| |
SISTEMA
DE CICLOS E PRÁTICA PEDAGÓGICA: UM ESTUDO JUNTO A ALUNOS COM
DIFICULDADES NA LEITURA E ESCRITA
Nerli Nonato Ribeiro Mori - UEM
Introdução
Até que ponto o método de ensino ou o sistema
de ensino (seriado ou em ciclos) podem ser responsabilizados pelo fracasso
na apropriação da leitura e da escrita? Como a prática
pedagógica pode contribuir para a superação dos problemas
escolares? Essas questões são pensadas à luz de um
projeto empreendido junto a alunos do 1º. Ano do Segundo Ciclo –
correspondente à 3ª série do ensino fundamental –
de uma escola pública de uma cidade do noroeste paranaense. O projeto
teve como objetivo realizar avaliação pedagógica
e, a partir dos resultados, oferecer subsídios para a prática
pedagógica da professora da turma investigada. As reflexões
são ilustradas com textos produzidos no início e no final
do ano letivo de 2004.
O desempenho dos alunos investigados não diverge daqueles apresentados
nas avaliações recentemente realizadas pela Organização
para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE,
2003), os quais classificaram o Brasil na 37ª posição
dentre 41 países. Ou da última avaliação do
Sistema de Avaliação Básica (SAEB), cujos resultados
de 2003 indicam que apenas 4,8% dos alunos de 4ª série do
Ensino Fundamental atingem um nível Adequado de construção
de competências em Língua Portuguesa em relação
à série; a maioria dos investigados situa-se na faixa Intermediário
(39,7 %) e Crítico (36,7%). O nível Intermediário
indica alunos que estão começando a desenvolver habilidades
de leitura próximas ao esperado para a série; são
capazes de inferir informações explícitas em textos
mais longos, identificam a finalidade de um texto informativo e reconhecem
elementos de uma narrativa, tais como: conflito gerador, personagens e
desfecho do conflito.
A leitura dos alunos do nível Crítico é pouco condizente
com a série em que estão matriculados; eles decodificam
apenas narrativas simples, curtas, localizando informações
explícitas e imediatas.
Do total de alunos avaliados pelo SAEB, 18,7% estão no nível
Muito Crítico, ou seja, não apresentaram habilidades de
leitura mínimas condizentes com quatro anos de escolarização;
em outras palavras, esses alunos não estão alfabetizados.
Esses resultados têm provocado intensos debates, os quais, muitas
vezes, apontam os métodos ou o sistema de ensino em ciclos como
responsáveis pelo pobre desempenho de nossos alunos. Apresentamos
na seqüência uma síntese de leituras realizadas acerca
da temática.
1. Sistemas e métodos de ensino como fatores responsáveis
pelo baixo desempenho dos alunos nas avaliações
As discussões sobre o fraco desempenho dos nossos
alunos têm ocupado espaço na imprensa especializada, em jornais
impressos e televisivos e também em programas televisivos mais
populares. É lugar comum a constatação de que os
alunos da escola brasileira não possuem as necessárias competências
de leitura e escrita e as causas comumente apontadas são as políticas
governamentais para a educação, o sistema de ciclos e a
aprovação automática e, mais recentemente, tomam
corpo, as acusações aos métodos de ensino.
Autores como Capovilla e Capovilla (2002) e Oliveira (2003), apontam como
causas da crise a falta de pesquisas acerca da forma de ensino e dos seus
parâmetros norteadores. Para os autores, é preciso questionar
a formação que os professores estão recebendo nas
universidades, as quais estariam fazendo um doutrinamento em prol do construtivismo,
em detrimento de uma instrução eficaz e experimentação
efetiva como alfabetizadores. Além disso, os professores estariam
sendo obrigados a seguir parâmetros que foram decretados pelos órgãos
governamentais na ausência de pesquisas.
Ao comparar os resultados alcançados pelos países participantes
do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA),
os autores constataram que os melhores índices foram alcançados
por países que adotam o método fônico, dentre os quais
estão Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. No extremo
oposto estão países como Portugal, México e Brasil,
que seguem o construtivismo.
