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A
ALFABETIZAÇÃO NA SÉRIE INICIAL
Rosemeire Reis E Marildes Marinho - Universidade
Federal de Minas Gerais - UFMG
1. Apresentação
Enquanto espaço de interação, a sala de aula se constitui
de gestos, falas, movimentos que determinam as condições
de ensino e aprendizagem e emolduram a relação dos seus
agentes – professor e alunos. Neste ambiente de pessoas provenientes
de situações sociais diferenciadas, de conhecimentos e culturas
diferenciados o processo de ensino e aprendizagem se diversifica. A sala
de aula vem sendo o espaço apropriado para se tentar entender como
a interação professor-alunos interfere na compreensão,
elaboração e aplicação dos conhecimentos construídos,
uma vez que é impregnada de práticas e saberes da vida cotidiana,
onde estes sujeitos costumam integrá-los no ambiente escolar, excluindo
ou atenuando as práticas que pertencem ao domínio deste
espaço.
No que se refere à apropriação da escrita, numa sociedade
letrada tal como é a nossa, as crianças que chegam à
escola não são de todo desconhecedoras do sistema de escrita.
Um certo nível de letramento pode ser observado nestas crianças,
quando considerarmos que a escrita se encontra em toda parte das nossas
relações sociais. A sala de aula, embora sendo o lugar onde
se desenvolve o processo de ensino aprendizagem regido por decisões
pedagógicas e metodológicas, constitui-se de um lugar de
relação social, onde há a possibilidade de reconhecer
as potencialidades de conhecimentos e graus de letramento das crianças.
É, portanto, a sala de aula o espaço privilegiado para realização
de pesquisas qualitativas, interessadas na compreensão das situações
que envolvem a aprendizagem e as práticas pedagógicas.
Este trabalho emergiu de uma longa experiência com crianças
de primeira série iniciada em 1985, nas redes públicas municipal
e estadual em Belo Horizonte, Minas Gerais. Através de uma prática
pautada na busca do entendimento de como acontece o processo da aquisição
da leitura e escrita, decidi então investigar como o processo de
aquisição da escrita acontece na interação
alfabetizador- alfabetizandos. O alfabetizador, sendo aquele que interage
diretamente com as crianças entre 6 e 7 anos, provenientes ou não
educação infantil formal.
2. O objetivo
Este trabalho objetiva compreender por que numa mesma turma, enquanto
uma maioria de alunos avança na compreensão do funcionamento
do sistema de escrita, um grupo permaneceu nos níveis iniciais
da evolução da escrita até o final do ano letivo.
Tentou-se entender que significado é construído da alfabetização,
enquanto processo de aquisição do sistema alfabético,
na interação professor-alunos na sala de aula de uma turma
de primeira série de escola pública, situada em área
de risco na cidade de Belo Horizonte.
Em 1985, Magda Soares, ao abordar sobre a complexidade do processo de
alfabetização, salientou que não convinha atribuir
ao termo a designação tanto de “processo de aquisição
da língua escrita, quanto o de seu desenvolvimento” e “etimologicamente,
o termo alfabetização não ultrapassa o significado
de levar à aquisição do alfabeto, ou seja, ensinar
o código da língua escrita, ensinar as habilidades de ler
e escrever” (Soares, 2003).
Conforme a autora salientava, atribuir ao termo alfabetização,
pedagogicamente, um significado muito amplo ao processo, seria negar-lhe
a especificidade. Nesta perspectiva a pesquisa pretendeu verificar o processo
de alfabetização na sala de aula de 1a série, uma
vez que se pressupõe que neste estágio escolar, as crianças
entre 6 e 7 anos de idade, estariam demandando um processo de ensino e
aprendizagem que conferisse ao termo alfabetização o sentido
de aquisição do código da língua escrita.
A partir da observação dos primeiros passos metodológicos
adotados pelo conjunto de professoras, no início do ano letivo,
tentou-se compreender a concepção de alfabetização
que a Escola adota, no desdobramento das ações pedagógicas
no interior da sala de aula no decorrer do ano. No início do ano
letivo o conjunto de professoras organizou as crianças em quatro
turmas, após a aplicação de teste de prontidão.
Depois de organizadas, a turma definida para ser observada se constituía
das crianças consideradas com pouco conhecimento do sistema de
escrita. Durante a observação, foram sendo identificadas
na turma crianças que não avançavam no processo de
aquisição do sistema alfabético. Percebeu-se também
que as intervenções da Professora na sala de aula eram de
natureza da aquisição do sistema ortográfico. Uma
vez identificado este problema, decidiu-se investigar o processo de aprendizagem
do sistema de escrita das crianças que destoavam da maioria, a
fim de identificar o que faltaria para que alcançassem êxito
neste processo.
3. A metodologia
Na perspectiva dos conceitos adotados por Collins & Green(1984), para
entender como a sala de aula, enquanto cultura, determina o que é
avaliado para ser aprendido e o que é definido como aprendizagem
no interior dela, pretendeu-se considerar estes conceitos na análise
dos eventos de aquisição da sala de aula nesta pesquisa.
Para tanto, as ações dos sujeitos delimitados e a interação
dos mesmos com a Professora e com a pesquisadora foram objetos de análise.
