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ARISTÓTELES
PARA CRIANÇAS: WALT DISNEY E A POÉTICA DOS DESENHOS ANIMADOS
Sandra Luna - Universidade Federal da Paraíba
- UFPB
Em sua obra A Estratégia da Genialidade (1998),
Robert B. Dilts engendra um rastreamento dos processos mentais que animavam
as ações e realizações de ilustres representantes
de diferentes modalidades da criatividade ocidental. Para compreender
os mecanismos cerebrais desses gigantes do pensamento humano, no primeiro
volume de sua coleção, Dilts isola para averigüações
as mentes de Aristóteles, Sherlock Holmes, Walt Disney e Wolfgang
Amadeus Mozart. Na medida em que opera no sentido de discernir modelos
bem sucedidos de processos criativos que possam servir de base a uma metamodelagem
aplicável à PNL (Programação Neuro-Lingüística),
a construção teórica de Robert Dilts pode ser aplaudida
como efetivamente instigante, sedutora e, talvez até eficiente
em suas pretensões pragmáticas. Sob a perspectiva da História
das Idéias, contudo, a própria noção de “gênio”
que inspira o autor claudica fortemente em um dos mais sólidos
pilares de estruturação do pensamento lógico-racionalista:
nas relações de causalidade, ou seja, nas heranças
recebidas por esses gênios, nos legados a eles ofertados por outras
mentes também geniais.
Adotando uma concepção romantizada de gênio criativo,
Dilts aposta em uma noção simplista de mente “original”,
desconsiderando, por exemplo, os vinte anos durante os quais Aristóteles
ouviu, na Academia, as lições de seu mestre Platão.
Talvez seja justamente essa capacidade de abstrair a inteligência
humana como algo “original” e “autônomo”
o que inspira Dilts a mapear os procedimentos mentais de Sherlock Holmes,
personagem de ficção, e não os do seu criador, Sir
Arthur Conan Doyle. Obviamente, esse “esquecimento” estratégico
do real, longe de ser ingenuidade, serve bem aos propósitos do
neurolingüista. Mas abre uma imensa brecha para inserirmos nossas
próprias concepções de genialidade.
Sem ofuscar a aura de grandiosidade que paira sobre qualquer dessas figuras
elencadas por Dilts, não podemos esquecer, por exemplo, que Leonardo
da Vinci, um dos gênios que compõem o terceiro volume da
coleção, era, antes de tudo, um homem do seu tempo, tão
genial quanto muitos de seus contemporâneos igualmente favorecidos
pelos bons ventos da revolução renascentista, uma época
de efervescente criatividade para a qual concorrem fatores os mais diversos,
sobretudo modificações radicais nas mais variadas esferas:
sociais, políticas, culturais, religiosas, filosóficas.
A esse respeito, vale a pena ouvir Friedrich Engels em seu prefácio
à Dialética da Natureza, texto que sugere noções
menos romantizadas, embora não menos inspiradoras, de genialidade.
Diz Engels em relação aos grandes homens do Renascimento:
Foi essa a maior revolução progressista
que a humanidade havia vivido até então, uma época
que precisava de gigantes e, de fato, engendrou-os: gigantes em poder
de pensamento, paixão, caráter, multilateralidade e sabedoria.
