Maria Cecília de Oliveira Micotti - Programa
d e Pós-graduação em Educação - Instituto
de Biociências de Rio Claro-UNESP
Introdução
Esta pesquisa tem como objeto de estudo o enfoque dado
pelas professoras aos desempenhos das crianças no processo de alfabetização.Hoje,
o ensino público é criticado por permitir que alunos cheguem
às séries finais do curso fundamental sem saberem ler e
escrever. Os insucessos escolares vinculados à alfabetização
não são recentes.Eles têm provocado a edição
de medidas institucionais, justificadas pela importância de democratizar
o ensino e de diminuir os índices de retenção e de
evasão. Em 1969,as altas porcentagens de reprovações,
na primeira série do curso primário das escolas do Estado
de São Paulo, justificaram a organização do ensino
em níveis com a ampliação para dois anos do tempo
dedicado à alfabetização. Essa orientação
é oficialmente retomada, no início da década de oitenta,
com a instituição do Ciclo Básico;logo a seguir,
o construtivismo é indicado para orientar a alfabetização.A
essas medidas que dão ênfase no trabalho pedagógico
centrado no aluno e na continuidade do processo de alfabetização,
juntam-se outras, como a da composição das classes de aceleração
e a instituição da progressão continuada. Mas, o
encaminhamento, dado a elas na realidade, faz com que sejam criticadas
como medidas que visam apenas regularizar, estatisticamente, o fluxo escolar.
A passagem para o regime de ciclos e a aplicação da proposta
construtivista constituem sérios desafios para as escolas cuja
atuação ao longo do tempo tem sido marcada pelo regime seriado
e pela didática tradicional (silabação).As mudanças
propostas envolvem a diversificação do trabalho pedagógico
e requererem práticas de ensino e de avaliação diferentes
das habituais. Por outro lado, os desempenhos dos escolares têm
sido objeto de diversas explicações teóricas,como
assinalam Angelucci,Kalmus, Paparelli e Patto (2004,p.6) Há alguns
anos, os insucessos eram atribuídos à origem social das
crianças e às diferenças sócio-culturais.Mas,
no entender de Charlot (2005,p.49-56) não são esses os fatores
dos desempenhos dos alunos.O sucesso ou insucesso escolar provém
da realização, ou não, de atividade intelectual eficaz
para a apropriação dos saberes e do desenvolvimento de competências
cognitivas pela criança.Isto requer que ela se mobilize intelectualmente,
o que pressupõe que as situações de aprendizado tenham
sentido para ela.Tal explicação coloca o sucesso na alfabetização
como resultante da correspondência entre as atividades proposta
no ensino e o sentido que os alunos atribuem a elas. Do ponto de vista
didático, tal correspondência envolve a consideração
no ensino das perspectivas dos estudantes em relação ao
objeto de conhecimento.Isso pressupõe que o professor consiga perceber
as diferentes perspectivas adotadas pelos alunos em relação
ao objeto de estudo; percepção essa vinculada ao desenvolvimento,
por parte dos professores, da capacidade de discernir com clareza o significado
dos desempenhos manifestados pelos seus alunos e o significado dos efeitos
de seus procedimentos pedagógicos . Mas, em que medida os professores
estão atentos às atuações de seus alunos?
Em estudo crítico sobre as estatísticas de desempenho escolar
Carvalho (2001) observa:
A falta de conhecimento das professoras da escola L. sobre
seus alunos ou mesmo a pouca importância atribuída a uma
avaliação mais detalhada ficaram patentes numa das tentativas
das professoras do reforço da manhã para obter um diagnóstico
inicial de seus alunos.Em abril de 1999 elas pediram a cada professora
de classe que preenchesse uma ficha a respeito das crianças indicadas
para o reforço, na qual perguntavam se o aluno conhecia as vogais,
as consoantes, as sílabas simples e complexas, lia e escrevia uma
frase e um texto simples. Bastava que a professora indicasse “sim”
ou “não” diante de cada possibilidade, mas muitas não
devolveram as fichas, outras disseram que não sabiam, ou responderam
que os alunos não sabiam nada.
