Márcia Lisboa Costa de Oliveira - UFF/UNESA
“ Teaching matters.”
Neste ensaio pretendemos refletir acerca da formação do
leitor nos cursos de Letras, considerando as circunstâncias em que
se dá a leitura, tanto do ponto de vista do perfil dos alunos,
quanto das diretrizes curriculares para o curso.
Focalizar aqui, especificamente, o papel da disciplina Teoria da Literatura
no curso de Letras, tentando pensá-la no contexto da formação
dos alunos como leitores críticos.
Antes de abordar esse assunto, gostaria de relatar como esse texto começou
a nascer. Há cerca de um ano, conversava com uma aluna de Letras,
falávamos sobre seu trabalho de conclusão de curso, que
versaria sobre a leitura, quando ela, muito angustiada, disse-me algo
que não mais me saiu da cabeça:
“Professora, eu gostava tanto de ler, que eu era
sócia do clube do livro, lia tanto que as pessoas até achavam
aquilo anormal. Eu passava horas lendo. Era tão gostoso... Mas
depois que eu entrei na faculdade, nunca mais eu li. Peguei minhas caixas
de livros e levei-as para a casa de meus pais. Nunca mais as abri. Aqui
na faculdade, eles não serviam de nada...
Tudo o que me mandaram ler, eu li com dificuldade, sem entender direito.
Só li mesmo porque era obrigada. Agora, eu não consigo mais
ler nada.
Por que aconteceu isso, professora? Eu gostava tanto de ler...
Eu sinto que nunca mais vou ler nada...”
Como é possível uma coisa dessas? Como foi
que nós fizemos isso, em vez de despertar ou aprimorar o prazer
de ler a literatura, tínhamos excluído uma leitora!
Comecei a prestar atenção aos alunos e vi que aquela aluna
não era um caso isolado, muitos se queixavam de leituras impostas,
textos mal compreendidos, análises que se sentiam incapazes de
elaborar.
Pensando no caso da ex-leitora, comecei a buscar a ponta desse novelo.
Uma pergunta inicial se impôs: afinal, quem era essa aluna? Uma
mulher de trinta anos, de classe popular, funcionária mal remunerada
de escola pública. O diploma seria sua garantia de ascensão
social, de melhoria de vida, mas acima de tudo, formar-se em Letras era
seu sonho de adolescente pobre, realizado a muito custo em faculdade particular.
Essa aluna enquadra-se no perfil dos que hoje chegam à faculdade.
Como ela, milhares de outros alunos enchem nossas salas de aula de sonhos,
desejos, esperanças. O diploma para eles é a grande vitória.
Isso fica claro nas cerimônias de colação de grau,
quando a família toda, em roupas de festa, vem assistir à
formatura daquele que, muitas vezes, é o primeiro a concluir o
sonhado grau superior. É claro o valor desse momento, que ganha
ares de emocionado ritual.
Então, já que o que nos interessa é o ensino, essa
é uma questão fundamental: quem são nossos alunos?
Dela derivam outras indagações que devem necessariamente
fazer parte da reflexão que precede a organização
de um projeto de ensino nessa área: Como nós lidamos com
as competências e mundivivências que nossos alunos trazem?
Como consideramos o que eles lêem ou por que eles não lêem?
Que sentidos ganham para eles os textos e as teorias que compõem
o currículo do curso? Como essas mesmas teorias podem nos ajudar
na elaboração de estratégias de ensino? Em que medida
temos sido capazes de orientá-los em sua formação
como leitores? E como professores de língua e literatura, responsáveis
pela formação de futuros leitores?
Tentando responder à primeira questão, com certeza seria
leviano descrever os alunos de uma instituição, ou mesmo
de uma rede de ensino - pública ou particular – sem uma pesquisa
de campo, mas a observação em sula de aula permite-nos afirmar,
em linhas gerais, que os alunos de Letras são oriundos das classes
média e popular. Muitos estudam à noite e durante o dias
exercem outra profissão que lhes garanta a sobrevivência.
Esse dado econômico pode nos fornecer importantes indicações
acerca da presença da leitura na vida dessas pessoas.
Segundo a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” , a posse
de livros – que não significa sua leitura, mas é um
indicativo interessante – está diretamente relacionada à
dinâmica da distribuição de renda no país.
