Kelly Cristina Costa Martins – Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS
1 – INTRODUÇÃO
“ O desafio é formar praticantes da leitura e da escrita,
e não apenas sujeitos que possam decifrar o sistema de escrita.
É – já o disse – formar leitores que saberão
escolher o material escrito adequado para buscar a solução
de problemas que devem enfrentar e não alunos capazes apenas de
oralizar um texto selecionado por outro. É formar seres humanos
críticos, capazes de ler entrelinhas e de assumir uma posição
própria frente à mantida , explícita ou implicitamente,
pelos autores dos textos com os quais interagem, em vez de persistir em
formar indivíduos dependentes da letra do texto e da autoridade
dos outros.“ (LERNER, 2002)
“ O desafio que devemos enfrentar, nós que estamos comprometidos
com a instituição escolar, é combate a discriminação
desde o interior da escola; é unir nossos esforços para
alfabetizar todos os alunos, para assegurar que todos tenham oportunidades
de se apropriar da leitura e da escrita como ferramentas essenciais de
progresso cognoscitivo e de crescimento pessoal.”
(LERNER, 2002)
O presente trabalho tem como objetivo apresentar os resultados parciais,
de uma pesquisa de cunho qualitativo que estamos desenvolvendo intitulada:
Crianças e a Escrita nos Primeiros Anos de Escolarização.
Investigamos como as crianças iniciantes no processo de alfabetização
são apresentadas ao mundo da escrita e qual o papel das professoras
alfabetizadoras na constituição de alunos escritores.
Nos limites deste trabalho apresentaremos o suporte teórico elaborado
para a compreensão das questões apresentadas, bem como indicaremos
o caminho metodológico que pretendemos seguir para a conclusão
deste trabalho.
2 – LEITURA E ESCRITA
A escrita surge na história da humanidade por volta do ano 400
a.C., praticada nas paredes das cavernas por meio de desenhos, também
denominados signos, sendo que, essa modalidade não seguia um padrão
ou uma forma convencional, mas era feita com espontaneidade pelos pré-históricos.
Com o desenvolvimento agrícola e o nascimento do comércio
a escrita passa a se tornar uma prática indispensável, pois,
as pessoas passam a ter necessidade de anotar e arquivar informações.
Isto fez com que a escrita garantisse direitos e privilégios de
algumas comunidades, passando a exercer um papel significativo na forma
de pensar da humanidade, já que mesma registra a língua
falada e a conserva no tempo. (Espíndola, 2003)
A partir do momento que a escrita se insere como necessidade para o desenvolvimento
sócio-econômico e cultural a leitura, por sua vez, passa
a ser também uma prática indispensável. Assim, língua
escrita e língua falada passam a estar interligadas. (Espíndola,
2003)
“É preciso observar também, que a leitura é
sempre uma prática encarnada por gestos, espaços e hábitos.
Longe de uma abordagem fenomenológica que apaga as modalidades
concretas da leitura, considerada como um invariante antropológico,
é preciso identificar as disposições específicas
que distinguem as comunidades de leitura, as maneiras de ler.”(Cavallo
& Chartier, 1998, p. 6)
Portanto o ato de ler não deve ser concebido como
algo que acontece sempre da mesma forma, pois a humanidade não
se relaciona da mesma maneira em diferentes condições sócio-econômicas,
político e cultural (Espíndola, 2003). Assim, em determinada
época e em determinado lugar teremos diferentes tipos de textos
e consequentemente diferentes tipos de leitura.
Abreu (apud Espíndola, 2003) enfatiza ainda que, a leitura não
deve ser concebida como prática neutra, mas como campo de disputa,
de espaço e poder.
Diante de tal análise verificamos que a formação
do leitor se dá no emaranhado das condições sociais
objetivas (Espíndola, 2003), ou seja, a realidade na qual se encontra
o sujeito pode favorecer ou não sua constituição
enquanto leitor.
3 – UM BREVE PANORAMA DA HISTÓRIA DA LEITURA
Uma história da leitura não deve limitar-se
apenas à genealogia da maneira contemporânea de ler em silêncio
e com os olhos. Ela tem também, e talvez, sobretudo, como tarefa
reencontrar os gestos esquecidos, os hábitos que desapareceram.
O desafio é muito importante, pois revela não só
a distante estranheza de práticas que eram comuns antigamente,
mas também o estatuto, primeiro e específico, de textos
que foram compostos para leituras que não são mais as dos
de hoje. (Cavallo & Chartier, 1998, p. 8)
Durante toda a Antiguidade predominou-se o discurso falado
como prática verdadeira a partir da idéia de que seus interlocutores
tinham a possibilidade de esclarecer às suas perguntas e responderem
a seus ataques. (Cavallo & Chartier, 1998)
Essa prática era defendida por Platão como discurso legítimo,
ao contrário da escrita que era considerada como veneno ameaçador
à legitimidade do texto escrito, pois, pode possibilitar interpretações
diferentes da pretendida pelo autor (Espíndola, 2003).
