| Voltar | ||
LEITURAS DO JORNAL NACIONAL Mariana Brasil Ramos - Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica e Professora substituta do Depto. de Metodologia de Ensino da Universidade Federal de Santa Catarina Introdução A televisão
ocupa, a cada dia, mais tempo da vida dos brasileiros. Ela se insere no
cotidiano das pessoas como lazer, como fonte de informação
e, acredito eu, como fonte de aprendizagem também. Tanto pela facilidade
de aquisição do aparelho, como pelo hábito estabelecido
culturalmente em nível nacional, ela proporciona um espaço
importante para a veiculação de informação
sobre as práticas científicas. Ao mesmo tempo, muitas críticas
têm sido trazidas à tona, a respeito do sensacionalismo,
da manipulação de informações e da manutenção
ou mudança das ideologias que pretendem regrar ou constituir as
identidades dos telespectadores. Um primeiro
“sedimento”, profundo, do imaginário sobre ciência
e cientistas pintado pelas crianças é ligado a uma dimensão
“emotiva”, rica de conotações míticas
sobre conhecimento em geral. Os desenhos das crianças mostram,
em muitos casos, o cientista como figura imaginária construída
a partir do imaginário midiático, inspirada no cinema de
Hollywood, nos programas de TV, nos quadrinhos: dinossauros, naves espaciais,
Harry Potter, Frankenstein, Pokemon, viagens no tempo, aparecem com grande
freqüência na descrição do ambiente no qual esse
cientista “de conto de fadas” vive e atua. O cientista, quando
colocado num contexto fantástico, é uma figura estereotipada:
tende a ser um homem, branco, ocidental, de jaleco (“como posso
desenhá-lo sem tê-lo visto?”, comentam as crianças;
“Fácil: bota nele um jaleco branco!”, respondem outras),
de óculos (“tem que observar muito/estudar muito”),
que vive num laboratório protegido por grandes portas trancadas. Ainda utilizando-me deste trabalho, destaco a percepção dos autores de que diversos conceitos associados às práticas científicas, modos de se olhar para os conhecimentos científicos, inclusive de cunho epistemológico, foram percebidos nas falas das crianças, que já possuíam noções, construíam sentidos sobre a natureza das atividades científicas e de seus realizadores: Além
disso, as crianças descrevem com nível de detalhe bastante
surpreendente a dimensão espaço-temporal e a dimensão
de vida social aonde o cotidiano do cientista se coloca, como também
os aspectos epistemológicos (a ciência como modelo, como
descoberta e descrição de novos aspectos do mundo) e de
aplicação tecnológica ligados à pesquisa aplicada
(o cientista como inventor). Em fim, na fase de escritura da “carta
para outras crianças”, os alunos mostram de saber distinguir
entre aspectos míticos, ligados à ficção mídiatica,
e aspectos atuais e concretos da prática científica: demostram
um conhecimento bastante articulado de alguns aspectos da “ciência
real”, utilizando palavras chaves como modelo, teoria, hipótese,
análise, experimento. Em alguns casos, são capazes de explicar
esses conceitos por meio de metáforas e exemplos: “um ‘projeto’
é como quando você tem um dinheiro para gastar e precisa
decidir como vai gasta-lo. Só que o cientista faz isso com as idéias…”;
“análise, por exemplo, é quando você tem que
picar o pelo do cachorro, e estudá-lo, em vez de estudar o cachorro
todo, sem fazer mal ao cachorro”. Num trabalho
anterior , investiguei as possibilidades de produção de
sentidos sobre as relações entre seres humanos e outros
animais em três filmes hollywoodianos. Algumas das leituras realizadas
em um dos filmes , me pareceram associar a imagem do cientista a um ser-humano
neutro, objetivo, despido de envolvimentos emocionais em relação
à sua pesquisa. A anunciação da ciência, muitas
vezes, se dava de forma final, como se esta tivesse colocado um ponto
no assunto tratado. Além disso, os cientistas de outros dois filmes
eram apresentados como “loucos” por defenderem seus “objetos”
de estudo (gorilas), não apenas pela perspectiva da conservação
de espécies (uma imagem mais racional desta defesa, mais aceita
cientificamente), mas por envolverem-se emocionalmente com os mesmos.
