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A
“TRANSMISSÃO” FAMILIAR DA LEITURA E DA ESCRITA: UM ESTUDO
DE CASO
Patrícia Cappuccio de Resende (CEALE/FaE/UFMG)
Ana Maria de Oliveira Galvão (UFMG)
Antônio Augusto Gomes Batista (CEALE/FaE/UFMG)
1. Apresentação
Esta pesquisa situa-se no campo da Sociologia da Educação,
mais especificamente a respeito da família e de suas práticas
de transmissão cultural. O estudo tem como objeto os modos pelos
quais uma determinada família, ao longo de três gerações,
tem buscado transmitir um conjunto de saberes, práticas e disposições
que visam, evidentemente de modo não deliberado e consciente, assegurar
o sucesso na escolarização das crianças nas três
gerações e, no caso da terceira geração, também
visam a construção de um “gosto” pela leitura
e escrita. Pretende-se ainda compreender o modo pelo qual, nessa configuração
familiar específica, os filhos se apropriam desses saberes, práticas
e disposições.
Toma-se como objeto uma família de origens populares que iniciou
um processo de mobilidade social (e de inserção no mundo
urbano marcado por novos e distintos tipos de relação de
trabalho) ainda na primeira geração e que está em
acentuado processo de acumulação, ainda que extemporâneo,
de capital econômico e cultural para a conquista de uma nova posição
no espaço social.
Caracteriza-se, portanto, por uma considerável diferença
de capital escolar entre as duas primeiras gerações. Enquanto
a primeira geração estudada teve poucos anos de escolarização
(4 a 6 anos), seus filhos (segunda geração) chegaram ao
nível superior ou até mesmo à pós-graduação.
Dessa forma, o objetivo geral da pesquisa é descrever e analisar
os modos pelos quais essa família, ao longo de três gerações,
busca transmitir um conjunto de saberes, práticas e disposições
que visam assegurar o sucesso na escolarização das crianças
e, no caso da terceira geração, a construção
de um “gosto” pela leitura e escrita e também descrever
e analisar o modo pelo qual, em uma configuração familiar
específica, os filhos se apropriam desses saberes, práticas
e disposições.
Esse objetivo mais geral se desdobra em outros, que ajudam a responder
o objeto da pesquisa, tais como: de que forma se configura a família
pesquisada? Qual é o envolvimento dos pais e filhos com as práticas
de leitura e escrita? Qual é o processo de mobilização
da família na transmissão de saberes, práticas e
disposições que visam assegurar o sucesso na escolarização
das crianças das três gerações, e no caso da
terceira geração, também visam a construção
de um “gosto” pela leitura? Como os filhos se apropriam desses
saberes, práticas e disposições e como vêem
esse processo?
2. Pressupostos e diretrizes metodológicas
2.1 Fundamentação teórica
Para o desenvolvimento deste estudo, alguns conceitos desenvolvidos pelas
pesquisas no campo da Sociologia da Educação serão
utilizados. O primeiro deles é o conceito de configuração
social desenvolvido por Norbert Elias e retomado por Bernard Lahire (1997).
De acordo com Lahire, as explicações para o sucesso e para
o fracasso são encontradas no modo como, em uma configuração
familiar específica, os indivíduos se apropriam dos saberes,
práticas e disposições transmitidas pela família
(LAHIRE, 1997, p. 39-40). Lahire define configuração social
como o “Conjunto de elos que constituem uma ‘parte’
(mais ou menos grande) de realidade social concebida como uma rede de
relações de interdependência humana”.(LAHIRE,
1997. p.39-40)
Outro conceito a ser utilizado é o de mobilização
familiar, à medida que um investimento familiar é necessário
para que haja “conversão do capital cultural em capital escolar”
(NOGUEIRA, 2003. p.150), conversão esta positiva para o sucesso
na escola. Uma das possibilidades de abordar a mobilização
familiar é entendê-la, conforme Viana, como um investimento
escolar familiar. Para a autora esse investimento é:
“Um conjunto de práticas e atitudes voltadas
intencionalmente para o rendimento escolar. Estas práticas e atitudes
constituem-se, tanto de intervenções práticas (controle
sistemático de atividades escolares, escolha dos estabelecimentos
de ensino e das carreiras escolares, encaminhamento de atividades de reforço
e para-escolares, comparecimento às reuniões pedagógicas
e conselhos de classe, etc.), quanto de sustentação moral
e afetiva (diálogos sobre a escola, apoio nos momentos mais difíceis)”.(VIANA,
1998, p.67)
Além do conceito de mobilização familiar,
convém ressaltar a importância da mobilização
dos próprios filhos na apropriação dos capitais familiares.