De acordo com Cavallo e Chartier (1998) as grandes bibliotecas não
eram criadas para o exercício da leitura, ainda que estivessem
tecnicamente dispostos para serem lidos, os livros eram mais acúmulos
de riqueza do que realmente lidos. Os livros eram sinais de grandeza das
dinastias que estavam no poder e a únicas pessoas que eram permitidas
a freqüentarem estas bibliotecas eram os mestres, os discípulos
e os alunos.
Essa realidade se transforma com o renascimento das cidades, onde os livros
passam a fazer parte da vida escolar, favorecendo o desenvolvimento da
alfabetização.
Cavallo e Chartier (1998) ressaltam que, é no século XIII
que nasce a biblioteca com a finalidade do exercício da leitura,
onde os livros estão realmente disponíveis ao leitor.
A partir desse momento histórico o livro1 passa a ser a prática
encarnada no ambiente escolar. Entretanto, mesmo estando de certa forma
mais próxima, não se pode afirmar que, a leitura ainda não
é uma prática desfrutada por todos.
4 – PROFESSOR–LEITOR
O profissional da educação vem sendo foco de amplos debates
nos últimos anos, tendo a mídia como um grande veículo
de denúncias sobre possíveis problemas na sua formação
enquanto alfabetizador. Esta refere-se ao professor alfabetizador como
um sujeito com sérias falhas nas suas capacidades para ler e escrever.
(Kleiman, 2001)
A mídia não se importa com as reais práticas dos
professores-leitores, com suas preferências, ou com os diferentes
modos através dos quais eles participam do universo da leitura
e da escrita.
Silva (1998) salienta que, há um vasto conjunto de dificuldades
entre ser leitor e ser professor no Brasil, em função do
desprestígio social da profissão, do tempo sacrificado e
do baixo salário. Além desses fatores negativos, que nada
favorecem a constituição da leitura no cotidiano do professor,
esse se depara com a barreira imposta pela elite intelectual que impõe
certos tipos de leituras consideradas como legítimas. Assim, o
professor não se sente à vontade para escolher seu próprio
material de leitura.
Essas práticas anulam a autonomia do professor, fazendo com que
este não tenha força para extrapolar os muros das leituras
didáticas ou meramente escolares.
Por isso, Brito (1998)2 afirma que, para boa parte dos professores, a
prática da leitura limita-se a um nível mínimo, pragmático,
dentro do próprio universo estabelecido pela cultura escolar e
pela indústria do livro didático. Profissionalmente, o professor
da escola regular de 1º e 2º graus não tem a obrigação
ou necessidade de ler além dos produtos que informam a prática
escolar. Por outro lado, como cidadãos, têm pouco acesso
a estes textos, tanto pelos veículos culturais estabelecidos, quanto
pela condição sócio-econômica.
Nesse sentido que Kleiman (2001) enfatiza a necessidade de se implementar
projetos políticos pedagógicos que estejam realmente endereçados
à formação de profissionais competentes, visando
prioritariamente a valorização do professor bem como sua
prática pedagógica.
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1 - e consequentemente o ato de ler.
2 – “(...) mais que ser leitor, ou não-leitor,
o professor é um leitor interditado (...)”
5 – AS PRÁTICAS DE LEITURA E ESCRITA NA ESCOLA
Ensinar a ler e a escrever é um desafio que transcende
amplamente a alfabetização em sentido escrito. O desafio
que a escola enfrenta hoje é o de incorporar todos os alunos à
cultura do escrito, é o de conseguir que todos os seus ex-alunos
cheguem a ser membros plenos da comunidade de leitores e escritores. (Lerner,
2002, p. 17)
A escola é constituída por regras e normas que ordenam o
processo ensino-aprendizagem, ou seja, os alunos são preparados
e organizados de acordo com sua faixa etária, o que determina tratamentos
específicos para cada grupo distinto. A esse processo se dá
o nome de escolarização, processo inevitável que
institui e constitui a essência da escola. (Soares, 2001)
Entretanto, Espíndola (2003) enfatiza que, mesmo fornecendo um
modelo de leitura escolarizada, a escola pode ainda representar3, uma
fonte de acesso a materiais escritos que favorecem a constituição
de leitores.
Portanto, a leitura e a escrita na escola não deve visar simplesmente
o fracasso ou o sucesso escolar, mas devem ser encaradas como práticas
essenciais para a inserção dos educandos na sociedade letrada,
proporcionando-lhes desenvolverem-se como seres críticos.
A leitura na escola é, antes de mais nada, um objeto
de ensino. Para transformar-se também em um objeto de aprendizagem
é preciso que tenha sentido, do ponto de vista do aluno –
entre outras coisas – que deva cumprir uma função
para realização de um próprio que ele conhece e valorize.
(Lerner, 2002)
Dessa forma, deve-se levar em conta a realidade e a preferência
pessoal do aluno, permitindo-lhe desenvolver sua autonomia. Nesse sentido
devemos evitar o quanto possível, que a leitura se caracterize
como tarefa voltada meramente para avaliação, pois, dessa
forma essa prática jamais será agradável por parte
do aluno.
Cabe ao professor incentivar os seus alunos a exercerem o ato da leitura,
indicando livros e proporcionando-lhes momentos de leitura, que é
o mais importante.