Capovilla e Capovilla (2002) tecem críticas contundentes ao construtivismo
e ao método global, princípios básicos dos parâmetros
norteadores da educação brasileira atual. Para eles, a adesão
intransigente e dogmática ao método global, sem a necessária
experimentação, é uma atitude contrária ao
que pregava Piaget, a principal referência construtivista.
E, ironia das ironias, esses Parâmetros Curriculares
Nacionais são ditados e mantidos por um establishment construtivista
que se diz piagetiano, embora tenha se esquecido por completo, desde que
agarrou-se ao poder em meados dos 1980, das recomendações
explícitas de Piaget quanto à necessidade de estabelecer
uma pedagogia Experimental para escolher dentre diferentes métodos
de alfabetização como, por exemplo, o global (ou ideovisual)
versus o fônico (ou "analítico", como se dizia
na época) (p. 13).
Todavia, será que as práticas pedagógicas
são mesmo construtivistas? Em pesquisa realizada por Oliveira e
Schwartzman (Apud Oliveira, 2003), com o intuito de verificar a formação
de professores, 60% deles declararam usar método construtivista,
mas ao mesmo tempo afirmaram não ter recebido formação
para alfabetizar, ou seja, faltam-lhes os instrumentos básicos
de trabalho.
Para Oliveira (Ibid.), a maior dificuldade para uma prática pedagógica
eficaz é a falta de políticas educacionais sérias
e bem definidas. Para a constituição de um novo panorama
educacional, o autor destaca alguns pontos:
a) A realização de pesquisas com métodos e procedimentos
reconhecidos pela comunidade acadêmica;
b) O respeito à pluralidade de abordagens e métodos, pois
embora acredite que existam princípios e práticas mais eficazes
para uma maioria, para o autor o que ocorre num sistema escolar e numa
sala de aula é sempre função de um conjunto de fatores.
Não existe método de ensino puro - separado do professor
e independente da qualidade dos materiais.
c) A necessidade de avaliações independentes e objetivas.
Se o objetivo da escola é ensinar, o sucesso desse propósito
se verifica pela competência com que o aluno lê e escreve,
sua fluência, nível de vocabulário e compreensão;
isso não será alcançado pela adesão "ideológica
e cega" (p. 421) a métodos ou teorias.
O autor conclui que é necessário um investimento maciço
em formação de professores, na produção de
materiais de qualidade e pesquisas voltadas para a utilização
desses em situações concretas de sala de aula. Não
se trata, portanto, de simples comparação de métodos,
mas de verificação do que funciona, das condições
de funcionamento e das explicações para o sucesso.
O sistema de educação em ciclos - quase sempre associado
à não-aprovação ou progressão continuada
- é outro fator apontado como responsável pelos resultados
dos alunos nas avaliações. Fernandes (2000), demonstra que
esses temas há muito vêm sendo discutidos no Brasil e experiências
internacionais já eram anunciadas nos anos 20; todavia, só
em 1950 as propostas de aprovação automática foram
encaradas com entusiasmo e otimismo por políticos e gestores.
As justificativas atuais para a organização da escolaridade
em ciclos e para a progressão automática são semelhantes
às de décadas passadas. Os argumentos mais freqüentes
são a inclusão de todos os alunos na vida escolar, em atendimento
à obrigatoriedade do ensino fundamental e ao respeito do ensino
fundamental, bem como o respeito aos diferentes ritmos de aprendizagem
dos alunos e à formação de classes mais homogêneas
quanto aos interesses por conta da faixa etária dos alunos. Para
Fernandes (Ibid), apesar da similaridade das justificativas, as propostas
atuais são mais maduras no referente às possíveis
fundamentações pedagógicas, maior experiência
em redes de ensino e avaliações mais eficientes dos impactos
do sistema em ciclos nas taxas de aprovação.
O sistema de ciclos compreende períodos de escolarização
que ultrapassam as séries anuais, são organizados em blocos
cuja duração varia, podendo atingir parte ou a totalidade
de anos prevista para um determinado nível. A proposta básica
é a ordenação do tempo escolar em unidades maiores
e mais flexíveis, de modo a atender diferentes tempos e estilos
de aprendizagem. Barreto e Mitrulis (2001), explicam que a opção
por esse regime é acompanhada de proposições como
"educação escolar obrigatória, desenho curricular,
concepção de conhecimento e teoria de aprendizagem que fundamentam
o ciclo, processo de avaliação, reforço e recuperação,
composição de turmas, enfim, novas formas de ordenação
dos tempos e espaços escolares que envolvem diferentes atores sociais
afetados pelos ciclos" (p.1-2).