Os homens que estabeleceram o moderno domínio da burguesia eram
em quase nada limitados pelo espírito burguês. Muito pelo
contrário, o caráter aventureiro dessa época neles
se refletia em certa dose. Não existia, então, quase nenhum
homem de certa importância que não tivesse feito extensas
viagens; que não falasse quatro ou cinco idiomas; que não
se projetasse em várias atividades. Leonardo da Vinci era não
só um grande pintor, mas também um grande matemático,
mecânico e engenheiro, a quem os mais variados ramos da física
devem importantes realizações. Albert Dürer era pintor,
gravador, escultor, arquiteto e, além disso, inventou um sistema
de fortificações que continha várias das idéias,
muito mais tarde, assimiladas por Montalembert, das modernas fortalezas
alemãs. Maquiavel era estadista, historiador, poeta e, ao mesmo
tempo, o primeiro escritor militar digno de menção os tempos
modernos. Lutero não só limpou os estábulos de Áugias
da Igreja, como também o do idioma alemão: criou a prosa
alemã moderna e escreveu o texto e a melodia desse coral triunfal
que foi a Marselhesa do século XVI. (1979:16)
A relação entre a genialidade e as circunstâncias
favorecedoras do espírito criativo é assim compreendida
por Engels, em sua perspectiva historicista:
Os heróis dessa época não se achavam
ainda escravizados à divisão do trabalho, cujas ações
limitativas, tendentes à unilateralidade, verifica-se freqüentemente
entre seus sucessores. Mas o que constituía sua principal característica
era que quase todos participavam ativamente das lutas práticas
do seu tempo, tomavam partido e lutavam, este por meio da palavra e da
pena, aquele com a espada, muitos com ambas. Daí essa plenitude
e força de caráter que fazia deles homens completos. (1979:16)
Escaparia aos nossos objetivos rastrear causas históricas
ou elementos favorecedores de cada uma das genialidades recortadas por
Dilts. Contudo, sendo o texto da criação divina o prólogo
escolhido pelo autor para iluminar o portal de acesso a essa galeria da
inteligência, apreendemos sua abordagem inspirada no Gênesis,
com seu exórdio emblemático, como uma estratégia
metodológica demasiadamente instigante, senão desafiadora,
provocativa. Para além do culto que a modernidade sempre rendeu
aos “homens de ação”, antes de laureá-los
a todos como heróis divinizados, sentimo-nos compelidos a avivar
com cores mais fortes os traços nitidamente humanos de uma das
figuras mitificadas por Dilts. Assim é que chegamos a Walt Disney,
o “pai” dos desenhos animados (à luz do prólogo
de Dilts, leia-se, o “deus” dos desenhos animados).
Seguindo informações fornecidas pelo próprio Dilts,
comecemos, como recomendaria Aristóteles, pelas coisas primeiras,
destacando a criação do criador, apresentando o império
construído por Disney:
Durante a sua vida, além da Disneylândia
e dos estágios iniciais da Walt Disney World, ele produziu, diretamente
ou como produtor executivo, e armazenou na biblioteca de sua empresa 497
filmes de curta-metragem, 21 filmes de animação, 56 filmes
de longa-metragem, 7 episódios de programas de “A vida como
ela é”, 330 horas do Mickey Mouse Club, 78 emissões
de meia hora de Zorro e 330 horas de outros shows de televisão.
(1998:158)
Para Dilts, um mapeamento efetivo da capacidade criativa
de Disney emerge a partir de um comentário feito por um dos animadores
do próprio estúdio da grande corporação cinematográfica:
Um dos mais importantes elementos da genialidade ímpar
de Disney era a sua capacidade de explorar algo a partir de várias
posições perceptivas. É possível entender
melhor esta parte importante da estratégia de Disney a partir do
comentário feito por um dos seus animadores, segundo o qual: “...
existiam três Disneys diferentes: o sonhador, o realista e o crítico.
Era impossível dizer qual desses três iria participar das
reuniões”. (Ibid., 158-9)
De acordo com Dilts, o fato de assumir papéis
múltiplos era a estratégia adotada por Disney para transformar
em realidade bem-sucedida os sonhos que se permitia livremente alimentar.
Como ilustração do sonhador em ação, Disney
surge aos olhos de Dilts em uma expressiva representação
caricatural que o flagra em um momento de consentido devaneio. No desenho,
de autoria de Thomas e Johnson (1983: 379), Disney aparece sentado, reclinado
para a frente, cotovelos relaxadamente depostos sobre uma mesa, mão
esquerda apoiando o rosto, olhar voltado para cima, sobrancelha direita
arqueada, perdido num instante de contemplação criativa.
