Henrique Evaldo Janzen - Universidade Federal
do Paraná - UFPR
O presente trabalho foi elaborado a partir de um recorte
de nossa tese de doutorado intitulada O Ateneu e Jakob von Gunten: Um
diálogo intercultural possível. Nesta pesquisa, propusemos
a aproximação pedagógica-intercultural do romance
de formação da literatura alemã Jakob von Gunten,
de Robert Walser, mediada, com finalidades didáticas, pela leitura
anterior do romance de formação brasileiro O Ateneu, de
Raul Pompéia. Esta aproximação didática, que
visava a construção de sentido do texto literário
alemão, para estudantes brasileiros face deu-se a partir da concepção
bakhtiniana de gêneros discursivos.
O texto “Os Gêneros do Discurso”, que serviu de base
para nosso trabalho, não é uma obra isolada do pensamento
bakhtiniano, pois – apesar de considerado mais “esquemático”
no contexto de produção mais ampla do autor - os conceitos
centrais, como a natureza dialógica do enunciado, o caráter
responsivo dos enunciados (incluindo as obras literárias), a relação
autor/herói, o diálogo dos gêneros (primários/secundários)
e o plurilingüismo social, estão presentes neste texto.
Para Bakhtin, "gêneros de discurso são os enunciados
dos integrantes de uma ou doutra esfera da atividade humana e estas esferas
de utilização da língua elaboram seus tipos relativamente
estáveis de enunciado"(1997: 279). O autor assinala que os
gêneros do discurso organizam nossas falas, pois aprendemos a moldá-las
às formas de gêneros disponíveis, escolhendo uma delas.
Parece-nos importante indicar que, para Bakhtin, as pessoas aprendem a
identificar e utilizar os gêneros de uma maneira “natural”,
como na aprendizagem de uma língua. O autor indica também
a dificuldade que muitas pessoas sentem em certas esferas da comunicação
verbal: “Não é raro o homem que domina perfeitamente
a fala numa esfera da comunicação cultural, sabe fazer uma
explanação, travar uma discussão científica,
intervir a respeito de problemas sociais, calar-se ou intervir de uma
maneira muito desajeitada numa conversa social” (1997:303). Essa
“incompetência”, segundo o autor, não se dá
pela pobreza de vocabulário ou estilo, “mas de uma inexperiência
de dominar os repertórios do gênero da conversa social, de
uma alta de conhecimento a respeito do que é o todo do enunciado”
(1997: 303). Estas pessoas sentem-se desamparadas neste contexto específico
e devido à inexperiência não sabem o momento certo
de tomar a palavra do outro, de começar e terminar no tempo correto.
Bakhtin afirma (didadicamente) que os gêneros discursivos se organizam
em: estrutura composicional, tema (unidade temática) e estilo verbal.
Ressalta que estes três elementos fundem-se no todo do enunciado.
A situação de interlocução associada ao tema
conduz à escolha da estrutura composicional e do estilo verbal
dos gêneros discursivos. O estilo verbal é, ainda segundo
Bakhtin, elaborado pela seleção dos recursos da língua
(recursos lexicais, fraseológicos, gramaticais etc). A seleção
destes recursos lingüísticos adequa-se ao objeto do discurso
e está associada ao pressuposto do fundo aperceptivo do destinatário
do discurso. "É sob uma maior ou menor influência do
destinatário e da sua presumida resposta que o locutor seleciona
todos os recursos lingüísticos de que necessita." (BAKHTIN,
1997: 326).
Brandão, cujo trabalho concentra-se na área da Análise
do Discurso e que estuda a obra de Bakhtin, sintetiza o que entende ser
a função do interlocutor (destinatário) na elaboração
do enunciado, na visão do autor: "Na perspectiva bakhtiniana,
o outro na figura do destinatário se instala no próprio
movimento de produção de texto na medida em que o autor
orienta sua fala tendo em vista o público-alvo selecionado"
(BRANDÃO, 1997: 286). Esta orientação do enunciado
para o público-alvo sofre variações: um discurso
publicitário normalmente visa um determinado público-alvo
e, de acordo com as expectativas (na produção do enunciado),
sofre variações, tendo em vista faixa etária, condição
social, contexto cultural etc.
De acordo com Bakhtin, a formulação axiológica de
nosso enunciado dá-se no terreno do outro. Se tomarmos como exemplo
um enunciado como "o muro de Berlim caiu", o cidadão
alemão, ao comentar o fato com um concidadão, certamente
o fará utilizando uma seleção verbal diferente da
que ele utilizará ao falar com um turista brasileiro. Com um turista,
ele poderá inclusive se negar a comentar o caso ou talvez ser mais
didático, de modo que o discurso poderá estar impregnado
de exagerada benevolência ou de uma visão hierárquica.
A seleção verbal é ideológica, está
associada ao interlocutor e ao tema, está presente em todos os
momentos da elaboração do enunciado. A escolha dos recursos
lexicais, gramaticais e composicionais está também associada
à relação valorativa com o objeto (do discurso) e
à especificidade do gênero, pois, dependendo do gênero,
a palavra/enunciado comporta certa expressão típica (cf.
Bakhtin, 1997).
Desta maneira, o enunciado "Você parece um judeu", do
romance Jakob von Gunten ,carrega uma expressividade própria, por
estar inserido no gênero literário (Bildungsroman) que diverge
da expressividade, por exemplo, do mesmo enunciado em um tratado sociológico.
Semelhantemente, o enunciado “Te ligo amanhã”, quando
retirado do gênero informal do cotidiano, com suas marcas expressivas
específicas, e inserido em um final de romance, se reveste de outras
tonalidades expressivas.
Bakhtin, no mesmo texto, faz uma distinção entre o gênero
de discurso primário (simples) e secundário (complexo).
Segundo o autor, os gêneros secundários (no nosso trabalho,
o texto literário) absorvem e transmutam os gêneros primários.
Estes, ao se transformarem dentro do gênero secundário (literário),
adquirem uma característica particular. Os gêneros primários
(exemplos: réplica do diálogo cotidiano, cartas, anúncios
etc) de uma maneira imediata, sensível e ágil refletem mudanças
na vida social.
Tezza (1996), no texto “O autor e o herói - um roteiro de
leitura”, indica a vinculação entre os gêneros
de uma linguagem romanesca (gênero secundário) e a permanente
troca com a linguagem viva e inacabada da vida cotidiana. De acordo com
Bosi, “as formas são substituídas em função
de novas necessidades e de novas percepções da realidade”
(1992: 111). Os gêneros secundários, como os primários,
não permanecem estáticos, mas estão associados às
mudanças da realidade sócio-cultural.
