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REFLETINDO
SOBRE A QUESTÃO DA DECODIFICAÇÃO/CODIFICAÇÃO
DE TEXTOS: AS INFLUÊNCIAS DAS CONCEPÇÕES DE LEITORES
E PRODUTORES DE TEXTO
Lídia Maria Ferreira de Oliveira - Universidade
Federal Fluminense – UFF
Das inquietações às reflexões
Há algum tempo venho pensando na questão
da leitura e da produção de texto de maneira mais sistemática,
especialmente em função do fato de ter ingressado efetivamente
no magistério depois de graduada
Durante o Segundo Grau achava normal que algumas pessoas tivessem mais
facilidade e outros mais dificuldade com leitura e escrita: deduzia que
era uma questão de “aptidão”: algumas pessoas
tinham habilidade inata para essas atividades . E eu me encontrava do
lado daqueles que tinham a tal “facilidade” com a leitura
e a escrita.
Foi durante a graduação que comecei a problematizar esta
questão; já não era mais uma mera reflexão.
Isso talvez tenha se dado em função de ter tido alguns companheiros
na graduação do curso de Letras que apresentavam muitas
dificuldades com a leitura e a produção de textos. De acordo
com o senso comum, espera-se que estudantes do curso de Letras sejam especialistas
nestes dois quesitos.
Em outro momento, quando ingressei na rede de ensino público pude
ter um contato maior não com alunos somente, mas principalmente
com os programas, os conteúdos das aulas de língua portuguesa,
literatura e redação, além dos livros didáticos
utilizados, e com os colegas da área de português e de outras
disciplinas.
A partir daí tomei contato com a realidade da leitura e da produção
de textos nas escolas a partir de uma perspectiva diferente das anteriores.
Digo assim, pois antes o que eu tinha eram apenas impressões de
quem nunca esteve ocupando o lugar que passei a ocupar – o lugar
de professora, de uma profissional que se encontra no interior de uma
importante instituição social: a escola . Antes, o ponto
de vista que tinha era o de aluna de primeiro e segundo graus, e muito
ingênua para qualquer reflexão mais consistente, com pouca
ou nenhuma consciência crítica, principalmente para o assunto
em questão; depois a perspectiva era de quem acompanha de fora,
ainda que com maturidade e senso crítico um tanto apurado, mas
não conseguia perceber o quão complexa era a questão,
principalmente dentro da escola.
Em minha prática na escola pude perceber que muitos alunos encontram-se
ainda, no Ensino Médio, apenas decodificando ou, quando muito,
estão tentando encontrar o significado dicionarizado das palavras,
mas não o significado das palavras naqueles textos específicos
que são lidos por eles ou o significado daquele texto, e mesmo
das palavras, em um contexto mais amplo, onde certamente ele se insere.
Querer saber as causas disso, pois não acredito ser o aluno o centro
ou o único responsável por estas dificuldades, tem me impulsionado
a fazer leituras, observações mais sistemáticas,
conversar com alunos a respeito de suas possibilidades com os textos,
discutir com colegas de trabalho possibilidades de atividades; tem me
levado também a experimentar todo tipo de textos em sala de aula:
de classificados de jornais a poesia épica, passando por livros
que discutem o uso da língua, como os de Marcos Bagno , por exemplo;
ler junto com os alunos alguns contos durante a aula, problematizar em
nossas atividades questões de leitura, escrita, poder, liberdade.
Causa espanto o fato de que alunos no Ensino Médio saibam ler e
escrever, tenham documentos oficiais que certifiquem isso, mas que não
consigam compreender o que lêem, estabelecer relações
entre textos e contextos e produzam de maneira muito precária os
próprios textos.
Não acredito que ler textos tal qual os biólogos dissecam
seus objetos de estudo seja fácil. Para mim, até hoje, não
é. No entanto, acredito que ler e produzir textos tem muito disso.