Dessa forma, Nogueira refere-se ao sociólogo François de
Singly que nos mostra que, se por um lado, a mobilização
da família na escolarização dos filhos é fator
que influencia o sucesso escolar, por outro, a mobilização
dos filhos em se apropriar do capital cultural familiar também
é importante para trajetórias escolares de sucesso (NOGUEIRA,
2003, p.151). Neste estudo, pretende-se investigar as duas faces da mobilização:
a dos pais e a dos filhos.
No caso da leitura, quanto a sua transmissão na família,
esta pesquisa baseia-se, principalmente, no clássico trabalho de
Shirley Brice Heath (1986). Nesse último estudo, a autora aponta
que a interpretação que as crianças fazem dos livros
e a relação que estabelecem entre o seu conteúdo
e o mundo não são naturais, e sim aprendidas, sobretudo
no interior do grupo familiar.
De acordo com esse estudo, é nos eventos de letramento (como ouvir
histórias antes de dormir, ler caixas de produtos alimentícios,
placas, legendas na televisão e interpretar instruções
de jogos e brinquedos) que as crianças aprendem a dar significado
aos diversos tipos de escritos, formam-se como leitores, são inseridos
no interior da cultura escrita e em suas formas específicas de
construir e compreender significados.
Ainda no caso da leitura, foram utilizados os trabalhos de Singly sobre
a apropriação da leitura como herança cultural. Suas
pesquisas mostram que, ao contrário da herança econômica,
a herança da leitura está baseada na resolução
de um paradoxo: é preciso aceitar a herança e estabelecer,
desse modo, uma continuidade entre o herdeiro e seus pais; ao mesmo tempo,
porém, é preciso, em razão das implicações
geradas, nas sociedades modernas, pela necessidade de construção
de uma identidade individual, estabelecer distinções no
interior da própria família, marcando diferenças
entre uma e outra geração, entre os pais e os filhos.(SINGLY,
1996)
2.2 Metodologia
2.2.1 Os sujeitos da pesquisa : a caracterização da família
Primeira Geração
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Geração
1 (Avós paternos) |
| Sujeitos |
Sr.
A |
Sra.
D. |
|
Idade |
71
anos |
65
anos |
|
Escolarização |
4ª
série do Ensino Fundamental |
3ª
série do Ensino Fundamental |
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Ocupação |
Aposentado
como mestre de obras da Mannesman |
Dona-de-casa |
|
Local de
nascimento |
Moeda
– MG |
Belo
Vale – MG |
|
Local onde
passou a maior parte da vida |
Belo
Horizonte e Belo Vale |
Belo
Horizonte e Belo Vale |
A primeira
geração pode ser caracterizada de origem rural e pertencente
aos meios populares. Na sua infância, Sr. A. morava na roça.
A família tirava o sustento da terra. O pai era um pequeno agricultor
e a mãe era dona-de-casa. Em suas memórias, ele recorda
das dificuldades que passavam. Tinha 12 irmãos.
A família de Sra. D., sua esposa, tinha uma situação
econômica um pouco melhor. Quando ela era criança, seu pai
tinha algumas terras. No entanto, foi perdendo suas posses ao longo dos
anos, de modo que quando ela se casou com Sr. A., sua família já
passava por dificuldades financeiras. Ela tinha cinco irmãos.
Após o casamento, o Sr. A se tornou operário da Mannesman
e Sra. D., dona-de-casa. Tiveram apenas dois filhos. A ascensão
do Sr. A. dentro da empresa permitiu ao casal uma forte mobilidade social,
cultural e escolar. Hoje, eles moram em Belo Vale.
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Geração
1 (Avós maternos) |
| Sujeitos |
Sr.
I |
Sra.R |
|
Idade |
Falecido
em 1998 com 63 anos. |
70
anos |
|
Escolarização |
4ª
série do Ensino Fundamental |
6ª
série do Ensino Fundamental |
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Ocupação |
Vendedor
de consórcio médico hospitalar e posteriormente atendente e administrador
de uma farmácia da família. |
Dona-de-casa |
|
Local de
nascimento |
Rochedo
de Minas – MG |
Juiz
de Fora – MG |
| Local onde
passou a maior parte da vida |
Belo
Horizonte |
Belo
Horizonte |
Pelo lado materno, a primeira geração estudada também realiza uma
trajetória social ascendente, embora as posições sociais iniciais já se
insiram num ambiente urbano e possibilitem um conjunto de laços sociais
importantes.