Enfim, modelos que podem contribuir para a construção de
diversos sentidos sobre os cientistas, sobre a ciência. Análise do Discurso e Leitura Lopes (2004)
afirma que, no campo das teorias da comunicação, constituíram-se
duas visões principais sobre a evolução das relações
entre a televisão e os telespectadores, sob um ponto de vista social:
uma delas, de caráter emissionista, encara o público como
passivo e passível de sua influência direta; a outra compreende
grande parte das teorias da recepção que procuram “explicar
como o público recebe e dialoga com os emissores televisivos”
(Lopes, 2004, p. 132-133). Tendo em vista estas abordagens, entendo (sob
a perspectiva da análise do discurso, como o leitor perceberá
mais adiante) que a televisão exerça sim influência
na constituição do imaginário humano, mas não
num caráter estritamente emissionista. Acredito que todo o conteúdo
veiculado pela tv passa por uma reorganização no momento
de interação com cada telespectador, que recebe também
outros estímulos em sua vida sobre os mesmos conteúdos,
tais como: escola, família, igreja, enfim, todo tipo de contato
social. O objeto
da lingüística (o próprio da língua) aparece
assim atravessado por uma divisão discursiva entre dois espaços:
o da manipulação de significações estabilizadas,
normatizadas por uma higiene pedagógica do pensamento, e o de transformações
de sentido, escapando a qualquer norma estabelecida a priori, de um trabalho
do sentido sobre o sentido, tomados no relançar indefinido das
interpretações. Esta fronteira entre os dois espaços
é tanto mais difícil de determinar na medida em que existe
toda uma zona intermediária de processos discursivos (derivando
do jurídico, do administrativo e das convenções da
vida cotidiana) que oscilam em torno dela. Já nesta região
discursiva intermediária, as propriedades lógicas dos objetos
deixam de funcionar: os objetos têm e não têm esta
ou aquela propriedade, os acontecimentos têm e não têm
lugar, segundo as construções discursivas nas quais se encontram
inscritos os enunciados que sustentam esses objetos e acontecimentos. Para a AD, quando produzo um discurso (construção de sentidos, por intermédio da linguagem), coloco não apenas o funcionamento dos signos e suas regras, mas alguns funcionamentos dos signos e suas regras que construí ao longo de minha existência. Esta construção contém o que estes signos significam para mim – indivíduo – que remete imediatamente ao meu lugar na sociedade e à minha relação com esta. Desta forma, meu discurso reflete meu contexto histórico-social. E meu contexto histórico-social determina meu discurso. Coletividade e individualidade se expressam no discurso. Segundo Pêcheux, (...) se
poderia dizer que é a coletividade, como entidade preexistente,
que impõe sua marca ideológica em cada sujeito, sob a forma
de uma “socialização” do indivíduo em
“relações sociais” concebidas como relações
intersubjetivas (...) E também a ideologia se expressa no discurso, constitui o próprio discurso, já que, no momento da produção do discurso, ao significar, ao produzir sentidos, o indivíduo não se dá conta do contexto histórico-social que determina seu discurso. Nas palavras de Orlandi: A relação
com o simbólico é uma relação com a interpretação.