Expirada a fase de inspiração, a fase de “transpiração”,
segundo membros da própria equipe, era levada a cabo não
apenas por processos técnicos os mais requintados, mas, sobretudo,
por instâncias críticas que não admitiam a finalização
das etapas de execução até que os parâmetros
adotados como critérios de perfeição pudessem ser
alcançados. Assim, copiando o Gênesis, Disney cuidava também
em agir por etapas: Fase 1, desejo: Deus disse: “Haja luz”.
Fase dois, criação: “E houve luz”. Fase três,
avaliação: “E viu Deus que era boa a luz”.
Além dessa tríplice orientação como norteadora
dos processos de produção criativa, Dilts anota outra faceta
da genialidade de Disney. Para o autor,
A atratividade simples, porém internacional das
personagens de Disney, dos seus filmes de animação, dos
seus filmes de longa-metragem de ação e dos seus parques
de diversão demonstram uma capacidade ímpar de perceber,
sintetizar e simplificar princípios básicos, porém
bastante sofisticados. (Op.cit.: 158, grifo nosso)
É
intrigante e instigante pensar como Dilts, embora tocando muito de perto
os métodos da inspiração (ou da transpiração)
de Disney, ao compreender que este trabalhava a partir do aproveitamento
criativo de “princípios básicos, porém bastante
sofisticados”, não tenha chegado a perceber que um dos mais
fecundos mananciais da genialidade do mestre da ficção cinematográfica
provém justamente de Aristóteles, vários desses “princípios
básicos, porém muito sofisticados” jorrando generosamente
da antiga Arte Poética, obra que, segundo nossas pesquisas, oferece
talvez a mais produtiva fagulha a encetar a criatividade de Disney, como
tentaremos demonstrar adiante.
Por ora, comecemos por considerar algumas das conhecidas estratégias
utilizadas por Walt Disney para articular o sucesso de suas empreitadas.
Do ponto de vista técnico, esmerava-se em reunir recursos os mais
avançados. Reconhecia que a sua profissão havia crescido
a partir de progressos técnicos. Nesse sentido, entendia que se
esse processo parasse um dia, seria necessário preparar “a
oração fúnebre” para o seu meio. Afirmava a
dependência dos artistas em relação aos novos instrumentos
e refinamentos técnicos e preconizava que não haveria limites
para o seu universo cinematográfico, caso o desenvolvimento técnico
continuasse a lhe fornecer seus instrumentos.
Mas não era apenas a técnica que alimentava a possibilidade
de realização dos sonhos de Disney. A bem da verdade, alguns
desses sonhos eram, na verdade, sonhos alheios, frutos da imaginação
criativa de outras mentes, talvez não tão “geniais”.
