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A
ESCOLARIZAÇÃO DO TEXTO JORNALÍSTICO: POSSIBILIDADES
DE INTERLOCUÇÃO NA LEITURA-BUSCA DE INFORMAÇÕES
Liliana
Mendes - Faculdade Metodista Granbery/ FAMEG - Instituto Superior de Educação
de Santos Dumont/ ISESD
A entrada do jornal
e de outros portadores de texto nas salas de aula coincide com a mudança
de paradigmas para o ensino da leitura exigidas pelas transformações
relativas aos usos e funções da escrita na sociedade e produzidas
nos movimentos pela democratização do ensino. Em função
de tal mudança, a escola vem se apropriando paulatinamente dos
mais variados tipos de textos escritos para levar a efeito seus objetivos
educacionais, redirecionando as práticas de leitura na escola,
de forma a possibilitar a transposição dos limites do ato
de ler para além dos textos clássicos ou didáticos
e a superar o modelo autônomo de letramento escolar .
Porém, se por um lado a escolarização de gêneros
textuais reflete, em certa medida, novas formas de propor o ensino da
leitura, por outro lado, é sabido que a simples presença
de variados portadores e gêneros de texto nas salas de aula não
é condição suficiente para promover a superação
das práticas pedagógicas referentes ao ensino da leitura
que, muitas vezes, permanecem fundamentadas em pressupostos e concepções
que reduzem a leitura a um mero exercício de decifração
e ignoram as possibilidades de interlocução presentes num
dado texto.
Com base no exposto, este trabalho propõe explicitar como os textos
de jornal vem sendo escolarizados. Apoiada na concepção
sócio-interacionista de linguagem, apresento uma análise
das práticas de leitura escolar que se fazem do texto jornalístico,
no sentido de compreender em que medida a leitura deste gênero proposta
por professores em suas salas de aula coaduna-se com práticas de
leitura escolar voltadas para a formação de alunos leitores.
Para tal, tomo como referência o trabalho de GERALDI (1997) sobre
a prática de leitura na escola, segundo o qual as práticas
de ensino da língua portuguesa caracterizam-se por um falseamento
da interlocução que se estabelece na sala de aula.
Segundo este autor, o uso da língua, nesse contexto, é artificial,
ou seja, é voltado a objetivos estritamente escolares, onde os
envolvidos no processo de interlocução assumem papéis
bem definidos e estáticos: o professor/locutor, que é quem
ensina, tem direito à voz e fala. O aluno, que é quem aprende,
apenas devolve a fala do professor. (cf. GERALDI, 1997, p. 89-90).
O falseamento nesse processo está, portanto, no fato de o aluno
configurar-se como mero receptor do discurso do outro e não como
interlocutor verdadeiro, que é aquele que, como diz BAKHTIN (1999),
opõe à palavra do locutor uma contrapalavra.
Entendendo a leitura como uma forma de interlocução que
se estabelece entre o leitor e o autor, mediada pelo texto, GERALDI (1997)
afirma que se pode falar em leituras possíveis e em leitor maduro,
uma vez que na leitura o leitor reconstrói o sentido intencionado
pelo autor, dando sua própria significação ao texto
lido.
Assim sendo, as várias possibilidades de leitura se traduzem nas
várias formas de se estabelecer o processo de interlocução
entre leitor e autor através do texto.
Por isso, são as finalidades estabelecidas para a leitura de dado
texto que se traduzem nas possíveis posturas do leitor ante esse
texto: a leitura-busca de informações, a leitura-estudo
do texto, a leitura do texto-pretexto, a leitura-fruição
do texto. Estas são formas de interlocução possíveis
em qualquer texto.
Coadunar uma concepção de leitura, entendida como processo
de interlocução, com a prática de leitura da sala
de aula é, para tal autor e para mim também, a questão
fundamental a ser resolvida em relação à leitura
na escola.
No caso do texto de jornal, entendo, tal como KLEIMAN (1993) que os objetivos
propostos para sua leitura se relacionam com as estratégias para
abordar o texto na sala de aula (cf. KLEIMAN, 1993, p. 27). Sendo assim,
é possível afirmar que as posturas possíveis do aluno
ante o texto jornalístico são, em grande parte, definidas
pela prática pedagógica do professor.
