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EXPERIÊNCIAS DE LEITURA: CAMINHOS POSSÍVEIS DO ENSINAR E DO APRENDER Maria Augusta H. W. Ribeiro [1] Este projeto, Experiências de leitura: caminhos possíveis do ensinar e do aprender, foi desenvolvido em parceria com a Secretaria de Educação do Município de Rio Claro, para professores do Ensino Fundamental I, nos meses de março a dezembro de 2004, com apoio do Núcleo de Ensino/Rio Claro, financiado pela Fundunesp e integra um projeto maior, Quem conta um conto ... aumenta um ponto, com início em 1999, no Departamento de Educação da UNESP/ Campus de Rio Claro e ao qual vêm sendo acoplados outros projetos, diversificados em alguns pontos, mas percorrendo todos o mesmo caminho investigativo - o do ensino/aprendizagem da leitura - e com a mesma base teórica. Preocupadas com essa questão, porque nossos alunos liam apenas para obter informações, na contra-mão do que pensávamos sobre esse ato, abrimos um caminho investigativo para refletirmos sobre o que se nos colocava como um problema. Neste caminho encontramos alguns teóricos dos quais citaremos dois - Jorge Larrosa - que entende a leitura como formação "(...) para que a leitura se resolva em formação é necessário que haja uma relação íntima entre o texto e a subjetividade. E se poderia pensar essa relação como uma experiência ..." (LARROSA, 2002, p. 136) - e Paulo Freire - que a concebe como leitura de mundo "Refiro-me que a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele." (FREIRE, 2003, p. 20) Com base nestes dois teóricos formulamos o projeto aplicado em 2004, com o objetivo geral de fornecer um curso, aos professores, para estudo de textos teóricos sobre a aprendizagem da leitura. Do primeiro, selecionamos A Lição (Larrosa, 2003); de Freire (2003), A importância do ato de ler. Acrescentamos, ainda, de Marisa Lajolo (1993), o texto Tecendo a leitura, no qual a autora complementa as idéias anteriores, entrelaçando esse conceitos numa visão coletiva do ato de ler: o texto lido por mim, leitor, é por sua vez produto da leitura /ou das leituras do autor que leu outros textos lidos por outros autores: Como a manhã, que no poema de João Cabral se perfazia
pelo entrelaçamento do canto de muitos galos, também a leitura, principalmente
a literária, parece constituir-se um tecido ao mesmo tempo individual
e coletivo. Cada leitor, na individualidade de sua vida, vai entrelaçando
o significado pessoal de suas leituras com os vários significados que,
ao longo da história de um texto, este foi acumulando. Cada leitor tem
a história de suas leituras, cada texto, a história das suas. Leitor
maduro é aquele que, em contato com o texto novo, faz convergir para
o significado deste o significado de todos os textos que leu. E, conhecedor
das interpretações que um texto já recebeu, é livre para aceitá-las
ou recusá-las, e capaz de sobrepor a elas a interpretação que nasce
de seu diálogo com o texto. (LAJOLO, 2004, p. 106). Várias
intenções permearam a elaboração deste projeto de intervenção na realidade
das escolas, todas elas, no entanto, voltadas para a questão da leitura
como Freire a viu: “um instrumento para o que Gramsci chamaria de ação
contra-hegemônica” (FREIRE, 2004, p. 21). Compartilhando deste sentido
revolucionário proposto por Freire, temos Larrosa, que discorre sobre
o ato da leitura como parte do processo formador dos sujeitos, pois
“a leitura [...]
tem a ver com aquilo que nos faz ser o que somos” (LARROSA, 2002, p.
134), alertando que a pensar
como formação é pensá-la “como algo que nos forma (ou nos de-forma e
nos trans-forma)” (idem, p. 133). A formação, para Lajolo (2004), amplia-se
do individual para o coletivo, pois a autora coloca que “a história
da literatura de um povo é a história das leituras de que foram objeto
os livros que integram o corpus dessa literatura” (LAJOLO, 2004, p.