Ela está na base da própria constituição do
sentido. Diante de qualquer objeto simbólico o sujeito é
instado a interpretar, a dar sentido. E o faz determinado pela história,
pela natureza do fato simbólico, pela língua. Aí
está o princípio mesmo da ideologia: não há
sentido sem interpretação, mas este processo de constituição
de sentido (sua historicidade) não é transparente para o
sujeito. Ao contrário, é através de um processo imaginário
que o sentido se produz no sujeito na relação que interliga
linguagem/pensamento/mundo. A interpretação (a ideologia)
é assim necessária: não há discurso sem sujeito
nem sujeito sem ideologia. Para a AD,
como já mencionado anteriormente, os sentidos se constituem durante
o discurso. Mas este não existe independentemente dos chamados
interlocutores, sujeitos (determinados ideologicamente, discursivamente)
entre os quais o discurso se efetiva. Quem fala, fala a alguém,
direciona seu discurso, ocupando uma posição, a outro, ocupando
outra posição. O primeiro tem idéias sobre o segundo
e vice-versa, e estas estarão implicadas em seu discurso. O segundo
fará a leitura do discurso do outro, leitura, sendo entendida aqui
como totalmente dependente de interpretação e, referindo-se
a qualquer tipo de texto (escrito, falado, imagético, etc). Os
sentidos que ambos construirão no ato do discurso dependerá
intrinsecamente desta relação, que está diretamente
relacionada à ideologia que os permeia, ao contexto histórico-social
de cada um, ao interdiscurso. A noção
de interdiscurso, traz para a reflexão sobre a linguagem a consideração
do inconsciente e da ideologia. Em sua definição, o interdiscurso
é o já dito que sustenta a possibilidade mesma de dizer:
conjunto do dizível que torna possível o dizer e que reside
no fato de que algo fala antes, em algum outro lugar. Toda vez que falamos,
para que nossas palavras tenham sentido, é preciso que já
tenham sentido. Esse efeito é produzido pela relação
com o interdiscurso, a memória discursiva: conjunto de dizeres
já ditos e esquecidos que determinam o que dizemos. Acredito que, através das leituras dos discursos que nos bombardeiam no dia-a-dia, vamos formulando e re-formulando nossos sentidos (por nossos sentidos, entenda-se os sentidos que atribuímos a objetos em um dado momento, em um dado discurso). Desta forma, os discursos produzidos e veiculados na televisão, no Jornal Nacional, também possuem diversas particularidades, podendo nos influenciar, no ato de nossas leituras, a respeito dos significados, dos novos (novos para nós) sentidos que poderemos atribuir aos signos e aos objetos a que eles se referem. Estes discursos relacionam-se a outros, num processo contínuo de intertextualidade (sendo texto, entendido aqui, na perspectiva da AD como uma unidade de análise) e inscrevem-se em determinadas formações discursivas, de acordo com suas constituições transitórias. De acordo com Orlandi (1993, p. 58), “a formação discursiva se define como aquilo que numa formação ideológica dada (isto é, a partir de uma posição dada em uma conjuntura sócio-histórica dada) determina o que pode e deve ser dito”. Ou ainda, As formações
discursivas são diferentes regiões que recortam o interdiscurso
(o dizível, a memória do dizer) e que refletem as diferenças
ideológicas, o modo como as posições dos sujeitos,
seus lugares sociais aí representados, constituem sentidos diferentes.
O dizível (o interdiscurso) se parte em diferentes regiões
(as diferentes formações discursivas) desigualmente acessíveis
aos diferentes locutores. A formação discursiva autoriza ou impede um ou outro discurso, endereça-o, permite ou não uma interpretação a este ou aquele interlocutor, legitima ou ridiculariza um enunciado. Ela está relacionada diretamente ao(s) contexto(s) ideológico(s) que perpassa(m) os interlocutores, possibilitando ou não determinados efeitos de sentidos do texto e por esta razão se torna importante na construção deste trabalho, ao considerarmos o espaço da televisão, como divulgadora da ciência, inscrita em diversas formações discursivas que a autorizam a falar de... para... com a intenção de... e todas as conseqüências que estes discursos podem trazer no momento da interlocução com o telespectador brasileiro. É importante considerarmos que Somando filmes,
vídeo-games, programas televisivos variados e outras formas de
imagens em movimento, as pessoas passam mais tempo neste mundo imagético
do que lendo ou estudando. Elas assistem e relaxam, também se informam
e formam idéias a respeito das coisas do mundo e de como supostamente
nos situamos nele. Ainda sob
a perspectiva da AD, acredito que as “conseqüências”
mencionadas anteriormente reflitam uma questão importante: a dos
efeitos de sentido possibilitados pelo discurso. Cada telespectador estará,
no momento da leitura do programa televisivo, dialogando com um discurso
