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EDUCAÇÃO
E PROPAGANDA: VÍNCULOS INSTITUCIONAIS EM PROGRAMA EDUCATIVO DE
UMA EMPRESA
Eneida
Fátima Marques
Introdução:
Nossa escola,
uma escola municipal de Ensino Fundamental, situa-se em Nova Sousas, uma
região limítrofe entre o urbano e o rural campineiro –
talvez os últimos remanescentes da cultura rural herdada dos migrantes
italianos estejam ali, tentando manter seu modo de vida.
A empresa multinacional Merck Sharp & Dohme, indústria química
produtora de medicamentos, se estabeleceu nessa área há
cerca de 50 anos e foi a sua demanda por mão de obra uma das principais
responsáveis pelo êxodo rural ocorrido então, com
os pequenos proprietários deixando a agricultura para se tornar
operários. Desde então, mantém-se como empregadora
da maior parte dos moradores do bairro que cresceu ao seu redor, Nova
Sousas, e centro da vida econômica das famílias moradoras.
Qual é a relação entre ambas, escola e empresa: os
filhos de operários e aspirantes a futuros empregados da empresa
estudam em nossa escola. Como escola, temos interesse pelo cenário
socio-histórico em que nossa clientela vive, e naturalmente a empresa
está entre nossas preocupações não somente
em relação aos nossos alunos mas porque tem uma interferência
ambiental na região que não pode ser ignorada. Muitas vezes
temos sido levados até ela para procurar sua parceria para nossos
projetos e embora nos ouçam sempre com atenção, nunca,
até o momento, nossas solicitações foram atendidas.
No início do ano passado, 2004, fomos convidados para uma reunião
nas dependências da empresa, em que seria lançado um projeto
de educação ambiental para as escolas públicas e
privadas da região, a ser gerido e aplicado por profissionais contratados
pela própria empresa. No lançamento houve uma fala preliminar
da responsável pelas relações institucionais e um
alto executivo, que falaram da importância da iniciativa, etc, etc.
O programa contou com um curso de capacitação para os professores
a ser ministrados por professores da PUC – que abrangeu três
áreas: estudo social e político da questão e levantamento
das modificações ambientais sofridas pela região,
para o que recebemos uma apostila com alguns textos de autoria dos professores
responsáveis, finalizando com algumas sugestões de atividades
a serem propostas para os alunos das escolas participantes. Os alunos
ainda participaram de uma visita a uma fazenda da região na qual
há diferentes tipos de panoramas, formando uma diversidade desejável
para uma atividade educativa como aquela. Nessa fase, cada escola deveria
participar com um projeto de atividades próprio, de forma a aproveitar
o estudo do meio de modo a integrá-lo aos conteúdos trabalhados
em sala de aula. Para isso, foram doados para cada escola uma coleção
de livros didáticos e um gibi, que contava com uma história
em quadrinhos e joguinhos como caça-palavras, cruzadas, etc. Por
fim, uma exposição na praça de Sousas, durante o
“ Reviva o Rio Atibaia”, que é um evento promovido
por uma ONG local – a Jaguatibaia - no qual há exposições,
apresentação de música, uma retirada simbólica
do lixo do rio, entre outras atividades. Essa exposição
é o ponto culminante do projeto, quando o trabalho dos alunos das
escolas (tb dos professores das escolas e da empresa) se torna conhecido
pela população. Ainda houve palestras proferidas por profissionais
que lidam com a questão ambiental e uma avaliação
final, da qual tiramos um documento, a ser enviado a faculdades de engenharia
e arquitetura, solicitando modificações nas concepções
dos projetos, prevendo um futuro em que a água seja um material
escasso.
Todas as atividades propostas, assim como o calendário e o material
utilizado foram executados por uma empresa de propaganda e marketing da
região, que se incumbiu de, desde nos contatar e organizar os encontros
até com a elaboração do material utilizado –
as apostilas, os cartazes, os gibis e, por fim, uma grande maquete da
região de Sousas, sobre a qual os estudantes fizeram o trabalho
de reconstituição do panorama da região. Os encontros
para capacitação foram orientados por professores da PUC,
na forma de aulas teóricas e debates e um estudo do meio na fazenda
que os alunos visitariam.