Como a diferença entre os desempenhos das crianças
é muita conhecida nos meios escolar, essas respostas, apresentadas
pelas professoras, sugerem várias interpretações
e colocam para os interessados na formação de professores
a necessidade e a importância de mais estudos sobre o enfoque dado
por quem ensina aos desempenhos dos aprendizes.A contraposição
das diferenças de desempenhos escolares à atual situação
do ensino, marcada pela proposta de continuidade do processo de alfabetização
(contida na progressão continuada, no regime em ciclos e na orientação
construtivista) coloca algumas indagações. Entre as professoras,
os enfoques dados aos desempenhos dos alunos variam? Em caso de resposta
afirmativa para essa indagação,como elas descrevem esses
desempenhos? Como elas explicam as diferenças entre eles? A que
fatores atribuem essas diferenças? O ensino constituir-se-ia em
um desses fatores? Nas manifestações das professoras,a questão
das diferenças entre desempenhos traz à tona continuidade
que segundo as orientações pedagógicas oficiais devem
reger o ensino?
Dada a importância para a formação de professores
de captar, no contexto das práticas pedagógicas,a ocorrência
da percepção de vínculos entre o aprendizado e as
atividades de ensino, essa pesquisa visa a averiguar:
-como as professoras descrevem e explicam os desempenhos dos escolares;
-como elas comparam os desempenhos de seus alunos- daqueles que apresentam
mais dificuldades e daqueles que apresentam mais facilidade no processo
de alfabetização.
Visa também averiguar se as professoras estabelecem, ou não,
relações entre desempenhos discentes e as práticas
utilizadas no processo de alfabetização.
Método
Participam dessa pesquisa todas as professoras de 1a.
e de 2a. série (três da primeira e seis da segunda) de uma
escola pública estadual de Ensino Fundamental, localizada em cidade
do interior do Estado de São Paulo.Essa escola que fica em um bairro
distante da região central, mas entre esta e a periferia da cidade
atende alunos de 1a.a 4a. série em dois períodos –doze
classes no período da manhã e doze à tarde- 3 classes
de primeira série, 6 de segunda, 8 de terceira e 7 de quarta série.A
organização da escola prevê que cada professora de
primeira série continue com os mesmos alunos na segunda série.
Como algumas professoras encontravam-se afastadas, nestes casos, quem
assumiu a classe participou da coleta de dados. Todas as participantes
são diplomadas no ensino médio - escola Normal ou em habilitação
para magistério- em cursos realizados em diferentes cidades do
Estado de São Paulo. Por ocasião da coleta de dados, o tempo
de magistério variava de seis a mais de trinta anos. Algumas completaram
ou faziam cursos superiores –licenciatura em Pedagogia, entre outras.
Inicialmente, solicitou-se a todas as professoras da escola que apontasse
os cinco alunos de sua classe que em seu entender apresentavam mais facilidade
e os cinco que apresentavam mais dificuldade na alfabetização.
A entrevista (semi-estruturada), anotada e filmada, foi o instrumento
utilizado.Cada participante foi solicitada a descrever e a comparar os
desempenhos de seus alunos incluídos nas listagens previamente
feitas.
Fatores das dificuldades na alfabetização
segundo as professoras de 1a. série
De modo geral, as professoras ao explicarem os desempenhos
das crianças mencionam condutas ou características pessoais,
tais como: faltou muito, regrediu; esquece,não retém informações;
agora está amadurecendo, acordou;melhorou muito,mas não
tem vontade; tem força de vontade; às vezes é muito
agressivo, carência afetiva,; a, mãe superprotege; não
pára um minuto, conversa muito; C (um aluno) anda distraído,
desatento, no começo do ano achei que não teria problemas;tem
problemas de saúde, a criança tomou muitos remédios;presta
atenção, olha, mas está longe, distante; Tn e Tl
nem tentam falar.
Outros fatores citados são os de ordem familiar.Esses fatores tanto
podem ser mencionados como favoráveis, ou desfavoráveis,
à vida escolar da criança: os pais interessados olham o
caderno,os pais são alfabetizados; ia bem, mas a separação
dos pais afetou; a mãe e o tio ajudam a fazer a lição;
a mãe sempre ajuda; ele está muito carente em relação
à família, a família está desestruturada;a
mãe acompanha bem, ajuda; isso é de família, o irmão
que está na segunda série é a mesma coisa.