107). Com
base no pensamento desses três estudiosos do assunto foi, então, elaborado
o projeto em forma de curso sobre leitura para professores das escolas
da rede municipal de Ensino Fundamental I (1ª a 4ª séries), com carga
horária de 70 horas, com a finalidade específica de discutirmos a leitura
como formação do professor. O curso foi dividido em três blocos. O primeiro, dedicado à figura do professor teve como texto básico A lição; o segundo, dedicado ao ato de ler teve como texto básico o de Paulo Freire; o último, dedicado à tessitura da leitura, baseou-se no texto de Lajolo. Historicamente,
a leitura foi tomando outras proporções, principalmente com o desenvolvimento
da tecnologia, que nos impõe outros tipos de leitura, e não só a tradicional
(papel/leitor). A partir de Gutenberg, tornou-se possível a massificação da leitura, trazendo para o horizonte
dela o risco de alienação, de fracionamento e esgarçamento do significado
do texto e do ato de ler. A atividade de leitura, que, em suas origens,
era individual e reflexiva (em oposição ao caráter coletivo, volátil
e irrecuperável da oralidade de poetas e contadores de histórias), transformou-se
hoje em consumo rápido do texto, em leitura dinâmica que, para ser lucrativa,
tem de envelhecer depressa, gerando constantemente a necessidade de
novos textos (LAJOLO, 2004, p. 105). O
contato do leitor com os livros passa, então, a tornar-se relativamente
frio, distante; o que era instrumento principal para a aquisição de
outros conhecimentos tem-se tornado exercício remoto e até mesmo objeto
estranho da realidade escolar. Objeto estranho, pois, sendo alto o custo
dos livros, não é considerado um bem para todos. Torna-se freqüente
a utilização de cópias reprográficas, dissimulando a idéia de livro,
portanto, dissimulando também a idéia de leitor. O leitor presente hoje
é aquele que não lê as obras em sua totalidade; um leitor econômico
que, às portas da tecnologia e da difusão rápida da informação, não
consegue estabelecer relação nenhuma entre o que lê e sua subjetividade. Atualmente,
é dada à leitura uma conotação própria, formando-nos justamente para
a efemeridade. Na rapidez da circulação das informações, os sujeitos
nem vislumbram mais a possibilidade da existência de um ócio no qual
possam contemplar os fatos ocorridos e ter uma certa inconformidade:
“uma nova forma de miséria surgiu com esse monstruoso desenvolvimento
da técnica, sobrepondo-se ao homem [...]. Porque não é uma renovação
autêntica que está em jogo, e sim uma galvanização” (BENJAMIN, 1987,
p. 115). Outra
intenção, decorrente da primeira, é a sensibilização dos sujeitos para
atos de leitura, resultando em posicionamentos (políticos) geradores
de mudança, pois “es precisamente la actividad creadora del hombre la
que hace de él um ser que contrebuye a crear y que modifica su presente”
(VIGOTSKII, 1987, p. 9). Concebemos,
então, uma proposta de leitura em que os textos, não reproduzidos em
cópias reprográficas, se ofereciam “à nossa inquieta procura” nas páginas
dos livros, numa real possibilidade de resgate de experiências, tornando
significativas essas leituras. Para
tanto, foi requisitado no orçamento do projeto verba para a compra de
vinte exemplares de cada um dos livros para ser fornecido um exemplar
de cada uma das obras aos participantes, durante a realização do curso.