que poderá passar a constituir novos sentidos a respeito do tema
tratado, ou de uma palavra utilizada, ou da imagem de alguma idéia
representada no momento. E isto é um pressuposto dos produtores
dos programas de tv. Eles têm a intenção de passar
o seu recado sobre o que comprar, em quem votar, qual canal assistir,
como se vestir, como falar, o que você tem que saber sobre tal,
ou sobre tal. Seus discursos devem produzir sentidos que invadam o imaginário
dos telespectadores, sentidos que, talvez, passem a fazer parte dos sentidos
dos próprios telespectadores. Sentidos que possam ser apreendidos/aprendidos
pelos espectadores. É possível dizer isso? Afinal, incorporar,
adotar, construir sentidos através dos variados tipos de interação
social não seriam sinônimos de aprender? Leituras Jornalísticas É comum escutarmos “verdades” referentes a um conteúdo veiculado pela televisão, principalmente, tratando-se de conteúdos veiculados em jornais. O jornalismo, de modo geral, adquiriu enorme credibilidade do público. As pessoas tendem a associar os discursos jornalísticos a uma “verdade”, expressão ou anunciação de “fatos reais”. Esta visão está relacionada a uma proliferação da imagem de neutralidade e objetividade auto-proclamada pela imprensa nos últimos anos, respaldada, principalmente pelo paradigma positivista. De acordo com Meditsch, Nas sociedades
ocidentais contemporâneas, é possível identificar
uma concepção do que é real e verdadeiro fortemente
estabelecida. Resumidamente, esta concepção propõe
que a realidade é material e passível de ser conhecida,
através da evidência dos fatos que a compõem. Nesta
concepção, o discurso que se adequa e não contradiz
os fatos da realidade é o discurso verdadeiro. Fatos são
observações empiricamente verificáveis, e com fatos
não se discute. Desta forma, ao demonstrar suas atividades como uma revelação ou descrição da verdade, o jornalista imprime também este caráter ao seu público, que pode também compreender desta forma a atividade jornalística. “Esta concepção não apenas guia a prática cotidiana do homem comum, como inspira o ideal de objetividade presente tanto na prática dos jornalistas como na dos cientistas - que não são exatamente a mesma” (Meditsch, 2001, p. 03). Para melhor ilustrar estas concepções de jornalismo, tomo como exemplo a descrição do jornalista Nilson Lage, ao comparar as ciências com as humanidades, traçando um paralelo entre a ciência e o jornalismo: Não
há, nem pode haver, um único critério de cientificidade
para as ciências – exatas, da natureza e as biológicas
– , mas seus objetos são definidos e as metodologias específicas
de cada uma. O que é fundamental não é tanto a operação
com valores (que assusta os estudantes que “odeiam matemática”)
mas a suposição de que existem proposições
sobre o mundo objetivo que podem ser provadas verdadeiras ou falsas em
determinados universos de observação; o pré-requisito,
como observa Karl Popper , é que possam ser falsificadas, isto
é, que se possa propor sua falsidade. Em síntese: o conhecimento
é não apenas computável mas também não
contraditório (...) Lage observa que, para as ciências humanas (as quais ele atribui o nome de conhecimentos humanos, pois estas não seriam ciências), o embate ideológico marcaria as produções da área. As teorias não seriam baseadas em fatos e, sua falseabilidade não seria pré-requisito para determiná-las. Estes conhecimentos, estas teorias, refletiriam as tendências históricas da época, mas não refletiriam, talvez, uma “realidade”. Enquanto
a evolução das ciências costuma dar-se por inclusão
(os conhecimentos anteriores são assumidos como parte ou caso particular
do universo do discurso que se amplia, como acontece na relação
entre a física de Newton e aquela que decorre das teorias da Relatividade
e dos Quanta), nos estudos humanísticos há efetivamente
paradigmas – o estruturalismo, o funcionalismo, o comportamentismo,
o relativismo etc. – que se digladiam por longo tempo, e, mais,
costumam retomar à hegemonia, levemente transformados, ao longo
de extensos períodos históricos. São recorrentes
em séries aparentemente ilógicas, como um pêndulo
que se move em várias direções. Neste último trecho, ele ainda coloca que as ciências naturais (não humanas), tenderiam a “acumular”, englobar os conhecimentos provenientes das teorias anteriores, não estabelecendo rupturas entre uma teoria e outra. As ciências naturais, portanto, para este autor, tenderiam a ser lógicas, cumulativas, não-contraditórias, utilizariam-se de metodologias específicas e definidas e, por consequência, refletiriam um “real” objetivo (dado um certo universo de observação). As ciências
se propõem a trabalhar sobre problemas específicos; costumam
produzir textos mais breves, exceto quando o discurso trata de questões
epistemológicas relacionadas ao próprio fazer científico.