De modo análogo, entendemos que os gêneros também
sofrem transformações que estão vinculadas às
renovações da realidade social e, no campo da literatura,
a novas possibilidades estéticas. Nesse sentido, o gênero
literário Bildungsroman, por exemplo, não pode ser compreendido
a partir de um esquema fixo e perpetuado por categorias estético-literárias.
Mudanças sociais e históricas provocaram transformações
nas estruturas do Bildungsroman.
Compreendendo que - a partir da realidade social e das novas possibilidades
estético-literárias - os gêneros de discurso são
renovados, sofrendo variantes diversas , consideramos de fundamental importância
assinalar que um texto literário não é produzido
no vazio cultural e, por esta razão, concordamos com Perrone-Moisés
quando indica que "a obra literária nasce sempre de um diálogo
com o grande texto cultural preexistente" (1988: 36).
Nosso objeto de análise neste texto é o gênero discursivo
a ser trabalhado no ensino da literatura - o Bildungsroman. Mais especificamente,
ocupamo-nos da representação literária das instituições
de ensino nas obras O Ateneu, de Raul Pompéia, e Jakob von Gunten,
de Robert Walser. Antes, porém, de analisarmos a estrutura composicional
e os temas presentes nos dois romances apresentamos, de forma resumida,
os elementos centrais dos Bildungsromane.
Em uma primeira leitura da bibliografia que se ocupa dos estudos das obras
literárias do gênero Bildungsroman, percebe-se a flexibilidade
da classificação destes romances. Os elementos que fazem
uma obra ser incluída no gênero Bildungsroman são
bastante flexíveis e variáveis. A fluidez e a diversidade
de abordagens e parâmetros classificatórios que norteiam
a discussão causam esta diversidade. Alguns romances são
classificados como anti-bildungsromane ou percebidos como paródias,
mas, mesmo assim, apontados como pertencentes ao gênero, pois dialogam
com ele.
Segundo Jakobs (1989), alguns autores percebem o Bildungsroman como categoria
constitutiva restrita à época do Goethe. Porém, para
o autor, com o qual concordamos, embora Os anos de aprendizado de Wilhelm
Meister tenha exercido claramente um papel paradigmático na constituição
do Bildungsroman, a definição deste gênero deve permanecer
aberta para que possa ser reelaborada a partir de modificações
históricas pertinentes ao tipo de romance.
No texto “O romance de educação do realismo”,
após apresentar as estruturas narrativas antecessoras do Bildungsroman,
Bakhtin afirma que, por mais divergente que seja a orientação
que envolve o tema “romance de formação”, um
ponto de partida básico como elemento constitutivo do romance de
formação é a idéia do romance do herói
individual.
Semelhantemente para Jakobs, "no centro do romance deve estar a história
da vida de um jovem protagonista que, a partir de enganos e decepções,
procura o equilíbrio com o mundo. Este equilíbrio é
freqüentemente apresentado de uma forma irônica ou reservada"
(1989: 37). O narrador deste gênero, com freqüência,
faz comentários irônicos e aponta os deslizes e enganos do
seu herói, que muitas vezes são percebidos como quixotescos.
Mas, acima de tudo, o romance de formação ocupa-se do herói
em um processo de transformação. Segundo Maas (2000: 62),
citando Jakobs, são características do Bildungsroman: a)
o protagonista deve ter consciência mais ou menos explícita
de que ele próprio percorre não uma seqüência
mais ou menos aleatória de aventuras, mas sim um processo de autodescobrimento
e de orientação no mundo; b) a imagem que o protagonista
tem do objetivo de sua trajetória de vida é, em regra, determinada
por enganos e avaliações equivocadas, devendo ser corrigidas
apenas no transcorrer de seu desenvolvimento; além disso, c) o
protagonista tem como experiências típicas a separação
da casa paterna, a atuação de mentores e de instituições
educacionais, o encontro com a esfera da arte, aventuras eróticas
(mesmo que apenas intelectualizadas), experiência em um campo profissional
e, eventualmente, também contato com a vida pública, política.
A jornada educativa é elaborada num movimento dicotômico:
o contato, as experiências, valores e posturas dos outros são
sequenciados por um certo isolamento no qual o herói procura compreender
as experiências vivenciadas. Estas impressões vêm à
luz muitas vezes por intermédio de cartas endereçadas a
pessoas com uma visão diferente do herói. Assim este demarca
com mais clareza a sua visão de mundo (em elaboração).
Botelho sintetiza a idéia da jornada educativa no romance de formação:
“A "formação" da personagem desenvolve-se
na medida que aumentam sobre ela a influência educativa exercida
por outras personagens geralmente mais "experientes" que encontra
no seu percurso, e na medida que aumenta sua própria experiência
de "interação" com o meio no qual ele se realiza.
Trata-se, no conjunto, do desenvolvimento no indivíduo de algumas
qualidades que sem a intervenção ativa de homens e acasos
jamais floresceriam nele. O sentido da jornada educativa do herói
é a sua reconciliação com a qualidade objetiva, o
qual, por sua vez, torna-se possível apenas quando o divórcio
entre "subjetividade" e "objetividade" torna-se socialmente
consciente”(1998: 24).
A formação do herói passa pela compreensão
do homem e do mundo em uma relação de solidariedade, na
qual o herói não está circunscrito à interioridade,
mas expande-se na interação e no interesse pela sociedade/comunidade.
Para Freitag, “a Bildung não se refere aqui a um simples
desenvolvimento de aptidões e faculdades do herói; a formação
refere-se a um processo de construção e realização
de um Eu em ascensão, esforçado em adquirir consciência
do mundo e de apreendê-lo em sua essência.” (2001: 85).
Cumpre também destacar que os dois romances, diferentemente do
Bildungsroman paradigmático Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister,
foram escritos no final do século XIX (1888 – O Ateneu) e
no começo do século XX (1908 – Jakob von Gunten) e
abordam a educação institucionalizada. Kayser (1970), analisando
a representação literária da escola em sete autores
(seis deles inseridos no período de 1898-1906), indica diferenças
entre as experiências formativas da época do romance de formação
do Bildungsroman escrito por Goethe e as daqueles produzidos na virada
do século. “Para Goethe, Stifter ou Keller, a formação
é um processo de livre desenvolvimento que é limitado apenas
pela vida. Por esta razão, os seus romances podem louvar e glorificar
o poder da formação. Os autores da nova literatura escolar
experimentaram basicamente a educação institucional. Todos
tiveram que, ao contrário de Goethe, sentar diariamente nas cadeiras
escolares e percebiam nisto uma sobrecarga inútil de trabalho diário.
Por esta razão, eles atacam a escola e renegam o ensino”(1970:
2). Os romances de formação alemães da virada do
século (XIX – XX), embora mantenham elementos em comum com
os romances de formação clássicos , apresentam também
novos elementos e dialogam com outra sociedade e também com uma
realidade formativa diferente daquela representada nas obras clássicas.