Foram feitos Termos de Compromisso – individuais - assinados por cada
participante no recebimento das obras. Ao final eles foram entregues
à coordenadora que os mantém, em sua sala do Departamento, para uso
coletivo dos professores, em aulas ou reuniões com alunos ou bolsistas. Despontava,
assim, a importância do ato público da leitura, derrubando as paredes
do individualismo exacerbado e possibilitando trocas por meio da leitura
- para que houvesse reconhecimento e um primeiro processo de significação
interna, por parte do leitor – da escuta - para que o leitor, ao ouvir
a leitura – em voz alta – de outrem, “ouvisse” aquilo que o texto dizia
– e da discussão - para que o texto inicial fosse injetado de outras
leituras/escutas. Era preciso ouvir o que os outros tinham a dizer para,
então, considerar esses textos como múltiplos de sentidos, portanto,
de experiências. Assim,
a realização desse projeto atendeu à necessidade de criação de um espaço
social para compartilhar textos que enfocassem a questão da leitura,
pela sua importância na formação do professor, de diferentes formas
– dadas as várias “leituras/escutas” de textos (geradores e gerados)
– possibilitando aos professores-leitores andar pelos vários caminhos
“do ensinar e do aprender” oferecidos. Cabe
aqui, também, reconhecer a importância da leitura emplazada, segundo
Larrosa (2003), aquela que, num ato público, tem a chave magna para
a experiência de leitura, e que utilizamos como metodologia, uma vez
que os textos foram lidos “em público” tal como a “lição”: “a lição
é convocação em torno do texto: congregação de leitores” (LARROSA, 2003,
p. 143). Pensando
na formação desses professores, na articulação universidade-escola,
tão necessária atualmente e na urgência conclamada por vários órgãos
de soluções para as questões da leitura, estabelecemos uma parceria
com a Secretaria Municipal da Educação de Rio Claro, para que tivéssemos
um canal de comunicação mais forte com esse público-alvo. Elaboramos
um folder com informações básicas para a divulgação do curso, contendo
uma pequena introdução ao tema da leitura e especificando os objetivos,
o público-alvo, o número de vagas, a carga-horária, o programa, a forma
de avaliação, a ficha de inscrição, o período e local das inscrições,
a questão dos certificados, o local de realização e telefones para contato.
Além de todas essas informações pertinentes ao curso, também elaboramos
uma questão (“A leitura, para você, é...”), constante da ficha de inscrição,
e que implicitamente continha uma de nossas primeiras inquietações:
qual seria, inicialmente, a visão de leitura desses professores?
Fonte: Projeto Experiências de leitura: caminhos
possíveis do ensinar e do aprender. Org.: GONÇALVES, C., 2005. Recebemos
um total de vinte inscrições. As respostas à questão constante da ficha
de inscrição apresentaram diferentes enfoques. Nós os agrupamos em quatro. Nove
pessoas tomaram a leitura como forma de conhecimento. Neste caso, a
leitura assumia conotação informativa: “a base do conhecimento, sem
ela não há um aprendizado completo”; “a chave que abre as portas do
saber”; “uma possibilidade de conhecer, aprender e aprofundar conhecimentos”;
“um prazer, uma eterna busca de conhecimentos”; etc. Mas, para Larrosa,
...não se reduz, tampouco, a um meio de se conseguir
conhecimentos [...] No segundo caso, a leitura tampouco nos afeta dado
que aquilo que sabemos se mantém exterior a nós. Se lemos para adquirir
conhecimento, depois da leitura sabemos algo que antes não sabíamos,
temos algo que antes não tínhamos, mas nós somos os mesmos que antes,
nada nos modificou. E isso não tem a ver com conhecimento, senão o modo
pelo qual o definimos. (LARROSA, 2002, p. 133-134). Paulo
Freire também trata sobre esta forma de leitura: Em minha andarilhagem pelo mundo, não foram poucas
as vezes em que jovens estudantes me falaram de sua luta às voltas com
extensas bibliografias a serem muito mais ‘devoradas’ do que realmente
lidas ou estudadas. Verdadeiras ‘lições de leitura’ no sentido mais
tradicional desta expressão, a que se achavam submetidos em nome de
sua formação científica e de que deviam prestar contas através do famoso
controle de leitura. Em algumas vezes cheguei mesmo a ler, em relações
bibliográficas, indicações em torno de que páginas deste ou daquele
capítulo de tal ou qual livro deveriam ser lidas: ‘Da página 15 à Duas
pessoas tomaram a leitura como forma de comunicação. As respostas foram:
“um meio de comunicação onde posso obter informações e divertimento,
possibilitando meu desenvolvimento pessoal e profissional” e “uma forma
de comunicação com o mundo”. Para Lajolo, “a própria sociedade de consumo
faz muitos de seus apelos através da linguagem escrita e chega por vezes
a transformar em consumo o ato de ler, os rituais da leitura e o acesso
a ela” (LAJOLO, 2004, p. 106). Uma
pessoa tomou a leitura como diálogo: “uma maneira de interagir entre
o real e o imaginário – ler é ser capaz de extrair de cada história
uma lição, de cada ato um ensinamento, de cada acontecimento um aprendizado”.