Tendo em vista o que foi exposto, esta análise parte de uma categorização
que se define a partir das possibilidades de o aluno ler textos de jornal
na sala de aula, de acordo com as finalidades estabelecidas pelas professoras/sujeitos
desta pesquisa para a leitura de gêneros de texto do jornal. No
caso deste trabalho, a análise privilegia uma entre as possíveis
leituras dos texto jornalístico: a busca de informações.
Isso se justifica pelo fato de que os professores, invariavelmente, recorrem
a esta forma de propor a leitura do texto jornalístico e o justificam
em função do próprio suporte – o jornal –
entendido como veículo de informação.
A leitura do texto
jornalístico-busca de informações
Descrevendo as possíveis posturas do leitor ante o texto, GERALDI
(1997) afirma que a característica básica da leitura-busca
de informações é o objetivo do leitor. Assim, o que
define a interlocução que se estabelece neste processo de
leitura é justamente seu objetivo - a extração de
informações do texto - que é o que “permite
estabelecer o porquê da própria interlocução”
(p. 93). Mas para que o aluno atribua sentido a um dado texto, é
necessário estabelecer as finalidades para sua leitura, explicitando
o para quê ler este ou aquele texto, buscar esta ou aquela informação.
Ainda segundo GERALDI (1997), há duas formas metodológicas
que orientam esse tipo de leitura: “a busca de informações
com roteiro previamente elaborado”, em que o objetivo da leitura
é responder questões estabelecidas, e “a busca de
informações sem roteiro previamente elaborado”, que
tem por objetivo verificar quais informações são
trazidas pelo texto. “Nos dois casos, é prefacial a questão
do “para quê” ter mais informações”
(GERALDI, 1997, p. 94).
Em relação às práticas de leitura do texto
jornalístico-busca de informações, pude verificar,
pelas situações observadas em sala de aula, que a resposta
a esse “para quê” podia ser encontrada justamente na
forma como a leitura do texto jornalístico se coadunava com os
objetivos de ensino do professor.
Tais objetivos, embora sempre relacionados à aprendizagem de conteúdos
curriculares, eram concretizados através de orientações
metodológicas diferentes, de acordo com o papel que o professor
atribuía à leitura na escola.
a) A leitura do texto
jornalístico-busca de informações: o texto como fonte
de informação primária
Ao analisar a leitura do texto jornalístico cuja finalidade era
a busca de informações, constato que uma das orientações
metodológicas presentes na sala de aula consistia no uso do jornal
para subsidiar algum estudo definido a partir do programa de disciplinas
específicas.
Essa forma de propor a leitura de jornal foi observada em aulas de Geografia.
Com o objetivo de introduzir na classe o debate acerca da ocupação
do espaço rural brasileiro, a professora inicia o estudo a partir
da leitura de texto do livro didático e em seguida, solicitava
aos alunos que pesquisem mais sobre o assunto em jornais e revistas. Todo
o trabalho girava, assim, em torno da leitura de matérias jornalísticas,
até que a unidade de estudo fosse totalmente esgotada.
Nesta orientação metodológica, em que a busca de
informações no texto jornalístico se realizava sem
roteiro prévio e o objetivo da leitura era verificar quais informações
o texto oferecia, as matérias jornalísticas levantadas pelos
alunos faziam a ponte entre os conteúdos do currículo e
os fatos da realidade, permitindo a contextualização desses
conteúdos, através da leitura de textos diversos. Estes
serviam para prover a classe de informações que levavam
à compreensão não só do tema em estudo, mas
também do texto/detonador do estudo. Com base nas pesquisas feitas,
os alunos deveriam relatar por escrito e oralmente o que aprenderam. Tais
relatórios constituíam-se, assim, como o instrumento pelo
qual as possíveis leituras sobre o tema seriam explicitadas. Eram,
portanto, as leituras dos alunos materializadas na escrita . Desta forma,
ao mesmo tempo em que o aluno estivesse buscando informações
no texto jornalístico, discutindo e refletindo sobre elas, estaria,
também, se formando como leitor. Isso porque os objetivos para
a leitura do texto jornalístico para busca de informações,
descrita pelo exemplo, não se reduziam aos objetivos explícitos
relativos à aprendizagem de um conteúdo curricular. A leitura
era, nesse caso, também um objeto de aprendizagem, na medida em
que era um instrumento de ensino, uma vez que a compreensão do
texto didático era produzida a partir da leitura dos vários
textos jornalísticos que eram pesquisados pelos alunos.