Neste trabalho, dada a amplitude da pesquisa etnográfica, não
se adotou a metodologia que a mesma pressupõe. A pesquisa se realizou
com estudo de caso e observação participante. Seguiu a seguinte
metodologia: Observação das ações das professoras
da primeira série, nos primeiros contatos das crianças no
início do ano letivo; análise do teste de prontidão
aplicado para a enturmação das crianças no início
do ano letivo; Observação da turma classificada como das
crianças com pouco conhecimento do sistema de escrita, na avaliação
do teste de prontidão; análise da interação
entre a Professora e as crianças nos eventos de ensino e aprendizagem
da escrita no decorrer do ano letivo; identificação e análise
dos portadores de textos utilizados na sala de aula com o fim de alfabetizar;
análise dos procedimentos metodológicos na utilização
dos textos escolhidos pela Professora à luz dos pressupostos teóricos
de autores que tratam sobre o processo de alfabetização;
seleção dos sujeitos que demonstram pouco avanço
no processo de aprendizagem e observação do comportamento
deles na realização de tarefas de escrita na sala de aula;
análise das produções de escrita das crianças
selecionadas na interação com a turma e com a Professora;
comparação das produções de escrita dos sujeitos
selecionados na interação com a pesquisadora; identificação,
a partir da análise das produções escritas dos sujeitos
selecionados, realizadas na interação com a Professora e
na interação com a pesquisadora, da representação
os níveis de conhecimento da escrita, ao término do ano
letivo.
4. O lugar da pesquisa
A pesquisa foi realizada numa escola pública, situada na zona norte
de Belo Horizonte. Esta escola atende uma clientela vinda de três
bairros que a circundam. A maioria dos alunos pertence ao conjunto habitacional
próximo, que se compõe de moradias construídas em
sistema de mutirão, na década de 1980. As casas não
têm infra-estrutura adequada. Ainda hoje esses moradores lutam para
conseguirem saneamento básico, asfalto, iluminação
e transporte coletivo. O Conjunto conta com posto de saúde, escolas
municipais e estaduais, creche, um posto policial e comércio variado.
A Escola atende da 1ª série do ensino fundamental à
3ª série do ensino médio. Em 2003, ano em que foi realizada
a pesquisa, haviam 2.630 alunos matriculados, distribuídos nos
três turnos. No turno da manhã, 820 alunos; no turno da tarde
859 e no turno da noite, 951alunos.
É uma escola bem equipada, com sala de vídeo, computadores,
equipamento de som, mimeógrafos, impressoras matricial e a jato
de tinta. A Escola tem biblioteca, quadra de esporte, amplo pátio,
sala de professores confortável, secretaria informatizada, cantina
arejada. A partir do 2o semestre a Escola iniciou um processo de reforma,
reforçando paredes trincadas, troca de cobertura de telhado, renovação
dos banheiros dos alunos. Sobre as séries iniciais do Ensino Fundamental,
o turno da tarde atendeu 4 turmas de 1ª série e 5 turmas de
2ª série.
A Escola foi incluída no Programa Escola Viva, Comunidade Ativa
Durante a pesquisa presenciei algumas reuniões na escola, com a
participação dos professores dos três turnos, com
a finalidade de esclarecer sobre o Programa e a sua implementação
e para definir prioridades nos níveis pedagógicos e administrativos
que pudessem ser atendidos pela Secretaria de Estado de Educação
de Minas Gerais.
A Escola foi também beneficiada com a doação de acervo
de 2.800 obras de literatura infantil, infanto-juvenil e de clássicos
brasileiros. A biblioteca que já algum tempo estava fechada, sem
atender os alunos, ganhou a atenção da direção
e dos professores que viabilizaram a sua abertura a partir do início
do ano letivo de 2003.
A sala de aula, onde foram feitas as observações, do ponto
de vista físico, é ampla, arejada. O mobiliário estava
bem conservado. As paredes não apresentavam marcas de vandalismo,
como pichações ou depredações.
5. Os sujeitos
A Professora atuava em dois turnos na escola. No turno da manhã
estava passando pela experiência de trabalhar com alunos não
alfabetizados, acima da faixa etária, com experiências escolares
de mais de 3 anos, segundo ela. À tarde, assumiu a turma considerada
“média”, na classificação de acordo com
o resultado do teste de prontidão realizado no início do
ano. Segundo depoimento da própria Professora, o maior tempo de
sua carreira, mais ou menos 15 anos, assumiu turmas de alfabetização.
Como cursista do Veredas , estava muito envolvida com leituras sobre aprendizagem
e ensino.
Quanto às crianças da turma, segundo a Professora, foram
classificadas como com pouco conhecimento de escrita e leitura. As crianças
estariam pela primeira vez tendo experiência com a instituição
escola pública; teriam entre 6 e 7 anos, faixa de idade mínima
exigida para o ingresso na escola pública.
Na sala de aula da pesquisa foram identificadas 6 crianças que
tinham um bom desenvolvimento da linguagem oral e gostavam muito de falar
sobre elas mesmas e sobre suas experiências sociais. Durante as
aulas, eram bastante participativas, quando a turma era estimulada pela
Professora a falar sobre suas relações sociais, principalmente
nas aulas de Ciências e nos momentos de atividades no livro didático
de alfabetização. Mas quando a Professora solicitava a turma
a ler, esses alunos omitiam-se na sala. Parecia que não existiam.
Ficavam calados, simulando realizar alguma tarefa – escrevendo ou
“lendo” o texto solicitado. E ficavam “invisíveis”.
6. Pressupostos teóricos
Para se compreender o processo de ensino e aprendizagem da língua
escrita na turma de primeira série, analisamos o Conceito de Alfabetização
a partir das reflexões da Professora Magda Soares, publicadas desde
a década de 1980 até as mais recentes, de 2004. Alguns fundamentos
teóricos da Lingüística são estudados a fim
de compreender a alfabetização, além do conceito
de processo de evolução da escrita realizado pela criança(cf.
