Os textos científicos são o grande “pesadelo”
dos alunos que acabam de entrar para o terceiro grau. Vários fatores
são apontados para as dificuldades, entre eles estão: a
imaturidade dos alunos, o pouco hábito de leitura, a falta de contato
com esse tipo de texto no primeiro e segundo graus. Para Halliday (1993),
no entanto, as peculiaridades dos textos científicos como a presença
de “termos técnicos” e de determinadas construções
gramaticais têm o efeito de fazer com que os estudantes se sintam
excluídos e alienados pelo “discurso da ciência”.
Lemke (1990), em seu estudo sobre educação científica,
diz que os alunos não entram em contato com a ciência na
escola porque eles têm um sentimento de que “a ciência
não é para eles, de que ela é muito impessoal e inumana
para seus gostos, ou de que eles ‘não têm cabeça
para a ciência’”. Lemke acredita que isso acontece por
causa do modo como nós “dizemos” a ciência: “a
linguagem da ciência na sala de aula estabelece uma oposição
falsa e difusa entre o fato científico sem graça, impessoal,
autoritário, objetivo; e o mundo pessoal, comum de incertezas,
julgamentos, valores e interesses humanos”.(p.129-30).
O fato dessa “nova forma de discurso” conter muitos termos
técnicos faz com que se pense que o vilão dos problemas
encontrados pelos alunos ao tentarem ler textos científicos seja
justamente a falta de familiaridade com esse “jargão”.
Halliday (1989), em seu artigo “Some Grammatical Problems in Scientific
English”, cita dois pontos de vista em relação ao
uso do jargão científico: o primeiro diz que a utilização
desses termos é desnecessária e que o mesmo significado
poderia ser expresso, utilizando-se de termos da língua cotidiana.
Um ponto de vista oposto a esse é aquele em que a ciência
é considerada totalmente dependente da linguagem científica.
De acordo com essa visão, “aprender ciência”
é o mesmo que aprender a “língua da ciência”;
ou seja, “se a linguagem é difícil de entender, isso
não é um fator adicional causado pelas palavras que são
escolhidas, mas a dificuldade é inerente à natureza da própria
ciência” (p. 70).
Contudo, autores como Halliday parecem acreditar que esses dois pontos
de vista, tomados separadamente, não correspondem ao que realmente
acontece no que diz respeito à produção científica.
Para ele, não é possível expressar todo o conhecimento
científico com palavras do senso comum, mas não se pode
aceitar que o discurso científico “geralmente se torne mais
difícil do que o necessário” (p. 70)- como fazem alguns
autores.
Halliday & Martin (1993) afirmam que, como a presença do vocabulário
específico é encarada como a grande vilã do problema,
a preocupação dos autores e também dos professores
em apresentar os termos técnicos mais sistematicamente e explicá-los
é muito grande, diminuindo as dificuldades dos alunos em relação
a eles.
*A autora é mestre em Lingüística pela
UFMG e professora da Universidade Salgado de Oliveira-BH e Faculdades
Promove
No entanto, existe um aspecto da “língua
científica” que é tão importante quanto a terminologia
técnica e a qual não tem sido dado a devida importância:
É o que Halliday & Martin chamam de “gramática
técnica”, isto é, o conjunto de determinadas construções
gramaticais que se sobressaem, que são mais usadas nos textos científicos
em detrimento a outras. Exemplos dessas construções seriam:
orações passivas, nominalizações, sintagmas
nominais extensos contendo sintagmas preposicionados ou orações
encaixadas, inversão na ordem direta das palavras.
Essa gramática técnica pode ser também uma fonte
de dificuldades na leitura do texto científico já que tais
construções assim como os termos técnicos não
estão muito presentes na língua cotidiana. Além disso,
como já foi mencionado, pouca atenção tem sido dada
a esse aspecto tanto atualmente quanto no passado , o que faz com que
professores, autores e alunos não percebam que isso possa ser um
fator que dificulte a compreensão.