Sendo assim, Lerner (2002) afirma que o ambiente escolar deve visar a
leitura e a escrita como práticas vitais que permitem aos seus
educando repensar o mundo e reorganizar o próprio pensamento.
Com isso, os educandos conceberão a leitura e a escrita, não
como uma obrigação escolar, mas como prática prazerosa
e produtiva, possível de troca.
6 – CAMINHOS METODOLÓGICOS
Esta pesquisa faz parte de um projeto mais amplo4, de cunho qualitativo,
que investiga as práticas de escrita das professoras alfabetizadoras.
Buscamos nos limites deste trabalho, compreender como as crianças
fazem uso da língua escrita nos primeiros anos de escolarização
e qual o papel das professoras nesse processo.
Após a análise bibliográfica pertinente ao tema elaboraremos
os seguintes instrumentos para coleta de dados. Primeiramente selecionaremos
uma sala de aula da cidade de Água Clara, regida por uma professora
do curso de Pedagogia na modalidade à distância, depois sugeriremos
que ela desenvolva uma atividade relacionada à escrita para uma
possível gravação em vídeo. Além disso,
realizaremos uma entrevista com a professora regente, buscando compreender
sua relação com a língua escrita e de que forma esta
é utilizada em seu cotidiano pessoal e profissional.
Para tal objetivo buscamos responder as seguintes questões:
a) Como as professoras alfabetizadoras, responsáveis por introduzir
as crianças no mundo da escrita, fazem uso desta em sua vida e
em seu trabalho?
b) Que marcas de autoria deixam essas professoras?
c) Como se relacionam com a escrita?
d) Reconhecem-se como autoras? Escrevem?
e) Usam a escrita? Com quais Objetivos?
f) Como as crianças fazem uso da escrita no cotidiano da escola?
g) Como as professoras trabalham a língua escrita com essas crianças
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3 - especialmente para as camadas populares.
4 - a pesquisa ao qual este trabalho se veicula, trabalha
com mais 04 (quatro) cidades do interior do Estado de Mato Grosso do Sul.
7 – CONSIDERAÇÕES FINAIS
A revisão bibliográfica até o momento realizada nos
indica que a temática a que estamos nos propondo se faz bastante
multifacetada, sendo necessário avaliar os vários aspectos
que compõe a natureza do objeto investigado.
Sabemos que as práticas de leitura e escritas são sociais,
e que, portanto, se transformam e se diferenciam em momentos históricos
diferentes, devido às dificuldades de acesso ao universo letrado
produzido pela sociedade de classes.
Agora sabemos que a leitura é sempre – desde o começo
– um ato centrado na construção do significado, que
o significado não é um subproduto da oralização,
mas o guia que o orienta à seleção da informação
visual; agora sabemos que as crianças reelaboram simultaneamente
o sistema de escrita e a “linguagem que se escreve”.
O objetivo deve ser desde o começo formar leitores; portanto, as
propostas devem estar centradas na construção do significado
também desde o começo. Para construir significado ao ler,
é fundamental ter constantes oportunidades de se enfronhar na cultura
do escrito, de ir construindo expectativas a cerca do que pode “dizer”
neste ou naquele texto, de ir aumentando a competência lingüística
específica em relação à escrita. Portanto,
desde o princípio, a escola deve fazer as crianças participarem
em situações de leitura e de escritas: é necessário
por à sua disposição materiais escritos variados,
é necessário ler para elas muitos e bons textos para que
tenham oportunidade de conhecer diversos gêneros que possam fazer
antecipações fundadas neste conhecimento. (Lerner, 2002,
p. 41)
Assim, buscamos com esta investigação contribuir para a
compreensão de como as crianças dos primeiros anos do ensino
fundamental fazem uso da escrita bem como o papel desempenhado pelas professoras
neste processo, embora estejamos ainda em fase inicial da pesquisa já
nos foi possível perceber que tal investigação se
faz necessária até mesmo para desmistificar as questões
que as circundam.
BIBLIOGRAFIA
ESPÍNDOLA, Ana Lúcia. Entre o singular e
o plural: relação com o saber e a leitura nos primeiros
anos de escolarização. São Paulo. 2003.
PINTO, Ana Lúcia G. Narrativas de práticas de leitura: trajetórias
da professora alfabetizadora.
KLEIMAN, Ângela B. A formação do professor. Perspectivas
da lingüística aplicada. Mercado de letras, edições
e livraria. Campinas. São Paulo. 2001.
ALMEIDA, Ana Lúcia de Campos. O professor leitor, sua identidade,
sua práxis.
SOARES, Magda. A escolarização da literatura infantil e
juvenil.
LÜDKE, Menga S. e ANDRÉ, Marli E. D. A. Pesquisa em Educação:
Abordagens Qualitativas, editora pedagógica e universitária,
São Paulo, 1998.
LERNER, D. Ler e escrever na escola: O real e o necessário. Porto
Alegre. ArtMed. 2002.
CAVALLO, G. e CHARTIER, R. História da leitura no Mundo Ocidental.
São Paulo: Ática, 1998. vol. 1.