A partir destas considerações preliminares referentes à
noção bakhtiniana de “gêneros discursivos”
e ao. Bildungsroman, passemos à aproximação pedagógica-intercultural
dos romances Jakob von Gunten e O Ateneu
Visamos, neste trabalho, a aproximação destas obras literárias
pela análise da estrutura composicional e das unidades temáticas,
partindo da obra da literatura brasileira representativa por estar presente
no cânone escolar e próximo da experiência de leitura
do aluno brasileiro. Nesse sentido, procuramos vincular este trabalho
de leitura de uma obra da literatura alemã (Germanística
no Brasil) a uma máxima da didática do ensino da literatura
brasileira para adolescentes apresentada por Bosi: "Temos que aceitar
que o adolescente tem um mundo de experiência mais restrito e que
é preciso começar pelo conhecido, e, depois, aventurar-se
pelo desconhecido" (1992: 103). De forma análoga, mas por
caminhos diversos, o estudante brasileiro de língua alemã
freqüentemente tem um mundo de experiências restrito e necessidades
específicas em relação às obras da literatura
alemã. Por esta razão, a nossa proposta é, como mencionado
anteriormente, estabelecer um paralelo entre as obras O Ateneu e Jakob
von Gunten, partindo do universo cultural-literário brasileiro
, para posterior análise do romance Jakob von Gunten, vinculando
ambos os romances a um chão discursivo comum (cf. Perrone-Moisés,
1988).
A partir, portanto, da semelhança na estrutura composicional e
das proximidades temáticas, elaboraremos aproximações
possíveis entre O Ateneu e JvG, objetivando minimizar os estranhamentos
por parte do estudante brasileiro face ao romance alemão. Procuramos,
assim, enriquecer a recepção da obra JvG com novos elementos,
possibilitando uma efetiva visão exotópica, consequentemente
intercultural, do romance alemão.
Um elemento central e recorrente, constitutivo da estrutura composicional
do Bildungsroman, é a saída de casa efetuada pelo menino/adolescente.
Esta viabiliza a tentativa de libertação do mundo infantil
através de uma educação pedagógico-institucional
e de uma formação sentimental do herói em uma jornada
marcada por ritos de passagem. Seria, como aponta Nitschack (1995), a
busca por um novo mundo com novas codificações (neue Welt
- neue Kodifizierung). De uma maneira emblemática para o gênero
Bildungsroman, a narrativa dos dois heróis - Sérgio, de
O Ateneu, e Jakob, de JvG - tem início com a saída do “ninho
materno.”
Um outro aspecto da estrutura composicional presente nos dois romances
- e bastante recorrente nos romances do gênero Bildungsroman da
virada do século - é a construção do narrador
em primeira pessoa. Este detém o monopólio das avaliações
no romance, gerando um ponto de vista único e acabado em relação
às personagens e às experiências daquele universo.
A partir de sua perspectiva avaliativa, o narrador edita o passado como
o sente e o sentiu. Vale ressaltar que, nos romances de fundo autobiográfico,
como estes que estamos analisando, autor e narrador coincidem ou estão
muito próximos.
Nos dois romances, o autor e o herói, apesar do excedente de visão
daquele sobre este, pertencem ao mesmo universo ideológico. “O
portador da unidade da vida - o herói - e o portador da unidade
da forma - o autor - pertencem ambos a um mesmo mundo de valores”
(BAKHTIN, 1997: 178). Inserido no processo constitutivo do romance de
fundo autobiográfico, o autor/narrador exerce o papel centralizador
do foco narrativo no desenvolvimento do enunciado literário.
A partir do ponto de vista subjetivo do narrador, são narradas
as experiências e as impressões deste e das outras personagens.
Relatando ressentimentos e desencantos, o tom confessional amargurado
- ainda que com muita ironia e, por vezes, sarcasmo - dita o ritmo das
narrativas e é emblemático de uma visão centrada
no narrador, que avalia e julga os acontecimentos e as outras personagens.
Corroboram nossa análise do romance brasileiro as afirmações
de Antônio Candido (1972), que destaca o aspecto caricatural na
linguagem de Pompéia, e as de Lucas (1995), que assinala que a
carga documental é inserida sob alta pressão irônica
e com comentários sarcásticos. Em relação
ao romance alemão, Grenz (1974) destaca a ironia presente no romance
de Walser, entendendo a ironia deste como um recurso discursivo para desconstruir
situações e personagens que freqüentam o internato.
De forma ilustrativa, apresentamos inicialmente o recurso da ironia no
romance O Ateneu. O narrador Sérgio, em um piquenique organizado
pela escola, relata que Venâncio preparou um discurso que envolvia
a educação, o mestre (Aristarco) e os discípulos:
“Venâncio costumava improvisar, mais ou menos previamente,
(...)Muxoxos adoráveis das brisas, que andais pela mata, gemedoras
fontes, que desfiais à toa as lágrimas de vossos penares,
amáveis sabiás cantores, que viveis de plantão na
palmeira da literatura indígena, sem que vos galardoe uma verba
da secretaria do império, vinde comigo repartir o segredo de vosso
encanto”(At. 139). Continua o discurso, que é entrecortado
pela fala do narrador, relatando o acontecido: “Súbito, no
melhor das quadras, exatamente quando o poeta apostrofava o dia sereno
e o sol, comparando a alegria dos discípulos com o brilho dos prados,
e a presença do Mestre com o astro supremo, mal dos improvisos
prévios! Desata-se das nuvens espessadas uma carga d’água
diluvial, única, sobre o banquete, sobre o poeta, sobre a miseranda
apóstrofe sem culpa. Venâncio não se perturbou. Abriu
um guarda-chuva para não ser inteiramente desmentido pelas goteiras
e continuou, na guarita, a falar entusiasticamente ao sol, à limpidez
do azul” (At. 141). Segundo Brandão (1997), que analisa o
romance brasileiro, a oratória presente nos discursos do Professor
Venâncio está em consonância com a tendência
da oratória em longa tradição na nossa cultura: no
sistema escolar, parlamentar e na produção literária.
Para a autora, O Ateneu, no entanto, opera uma negação das
fórmulas desta oratória pela intensificação
das mesmas, que conduz ao absurdo de tais fórmulas. Tal intensificação
imprime o caráter irônico identificado no texto.
No romance JvG, Heinrich, um dos colegas de Jakob, também é
avaliado a partir da perspectiva irônica do narrador: “Ele
não tem um caráter formado, porque nem sabe o que é
isso. Certamente, nunca meditou sobre a vida, e para quê? Ele é
muito bem comportado, solícito e polido, mas sem ter consciência
disso. É, ele é um pássaro” (JvG, 10). Um outro
colega, Peter, também é descrito com ironia: “Peter
não aprende absolutamente nada, apesar disso ser necessário
de modo tão humorístico. E parece que entrou no Instituto
Benjamenta para aqui brilhar com pérolas de sua burrice. Talvez
aqui ele até fique mais burro ainda do que era antes – por
que não desenvolver a sua burrice?” (JvG,. 42).