Essa orientação metodológica coaduna-se com uma concepção
de aprendizagem entendida como construção individual, particular,
do conhecimento, mas “construída na interação
de sujeitos cooperativos que têm objetivos comuns” (KLEIMAN,
1993, p. 10).
A essa concepção de aprendizagem corresponde uma percepção
da leitura como produção de sentidos possíveis a
um dado texto, a partir da prática comunicativa, no diálogo
entre pessoas colocadas face a face, mas também no diálogo
entre textos.
Essa forma de entender a leitura era o que permitia, também, compreendê-la
como meio para a aprendizagem, uma vez que a leitura do texto jornalístico,
principalmente notícias, reportagens e artigos, juntamente com
a de outros gêneros de texto não-jornalísticos, justificava-se
a partir da possibilidade de aprender sobre um tema específico
e relevante, ainda que esta relevância se definisse do ponto de
vista da escola. Era, portanto, na produção de sentidos
que se dava a aprendizagem.
Nesse caso, a metodologia que orientava a leitura do texto jornalístico-busca
de informações guiava-se por uma concepção
de leitura escolar que ia ao encontro do conceito de leiturização
proposto por FOUCAMBERT (1993; 1995) e que correspondia a “um trabalho
de relacionar vários tipos de texto, de jornais inclusive, para
perceber como são tratados, de maneiras diferentes, os problemas
que vivemos”.
Ao relacionar o texto jornalístico e o didático, a professora
buscava, na relação entre estes textos, a possibilidade
de complementar informações que o livro didático
não trazia e, ao mesmo tempo, fornecer aos alunos várias
maneiras de ver e falar sobre o mesmo assunto, ultrapassando, assim, a
visão autoritária da leitura, que parte do pressuposto de
que há apenas uma forma de ler o texto, e que corresponde, por
sua vez, à compreensão do texto como repositório
de mensagens e informações (cf. KLEIMAN, 1993).
Deste modo, ainda que a busca de informações levasse à
consideração estrita daquilo que o texto didático
trazia em termos de conteúdo, a leitura/atribuição
de sentidos se produzia a partir da busca daquilo que era relevante no
texto, sob o ponto de vista dos alunos. Aqui, lia-se o texto jornalístico
para se aprender a respeito da ocupação do espaço
rural brasileiro.
Sendo assim, nessa orientação metodológica a leitura
do texto jornalístico-busca de informações não
se reduzia a um mero ler-para-responder-questões, ultrapassando
o que normalmente era a prática adotada pelo livro didático.
A adequação da leitura do texto jornalístico como
meio para a aprendizagem estava relacionada muito mais à orientação
metodológica adotada pelo professor do que aos suportes de textos
que eram utilizados. Por isso, a introdução desse gênero
de texto na sala de aula requeria uma metodologia que fosse além
daquela que o livro sugeria, embora o potencial de aprendizagem que se
encerra nos textos didático não fosse desprezado.
No entanto, não podemos perder de vista que o tema dos textos jornalísticos
a serem lidos para a busca de informações era definido a
priori, a partir do programa da disciplina, e que a relevância das
informações extraídas dos textos jornalísticos
selecionados pelos alunos se dava em função do currículo,
que era o ponto de partida para sua leitura. Nesse caso, a leitura-busca
de informações era feita para satisfazer uma exigência
do programa da disciplina e não uma necessidade do aluno de se
manter informado.
Isso limitava, até certo ponto, a relação do aluno
com o jornal, uma vez que os textos considerados para a leitura eram aqueles
que traziam informações explícitas a respeito do
assunto em estudo, não sendo considerados os outros textos do jornal.
Essa limitação se evidenciava na forma como os textos jornalísticos
se apresentavam nos trabalhos dos alunos: cartazes com matérias
jornalísticas recortadas e reproduzidas em xerox, e nunca o jornal
inteiro.