Para Zumthor, a recepção decorre do ouvinte (leitor) receber a mensagem
e recriá-la de acordo com as suas expectativas. “A componente fundamental
da ‘recepção’ é assim a ação do ouvinte, recriando, de acordo com seu
próprio uso e suas próprias configurações interiores, o universo significante
que lhe é transmitido” (ZUMTHOR, 1997, p. 241-242). Ou, como para Larrosa, ...o comunicar do texto não é a elaboração do comum,
mas o estabelecimento de um “entre” no que os leitores se separam e
se dispersam de um modo não totalizável, numa relação pluralizadora.
O comunicar do texto, seu ser-em-comum, é o espaçamento que torna possível
o heterogêneo. O texto comum é o texto no qual os leitores participam,
é o texto com-partilhado entre os leitores, o que os leitores com-partem,
o que os parte em comum, o que não se com-parte a não ser como partição
e re-partição (LARROSA, 2003, p. 144). Oito
pessoas tomaram a leitura de diferentes maneiras, sem estar nenhuma
delas relacionada a uma concepção de leitura bem definida: “fundamental”;
“tudo”; “tudo!!!”; “essencial para a qualificação profissional e um
momento de lazer no dia-a-dia”; “entretenimento, prazer, viagem, enfim
voar alto sem sair do chão”; “prazerosa”; “uma porta para a vida, quem
tem um livro nunca está sozinho” e “fundamental, promove o indivíduo
em todos os sentidos, oferece recursos críticos, lúdicos, cognitivos
e pessoais”. Esta
análise inicial foi simplificada e colocada em forma de gráfico, para
ser apresentada aos professores no primeiro dia de realização do curso,
na Secretaria Municipal da Educação de Rio Claro, juntamente com a proposta,
o programa, a metodologia utilizada, o cronograma e a respectiva forma
de avaliação. Tabulamos
as respostas constantes na ficha de inscrição para uma melhor visualização
e retorno aos inscritos. A tabela apresentada aos professores foi a
seguinte:
Fonte: Projeto Experiências
de leitura: caminhos possíveis do ensinar e do aprender. Org.: GONÇALVES,
C., 2005. Foi
apresentada, neste momento, a proposta e o programa aos professores.
Como metodologia, a experiência de leitura como travessia (caminho),
ou seja, “propor a experiência da leitura em comum como um dos jogos
possíveis do ensinar e do aprender” (LARROSA, 2003, p. 139). Para o
desenvolvimento do projeto, foram planejados encontros quinzenais, com
duração média de duas horas, durante os quais foram lidos os diversos
tipos de texto. Os comentários surgidos durante esses encontros foram
anotados pelas estagiárias do projeto num diário de campo, para posterior
análise, além do recolhimento das assinaturas dos participantes num
livro-ata. Apresentamos
a seguir o cronograma dos encontros:
Fonte:
Projeto Experiências de leitura: caminhos possíveis do ensinar e do
aprender. Org.: GONÇALVES, C., 2005. Como
forma de avaliação, os professores elaboraram projetos de leitura com
base nos referenciais teóricos com os quais tomaram contato ao longo
do curso. Ao final do curso foram entregues certificados de participação
para os alunos-professores que cumpriram as exigências formais – elaboração
dos projetos de leitura e mínimo de 75% de presença nas reuniões previstas
no cronograma. Como
a Secretaria Municipal da Educação encontrava-se em fase de mudança
de local, os quatro primeiros encontros ocorreram na sala de reuniões
de seu antigo prédio
[3]
; os demais
encontros ocorreram nas novas instalações do Centro Administrativo Municipal,
no novo prédio da Secretaria Municipal da Educação
[4]
. No
início das atividades, encontravam-se inscritos vinte alunos/professores.