Tentar compreender, ver o que há de fato ali; tentar entender através
da leitura e da escrita o mundo que nos cerca e o mundo que idealizamos.
Tentar compreender a nós mesmos através da leitura e do
texto que produzimos, a partir do diálogo estabelecido e das contrapalavras
advindas deste processo.
Se a linguagem, mais que elemento de comunicação, é,
prioritariamente, de acordo com a concepção bakhtiniana,
atividade de constituição do sujeito e do mundo, a leitura
e a escrita, dentro ou fora da escola não podem ser encaradas como
mero instrumento.
Acredito que não há apenas uma concepção,
mas concepções de leitores e produtores de textos dentro
da escola, como a do aluno, do professor – provavelmente, nestes
dois grupos há mais de uma – do orientador pedagógico,
do diretor, dos pais, além, é claro, dos documentos oficiais.
Saber que concepção, ou concepções de leitores
e produtores de texto circulam na escola, e se isso influencia ou interfere
no processo ensino-aprendizagem ou nos resultados alcançados principalmente
pelos alunos, provavelmente ajudará a entender por que a escola
vem, de maneira geral, formando decodificadores de textos e fazedores
de redação ao invés de leitores e produtores de textos.
A partir disso, construo a seguinte pergunta: que concepção
(ou concepções) de leitores e produtores de textos circulam
na escola?
O que se propõe é que reflitamos – os professores
da educação básica – sobre o que realmente
tem orientado o nosso trabalho. Acredito que para o campo de estudos sobre
a produção de leitura e de texto, agregado à prática
escolar, esta discussão pode ser mais uma contribuição
para a reflexão sobre o tema, especialmente no que diz respeito
aos atores da relação ensino-aprendizagem, uma vez que estaremos
dando destaque à fala do professor e do aluno.
Linguagem, dialogia e alteridade: a contribuição
de Bakhtin para a reflexão
Bakhtin discorre sobre a importância da enunciação,
pois segundo ele as “unidades reais da cadeia verbal são
as enunciações”, não palavras abstraídas
de suas totalidades, e estas unidades, adverte ele, convém que
“não sejam separadas do curso histórico das enunciações”.
Então, entender as concepções de leitor e produtor
de texto na escola implica a compreensão da conjuntura, melhor
dizendo, das condições de produção que conformam
tais concepções, e não interpretá-las em si
mesmas.
Pensar nos leitores e produtores de texto da/na escola, e nas práticas
de leitura e escrita enquanto atividade, e não instrumentos, gera
a necessidade de destacarmos o papel importante da linguagem enquanto
constitutiva, resultado de um trabalho (não alienado), resultado
de práxis.
Neste sentido, gostaria de chamar a atenção para duas expressões
que, de acordo com a concepção bakhtiniana, devem acompanhar
a linguagem: atividade e práxis. A primeira traz consigo aquilo
que poderíamos chamar de parte da síntese do que é
a linguagem: construção, elaboração, processo,
criação, compreensão, produto a ser alcançado.
A segunda, casada à primeira, remete-nos a uma prática responsável
a medida que orienta uma atividade reflexiva, transformadora do mundo
da vida. Esta reflexão nos leva diretamente à compreensão
responsiva.
Entendendo que atividade e práxis são constitutivas do processo
de leitura e de produção de texto, e se ler e produzir textos
é enunciar, e ainda se assumirmos que enunciar é tomar uma
posição avaliativa, responder e se colocar para outra resposta,
em um continuum de enunciações, estaremos indo ao encontro
do conceito de compreensão responsiva, ou seja, “o processo
de compreensão não pode ser entendido como passivo, como
mera decodificação de uma mensagem” (Faraco, 2003:71),
mas sim como ativo, grávido de contrapalavras, de signos, de tensões
axiológicas.