A relação que o aluno estabelecia com o jornal, nessa forma
de leitura do texto jornalístico-busca de informações,
obscurecia o caráter do jornal como portador de textos de gêneros
diversos , porque reduzia todos os gêneros jornalísticos
a textos informativos.
b) A leitura do texto
jornalístico-busca de informações: o texto como fonte
de informação complementar
Em uma outra situação de leitura observada numa classe de
terceira série, pude constatar uma postura diferente em relação
a essa forma de leitura.
Ao contrário da metodologia descrita anteriormente, o texto jornalístico
a ser lido não era selecionado a partir dos conteúdos programáticos,
mas a partir dos temas extraídos do próprio jornal.
A orientação metodológica adotada pela professora
da classe consistia, num primeiro momento, em levar os alunos a extrair
informações do jornal inteiro, buscando textos que fossem
relevantes do ponto de vista individual. Em seguida, as matérias
jornalísticas eram apresentadas em pequenos grupos ou individualmente.
Nesse primeiro momento, a preocupação da professora recaía
sobre a preservação da característica básica
do jornal enquanto veículo informativo e não como material
didático.
Por isso, normalmente a professora imprimia à leitura um caráter
lúdico, garantindo o prazer e o sentido do ato de ler, que se definia
pela finalidade a que se propunha a leitura-busca de informações
naquele momento: verificar que informações relevantes o
jornal trazia.
Era somente num segundo momento da aula que a professora definia o tema
a ser estudado, a partir de algum texto específico selecionado
no jornal.
Em uma das aulas observadas na turma, a apresentação das
matérias lidas pelos alunos deveria se dar em pequenos grupos,
através de um jornal falado. O interesse dos alunos sobre esse
tipo de atividade de leitura era notável: As crianças, reunidas
nos cantos da sala, sentadas ou deitadas no chão, envolviam-se
na leitura. Alguns alunos buscavam o significado de palavras no dicionário,
outros conversavam com os colegas sobre o texto a ser apresentado, tentando
estabelecer um acordo para sua apresentação.
Só depois da exploração do jornal inteiro a professora
definiu o tema a ser estudado, voltando seu foco para uma notícia
em especial, que era um dos muitos textos que poderiam constituir fontes
de informação. Essa notícia falava sobre uma nova
forma do vírus HPV e seria usada nas aulas de Ciências, uma
vez que o estudo em andamento, naquela disciplina específica, era
sobre viroses.
Nesse texto, a busca de informações era realizada sem roteiro
previamente elaborado: Primeiro, os alunos o liam em voz alta, alternando-se
na leitura. Depois, cada um comentava a notícia lida, enfatizando
algum aspecto do texto e relacionando-o a outros textos e outras informações
já adquiridas a partir do estudo feito. Só então,
a uma ordem da professora, a notícia era recortada e colada no
caderno de Ciências.
Por partir do jornal como um todo, essa forma de propor a leitura do texto
jornalístico consistia numa estratégia em que o aluno entrava
em contato não só com as informações requeridas
pelo tema em estudo, mas com todas as outras informações
trazidas pelo jornal. Assim, nessa orientação metodológica,
a leitura do texto jornalístico-busca de informações
era uma prática que, embora se concentrasse em um determinado tema,
não se restringia a ele, vislumbrando muitos outros possíveis.
O texto jornalístico não era tratado como fonte de informação
primária sobre dado conteúdo curricular, mas como texto
complementar, que acrescia aos alunos informações a respeito
de um assunto que já estava sendo estudado e que seria aprofundado
posteriormente.
Uma vez que “o texto jornalístico deve ser aceito como fonte
de informações pertinentes e de novidades” (KLEIMAN,
1993, p. 27), essa forma de abordar a leitura cumpria a função
de resgatar na sala de aula a identidade do texto jornalístico
enquanto gênero, deixando claro para o aluno a ampla variedade de
informações e notícias que um jornal da imprensa
séria traz, o que implica, segundo KLEIMAN (1993), numa maneira
seletiva de procurar textos interessantes através da leitura da
manchete e dos resumos de primeiras páginas ou das seções
pertinentes ao assunto tratado.