Assim, tomando como referência apenas a população
adulta alfabetizada, a pesquisa constatou que os 16% mais ricos detém
73% dos livros; sendo que 7% da população possuem 58% dos
livros, enquanto os 14% mais pobres não possuem nenhum livro. Em
média, os brasileiros lêem 1,21 livros por adulto alfabetizado.
Considerando esses dados, podemos inferir que o público alvo dos
cursos de Letras hoje se encontra na faixa entre os dois extremos da pirâmide
econômica, que corresponde aos 70% que possuem apenas 27% dos livros.
Quando observado por esse ângulo, fica ainda mais claro o problema
da leitura na universidade, já que se configura claramente a dificuldade
de acesso por questões financeiras que, somada à escassez
de bibliotecas, cria um quadro que merece ser seriamente analisado.
A pesquisa supracitada também analisou a relação
entre o percentual da população alfabetizada acima de 14
anos, o de compradores de livros e o de leitores correntes. O gráfico
abaixo, extraído da mesma pesquisa , aponta essas relações
percentuais: dentre as pessoas de mais de 14 anos, alfabetizadas, 20%
compra livros, mas apenas 14% podem ser considerados leitores correntes.
Foram considerados leitores correntes aqueles que no dia da pesquisa declararam
estar lendo pelo menos um livro; por estimativa, constituem 12 milhões
de leitores. O gênero mais lido é ligado à religião
e inclui os livros de auto-ajuda. Um dado interessante é que a
pesquisa constatou que a literatura adulta e a religião são
pólos opostos quando entra em cena a variável “grau
de escolaridade”. Quanto mais escolaridade tem o indivíduo,
menos ele lê livros religiosos e mais os de literatura adulta. Dentre
os entrevistados, 23% declararam ter lido livros de poesias e 11%, de
ficção, enquanto nos doze meses anteriores, configurando
o chamado leitor habitual. Outras categorias mencionadas foram: Romance
Nacional e Internacional (19%), Aventura (17%), Juvenil (17%) e História
de amor (17%) A pesquisa, no entanto, não menciona que livros estão
incluídos em cada uma dessas categorias.
Analisando os resultados dessa pesquisa, se utilizássemos os critérios
acadêmicos que definem a fronteira entre textos literários
e não-literários, provavelmente os índices de leitura
baixariam muito...
A seleção dos textos canônicos é um problema
para a Teoria Literária.
Harold Bloom, por exemplo, define os textos fortes pensando a releitura
como um exercício de leitura intensa/intensiva dos mesmos textos
eleitos. Segundo Bloom, já que não se pode ler tudo, é
preciso ler seletivamente apenas o que foi consagrado pelo referendo canônico
.
Suas posições vão ao encontro das propostas de Barthes,
como também das de Jauss e de Eco, relacionando, em última
análise, o valor literário à opacidade, à
fragmentação ou à abertura do texto.
Hans Robert Jauss faz, à luz da Estética da Recepção,
a diferenciação entre a arte de vanguarda e a cultura de
massa. Enquanto a segunda lida com as respostas do público conduzindo-o
a uma atitude de repetição que permite sua manipulação;
a primeira executa a função liberadora da arte ao emancipar
o indivíduo, impelindo-o a uma identificação criativa
que produz conhecimento. Para ele,Essa função liberadora
não está presente na arte de massa, porque ela conduz as
respostas do público à direção que lhe interessa,
portanto lida com suas respostas de forma condicionante e autoritária.
Também Roland Barthes diferencia as leituras de prazer as e leituras
de fruição justamente pelo grau de desestabilização
das verdades estatuídas que provocam, ou não, no leitor
.
Já para Umberto Eco, a ambigüidade é um valor que condiciona
uma produção literária pautada em informalidade,
desordem, casualidade e indeterminação .
Nas palavras desses quatro teóricos ressurge o estranhamento formalista
explicitado de outros modos. Eles nos provocam a pensar essa questão
fundamental para a teoria, que é a hierarquia decorrente da seleção
canônica. É fato que a poética contemporânea
distingue-se da clássica justamente por ter deixado de lado o critério
valorativo para ater-se à compreensão das obras.