É interessante então identificar quais seriam os aspectos
sintáticos problemáticos do discurso científico,
tentar explicá-los, mostrar quais funções eles têm
no discurso como um todo e porque eles fazem parte da “língua
da ciência”. Dessa forma, esse estudo ajudaria a descobrir
se um determinado texto científico “teria uma boa razão
para ser escrito da maneira como está escrito” ou se a presença
de determinadas construções seria “só um modo
de estabelecer o prestígio e a autoridade do autor” (p. 70,71).
Os aspectos sintáticos na compreensão de
textos científicos - o problema
Como professora de Língua Portuguesa para o terceiro
grau em cursos diversos, percebo que os meus alunos, mesmo dominando o
vocabulário de um determinado texto científico, ainda têm
muitas dificuldades para compreender várias de suas passagens.
Ao confrontar minha experiência em sala de aula com os estudos de
Halliday e Martin, concluí que, realmente, o problema da compreensão
de textos científicos não era só uma questão
de domínio da terminologia técnica e sim um problema que
se inseria também no âmbito da gramática.
A título de sondagem, perguntei aos meus alunos (atualmente dou
aulas no curso de Administração- 1? período) se era
difícil para eles compreender a seguinte passagem retirada de uma
revista de divulgação científica de Economia e pedi
que me apontassem, se pudessem, a razão para a dificuldade:
(1) “A recente alteração no cenário
econômico, com violenta elevação das taxas básicas
de juros, praticamente interrompendo a oferta de crédito interno,
atua como fator impeditivo da continuidade da recuperação
das vendas de bens de consumo durável observada em agosto do ano
passado.”
Vários alunos disseram que, apesar de saberem o
que significavam todas as palavras, “alguma coisa” que eles
não sabiam bem o que era dificultava a leitura; outros disseram
que a passagem era muito comprida e eles ficaram perdidos. Alguns ainda
disseram que “compreenderam” o fragmento, mas tiveram de ler
duas ou mais vezes.
Essa dificuldade dos alunos em compreender a passagem, mesmo afirmando
que sabiam o que as palavras ou expressões isoladas significavam,
indica que o problema de compreensão de textos científicos
não reside predominantemente na presença de um vocabulário
específico (na passagem, por exemplo, têm-se “taxas
básicas de juros”, “crédito interno”,
“bens de consumo durável” e isso não foi o fator
apontado).
O desconhecimento do vocabulário presente no texto é um
fator que compromete a legibilidade, como já foi investigado por
vários autores (ver Fulgêncio & Liberato, 1996, entre
outros), mas esse não é o único fator lingüístico
envolvido.
No exemplo acima, percebe-se que o fator lingüístico que pode
estar prejudicando a compreensão é justamente a “gramática
técnica”, já que a passagem contém construções
que, segundo Halliday e Martin, são típicas dessa gramática:
a) sintagmas nominais (NP) extensos:
(1a) [A recente alteração no cenário
econômico, [com violenta elevação das taxas básicas
de juros] PP, praticamente interrompendo a oferta de crédito interno]
NP
(1b) [fator impeditivo [da continuidade da recuperação das
vendas de bens de consumo durável]PP observada em agosto do ano
passado]NP
Esses dois sintagmas nominais são extensos, contendo sintagmas
preposicionados [PP] e também orações encaixadas:
a oração adjetiva reduzida de gerúndio em (1a) e
a oração adjetiva reduzida de particípio em (1b).
b) Algumas nominalizações: alteração,
elevação, continuidade, recuperação.
Mas, será que a presença dessas construções
realmente dificulta a compreensão? Quais seriam as razões
para isso? Esses tipos de construções e outras que fazem
parte da “gramática técnica” (de acordo com
Halliday e Martin) são construções freqüentes
em textos científicos em Português? Haveria um motivo lingüístico
por que essas construções estariam presentes nesse tipo
de texto ou a presença delas seria motivada por questões
extralingüísticas?
Ao examinar textos científicos, verifiquei que, em várias
passagens, há sentenças com as mesmas características
das estruturas típicas da “gramática técnica”,
ou seja, várias ocorrências de inserções, sentenças
longas, complexas e a presença de inversões. Encontrei também
uma presença elevada de nominalizações.