Ferreiro & Teberosky, 1999) Consideramos o conceito de erro, com base
no artigo de Oliveira & Nascimento (1990), que trata da questão
do “erro”, no processo de aquisição da escrita.
Este estudo teórico amplia a visão do processo além
da evolução, e propõe a análise das construções
de escrita do aprendiz como processo de cunho lingüístico.
A questão da consciência fonológica como constituinte
do processo da construção da escrita pela criança,
levou-nos ao estudo de Morais ( 2004) que discorre sobre a apropriação
do sistema de notação alfabética e o desenvolvimento
de habilidade de reflexão fonológica. Incluímos em
nossos estudos teóricos, o conceito de Alvarenga sobre as questões
ortográficas como processo de construção da escrita
pelo aprendiz no nível alfabético. Estes referenciais contribuíram
para a investigação e análise dos dados da pesquisa
possibilitando compreender a complexidade do processo de alfabetização.
7. Os suportes
Os suportes textuais foram utilizados na mediação da interação
da Professora e alunos nas atividades de leitura, de produção
de textos e de análise lingüística. Entendeu-se, aqui,
como texto um portador capaz de cumprir objetivos para os seus usuários.
Alguns desses textos são gêneros produzidos em situações
sócio-comunicativas, e, por sua vez, identificados ou nomeados
anteriormente ao seu uso na sala de aula. Um outro grupo de “textos”
não cumpre atividades sócio-comunicativas, ou seja, são
textos “acartilhados” - ou como diriam os PCN’s de 1a.
à 4a. séries, “pseudotextos” - produzidos para
análise lingüística. No entanto, estes últimos
são nomeados pela Professora como “leitura”, “texto”.
Em síntese, apresentaremos três grandes grupos de textos.
O primeiro deles está inserido nos eventos que fizeram parte do
rito de entrada no campo, com o objetivo de diagnosticar e agrupar os
alunos no início do ano letivo, de acordo com seus conhecimentos
prévios sobre a língua escrita.
QUADRO 1: TESTE DE PRONTIDÃO.
| Data |
Suporte |
Texto |
Conteúdo |
Atividade |
| 10 e 11/02/2003 |
Folha digitada e mimeografada. |
Teste de prontidão.
O Rato |
Atividades de escrita de palavras,
de números.
Texto para leitura. |
Escrita do nome; desenho de
figura humana; ditado de palavras e frases, escrita espontânea de
lista de nomes; leitura oral de texto informativo. |
QUADRO
2: TEXTOS DE CARTILHA.
| Data |
Suporte |
Texto |
Conteúdo |
Atividade |
| 18/06/2003 |
Folha escaneada/ mimeografada
|
O telefone. 13a
leitura |
Identificação das sílabas
com a letra “F”. |
Leitura, cópia do texto, formação
de frases e/ou separação de palavras em sílabas. |
| 23/06/2003 |
O rato. 14a leitura |
Identificação das sílabas
com a letra “R”. |
| 20/08/2003 |
A jibóia. 16a leitura |
Identificação das sílabas
com a letra “J”. |
| 05/09/2003 |
A peixada. 19a
leitura |
Identificação das sílabas
com a letra “X”: |
| 19/09/2003 |
Marisa e o menino guloso.
21a leitura |
Identificação do “S” com som
de “Z”. |
| 22/09/2003 |
A joaninha. 22a
leitura |
Identificação do “NH”: |
| 01/10/2003 |
Pêssego maduro. 24a
leitura |
Identificação do “SS”: |
| 03/10/2003 |
A tartaruga de Júnior. 25a
leitura |
Identificação do “R” de fim
de sílaba. |
| 03/12/2003 |
O retrato de Gracinha. 39a
leitura |
Identificação do “TR e GR”. |
| 10/12/2003 |
A foca*. 41a leitura |
Identificação do “Z” no fim
da palavra. |
| * O poema é do livro “A arca de Noé.”, Vinícius
de Moraes, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1992,. O texto
foi o único, entre as lições, extraído de literatura reconhecida
para estudar famílias silábicas. |
QUADRO
3.1: ATIVIDADES DE ANÁLISE DA FORMAÇÃO DE PALAVRAS.