Eram as inúmeras possibilidades de buscar informações
vislumbradas pela leitura do texto jornalístico, embora nem todas
concretizadas, que tornavam a leitura do texto jornalístico uma
leitura revestida de significado: lia-se o texto de jornal para selecionar
informações relevantes e a partir dessas informações
aprender sobre algum assunto ou conteúdo curricular. Desta forma,
a busca de informações no texto eleito pela professora atendia
às finalidades da leitura-busca de informações, na
medida em que as informações presentes no texto se relacionavam
não só a um estudo já em andamento, mas principalmente
a um assunto polêmico e atual que despertava o interesse dos alunos.
Ao acentuar o caráter informativo do texto jornalístico,
fazendo-o prevalecer sobre o seu caráter didático, tal abordagem
promovia, portanto, a aproximação dos objetivos da leitura
escolar e não-escolar do jornal, uma vez que buscar informação
constitui um objetivo inerente à leitura do texto jornalístico
tanto dentro quanto fora da escola. Assim, a leitura do texto jornalístico
para buscar informações, feita desta maneira, visava não
só à aprendizagem sobre dado assunto, mas principalmente,
visava à compreensão da importância do texto jornalístico
enquanto gênero para comunicar, embora fosse, também, gênero
a aprender. (SCHNEWLY & DOLZ, 1999).
c) A leitura do texto
jornalístico-busca de informações: o texto como repositório
de mensagens e informações
Neste exemplo, a leitura do texto jornalístico-busca de informações
era realizada, num primeiro momento, a partir de uma “varredura”
do jornal, através da qual os alunos tomavam contato com as informações
veiculadas nos seus textos.
Nesse primeiro momento, ao permitir que os alunos lessem o jornal livremente,
a professora proporcionava na sala de aula uma prática de leitura
escolar que se aproximava bastante da leitura de jornal fora da escola,
tal como o que foi exposto no exemplo anterior, resgatando o sentido da
leitura de jornal.
Porém, num segundo momento, após os alunos terem lido o
jornal inteiro, estes deveriam extrair informações do texto
de uma reportagem selecionada pela professora, a partir de um roteiro
pré-estabelecido.
A matéria, cujo título era Festas juninas / Casos de queimaduras
aumentam nesta época, falava sobre os riscos de soltar balões
e fogos de artifício. O texto abordava a questão tanto pelo
viés dos riscos à saúde e ao meio ambiente quanto
pelo viés da legislação.
Os alunos recortaram e colaram a matéria do jornal em seus cadernos
e começaram a anotar as questões colocadas no quadro, que
deveriam nortear a busca de informações:
1- Reescreva abaixo
o título da reportagem e grife o sujeito da frase;
2- A quais artifícios a reportagem se refere?
3- A que época a reportagem se refere?
4- O que é crime, segundo a Lei Florestal de Minas, número
10561, de 1991?
5- Por que os balões são tão perigosos?
6- Crie um slogan contra a produção desses produtos perigosos.
Nesse segundo momento da aula, o enfoque metodológico dado pela
professora acabava por reduzir o potencial de interlocução
da leitura do texto jornalístico-busca de informações,
pois não havia uma razão explícita para procurar
informações relativas àquele texto em particular,
uma vez que a busca de informações na reportagem selecionada
pela professora não se justificava pelo estudo de um assunto ou
tema, cuja finalidade era a exploração do conteúdo
do texto. Também não se justificava pelo interesse dos alunos
sobre o tema, uma vez que o texto havia sido selecionado pela professora.
Sem vinculação com nenhuma unidade temática que pudesse
dar sentido à busca de informações no texto, a leitura
da reportagem sugerida pela professora não respondia a qualquer
“para quê”, configurando-se, assim, numa simulação
da leitura do texto jornalístico.
As questões propostas pela professora eram, também, uma
evidência dessa simulação. Sua prática se orientava
por um roteiro bastante comum entre os professores das primeiras séries,
para o trabalho com textos, independentemente do gênero ao qual
pertençam: a leitura silenciosa após uma conversa sobre
o texto, a leitura em voz alta por alguns alunos, a consulta ao dicionário
para buscar o significado de palavras desconhecidas, a elaboração
de perguntas sobre elementos explícitos no texto (O que aconteceu?