As idéias acima citadas, valorizando a ruptura, no fundo permitem
que as obras não referendadas por tal critério sejam postas
à margem e relegadas a um plano inferior. Isso porque a valoração
da arte mediante qualquer critério de autoridade leva à
exclusão das obras que não se insiram nos padrões
estabelecidos. É assim que surgem termos como “subliteratura”,
por exemplo.
Não deixemos de observar, no entanto, que a Teoria Literária
toma como corpus os clássicos, sendo assim, suas conclusões
a levam de volta a esse mesmo conjunto de textos.
A verdade é que o cânone, referendado nas ementas dos cursos
de Letras, é também um desafio em sua organização,
pois há sérios riscos em sua abertura, assim como em seu
fechamento. Um risco da abertura, talvez o maior, é a perda da
especificidade do curso pela diluição da educação
literária que nele se desenvolve. Outro risco seria a possibilidade
de formarem-se professores de literatura que não conheçam
os clássicos. Os riscos do fechamento, por outro lado, já
estão sendo vividos nos cursos.
O mais relevante é que ao entrar na universidade os alunos trazem
um repertório de leituras que não têm nenhum valor
no universo literário acadêmico e uma concepção
parcial e fragmentária do literário. Como sabemos, o ensino
nos níveis médio e fundamental ainda deixa muito a desejar,
especialmente no tocante ao desenvolvimento das habilidades de leitura
e escrita. Tendo em vista o precário quadro que se observa nesses
níveis de ensino, os concluintes do ensino médio costumam
ter uma visão do texto literário limitada por seu enquadramento
em “estilos de época”. Isso porque, mesmo diante da
reformulação prevista nos Parâmetros Curriculares
Nacionais, a História da Literatura continua sendo o foco do ensino.
Assim, não se desenvolve a leitura de obras, mas o recorte de fragmentos
que ilustram determinadas “características”, as quais
permitem o enquadramento do texto num dado movimento literário.
Descontextualizado e fragmentário, o ensino de literatura assim
transformado em conteúdo acaba não oportunizando a formação
de leitores.
Esse é justamente o primeiro tópico do programa de Teoria
da Literatura, quando se discutem as diferentes formulações
do literário. Mesmo considerando-se a forte influência que
os Estudos Culturais, que procuram discutir as relações
de poder investidas nas seleções canônicas, apresentam
no universo acadêmico, a verdade é que a relativização
e mesmo o desfazimento de fronteira de que falam os críticos culturais
não parecem ainda ter chegado à organização
curricular no que tange à seleção dos textos efetivamente
lidos e analisados em sala de aula. Nas cadeiras de literatura, as seqüências
cronologicamente organizadas, segundo os manuais de história literária
constituem a espinha dorsal dos cursos.
Nas primeiras aulas de Teoria da Literatura é comum a constatação
de que, embora tenham focalizado a História Literária durante
três anos, os alunos não a organizem cronologicamente, pois
não conseguem estabelecer uma visão abrangente que lhes
permita refletir acerca da historicidade das obras.
Uma breve investigação acerca dos currículos dos
cursos de Letras, especialmente uma análise da bibliografia das
disciplinas oferecidas nos primeiros períodos, aponta de saída
um descompasso entre as competências de leitura exigidas para a
compreensão crítica de textos teóricos e literários
e a experiência anterior de leitura da maior parte dos alunos. Vejamos,
por exemplo, o que afirma este trecho do manual redigido pelo professor
Vitor Manuel de Aguiar e Silva, referência básica nesse estágio,
ao definir o literário:
“ Em Aristóteles, nos numerosos autores de
tratados ou manuais de poética e retórica dos séculos
XVI, XVII e XVIII, nos escritores românticos e realistas, encontram-se
muitos contributos úteis e pertinentes para a caracterização
do discurso literário. É inegável, porém,
que foi sobretudo com os autores simbolistas e pós-simbolistas
e, de modo particular, com movimentos da crítica literária
como o formalismo russo e o new criticism norte-americano, que se desenvolveram
substancialmente os estudos acerca das qualidades específicas e
diferenciais da linguagem literária, numa procura persistente e
tão rigorosa quanto possível da literariedade, ou seja,
dos elementos e valores que configuram, e singularizam o discurso literário.”