Com o decorrer das atividades, alguns professores deixaram o curso por
motivos diversos. As
reuniões eram sempre permeadas por algo em “comunidade”. Privilegiando
os diversos tipos de textos (teórico, filme, etc), prevalecia no começo
da leitura/discussão o silêncio não tão silencioso, em virtude dos olhares
que se entrecruzavam. “Mas uma conversação que tem também sua face silenciosa,
reflexiva, solitária” (LARROSA, 2003, p. 143). A
maior parte dos comentários era sobre a fala de um dos participantes,
que se encorajava para comentar algo no texto que o despertou. Assim,
os comentários (textos) surgiam sobre um outro comentário (texto) dito
anteriormente, constatando assim a presença marcante da oralidade na
formação dos professores. Para
melhor entendimento, procuraremos aqui fazer uma descrição na medida
do possível completa de uma parte do curso – a primeira etapa. Nela,
tratamos sobre posturas do professor. Colocamos os professores em contato
com um referencial teórico que propõe um novo tipo de postura do professor
frente a atividades de leitura (dentro e fora da sala de aula): o texto
Sobre a lição, de Jorge Larrosa, que propõe a experiência de leitura
como um jogo. Primeiramente,
fizemos um estudo sobre a capa do livro Pedagogia profana: danças, piruetas
e mascaradas, no qual está contido o texto acima citado. Pedimos aos
alunos que descrevessem as sensações que eram despertadas ao tocarem
neste livro. Vários comentários surgiram, seguidos ainda da análise
da capa. A arte da mesma não passa desapercebida. Feita por Jairo Alvarenga
Fonseca traz aos nossos sentidos a imagem de uma tapeçaria datada de
1703 – El majo de la guitarra, Ramón Bayeu, Espanha; a imagem de um
homem tratando seu violão nos levava a pensar qual seria a relação dessa
displicência – contida na imagem – e a questão da leitura, que nos remete
sempre a uma postura séria e regrada. Remetendo-nos
ao título – Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas – perguntamos:
por que a alusão a uma pedagogia profana? Se a imagem da capa nos leva
a ter uma atitude que vai de encontro à maneira que a leitura tem sido
tratada na atualidade, ao título também devemos encaixar o mesmo movimento.
Uma pedagogia profana não pertence ao âmbito do sagrado. Do que trata
o sagrado hoje, no campo da educação? Trataria, talvez, do acesso ao
conhecimento historicamente acumulado pela humanidade? Essa ação, hoje,
abarca somente o aluno enquanto “cabeça”, enquanto “cérebro”; não leva
em conta que o aluno vai à escola de corpo inteiro. A dança é algo que
nos põe em movimento, numa cadência própria. A pirueta é o movimento
de uma coisa em volta de si mesma, num vai-e-vem desenfreado. A mascarada,
segundo o dicionário Houaiss, era um “divertimento de origem italiana,
constituído de cenas ou números alegóricos, mitológicos ou satíricos,
que incluía música polifônica e dança e era representado por personagens
mascarados” (HOUAISS, 2001, p. 1862). Outro significado: “festa em que
se usa máscara; comédia musical”. A mascarada também nos remete a movimento:
o da apropriação do texto. Essas
três palavras que compõem a complementação do título nos remetem a movimento;
logo, percebemos que no campo da leitura, iniciando nosso estudo, não
importa o texto, mas o movimento que ele instaura, desperta... Dispomo-nos
a entrar no movimento do texto Sobre a Lição, condição que Larrosa propõe
para uma real leitura, imbricando-nos a ele. Essa é uma demonstração
de amizade do leitor para com o texto escrito. Larrosa ainda
toca em dois outros pontos-chave para que a experiência da leitura proponha-se
como jogo: o da liberdade - para que a experiência da leitura resulte
em formação é necessário que o leitor também fale junto com o texto,
pois “somente a ruptura do já dito e do dizer como está mandado faz
com que a linguagem fale, deixa-nos falar, deixa-nos pronunciar nossa
própria palavra” (p. 145) - e o da experiência - ou melhor, da experiência
como mudança. E a experiência da leitura, por sua vez, é facilitada
por aquilo que “o texto leva a pensar” (p. 142). Sobre esses três
pontos repousa o ato público da leitura. Porque é só pelo ato público
dela é que há a possibilidade de diálogo entre as pessoas. O ato público
da leitura não se resume apenas a ato, mas abre possibilidades para
uma postura política da leitura. Postura que, por sua vez, abre caminhos
para as várias “escutas” resultantes da leitura comum: Para fora porque o professor pronuncia para si mesmo
e para os demais isso que diz o texto. Para dentro porque o professor
diz o texto com sua própria voz, com sua própria língua, com suas próprias
