Solange Rosa Carneiro Leão - Universidade
Federal do Paraná – UFPR
Este trabalho faz parte de um projeto maior, intitulado
O discurso sobre a leitura e o leitor na mídia escrita brasileira
no período de 1970 a 2000 , cuja intenção é
discutir a conceituação de leitura e leitor presente na
mídia escrita, utilizando, para tanto, três veículos
de comunicação de massa: a Revista Veja e os jornais Folha
de São Paulo e Gazeta do Povo. A proposta de trabalho, que se baseia
na conceituação teórica de discurso de Michael Foucault,
é examinar, mais especificamente, como se dá o discurso
sobre a leitura e o leitor na Revista Veja no período de 1986 a
2000. O motivo da escolha de tal revista se deve ao fato de ela ser voltada
para um público de bom nível escolar, com formação
intelectual e boa capacidade de discussão das diversas ideologias
que constam nas matérias apresentadas aos leitores. Para tanto,
foram observados não apenas textos escritos, como cartas de leitores,
reportagens, resenhas, mas também outros meios, dos quais fazem
parte desenhos, charges, propagandas, ilustrações; ou seja,
em todo o contexto em que se poderia encontrar enunciados relativos ao
ato de ler. Além disso, deu-se preferência a datas em que
há uma maior atenção para a leitura e o leitor, como
vestibulares, dia do livro e do professor, bienal do livro e volta às
aulas.
Um dos grandes temas discutidos no meio acadêmico é a má
formação dos leitores, oriunda de uma má escolarização
e de um processo social e econômico excludente, talvez até
mesmo falta de incentivo e de práticas de leitura que sejam eficientes
na formação desse leitor, pois não é apenas
o ato de se alfabetizar que denota a decodificação, apreensão
e o posterior hábito da leitura. É necessário que
o leitor entenda e compreenda todo um universo que está contido
no discurso. Márcia Abreu e Luis Percival Leme Britto, em prefácio
do livro Leituras no Brasil, assim se colocam frente ao processo de compreensão
da escrita:
A alfabetização, ainda que massiva, não
implica uma democratização da leitura e do acesso ao conhecimento.
Ao contrário, para a grande massa, o mundo da escrita (e, portanto,
do conhecimento formal e da experiência literária) continua
interditado. Se em um momento anterior da história esta interdição
se dava através de privilégios estatutários, agora
se dá pela impossibilidade mesmo de entender — e não
codificar — os textos. (ABREU e BRITTO, 1995 p. 12)
A compreensão da leitura é interditada para
uma grande maioria, pessoas que não só não têm
acesso ao ato de ler, como também não podem decodificar
ou se apropriar desse universo do discurso. Há toda uma discussão,
bastante antiga, sobre o processo de apropriação da leitura
e da formação do leitor , havendo, inclusive, discussões
sobre motivos que levam à exclusão dos possíveis
leitores, como a elitização do livro, seja pelo status recebido,
seja pelo preço, muitas vezes inviável para uma grande maioria,
ou mesmo pela difícil compreensão e assimilação
por parte de um leitor que vem despreparado para o ato de ler. O que sabemos
de antemão é que um apreciador de leitura não se
forma apenas com condições econômicas favoráveis,
se assim fosse, teríamos muitos leitores vindos das mais variadas
instituições particulares, o que em suma não se concretiza.
O Brasil, na avaliação feita em 2000 pelo Programa Internacional
de Avaliação de Estudantes – PISA – ficou em
último lugar, sendo que foi analisado juntamente com outros 31
países. Deve-se notar que a avaliação é feita
com alunos na faixa etária de 15 anos, aproximadamente, e provenientes
tanto de escolas públicas quanto de escolas privadas, comprovando
a informação anterior de que as condições
econômicas não são as únicas determinantes.
Infelizmente a realidade da falta de leitura é constatada também
no meio universitário, como salienta a psicóloga Ana Teberosky
em entrevista concedida em 26/04/1995 a Flávia Varella, da Revista
Veja . Segundo ela, a leitura dos universitários “reflete
com perfeição um estilo de vida. A leitura é variada,
mas eles não se aprofundam em nada”, e continua: “Tenho
a impressão de que eles lêem como se estivessem assistindo
à televisão com um controle remoto. Nunca param num canal.