| Data |
Suporte |
Texto |
Conteúdo |
Atividade |
| 18/06/2003 |
Folha
mimeografada de livro didático. |
Carta
enigmática. |
Frases intercaladas com desenhos. |
Construção de frases a partir da substituição
de desenhos por palavras correspondentes. |
| 26/06/2003 |
| 25/06/2003 |
Livro
didático adotado. |
A
fada Filomena. |
Poema de Cristina Porto |
Leitura pela Professora e
pelos alunos, seguida de atividades sobre rima. |
| 25/06/2003 |
Folha
mimeografada
de livro didático. |
Palavras
cruzadas. |
Formar palavras. |
Formar palavras livremente,
sem intervenção da Professora. |
| 19/08/2003 |
| 08/12/2003 |
| 06/08/2005 |
Xerox
do livro didático Porta de Papel. |
Fragmentos
de textos de livros didáticos. |
Textos acompanhados com ficha
avaliativa. |
Leitura para casa, com ficha
constando a avaliação dos pais. |
| 21/08/2003 |
Quadro
de giz. |
Lista
de palavras |
Formar palavras. |
Formar palavras com sílabas
escritas pela Professora. |
| 21/08/2003 |
Folha
mimeografada de livro didático. |
Desenhos
e palavras. |
Desenhos e nomes de cômodos
da casa. |
Preencher lacunas com letras
faltosas de nomes de cômodos de casa. |
| 25/08/2003 |
Manuscrito
em tiras de papel e coladas no quadro. |
Parlenda:
O doce perguntou pro doce. |
Grupo de palavras da letra
C de doce; palavras da parlenda em retângulos. |
Copiar parlenda; formar frases
com a palavra doce; estudar todos os dias as palavras do grupo da
letra “C”; formar frases com 7 destas palavras; recortar e remontar
em casa texto embaralhado da parlenda. |
| 16/09/2003 |
Livro
didático adotado “Vida Nova”. |
T t – tapete. |
Trova |
Leitura e reconhecer sílabas
de palavras; |
| 29/09/2003 |
G
g – gato. |
Trova |
| 02/10/2003 |
Folha
manuscrita mimeografada. |
Caça-palavras. |
Lista de palavras. |
Encontrar palavras com “NH”. |
QUADRO 3.2: TEXTOS PARA LEITURA E INTERPRETAÇÃO.
| Data |
Suporte |
Texto |
Conteúdo |
Atividade |
| 09/06/2003 |
Folha
escaneada de livro didático e mimeografada. |
Oração
da família. |
Música religiosa. |
Ensaio da música para apresentação
em encontro com a família; Interpretação oral da letra. |
| 25/06/2003 |
Livro
didático adotado. |
História
da Cinderela. |
Conto |
Leitura pela Professora com
comentários e intervenções das crianças; ilustrar o conto |
| 06/08/2003 |
Folha escaneada de livro didático
e mimeografada. |
A casa do coelho. |
História. |
Leitura pelas crianças junto
com a Professora; interpretação do texto. |
| 04/09/2003 |
Folha escaneada de livro didático
e mimeografada. |
Adivinhas. |
Quadros com desenhos e frases
“O que é? O que é?”. |
Descobrir as respostas. |
| 08/09/2003 |
Quadro de giz. |
Não atirei o pau no gato. |
Paródia da música “Atirei
o pau no gato”. |
Copiar o texto do quadro;
comentários sobre cuidados com os animais. |
| 17/09/2003 |
Livro adotado. |
Sem título. |
Trecho de poema do livro didático
Vida Nova, p. 78. |
Leitura e construção de título
para o poema. |
| 24/11/2003 |
Folha escaneada de livro didático
e mimeografada. |
As borboletas. |
Poema de Vinícius de Moraes.* |
Atividades de escrita relacionadas
com o texto. |
| 01/12/2003 |
Folha digitada e mimeografada. |
Menina bonita do laço de fita
(avaliação). |
Trecho do livro de Ana Maria
Machado.** |
Leitura e interpretação de
texto. |
| 03/12/2003 |
Folha digitada e mimeografada. |
João Feijão. (avaliação) |
História sem referência bibliográfica |
Trecho da história com 8 perguntas
de interpretação. |
| * O texto foi escaneado do livro de alfabetização
“Eu chego lá”, Maria da Conceição Stehling Melo e Cora Maria Toccheton
Barauskas, Editora Ática, São Paulo, 2000. Este livro foi classificado
pelo PNLD 2000/2001 como recomendado com ressalvas.
** O texto da avaliação é trecho copiado do livro
Menina bonita do laço de fita, Ana Maria Machado, Editora Ática,
São Paulo, 1999. |
QUADRO 3.3: TEXTOS DE INFORMAÇÃO
CIENTÍFICA.
| Data |
Suporte |
Texto |
Conteúdo |
Atividade |
| 24/06/2003 |
Folha
escaneada de livro didático e mimeografada. |
O
corpo humano.* |
Texto e atividades de identificação
do nome das partes do corpo. |
Leitura do texto feito pela
Professora. |
| 26/08/2003 |
Folha
manuscrita e mimeografada. |
Folclore.* |
Texto e atividades de escrita. |
Marcar rimas; circular nomes;
separar palavras em sílabas. |
| 26/08/2003 |
Folha
escaneada de livro didático e mimeografada. |
Entrevista.* |
Roteiro de entrevista com
perguntas dirigidas aos pais sobre brincadeiras, comidas típicas,
provérbios, etc. |
Entrevistar uma pessoa mais
velha em casa. |
| 28/08/2003 |
Na
escola sou assim.* |
Desenhos em quadrinhos com
personagens e “balões das falas” lacunados acompanhados de frases
de boas maneiras. |
As crianças deveriam preencher
as lacunas orientadas pelas respectivas
frases. |
| 02/09/2003 |
Meu
corpo se movimenta.* |
Desenhos de crianças em movimento,
seguidos de texto descrevendo a importância de atividades físicas. |
Pesquisar em jornal ou revista
nomes de atletas. |
| 09/09/2003 |
Cuidados
com o meu corpo.* |
Maneiras de cuidar do corpo
e caça-palavras de partes do corpo. |
Encontrar palavras. |
| 23/09/2003 |
Roupas
que uso.* |
Perguntas sobre o uso de vestuário
de acordo com clima. |
Colar gravura ou desenhar
pessoa usando roupas, de acordo com a situação climática. |
| 30/09/2003 |
|
A
estátua. |
Poema de Maria da Graça Rios. |
Formar nomes de movimentos
do corpo. |
| 01/10/2003 |
|
O
tempo não pára.* |
Poema, acompanhado de calendário
de mês. |
Preencher calendário. |
| 25/11/2003 |
Os
animais.* |
Informações sobre características
de animais. |
Leitura e comentários pela
Professora. |
| 25/11/2003 |
Se
eu pudesse... |
Adaptação do poema de Raquel
Field, seguida de informações sobre classificação de animais. |
Leitura e comentários pela
Professora. |
| * sem referência bibliográfica |
QUADRO 3.4: SUPORTES DE REFERÊNCIA PARA A PRODUÇÃO DE TEXTO.