palavras, e esse redobrar-se do texto faz com que as palavras que o
compõem soem para ele, lhe pareçam ou lhe digam de um modo singular
e próprio. Para os ouvintes, porque o professor diz o texto no interior
de algo que é comum, daquilo que poderíamos chamar de seu “sentido comum”,
aquilo que os ouvintes sentem em comum quando prestam atenção à mesma
coisa e que nada mais é senão a experiência da pluralidade e do infinito
do sentido (LARROSA, 2003, p. 141). Nesse sentido,
a voz emitida vem enquanto movimento, trazendo a atualização do texto
pela voz do leitor. É também um dos elementos preponderantes para que
ocorra a leitura na sala de aula, tratada como lição, porque a disposição
de entrar no texto é acordada pela socialização do ato da leitura. Essas
três escutas soam como o que é, para Zumthor, o ouvinte, o intérprete
e o texto: As peripécias do drama a três que se encena assim entre
o intérprete, o ouvinte e o texto, podem influir de várias maneiras
nas relações mútuas dos dois últimos, adaptando-se ao texto, em alguma
medida, à qualidade do ouvinte (ZUMTHOR, 1997, p. 245). A questão da escuta,
colocada por esses dois autores, implica em um ato de ler, do qual é
decorrente o de ouvir, de ouvir-se e de fazer-se ouvido, tal como o
professor: O professor lê escutando o texto como algo em comum,
comunicado e compartilhado. E lê também escutando a si mesmo e aos outros.
O professor lê escutando o texto, escutando-se a si mesmo enquanto lê,
e escutando o silêncio daqueles com os quais se encontra lendo. A qualidade
da sua leitura dependerá da qualidade dessas três escutas. Porque o
professor empresta sua voz ao texto, e essa voz que ele empresta é também
sua própria voz, e essa voz, agora definitivamente dupla, ressoa como
uma voz comum nos silêncios que a devolvem ao mesmo tempo comunicada,
multiplicada e transformada (LARROSA, 2003, p. 141). Os espaços em
branco entre a leitura e a escuta são múltiplos de sentidos: neles se
pode falar, dialogar “com o texto, ou contra o texto ou a partir do
texto (idem, p. 142). A comunidade em
torno do texto acima proposta, como uma plaza, traz a idéia de conversação,
pois é na unidade (reunião) das diferenças (pessoas) que se ressoam
a multiplicidade (diálogo) do único (texto). Após a leitura
do texto em comum, para que os professores elaborassem os seus projetos
de leitura ao final do curso, previmos no cronograma a apresentação
de alguns projetos já finalizados e/ou Em seguida, houve
uma palestra sobre o autor e o texto estudado – A leitura na proposta
de Larrosa
[6]
. A última atividade
deste bloco foi assistir ao documentário Ser e ter
[7]
, de Nicholas Philibert. O filme discorre sobre a
relação professor-aluno e algumas tensões vividas nessa relação. Na seqüência,
com o Bloco II, o foco foi o ato de ler. Inicialmente, lemos o texto
A importância do ato de ler, de Paulo Freire. Este texto, de importância
já amplamente conhecida, começa com uma explanação do que seria a leitura
de mundo de Freire, em sua infância. Discorre sobre a sua “descoberta
do mundo” pela palavra, atentando para vários aspectos: a politização
do ato de ler; a importância do contexto (quando criança, da linguagem
dos mais velhos); a relação medo/conhecimento; a compreensão errônea
do ato de ler, como se a quantidade de textos lidos correspondesse à
qualidade dessas leituras. Nesses sentidos, a leitura da palavra não
é apenas precedida pela leitura do mundo, mas por uma certa forma de
“escrevê-lo” ou de “reescrevê-lo”, quer dizer, de transformá-lo por
meio de nossa prática consciente. A próxima atividade
foi a apresentação do Projeto Guia de Leitura de Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato
[8]
, um guia de leitura em forma de CD-Rom que privilegia
uma articulação entre obras universais citadas na referente obra de
Lobato, criando, dessa maneira, uma rede de intertextos. Este bloco foi
finalizado com o filme Fahrenheit 451
[9]
, escrito por Ray Bradbury e dirigido por François
Truffaut, que expõe a falta de liberdade do leitor na
escolha dos seus próprios livros. Lembra muito a Inquisição, pelo fato
dos livros serem queimados em praça pública. O último bloco,
III, teve como eixo principal
a tessitura da leitura. Para tanto, lemos o texto Tecendo a leitura,
de Marisa Lajolo. Partindo da imagem
de artesanato que a leitura exige, para Lajolo, entrelaçá-las como fios
transformando-as em tecidos constitui-se numa “matriz metafórica da
leitura”. A leitura precisa ocorrer num espaço de liberdade. Escola
e professor são, talvez, os únicos pontos de ruptura dessa alienação.