É importante acrescentar que nos dois romances, em quase todas
as situações, a ironia tem a função de desconstruir
a formação institucional em vigor. A perspectiva irônica
dos narradores empregada na narração-avaliação
dos mestres tem também um caráter de negação
desta formação. A ironia, nos dois romances, pode ser entendida
como o “pagamento” dos narradores pelas experiências
vividas. Além da saída de casa empreendida pelo herói
e da narração em primeira pessoa (narração
impregnada de ironia), características da estrutura composicional
dos romances em estudo, as narrativas nas duas obras não são
lineares: os autores/narradores resgatam, via recortes do passado, experiências
e lembranças da infância que antecederam o ingresso nas instituições
de ensino. O narrador do romance O Ateneu, por exemplo, produz um salto
temporal ao falar do colega Barbalho: “que havia de ser um dia preso
como gatuno de jóias, nosso companheiro da aula primária,
do número dos esquecidos nos bancos do fundo” (At, 31). A
não linearidade narrativa é mais evidente em JvG: “Tenho
que voltar bem ao início, ao primeiro dia” (JvG, 29).
Existe, porém, uma diferença entre os dois romances em relação
ao distanciamento temporal dos acontecimentos. Sérgio é
o narrador adulto que debate com suas memórias num distanciamento
no tempo que lhe permite reflexões mais amplas, posto que este
afastamento permite uma apreensão mais global das experiências.
Jakob, por outro lado, é o narrador adolescente que dá voz
à narrativa em forma de diário, de modo que não há
um distanciamento temporal que permita uma visão global das experiências.
Estas são isoladamente vivenciadas e imediatamente relatadas. Somada
à proximidade do narrador em relação ao fato narrado,
a estruturação em forma de diário possibilita ao
narrador Jakob um descompromisso com a continuidade linear da narrativa,
fazendo com que os acontecimentos sejam representados de uma maneira fragmentada.
A crítica de Grenz (1974) corrobora nossa análise. A autora
afirma que a distância temporal entre as experiências e a
narrativa é muito curta, dificultando uma reflexão mais
ampla. Esta posição do narrador em relação
aos fatos viabiliza constantes mudanças de opinião do autor/narrador
em relação aos outros e em relação a si mesmo.
Semelhantemente, Rang (1967) aponta que, neste romance de Walser, existem
impressões momentâneas e não exatamente histórias.
Segundo este autor, pelo fato de a narrativa ser construída em
forma de diário, o relato, muitas vezes, é feito em forma
de pequenos flashes. Ocorre com freqüência um raciocínio
não ser completado, uma narrativa não ser desenvolvida e
um assunto poder ser subitamente cortado por um comentário frívolo,
por exemplo. O autor/narrador do romance O Ateneu, por sua vez, pelo distanciamento
temporal entre as experiências e a narrativa, elabora uma reflexão
mais ampla e madura, oscilando pouco nas avaliações que
faz de suas experiências infanto-juvenis. Este distanciamento provoca
maior acabamento ao analisar personagens e situações. Vale
indicar que no romance O Ateneu, segundo Sachs (1995), existem três
Sérgios: a criança ingênua, o adolescente perplexo
e o adulto que realiza, na narrativa irônica, a síntese do
desencanto. Em JvG, encontramos dois Jakobs: o menino, que evoca as lembranças
do passado, e o adolescente com suas experiências no internato e
na cidade de Berlim.
Cabe indicar que, na estruturação composicional do romance
O Ateneu, outros gêneros discursivos, como cartas, conferências
e discursos, estão inseridos e atuam na construção
composicional do romance.
As unidades temáticas, assim como a estrutura composicional, são
elementos que possibilitam a aproximação pedagógica
intercultural dos romances O Ateneu e JvG. Para a análise destas
unidades, dividimos os temas abordados nos romances em duas unidades temáticas
,visando a aproximação didática e a mediação
cultural para os estudantes brasileiros de Germanística. Convém
apontar que os temas podem ser vinculados entre si, de forma que indicamos
estas conexões possíveis. Os temas são: patriarcalismo
e personalismo e concepções pedagógicas
A temática patriarcalismo e personalismo está estreitamente
relacionada ao tema concepções pedagógicas. A perspectiva
da autoridade patriarcal absoluta gera campo fértil para a aplicação
de metodologias fundamentadas na obediência, na submissão
e, em diversas situações, na subserviência. No cerne
dos movimentos pedagógicos dos dois romances está a visão
patriarcal, que funciona como esteio da vida familiar. Esta perspectiva
está associada à visão de família da época,
tanto no Brasil quanto na Alemanha, embora com tonalidades ideológicas
e históricas distintas.
Entendemos que o sistema patriarcal dominante no Brasil criou condições
favoráveis para o desenvolvimento do personalismo, ou seja, da
conduta de um homem controlador que refere tudo a si mesmo, com uma visão
de mundo autocentrada, como encontramos no personagem Aristarco do romance
O Ateneu, o diretor do instituto. A postura autocentrada de Aristarco,
da qual citamos um exemplo, está presente em toda a narrativa:
“Enveredando pelo tema querido do elogio próprio e do Ateneu,
ninguém mais pode falar... (...) Os gestos, calmos soberanos, eram
de um rei – o autocrata excelso dos silabários; a pausa heirática
do andar deixava sentir o esforço, a cada passo, que ele fazia
para levar adiante, de empurrá-lo, o progresso do ensino público;
(...) a obsessão da própria estátua” (At, 8,
9, 19).
No internato, o personalismo do diretor está associado à
visão autoritária e à forte hierarquização.
Controle é a palavra-chave; e, para que este possa ser exercido,
institui-se um modelo de internato com marcantes tonalidades do padrão
militar (visão hierárquica). Este modelo exige a homogeneização
e uniformidade de comportamento, construída, entre outras, com
máximas pedagógicas. Reforça nossa análise
a perspectiva de Moraes (1999), que mostra que a disciplina militar era
ideal para a manutenção do controle e da hierarquia, almejando
a homogeneidade, a rotina, a previsibilidade e a perspectiva da obediência
absoluta, porém, preparando pouco os alunos para o mundo repleto
de diferenças e variedade.
O personalismo do diretor, visto pela ótica avaliativa do autor-narrador,
pode ser percebido na utilização recorrente da expressão
“meu colégio” feita por Aristarco ao se referir ao
Ateneu. Além disto, o diretor é comparado a Deus (10), à
majestade (62), a um marechal (63), a um domador (138) e como tendo veleidades
de amansador (200), de forma que representa também a personificação
da visão autoritária e do controle. Aristarco é apresentado
como sendo onisciente e onipresente como um deus: “A sala geral
do estudo tinha inúmeras portas. Aristarco fazia aparições,
de súbito, a qualquer das portas, nos momentos em que menos se
podia contar com ele. (...) Por meio deste processo de vigilância
de inopinados, mantinha no estabelecimento por toda a parte o risco perpétuo
do flagrante como uma atmosfera de susto” (At, 63).