Objetivamente sobre a construção do conhecimento, Bakhtin
afirma que “perguntas e respostas supõem uma distância
recíproca. Se a resposta não gera uma nova pergunta, separa-se
do diálogo e entra no conhecimento sistêmico, no fundo impessoal”
(2003:408). Então não é possível que sejam
a leitura ou a escrita homogeneizantes, monológicas, mas, provavelmente,
o que temos é uma determinada prática – a prática
escolar – que tende para a homogeneização.
A concepção de linguagem como veículo de comunicação
fundamenta a instrumentalização da mesma, ratificada pela
teoria da comunicação que objetiva o processo de interação
subjetiva, especialmente quando nomeia os “elementos” da comunicação,
sugerindo uma relação passiva entre os interlocutores. A
ênfase está na informação, como se comunicar
fosse apenas uma questão de transmitir informações,
e não de construir significados. Ao que parece, os significados
são construídos a priori, pelo emissor, aquele que controla
o processo e os sentidos, e ao receptor caberá apenas apreendê-los.
No entanto, gostaria de refletir sobre a comunicação a partir
de outra perspectiva, pois entendo que a falácia da linguagem enquanto
mero instrumento de transmissão de informações reside
no fato de que comunicamos exatamente o que pensamos e o nosso interlocutor
internaliza exatamente o que falamos; trata-se, então, apenas de
codificar e decodificar informações. Para tal reflexão,
nos apoiamos na concepção dialógica de comunicação
.
A comunicação não é, sozinha, constitutiva;
antes, faz parte de um processo mais amplo de constituição
do sujeito, desta maneira, sendo, também constitutiva. O fato de
a comunicação ser essencialmente um ato corrobora tal concepção.
E porque um ato, porque constitutiva, não comunico tudo o que penso
em função de minha própria incompletude, então,
o que penso é incompleto, está em constante elaboração;
assim como está em constante elaboração a maneira
com que meu interlocutor vai receber e elaborar o que comuniquei. A comunicação
não pode ser colocada à parte deste processo de interação
especialmente criativo, pois é durante a comunicação
que construímos o que vai ser comunicado.
Para nos ajudar a refletir um pouco sobre isso, trago algumas palavras
de Franchi:
“Certamente a linguagem se utiliza como instrumento
de comunicação, certamente comunicamos por ela, aos outros,
nossas experiências, estabelecemos por ela, com os outros, laços
‘contratuais’ porque interagimos e nos compreendemos, influenciamos
os outros com nossas opções relativas ao modo peculiar de
ver e sentir o mundo, com decisões conseqüentes sobre o modo
de atuar nele. Mas se queremos imaginar esse comportamento como uma ‘ação’
livre e ativa e criadora, suscetível de pelo menos renovar-se ultrapassando
as convenções e as heranças, processos em crise de
quem é agente e não mero receptáculo da cultura,
temos então que apreendê-la nessa relação instável
de interioridade e exterioriedade, de diálogo e solilóquio:
antes de ser para comunicação, a linguagem é para
a elaboração; e antes de ser mensagem, a linguagem é
construção do pensamento; e antes de ser veículo
de sentimentos, idéias, emoções, aspirações,
a linguagem é um processo criador em que organizamos e informamos
as nossas experiências” (1977:19) (grifos nossos)
A linguagem é um trabalho (inacabado ou inconcluso)
realizado pelos sujeitos; trabalho coletivo que pressupõe, vive,
se alimenta nas relações sociais; é também,
segundo Franchi, “uma atividade quase estruturante, mas não
necessariamente estruturada” e “incessantemente criativa.”
Sobre esses aspectos da linguagem, quero entender como eles ocorrem nas
concepções de leitores e produtores de texto, ou seja, em
que medida essas concepções estarão demonstrando
serem esses aspectos solidários ou concorrentes e contraditórios,
pois se na escola percebemos muito mais uma prática homogeneizante,
reprodutora – o que favorece que o aspecto estruturante tenda para
um fechamento, faz com que seja contraditório ao outro –
ao mesmo tempo percebemos possibilidades, pulsações de atividade
criativa que protesta, subverte essa tentativa homogeneizante –
o que favorece que estruturante seja possibilidade de criação
e recriação constantes –, permitindo um entendimento
da linguagem estruturante porque incessantemente criativa.