Esse trecho, que pode ser considerado simples do ponto de vista das estruturas
frasais e até no tocante ao vocabulário empregado, no entanto
inclui referências vastas que são fundamentais para sua compreensão.
Observe-se que em um parágrafo o professor refere-se à história
da crítica percorrendo mais de vinte séculos de reflexão;
ele cita ainda correntes estéticas, para chegar ao polêmico
conceito de literariedade. Essas referências configuram o que Umberto
Eco, falando da narrativa de ficção, chama de enciclopédia
do texto, o pano de fundo cultural de um texto, que inclui suas referências
lingüísticas, textuais, intertextuais e o “tesouro social”
nele presente.
Sintomaticamente, uma nota de pé de página remete o leitor
a dois capítulos do livro, os quais versam sobre as correntes críticas
citadas, talvez porque não seja lógico supôs que alguém
interessado em uma investigação basilar acerca do(s) conceito(s)
de literatura detenha todos esses conhecimentos. Assim, ele parece lembrar-se
de seu leitor empírico – outro termo empregado por Eco –
cujos conhecimentos estão bem distantes daqueles virtualizados
pelo texto.
A ementa da disciplina Teoria da Literatura no primeiro semestre faz movimento
semelhante a esse fragmento, pois aborda noções fundamentais
do estudo literário, as quais incluem, com pequenas variações,
os conceitos de Teoria da Literatura, História e crítica
literárias; concepções acerca da literatura; história
e estrutura dos gêneros literários.
Todos os tópicos acima constituem densas discussões que,
sem dúvida, precisam fazer parte do horizonte do profissional da
área. O problema repousa, basicamente, em dois aspectos: a mencionada
falta de leitura literária e a complexidade da bibliografia disponível.
O repertório de leituras literárias é sempre ativado
quando se inicia a discussão acerca do que caracteriza esse tipo
de texto. E isso torna praticamente inviável a participação
dos alunos que não trazem esse repertório. Ainda mais difícil
é compreender essa discussão conceitual quando os exemplos
citados nos manuais, em sua maioria estrangeiros, estão distantes
de suas referências.
Se nossos alunos ainda não são leitores literários,
urge repensar o ensino de teoria, pois ela pode ser uma ferramenta importante
na formação desses leitores. No texto “A competência
literária” Jonathan Culler afirma que a compreensão
do texto literário exige treinamento, pois o leitor sem experiência
não saberia o que fazer com o “a estranha concatenação
de frases que constitui um poema” e cita Northop Frye o qual afirma
que:
“Qualquer um que tenha estudado seriamente a literatura sabe que
o processo mental envolvido é tão coerente e progressivo
quanto o estudo da ciência. Um treinamento precisamente similar
acontece, e um senso similar da unidade do objeto é construído.”
Essa proposição explicita a necessidade
de se focalizar a competência literária. Essa necessidade
de centralizar o currículo no desenvolvimento do discente como
leitor é contempla da pela legislação vigente, pois
as diretrizes curriculares para os cursos de Letras, aprovadas pelo Parecer
CNE/CES n. 492/2001, recomendam que os cursos sejam flexibilizados, e,
entre outros aspectos “criem oportunidade para o desenvolvimento
de habilidades necessárias para se atingir a competência
desejada no desempenho profissional” e “dêem prioridade
à abordagem pedagógica centrada no desenvolvimento da autonomia
do aluno”.
O caminho para o desenvolvimento de uma proposta pedagógica para
os cursos de Letras pode ser encontrado nas próprias teorias que
nele se discutem. Assim, em lugar de o ensino tomar como centro os conceitos,
passaria a focalizar a própria leitura, e a reflexão teórica
seria um modo de fortalecer as estruturas receptivas dos leitores em formação
O professor norte-americano David S. Miall, em artigo sobre o ensino de
literatura , sugere que se repense o ensino de literatura a partir dos
postulados das teorias da resposta do leitor, termo que poderíamos
substituir por teorias da leitura. Tais teorias fornecem um conjunto de
conceitos que pode ser bastante produtivo, até porque foi pensando
no ensino de Literatura organizado consoante os modelos da História
da Literatura que Hans Robert Jauss pronunciou a conferência inaugural
da Estética da Recepção, na qual ele criticava justamente
a cristalização do ensino.