Em outra passagem do romance, este controle “divino”, segundo
o olhar axiológico do narrador, exercia o poder: “Assim que
é um simples olhar do diretor imobilizava o colégio fulminante,
como se levasse no brilho ameaças de um despotismo cruento”
(At,.62). As ordens e as regras, muitas vezes sem sentido, revestiam o
diretor de um poder imenso, e este comportava-se como se fosse a Divina
Providência.
As punições predispunham a uma atmosfera ameaçadora
e de pânico e estavam invariavelmente associadas às humilhações,
que eram públicas. O narrador relata que todas as manhãs
era lido o temido Livro das notas, antecedido por uma expectativa de terror
(At, 55). Sem dúvida, a visão patriarcal da sociedade da
época, construída num contexto sócio-cultural e histórico
específico, possibilitou e sustentou o sistema educacional em vigor
no Ateneu na virada do século.
Na obra O Ateneu, Sérgio menciona a depressão: “Durante
este período de depressão contemplativa uma coisa apenas
magoava-me:”(At, 56) Melancolia, apatia e terror associam-se à
baixa auto-estima. A melancolia, a fragilização do ego e
a desestruturação do emocional podem ser percebidas pela
letargia e pelo eterno sono que acomete os adolescentes. A morte, numa
associação à melancolia e à depressão,
é um dos leitmotivs das obras (a idéia do suicídio
ronda algumas personagens das obras).
Em relação ao romance alemão, Kayser (1970), aponta
para a figura forte dos diretores nos sete romances alemães da
virada do século que analisou. Segundo o autor, o sistema escolar
alemão era fortemente hierarquizado, e no topo estava o diretor.
A sua autoridade era inquestionável. Esta postura de autoridade
absoluta também está presente no romance JvG e é
personificada pelo diretor, senhor Benjamenta, a quem os meninos devem
total submissão e obediência. O narrador se refere a este
como senhor Golias (142), Deus (62), Hércules (18), gigante (18);
referências que marcam a autoridade e a superioridade hierárquica.
A postura patriarcal e, no contexto da obra, personalista, pois marcada
pelo autocentramento do diretor, predomina na sociedade da época.
Este posicionamento, a partir de uma figura masculina forte e modelar,
possibilitava a inserção de inúmeras prescrições,
códigos e punições, que orientavam toda a conduta
no internato.
O comportamento militar, que gozava de muito prestígio na época
na Alemanha, também era inspiração e modelo para
a estruturação do instituto. Nos primeiros encontros entre
o diretor e Jakob, as posições hierárquicas são
claramente demarcadas. No primeiro, o sr. Benjamenta pergunta a Jakob
o que este deseja: “Eu lhe expliquei timidamente que pretendia ser
seu aluno. Então ele silenciou e leu o jornal” (12). A indiferença,
que marca aqui a superioridade, é uma espécie de ritual
de iniciação no internato. Em um outro encontro, o diretor
lhe fala das prescrições do Instituto e manda que Jakob
se curve cinco vezes e diga: “Bom dia, senhor diretor”. Em
dois outros momentos, o diretor bate no aprendiz (Jakob). São o
controle e a demarcação da autoridade pela punição,
pela violência. De maneira semelhante ao que ocorre no romance O
Ateneu, também a punição pública tem a função
de ser exemplar. Na frente dos colegas, Jakob recebe do diretor uma palmada
na cabeça . Entendemos que este processo de punições
e de prescrições da anulação do sujeito tem
como substrato o caráter patriarcal da sociedade da época.
Nossa proposição é corroborada pela análise
de Hiebel. Segundo o autor, existe a transferência do modelo patriarcal
da sociedade para o instituto, que incorpora esta estrutura. “A
direção da escola representa o pai de família como
instância patriarcal do agente da reprodução social
ou socialização; ambas instâncias simbólicas
do pai simbólico, que personificam poder, moral e lei” (HIEBEL,
1991: 252).
Massificação, condicionamento pela absoluta repetição
vazia e obediência sem reflexão eram as bases norteadoras
da conduta no internato: “Nós decoramos as prescrições
que nos regem aqui. Ou as lemos no livro O que move a escola de meninos
Benjamenta?” (JvG, 8). Seguindo as prescrições, não
era permitido sorrir, chorar ou fantasiar. “Incutem-nos que tem
efeito salutar adaptar-se ao pouco que se tem, mas que é fixo e
seguro, ou seja, acostumar-se e adequar-se a leis e determinações
que exigem um exterior austero. Talvez queiram nos emburrecer; em todo
caso, querem nos diminuir” (JvG, 64). Desta forma, podemos apontar
para a anulação do sujeito via uniformidade e anonimato.
Esta diluição do sujeito está associada à
homogeneização, ao condicionamento e à massificação
despersonalizantes. Sintomáticas, neste sentido, são as
infindáveis ordens, e mesmo conselhos, encontrados também
no romance brasileiro, que pressupõem uma visão hierárquica,
que reforçam a postura patriarcal e autoritária subjacente
à visão de mundo do internato. Neste quesito, no romance
de Walser, o aluno considerado modelar pela direção é
Kraus.
Jakob analisa o colega sob o aspecto fundamental da concepção
formativa do Instituto, obediência sem reflexão: “Eu
geralmente obedeço bem, não tão bem quanto Kraus,
que é mestre em atender tempestuosa e prontamente às ordens”
(JvG, 7). Esta obediência irrefletida gera, por um lado, a ausência
de iniciativa própria nos sujeitos e por outro, garante a homogeneização
via conformação do grupo ao mesmo conjunto de regras. Corrobora
esta perspectiva a análise feita por Grenz (1974, 92-93), ao afirmar
que a utilização dos drills conduz à homogeneização,
e que, em conseqüência, a espontaneidade e a fantasia são
apagadas. Processo semelhante identificamos no romance O Ateneu ao apontarmos
para a visão autoritária e para a hierarquização
presentes no romance.
Assim como Sérgio no romance brasileiro, a auto-estima de Jakob
está seriamente comprometida. Hiebel (1991) indica, nesta direção,
uma tendência melancólica e depressiva em Jakob que, segundo
o autor, deve-se à sua relação com a autoridade e
o poder. Com ironia e desencanto, o narrador esclarece que os alunos nada
esperam; foi-lhes prescrito não terem esperança. E, nesta
orientação, é fundamental não pensar: “Se
os pensadores soubessem quanto estrago causam. Quando, por exemplo, um
aluno do instituto não sabe que é bem comportado, então
ele o é” (JvG, 90). Esta circunstância imposta aos
estudantes, de anulação do sujeito, favorece o padrão
militar presente no instituto.