A despeito dessas proposições, o regime de ciclos introduzido
no Brasil tende a ser uma mistura de regime seriado e progressão
continuada, haja vista que mesmo nas redes que adotaram os ciclos de maneira
mais integrada, as séries continuam a ser referência implícita
ou explícita, bem como a idéia de que, ao final de cada
ciclo, os alunos devem apresentar um conjunto de habilidades e conhecimentos
básicos em nível semelhante; ou seja, apesar do princípio
básico de flexibilização do tempo, prevalece a idéia
de homogeneidade.
Várias razões podem ser apontadas para o fato. A principal
delas talvez seja a falta de participação dos professores
e pais na formulação e implantação das propostas
educacionais, o que os faz não se verem como co-participantes do
processo. A conseqüência disso, é que a maioria dos
pais e professores considera o sistema como uma imposição
do governo.
Gomes (2004) realizou um levantamento das pesquisas sobre ciclos realizadas
nos últimos quinze anos e constatou a falta de formação
continuada e de acompanhamento requeridos para a implantação
do novo sistema; os professores, muitos deles adeptos da pedagogia da
repetência foram impelidos a uma prática pedagógica
sem o devido preparo e sem estarem convencidos da legitimidade desta.
Conseqüentemente, como explica o autor, apenas colocou-se uma nova
roupagem numa escola velha, que não modificou a sua organização
curricular e as forma de avaliação.
As mudanças propostas foram associadas à promoção
automática e não à progressão continuada,
conforme a qual todos os alunos são capazes de aprender e seu processo
não deve ser interrompido ano a ano, como o que ocorre no sistema
seriado.
Outro equívoco em associar a crise educacional ao sistema de ciclos
é o fato de que a organização por séries continua
a ser majoritária no Brasil. Segundo o Censo Escolar de 2000, divulgado
pelo INEP em 2001, cerca de apenas 20% dos alunos estão matriculados
no sistema de ciclos, sendo que a metade deles está concentrada
na região sudeste. Em outras palavras, os resultados das avaliações
nacionais e internacionais não refletem a educação
em ciclos, pois as amostras foram colhidas aleatoriamente em todos os
estados brasileiros.
Ainda são escassas as pesquisas sobre a repercussão da forma
de organização em série ou em ciclos e as competências
de leitura e escrita.
As leituras realizadas indicam, portanto, que o entendimento das formas
de organização do sistema escolar e dos métodos é
muito semelhante; são tomadas decisões e definidas ações
sem o respaldo da verificação científica.
O momento atual é de associação do sistema de educação
em ciclos com a aprovação automática, o construtivismo
e o método global. Talvez por isso se verifique uma tendência
á defesa do regime seriado e do método fônico. Parece-nos
que as várias combinações dessas tendências
sejam elas quais forem, exigem estudos específicos e experimentações
que contribuam para o avanço do conhecimento sobre os temas.
Definidos os pressupostos básicos que nortearam o estudo, passamos
ao trabalho de campo.
2. A escrita numa turma de sistema em ciclos
Os dados aqui apresentados fazem parte de um projeto desenvolvido
com acadêmicos do último ano de Pedagogia junto a alunos
do ensino fundamental com dificuldades escolares. Como uma das acadêmicas
é regente de uma turma constituída de uma forma especial,
ela realizou o trabalho com a sua própria turma.
Estamos apresentando, portanto, o recorte de um projeto maior que envolveu
avaliação social e pedagógica e intervenção
orientada. Além do projeto, também a equipe da Secretaria
Municipal de Educação acompanhou o trabalho da professora.
2.1 A formação da turma
Numa perspectiva de construção coletiva,
a secretaria de educação elaborou a proposta curricular
para o município. Conforme Araújo (2004), partiu-se do pressuposto
básico de que “o papel da escola é a socialização
do conhecimento elaborado historicamente pela humanidade, conforme as
necessidades postas em determinados momentos pelas relações
sociais estabelecidas entre as classes e com a natureza...” (p.