Considerando que a prática escolar deveria privilegiar a formação
do leitor e do produtor de texto, e ao mesmo tempo contribuir para a constituição
do sujeito histórico, e que a linguagem é responsável
pela construção de um sistema de referências do mundo
(FRANCHI, 1977), pois é com ela que damos sentido e construímos
nós mesmos e nossas percepções das coisas, dos outros,
de nós mesmos, entendo que os alunos participam ativamente desta
prática escolar, conformando-a, participando dela como agente que
também a mantém, e não apenas como aquele que sofre
os efeitos de uma prática estabelecida por uma instituição,
pois o sujeito não é apenas constituído, ele se constitui
e constitui o mundo. E participar ativamente desta prática é
colocar-se para o diálogo, para o outro.
A relação dialógica é imprescindível
em qualquer prática, em especial a prática discursiva, ora
pelo consenso, ora pela disputa. Pois é confrontando nossos significados
com os significados alheios que construímos conhecimento, e a escola
talvez seja o espaço privilegiado para essa relação,
uma vez que o objetivo desta é produzir e transmitir conhecimento.
E é na escola também que nos colocamos para o outro, seja
o professor, o aluno, o texto do livro, do jornal, da propaganda, etc.
Este outro é a possibilidade que tenho de conhecer uma totalidade
de mim, seja por concordância ou discordância daquilo que
o outro me faz ver.
Encarar a leitura e a produção de texto na escola como possibilidade
de confronto e conflito de significados entre professores e alunos, entre
professores e textos, entre alunos e textos, entre textos e textos é
por em destaque o diferente, o diverso; é o que possibilita a produção
de identidades.
Na relação alteritária professor-aluno, um é
o outro do outro, ou seja, há uma diferença de lugares,
de valores, que na verdade são forjados, em grande parte, no mesmo
“caldo cultural”. Não podemos nos esquecer que enquanto
a escola está formando leitores e produtores de texto, está
contribuindo para a formação do sujeito, de uma identidade,
por isso, “(...) quando o professor corrige o aluno, ele intervém
nos sentidos que este aluno está produzindo e, no mesmo gesto,
está interferindo na constituição de sua identidade.
E isso não é pouca coisa.” (ORLANDI, 1998:205).
A produção de leitura e a produção
de texto
“O texto é um convite à recuperação
da inocência da experiência: a experiência entendida
como uma expedição em que se pode escutar o ‘inaudito’
e em que se pode ler o não-lido, isso é um convite para
romper com os sistemas de educação que dão o mundo
já interpretado, já configurado de uma determinada maneira,
já lido, e, portanto, ilegível.” (Jorge Larrosa)
Sobre a questão da leitura e do texto é
necessário esclarecer a vinculação a uma concepção
destas práticas enquanto produção. Antes, porém,
retomando as reflexões anteriores, cumpre esclarecer que a opção
pelo referencial teórico bakhtiniano está diretamente ligado
a esta tomada de posição de leitura e escrita enquanto produção.
Inicialmente trata-se de recusar às concepções que
estavam em permanente disputa nos anos 60: uma defendia o sujeito como
fonte de seu dizer, e a outra, um sujeito assujeitado às condições
e limitações históricas (GERALDI, 1997:19). Na verdade,
a opção por esta denominação significa dar
ao sujeito o seu lugar de agente na história da constituição
da linguagem, do mundo e de sua própria constituição.