Tendo achado
a iniciativa válida por inúmeros fatores, gostaria de pontuar
aqui algumas questões que se mantiveram após todo o processo.
Em primeiro lugar, inquietou-me o fato de que não havia nenhum
pedagogo na equipe de elaboração e execução
do projeto. Havia, sim, professores universitários que não
formavam educadores. Além deles, grupo de funcionários da
empresa e a empresa de Marketing e propaganda responsável pela
execução do projeto. Essa observação não
significa que sou favorável à uma espécie de reserva
de mercado, ou pense que apenas pedagogos podem pensar a educação.
Mesmo porque, minha formação é em Letras.
Mas penso haver uma questão de fundo que se coloca não só
na composição do projeto e de todo o processo, mas que pode
ser apontada mesmo no material produzido como instrumento educativo: a
de como se processa a aprendizagem de um determinado conteúdo,
de como são elaborados os dados da realidade quando se tem por
objetivo o conhecimento e não uma adesão mecânica
a posições ou a uma idéia.
Inicio lembrando
que foi no século XVIII, o chamado século das luzes, na
França, que se delineou esse objetivo de instrução
para uma população o mais ampla possível, assim com
as formas de se instruir essa população. Nesse movimento,
as formas de difusão do pensamento por meio das novas tecnologias
– a imprensa, principalmente – garantiam que esse círculo
se ampliasse.
Por outro lado, historicamente, só teremos notícia de um
uso explícito da propaganda na República de Weimar, com
Hitler criando um ministério para tratar da disseminação
das idéias do nacional-socialimo, e se utilizando de todos os meios
de divulgação então disponíveis: cinema, rádio,
a imprensa, a própria educação... Filósofos
como Adorno e Benjamin reconfiguraram, para esse contexto, os papéis
da educação e os limites entre esta e a chamada “indústria
cultural”. O segundo, diferentemente do primeiro, inclusive nos
aponta o que seria eminentemente político nos produtos dessa indústria.
Tendo a acreditar que, muitas vezes, como por exemplo nessa experiência
que acabei de narrar, encontramos entrelaçados não só
objetivos como também métodos de abordagem e técnicas
de elaboração de materiais em que ambas, a educação
e a propaganda, são de algum modo agenciadas.
A maneira como se constitui o interlocutor para o produtor do texto, o
lugar em que se colocam a empresa e os professores, ao tratar o professor
de ensino fundamental e o aluno mostram algumas tendências, que
enumero:
1 – De segmentar o saber, ao tratar o conteúdo com o”
conhecimento facilmente digerível” , palatável ao
um não letrado (quem seria esse? Professores ou alunos?)
2- De procurar estabelecer com esse interlocutor uma relação
de cumplicidade, de modo que se crie uma relação afetiva
entre esse e o conteúdo (p. ex. identificação do
morador com o mapa de sua comunidade, os personagens das HQs ...) Aí
se estabelece uma ambigüidade: a busca é de adesão
ou de esclarecimento?
3 –De a empresa se colocar num patamar inatingível: é
aquela que proporciona, mas não se deve questionar seus objetivos
além do que voluntariamente nos é dito.
Essa análise é possível porque, ao produzir esse
material educativo, os profissionais da propaganda deixaram explícita
sua visão do processo educativo, ao mesmo tempo em que tentam dar
visibilidade à empresa, à sua adesão à chamada
“ responsabilidade social”.
E isso é
possível porque ao produzir esse material educativo, os profissionais
da propaganda deixaram explicitada sua visão do processo educativo,
ao mesmo tempo em que nos ficaram claras suas intenções
de dar visibilidade à empresa, ao seu movimento de adesão
à chamada “responsabilidade social”. |
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