O fato é que, parte das atividades do Disney sonhador consistia
em inventar modos de angariar idéias alheias. Assim é que
concedia uma espécie de recompensa a pessoas capazes de lhe brindar
com sugestões criativas, algo próximo ao que recentemente
faz o também empresário Sílvio Santos como forma
de arregimentar colaboradores para as perguntas que consubstanciam o seu
“Show do Milhão”. Segundo Finch,
Disney criou
um sistema de bonificações pelo qual qualquer pessoa que
sugerisse uma gag que fosse usada em um filme recebia cinco dólares
e cada pessoa que dava uma idéia que formasse a base de um desenho
animado inteiro recebia cem dólares. (1973: 170-1)
Sem dúvida,
se devemos falar da “genialidade” de Disney, parece mais sensato
reconhecer nele uma capacidade excessiva de aproveitamento criativo e
bem sucedido de elementos os mais diversos que operam a favor de um projeto
amplo e bem estruturado. Mesmo em relação à sua habilidade
artística, Disney é enquadrado como autor cerebral, não
como mentalidade “genialmente” inspirada. Em termos mais contemporâneos,
podemos emprestar uma terminologia utilizada por Ítalo Calvino
para categorizar escritores, apropriando-nos de seus conceitos para dizer
que, antes de ser um artista “atormentado”, extático,
dionisíaco, aquele cujo embate é travado entre as profundezas
de seu ser e uma forma de expressão, a um tempo, visceralmente
necessária e dolorosamente impossível, Disney mais parece
um artista “produtivo”, um produtor de “best-sellers”,
sempre fértil de idéias e cheio de certezas a comunicar,
sua inteligência operando no sentido de fazer convergir de várias
fontes as bases do seu sucesso empresarial. Não surpreende que
essa extraordinária capacidade de fazer interagir como forma de
agir resulte no sucesso que todos aclamam. As palavras do inglês
David Low parecem significativas a respeito dessa racionalidade que marca
as ações de Disney, conferindo-lhes um selo de glorificação:
Eu não
sei se ele desenha uma linha sequer. Ouvi dizer que em seus estúdios
ele emprega centenas de artistas para fazerem o trabalho. Mas presumo
que a direção, a meta constante de melhorar na nova expressão,
a resolução dos problemas em uma escala ascendente objetivando
novas aspirações que vão além dos sucessos
comerciais, sejam dele. Trata-se da direção de um artista
verdadeiro. Isto faz de Disney não um desenhista, mas um artista
que usa o cérebro, a figura mais importante da arte gráfica
desde Leonardo da Vinci. (apud McDONALD, 1974:170-1)
Para além
da já demonstrada capacidade de articular elementos de várias
ordens em seu processo de criação artística, a evidência
mais significativa para justificar o recorte que pretendemos fazer sobre
a “poética” de Disney pode emergir de suas próprias
palavras, em uma passagem na qual reconhece a construção
de uma trama como elemento essencial ao seu meio de produção.
Diz o autor no texto intitulado “Growing Pains” (1941), reproduzido
no SMTPE Journal, de 1991:
Tinhamos
um técnico à nossa disposição. Aprendemos
a criar personagens de maneira convincente. Aprendemos muito sobre ângulos
de câmera e de cenário. Sabíamos algo sobre tempo
e cronometragem. Porém, uma boa história, em nossa profissão,
é algo imponderável. (...) Ela deve ser muito simples, universal
e muitas outras coisas que não podemos expressar com palavras,
mas podemos sentir intuitivamente. (op.cit: 548)
Além
da ênfase na “ação”, Disney destaca alguns
outros elementos que nos remetem imediatamente à possibilidade
de que sua “poética” de criação dos desenhos
animados seja devedora da própria Poética aristotélica.
Dentre esses elementos, ressalte-se a referência de Disney à
necessidade de criar personagens convincentes, além da prescrição
à universalidade da trama como condição essencial
ao seu fazer artístico. Conhecendo a necessidade de “concentração
de efeitos” que marca os curta-metragens, talvez não fosse
descabido pensar que a simplicidade da estória a que se refere
Disney diz respeito ao que Aristóteles recomendava como “unidade
de ação”. Os filmes de Disney autorizam todos o reconhecimento
da legitimidade do aproveitamento desses conceitos como forma de obtenção
de efeitos significativos ao espectador.
Talvez fosse interessante, nesse momento, tecermos algumas considerações
sobre a própria Poética, de maneira que a apropriação
de suas idéias para outros fins pareça pertinente, já
que todos conhecem o fato de tratar Aristóteles nessa sua obra
apenas da dramaturgia trágica, a parte referente à comédia
tendo sido perdida nos séculos subseqüentes à elaboração
do pequeno tratado.