Geraldi afirma que
“Ao
se propor a produção de textos como a devolução
da palavra ao sujeito, aposta-se no diálogo (que não exclui
a polêmica e a luta pelos sentidos) e na possibilidade de recuperar
na “história contida e não contada” elementos
indicativos do novo que se imiscui nas diferentes formas de retomar o
vivido, de inventar o cotidiano.” (1997:20)
Para falar
de outro ponto importante com relação ao uso da palavra
produção citaremos Imbert que, em seu livro Para uma práxis
pedagógica, alertando de que não se trata de uma apresentação
mais detalhada do conceito marxiano de práxis, explica:
“Marx
define práxis como a “atividade material” dos homens
e as “relações materiais” que eles estabelecem
uns com os outros, no interior de um grupo social. A essência da
práxis se esclarece pelo conceito de produção. Produção
que não é uma criação ex-nihilo, porque se
apóia em um conjunto de determinações já apresentadas,
mas antes criação ‘num sentido relativo, mas essencial,
porquanto suscita possibilidades radicalmente novas’. Produção,
além disso, e não simplesmente produção de
objetos, mas autoprodução do próprio homem, ‘de
sorte que a práxis é menos aquilo que o homem faz e como
faz, do que aquilo que o homem faz ao se fazer’” (Imbert,
2003:13, grifo nosso)
Neste sentido,
privilegio o uso da palavra produção pelo fato da mesma
materializar uma prática revolucionária, ativa, constitutiva
de um ser que interfere conscientemente (mesmo que esta consciência
não represente uma totalidade) no mundo, e não uma prática
contemplativa.
Nessa perspectiva ler e escrever não seria exatamente buscar o
sentido que tem esta ou aquela palavra, mas sim, construir (e/ou desconstruir)
significados, e construir (e/ou desconstruir) significados é um
modo de agir no tempo, na sociedade.
Os textos não “têm” significados uniformes, melhor
dizendo, unívocos, ou seja, os significados não estão
dados, são construídos, debatidos, disputados, negociados.
Não são cristalizados, são dinâmicos, têm
movimento, tanto em direção ao já-dito quanto em
direção ao à-dizer.
Eni Orlandi, em Discurso e leitura (2001) inicialmente discorre sobre
o que a levou a considerar a leitura como algo produzido. E seu ponto
de partida foi problematizar o conceito de legibilidade. O que torna um
texto legível? O que é um texto legível?
“(...)
Percebi que a legibilidade de um texto tinha pouco de “objetivo”
e não era apenas uma conseqüência direta, unilateral
e automática da escrita. Não me parecia verdadeira a afirmação:
“um texto bem escrito é legível”. Eu me perguntava:
bem escrito para quem? Legível para quem? Estas questões,
em si, já relativizavam o que muitos colocavam como condições
de legibilidade: as qualidades do próprio texto. A meu ver, entretanto,
é a natureza da relação que alguém estabelece
com o texto que está na base da caracterização da
legibilidade.” (ORLANDI, 2001:8-9, grifo nosso)
E a relação
que se estabelece com o texto diz respeito às condições
de produção, ou seja, qual é a relação
entre o processo de produção de determinado sentido e o
sentido (produto) em si. Isto provavelmente explicaria alguns episódios,
para nós professores, quando, muitas vezes, rotulamos como incapacidade
dos alunos a dificuldade de executar minimamente algumas tarefas, como,
por exemplo, ler enunciados de exercícios.
Centrarmos nossa atenção nas dificuldades do aluno em realizar
algumas tarefas, e não nas causas que o levam a não conseguir
produzir um texto ou realizar uma leitura é, na maioria das vezes,
realizar julgamentos, ao invés de tentar compreender o processo
que gerou tais situações.
Orlandi aponta para a necessidade de buscarmos a historicidade da leitura;
sugerimos o mesmo para a produção de textos. Historicidade
dos textos trazidos para a sala de aula, que são lidos, debatidos,
re-escritos, e historicidade também das produções
de leitura e escrita dos nossos alunos, para que aprender faça
sentido para todos os envolvidos – alunos e professores –
neste processo de produção de sentidos, que é uma
aula. E uma aula deve ser assim porque a sala de aula é lugar de
interação.