6).
A partir desse pressuposto e frente ao alto índice de reprovação
dos alunos de 1º e 2º ciclos, a secretaria empreendeu várias
ações didático-pedagógicas e políticas
voltadas para o combate da repetência.
Foi verificado, no entanto, que mesmo após algumas medidas, o índice
de repetência levantado no início de 2003 e que havia totalizado
um percentual de 13,9% do total de alunos matriculados ? sendo 9,8% do
Primeiro Ciclo e 4,1% do Segundo Ciclo ? praticamente não havia
sido alterado ao final do ano letivo.
A secretaria propôs, então, às escolas a aprovação
dos alunos do final do Primeiro Ciclo para o ano inicial do Segundo Ciclo;
as turmas formadas receberiam condições diferenciadas.
Dessa forma organizaram-se turmas com, no máximo, vinte e cinco
alunos, selecionados pelos professores do final do Primeiro Ciclo e em
conjunto com a equipe diretiva de cada escola. A equipe diretiva ficou
incumbida de indicar o professor por ela considerado como mais adequado
para desenvolver um trabalho direcionado para as dificuldades dos alunos.
A Secretaria providenciou também um professor itinerante para cada
uma dessas turmas, cuja função é auxiliar o professor
regente duas vezes por semana.
A turma em pauta tem dezessete alunos, sendo nove do sexo masculino e
oito do feminino, assim distribuídos por idade:
Como indicado no gráfico, apenas dois alunos têm
idade acima do esperado para a série; as histórias de cada
um informam que todos sempre freqüentaram a escola, mas, apesar disso,
eles foram sendo aprovados sem competências mínimas de leitura
e de escrita.
Muitos deles estavam com auto-estima bastante rebaixada, se considerando
incapazes de aprender. Assim, foram programadas aulas voltadas para o
ensino de conteúdos das diversas áreas, mas com ênfase
na Língua Portuguesa, com atividades de leitura compreensiva e
significativa de textos e sistematização reflexiva da escrita,
produção e reestruturação de textos.
2.2 A prática pedagógica e a produção
de textos
Para verificar os níveis de escrita da turma foram
colhidos textos no início e ao final do período letivo.
As análises tiveram como base as indicações de Naspolini
(1996), Zorzi (2003), Morais (2000) e Lemle (2004).
O primeiro texto foi produzido após os alunos terem assistido assistir
o filme O menino Maluquinho, quando, então, foi solicitado que
eles escrevessem sobre a cena mais apreciada.
O segundo texto foi feito após a apresentação e discussão
de uma seqüência de quadrinhos que mostra um menino mexendo
com um cacho de abelhas e sendo picado por elas. Com o objetivo de uma
maior clareza os textos foram digitados com muito cuidado a fim de manter
a fidelidade ao escrito pelos autores.
Na primeira coleta, dos dezessete textos, apenas cinco apresentaram coerência,
objetividade; os erros, de modo geral, estão relacionados à
influência da oralidade, acentuação incorreta e troca
de letras com sons parecidos (jego/chegou). Em todos os textos há
problemas de segmentação (vosotau/vou soltar). Na Fig. 1
apresentamos um texto com essas características.
Três textos eram coerentes, mas a incidência de erros prejudicava
a clareza e objetividade. Muitos apresentaram uso incorreto de letras
maiúsculas e minúsculas, repetição de palavras
e problemas de segmentação, influência da oralidade
(aparti/ a parte), omissão de letras (gotei/gostei), influência
da oralidade (peidaro/peidaram), troca de letras (legol/legal), como fica
demonstrado no texto da Fig. 2.
Seis textos indicaram transição entre nível silábico-alfabético
para o alfabético, ou seja, busca de correspondência fonema/grafema,
mas os alunos ainda não tinham os elementos necessários
para escrever corretamente (Fig. 3).
Os textos de três alunos são indicativos de hipótese
silábica, sem correspondência fonema/grafema e sem noção
de segmentação (Fig. 4).