Fazem o que eu chamo de leitura em zapping”. A entrevistada enfatiza
a falta de aprofundamento na leitura dos acadêmicos e a compara
aos meios televisivos, nos quais ocorre “uma assistência passiva
e, por isso, têm pouca utilidade”. A observação
feita pela psicóloga mostra uma realidade cada vez mais comum e
bastante atual mesmo passados quase dez anos da veiculação
da matéria: a substituição da leitura pela televisão,
veículo que, juntamente com o computador, tornou-se um dos principais
meios de entretenimento de adolescentes.
Com isso, percebe-se que a interdição a que se referem Abreu
e Britto pode estar em diversos níveis de aprendizagem, (desde
os primeiros possíveis momentos de formação do leitor
– início do aprendizado – até o nível
universitário), e ser de várias ordens: social – um
leitor que se depara com um universo, principalmente no tocante à
decodificação dos signos, que não lhe é comum
–; cultural – a leitura geralmente é substituída
por outros meios de entretenimento, como a televisão –; e
também mitificadora – ocorre uma autodepreciação
por parte do leitor que “acredita” que a impossibilidade de
compreensão da obra se dá devido a sua incapacidade enquanto
leitor.
Foucault, em A ordem do discurso, vai colocar a interdição
como “o mais evidente, o mais familiar” procedimento de exclusão,
pois “sabe-se que não se pode falar de tudo em qualquer circunstância,
que qualquer um, enfim, não pode falar de qualquer coisa (FOUCAULT,
1996, p. 9)”. Mas muito mais do que apenas querer ou poder dizer,
há no indivíduo um medo do discurso, segundo ele:
Há, sem dúvida, em nossa sociedade e, imagino,
em todas as outras, mas segundo um perfil e facetas diferentes, uma profunda
logofobia, uma espécie de temor surdo desses acontecimentos, dessa
massa de coisas ditas, do surgir de todos esses enunciados, de tudo o
que possa haver aí de violento, de descontínuo, de combativo,
de desordem, também, e de perigoso, desse grande zumbido incessante
e desordenado do discurso. (FOUCAULT, 2004, p. 50).
Ora, se o leitor acredita ser um incapaz frente ao processo
de leitura, não seria isso apenas um exemplo do que Foucault chama
de “medo do discurso”? Ocorre comumente um “endeusamento”
da leitura, que a distancia desse leitor “incapaz”, ainda
que habituado ao ato de ler. Esse sentimento auto-excludente pode ser
observado na seguinte fala de uma leitora do jornal Rascunho : “Sei
que sou pobre de vocabulário, mas todos os dias tento reverter
isso e agora achei o que eu procurava no Rascunho”. O que leva uma
pessoa a expor sua “incompetência” ante o processo de
leitura? É preciso observar, no entanto, que essa leitora “pobre
de vocabulário” está escrevendo para um jornal exclusivo
sobre literatura, o que implica um público bastante específico.
Nesse caso, como alguém que se dedica a ler esse tipo de veículo
de comunicação pode se achar “pobre de vocabulário”,
uma vez que o universo do qual este jornal faz parte, é decodificado
a partir da apreensão e compreensão de discursos específicos,
sendo necessário para isso, inclusive, a riqueza vocabular? É
possível observar, então, que esse sentimento de inferioridade
está presente também em leitores mais assíduos, demonstrando
que a leitura por si só não é suficiente, é
necessário ter o domínio quantitativo e qualitativo desse
universo de leitura.
Ao longo da pesquisa, foi possível observar que o público-alvo
da Revista Veja se comporta de uma forma muito análoga a essa.
E, partindo-se do pressuposto de que esse público seja o leitor
que possui a capacidade de decodificar os enunciados apresentados, e,
portanto, uma minoria que “deteria” o poder discursivo, é
possível caracterizá-lo como alguém que compreende
o que lê, que interage com a revista, como um possível leitor
ideal, por mais que ele próprio veja a si mesmo como um leitor
inábil, pois a compreensão da leitura vai além da
quantidade e conteúdo do que se lê, ela passa pelo conhecimento
individual de cada leitor.