Semelhantemente ao Ateneu, mas com tonalidades históricas, sócio-culturais
e políticas alemãs, a disciplina militar era ideal para
a manutenção do controle e da hierarquia, conquistada com
a rotina, a previsibilidade e a perspectiva da obediência absoluta,
postulado de uma sociedade patriarcal, associado, no romance JvG, ao personalismo
do senhor Benjamenta.
Como indicamos anteriormente, existe uma relação entre a
visão patriarcal e personalista e a concepção pedagógica
presentes nos dois romances. Visões pedagógicas não
se constróem dissociadas de um conjunto de valores e dos fundamentos
da sociedade. Desta forma, entendemos que a massificação
e a despersonalização do sujeito nos dois romances (embora
inseridos em contextos culturais distintos) também estão
representadas na concepção pedagógica da época.
Considerando que o gênero discursivo dos textos em análise
focaliza a formação dos heróis, convém destacar
que os romances discutem as diversas esferas de formação,
estabelecendo relações com a formação institucional
escolar.
Ainda que estando a cargo do internato, a formação integral
do herói se dá, muitas vezes, em contraposição
aos valores e preceitos pedagógicos expressos e aplicados pela
instituição. A formação moral e a afetiva
são decorrentes do contato com personagens em situações
externas à sala de aula. Retomando a caracterização
do gênero Bildungsroman da virada do século, pode-se dizer
que a formação dos heróis desenvolve-se em diálogo
com a instituição e, principalmente, em contraposição
ao discurso oficial nela enunciado.
O romance brasileiro, dialogando com o contexto educacional de sua época,
indica que a dimensão moral é objeto da formação
escolar. Sérgio, no começo da narrativa, aponta com certa
ironia para as regras morais, percebendo-as como marcas de obviedade:
“Outros quadros vidraçados exibiam sonoramente regras morais
e conselhos muito meus conhecidos de amor à verdade, aos pais,
e temor de Deus, que estranhei como um código de redundância”
(At, 23).
A formação moral, principal emblema do internato Ateneu,
pode ser tomada como exemplo desta perspectiva no romance brasileiro.
Em conformidade com a época, Aristarco apresenta o internato como
instituição total, responsável pela formação
global dos alunos, assumindo a responsabilidade que lhe é transferida
pela família: “Demais, o meu colégio é apenas
maior que o lar doméstico. O amor não é precisamente
o mesmo, mas os cuidados de vigilâncias são mais ativos”
(At, 19).
Como a narrativa é filtrada pela ótica do narrador, freqüentemente
no texto os discursos do diretor são desconstruídos e relativizados,
normalmente com ironia. Enquanto Aristarco fala do caráter e da
moralidade, o narrador questiona a postura ética do diretor: “O
especulador e o levita ficavam-lhe dentro em camaradagem íntima,
bras dessus, bras dessous. (...) Sua diplomacia dividia-se por escaninhos
numerados, segundo a categoria de recepção que queria dispensar.
Ele tinha maneiras de todos os graus, segundo a condição
social da pessoa” (At, 22-23).
Os valores morais eram difundidos, especialmente, em forma de máximas
pedagógicas. Estas constituem um dos esteios da visão pedagógica
vigente no internato e, por isso, são marcadas em diversas passagens
do romance brasileiro (normalmente, permeadas por observações
irônicas). De forma ilustrativa, apresentamos uma: “Nenhum
mestre é mau para o bom discípulo (...)” (At, 29).
Entendemos que estas máximas estão muito próximas
às palavras de ordem que buscam a uniformidade da visão
militar. Na perspectiva do narrador, são “as banalidades
profundamente lançadas como as sábias máximas do
ensino redentor” (At, 10). Em um discurso comemorativo de entrega
de prêmios, com a presença de pais e convidados, Aristarco
utilizou a clássica comparação – lugar comum
nesta perspectiva pedagógica – da educação
com uma horta: “Com o Ateneu estava satisfeito: uma sementeira razoável;
não se fazia rogar para florescer. Corações de terra
rocha, onde as lições do bem pegavam vivo. Era cair a semente
e a virtude instantânea espipocava. Uma maravilha, aquela horta
fecunda! Antes de maldizerem do hortelão, caluniadores e invejosos
julgassem-lhes os repolhos, pesassem-lhes os nabos, (...)" (At, 185).
A utilização destas máximas configuradas como palavras
de ordem visava à rápida memorização, uma
das práticas comuns à perspectiva pedagógica do internato.
Laura Hosiasson, no texto “Disciplinas e indisciplinas no Ateneu”,
sintetiza a visão educacional presente no romance: “Um sistema
marcado pela falta de incentivo à participação e
criatividade dos discípulos, um modelo de ensino rígido
e sempre estruturado em função de uma formação
‘moral’ irrepreensível (...)” (HOSIASSON, 1988:
68).
Nesta orientação pedagógica, as aulas eram totalmente
centradas nos professores, que orientavam as atividades. Estes não
pressupunham o aluno como interlocutor, mas apenas como “depósito”
de informações. As atividades eram elaboradas para serem
memorizadas como esquema, fixadas pela repetição (automatismo).
Esta não pode ser desvinculada das outras experiências e
dos valores que permeiam a jornada dos heróis.
Sérgio, com auxílio de Sanches, procura decorar nomes de
cidades, datas históricas e repetir análises gramaticais
abstratas: “Tomava cada período, cada oração,
altamente, com o ademã sisudo do anatomista; sujeito, verbo, complementos,
orações subordinadas; depois do sacrifício, zás!
Um corte de escapelo, e a frase rolava morta, repugnante, desentranhando-se
em podridões infectas” (At, 48).
As avaliações não são nada favoráveis
aos professores (com exceção do professor Cláudio)
e ao ensino do internato. O narrador questiona a visão idealizadora
anterior e a re-avalia de forma simbólica através de um
sonho: “Onde meter a máquina dos meus ideais naquele mundo
de brutalidade, que me intimidava com os obscuros detalhes e as perspectivas
informes, escapando à investigação da minha experiência?
(...)” (At, 34). Na descrição do sonho, o desencanto
e o medo são ressaltados numa atmosfera que sintetiza a metodologia
de ensino inserida na postura da uniformidade e nos drills: “Eu
era Franco. A minha aula, o colégio inteiro, mil colégios,
arrebatados, num pé-de-vento, voavam léguas afora por uma
planície sem termo. Gritavam todos, urravam a sabatina de tabuadas
com um entusiasmo de turbilhão” (At, 35).