Jauss pretendia recuperar a historicidade da obra literária, que
para ele, está localizada no leitor. Ele analisa a leitura do texto
literário como um processo em que entram em jogo os conhecimento
do leitor sobre o mundo e sobre textos, que formam o seu Horizonte de
Expectativas, e a organização interna da obra(seu horizonte
interno). A construção do sentido da obra se dá no
momento em que estes dois horizontes se fundem
O horizonte de expectativas do leitor é a união de sua experiência
de leitura de mundo aos seus conhecimentos textuais, que é imprescindível
à compreensão do texto escrito.
Como afirmamos anteriormente, estamos recebendo nas universidades –
especialmente nas particulares, mas não somente nelas – alunos
que apresentam pouca experiência com a leitura da chamada “alta
literatura”, bem como com respeito ao contato com textos de teor
analítico e conceitual, como os que costumam figurar nas bibliografias
da graduação em Letras, nossa tarefa torna-se ainda mais
árdua, especialmente porque textos teóricos costumam incorporar
citações e referências a obras literárias,
filosóficas ou teóricas que não pertencem ao repertório
dos alunos de graduação brasileiros. Isso, sem dúvida,
torna-se um complicador se consideramos a importância dos conhecimentos
prévios para o funcionamento do processo de leitura.
Essa é uma tarefa árdua, especialmente porque textos teóricos
– como o citado - costumam incorporar citações e referências
a obras literárias, filosóficas ou teóricas que não
pertencem ao repertório dos alunos de graduação brasileiros.
Isso, sem dúvida, torna-se um complicador ao considerarmos a importância
dos conhecimentos prévios o funcionamento do processo de leitura.
Consoante os postulados da Estética da Recepção,
as estruturas da obra criam um horizonte de expectativas interno ao texto,
nesse horizonte se configuram os comportamentos e saberes que o texto
“exige” para ser compreendido. Na leitura ocorre a atualização
dos sentidos do texto, promovida pela ação ativa e criadora
do leitor,um processo de constitui então um processo de comunicação
fundado em um texto potencial e em pontos de indeterminação,
ou vazios, que o leitor atualiza e preenche. A atividade participativa
do leitor é conduzida pelos vazios, que direcionam suas projeções
imaginativas, guiando-o na atividade de constituição de
sentidos do texto.
Assim, observamos que é preciso sempre levar em conta o horizonte
de expectativas do receptor, que lhe permitirá dotar de sentidos
a estrutura de apelo do texto. Tomemos como exemplo a obra Memorial do
Convento, de José Saramago, presente nas ementas de Literatura
Portuguesa. O texto exige, para sua compreensão, uma série
de habilidades, sem as quais, pode ser decodificado, mas não lido.
Se o que objetivamos é o efetivo desenvolvimento das competências
de leitura do aluno e a construção de sua “autonomia”,
o conceito de leitor implícito desenvolvido por Wolfgang Iser e
as teses de Jauss,oferecem um caminho.
A aula, em vez de transmissão, transforma-se em diálogo,
no qual se vai tecendo um texto de leitura a partir dos conhecimentos
anteriores do aluno e da intervenção do professor, leitor
mais experiente que assume a função de orientador. Assim,
não é necessário abandonar a referência aos
textos críticos, nem aos conceitos, mas eles serão ferramentas
para pensar o texto, não muletas. O que deixa de ser importante
são as citações, substutuídas pela reflexão
coletiva e pessoal em torno do texto, impulsionada pelo diálogo
que deve considerar a fortuna crítica do texto, mas não
a tomará com fim.
Isso porque apenas repetindo é óbvio que o aluno jamais
atingirá os objetivos propostos para o ensino de Letras, pois,
consoante as diretrizes estabelecidas pelo MEC:
“O objetivo do Curso de Letras é formar profissionais interculturalmente
competentes, capazes de lidar, de forma crítica, com as linguagens,
especialmente a verbal, nos contextos oral e escrito, e conscientes de
sua inserção na sociedade e das relações com
o outro.
Independentemente da modalidade escolhida, o profissional em Letras deve
ter domínio do uso da língua ou das línguas que sejam
objeto de seus estudos, em termos de sua estrutura, funcionamento e manifestações
culturais, além de ter consciência das variedades lingüísticas
e culturais. Deve ser capaz de refletir teoricamente sobre a linguagem,
de fazer uso de novas tecnologias e de compreender sua formação
profissional como processo contínuo, autônomo e permanente.