Vincent Jouve, em seu livro intitulado A leitura, vai discutir a interação
que ocorre entre a leitura e o leitor, desde a forma com que é
recebida, o impacto causado por ela no universo desse leitor e até
mesmo a forma com que ele (leitor) vai se comportar ante o processo de
ler. Para Jouve,
O sentido que se tira da leitura (reagindo em face da
história, dos argumentos propostos, do jogo entre os pontos de
vista) vai se instalar imediatamente no contexto cultural onde cada leitor
evolui. Toda leitura interage com a cultura e os esquemas dominantes de
um meio e de uma época. A leitura afirma sua dimensão simbólica
agindo nos modelos do imaginário coletivo quer os recuse quer os
aceite (JOUVE, 2002 p.22).
Se a assimilação da leitura está
intimamente ligada com a cultura e com o mundo que cerca o leitor, então
esse leitor vai absorvê-la a partir de sua vivência, experiência
e de seu conhecimento de mundo. Jouve, ao discutir a obra Rhétorique
de la lecture [Retóricas da leitura] de Michel Charles, chama a
atenção para o fato de o texto ser “uma máquina
de produzir leituras”, além de “enganar o leitor”
através da retórica:
Rhétorique de la lecture [Retóricas da leitura]
(1977), partindo do princípio de que a leitura está inscrita
no texto, controlada e delimitada por ele, resolve revelar a força
retórica do texto, (sua aptidão para enganar o leitor).
Assim a obra reúne análises pontuais muito finas que, sem
propor um verdadeiro modelo, testemunham a eficácia do texto como
“máquina de produzir leituras”. (JOUVE, 2002 p 31).
Dessa forma, diferentes leitores podem fazer leituras
diversas de um mesmo discurso. Nesse caso, a recepção do
texto depende, em grande medida, do próprio leitor.
Outro fato percebido na revista, além da “inaptidão”
dos leitores ante o processo de leitura e, por conseqüência,
uma autodepreciação por parte dos mesmos, é que o
livro recebe um certo status por parte de quem lê. Para os leitores,
leitura significa um processo quantitativo e qualitativo, pois não
é qualquer leitura que é considerada como ideal, mas sim
a leitura feita a partir de livros e, mais especificamente, dos livros
tidos como clássicos, em detrimento de quaisquer outras formas
de leitura, como a da própria revista em questão.
Numa matéria publicada na Revista Veja em fevereiro de 1994 questiona-se
a forma de apresentação de alguns livros aos estudantes
adolescentes. O autor da matéria, Diogo Mainardi, demonstra que
algumas editoras não se importam em tornar clássicos literários
– leitura obrigatória nas escolas – mais atrativos
aos adolescentes. Tal artigo traz como título a frase: “Clássicos
no chinelo” e como subtítulo:” Edições
medíocres relegam os bons autores brasileiros ao mundo dos adolescentes
com acne”. A charge que o ilustra apresenta quatro nomes da literatura
brasileira – Lima Barreto, Manuel Antônio de Almeida, José
de Alencar e Machado de Assis – em antigos uniformes escolares.
Todos em posição de repúdio a seus próprios
livros. Lima Barreto está com a língua para fora e segura
o Triste fim de Policarpo Quaresma com as pontas dos dedos. Manuel Antônio
de Almeida, aparentemente irritado, pula sobre seu Memórias de
um Sargento de Milícias; Alencar aperta o nariz enquanto afasta
seu Iracema e Machado de Assis assume uma fisionomia raivosa enquanto
chuta seu Dom Casmurro.
O que Mainardi pretende discutir é a falta de qualidade dada a
algumas edições de clássicos brasileiros destinados
aos alunos adolescentes. Ao utilizar a obra Triste fim de Policarpo Quaresma
como exemplo, ele demonstra e critica a falta de profundidade nas notas
de rodapé inseridas na obra por algumas editoras. Especificamente
sobre as edições escolares desta obra, ele salienta que
“a análise é elementar, adequada à idade média
de seus leitores, com grau de compreensão de um adolescente semi-analfabeto”.