Já os estudos do homem (não de sua existência física
ou mental, mas da abstração a que se reporta o termo, também
ambíguo ou vago, “humanidades”) tendem a construir
sistemas abrangentes, voltados no final das contas para a normalização
ou controle das instâncias políticas e da cultura. São
obras extensas, em que se procuram orientações tendendo
à universalidade. Podemos perceber, nesta fala, a referência a uma apresentação da atividade jornalística científica pautada na objetividade, na neutralidade do jornalista que a desempenha, que se aproxima bastante de um modelo de ciência, o positivista, muito aceito atualmente, principalmente pelo público leigo. Dentre as implicações do paradigma positivista para a ciência, podemos destacar que as atividades científicas seriam encaradas como neutras, desinteressadas, objetivas e refletiriam observações reais da natureza, alheias à atribuição de valores. Seria como se o jornalista pudesse controlar a objetividade de seu texto, despindo-o de suas concepções sobre os assuntos em pauta e também de suas posições políticas, de seus interesses. Parece-me que este modelo idealizado de jornalismo tenta aproximá-lo de uma condição de ciência, conferindo-lhe maior legitimidade (já que nossa sociedade parece estar mais convencida desta visão atualmente) e, em consequência, aceitação pelo público. Meditsch aponta que, aceitando esta noção, o público
em princípio não põe em questão os fatos apresentados
pelos jornalistas em cujos critérios de apuração
confia, e tanto o público como esses jornalistas costumam ter um
profundo respeito pelos fatos apresentados pelos cientistas. a noção
de realidade que reifica os fatos estabelece um critério de verdade
baseado na objetividade. Se os fatos é que são a realidade,
resta descrevê-los de maneira objetiva, anulando toda a intervenção
do sujeito no resultado de sua descrição. Esta pretensão,
que sustenta o ideal de objetividade no jornalismo, revela-se falaciosa
quando se constata que a não-intervenção não
passa de uma ilusão: as pesquisas sobre a construção
da notícia e sobre a sua forma demonstraram que a própria
noção de objetividade e a maneira de se adequar a ela varia
com as circunstâncias Desta forma, resgatando as colocações sobre a AD discutidas no item anterior, considero relevante tomar o jornalismo científico como ato dependente da linguagem e, portanto, produtor e veiculador de discursos. Assim, ao produzir um discurso, o jornalista atribui sentidos aos conteúdos de referência, ou seja, ele os interpreta com base na relação histórica que mantém com um interdiscurso. Ele não apenas relata um fato, como muitas pessoas ainda o crêem, mas imprime em seu discurso as marcas ideológicas que o relacionam com o mundo. Portanto, argumentar que “o embate retórico, a fala de convencimento, advocatícia, política, que, no jornalismo de notícias, deve ser apenas citada, jamais assumida” implicaria, no mínimo, a percepção das idéias implícitas (intrínsecas já ao modo como o jornalista percebe o mundo, os fatos com os quais está trabalhando, etc) que permeiam o discurso do jornalista, trabalho que nem sempre pode ser realizado, impregnados que somos de ideologias. Como coloca Caldas, referindo-se a este tipo de visão do pensamento jornalístico: Cabia aos
jornalistas o papel de “tradutor” e divulgador da produção
científica de maneira acrítica, sem contextualizar seus
procedimentos, métodos e implicações políticas,
econômicas e sociais. Tratava-se, na verdade, de um jornalismo meramente
declaratório, onde a principal preocupação era evitar
distorções que comprometessem a informação
original. Esta “tradução”,
a que se refere Caldas, passa longe de constituir apenas uma mera mudança
na forma, visando facilitar ao leitor uma compreensão de seu conteúdo.