A pesquisa e a extensão, além do ensino, devem articular-se
neste processo. O profissional deve, ainda, ter capacidade de reflexão
crítica sobre temas e questões relativas aos conhecimentos
lingüísticos e literários.”
Como se pode observar, a proposta é bem ampla e
é necessária uma visão integral dos alunos, assim
como uma revisão do papel da universidade para que possa ser posta
em prática. É inegável a necessidade de articularmos
as três funções da universidade: ensino, pesquisa
e extensão, mas dados os limites desse texto, continuarei focalizando
o trabalho docente. O documento oficial sobre os cursos de Letras nos
coloca um grande desafio, pois para orientarmos/estimularmos o desenvolvimento
de todas essas habilidades e competências temos pouco tempo –
cerca de três anos, ou três anos e meio, em algumas instituições
particulares – faltam bibliotecas e temos alunos trabalhadores,
cuja disponibilidade para estudos e pesquisas é limitada pela falta
de tempo, pelo cansaço e pela dificuldade financeira.
Nada disso, no entanto, deve ser entendido como uma tentativa de reduzir
o aspecto acadêmico do ensino. Se todas essas questões são
aqui citadas é porque é preciso encontrar um caminho entre
a reflexão conceitual que caracteriza a vida acadêmica e
as reais possibilidades do ensino universitário hoje no Brasil.
Por tudo isso, investir na formação de leitores é
o caminho. O problema é conciliar as demandas do curso com as possibilidades
dos alunos, e para isso, a sala de aula acaba não sendo o bastante.
O espaço acadêmico pode propiciar uma série de atividades
culturais que coloquem os alunos em permanente contato com livros e seu
universo, organizando práticas leitoras como círculos de
leitura, clubes do livro, encontros com autores, debates, mesas-redondas,
exposições, feiras do livro, enfim, construindo um ambiente
de imersão na leitura.
O mesmo documento coloca o professor como um orientador cuja função
é “responder não só pelo ensino de conteúdos
programáticos, mas também pela qualidade da formação
do aluno.”
No filme Sociedade dos Poetas Mortos, há uma cena que chama a atenção:
o professor de Literatura, jovem e dinâmico, ordena que os alunos
arranquem as páginas do ensaio intitulado Como ler um poema, escrito
por um renomado PHD. Depois, o espectador compreende que a proposta do
texto eliminado entrava em choque com o modo como o novo professor encarava
seu papel. O ensaio rasgado afirmava que o valor de um poema deve ser
medido matematicamente, posição frontalmente oposta àquela
assumida pelo professor, que prega a poesia como experiência de
vida.
Na ocasião em que assistimos pela primeira vez ao filme, estávamos
concluindo o curso de Letras e a iconoclastia juvenil nos levou a ver
na cena aquilo que gostaríamos de fazer com nossos alunos: rasgar
a teoria e deixar que as subjetividades viessem à tona.
Hoje, vemos a cena por ângulo diverso. Textos como aquele citado
no filme, “usados” como receita de análise e, realmente,
nada acrescentam ao aluno. São “muros” entre o leitor
e o texto. Foram análises desse tipo que geraram a ampla resistência
à teoria que hoje testemunhamos.
Essa resistência é bem clara em uma anedota que figura na
contracapa da tradução brasileira da Teoria Literária,
de Jonathan Culler. O enredo subentendido é o seguinte: uma moça
apresenta ao pai seu novo namorado e, como parte do protocolo, afirma-lhe
qual a “profissão do moço. O pai espanta-se e pede
que ela repita.
No quadrinho que figura no livro, o pai, aliviado, afirma:
- “Você é um terrorista. Graças a Deus!
- Entendi Meg afirmar que você era um teorista. “
A tradução perde um pouco do charme, pois em Inglês
produz-se na resposta do pai um efeito que beira a homofonia entre os
vocábulo; os terrorist e teorist.
Mas a verdade é que quando se compreende a funcionalidade dos conceitos
teóricos para o desenvolvimento da capacidade analítico-interpretativa
do indivíduo, o trabalho de leitura ganha novos contornos. Esse
é o real valor da teoria na formação do sujeito.