| Data |
Suporte |
Texto |
Conteúdo |
Atividade |
| 24/06/2003 |
Folha
escaneada de livro didático e mimeografada. |
Os
três porquinhos. |
Texto reproduzido do pré-livro
original, utilizado na alfabetização na década de 1970. |
Colorir: copiar o texto trocando
o nome das personagens, recriando outra história. |
| 25/08/2003 |
| 29/09/2003 |
| 26/11/2003 |
| 08/12/2003 |
| 02/09/2003 |
Quadros
ilustrados em cartolina. |
Nina,
a tartaruguinha. |
História de exposição das
cenas em cartazes. |
Leitura pela Professora; escrever
o nome dos animais; ilustrar. |
| 04/09/2003 |
Folha
escaneada de livro didático e mimeografada. |
Produção
de texto dirigido. |
Desenho de 3 animais acompanhados
de texto com lacunas. |
Preencher as lacunas descrevendo
as características de cada animal. |
| 23/09/2003 |
Folha
escaneada de livro didático e mimeografada. |
História
fatiada. |
História desordenada com ilustração. |
Recortar as frases; organizá-las na seqüência da história. |
| 25/11/2003 |
Folha
escaneada de livro didático e mimeografada. |
Produção
de texto. |
Seqüência de 4 gravuras, seguidas
de frases com lacunas. |
Preencher as lacunas formando
uma história. |
| 04/12/2003 |
Folha
escaneada de livro didático e mimeografada. |
Produção
de texto. (avaliação). |
Ilustração seguida de quadro
de palavras e de texto lacunado. |
Completar as frases com as
palavras do quadro. |
QUADRO
3.5: SUPORTES PARA ESCRITA DE DITADO.
| Data |
Suporte |
Texto |
Conteúdo |
Atividade |
| 28/08/2003 |
Folha
escaneada de livro didático e mimeografada |
Autoditado. |
Seqüência de desenhos de objetos
diversos |
Escrever os nomes dos desenhos.
|
| 04/09/2003 |
Folha
digitada e mimeografada |
Ditado. |
Lista de palavras com espaços
numerados |
Reescrever as palavras na
seqüência ditada pela Professora. |
| 12/09/2003 |
Folha
escaneada de livro didático e mimeografada. |
Ditado
recortado. |
Figuras com espaços lacunados
e lista de nomes não ordenados |
Recortar os nomes e colar
nas respectivas lacunas. |
| 30/09/2003 |
Folha
escaneada de livro didático e mimeografada. |
Ditado
enigmático. |
Seqüência de desenhos |
Formar novas palavras com
as letras iniciais dos nomes dos desenhos. |
| 01/10/2003 |
Folha
digitada e mimeografada |
Ditado. |
Lista de 35 palavras |
Numerar de acordo com ordem
de leitura da Professora. |
| 03/12/2003 |
Folha
digitada e mimeografada |
Ditado
(avaliação). |
Folha de linhas |
Escrever palavras ditadas
pela Professora. |
| 08/12/2003 |
Folha
digitada e mimeografada |
Ditado. |
Espaços numerados de 1 a 20 |
QUADRO 3.6: BILHETES.
| Data |
Suporte |
Texto |
Conteúdo |
| 09/06/2003 |
Papel cartão, digitado e impresso. |
Convite |
Convite dirigido aos pais
para participarem da exposição dos trabalhos desenvolvidos com as
crianças com o tema: “História da minha vida”. |
| 13/06/2003 |
Tira de papel digitada e mimeografada. |
Bilhete |
Enviado aos pais pela Coordenação
Pedagógica avisando a suspensão das aulas no dia 16, devido reunião
das professoras para a escolha do livro didático de 2004. |
| 13/06/2003 |
Enviado aos pais pelas professoras
avisando a suspensão das aulas no dia 17, devido a paralisação dos
professores para participação em assembléia do sindicato da classe. |
| 26/06/2003 |
Enviado aos pais avisando
a suspensão das aulas no dia 27, para realização de reunião pedagógica. |
| 26/06/2003 |
Aviso escrito no quadro, suspendendo
as aulas no dia 5 devido paralisação dos professores para participação
em assembléia do sindicato da classe. |
| 20/08/2003 |
Enviado aos pais convidando
para reunião de entrega de boletim. |
| 29/09/2003 |
Autorização dos pais para
excursão ao SESC – Venda Nova. |
| 03/10/2003 |
Aviso aos pais da dispensa
de aula para reunião administrativa sobre o PDPI. |
| 26/11/2003 |
Aviso aos pais da dispensa
de aulas do dia 27 para reunião pedagógica mensal. |
| 01/12/2003 |
Solicitando aos pais salgados
para a festa de despedida do ano letivo. |
| 08/08/2003 |
Folha
de papel ofício digitada e mimeografada. |
Cartão |
Cartão com mensagem em homenagem
ao dia dos pais para colorir. |
8. O ensino
e a aprendizagem da língua escrita
A turma observada conviveu com uma diversidade de textos que variaram
do texto de cartilha a letras de músicas, poemas, parlendas, advinhas,
provérbios, cruzadinhas, passatempos, histórias. No trabalho
realizado com a área de Ciências Naturais e Estudos Sociais,
as crianças tiveram acesso a textos de informação
científica, copiados de portadores de livros didáticos.