Ao lado das produções iniciais, apresentamos o texto produzido
pelos mesmos alunos ao final do ano:
|
FIG. 1
|
O
menino foi catar manga
para
a irmã dele e o
sobrinho
do dono chegou falou eu
vou
soltar o cachorro
(T.S.C., 10;01) |
|
FIG. 1.1 |
O
menino danadinho
O Bruno teve férias ele foi na casa
do lado da casa dele e ele foi mexer
para ver que tinha mel para chupar e
as abelhas correram atrás do Bruno mais
ele tampou O rosto dele e saiu
correndo para casa saiu machucado ficou
vermelho e correndo e as abelhas picou
a dona das abelhas falou para O Bruno quantos anos você
tem 8 porque você mexeu com elas eu estava com vontade de chupar
o mel das abelhas porque é gostoso
mas ela não deixou pegar o mel.
(T.
S. C. segundo texto)
|
| FIG. 2
|
Eu
gostei a parte que
eu
gostei que eles
peidaram
todos
eles
peidaram foi mu
ito
legal
(I. C. S., 09;03) |
|
|
|
|
|
| FIG.
2.1
|
Vamos
brincar com abelhas
É
uma vez um menino que se chamava
Leandro
estava cutucando um cacho de
abelha
era um sábado de manhã!
e
também abelha pensou o que esta me
cutucando
eu vou sair não agüento
mais
ZZZZZ .
e
abelha pensou vou sair eu vou
te
picar não agüento mais pi pi pi
aaaaaaaaaai
Socorro está doendo de
mais
Mãe Mãe Mãe Socorro?
Aaaaai
Meu pé pé pé!
Muito
obrigado adeus.
(I.
C. S., segundo texto).
|
| FIG.
3
|
A
parte que eu gostei foi a da cozinha que o menino
fez
uma mágica que apareceu um pintinho
e
apareceu o amigo e quebrou o ovo
e
a cozinheira falou que ia cortar o pênis
e
eles saíram correndo para o quarto se limpar
(E.
L. S. 09;07)
|
|
FIG.
3.1
|
Gabriel
e suas aventuras
Um
dia Gabriel foi numa chácara e
Viu
Um cacho de abelha na chácara de seus avós
e
mexeu no cacho de abelhas e as
abelhas
assustou e
gritou
seu pai as abelhas saiu correndo atrás
do
Gabriel coitado assustou
levei
um carrerão das abelhas corri muito
levantei
poeira caiu mel encima de
mim
me joguei na água e as abelhas
foram
embora e eu fui embora e
nunca
mais mexi com abelha fim
(E.
L. S., segundo texto). |
| FIG.
4
(J. F. I., 09;02)
A
aluna não soube dizer o que escreveu; apenas falou o nome de algumas
letras. |
| Fig.
4.1
|
O
menino e abelha
O
menino estava na casa dele e mecheu
Na
abelha e abelha picou o menino e o me-
Nino
ficou com medo e nunca mais mexeu.
A
mãe do menino falou para ele falou pára
A
mãe dele que disse para sua mãe foi na árvore e chamou menino.
(J.
F. I., segundo texto). |
Analisando
as produções dos dezessete alunos na segunda coleta, constatamos
que, à exceção de uma aluna, os demais produzem textos
de nível alfabético. A prática pedagógica
desenvolvida pela professora parece realmente ter contribuído para
formar nas crianças a confiança e o entusiasmo pela escrita;
quase todos os textos são longos, criativos, com muita imaginação,
ultrapassando a mera descrição de fatos imediatos.
Os textos atendem a função comunicativa (quem fala, para
quem, para quê), apresentam a silhueta adequada para a intenção
comunicativa (narrativa), têm título e parágrafo.
Quanto à pontuação, usam o ponto final; apenas dois
alunos usaram ponto de exclamação e de interrogação.
Assim como T. S. C. (FIG 1.1), mais dois alunos não usaram adequadamente
letras maiúsculas e minúsculas.
Os colegas de I. C. S. (FIG 2.1) também continuam com problemas
com relação à segmentação (sechamava/se
chamava, tipicar/te picar, o briga/obrigado).
A precisão e variedade do vocabulário demonstrado são
suficientes para comunicar o pensamento e a sintaxe das orações
é gramaticalmente aceitável. Todavia, é evidente
a necessidade de atividades voltadas para o enriquecimento do vocabulário,
de modo a avançar para além das palavras de uso cotidiano,
relacionadas a ações e fatos concretos.