Então cabe indagar: porque as pessoas alimentam tanta ojeriza à
teoria?
Com certeza, teóricos como aquele citado no filme têm dado
sua contribuição à visão da teoria como algo
enfadonho, complicado e, porque não afirmar, aparentemente inútil.
Encontramos amparo para tal concepção na história
das idéias teóricas. Lembremo-nos da Poética de Aristóteles,
texto inaugural que foi lido durante séculos como conjunto de regras,
prescrição de modelos. Esse enfoque levou a Teoria a identificar-se
com a valoração e o crítico a assumir a tarefa de
censor.
Mais tarde, no século XIX, os caminhos seguidos pela crítica,
tanto o Biografismo, quanto o impressionismo, um pelo caráter erudito
dos estudos desenvolvidos, outro pelo intenso subjetivismo, levaram à
visão da crítica, respectivamente, como algo restrito aos
doutos ou aos gênios.
No século XX, o trauma em relação ao que se fez no
século anterior levou a crítica a rejeitar totalmente o
que se desenvolvera até então. Assim, surge a tentativa
de criar um aparato teórico com bases claras, segundo o método
empírico preconizado pelos Formalistas Russos e seus sucessores.
Mas o tempo é cruel e estes cientistas da literatura também
acabaram mal compreendidos, pois seus trabalhos meticulosos muitas vezes
foram aplicados como modelos de análise.
Percebemos que o problema da relação entre ensino e literatura
está diretamente relacionado à concepção sobre
a função de ambos, pois isso se reflete no comportamento
dos professores em sala de aula.
Propomos que o professor possa entrelaçar diferentes conceitos
e correntes para formar o arcabouço teórico de seu método,
pois a determinação de um perfil exemplar de professor nos
parece ineficaz, porque as situações que ocorrem em sala
de aula são sempre diferentes. Além disso, cada mestre tem
sua história de vida e de leituras e cada grupo de alunos, por
sua vez, tem um perfil diferenciado.
Assim, se podemos delinear um perfil, esse será marcado justamente
pela mobilidade sustentada pela aliança entre conhecimento teórico
e sensibilidade.
É importante ressaltar que embora devamos evitar condutas radicais
e excludentes, precisamos, por outro lado, defender os limites do bom
senso teórico, para não cairmos no senso comum. Por isso,
acreditamos que é hora de reabilitar o estudo teórico da
Literatura e demonstrar a aplicabilidade de seus princípios ao
ensino de leitura. Voltemos, então, à origem do termo teoria.
O termo "teoria", que é abstrato, deriva do termo grego
theorós, que é concreto. Theoria é o plural coletivo
de theóros, um título que se dava ao funcionário
público encarregado de testemunhar a ocorrência dos jogos
que se celebravam. Em sentido próprio é a ‘visão
de um espetáculo, visão intelectual, construção
especulativa por oposição à prática’,
ou seja, é uma especulação ligada aos princípios
e às conseqüências, mas desinteressada das aplicações.
Em Platão, aparece como ação de ver, observar’
(Definições, 414b). Desta maneira, o vocábulo implica
em um distanciamento entre o observador e o observado.
A teoria, pois, não visa outra coisa que não seja a si mesma,
é um conhecimento que está em função de si
mesma; e não em função de outra coisa, o que seria
arte, técnica, mas não teoria, ciência. Já
teckné, ??que originou a palavra ‘técnica’,
relaciona-se originalmente às artes manuais, à habilidade
de executar uma arte. Platão fala da união de habilidade
e saber. A teckné é também o modelo da aspiração
de saber socrática, cujo objetivo seria exercer a arte política.
O termo, então, faz referência a toda profissão baseada
em determinados conhecimentos especiais, que estabelecem regras gerais
a partir de conhecimentos empíricos. O emprego que Platão
e Aristóteles fazem de teckné corresponde ao sentido atual
do termo ‘teoria’ que se concebe sempre em função
de uma prática .
Essa concepção da teoria associada à prática
de leitura em que se exercita o desenvolvimento das competências
literárias do educando parece-nos ser um modo de resgatar a importância
da teoria nos currículos de Letras, numa visão orientada
para a formação de leitores.