Onde? Quando? Como? etc.), a produção de um texto ligado
ao tema. (cf. KLEIMAN, 1993, p. 24).
Em relação às questões propostas pela professora,
em nada contribuíam para uma leitura crítica do texto em
questão, uma vez que não eram propostas de forma a levar
à reflexão sobre o assunto a ser explorado.
A questão de número um - Reescreva abaixo o título
da reportagem e grife o sujeito da frase - tinha por objetivo a identificação
do título e do sujeito da frase, e não a busca de informação.
Por outro lado, as
questões
(2) A quais artifícios
a reportagem se refere?
(3) A que época a reportagem se refere?
(4) O que é crime, segundo a Lei Florestal de Minas, número
10561, de 1991?
tinham por objetivo
orientar a extração de informações do texto,
a partir de sua superfície . A busca dessas informações
levaria a conhecer alguns aspectos sobre o problema abordado na reportagem,
mas não levaria a aprofundar na relevância de tais aspectos.
Tratava-se, pois, de uma prática a que KLEIMAN (1993) chamou de
“tarefa de mapeamento entre a informação gráfica
da pergunta e sua forma repetida no texto”. De acordo com a autora,
“esta atividade passa por leitura, quando a verificação
da compreensão (...) exige apenas que o aluno responda a perguntas
sobre a informação que está expressa no texto”
(KLEIMAN, 1993, p. 20).
Em relação à questão número cinco -
Por que os balões são tão perigosos? - esta se referia
muito mais à idéia central do texto do que a um aspecto
do assunto a ser levantado, pois sua resposta tanto se achava num parágrafo
quanto em toda a reportagem.
Nesse caso, chamamos a atenção para o fato de que a reportagem
condenava a prática de soltar balões e fogos de artifício
e havia uma intenção clara de alertar aos leitores sobre
o perigo dessa prática. Tal perigo poderia ser relativo aos prejuízos
ambientais ou à saúde, pelo risco de acidentes a que as
pessoas se expunham, bem como no fato de que quem solta balões,
por exemplo, está infringindo a lei.
Por outro lado, tal questão trazia em seu próprio enunciado
um juízo de valor que expressava a posição do autor
da matéria jornalística e, por conseqüência,
das autoridades ouvidas pela reportagem do jornal. Era, portanto, uma
questão que afirmava que os balões são perigosos
antes de perguntar por quê. Por isso, responder a essa questão,
tal como foi colocada pela professora, pressupunha que os alunos tivessem
uma posição formada sobre o assunto, e que tal posição
fosse semelhante àquela expressa no texto.
O mesmo poderíamos dizer em relação à questão
número seis: Crie um slogan contra a produção desses
produtos perigosos.
Embora a questão não tivesse o objetivo de extrair informações
do texto, sua execução demandava a compreensão da
referência feita em seu enunciado - esses produtos perigosos - bem
como a tomada de posição em relação ao objeto
referenciado.
A tomada de posição implicava, por sua vez, em relacionar
o texto proposto com a leitura de outros textos com outras informações
e da leitura de vida dos alunos (GERALDI, 1997), o que não foi
feito.
Logo, levando em conta o exemplo analisado, ao negligenciar as possíveis
discussões em torno do tema, em favor da realização
de uma atividade escrita, a professora acabou por reduzir a leitura a
uma mera resolução de questões e perdeu a oportunidade
de levar os alunos a produzirem suas próprias leituras e de comunicá-las,
fosse através de produção de slogans ou de outra
forma qualquer, condenando, assim, o sentido da leitura- busca de informações.
Nos dois primeiros casos analisados, a resposta à questão
colocada inicialmente, através da qual a leitura se revestia de
significado - para que ler este ou aquele texto, buscar esta ou aquela
informação - se erigia sobre a finalidade estabelecida pelas
professoras para a leitura do texto jornalístico: aprender sobre
temas pertinentes aos programas das disciplinas do Ensino Fundamental.