O
pai do Sr. I. era dono de um cartório, onde trabalhava como escrivão.
Sua profissão não lhe rendeu ganhos expressivos. Sua mãe era dona-de-casa.
O Sr. I. nasceu em Rochedo de Minas, interior mineiro, e teve 11 irmãos.
Cursou até a quarta-série e saiu de casa quando tinha dez anos para trabalhar
como atendente em uma farmácia.
A
Sra. R., por sua vez, tem origem portuguesa do lado paterno. Seu pai veio
para o Brasil e trabalhou como garçom. Com essa profissão, não conquistou
uma boa situação financeira. Sua mãe, brasileira, era dona-de-casa. A
Sra. R nasceu em Juiz de Fora e teve apenas dois irmãos, pois sua mãe
se casou aos 36 anos. Ela cursou até a sexta-série.
O
casal se conheceu em Juiz de Fora. Casaram-se e mudaram-se para Belo Horizonte,
onde Sr. I trabalhou como vendedor de consórcio médico hospitalar. A Sra.
R., eventualmente, costurava para fora. Atualmente é dona-de-casa. Tiveram
sete filhos. A dinâmica pouco estável das vendas do pai impossibilitou
uma situação financeira mais tranqüila. Sempre viveram em apartamentos
alugados.
Segunda
Geração
| |
Geração
2 |
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Sujeitos |
Verônica |
Antônio |
|
Idade |
39
anos |
40
anos |
|
Escolarização |
Técnica
em eletrônica, cursando Pedagogia na UFMG. |
Técnico
em eletrônica, licenciado em Matemática pela UNI-BH, pós-graduado
em Educação Matemática pela UNI-BH, e mestre em educação pela
UFMG. |
|
Ocupação |
Dona-de-casa,
professora de aula particular de matemática. |
Professor
de matemática dos níveis fundamental e médio (rede particular
e municipal – BH), professor do Ensino Superior (Curso de Pedagogia),
coordenador e professor esporádico do curso de especialização
em Psicopedagogia em uma universidade estadual. |
|
Local de
nascimento |
Belo
Horizonte |
Belo
Horizonte |
|
Local onde
passou a maior parte da vida |
Belo
Horizonte / Contagem |
Belo
Horizonte / Contagem |
A
segunda geração nasceu na cidade Belo Horizonte, resultado da migração
dos pais. Verônica viveu toda a infância e juventude na região central
de Belo Horizonte e Antônio em Contagem, no bairro das Indústrias. Eles
se conheceram no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais
(CEFET), onde estudaram e, após a conclusão do curso técnico, casaram-se.
O
casal tem quatro filhos: Eles moram na cidade de Contagem, região metropolitana
de Belo Horizonte. A residência, herança recebida por Antônio de seus
pais, localiza-se no bairro Jardim Riacho das Pedras, um bairro de classe
média.
Terceira
Geração
|
Geração
3 |
| Sujeitos |
Luísa |
Ana |
André |
Adriana |
| Idade |
14
anos |
11
anos |
2
anos |
Seis
meses |
| Escolarização |
Cursando
8ª série do Ensino Fundamental |
Cursando
5ª série do Ensino Fundamental |
Não
freqüenta a escola |
Não
freqüenta a escola |
| Local
de nascimento |
Belo
Horizonte |
Belo
Horizonte |
Belo
Horizonte |
Belo
Horizonte |
| Local
onde passou a maior parte da vida |
Contagem |
Contagem |
Contagem |
Contagem |
Os quatro
filhos nasceram em Belo Horizonte e passam a infância em Contagem.
As duas filhas mais velhas vêm apresentando trajetórias escolares
de sucesso segundo a escola. Luísa e Ana freqüentam uma escola
particular de prestígio em Contagem e em Belo Horizonte, mesma
instituição na qual trabalha o pai como professor de Matemática
dos níveis fundamental e médio.
2.2.2 Procedimentos
metodológicos
A coleta de dados foi feita por meio de entrevistas e da observação.
As entrevistas com as segunda e terceira gerações. A escuta
de mais de uma geração, explica-se, em primeiro lugar, da
constatação, compartilhada entre historiadores, de que “uma
dinâmica social se faz no mínimo em duas gerações,
jamais em uma”. Além disso, em segundo lugar, o trabalho
com a genealogia parece ser valorizado por pesquisas no campo da Sociologia
da Educação, Laurens (citado por VIANA, 2003, p.48) afirma
que “algumas práticas e significados escolares só
se tornam compreensíveis quando colocados no contexto da genealogia
familiar”.