Esses resultados, e as manifestações a seguir apresentadas
mostram que, diferentemente, do que ocorre no trabalho de Carvalho (2001),
as professoras participantes desta pesquisa descrevem detalhadamente os
desempenhos de seus alunos.
As descrições do desempenho de alunos que
apresentam dificuldades na 1ª. Série
I- Uma primeira modalidade de descrição
compõe-se de manifestações centradas na criança,
sem especificar em que consistem as dificuldades. Os desempenhos são
abordados de modo amplo: - não escreve”; “não
lê”; “começou a ler agora”;”está
começando a alfabetizar-se agora” (no último bimestre
do ano letivo).
II- Outra modalidade de descrição compõe-se de afirmações
mais específicas que as da categoria anterior. Os desempenhos são
apresentados de modo genérico, mas indicam o que a criança
consegue fazer, ou não, por exemplo, esta começando a montar
uma frase agora.Incluem-se aqui as manifestações da professora
B. que, apontando o apoio da família focaliza a apropriação
da escrita como um fenômeno praticamente independente de sua atuação
docente:
- Copia, tem dificuldade para juntar as letras e formar palavras, não
forma nenhuma palavra Sempre faz as lições Hoje pegou um
livro e leu .
- quero acreditar que de repente comece a ler. Copia direitinho, reconhece
as letras, forma algumas palavras, as que mais aparecem nas aulas.
- Acho que de repente vai começar a ler. Reconhece as letras mas
não consegue juntar e formar palavras.
- T está silábica, só utiliza as vogais . Reconhece
as letras, inclusive as consoantes, mas na hora de escrever... Fala as
letras.
- A aluna Te,tem letra feia, não sabe escrever
- Não vai aprender a ler e a escrever até o final do ano.
Está pré-silábica, assustada.
III –Aqui se incluem as manifestações que fazem referências
ao que se passa nas aulas,mas essas referências ocorrem nas descrições
que, juntamente com outros fatores, (relativos aos alunos e a seus familiares)
revelam alguns modos de proceder.A professora indica algumas abordagens
feitas nas aulas,mas essas não envolvem a interferência pedagógica
direta (por parte dela) na relação do aluno com o objeto
de estudo, por exemplo:
- Coloco um aluno para ajudar.
- pedi para ler um livrinho de história
- V é difícil, ouve música, não aprendi a
lidar com ele
Outras manifestações incluem alguma referência à
participação da professora na descrição dos
desempenhos dos alunos, mas essa também é apresentada de
modo geral. A professora C diz:-
- Te,tem letra feia, não sabe escrever Lê de soquinho, com
a professora do lado,sozinha não lê, agora está começando
de novo.
- Cr avançou, está escrevendo, lendo.Está fraco mas
ele melhorou por força de vontade dele, eu insisto, os pais me
ajudam. Não é dos melhores mas ele se empenhou. J. é
mesmo caso de Cr, estava com dificuldade, de repente começou a
escrever, mas é lenta.Não pára, mas melhorou muito.
Ela e o Cr coloquei aqui e no dia seguinte melhorou muito.
- TL.Pondo um monte de letras, está bom.Dito palavrinhas (adoram
ditado), daí falo crianças levantem a mão para falar
quantas letras há nessa palavra, todos levantam a mão para
falar quantas letras e todos conferem, ela não se preocupa em colocar
mais ou menos, ela não se manifesta.Ela fica olhando ansiosa, depois
gritava a letra, mas na hora de escrever, qualquer letra está bom..
O modo do aluno se conduzir no decorrer das atividades realizadas nas
aulas é acentuado na fala dessa professora, mas as atividades docentes
mencionadas não são detalhadas.