E continua:
Quando o ufanismo de Quaresma o leva a cumprimentar os
amigos da mesma maneira que um índio tupinambá, ou seja,
chorando e arrancando os cabelos, uma nota de rodapé da edição
da editora Moderna, por exemplo, esclarece com absoluta obviedade: “O
retrato satírico, algo ridículo, ganha aqui em humor por
ele fazer a estranha saudação a sério”. Não
é um pouco aviltante ter de explicar esses coisas?
O colunista critica também outra editora, a Ática:
“Mais adiante, quando o sítio de Quaresma é invadido
por milhares de formigas, que carregam as suas reservas de milho e feijão
e mordem-lhe as pernas, uma nota da edição da editora Ática
ensina que ‘essa cena é dramática e simultaneamente
cômica’. Como se a verdadeira comicidade não fosse
sempre dramática” e critica até mesmo o leitor adolescente:
“Pobre Lima Barreto, se é a esse leitor que ele agora se
deve dirigir, se são esses os seus atuais interlocutores, garotos
que não sabem nada de nada”. Mainardi trata ainda de dois
assuntos que estão intimamente ligados: o que se ler – e
nesse caso ele vem em favor dos clássicos – , e qual a assimilação,
por parte dos adolescentes, das “boas” leituras, que nesse
caso também são os clássicos literários, os
quais, para ele, “não podem tornar-se um domínio de
adolescentes com problemas de acne ou uma estéril matéria
de vestibulandos. Não podem ser relegados ao funesto ambiente escolar”.
Seu ponto de vista é claro quando se posiciona: “a sugestão
é que saiam imediatamente das mãos dos estudantes e voltem
a se tornar assunto de interesse para adultos”.
O questionamento de Mainardi sobre a forma com que os livros são
apresentados é de suma importância para pensarmos na relação
interativa entre leitor e livro, o que implica em três pontos para
discussão. O primeiro tem a ver com a empatia que ocorre entre
o livro e o leitor antes da leitura propriamente dita, ou seja, de como
o livro passa a ser também um atrativo visual. O fato de o leitor
estar imerso em informações, principalmente visuais e auditivas,
o fará mais crítico quanto ao que desperta ou não
o seu interesse, sendo, nesse caso, de grande importância pensar
em formas de apresentação de obras que possam “agradar”
ao leitor exigente. O segundo tem a ver com a forma com que as informações
são tratadas; nesse caso específico o tratamento dado à
informação que se passa nas notas de rodapé, que,
segundo o colunista, reiteram informações superficiais que
não acrescentam conhecimentos substanciais aos leitores. Aqui é
possível inferir que: ou o nível de conhecimento do possível
leitor dessa obra é ínfimo – e se pressupõe
que ele não consiga assimilar conhecimentos mais aprofundados,
exigindo assim explicações banais e corriqueiras -, ou a
preocupação com a formação desse aluno é
mínima, sem que, efetivamente, se pense a obra como suporte para
reflexão, pesquisa e aumento de conhecimento. De qualquer modo,
o aluno está sendo pré-julgado. Outro ponto que chama a
atenção no texto de Mainardi, e esse é o terceiro
para discussão, é o fato de ele salientar que jovens não
são capazes de assimilar textos com densidade, defesa essa implícita
na seguinte frase “Não podem tornar-se [as obras clássicas]
um domínio de adolescentes com problemas de acne”. Ora, até
que ponto os alunos realmente não podem assimilar esses textos?
Dentro dessa única reportagem é possível observar
um discurso em que, claramente, se reconhece o preconceito existente tanto
em relação à capacidade (ou incapacidade) de leitura,
quanto com o que se deve (ou não) ler, já que, além
de apenas mencionar os livros tidos como clássicos, não
evidenciando outras formas de leitura, os exclui totalmente como opção
de leitura para os adolescentes, uma vez que devem se tornar domínio
de adultos. Esse preconceito apenas reitera o que se tem observado até
o momento: que a leitura deve ser condicionada ao qualitativo –
com todo o status que isso pode trazer –, pois o próprio
colunista não escolheu obras ao acaso, e sim algumas das mais representativas
da literatura brasileira, e, por fim, que essa leitura seja dirigida a
um público específico, fazendo com que se denote o ambiente
de exclusão a que fica submetido o jovem, que, além de se
sentir incapacitado ante o processo de ler, tem a ratificação
desse seu sentimento de exclusão em discursos como esse de Mainardi,
que só salientam e evidenciam o preconceito já tão
recorrente.