É preciso fazer frente ao paternalismo dos órgãos governamentais e empresariais
em suas campanhas de provimento de livros em bibliotecas, escolares
ou não, que ocorrem esporadicamente. Após a atividade
de leitura, houve uma palestra sobre a autora e o texto estudado, O
leitor e o texto
[10]
. Em seguida, houve outra palestra – A elaboração de
projetos como metodologia para o trabalho intelectual
[11]
– na qual os professores receberam orientações mais
técnicas para a elaboração de seus projetos de leitura. A elaboração
desses projetos foi supervisionada pela equipe responsável do curso.
Os professores tiveram vinte horas como atividades extra-classe para
essa construção. Entregues, eles foram avaliados segundo o aporte teórico
utilizado no curso e a coerência das idéias. Tomamos os projetos
de leitura elaborados pelas professoras como reveladores do processo
de escuta, movimentado nas reuniões com o grupo. O Projeto O despertar
para a leitura é um projeto simples, coeso, abrangendo todas as propostas
de leitura discutidas durante o curso. Centra-se na leitura do livro
de Ruth Rocha, O menino que aprendeu a ver (1998). Propõe uma atividade
de leitura com alunos, compartilhada, a qual se desdobra em outras,
tendo como objetivo geral a “formação de leitores para o mundo”. A metodologia
apresentada propõe ações de leitura, além do texto convencional. Embora
aparentemente o projeto contemple os teóricos estudados na elaboração
das atividades percebemos que a professora retoma às antigas práticas
de leitura. Como exemplo, temos a indicação da leitura compartilhada,
que foi feita em todas as sessões de leitura do curso. No entanto, ao
colocá-la como uma das atividades de seu projeto, ela assim se expressa:
“fazer a leitura compartilhada levantando questões de interpretação
e entendimento”. No curso nós não dirigíamos as questões, elas brotavam
de cada participante, indicando os diferentes diálogos produzidos em
cada um. Na proposta da professora esse diálogo é conduzido, não se
pondo “à escuta” da voz dos alunos. Esta postura inviabiliza a própria
proposta feita inicialmente por ela. O que percebemos é a manutenção
do antigo discurso, incorporado, entranhado, que reaparece nas colocações
quando há qualquer movimento de desatenção. O Projeto Poesia,
um convite à leitura com... Cecília Meireles é extenso, com muitas informações
sobre esta poetisa, mas não contém explícito o aporte teórico e a metodologia
proposta não está ligada ao objetivo, que é o de “criar oportunidades
para que o educando se torne um leitor competente da linguagem poética”.
Em seu todo, traz uma proposta de leitura, mas que não contempla os
temas abordados nas reuniões com o grupo. Este projeto, possivelmente,
já se encontrava pronto e foi adequado ao curso. O fato de os teóricos
estudados não estarem contemplados indica a separação entre o que foi
escutado e a elaboração do projeto. Esta é uma postura comum nos professores
que não permitem que a leitura seja vista como um instrumento de “ação
contra-hegemônica”. Dois outros projetos,
um simplesmente denominado “de leitura” e outro, Diálogo com a palavra
escrita não apresentaram nenhuma relação com a proposta do curso, indicando
que as autoras não expressaram na elaboração dos mesmos o aporte teórico
estudado. Embora tivéssemos
pedido que os projetos fossem individuais, duas alunas o fizeram em
dupla: Poesia... um dos caminhos possíveis do ensinar e do aprender.