As crianças receberam muitos bilhetes dirigidos aos pais, comunicando
encaminhamentos da rotina da escola. Neste quadro real de sala de aula
identificam-se dados que são fundamentais para se compreender o
processamento das aulas, concomitante ao uso desses suportes.
Um primeiro dado está no âmbito da utilização
do suporte recorrente, o texto de cartilha, copiado na mesma ordem da
edição original (as crianças tinham coladas no caderno,
até no mês de junho, data do início efetivo de observações,
13 leituras e até no final do ano letivo 42 leituras, no total).
O segundo dado é em relação a freqüência
de textos “reais”, mas com pouca função sócio-comunicativa
ou de letramento. A Professora selecionou, para o ensino da língua
escrita, textos exclusivamente de suporte didático. Eximiu-se,
entretanto de selecionar suportes de jornais, revistas, enciclopédias,
livros de literatura que poderiam, além de auxiliar no processo
de aquisição da língua escrita, acrescentar no processo
o reconhecimento da função social da escrita.
O terceiro dado diz respeito às cópias, da maioria dos suportes,
feitas através do scanner e reproduzidas no mimeógrafo à
álcool. A relação do uso de tecnologia avançada
com o uso de tecnologia antiga na produção da materialidade
pedagógica é um fator que reflete o significado de ensino
e aprendizagem da língua escrita para a Professora. O scanner é
meio utilizado para cópia de suporte obsoleto, a cartilha, e também
para a cópia, de textos informativos e de histórias sem
referências bibliográficas, para as atividades pedagógicas,
inseridos em suportes didáticos de inexpressiva função
comunicativa.
O quarto dado é sobre o conteúdo e o processo de produção
dos textos com função de interação entre a
escola e os pais. As crianças receberam muitos bilhetes dirigidos
aos pais, comunicando encaminhamentos da rotina da escola. Estes bilhetes
eram digitados, impressos no estêncil e também reproduzidos
no mimeógrafo a álcool. Não havendo na sala de aula
nenhuma ação da Professora que suscitasse o reconhecimento
deste suporte como objeto social de representação da escrita,
se interrogaria, como seria a interação na sala de aula
com uso desse suporte?
9. A interação
na sala de aula
A interação professora- alunos está inserida nos
eventos de ensino e aprendizagem da língua escrita. O conceito
de evento está fundamentado na concepção de Heath
(1982): “um evento de letramento é qualquer situação
em que um portador qualquer de escrita é integrante da natureza
das interações entre os participantes e de seus processos
de interpretação” (op. cit. tradução
Soares, 2002, p. 145). Neste caso, estamos abordando eventos de ensino
e aprendizagem da língua escrita, na sala de aula.
Os eventos, de análise da língua escrita, eram nomeados
pela Professora de “aula de leitura”. A Professora escreve
primeiro no quadro de qual família silábica vai tratar;
pede que as crianças digam “palavras que têm aquela
família” a ser estudada. A Professora pergunta quem sabe
de palavras que tenham... (enuncia a família silábica);
escreve a família silábica no quadro; registra no quadro
as palavras que as crianças falam; depois pede que escolham algumas
palavras que estão registradas no quadro e “formem frases
ou separem em sílabas”. Vejamos no recorte do evento a seguir,
a relação da professora e dos alunos com o ensino e aprendizagem
de língua escrita:
Aula do dia
1 de outubro de 2003
(A Professora escreve no quadro “Português – 01/10/2003”,
abaixo “Leitura 24a )
Prof:- Vamos aprender agora palavras com 2 esses. Paloma fala pra nós
palavras, uma palavra com 2 esses.
Al: - Jéssica! ( A aluna fala o próprio nome)
Prof: - Paloma!( Repreendendo a aluna Jéssica. A aluna Paloma não
fala.)
A2: - Larissa! ( Outra aluna fala o próprio nome. A Professora
vai ao quadro e registra Jéssica e Larissa)
Prof: - Jes...si...ca...la...ris...sa.
A3: - Larisse!(Um aluno fala o nome de outra colega da turma. A Professora
vai ao quadro e acrescenta o nome. Os outros alunos repetem os mesmos
nomes. Confusão de nomes que não têm dois esses)
A4: - Saco! Saco! Saco! ( O aluno repete insistentemente, até que
a Professora, vira-se para a turma.)
Prof:- Saco??? Nós vamos escrever saco, então, tá?
(Escreve “SSACO” no quadro) Lê, aí, agora! (Aponta
a palavra, olhando para o aluno que ditou. O aluno balança negativamente
a cabeça, em dúvida.)
A5: - Nãoô! ( Um aluno olha a escrita no quadro e expressa
discordância)
Prof: - Nós iniciamos fra...palavra com 2 esses?..(Confusão
de “sim” e de “não”. A Professora ouve
outros nomes e escreve no quadro: Jussara, Vanessa.)
A5: - É pra copiá, tia?
Prof:- Tem um nome de um bicho que voa também com 2 esses...
Als: - Passarinho!
Als: - Avestruz! (Os dois nomes foram ditos ao mesmo tempo).