Ora, primeiramente deve-se dizer que, a despeito de sua orientação
para o trágico, a Poética foi, não raramente, compreendida
como uma fonte de preceitos essenciais não apenas à tragédia,
mas ao gênero dramático, sua noção de “ação”
como “alma da tragédia” tendo sido entendida pelos
teorizadores da modernidade como extensiva a todo o drama, assumindo,
em momentos artísticos mais contemporâneos, importância
considerável também em relação ao estudo das
narrativas literárias e cinematográficas, na medida em que,
ao contar uma estória, todas essas formas de ficção
gravitam em torno do conceito de “ação”. Preceitos
outros, como por exemplo, a recomendação aristotélica
com respeito à construção de personagens, suas considerações
sobre unidade, organicidade e completude, referências à verossimilhança,
todos esses conceitos vazaram para a posteridade como inspiradores à
compreensão do universo ficcional em suas manifestações
as mais diversas, literárias e extra-literárias, verbais
e não verbais.
Esse notável alcance e reconhecida influência da Poética
aristotélica faz com que seus postulados estejam amplamente disseminados,
espargidos como foram por fontes distintas ao longo dos séculos.
Num tal contexto, Disney não precisaria ter lido Aristóteles
para chegar a conclusões que se aproximam das notas rabiscadas
pelo filósofo grego vinte e quatro séculos atrás.
É certo que a noção de trama, ou de “ação”,
aparece como conceito primordial na Poética antiga. Para Aristóteles,
o drama estaria necessariamente ligado a um acontecer e todos os elementos
dramáticos seriam dependentes dessa “ação”,
a “boa história” à qual se refere Disney. Do
mesmo modo, à moda de Disney, também Aristóteles
recomendava a construção de personagens convincentes. Para
tanto, traçava parâmetros que indicavam como metas fundamentais
a serem perseguidas pelos autores, dentre outras, a “adequação”
do personagem ao tipo por ela representado (gênero, status social,
idade etc); a “conformidade” em relação, não
ao real, mas às leis da verossimilhança, recomendação
que clamava ainda por “coerência”, o que não
impedia o dramaturgo de pôr em ação personagens incoerentes,
apenas sugeria que, em caso de personagem incoerente, essa instabilidade
no agir fosse tornada traço permanente em seu caráter. Sem
perder de vista a recepção do drama, Aristóteles
não esquecia a “concentração de efeitos”
– aliás, era justamente em relação a esse aspecto
que despontava a diferença entre a tragédia e a epopéia
– as dimensões concretas do espetáculo teatral compelindo
o drama à unidade e à compressão temporal. Não
por acaso, o conto, sempre foi o mais dramático dos gêneros
narrativos e essa ênfase na produção concentrada de
efeitos também vazou para o curta-metragem. No que diz respeito
ao cinema comercial, a redução do tempo fílmico a
um período aproximado de duas horas tornou bastante produtivos
estudos inspirados em Aristóteles sobre a dramaticidade inerente
à condensação de efeitos. Mesmo assim, até
o momento, não se poderia falar de Disney como leitor de Aristóteles.
Inúmeras tradições afirmam em outras línguas
e com outros falares o que dizia o mestre grego e os estudiosos da Poética
já se acostumaram a ver o fantasma de Aristóteles falar
pela boca dos mais respeitados e respeitáveis ícones da
nossa civilização. Contudo, duas instâncias com as
quais nos deparamos na obra de Disney inspiraram nossas suspeitas de que
o produtor de sonhos pudesse ter adotado como sua a Poética aristotélica,
num processo mais direto, sem intermediações, embora submetida
às adequações criativas, tão ao gosto de Disney.
Fazendo ecoar uma das mais conhecidas recomendações aristotélicas
sobre a necessidade que tem o dramaturgo de imaginar a própria
cena que cria, recriando-a em sua mente ou encenando-a ele próprio,
Walt Disney enuncia, num texto citado por Thomas & Johnson:
O homem que
cria histórias deve enxergar na sua própria mente como cada
segmento da história será colocado. Ele deve sentir cada
expressão, cada reação. Ele deve se distanciar o
suficiente da história para poder ter um segundo olhar... vendo
se existe alguma fase morta... vendo se as personalidades são interessantes
e atraentes para o público. Ele também deve tentar ver que
aquilo que as suas personagens estão fazendo seja interessante.