Os professores são percebidos por Sérgio com desdém
ou irônica indiferença, e muitos da instrução
pública, especificamente, como corruptos. O narrador descreve esta
corrupção a partir das considerações de um
informante. “Olhe o Meireles da filosofia, aquele compridão
de barba ruça; o empenho é a Ritinha Pernambucana da Rua
dos Arcos; o Simas da mesa de geografia, um pançudo apelidado esfera
terrestre, mimoseiam-no com um par de galos de briga” (At, 164).
Em meio a este cenário, havia espaço também para
a formação efetiva do aluno. Esta formação
normalmente concretizava-se fora da sala de aula. Eram inúmeras
leituras na biblioteca, a descoberta de autores como Júlio Verne,
as apresentações e discussões literárias no
Grêmio Literário e, principalmente, longas e apreciadas conferências
do professor Cláudio.
Nestas circunstâncias, apareciam características dos romances
de formação clássicos, presentes também nos
da virada do século: a educação nas artes (“A
arte é primeira espontânea, depois intencional” p.
104) e também a formação política dos alunos.
De forma ilustrativa, apresentamos um exemplo que aponta para a formação
política. O Professor Cláudio produz, em uma conferência,
um discurso de forte oposição ao poder constituído:
“(...) o desmancho nauseabundo, esplanado, da tirania mole de um
tirano de sebo! ...” (At, 100). Entre um dos convidados estava um
“devoto jurado e confirmado das instituições”,
que reagiu com um “Protesto!”, contrapondo-se fortemente ao
discurso do professor. Um outro convidado, avô de um aluno, reagiu
ao conservador, chamando-o de burro. Estava instalada a confusão.
“O salão enorme, alunos e convidados, tumultuavam em vagalhões,
fragmentado em partidos opostos, uns pelo senador e pela anarquia, outros
pelo advogado e ordem pública. Muitos gesticulavam de pé;
havia estudantes gritando em cima dos bancos. Os insultos voavam como
pelouros; os protestos rangiam como escudos feridos; havia mãos
pelo ar que pediam espadas” (At, 101).
Convém destacar que a formação política acontece
em situações de palestras abertas ao público em geral,
incluindo também não estudantes da instituição,
realizadas fora da sala de aula.
Como indicamos anteriormente, no romance alemão, assim como em
O Ateneu, existe uma relação entre a visão patriarcal
e personalista e a concepção pedagógica. Esta concepção
viabiliza um universo de prescrições e códigos que
sustenta a homogeneidade de comportamento e o controle. O substrato que
fundamenta esta Weltanschauung é a submissão e obediência
irrefletida, que os alunos devem aos professores e, principalmente, ao
diretor: “A lei que ordena, a impingência que obriga e as
inúmeras prescrições inflexíveis que nos ditam
o rumo e o gosto: é isso que é grande e não nós
os alunos” (JvG, 64).
Obediência, submissão e prescrições são
palavras-chave que sinalizam para a concepção pedagógica
presente no romance JvG. Conforme Grenz, na análise do romance,
"o objetivo da escola é ensinar aos alunos a obediência
cega e irrefletida, e isto é aprendido melhor quanto mais tirânicas
e sem sentido forem as prescrições que devem ser seguidas"
(1974, 93).
Questão central, assim como no romance brasileiro, é sem
dúvida a questão moral, mais especificamente, o comportamento,
que é depurado com a execução dos preceitos presentes
no livro O que move a escola Benjamenta? (JvG, 8). A moral e o comportamento
são focalizados no livro com o intuito de prevenir falhas de caráter,
objetivando formar um aprendiz de obediência exemplar. O modo como
devem se comportar os meninos da escola Benjamenta, é, portanto,
o eixo central em torno do qual orbitam as principais questões
pedagógicas do instituto.
Também neste romance (como no romance O Ateneu) as máximas
pedagógicas, com intenções formadoras, exercem um
papel importante. De forma ilustrativa, podemos citar: “O asseio
em si é uma felicidade” (JvG, 49). Uma outra máxima
está relacionada à metáfora pedagógica do
jardim (No Ateneu, Aristarco utiliza o pomar para ilustrações
didatizantes): “O bom comportamento é um jardim que floresce”
(JvG, 83). Porém, se alguém se comporta mal, caminha por
um jardim que está próximo ao inferno. As máximas,
caracterizadas por uma perspectiva reducionista, têm a função
de controlar, orientar e criar uniformidade (estas são vistas pelo
autor com ironia).
De forma semelhante a Sérgio, do romance O Ateneu, Jakob também,
entre ironia e desencanto, questiona a formação no instituto.
Os questionamentos são, como no romance brasileiro, intercalados
por comentários que indicam a baixa auto-estima, a falta de valor
dos aprendizes, a desconfiança e o medo em relação
ao futuro. “Aqui aprendemos muito pouco, faltam professores e nós,
alunos do Instituto Benjamenta, não chegaremos a nada, quero dizer,
no futuro seremos todos gente muito humilde e subalterna” (JvG,
p. 7).
O narrador menciona a baixa auto-estima do grupo todo. “Somos pequenos,
tão pequenos a ponto de não sermos dignos de nada”
(JvG, 8). De forma recorrente, Jakob se considera um zero.
Quanto à metodologia de ensino utilizada no instituto Benjamenta,
ela está alicerçada nas repetições do código
de conduta. Hiebel, em constatação semelhante à nossa,
indica a principal atividade em sala de aula: “A aula, que é
sempre repetida, consiste na parte teórica de memorização
(...)” (1988: 252). A repetição da mesma aula (JvG,
9) e a dormência dos professores são sintomáticas
de um ensino que não promove aprendizagem, não visa ao conhecimento
e ao desenvolvimento intelectual dos alunos.
Jakob percebe as diminutas possibilidades de aprendizagem e ameaça
abandonar o instituto já no início da narrativa, questionando
os modelos didático-metodológicos: “Não se
aprende nada aqui e eu não quero ficar. Por favor, devolva-me o
dinheiro, (...) Onde estão os professores? Existe ao menos algum
plano? (JvG, p.19). Jakob, ao mencionar os drills utilizados na aprendizagem,
deixa claro, no tom irônico da narrativa e incorporando os objetivos
pedagógicos do instituto, que este procedimento metodológico
deveria honrar os aprendizes, pois dispensa a reflexão (JvG, 89).
O modelo educacional, de maneira semelhante à orientação
do Ateneu, é marcado pela falta de incentivo à participação
e criatividade dos aprendizes
Constatando a limitadora formação do instituto, Jakob detém-se
na observação da prática pedagógica de alguns
professores. Diante das limitações destes, o narrador sugere
ao professor de ciências naturais que talvez teria sido melhor se
tivesse se tornado apicultor. O professor de francês é chamado
de mentiroso. Suas aulas são uma mentira, pois o professor nada
ensina. Ao professor de história, ele aconselha o sono, pois os
heróis antigos não têm mais valor. “O mundo
há algum tempo gira em torno do dinheiro e não em torno
da história” (JvG, 59). Em relação a este último,
podemos destacar o anacronismo do ensino apontado por Jakob. Uma história
feita por heróis ou uma história que focaliza os heróis
é incompatível com as novas configurações
sócio-históricas.