A reformulação do discurso leva em conta muitos outros fatores
que não estavam presentes no ato da produção do discurso
inicial – os discursos científicos. Estes fatores são
silenciados no discurso novo, constituindo-o, significando-o também.
É importante observar que o analista do discurso busca o que o
autor do discurso quis dizer e também o que ele não quis
dizer. Para a AD, os silêncios também constroem sentidos,
eles significam (Orlandi, 1995). O silêncio não é,
portanto, a ausência de palavras, mas algo que há entre elas,
podendo significar de várias maneiras. Se para conquistar
espaço num programa específico os conteúdos científicos
passam por um processo de ressignificação, são reconstruídos
na perspectiva do espetáculo e investidos de uma nova identidade
– produto midiático -, imagine o que não acontece
nos telejornais. Em primeiro lugar é preciso considerar o tempo
e a variedades de temas. (...) Uma pesquisa que consumiu anos de dedicação,
por mais importante que seja, do ponto de vista acadêmico e social,
dificilmente encabeça a lista de prioridades (...). Os telejornais,
de forma geral, não dispensam mais de 2 minutos para uma matéria
de ciência. Além de apontar uma “redução do tempo científico” propiciada pela veiculação nos telejornais, Sousa ainda destaca as características que um “fato” científico deve apresentar, no mínimo, para ter espaço em telejornal: novidade
(caráter de descoberta revolucionária, principalmente se
for na área de saúde), curiosidade (a exploração
do inusitado), polêmica (fatos que envolvem questões éticas,
morais e religiosas, como a clonagem humana), utilidae (aplicabilidade
imediata, resultados previstos, mudanças) e potencial de mídia
(imagens sensacionais ou animações eletrônicas, simulações,
demosntrações públicas). Numa frase: tudo na televisão
tende a ser trabalhado na perspectiva do espetáculo. Além de “contaminar” a produção jornalística com suas próprias concepções, o jornalista ainda deve lidar com o grupo para o qual trabalha e suas exigências, que compreendem diversos fatores associados à política, economia, necessidades de mercado, etc. Por conseguinte, pensar o jornalismo, o discurso jornalístico de forma neutra e objetiva, não faz sentido neste trabalho, dentro desta leitura da atividade. Tomo, portanto, o discurso jornalístico sobre ciência como instância de relações de poder, na qual a ciência é retratada de diferentes formas, dependendo dos efeitos de sentido proporcionados pelo texto através do qual é veiculada. E, neste sentido, concordo com Freire (2000, p. 110)quando afirma que “talvez seja melhor contar de um a dez antes de fazer a afirmação categórica (...): "É verdade, ouvi no noticiário das vinte horas". Aproveito ainda a fala de Freire para trazer uma síntese de como, com base no referencial da AD, compreendo as leituras realizadas na televisão: Não
temo parecer ingênuo ao insistir não ser possível
pensar sequer em televisão sem ter em mente a questão da
consciência crítica. É que pensar em televisão
ou na mídia em geral nos põe o problema da comunicação,
processo impossível de ser neutro. Na verdade, toda comunicação
é comunicação de algo, feita de certa maneira, em
favor ou na defesa, sutil ou explícita, de alguma coisa contra
algo e contra alguém, nem sempre claramente referido. Daí
também o papel apurado que joga ideologia na comunicação,
ocultando verdades, mas também a própria ideologização
no processo comunicativo. Seria uma santa ingenuidade esperar de uma emissora
de televisão de grupo do poder dominante que, noticiando uma greve
de metalúrgicos, dissesse que seu comentário se funda nos
interesses patronais. Pelo contrário, seu discurso se esforçaria
para convencer que sua análise da greve leva em consideração
os interesses da nação. Metodologia O trabalho