(1981: 367)
Compare-se
o texto acima com o trecho da Poética ao qual nos referimos como
possível fonte da inspiração de Disney. Na tradução
de Eudoro de Souza, diz Aristóteles em relação ao
texto teatral:
Deve pois
o poeta ordenar as fábulas e compor as elocuções
das personagens, tendo-as à vista o mais que for possível,
porque desta sorte, vendo as coisas claramente, como se estivesse presente
aos mesmos sucessos, descobrirá o que convém e não
lhe escapará qualquer eventual contradição. (...)
Deve também reproduzir por si mesmo, tanto quanto possível,
os gestos das personagens. Mais persuasivos, com efeito, são os
poetas que naturalmente movidos de ânimo, vivem as mesmas paixões
[de suas personagens]; por isso, o que está violentamente agitado
excita nos outros a mesma agitação, e o irado, a mesma ira.
(1966: 87)
Isso parece
explicar a terceira faceta da genialidade de Disney. Se o Disney sonhador
buscava inspiração nos comuns dos homens, que vendiam suas
“boas histórias” por alguns trocados, talvez não
seja assim tão fantasioso supor que Disney, o crítico, tenha
encontrado nessa recomendação aristotélica uma fórmula
de visualização e distanciamento que assegura pela perfectibilidade
o sucesso de suas produções.
Tenham estes elementos até aqui elencados surgido na “poética”
de Disney como um empréstimo direto ou indireto às concepções
aristotélicas, o fato é que, em um dos making offs de seus
desenhos, mais especificamente ao final do filme O aniversário
do Mickey, no qual Disney se pronuncia acerca de seus métodos de
criação, deparamo-nos com uma expressão flagrantemente
aristotélica, aliás, a nosso ver, o leit-motif da criatividade
de Disney, o mais importante elemento para o engendramento de toda a sua
lógica ficcional, como afirmamos anteriormente, a fagulha que enceta
talvez a parte mais significativa da estrutura fílmica no universo
ficcional dos desenhos animados. Trata-se de uma recomendação
aristotélica decorrente das preocupações do filósofo
com duas leis, a seu ver, fundamentais à construção
do universo ficcional: a verossimilhança e as relações
de causalidade.
Preocupado com a construção de uma trama verossímil
e convincente, efetiva, Aristóteles insistiu com vigor na observância
às leis de causalidade, reiterando, por vias diversas, que é
muito diferente acontecer uma coisa depois de outra de acontecer uma coisa
por causa de outra (cf. op.cit.: 80). Neste sentido, as relações
de causalidade aparecem como o garante da lógica racionalista,
aquilo que empresta não apenas organicidade, mas também
credibilidade ao desenvolvimento da ação (da “boa
história”, se preferirmos). Ora, na medida em que as relações
de causalidade funcionam como fio de amarração dos pequenos
eventos que moldam a trama (ou a narrativa) dramática, mesmo que
alguns desses eventos sejam, em si mesmos irracionais, impossíveis,
irreais, seu enredamento em uma estrutura lógico-racionalista acaba
por torná-los aceitáveis, críveis, melhor dizendo,
verossímeis. A ênfase aristotélica nas relações
de causalidade como garante da verossimilhança é tão
excessiva que o permite, inclusive, acolher “o maravilhoso”
na tragédia, o mais grave dos gêneros literários.
Claro que a dimensão mais concreta da representação
cênica produz riscos severos no acolhimento ao irracional. Para
Aristóteles, algumas cenas tramadas por Homero nas epopéias
certamente seriam ridículas em cena, provocando o riso dos espectadores.