Por diversas vezes, Jakob indica que a aprendizagem verdadeira acontece
fora da sala de aula. As constantes conversas que Jakob desenvolve com
os irmãos Benjamenta, principalmente com a senhora Benjamenta,
enriquecem-no (moral e afetivamente) mais que os professores e suas aulas.
A cidade de Berlim é um espaço importante na aprendizagem
de Jakob. Entendemos que as observações que o narrador faz
sobre o movimento da cidade, as experiências, inclusive amorosas,
são efetivamente formativas. O narrador comenta, ao observar as
pessoas na cidade, que a cidade educa mais que os livros.
Um personagem fundamental na formação de Jakob, na aprendizagem
não formal, é o seu irmão Johann, que lhe apresenta
a sociedade de Berlim. Johann, além de criticar a elite da cidade,
compara as massas desta nova época aos escravos e critica a uniformização
de pensamentos. Segundo o irmão, as cidades irão desaparecer:
“Nossas cidades desaparecem progressivamente. Blocos tomam os espaços,
(...)” (JvG, 76)
Jakob é introduzido pelo irmão no mundo das artes. Este
contato com o mundo artístico é também recorrente
nos Bildungsromane, fazendo parte da formação do aprendiz.
Johann, assim como o professor Cláudio do romance brasileiro, também
discorre sobre o universo político. Salientamos que esta inserção,
no caso do romance O Ateneu, concretiza-se via palestras abertas aos estudantes
e à comunidade; no romance alemão isto ocorre com longas
falas de Johann (e não através de um diálogo).
Diferente da formação verdadeiramente integral que os heróis
recebem fora do espaço da sala de aula, o caráter pedagógico
institucional em ambos romances reforça o caráter autoritário
e imobilista da instituição escolar marcada pela ausência
de reflexão e de criatividade, reduzindo a metodologia à
memorização de conteúdos e máximas pedagógicas.
O entrelaçamento desta visão pedagógica à
visão patriarcal, comum aos dois romances permite a aproximação
pedagógica-intercultrual via unidade temática.
No presente trabalho, tivemos por objetivo propor a aproximação
pedagógica do Bildungsroman alemão Jakob von Gunten, mediada
pelo romance de formação brasileiro O Ateneu, para o estudante
brasileiro de língua e literatura alemã. Assim, apresentamos
uma proposta didático-metolológica para a construção
de sentido do texto literário da literatura-alvo que segue um percurso
que parte do familiar e conhecido e, posteriormente, aproxima-se do texto
da cultura estrangeira.
A mediação pedagógica é realizada através
da análise dos elementos discursivos constitutivos do gênero
literário romance de formação. Nesta análise,
focamos – fundamentados na concepção de gêneros
discursivos formulada por M. Bakhtin - a estrutura composicional, na qual
estão incluídos elementos do estilo verbal, e as unidades
temáticas do romance O Ateneu tendo em vista a identificação
dos elementos caracterizadores deste gênero produzido na cultura
brasileira a fim de facilitar a posterior identificação
destes elementos no romance alemão.
Entendemos que a leitura do romance O Ateneu precedendo a leitura do romance
JvG se mostrou importante na mediação pedagógica
para, o que nos parece, uma melhor compreensão de sentido da obra
alemã. Deste modo, tal proposta pode auxiliar na diminuição
da estranheza cultural em relação à obra da literatura
estrangeira, favorecendo um escopo mais amplo de produção
de sentido.
BIBLIOGRAFIA
BAKHTIN, M.M. Estética da criação
verbal. São Paulo, Martins Fontes, 1997.
BOSI, A. Literatura e Ensino de Literatura. In: Literatura/Ensino: Uma
Problemática. Rocco (org.). São Paulo, Ed. Àtica,
1992.
BOTELHO, André. Através do Brasil: "Um romance de Formação"
da Modernidade Brasileira.In: Ciência e Trópico. Recife,
1998.
BRANDÃO, Helena H. N. “Escrita, leitura, dialogicidade”.
In: Bakhtin, dialogismo e construção de sentido / Brait
(org.) Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1997.
FREITAG, B. O Indivíduo em Formação. São Paulo,
Cortez, 2001.
GRENZ, Dagmar. Die Romane Robert Walzers: Weltbezug und Wirklichkeitsdarstellung.
München, wilhelm Fink Verlag, 1974.
HIEBEL, Hans H. Robert Walkers Jacob Von Gunten. Die Zerstörung der
Signifikanz im modernem Raum. In: Robert Walzer. Hrsg. von Klaus-Michel
Hinz und Thomas Horst. Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1991.
HOSIASSON, Laura. Disciplinas e indisciplinas no Ateneu. In: O Ateneu:
retórica e Paixão. (org.) Leyla Perron-Moisés. São
Paulo, Brasiliense/EDUSP, 1988.
JACOBS, Jürgen u. KRAUSE, Markus. Der deutsche Bildungsroman: Gattungsgeschichte
vom 18. Bis zum 20. Jahrhundert. München, Beck, 1989.
LUCAS, Fábio. As várias faces de Raul Pompéia. In:
Remate de Males. Campinas, UNICAMP, 1995.
KAYSER, H.C. Bild und Funktion der Schule in der Deutschen Literatur um
die Wende zum Zwanzigsten Jahrhundert. Waschington University, Ph.D.,
1970.
MAAS, Vilma. O cânone mínimo: O Bildungsroman na história
da literatura. São Paulo, UNESP, 2000.
NITSCHACK, H. Der Adoleszente als literarische Konstruktion In: Vergleichende11
Literaturbetrachtungen. München, iudicium verlag. 1995.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. Lautréamont e Raul Pompéia.
In O Ateneu: retórica e Paixão. (org.) Leyla Perron-Moisés.
São Paulo, Brasiliense/EDUSP, 1988.
POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Crônicas deSaudades. São
Paulo, Círculo do Livro.
RANG, Bernhard, Exkurs über Robert Walser. In Deutsche Literatur
im 20. Jahrhundert. Bd. 1: Strukturen. Bern, Francke Verlag, 1967
SACHS, Sonia. O Ateneu e a projeção romanesca do romance
familiar In: Remate de Males. Campinas, UNICAMP, 1995.
TEZZA, Cristovão. Sobre o autor e o herói - um roteiro de
leitura. In: Diálogos com Bakhtin. Curitiba, Ed. UFPR, 1996, WALSER,
Robert. Jakob von Gunten: Ein Tagebuch. Zürich und Frankfurt am Main.
Suhrkamp. 1985.