Dessa forma, a produção da leitura e do texto implica, necessariamente,
dialogia e alteridade, uma vez que ambas são condição
para a constituição do sujeito; alteridade porque esta é
a condição para a dialogia (a relação professor
aluno é necessariamente alteritária, mesmo que na prática
não seja reconhecida como tal, o que certamente tem gerado algumas
confusões e frustrações) enquanto “entrecruzamento
de múltiplas verdades sociais”, dialogia como necessidade
de reconhecimento de que não podemos “interpretar”
o outro a partir de “minhas” palavras, “meus signos”,
mas sim a partir de suas contrapalavras, da compreensão do processo
de criação de suas contrapalavras. E é nesse entremeio
que o conhecimento se produz.
Concepções
de leitores e produtores de texto e letramento
Segundo
Soares, o significado de alfabetismo (letramento) dependerá inteiramente
de como leitura e escrita são concebidas e praticadas em determinado
contexto social, “o alfabetismo é (...) um conjunto de práticas
governadas pela concepção de o que, como, quando e por que
ler e escrever” (1995: 11). Ou seja, de acordo com as concepções
do que seja ler e escrever, teremos um determinado direcionamento não
só para a questão ensino-aprendizagem da leitura e escrita,
mas também para o próprio ato de ler e escrever.
Kleiman (1995), refletindo sobre as deficiências do sistema educacional
na formação de sujeitos plenamente letrados, diz que tais
deficiências não decorrem apenas do fato dos professores
não serem representantes plenos da cultura letrada, nem das falhas
nos currículos que não os instrumentalizam para o ensino.
Segundo ela, as falhas são mais profundas pois são decorrentes
dos próprios pressupostos que subjazem ao modelo de letramento
escolar.
Pressupostos estes que estão muito mais voltados para o ensino
de uma língua abstrata, que só existe enquanto ideal, que
na realidade não se ancora em nenhum contexto, nem mesmo o da classe
dominante, pois tal língua não admite nenhum tipo de variação
ou questionamento, é absolutamente engessada e radicalmente distante
das variedades populares, por exemplo.
Citando Paulo Freire, Kleiman ainda afirma que tal concepção
de escrita está em contradição com outros modelos
que consideram a aquisição da mesma como uma prática
discursiva que possibilita uma leitura crítica da realidade.
Em minha prática de professora de português do Ensino Médio,
muitas vezes tenho a impressão de que os alunos se sentem estrangeiros
diante de uma variedade lingüística que não é
a sua, com a qual não se identificam. E a sensação
que se tem é que nunca vão se identificar, porque, na maioria
das vezes, aquela variedade parece não ter qualquer relação
com a sua, é como se tivessem que partir do zero, como se nada
soubessem sobre própria língua.
Então, precisam pensar em sua “própria língua”
e “traduzir” naquela outra ensinada na escola, o que, provavelmente,
é um obstáculo para que reflita sobre a própria produção,
tanto de leitura quanto de textos. Moysés (1985) diz que “ser
alfabetizado tem sido ser dominado pelo capital lingüístico
que se foi levado a pensar que se iria dominar”. Neste sentido é
que poderemos considerar então que os alunos não têm
sofrido apenas um processo de aculturação, mas de expropriação
de sua própria variedade, pois já não podem mais
falar utilizando-se dela, pois têm “sua palavra dominada”.
Logo, aquilo que deveria ser um processo de construção de
conhecimento, que necessariamente implicaria contrapalavras dos alunos,
não o é, pois só há lugar para uma determinada
variedade, além de não haver, de maneira geral, espaço
para reflexão sobre tal situação.
Propor a reflexão sobre a questão da leitura e da produção
de textos a partir das concepções de leitores e produtores
de textos que podemos encontrar na escola, especialmente de alunos e professores,
contribuirá para a necessária “discussão de
como se lê e se escreve e de como os leitores/escritores se relacionam
com os textos e como criam significados a partir dos mesmos” (NEVES,
2004).
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