Mas não é só com relação aos adolescentes
que se percebe essa “visão depreciativa” do leitor
e da leitura. Numa outra reportagem da revista Veja , Fábio Altman
analisa o livro Que Pensam Vocês que Ele Fez, de Carlos Sussekind.
Ao comentar o conselho dado por um dos personagens do livro, reproduzido
na “orelha” da obra, Altman faz a seguinte observação:
“eis aí uma orelha boa, coisa rara, embora recomendar orelha,
num país de pouca leitura, desagrade à editora e faça
mal à educação”. Ora, percebe-se, claramente,
que o discurso implícito é o mesmo, pois continuamos vendo
o estereótipo do país de poucos leitores, e evidentemente,
o que se discute aqui também é apenas a falta da leitura
de livros, especificamente.
Alberto Manguel, ao escrever um artigo intitulado “O destino da
leitura na era da web ”, em que discute, desde a mudança
ocorrida na vida dos leitores com o advento da Internet, até o
futuro do livro nessa era globalizada, chama a atenção para
o fato de que estar próximo ao livro não faz de alguém
um leitor. Para ele, pode-se “viver numa sociedade baseada no livro
e, ainda assim, não ler, ou viver numa em que o livro seja mero
enfeite e ser, no sentido mais profundo e verdadeiro da palavra, um leitor.”
Mas Manguel não está apenas preocupado em evidenciar que
a formação da leitura não depende só de fatores
externos, como o fato de se estar em contato com o livro, preocupa-se
também em questionar como se dá a importância da leitura
para o leitor, e em que medida o livro não está relacionado
apenas com o status que confere ao seu detentor:
O que distingue um leitor de livros da pessoa para quem
um livro é apenas importância ou prestígio? Ou melhor,
o que distingue a importância de palavras resgatadas da prisão
da página pelo ato de se as ler, da Palavra não lida, mas
venerada na prisão da página? Há uma diferença
intransponível entre o livro que a tradição declarou
um clássico e o livro (o mesmo) que tornamos nosso por instinto,
emoção e entendimento: sofremos através dele, gozamos
com ele, traduzimo-lo para nossa experiência e (a despeito das camadas
de leituras com que cada livro chega a nossas mãos) viramos seus
primeiros descobridores (...) ”.
A constatação de Altman, de que “somos um país
de pouca leitura”, é corroborada pela afirmação
sobre a sociedade atual feita por Manguel, com relação ao
ato de ler: “não somos uma sociedade letrada. Aceitamos o
livro como um dado comum, mesmo antiquado. O ato de ler, outrora considerado
útil e prestigioso, quando não perigoso e subversivo, agora
recebe condescendência como passatempo, lento passatempo que não
tem eficiência nem contribui para o bem comum”.
As duas reportagens diferem entre si em mais de seis anos, no entanto,
o discurso é o mesmo, ainda se percebe a sociedade como um repositório
de “iletrados”, de não-leitores, por mais que ela seja
repleta dos “templos” destinados aos livros, como as livrarias
e bibliotecas. Essa constatação de que a sociedade é
feita de não-leitores, pretende sempre ser combatida, principalmente
pela escola, porém, em sua grande maioria, a partir dos livros
literários. Em Fim do livro, fim dos leitores, Regina Zilberman
vai salientar o uso da literatura nesse processo: “todas as campanhas
em prol da difusão da leitura sublinham a relevância de sua
prática, enfatizando não apenas o ângulo pragmático
da questão, mas destacando igualmente o mérito da leitura
da literatura. (ZILBERMAN, 2001 p. 16)”. Essa relevância da
literatura no ensino do processo de detenção do saber, talvez,
seja um dos causadores de discursos preconceituosos como o efetuado por
Mainardi, anteriormente analisado.