Essas manifestações indicam a ocorrência de observação
atenta das crianças por parte da professora.Indicam também
a sua participação na dinâmica da sala de aula: “lê
de soquinho com a professora do lado”; “eu insisto”;
“coloquei aqui”; “com ele está difícil”;
“não vou conseguir”.Essas afirmações,
com exceção da menção” está começando
de novo” embora não especifiquem a sua interferência
na relação do aluno com o objeto de estudo – a escrita-
de algum modo colocam o estabelecimento de relações entre
ensino e aprendizado.
As descrições dos alunos de 2a.série
que dificuldades na alfabetização
As professoras de 2a. série também indicam
fatores diversos, referentes aos próprios alunos, em suas descrições.
Quanto à família elas também apontam que muitas crianças
recebem apoio em suas atividades escolares e outras não. As manifestações
dessas professoras diferenciam-se das da 1a. série por serem mais
específicas ou por inserirem o enfoque da atuação
de seus alunos no contexto de seu trabalho pedagógico e por especificarem
as medidas que adotam para sanar as dificuldades das crianças.
Há caso em que a professora aborda a questão do interesse,
da motivação das crianças mas em relação
ao seu próprio trabalho, como revelam as manifestações
a seguir apresentadas:
- Observo a escrita dos alunos diariamente.Hoje, escreveram cartas, hoje
à noite leio. No dia seguinte, os que estão “no escuro”
vou procurar esses alunos e são eles que chamo no outro dia . Vejo
se está faltando letras na palavra, se não escrevem, se
não lêem.Chamo para trabalhar com eles em parceria com toda
a classe porque a leitura é um domínio do grupo todo. Alunos
que não escrevem, dois ou três, as crianças consideradas
pelo grupo que não estão com leitura eficiente, colocam
numa berlinda afetiva. As crianças se ajudam.(...)Às vezes
me debruço em cima do que faço.O que é isso ? È
sentir o resultado do que fiz de tal maneira que se for bom , vou continuar,
se teve bom resultado, se não fez as crianças progredir
e então volto naquilo vejo.Pela produção escrita
de meus alunos, analiso meu trabalho. ( professora R )
- aprendi a não separar esses alunos, não criar aquele estigma.Alunos
com dificuldades - alguns faltam muito.
Esta professora estabelece relação entre o interesse manifestado
por seus alunos e a modalidade de trabalho que ela desenvolve,exemplifica
com o trabalho estruturado pela escolha de textos de acordo as sílabas
e o trabalho baseado na literatura infantil.
Quando comecei a trabalhar a literatura infantil, aí houve uma
grande diferença. As crianças se comportavam mais...Aprendem
a ler rapidamente e lêem tudo.Interesse que as crianças manifestam
gostando mais de ler, antes detestavam ler, liam tudo picadinho.
Na produção de textos, quando as crianças escrevem
observo individualmente; às vezes chamo a atenção-
o que escreveu? O que quis dizer? A criança vai tentar ler e não
consegue, então percebe.Quando apresentam dificuldades na escrita
levo textos.Depois de trabalhar a poesia, procurava trabalhar as dificuldades
da escrita. Registro as dificuldades das crianças e também
as dificuldades que observo no texto.Ás vezes há vários
alunos com a mesma dificuldade, escolho o texto de acordo com essas dificuldades.
A continuidade do processo de alfabetização é assinalada
por algumas professoras, como revelam as manifestações da
professora M.R. e D:
-A professora M R comenta que duas alunas melhoraram muito no último
bimestre, tanto na escrita como na leitura. Sobre outro aluno diz que
melhorou um pouco faz tratamentos porque tem problema de fala e observa:-Trabalho
muito com ele com textos e reescrita. Na escrita, não se entende
algumas palavras, troca muitas letras. Quando dou reescrita ele estuda
bastante e consegue escrever.Tem apoio muito grande da família.
Sobre uma outra criança que também tem problema de fala
e faz tratamento diz:-Está alfabetizado.Está escrevendo
bem as sílabas simples com poucos erros nas sílabas complexas
e escreve pequenos textos.Sobre um outro aluno da lista diz:-está
alfabetizado, faz pequenos erros na escrita, consegue escrever uma história
em seqüência tendo começo, meio e fim.