A escrita dos alunos demonstra que a leitura é essencial para eles.
Com o apoio de bons livros, cujos temas sejam interessantes e adequados
aos seus interesses e com atividades de interpretação que
envolvam vocabulário, eles podem superar as limitações.
O nível de comunicação da escrita dos alunos avançou
em relação à avaliação inicial, mas
ainda fica muito prejudicada devido às alterações
apresentadas.
Atualmente discute-se tanto a questão dos métodos e o sistema
de ciclos.Pensamos que não é a adoção deste
ou daquele método que vai resolver os problemas; nem todas as crianças
aprendem da mesma maneira. Como explica Leontiev (1978), método
e condições de ensino convenientes às necessidades
dos alunos pode levar aqueles que têm histórias de fracasso
escolar a consideráveis progressos.
Assim, as questões básicas são as condições
de trabalho e o modo de mediação do professor.
No caso das crianças com dificuldades de escrita já instaladas
– como as da turma investigada – um plano de intervenção
exige conhecimento sobre aspectos lingüísticos que caracterizam
o sistema alfabético de escrita português.
Lemle (2004) propõe que no processo de apreensão da escrita,
a criança passa pelas seguintes etapas:
• Teoria do casamento monogâmico entre sons e letras, ou seja,
o entendimento de que cada letra tem seu som;
• Teoria da poligamia com restrições de posição,
quando a criança rejeita a hipótese de monogamia letra-som
e percebe que há palavras nas quais o som da letra se modifica
conforme a posição que ela ocupa na palavra;
• Percepção da arbitrariedade da relação
letra-som em algumas palavras.
A autora
resume assim a teoria de correspondência entre sons e letras formada
pelo alfabetizando: “Para cada som numa dada posição,
há uma da letra; a cada letra numa da posição, corresponde
um dado som. Em certos ambientes, certos sons podem ser representados
por mais de uma letra”. (p.32).
Após esse percurso pode-se proporcionar ao alfabetizando a percepção
das regularidades ligadas à morfologia das palavras, com seus sufixos
e prefixos. Atividades bem planejadas, envolvendo a morfologia das palavras
podem diminuir os problemas das escolhas arbitrárias entre letras
concorrentes como s e z, g e j, ç e s, entre outras.
O percurso descrito por Lemle (Ibid), não ocorre naturalmente;
ele necessita ser trabalhado. O sistema ou método de ensino que
não leve isso em conta não pode ter sucesso. Nesse sentido,
concordamos com Soares (2004), quando ela afirma que o construtivismo
contribuiu para uma mudança paradigmática na área
da alfabetização no referente à compreensão
das hipóteses das crianças na aquisição da
língua escrita. Por outro lado, conduziu também a uma série
de equívocos e falsa crenças que contribuíram para
a escola deixar de trabalhar a relação fonema/grafema.
Para alfabetizar-se, bastaria a imersão no mundo letrado, o acesso
a materiais escritos. Ora, essa é apenas uma das facetas do ensinar
e aprender a ler e escrever. Além da imersão na cultura
escrita, da vivência de experiências variadas de escrita e
com diferentes tipos gêneros de textos, também são
requisitos a consciência fonológica e fonêmica, as
habilidades de codificação e decodificação
da língua escrita.
Portanto, mais que contrapor diferentes métodos, temos que capacitar
os professores para que eles possam lidar com as múltiplas dimensões
da alfabetização.
Condições de trabalho, formação, materiais
de leitura e escrita ricos e variados ... Esse é o caminho para
o domínio do código escrito.
3. Algumas
considerações finais
Estamos em
julho de 2005, metade de outro ano letivo. Como está a turma trabalhada?
Devido às eleições municipais do ano anterior, havia
expectativas quanto a mudanças no projeto da secretaria municipal.
No entanto, a equipe continua a mesma e os projetos também. Os
alunos estão avançando, mas a professora está preocupada,
pois nem mesmo os que apresentam os maiores avanços se aproximam
do esperado para a fase escolar em que estão; além dos problemas
com a leitura e escrita, há defasagens dos conteúdos específicos
para cada série, uma referência presente até no Currículo
básico para a escola pública do estado do Paraná.
