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| INDAIATUBA:
PESQUISAS E ESTUDOS DO MEIO EM ESTUDOS SOCIAIS EXPERIÊNCIAS DE CRIANÇAS
COM LEITURAS DE FONTES PRIMÁRIAS, ESCRITA DA MEMÓRIA E MAPEAMENTO
URBANO.
Adriana Carvalho Koyama Apresentação Nosso trabalho é parte de um projeto de ensino
desenvolvido durante cerca de dez anos, sob minha coordenação,
que contou com a colaboração de profissionais excelentes,
entre eles o professor Percival Leme Britto. O material específico
que apresentaremos hoje foi criado entre 1996 e 2001 pelas professoras
de primeira a quarta série Maria Inês Amgarten Quitzau, Cássia
M. Gobo Borges, Masae Yokochi, Lúcia Meyer Correa e Maria Alice
Groff Ifanger. Esse primeiro material foi organizado por mim e acrescido
de exercícios feitos com o material do centro de documentação
Amigos da Coleção Nilson Cardoso de Carvalho de História
Regional. Em 2004 a Secretaria Municipal de Educação de
Indaiatuba publicou-o em quatro volumes, adaptado para uma experiência
de ensino para cerca de 1200 alunos de primeira a quarta séries
da rede municipal. É parte dessa experiência que iremos descrever.
O contexto urbano em que se insere nosso projeto é bastante conhecido de todos os que vivem em nossa região. No entanto, vale a pena destacarmos algumas características específicas de Indaiatuba, que, articuladas, influenciaram decisivamente nossa experiência. Esse é
o mapa de nossa cidade no início do século XX. Um pequeno
bairro rural, nascido no período da cana em São Paulo, no
século XVIII, que erigiu-se a vila em 1830, já sob influência
do café, e recebeu, entre 1860 e 1920, grandes contingentes de
imigrantes: alemães, suíços, italianos e espanhóis,
árabes e mais tarde japoneses.
Essa imigração aparece em nosso trabalho através de memórias familiares e de entrevistas feitas pelos alunos:
Um segundo momento de grande fluxo de migração aparece nas memórias familiares dos últimos trinta anos. Não é à toa. Esse é o gráfico de crescimento urbano feito por uma das crianças a partir dos dados do livro:
Essa última migração faz parte da história recente das famílias dos alunos: Eu descobri
que meus avós moram em cidades longe. Meu pai veio morar em Indaiatuba
para trabalhar e ter uma vida melhor e também que meu pai conheceu
minha mãe, se casaram e me tiveram, e aqui estou eu.
De Euclides
da Cunha para São Paulo procurar emprego. Aí viemos para
Indaiatuba.
Meu pai nasceu
em Minas Gerais em Monte Sião. Depois mudou para o Estado do Paraná.
Em 1975 mudou para São Paulo. Hoje está morando em Indaiatuba.
Veio para Indaiatuba por motivo de emprego. Percebi que
todos vieram em busca de uma vida melhor Os conflitos na apropriação do espaço urbano nesse processo de crescimento recente podem ser percebidos na própria urbanização da cidade. Os trabalhadores recém-chegados ficaram segregados em bairros operários com grande dificuldade de acesso ao centro tradicional _ bairros que ainda hoje são freqüentemente citados como “uma outra cidade”, com vida independente da anterior. Trabalhamos
o projeto em duas escolas: numa delas, com cerca de 400 alunos, boa parte
dos alunos são moradores da área rural adjacente ao lado
oeste da cidade. A outra está situada nas adjacências dos
bairros operários a que nos referimos. Nela estudam cerca de 800
alunos, cujas famílias trabalham basicamente na área urbana.
Os alunos foram estimulados a lidar com ferramentas de pesquisa reais: análise de documentos escritos e visuais, observação e registro de dados geográficos, entrevistas, etc. As crianças puderam entrar em contato, através de um olhar instrumentalizado, com as ambigüidades da vida social urbana.
E no passado. Meu pai
veio para Indaiatuba em 1966 escolheram Indaiatuba porque era o lugar mais apropriado para a lavoura de uva O grande
sonho:
[...] no cemitério é separado os mortos: tem a parte dos alemães, dos brasileiros, das crianças da Alemanha e das crianças do Brasil
Também encontramos registros de emigrantes recentes: Eu tenho
uma prima que morou em São Paulo. ela fez vários cursos,
um deles é computação. De repente ela resolveu ir
embora da cidade de onde ela morava para outro país. Foi muito
legal fazer entrevista em casa. Nos depoimentos percebemos também o trabalho com a memória familiar que o projeto proporcionou: A professora
deixou a gente levar o livro para casa para pesquisar sobre a família
e descobri que sou descendente de português, e foi muito legal e
também gostei das coisas que tem no livro sobre famílias,
fotos de antigamente, etc. Eu e meu pai gostamos muito do livro.O meu
pai gostou das coisas que ele respondeu mas gostou mais daquele quadro
que tem o nome de todo mundo da família e eu e ele gostamos também
da descendência que ele lembrou que o avô dele é descendente
de português. Adorei saber
informação da minha família porque eu não
sabia de onde minha mãe e meu pai vieram, agora já sei [...] Conclusão Esses procedimentos de trabalho com memória têm como pano de fundo uma concepção de memória como arma de construção de identidade e de espaços sociais. Como nos lembra a professora Carolina Boverio Galzerani, é necessário o questionamento de memórias ufanistas, comprometidas com a manutenção do status quo que se utilizam do esquecimento - complemento indispensável da memória - como forma de ocultação e de injustiça em relação aos “outros”, aos diferentes. Memórias em relação às quais Tzvetan Todorov utiliza a expressão abusos da memória. Memórias frente às quais Paul Ricoeur enfatiza a importância da colocação em prática do que chama trabalho com a memória. E ainda: Uma última
reflexão sobre as relações entre identidade e narrativa: Nosso projeto quis trazer a cidade para o espaço da escola, sem apagar seus conflitos e criando oportunidades para que as crianças explorem esses espaços e sua história. Nosso pressuposto foi de que a experiência do estudo urbano é fundamental para que essas crianças criem uma nova percepção da cidade, desde seu bairro e sua escola, até os bairros rurais tradicionais, passando pelos centros comerciais, culturais, etc. E para que construam sua inclusão nesse espaço e nas narrativas da cidade. Essa percepção vem de encontro aos ensaios de Benjamin, em que o autor afirma que, se desligado da experiência dos homens, o patrimônio cultural perde o sentido, e aponta a narrativa como o lugar em que se encontram a experiência e as raízes culturais da comunidade. Se estes pensadores estiverem certos, ao possibilitarmos às crianças construírem narrativas das próprias histórias familiares e incorporarem suas experiências ao espaço urbano e à história da cidade, estaremos abrindo espaços de construção de identidade e de inclusão, através da criação de outros olhares sobre a cidade. Deste ponto de vista, os resultados desse trabalho mostram que é possível ensinar história para crianças através de documentos e de pesquisas de campo, articulando suas próprias experiências às questões sociais _ vistas a partir de seu próprio ambiente urbano. De modo que possam, além de conhecer os procedimentos básicos de pesquisa nas humanidades, trabalhar com suas memórias familiares e comunitárias, e também construir, ao longo desse processo, o pensamento histórico e suas próprias identidades socioculturais. Bibliografia Benjamin,
W. Magia e Técnica, Arte e Política. SP, Brasiliense, 1985. |
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