foi até o momento desenvolvido através da gravação,
em fita VHS, de episódios do JN, durante os meses de fevereiro
e março de 2005. Os episódios foram gravados por inteiro,
com exceção dos intervalos comerciais. A frequência
e escolha dos dias de gravação foi aleatória, de
acordo com a disponibilidade de horário da autora. Ao término
das gravações, o material foi catalogado conforme a data
e está passando por uma triagem inicial, que consiste num levantamento
das reportagens veiculadas no dia, anotação de comentários
que considerei relevantes sobre as mesmas e busca das reportagens que
veiculassem conteúdos relacionados às ciências naturais,
cujo critério foi a comunicação, ao público
leigo, de notícias associadas à ciência. Para escolher
estas reportagens, recorri à busca das seguintes palavras-chave,
que deveriam ser expressas durante a reportagem: ciência, cientistas,
nomes de ciências (biologia, física, geologia, etc), tecnologia,
assuntos relacionados às ciências (medicina, saúde,
trangênicos, células-tronco, etc). Estas informações
estão sendo dispostas em “Fichas de Avaliação
das Reportagens”, que serão utilizadas como base para as
análises das mesmas. Nestas fichas são destacadas as palavras-chave
que me levaram a selecionar uma reportagem, a transcrição
das reportagens selecionadas, seu tempo e sua inserção no
noticiário do dia. Quando assumimos
a leitura como ato no domínio do simbólico, devemos desconsiderar,
definitivamente, a possibilidade de que os sentidos estejam dados no texto,
não bastando, portanto, nos restringir apenas a ele propriamente
dito. É importante perceber que, sendo subjetivos, os sentidos que um leitor atribui a um texto não necessariamente são os mesmos colocados pelo autor. Desta forma, como então, fazer uma análise dos discursos veiculados pelo JN? Não seria a minha contrução de sentidos em cima desse discurso apenas? Eu acredito que sim, sempre estará presente a minha construção de sentidos em primeiro lugar. Para a AD, porém, existe a possibilidade de se aproximar dos sentidos do(s) autor(es) através da investigação das condições de produção de um discurso. De acordo com Almeida, estas seriam: contexto
histórico social de formulação do texto; interlocutores
(autor e a quem ele se dirige); os lugares (posições) em
que eles (os interlocutores) se situam e em que são vistos; as
imagens que fazem de si próprios e dos outros, bem como do objeto
da fala – o referente. Através
destas condições, pode-se tentar reconstruir o cenário
no qual o discurso foi produzido, aproximando assim, o analista do discurso
do autor do discurso analisado e, possivelmente, dos sentidos desejados
(e também os não desejados mas impressos no texto) por este
autor. As condições devem ser buscadas em praticamente todas
as fontes disponíveis: textos sobre o autor; outros textos do autor;
documentos; instituição à qual pertence, etc. Sendo
assim, resgato a função do analista do discurso, trazida
por Orlandi (2001, p. 19): “a finalidade do analista do discurso
não é interpretar, mas compreender como um texto funciona,
ou seja, como um texto produz sentidos”. Perguntas
como “o que determinado texto significa?” ou “qual é
a sua função?” não são compatíveis
com essa abordagem, pois nela os sentidos estão associados a sujeitos
social e historicamente localizados, e sentidos e sujeitos se constituem
mutuamente, não cabendo, portanto, suposições que
remetem a origem de um discurso apenas à individualidade do sujeito,
o qual, por viver neste ou naquele lugar, num dado tempo, ocupando estas