Atualmente os alunos estão cursando o 2º Ano do Segundo Ciclo
e ao final do ano serão submetidos à avaliação
com vistas à aprovação ou reprovação.
Sejam quais forem as alternativas propostas, o ensino sistemático,
planejado, voltado para a aquisição da leitura e escrita,
necessita ser continuado. E sempre levando em conta os aspectos lingüísticos
já dominados e aqueles que ainda devem ser trabalhados.
O município tomou uma decisão difícil; num contexto
em que tanto se fala sobre inclusão e da importância de trocas
entre pares diferentes, a proposta dos gestores foi criticada.
Inclusão e interação são importantes, mas
não podem ofuscar a premência destas crianças investigadas
aprenderem a ler e escrever; por isso, a decisão foi corajosa e
responsável. Esse foi o caminho que o município encontrou.
Esperamos que ao final eles possam fazer uma avaliação bem
respaldada do trabalho realizado e que os resultados da mesma possam contribuir
para solucionar o problema das crianças que têm o aparato
necessário para aprender, freqüentam a escola por anos seguidos
e, ainda assim, não sabem ler e escrever.
4. Referências
ARAÚJO,
J. L. Apresentação. Prefeitura do Município de Sarandi/Secretaria
Municipal de Educação. Proposta Curricular para o ensino
fundamental.
Sarandi, 2004.
BARRETO, E. S. de S.; MITRULIS, E. Trajetórias e desafios dos ciclos
escolares no País. In: Revista de Estudos Avançados, São
Paulo, USP, v. 15, n.º 42. Disponível em www.usp.br.
BRASIL. Ministério da Educação e da Cultura. INEP
- Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio
Teixeira. Censo Escolar 2001. Disponível em www.inep.gov.br.
BRASIL. Ministério da Educação e da Cultura. INEP
- Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio
Teixeira. Censo Escolar 2003. Disponível em www.inep.gov.br.
BRASIL. Ministério da Educação e da Cultura. SAEB
2002: Relatório Nacional. Brasília: INEP - Instituto Nacional
de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Disponível
em www.inep.gov.br
CAPOVILLA, A. G. S.; CAPOVILLA, F. C. Alfabetização: método
fônico. São Paulo: Memnon, 2002.
FERNANDES, C. de O. A promoção automática na década
de 50: uma revisão bibliográfica na RBEP. In: Revista Brasileira
de Estudos Pedagógicos, Brasília, v. 81, n.º 81, p-76-88,
jan./abr. 2000, p. 76-88.
FRANCO, C. Ciclos e letramento na fase inicial do ensino fundamental.
In: Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, ANPED
- Associação Nacional de Pós-Graduação
e Pesquisa em Educação, n.º 25, jan./abr. 2004, p.
30-38.
GOMES. C. A. Quinze anos de ciclos no ensino fundamental: um balanço
das pesquisas sobre a sua implantação. In: Revista Brasileira
de Educação, Rio de Janeiro, ANPED - Associação
Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação,
n.º 25, jan./abr. 2004, p. 39-52.
IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo demográfico
2003.
LEMLE, M. Guia teórico do alfabetizador. São Paulo: Ática,
2004.
LEONTIEV, A. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Horizonte, 1978.
MORAIS, A.G. Ortografia: ensinar e aprender. São Paulo: Ática,
2000.
NASPOLINI, A. T. Didática de Português. Tijolo por tijolo:
leitura e produção. São Paulo: FTD, 1996.
OLIVEIRA, J. B. A. ABC do alfabetizador. Belo Horizonte (MG): Alfa Educativa
Ltda, 2003.
PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação. Currículo
básico para a escola pública do estado do Paraná.
Curitiba, 2003. Disponível em www.pr.gov.br
SOARES, M. B. Letramento e alfabetização: as muitas facetas.
In: Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, ANPED
- Associação Nacional de Pós-Graduação
e Pesquisa em Educação, n. º 25, jan./abr. 2004, p.
5-17.
ZORZI, J. L. Aprendizagem e distúrbios da linguagem escrita: questões
clínicas e educacionais. Porto Alegre: Artmed, 2003. |
|