A6: - Avestruz! Avestruz!
A1: -Ô tia, passado!
A6: - Ô tia, Avestruz!
(A Professora escreve passarinho no quadro. Vai atrás da porta
e pega uma vassoura.)
Prof:- Qual é o nome disso aqui?
Als: - Vassoura!
(A Professora escreve no quadro)
A7: - Ave!
A8: - Ô, tia, Vaneusa
Prof:- Neusa?
A8: - Vaneusa ... É Vanes...sa:
A9: - Urso!
A6: - Tia, Avestruz!
Prof: - Avestruz... Ele tá perguntando...ô...pro cês
vê, gente: (Escrevendo no quadro “avestruss” com dois
esses no final.) Ô! Existe palavra terminada com 2 esses?
Als: - Tem!!!
Prof: - Existe???
Als: - Existe.
Prof: - Não!!! Avestruz é com Z no final! (Apaga a palavra,
escreve novamente acentuando o tamanho do Z, no fim) A/VES/TRUZ!
(Confusão de vozes. Todos ditam palavras ao mesmo tempo. Alguns
vão até a Professora e falam só para ela. A Professora
registrou depois passageiro, passageira, passado, massa, passa, tosse)
Prof: - Agora nós vamos escolher 7 palavras dessas e vamos separar
em sílabas.
A5: - Eu vou separar todas!
Prof:- A Maysa falou que vai separar todas... Quando eu vou ...Vamos vê...Vamos
escolher uma aqui...Vamos escolher Jussara. Os dois esses...Só
uma pergunta: como é que separa Jussara? (A Professora vai ao quadro)
Ju...ssa...ra...Quantas sílabas tem Jussara
Al: - Ô tia tá errado!
Als: - Três!!!
Prof: - Três. Três sílabas. Trissílaba
A10: -Ô tia, cê pôs os esses!
Prof: - Ah! O Daniel fez uma pergunta excelente. Os dois esses ficam juntos?
Quando eu separo em sílaba, os dois esses não ficam juntos.
Um vai pr’um lado, o outro vai pro outro, tá bom? (Separa
a palavra em sílabas novamente no quadro)
A3: - Eles brigam.
Prof: - Eles brigam? Se ficarem juntos eles brigam? Então um S
pro lado, o outro pro outro. Concordam com isso: eles brigam?
Als: - Não!!!
A5: - Eles brin...cam!
Prof: - Eles ficam brincando, né isso? Eles ficam brincando, então,
pra não ficar brincando, um vai pr’um lado, o outro vai pro
outro.
A11: -Eu vou colocar junto...
Prof: - Então, na hora de separar em sílabas, não
coloca junto.
A11: -Eu vou colocar...
Prof: - Aí fica errado.
A11: -Fica nada...
10. Conclusão
As mudanças conceituais porque passaram o conceito de alfabetização
– e têm veementemente passado, provocaram – e tem provocado
- o questionamento, de método. E como Soares já afirmara,
“são concepções diametralmente diferentes,
e até conflitantes, do processo de aquisição da língua
escrita que estão em jogo”. (Soares, 2004, grifo nosso).
Desse modo o que se pôde verificar na prática de ensino da
Professora foi o ir e vir numa concepção e noutra do processo,
conferindo um certo prejuízo na compreensão do funcionamento
da escrita – tanto para os alunos quanto para a própria Professora.
Neste aspecto ocorre o que Soares define como conflitante e até
mesmo “prejudicial”, quando se verifica a tentativa de adotar
método de ensino, em sua concepção tradicional, na
perspectiva psicogenética, que considera o aprendiz o centro do
processo, sujeito ativo que define seus próprios problemas e constrói
ele mesmo, hipóteses e estratégias para resolvê-los
(Soares,2003).
Outra questão fundamental é a de que a mesma Soares tem
denunciado, - a falta de especificidade no processo do ensino da aquisição
da língua escrita. No decorrer das observações de
eventos de ensino e aprendizagem da escrita, se verificou que a especificidade
do processo – compreender o funcionamento do sistema da escrita
– se diluiu na medida que se realizavam tarefas que já se
exigem compreensão da escrita – formar palavras, separar
sílabas, formar frases. O fato da turma ter sido composta por crianças
que sabiam ler e escrever um pouco, suscitou a não necessidade
de análise e compreensão da relação fonema/grafema.
Levou-se em conta, então, que o processo de alfabetização
estaria pronto e acabado neste aspecto ou se demonstrou compreender o
processo de alfabetização como um sistema de aprendizagem
por associação, em que se vai formando sílabas, palavras,
frases, até que se escreva “corretamente”.
Um terceiro fator importante é o de que se tem denunciado, com
muita coerência em Soares, acerca do Letramento, como fenômeno
que não deve ser desassociado do processo de ensino e aprendizagem
do funcionamento do sistema de escrita. É explícita a ocorrência
desse fator na sala de aula observada, uma vez que a Professora desloca
situações de Letramento das situações de ensino
e aprendizagem da escrita. desse modo verifica-se uma concepção
de língua como estrutura e não como interação.