ou aquelas posições, significa de maneiras diferentes. Colocadas essas considerações sobre a metodologia do trabalho, passarei às análises do material gravado, através das quais buscarei a produção de sentidos sobre ciência nos textos do Jornal Nacional. É importante destacar que trata-se ainda de análises iniciais, já que esta pesquisa ainda está em andamento. Resultados Iniciais (Transcrição das Reportagens Selecionadas) No dia 08 de fevereiro de 2005, foi veiculada no Jornal Nacional, após seis reportagens desde o início do programa a seguinte notícia, que continha as palavras-chave: cientistas, técnica, pesquisadores, clonar, entre outras. Reportagem
1 a ser analisada: No dia 11 de fevereiro de 2005, foram ao ar duas reportagens no Jornal Nacional destacadas para este trabalho: a reportagem 2 a ser analisada, que se inseria, no contexto do programa como a 6ª reportagem do dia, apresentando as palavras-chave ciência e pesquisadores; e a reportagem 3 a ser analisada, que se inseria como a 22ª do dia, contendo as palavras-chave efeito-estufa e aquecimento global. Reportagem
2 a ser analisada: Reportagem
3 a ser analisada: Leituras Iniciais Sobre Ciência no Jornal Nacional Ao “ler”
estas reportagens, o caráter atribuído à ciência
de forma mais predominante me parece ser o de “verdade”, ou
correspondente a um real único e final. A ciência parece
ser apresentada como instrumento que busca esta realidade, como se seus
produtos sempre correspondessem a esta realidade. Por exemplo, quando
se utiliza, na reportagem 2, a fala de especialistas, imprime-se um caráter
de credibilidade à fala do Jornal Nacional. O texto já parte
de um pressuposto – o científico – de que a prática
de esportes é condição essencial para que as pessoas
sejam saudáveis. Na frase “o resultado foi surpreendente:
57% dos entrevistados não praticam nenhum tipo de atividade física”,
percebo que existe um tom de indignação com o fato de que
mais da metade das pessoas pesquisadas não seguiam as “indicações
prescritas” pela ciência. A verdade científica, talvez
não consiga permear totalmente a cultura atual, o discurso, a ideologia,
as condições sócio-históricas destas pessoas.
E o jornal parece “julgar” estas culturas com base nesta “única”
verdade que seria proveniente do meio e culturas científicas. Ao
atribuir a palavra “preguiça” às atitudes que
não corroboram os ditos científicos, o Jornal Nacional traz
um juízo de valor claro: parece que nenhuma outra verdade importa,
além daquela proveniente das pesquisas científicas. Assim,
pode-se perceber que um dos sentidos construídos sobre a ciência
nesta reportagem, é o de correspondente ao real, que pode trazer,
como conseqüências, uma inquestionabilidade das práticas
científicas, como se estas estivessem sempre corretas. A escolha
certa, desta forma, é sempre a anunciada pela ciência. Se
você não adere a esta, você está errado. Mostra-se
exemplos de atitudes a serem seguidas, como o caso da entrevistada Carla,
que segue os pressupostos científicos de praticar exercícios.
Mostra-se exemplos de atitudes a não serem seguidas, como da entrevistada
Michele, imprimindo ainda que a falta de exercícios terá
a conseqüência de se estar fora dos padrões de beleza
estabelecidos atualmente pela mídia. Parece que mais nada importa,
além da verdade científica. Destaco
aqui que os sentidos construídos pelas reportagens sobre ciência
acabam contribuindo mais para que o público apenas “digira”,
aceite seus resultados, do que para que os compreenda ou os questione.
Isto se deve à forma como o discurso de divulgação
foi construído nesses casos, pelo Jornal Nacional. Esta construção
acaba por imprimir certas características à prática
científica, como a impessoalidade e a veracidade do discurso científico,
não problematizando como este se constitui. Referências ALMEIDA,
M. J. P. Discursos da ciência e da escola. Campinas: Mercado das
Letras, 2004. SANTOS, L.
H. A Biologia tem uma História que não é Natural.
In: Costa, Marisa Worraber (Org). Estudos Culturais em Educação.
Porto Alegre: Editora da Universidade UFRGS, 1998. |
||
| Voltar |