Na análise do corpus da Revista Veja, alguns dados puderam ser
evidenciados, como a forma com que a leitura e o leitor são conceituados
nesse meio de comunicação. Em diversos momentos foi possível
observar a utilização dos meios escritos, como o livro e
o jornal, transformados em fonte de ampliação de status,
de padrão de qualidade de vida. Em uma propaganda do jornal O Estado
de São Paulo, veiculada em 20/07/1994 na Revista Veja é
mostrado um jornal dobrado e as seguintes frases: “Deus existe?
Qual o sentido da vida? E, principalmente, por que as mulheres fazem permanente?”
E termina com: “É melhor você começar a ler
o Estadão” Como se o jornal pudesse se tornar uma “porta”
para o conhecimento, o solucionador de todas as questões, desde
as corriqueiras até as existenciais.
Observou-se também que a imagem de uma pessoa bem-sucedida e “inteligente”
é evidenciada nas noções de cultura tidas a partir
da leitura, ou da construção de leitor. Em uma propaganda
publicada na Revista Veja a atriz Bruna Lombardi está ao lado de
um computador, uma xícara de chá e de papel e canetas, com
a seguinte frase: “A primeira coisa que os homens reparam numa mulher
é a inteligência”. Vale salientar que a propaganda
é de um depilador, mas a imagem que se constrói é
a de uma mulher bem-sucedida, mostrada pelo fato implícito de ela
poder se comunicar, pois ao seu lado encontram-se objetos voltados a isso.
É preciso observar que a propaganda foi veiculada no ano de 1995,
quando o computador ainda não era tão presente na vida das
pessoas, o que torna o fato de esses quatro itens – o computador,
o chá, o papel e a caneta – serem singulares na caracterização
de uma mulher atualizada, moderna, requintada e inteligente. Outra propaganda,
veiculada em 05/10/1994 pela mesma revista , mostra Fernando Henrique
Cardoso segurando o jornal de Brasília e, ao lado da foto, a seguinte
frase “Quando se pretende assumir grandes desafios, é preciso
estar bem informado”. A propaganda termina com a frase “Quem
lê, sabe antes”. Ao associar a imagem de um homem conhecido
e respeitado ao seu produto, a propaganda implicitamente está aliando
leitor e status, ou seja, a fama e o poder inerentes à figura conhecida
do político está associada à leitura (diária)
do jornal. Daí é possível inferir que a imagem do
político em questão foi construída a partir das leituras
que ele fez do jornal e que o jornal é lido por pessoas com fama
e poder como ele.
A partir de tudo isso, foi possível observar que o discurso que
envolve a leitura e o leitor demonstra que a leitura está aliada
à imagem de pessoas de sucesso, uma vez que na maioria do corpus
observado, foram sempre em ocasiões de status social que a idéia
de leitor foi mostrada; e que este, enquanto detentor do processo de leitura,
sente-se incapacitado para se tornar um “bom” leitor, por
mais que tenha hábitos assíduos de leitura. Há também
uma afirmação do livro como o “verdadeiro objeto”
da leitura, uma vez que apenas ele é considerado como formador
de leitores. Além disso, discussões em torno da inabilidade
das pessoas para decodificarem os textos, dos níveis mais elementares
até o universitário, servem para mostrar a ineficiência
não só do sistema gerador do discurso ao qual o livro está
agregado, como também da forma errônea que se tem do que
seria especificamente leitura, uma vez que o leitor, mesmo sem compreender
uma obra literária, pode se comunicar perfeitamente bem, fazer
leituras diversas, que vão desde a sinalização de
trânsito até a compreensão implícita nos discursos,
e decodificar todo um universo de signos a sua volta. Logo, a visão
elitizada que se tem do livro enquanto “única” forma
de leitura só serve para incutir no leitor o sentimento de autodepreciação
encontrado em diversos momentos da análise a que nos propomos.
Sentimento este que só serve para afastá-lo ainda mais do
processo de leitura, deixando-o para ser seduzido por outros meios como
a televisão, o computador, revistas em quadrinhos, entre outros,
cuja função é tornar o processo de decodificação
dos signos facilitado por um universo próprio que criou meios de
interagir com o seu leitor sem incutir nele o mesmo medo tido com relação
aos livros.
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