Como se pode ver, a leitura-busca de informações nestes
dois exemplos, fundava-se na visão clara do aluno sobre as finalidades
pelas quais essas informações precisam ser apreendidas,
sob pena de, do contrário, o sentido da leitura não se estabelecer.
Porém, isso já não acontecia na última situação
escolar apresentada. O que se pode verificar, neste exemplo, é
que os motivos para buscar informações no texto jornalístico
nem sempre eram claros ou nem sempre respondiam a uma necessidade do aluno
em buscar informação .
Levando em conta o exemplo analisado, ao negligenciar as possíveis
discussões em torno do tema, em favor da realização
de uma atividade escrita, a professora acabou por reduzir a leitura a
uma mera resolução de questões e perdeu a oportunidade
de levar os alunos a produzirem suas próprias leituras e de comunicá-las,
fosse através de produção de slogans ou de outra
forma qualquer, condenando, assim, o sentido da leitura- busca de informações.
De acordo com KLEIMAN (1993), “é durante a interação
que o leitor mais inexperiente compreende o texto: não é
durante a leitura silenciosa, nem durante a leitura em voz alta, mas durante
a conversa sobre aspectos relevantes do texto” (...). Sendo assim,
dar espaço para as argumentações que se seguiriam
à leitura da reportagem era uma forma de promover a compreensão
do texto. Por isso, seria mais interessante que as questões estabelecidas
para a busca de informações no texto jornalístico,
neste caso, constituíssem um roteiro para discussão em torno
do tema, a partir da qual a leitura se daria como produção
de sentidos.
A partir das situações analisadas, considero que a busca
de informações como possibilidade de leitura do texto jornalístico
no contexto escolar reveste-se de sentido na medida em que se realiza
em função do estudo de uma unidade temática, na qual
o assunto seja explorado a partir de vários textos, de vários
pontos de vista, ou de várias leituras. Como diz KLEIMAN (1993),
embora o desenvolvimento
de um tema específico (...) não seja o objetivo da aula
de leitura, uma vez que o texto interessa mais enquanto representativo
desse tipo, é de qualquer modo aconselhável abordar uma
mesma relevante temática de diversos pontos de vista, para assim
o leitor poder construir uma rede de conhecimento (...) que lhe permita
aprender e fazer mais e melhores predições sobre o assunto
(KLEIMAN, p. 56).
Isso não significa
que toda leitura do texto jornalístico-busca de informações,
para produzir sentido, deva relacionar-se a um conteúdo ou assunto
definido nos programas das disciplinas específicas do ensino formal
escolarizado, correspondendo, necessariamente, a um assunto abordado em
Ciências, História, Geografia ou outras. O que venho ressaltar,
no entanto, é a necessidade de que as finalidades para buscar informações
no texto jornalístico sejam claras para os alunos, sob pena de
os sentidos não se estabelecerem para sua leitura. Assim, concordo
com GERALDI (1997) quando diz que, nesse caso, são menos artificiais
as leituras realizadas em outras disciplinas escolares que não
a Língua Portuguesa, pois suas finalidades são mais claras
para o aluno.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FOUCAMBERT,
Jean. A leitura em questão. Porto Alegre: Artes Médicas,
1994.
______ . Mais que alfabetizar, agora é necessário “leiturizar”.
Rio de Janeiro: 1993. Entrevista concedida à revista Nova Escola:
Fundação Victor Civita, v. 8, n. 64, mar, 1993.
GERALDI, João Wanderley (org.). O texto na sala de aula. São
Paulo: Ática, 1997.
KLEIMAN, Angela. Modelos de letramento e as práticas de alfabetização
na escola. In: Os significados do letramento. Campinas: Mercado das Letras,
1995. p. 15-61.
MARRA, Liliana Mendes. O jornal na sala de aula: orientações
metodológicas e sugestões de atividades. Juiz de Fora, s.d.
(Manual do Programa Tribuna Escola; Jornal Tribuna de Minas).
SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte:
Autêntica, 1998.
SCHNEUWLY, Bernard. & DOLZ, Joaquim. Os gêneros escolares: das
práticas de linguagem aos objetos de ensino. In: Revista Brasileira
de Educação. N. 11, Mai -Ago 1999.
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