Não deve ser outra a razão de não serem mostradas
no teatro trágico dos gregos as mortes violentas. Impraticáveis
para um teatro aberto, tridimensional, exposto à luz do dia, um
homicídio ou um enforcamento pareceria antes cômico do que
trágico. Mas mesmo reconhecendo explicitamente que o “impossível”
pode ser “risível”, o que destruiria o efeito trágico,
a aposta que faz Aristóteles a favor da causalidade como garante
da verossimilhança é tão expressiva que reconhece
ser preferível numa trama “o impossível que persuade
ao possível que não persuade”. (cf. op.cit.: 98).
Numa das mais conhecidas traduções da Poética em
língua inglesa, a versão de Butcher, a expressão
usada para referenciar o acolhimento racionalista ao maravilhoso é
“o impossível plausível”: “The poet should
prefer probable impossibilities to improbable possibilities” (cf.
1997: 51).
Embora sem mencionar qualquer fonte, flagramos, no filme acima referido
(O Aniversário do Mickey), um depoimento de Disney revelando que
sua lógica ficcional para os desenhos animados baseia-se toda ela
no “impossível plausível”. Ora, este parece
ser um daqueles “princípios básicos, porém
bastante sofisticados” ao qual se refere Dilts como sinalizadores
da genialidade de Disney. Aliás, o “impossível plausível”
parece ser “o princípio básico”. A receita é
toda aristotélica: 1. o impossível é risível;
2. o impossível persuade, desde que articulado através de
leis de causalidade; 3. pelas leis de causalidade, o impossível
se faz verossímil. Talvez devamos dizer que o próprio Aristóteles
reconhece a fonte original de onde deriva suas conclusões. Para
o filósofo, na tradução de Jaime Bruna:
Foi Homero
quem ensinou aos outros poetas a maneira certa de iludir, isto é,
de induzir ao paralogismo. Quando, havendo isto, há também
aquilo, ou, acontecendo uma coisa, outra acontece também, as pessoas
imaginam que, existindo a segunda, a primeira também existe ou
acontece, mas é engano. (s.d.: 47)
Está
posta a mesa para os banquetes de Disney. A partir dessas premissas, surge
a magia dos desenhos animados, respaldados por uma lógica segura,
apta a garantir, a um só tempo, o riso e a verossimilhança.
O primeiro exemplo que nos fornece Disney do seu aproveitamento criativo
do “impossível plausível” é ilustrado
por uma vaquinha que traz amarrada ao pescoço um chocalho. Tudo
muito verossímil, factual – vacas e chocalhos. Claro que
nesse universo factual, real, se puxarmos o rabo da vaca, nada ocorre
ao chocalho. Mas uma vez introduzidos no universo ficcional, tendo acionado
nosso dispositivo para aceitar o jogo do faz-de-conta, somos facilmente
induzidos a um paralogismo: se cordas são capazes de fazer tocar
sinos e chocalhos, desde que presos a esses objetos, parece crível
que um rabo também o possa fazer. A coluna vertebral no dorso da
vaca aparece aí como o eixo invisível de ligação
entre a cauda e a coleira na qual está dependurado o chocalho.
Daí em diante, é só brandir o rabo do animal e este
fará vibrar chocalhos e gargalhadas.
Analogias, induções, deduções, todos esses
artifícios extraídos da lógica racionalista são
magistralmente aproveitados por Disney para tornar o impossível
plausível e risível. Se uma hélice em movimento aciona
um helicóptero, nada impede que Mickey seja alçado aos ares
por um ventilador em movimento. Se trilhos são feitos para guiar
os trens em uma trajetória pré-definida, Pateta pode sem
qualquer problema ausentar-se de sua função de maquinista
para tomar um café, talvez até desfrutar de um bate-papo,
ler um jornal, saborear um almoço, tirar um cochilo... O trem continuará
nos trilhos, obedecendo respeitosamente às tortuosas curvas de
uma descida íngreme em torno de uma enorme e acidentada montanha.
