa para a publicação. Quando um
cidadão, por iniciativa própria, resolve dedicar seu trabalho,
seu tempo, seus conhecimentos, enfim, sua vida, ao registro dos fatos,
acontecimentos e dados históricos, culturais e sociais de sua cidade,
este homem apenas por esta dedicação, merece todo respeito
de seus concidadãos (1995, p. 3). Às vezes, quando ficava debruçado na janela do Bemge, (...) e via o Tonito passar do outro lado da rua, me assomava a convicção de que ali caminhava uma pessoa meio eqüidistante do que se possa imaginar ser um simples e vulgar mortal (...). Ao vê-lo caminhar sentia um certo encanto em ficar olhando aquela figura altiva, mas sem arrogância; despretensiosa, mas sem demonstrar fingida simplicidade; elegante, mas sem a mesmice engalanada e frívola a estufar-se por aí como um bibelô sem rumo. (...) Professor, que sempre se soube ser aqui de nomeada, suas aulas não representavam sinonímia de enfado e aborrecimento, (...) a modéstia sem pré se fez estampar sem sua personalidade. (...) No Senai, extinta escola cuja finalidade era fornecer profissionais para a Estrada de Ferro da Leopoldina, quiseram os fados que ele, de formação clássica pudesse integrar-se perfeitamente ao seu corpo docente (...). Fazia questão de enquadrar-se como simples ferroviário (...). Na Macaé de antigamente (...) Tonito pertencia a essa aristocracia freqüentadora de um fechadíssimo Tênis Clube e que socialmente só se entrosava entre si. Depois de haver, com brilhantismo, cursado o primário no colégio das irmãs Meirelles, (...), foi terminar o ginásio no Salesiano, em Niterói. O Instituto Lafaiete o acolheu em seguida, transferindo-se, com seu fechamento, para o Santo Inácio, (...) Todos aqui em Macaé sabíamos disso; disso dele ser aluno brilhante, especial, atrevendo-lhe um futuro promissor a honrar lá fora a conterraneidade de todos nós. E então aconteceu: Uma estafa intermitente o acometeu, obrigando-o finalmente a voltar aos pagos, interrompendo o que certamente teria sido uma magnífica carreira estudantil como sustentáculo de projetos mais ambiciosos. De repente, comecei a divisar Tonito metido num macacão azul, vendendo combustível num posto de gasolina. (...). Mas, antigamente, em Macaé, quase não existia automóvel... E foi daí que o olho clínico do professor Miguel Ângelo entrou no cenário de sua vida, convidando-o para lecionar no antigo Ginásio Macaense. (...) Mas também não há como descartar as possibilidades bastante óbvias de haver consumado suas diretrizes básicas, (...) , nas extensivas virtudes de detinha, fiel e dedicada companheira (...). Quem há de negar que o carinho, a dedicação, a harmonia ensejada entre os dois não tiveram incisiva participação no ânimo e nas metas alcançadas pelo saudoso professor, conferencista e homem de letras? (...) (1995, p. 5-7). Os revisores em seguida escrevem NOTA EXPLICATIVA sobre algumas das dificuldades encontradas nas transcrições das crônicas e, logo na página seguinte, um ex-aluno, Nelson Mussi Rocha, faz a apresentação da obra com o próprio título do livro, HISTÓRIAS CURTAS E ANTIGAS E MACAÉ, descrevendo pessoas, coisas e fatos abordadas nas crônicas escritas e segue escrevendo: A História de Macaé e Antônio Alvarez Parada, o nosso inesquecível Tonito, se entrelaçam, se condensam, são sinônimos. E podemos afirmar isto, sem sombras de dúvidas, ao conhecer as obras já editadas por este autor, outros trabalhos inéditos, ainda não editados, somam-se na certeza desta afirmação. Nas sua obras, Antônio Alvarez Parada deu aos leitores, e aos macaenses em especial, o privilégio de conhecer a História de Macaé na visão de quem ama realmente a sua terra natal. (...) Curtas e Antigas, apenas adjetivam a grandeza e a atualidade de cada momento, proporcionando aos leitores, especialmente aos da terra, que nas asas da saudade e nas lembranças dos lugares, fatos ou vestígios do tempo e das estórias de seus antepassados, irão reviver e se deslumbrarem entre a fantasia, a lenda, o encantamento e a realidade, o ontem e o hoje. A cada história curta e antiga, o leitor irá trilhando um caminho de informação histórica, popular, em prosa ou verso, criativo e versátil, de linguagem e estilo simples e com clareza, e mais ainda, mil vezes acrescido pela dedicação, pelo amor, pelo bom humor e pela saga de um verdadeiro macaense contador de histórias macaenses (1995, p 9-10). Os textos intermediários que compõem as obras póstumas constroem uma certa apologia a Tonito. Um homem perfeito. Adorado. Professor exemplar. Guardião da história e da memória de Macaé. Será que Tonito, em vida, teve tanto reconhecimento quanto depois de morto? Quando e como essas imagens foram construídas? Como foi manipulada a memória de Tonito após a sua morte? Questões que merecem investigação mas que não serão abordadas neste texto. AGRADECENDO E DEDICANDO... As dedicatórias
também têm relação estreita com os temas abordados
nos livros e se destinaram a pessoas diferentes e, ao que parecem, escolhidas
com muito cuidado. Todas as obras têm dedicatórias impressas. PALAVRAS FINAIS PALAVRAS FINAIS é o título do posfácio presente em ABÊCÊ de Macaé (1963), que é direta ao leitor e foi escolhido para orientar as conclusões provisórias deste trabalho: SE DEPOIS DE TUDO O QUE LEU, VOCÊ SE PERGUNTAR: “– MAS O QUE ÊSSE MOÇO VIU PARA ELOGIAR TANTO A SUA CIDADE? O QUE É, AFINAL, QUE MACAÉ TEM, ASSIM DE ESPECIALMENTE BOM?” A RESPOSTA É UMA SÓ: “ – TEM O MACAENSE”. ÊLE É QUE LHE DÁ GRANDEZA E VALOR, MEU INCOMPREENSÍVEL AMIGO. Neste sentido, podemos afirmar que ser macaense motivava Antônio Alvarez Parada para a atividade da escrita. Escrita esta que o condecora como um importante intelectual na construção e preservação da memória e da identidade da cidade. As dedicatórias impressas, em sua maioria, são dirigidas às pessoas que marcaram a sua trajetória pessoal. As capas sugerem sentidos prévios à leitura dos textos e apresentam uma certa intenção em deixar inscrita a sua forma de pesquisar, correspondendo à significação das obras. Os prefácios, além dos outros textos que compuseram suas obras, evidenciam a sua importância para a sociedade macaense e deixam claras as intenções do autor em fazer, com sutileza, convites à leitura. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CASTILLO
GÓMEZ, Antonio. Historia da cultura escrita. Ideas para el debate.
In: Revista Brasileira de História da Educação. Editora
Autores Associados / SBHE, jan-jul. 2003, n. 5, pp. 93-125. |
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