Essas afirmações revelam que a preocupação
com o aprendizado inicial da escrita permeia o trabalho da professora
M.R.com os alunos de segunda série. Já a professora D menciona
explicitamente a continuidade do ensino assumida pela professora anterior;
essas manifestações revelam que com os alunos ela continua
apoiando a leitura e volta o seu trabalho para a compreensão.
- O aluno G. ( como F) apresenta leitura é pausada,não deslancha,
nem faz entonação. Segundo a professora anterior dessa classe
esses alunos (os que apresentam dificuldades) são crianças
com as quais ela continuou a alfabetizar no primeiro semestre da segunda
série. G. e F. lêem oralmente sem problema.Compreendem, mas
assim:- Eu li o texto com G e G conseguiu fazer. Quando lê sozinho,
consegue, não com tanta facilidade. Mas consegue responder, nem
tudo cem por cento. Escreve texto curto, tem coerência..Geralmente
tem 5 ou 6 linhas, mas você sabe o que ele está fazendo.Coloca
parágrafo, ponto final.Ortografia, com alguns erros.compreende
a leitura.
Questionada sobre a compreensão da leitura por parte desses alunos,
D.responde:
-Compreende se eu ler. Depende do que você pede.Se o que é
pedido for uma coisa mais complexa ...Por exemplo,a história do
menino que queria dar um avô para o seu avô.A questão
era a seguinte: - se o menino quisesse dar um relógio para o avô,a
história seria publicada? Por que? O aluno respondeu:-Não.
A própria pergunta conduz à resposta não. Mas o porquê...
esse tipo de questão que tem tudo por traz os alunos fracos já
não conseguem responder. A história seria publicada? Já
ficou mais difícil.
Essas informações indicam que as crianças conseguem
ler em voz alta , que ele compreendem afirmações explícitas,
mas não demonstram que conseguem fazer inferências.
A continuidade se faz presente também nas afirmações
da professora E. que descreve os desempenhos dos alunos no ano anterior,
quando lecionou para a mesma classe na primeira série.Contudo suas
descrições são centradas nas condutas dos alunos,
fazem pouco referência ao próprio trabalho exceto ao referir-se
a J.:- melhorou muito.Não era meu aluno na primeira série;
foi difícil eu chegar porque era muito tímido.Saiu de uma
classe da manhã e veio para o período da tarde; como é
tímido se fechou demais,, não deixava olhar no caderno dele.
Ele não fazia nada, com paciência e calma ele foi se soltando,
fala comigo.Ele veio sabendo ler, no começo do ano ele não
lia,não sei se por medo.Tem um pouquinho de problema em matemática.
Essas manifestações, como aliás as de outras professoras,
revelam que se por um lado o ensino continua a revelar traços da
didática tradicional (como indicam as menções ao
ensino silábico, ao ditado, às correspondências entre
sons e grafias), por outro lado a continuidade da alfabetização
na segunda série é acentuada.
A professora M. assinala J , M . e B são os meus três problemas.
B.é melhor entre os três.Dois deles sabem ler e um está
meio devagar. M., por exemplo, escreve –ca-va-depois diz:- la lê
li lo e escreve ca-va-lo. Está bem devagar. J. usa óculos
e quebra sempre; há dias que só faz cobrinhas, há
dias que escreve normal; outro dia mostrei o caderno para a coordenadora
e diretora. Falei dos três no Conselho; a diretora colocou os três
“no reforço da escola”. J. sabe ler corretamente em
voz alta. Acho que não entende, leio a pergunta e às vezes
ele acha a resposta,às vezes, não. Para fazer x (assinalar
alternativa), à medida que leio, ele já assinala.Ele fala
que lê mas responde depois que eu leio o texto e as perguntas; as
questões seguem a ordem do texto. Na prova não pode ajudar.