A hipótese de Halliday (1985, 1990) é que as dificuldades
são causadas pelo fato dessas construções não
estarem muito presentes na linguagem oral e cotidiana. Contudo, é
necessário verificar essa hipótese, identificando as diferenças
entre o estilo falado e escrito e também encontrando as razões
por que essas diferenças seriam responsáveis pelas dificuldades
que o leitor tem ao ler textos científicos (e não tem para
ler, por exemplo, um texto jornalístico).
Givón (1995: 29-45), em seu livro Functionalism and Grammar, desenvolve
a noção de “markedness” como base para a análise
gramatical funcionalista. Essa noção, segundo o autor, “tem
estado implícita, de uma maneira ou de outra, em análises
lingüísticas desde a Antigüidade”.
Ainda de acordo com Gívon, a noção de “markedness”
pressupõe a noção de complexidade formal, pela qual
o que é ‘marcado’ seria estruturalmente mais complexo
e o ‘não-marcado’ mais simples. No entanto, para compreender
o que é “makedness”, é preciso se levar em conta
também dois pontos: a questão da freqüência de
certas categorias (a marcada é sempre menos freqüente enquanto
a não-marcada é a mais freqüente) e as “bases
substantivas”
para explicar esse critério: motivos cognitivos,
socio-culturais, comunicativos e neuro-biológicos. Para ilustrar,
poderíamos dizer que uma estrutura marcada é aquela que
é cognitivamente mais difícil de processar do que a não-marcada.
A partir disso, Givón define três critérios para “markedness”:
1) Complexidade estrutural
Estrutura mais complexa: marcada
Estrutura mais simples: não marcada
2) Distribuição da freqüência:
Categoria marcada: menos freqüente
Categoria não marcada: mais freqüente
3) Complexidade cognitiva:
Categoria marcada: mais complexa cognitivamente (maior esforço
mental, atenção, tempo de processamento).
Categoria não marcada: menos complexa cognitivamente.
A tendência geral da linguagem é que esses
três critérios coincidam, ou seja, existe uma forte associação
entre marcação estrutural, marcação cognitiva
e freqüência baixa.Após definir esses critérios,
o autor começa uma análise dos tipos de discurso. Ele compara
o discurso oral-informal com o discurso escrito-formal.
Utilizando-se do argumento de que a linguagem se desenvolveu quase que
exclusivamente como um instrumento de comunicação oral face-a-face
e que a maioria das comunidades fazem a maior parte de sua comunicação
dentro do meio oral, pode-se afirmar que o discurso oral-informal, pelo
critério da freqüência, é a forma não
marcada.
No que diz respeito ao critério cognitivo, o autor demonstra que
a ordem em que ocorre a aquisição reflete a ordem de complexidade
cognitiva. Como exemplo, tem-se o pidgin, que é um modo de comunicação
pre-gramatical, oral que é adquirido antes do modo gramaticalizado,
comprovando sua simplicidade cognitiva.
Quanto à complexidade sintática, tem-se no discurso oral
uma maior freqüência de orações coordenadas e,
no caso do discurso escrito, tem se uma maior freqüência de
orações subordinadas, que são sintaticamente mais
complexas. Mais uma vez, agora por esse critério, tem-se que o
discurso oral é não-marcado enquanto o escrito é
marcado.
Givón também afirma que existe uma forte associação,
por um lado, entre os tópicos “rotineiros” e a comunicação
face-a-face informal e que, por outro, entre os tópicos abstratos
ou acadêmicos e o discurso formal escrito. Isso faz com que o discurso
acadêmico-abstrato tenha a tendência a ser sintaticamente
mais complexo. O discurso rotineiro é também o mais freqüente,
sendo então não-marcado enquanto que o discurso acadêmico
é menos freqüente, sendo a norma marcada. Também pelo
critério cognitivo, pode-se dizer que os tópicos do cotidiano
são cognitivamente mais fáceis de processar do que os tópicos
acadêmicos.