Se, ao final da trajetória, o trem se projetar violentamente contra
o muro da estação, ele bem poderá assumir a forma
de uma sanfona, as dobraduras formando-se com o impacto. Se o trem vira
sanfona, que melhor oportunidade para introduzir como ponto de escuta
do filme um belo solo de acordeon, fazendo os espectadores bailarem de
tanto rir? E se a sanfona se fecha em dobras, ela bem poderá se
abrir para que continue a viagem da fértil imaginação
de Disney inspirada e instigada pelo princípio básico, mas
muito sofisticado de Aristóteles.
Embora esta seja uma hipótese ainda em construção,
suspeitamos que o aproveitamento criativo de Disney dessas e de outras
formulações aristotélicas esteja com mais eficácia
presente em seus “dramas”. O trágico nos desenhos animados
foi recentemente incorporado como tema em nossas pesquisas, sendo ainda
cedo para referendar conclusões generalizantes. Contudo, anos de
estudos sobre representações do trágico na literatura
e no cinema permitem-nos apostar que, amenizando os momentos de maior
intensidade dramática, quando o confronto com o trágico
pareceria aterrador, sobretudo em relação ao universo infantil,
o “impossível plausível” é o que retira
o espectador do sofrimento, alçando a dimensão real da dor
a mundos fantásticos, de sonhos, risos e imaginação.
Neste sentido, Disney parece mesmo extraordinário, ainda que sua
genialidade seja melhor compreendida quando enquadrada como a habilidade
de um grande artífice, um artista que se movimenta aproveitando,
refazendo, reinventando, remodelando, e não exatamente “criando”
o mundo. Num universo já tão injusto, afetado pelas ordens
separatistas de uma sociedade que divide, discrimina e exclui, parece
importante nuançar essa noção romântica de
gênio, rasurando sua dimensão exclusivista e, neste sentido,
elitista, de dom divino, restrito a uns poucos eleitos. Enquanto um punhado
de mentes brilhantes são alçadas ao sucesso intelectual
e material por suas capacidades, sim, mas também pelas facilidades
de aproveitamento de circunstâncias propícias, milhões
de mentes mais ou menos geniais apagam-se pelo mundo afora, impedidas
de brilhar por motivos os mais diversos, por exemplo, por fome de livros,
senão mesmo por fome. Neste momento, quando nos reunimos para pensar
nas crianças, “mudas telepáticas”, que esse
trabalho seja o nosso depoimento a favor de um eficaz método de
“telepatia” favorecedora da “genialidade”: a leitura,
que, remetendo-nos a outras mentes brilhantes, é ferramenta eficaz
para acionar a lâmpada mágica das idéias geniais.
Na sociedade de conhecimento com a qual sonhamos, a genialidade seria
atributo, talvez menos esplendoroso, porquanto muito mais facilmente encontrável.
Não importa que esse sonho se defina hoje como “possível
improvável”. Aprendemos com Disney, com Aristóteles
e com Homero que até o impossível pode ser plausível,
a depender das regras que adotamos para vislumbrar a realidade.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ARISTÓTELES.
Poética. Tradução, Prefácio, Introdução,
Comentários e Apêndices de Eudoro de Souza.
Porto Alegre: Editora Globo, 1966.
______. Arte Poética. Tradução Jaime B runa. São
Paulo: Cultrix, s.d.
______. Poetics. Translated by S. H. Butcher. New York: Dover Publications,
1997.
CALVINO, I. Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo: Planeta
De Agostini, 2003.
DILTS, R. B. A estratégia da genialidade. São Paulo: Summus,
1998.
DISNEY. W. “Growing pains”(1941). In: SMPTE Journal, 1991.
ENGELS, F. A dialética da natureza. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1979.
FINCH, C. The art of Walt Disney. New York: Harry Abrahms Inc., 1973.
McDONALD, J. The game of business. New York: Doubleday, 1974.
THOMAS, F. & JOHNSON, O. Disney animation. New York: Abbeyville Press,
1981. |
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