M.. não tem concentração,não pára quieto;é
meio violento,briga.A mãe é quem fazia a lição
de casa Na compreensão é como o J.e B. também.Na
pergunta :-Qual é o nome dos personagens do texto?- se eu já
li daí eles localizam.Quando as questões são diferentes,
conversando às vezes acham uma resposta.Eles perguntam o que está
escrito e o que é para fazer.Porque tem crianças que nem
perguntam.Na escrita eles não sabem colocar aquilo. B. começou
a fazer reforço particular aos sábados e começou
a ler. Com os três trabalho alguma coisa de primeira série-
redação, formação de freses. M..S. (a professora
que antes estava com essa classe) disse que eu poderia seguir com a matéria
de segunda série, mas a realidade é diferente. Quanto a
K. e S., eles sabem sim; o problema é que falam muito, têm
preguiça, não dá tempo para fazer tudo.Você
tem que ficar em cima para ter capricho no caderno, mas na aprendizagem,
naquilo que tenho trabalhado, não acho que tenham problema. Eles
lêem e respondem.O livro exige respostas pessoais não prontas
no texto.Eles produzem textos.Têm problema de pontuação,
de colocar parágrafo certo.Mas até acho que vão acompanhar
uma terceira série.É aí que a gente percebe que é
muito questão pessoal do aluno, não tem resposta no texto;
eles conseguem, os outros não respondem. Quanto à escrita,
observa:-J.,B. e M.,( como trabalho com desenhos) comecei assim uma seqüência,
mas escrever não conseguem; fazem duas linhas, não sabem
fazer.Estou trabalhando alguma coisa de primeira série para ver
se melhoram.Apresento desenhos para formar sentenças compondo uma
história. Não sai muita coisa , fazem muitos erros de ortografia.K.
e S. fazem textos.
Nessas manifestações mais uma vez são indicadas as
dificuldades relativas à compreensão da leitura por parte
dos alunos de segunda série.
Descrições dos alunos de 1a. que apresentam
facilidade na alfabetização
As professoras de primeira série dizem que esses
alunos adoram ler, sempre contam novidades, o que viram na televisão,
por exemplo.
Todos lêem bem; lêem livrinhos Lêem em voz alta, entendem
o que lêem, ilustram contam com as próprias palavras.Escrevem
bem-ditado,formam sentenças.Criam historinhas sobre vários
desenhos.As mães são amigas da escola, olham os cadernos,
respondem os bilhetes.
Comparando os desempenhos dos dois grupos de alunos, uma professora diz
: - Os alunos mais fortes gostam de ler, outros não param na carteira,
talvez seja um meio de chamar a atenção .
Comparando os desempenhos a professora afirma quanto às diferenças
entre eles:-as crianças que apresentam facilidade- a família;as
mães são amigas da escola, olham os cadernos, respondem
os bilhetes.Em seguida ressalvando - apesar de as mães de alguns
alunos com dificuldade acompanharem muito a vida escolar dos filhos- diz
:- é a motivação das crianças.Como sabem,
elas gostam de participar, ao passo que as crianças do outro grupo
sentem-se inferiorizadas, preferindo ficar “na deles”.Quanto
à leitura adoram mostrar que sabem, que aprenderam, as do outro
grupo não lêem Todas as crianças (dos dois grupos)
fizeram pré-escola, a maioria na mesma escola
Essas afirmações mostram a realização de tentativa
de analisar as diferenças de desempenhos pela identificação
de variáveis que, embora não cheguem a uma conclusão,
revelam um processo de reflexão.
Descrições dos alunos de 2a. que apresentam
facilidade na alfabetização
Sobre essas crianças, a professora MR diz:-
todos esses alunos são excelentes, dominaram desde o início
do ano escolar a escrita, a leitura e a compreensão de textos e
executam com muita facilidade a produção de textos.Encontram
apoio da família.
A Professora E. especifica os desempenhos de alguns alunos :
- M. já veio alfabetizado do pré. N.veio silábica—alfabética.Agora
lê tudo, entende muito bem,é interessada..
Referindo-se a todos os cinco alunos apontados como os que apresentam
facilidade na alfabetização a professora diz:
- Nas aulas de matemática, na correção coloco algumas
crianças com dificuldades e eles explicam tudo.Na escrita erros
de ortografia todos têm. T .- Veio silábico-alfabético
para a primeira série.É muito esforçado, chora quando
não consegue fazer, o acalmo e ele consegue.Ele quer muito acertar.Sobre
uma aluna TH. não veio alfabetizada do pré para a primeira
série. Estava alfabetizada no final da primeira série. Muito
falante, no bom sentido, expressa-se muito bem , tem maturidade.