Esse estudo de Givón corrobora com a hipótese de Halliday
e Martin de que o discurso científico por ser um tipo de discurso
predominantemente escrito é mais difícil de compreender.
Além disso, veremos que várias das construções
típicas da “gramática técnica” assumem,
pela teoria de Givón, o “status” de estruturas marcadas,
ou seja, mais complexas sintaticamente e mais difíceis de processar
cognitivamente. É o caso das orações encaixadas e
das orações passivas que são consideradas estruturas
marcadas dentro da teoria de “markedness” e estruturas típicas
da gramática técnica enquanto as orações coordenadas
e as orações ativas são não-marcadas e mais
presentes no discurso oral.
Pode-se observar outros trechos de textos científicos que ilustram
bem esses aspectos sintáticos mencionados:
(2) “Em 1998, eventuais negociações
enfrentariam dificuldades – já que a dívida encontra-se
pulverizada entre um grande número de detentores (não-bancários
de títulos) – além do que, devido a mudanças
recentes do regime cambial, teoricamente qualquer agente pode transformar
ativos em Real em moeda estrangeira e enviá-las ao exterior”.
No exemplo anterior, tem-se um período longo, complexo
com a presença de três orações subordinadas
que são consideradas estruturas marcadas.
(3) “[O agravamento das condições
internacionais de financiamento do atual déficit em transações
correntes, de US$ 18,1 bilhões acumulado neste ano]NP, levou as...”
O exemplo (3) possui um sintagma nominal (NP) bastante
complexo com sintagmas preposicionados encaixados e a presença
de nominalizações que são: agravamento, financiamento,
transações.
Uma outra passagem do mesmo artigo que possui também alguma dessas
características é:
(4) “Como [parte integrante e fundamental do desafio
de equacionar o desequilíbrio das contas externas], [a brutal elevação
das taxas básicas de juros domésticas]NP, além de
contribuir para [a contenção do ritmo de crescimento da
demanda agregada]NP e, portanto, das importações brasileiras,
tem o objetivo de se constituir em [uma estratégia essencial para
incentivar a entrada e a permanência de capitais externos de curto
prazo no mercado doméstico em um ambiente internacional extremamente
desfavorável]NP”.
Nesse exemplo, temos vários NPs extensos e algumas
inserções de orações subordinadas que produzem
um período longo e sintaticamente complexo.
Veja outro exemplo retirado de um texto científico de química.
Aqui têm-se também um sintagma nominal extenso e orações
encaixadas:
(5) Pirólise é [um complexo fenômeno
que envolve volatização de compostos, quebra de moléculas
e reações químicas internas em estruturas sólidas,
geralmente através da atuação de energia térmica
e ausência de oxigênio abaixo do estequiometricamente necessário
à oxidação completa]NP.
Feito este estudo, pode-se então tentar entender
também as razões por que autores utilizam determinadas estruturas
e não outras. Isso, talvez, extrapole os limites do meu trabalho,
mas percebe-se que esta análise seria pertinente e útil
já que muitos autores não têm consciência de
que seus textos contêm formas, muitas vezes, impossíveis
de compreender ou não vêem nenhum motivo para mudar a sua
forma de escrever. Daí a importância de uma discussão
sobre esse aspecto.
Uma outra conseqüência deste estudo diz respeito à produção
de textos acadêmico-científicos pelos alunos. Parece importante
perceber que, na tentativa de se aproximar do “estilo” dos
autores renomados de trabalhos científicos, os alunos de terceiro
grau compõem seus textos, utilizando construções
sintáticas típicas desta modalidade (orações
subordinadas encaixadas, construções passivas, nominalizações,
etc). No entanto, como muitos desses alunos ainda têm muitas dificuldades
em lidar com estes aspectos sintáticos no momento da leitura, ao
construírem seus textos, acabam por utilizar estas estruturas de
maneira truncada e inadequada. Isso faz com que seus textos se tornem
sintaticamente desorganizados, com construções praticamente
sem sentido ou de difícil compreensão.
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