O projeto enfoca, como o título diz, a leitura de poesias. Na metodologia,
por exemplo, encontramos: “o objetivo é sugerir que as atividades de
leitura propostas aos alunos devam levá-los a observação mais de perto
de procedimentos relevantes para o significado geral do texto, não apenas
no que diz e sim no modo como diz o que diz...” Essa fala nos informa
que as autoras não foram capazes de interiorizar as idéias propostas
por Freire, Larrosa e Lajolo. Esse descompasso
entre o discurso e a prática é constante nos projetos educacionais,
nos quais a teoria encanta, mas a prática nem sempre. Por último, um
projeto que atendeu as nossas expectativas: Leitores em formação, no
qual a primeira ação proposta é a aquisição de livros (Reinações de
Narizinho, de Monteiro Lobato) para os alunos da classe. Esta relação
aluno/livro precisa ser recuperada para que os pequenos leitores valorizem
este suporte. As relações estabelecidas entre a proposta da autora e
os aportes teóricos indicam, para nós, a qualidade da sua escuta: tomou
o lugar de ouvinte (porque levou em conta todas as discussões) e tomou
o lugar de intérprete (porque foi capaz de criar, na escrita, um novo
texto). São exemplos dessa escuta dois trechos que selecionamos de seu
projeto. O primeiro diz respeito ao enfoque dado ao ato de ler: É comum vermos nos planejamentos anuais das escolas de ensino fundamental
objetivos destinados à leitura; porém a metodologia para o desenvolvimento
desses objetivos quase sempre não passa da leitura de textos de livros
didáticos ou até mesmo preparados pelos professores para uma posterior
cobrança. Não se valoriza a leitura pelo prazer, pelo simples contato
com o livro e as reflexões que se estabelecem a partir da leitura. Partindo
dessa concepção de Larrosa, este projeto pretende avançar para além
desse paradigma”. Em um momento
em que há um interesse, até governamental, voltado para as questões
da leitura, este interesse não parece mover tanto as pessoas, pois no
início do curso contávamos com vinte professores e até com outras pessoas
interessadas REFERÊNCIAS HOUAISS, A.; VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da Língua
Portuguesa, elaborado no Instituto Houaiss
de Lexicografia e Banco de Dados da Língua Portuguesa S/C Ltda. Rio
de Janeiro: Objetiva, 2001. 2925 p., 23x30,5 cm. LAJOLO, M. Tecendo a leitura. In:
Do
mundo da leitura para a leitura do mundo. 2. ed. São Paulo:
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In: Linguagem
e educação depois de Babel (trad. FARINA,
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In: La imaginación y el arte em la infancia. México: Hispánicas, 1987,
p. 7-13. ZUMTHOR, P. Introdução à poesia oral. São Paulo: Hucitec, 1997.
[1]
Coordenadora do Projeto e Professora
Doutora do Departamento de Educação da UNESP/Rio Claro.
[2]
Estagiária do Projeto e aluna
do Curso de Pedagogia da UNESP/Rio Claro.
[3]
Localizado na Avenida 25, n.
148 – Saúde – Rio Claro (SP).
[4]
Localizado na Rua 9, n. 1 –
Alto do Santana – Rio Claro (SP).
[5]
Exposto por Jessé C. Reis,
aluno do Curso de Pedagogia da UNESP/Rio Claro.
[6]
Proferida pela Profª Drª Maria
Rosa R. M. de Camargo, docente do Departamento de Educação da UNESP/Rio
Claro.
[7]
Em cartaz, na época, no Espaço
Unibanco Arteplex,
[8]
Apresentado por Augustinho
Ap. Martins, ex-aluno do Curso de Pedagogia e por Daniel M. D. Entorno,
aluno do Curso de Ecologia, ambos da UNESP/Rio Claro.
[9]
Com comentários do Prof. Dr.
Jorge L. Mialhe, docente do Departamento de Educação da UNESP/Rio
Claro.
[10]
Proferida pelo Prof. Antonio
C. D. Chagas, Coordenador Pedagógico do Ensino Médio da Escola Puríssimo
Coração de Maria,
[11]
Proferida pelo Prof. Dr. Osvaldo
Aulino da Silva, na época, Secretário Geral da UNESP. |
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