Quanto a esses alunos, M.A. observa que são os melhores alunos
da classe. Esses fazem mais do que é preciso fazer.Lêem e
escrevem, fazem as lições em casa.
Comparando os dois grupos M. A diz: - Acho que entra a diferença
da situação financeira.Estes têm mais que os fracos.A
entrevistadora pergunta :- O que mais? Ela responde:- Vontade, sentam
e enquanto não terminam não abrem a boca.Os outros , primeiro
querem conversar e depois fazer.Não têm interesse.Acho que
é muito questão de interesse.De repente pode até
ser questão familiar. Os cinco melhores, a família está
sempre junta, eles sempre comentam onde foram no final de semana.Os alunos
que apresentam mais dificuldade, não. J diz que não sai
de casa, não tem amigos só igreja e casa.Não há
sociabilidade com os outros. S até que tem, (pai e mãe)
mas não quer nada com nada. Ao terminar a entrevista a professora
comenta:- A gente faz uma retomada.Acho legal essa reflexão.Só
precisava descobrir como fazer esses irem, aí é que está
o problema.
A questão da vontade, do interesse, do esforço, da participação,
o envolvimento do aluno nas atividades permeia a fala das professoras,
consoante com a explicação de Charlot (2005,p.49-56) sobre
a mobilização do aprendiz quando ele deseja aprender determinados
conteúdos.
Conclusões
Os enfoques dados pelas professoras aos desempenhos de
seus alunos variam. Em suas manifestações,elas recorrem
a diversos enfoques para descrever as diferenças entre eles.Recorrem
também a diferentes fatores para explica-los.Entre esses fatores
destacam-se os relativos aos alunos e à atuação de
seus familiares . A manifestação de interesse por parte
das crianças é indicada como fator favorável ao desenvolvimento
do aprendizado e do desempenho, tanto para os que apresentam dificuldade
na alfabetização como para as que apresentam dificuldade.
O desinteresse é apontado como fator da falta de progressos no
aprendizado por parte das crianças que apresentam dificuldades
nesse processo.
Nas descrições dos desempenhos discentes,algumas professoras
não indicam relações entre eles e as suas práticas
pedagógicas. Algumas focalizam o assunto de modo mais abrangente;
tratam das dificuldades na aquisição da escrita por parte
das crianças, fazendo referências à própria
atuação docente de modo geral.Outras fazem referência
às providências que tomam, tentando resolver as dificuldades
das crianças.
Em suas explicações,as professoras de primeira série
restringem-se mais aos fatores relacionados ao aluno e a sua família,
inserindo menos que as professoras de segunda série, os desempenhos
dos alunos em sua atuação docente. As professoras de primeira
série indicam menos do que as de segunda a sua interferência
na relação do aluno com a escrita como objeto de estudo.
A continuidade do processo de ensino aprendizado, pressuposta na orientação
construtivista, no ciclo básico e na progressão é
resolvida em grande parte, possivelmente, em decorrência de, nesta
escola,a atribuição da 1a.e da 2a. série (no ano
seguinte) ser feita para a mesma professora. Os conhecimentos teóricos,
relativos ao construtivismo, são citados nas manifestações
referentes à avaliação da escrita apresentada pelas
crianças.
As professoras apresentam as tentativas que fazem para averiguar em que
consistem as dificuldades das crianças e manifestam-se a respeito
do sucesso no aprendizado da escrita tentando identificar as variáveis
decisivas entre sucesso e insucesso na alfabetização.
REFERÊNCIAS
ANGELUCCI,B ;KALMUS,J.; PAPARELLI, R.; PATTO,M. H. O estado
da arte da pesquisa sobre o fracasso escolar (1991-2002):um estudo introdutório.
Educ.Pesqui.v.30 n.1 São Paulo .Jan./abr. 2004
CHARLOT,B. Relação com o saber,formação dos
professores e globalização.Porto alegre:Artmed,2005.
CARVALHO, M.P. de Estatísticas de desempenho escolar: o lado avesso.Educação
& Sociedade. v.22n.77 Campinas,dez.2001