Uma ultima consideração é a de reportar à
reflexão feita por Isabel Frade. No artigo Alfabetização
Hoje: - onde estão os métodos?, Isabel conduz os pesquisadores
e formadores de professores à repensarem sobre a memória
das práticas dos professores alfabetizadores, uma vez que no contexto
atual, o que se tem feito é um investimento voltado para a formação
de professores considerando “as concepções de alfabetização,
sobretudo aqueles ligados à função social da escrita
e o processo psicológico de construção desse conhecimento”
(Frade, 2003, p.18). Segundo Frade, estas concepções “tornaram-se
baluartes da formação de professores e da divulgação
de inovações em alfabetização” (Frade,
2003, p.18). Frade alerta, tal como Soares, como conseqüência
desse quadro, o esquecimento de “uma das facetas mais importantes
da alfabetização – a decodificação –
[...] tanto nas pesquisas, quanto nos discursos autorizados de alfabetizadores.”
(Frade, 2003, p.18). Ao demonstrar, com exemplos de relatos de prática
de ensino e aprendizagem da língua escrita em sala de aula, Frade
conclama aos interessados que é necessário reconhecer nas
práticas dos professores a adoção de estratégias
metodológicas que, mesmo evidenciando a aplicação
de princípios dos métodos nomeados como tradicionais, tem
estado “presentes, no momento certo, para os alunos certos, na ordem
estabelecida pela necessidade pedagógica, e que são melhor
aproveitadas por quem já tem conhecimento de métodos e possui
a memória desses procedimentos” (Frade, 2003, p. 21). No
mesmo artigo, a autora reflete sobre o reconhecimento nessas práticas
como uma tentativa do professor de hoje conciliar os métodos que
“conheceram antes, para garantir o trabalho com a decodificação,
com inovações pedagógicas imanadas do discurso científico
e dos órgãos oficiais.” (Frade, 2003, p. 22). Entre
outras considerações importantes de Frade, há de
se considerar uma que vem de encontro à reflexão que se
tem feita na análise dos dados da pesquisa: a insistência
de alguns professores em permanecer com determinados procedimentos não
privilegiados nos discursos científicos e pedagógicos de
inovação. A autora coloca em xeque se essa insistência
é uma questão de desinformação ou demonstração
da “força e permanência de uma cultura pedagógica
possível de ser praticada.” É uma questão que,
diante do que foi demonstrado nesta pesquisa, extrapola a posição
que a autora toma frente a essas permanências. A própria
autora sinaliza que essas permanências, aliadas aos procedimentos
orientados pelo discurso da inovação, têm refletido
resultados positivos no processo de aquisição da língua
escrita. Por outro lado, na análise desta pesquisa, não
se ousaria a conferir a adoção da Professora de práticas
da “permanência”, como fator que contribuiu para o sucesso
no processo, pelas crianças. No universo da sala de aula, 6 crianças
não avançaram satisfatoriamente no processo. Seis crianças
é um número razoável para que se adotassem procedimentos
pedagógicos que as atendessem, tanto quanto a maioria foi “atendida”.
Esta maioria, entretanto, demonstrou, desde o início do ano letivo
um grau de compreensão do funcionamento do sistema de escrita,
adquirido antes de ingressar na escola. No entanto, os 6 alunos que escamotearam
de certa forma o “desconhecimento” do funcionamento do sistema
de escrita, na realização do teste, sinalizaram durante
o ano que a prática da Professora – conciliando permanências
e procedimentos inovadores- não as auxiliava à aquisição
da escrita.
Concordamos com Frade que não há como negligenciar as posições
tomadas pelos professores em relação as mudanças
pedagógicas propostas, advindas do discurso inovador e dos órgãos
oficiais. Mas, mais do que isso, concordamos também que é
necessário considerar e “compreender determinados ordenamentos
metodológicos, a partir do ofício e saberes do alfabetizador”.(Frade,
2003, p. 18). Por causa dessas considerações e, tendo em
vista a prática realizada na sala de aula e o estudo do processo
de aquisição da escrita dos 6 estudos de caso, é
que se vê a necessidade de compreender também essas permanências
e inovações ocorridas na sala da pesquisa. Em que medida
as permanências foram eficazes para o processo de aprendizagem dos
sujeitos focados? Em que medida a Professora teve a competência
de conciliar permanência e inovação, de modo a garantir
a decodificação, a compreensão e a identificação
da função social da escrita?
Considerando que a Professora é cursista de um agente formador
oficial, essas reflexões reforçam ainda mais a sugestão
de Frade: - a de que é necessário identificar no alfabetizador
suas concepções, sua memória escolar e sua posição
frente ao processo. Ainda, dentro da sugestão de Frade, estaríamos
perdendo tempo, enquanto houver como princípio na formação
de alfabetizadores, “os argumentos que promovem a legitimação
de certas concepções pedagógicas sobre alfabetização
em várias instituições, como o Mistério da
Educação, Universidades, Centros Universitários e
associações de professores por vezes coincidentes, por vezes
contraditórios a outros saberes ou necessidades pedagógicas
presentes no campo da Educação e da alfabetização”
(Frade, 2003, p. 19)
A questão não é a de defesa ou de contraposição
ao fazer do alfabetizador, baseado na prática e no conhecimento
acumulado na sua trajetória profissional. Mas de identificar o
que tem ocorrido na sala de aula, durante o processo de compreensão
do funcionamento do sistema alfabético. É necessário
identificar se o ensino da língua perpassa pela concepção
de língua enquanto interação. O processo da decodificação,
entendemos, tem momento para terminar, por isso a necessidade de compreendê-lo,
como uma das facetas do processo de alfabetização. Compreendendo
esta faceta do processo, se poderia pensar o que estabelecer para a formação
dos alfabetizadores. Poderemos entender, também, o que de fato
tem sido deixado de ser feito na sala de aula, que não tem permitido
que a compreensão do processo seja alcançado por todos.
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