Outros instrumentos utilizados para a coleta dos dados foram as Memórias
produzidas pelo Sr. A., escritas originalmente com o objetivo de serem
recordações para seus netos e o memorial que Verônica
elaborou como trabalho acadêmico narrando a sua história
de leitora, bem como seu papel de mãe-educadora.
As análises aconteceram concomitantemente à recolha de dados
através da construção de um perfil sociológico.
3. O perfil
3.1 Primeira geração: reconstruindo as origens
3.1.1 Sr. A - pai de Antônio: trabalho para melhores condições
de vida
O Sr. A. nasceu no município de Moeda, interior mineiro próximo
a Belo Vale. Sua mãe era dona-de-casa e costurava para as crianças
e marido. Seu pai era agricultor e produtor de leite.
Filho do meio, Senhor A. cresceu na roça, com seus pais e na companhia
de 11 irmãos . Apesar de sempre ajudar no trabalho diário
da roça, com o trabalho com a terra, Senhor A. recorda o interesse
de seus familiares pela sua escolarização. “Sempre
diziam, está chegando a época de você ir para a escola”
(Memórias, p. 9). A partir da terceira série, para prosseguir
os estudos, teve que mudar de escola. Andava 9 quilômetros até
chegar à escola. Da escola, tem boas recordações,
tirava boas notas e gostava da professora: “Tirei o diploma da quarta-série
com média 8.” (Memórias, p.10). Depois disso, não
voltou a estudar.
Depois que Antônio fala do hábito de sua mãe ler jornal,
pergunto se ele se recorda de ver o pai ler. Ele diz que apesar de o pai
ler, ele estava sempre mais ocupado com atividades do fazer.
Casou-se com Sra. D. e posteriormente conseguiu ingressar na Mannesman.
Durante a década de 60, nessa empresa, foi ascendendo de posição
até chegar a encarregado de obras. A ascensão na empresa
possibilitou a compra de um lote no bairro Jardim Riacho das Pedras e
posteriormente, em 1972, a construção de sua casa e a compra
de um Fusca do ano. A mudança de bairro, do bairro das Indústrias
para o bairro Jardim Riacho das Pedras, significava uma notável
melhoria na qualidade de vida.
Mesmo satisfeito com o trabalho, Sr. A. pede demissão em janeiro
de 1977. A explicação para a demissão seria o desejo
de sua esposa de retornar a viver em Belo Vale. Inicialmente foi para
Belo Vale com toda a família. Porém, depois de um ano, perceberam
a necessidade que o filho mais novo tinha de estudar. A esposa voltou
para Contagem com os filhos. “Tivemos que voltar para BH para o
Antônio continuar seus estudos, pois ele tinha vontade de ser um
profissional competente. Aqui em Belo Vale não tinha universidade”
(Memórias, p. 40).
Não há como negar que a condição de separação
temporária do casal (por oito anos) para que o filho mais novo
prosseguisse os estudos está relacionada a uma situação
econômica favorável. Ter dinheiro para manter duas casas
em funcionamento possibilitou a transmissão de uma moral da perseverança.
A esse respeito, Lahire pondera que:
“Para
que uma cultura escrita familiar, ou para que uma moral da perseverança
e do esforço possam constituir-se, desenvolver-se e ser transmitidas,
é preciso certamente condições econômicas de
existência específicas”.(LAHIRE, 1997, p. 24)
3.1.2 Sra.
D. - mãe de Antônio: mobilização pelo estudo
dos filhos.
Sra. D. nasceu e viveu boa parte da vida em Belo Vale, interior mineiro.
Tinha cinco irmãos e era a mais velha entre as mulheres. Antônio
definiu a mãe como o “suporte intelectual” da casa,
embora tenha cursado apenas até a terceira série. Deixou
a escola para ajudar a mãe no serviço da casa, não
foi sua opção.
Sra. D. também parece mesmo ter grande importância nas questões
educacionais dos filhos. Antônio relata que a escolha pelo CEFET
foi incentivada pela mãe. Era uma idéia de que tinha que
conseguir um trabalho, e que um curso técnico seria interessante
para esse fim . Foi sua mãe quem o matriculou no Orville Carneiro,
curso preparatório para a escola técnica, além de
tê-lo levado ao primeiro dia de aula, já que se localizava
numa região de Belo Horizonte não muito conhecida por Antônio.
Ainda em relação à mãe como “suporte
intelectual”, Antônio comenta seus hábitos de leitura.
Quando era solteiro, ele se lembra de a mãe se sentar na cozinha
depois do almoço para ler o jornal. Esse hábito de leitura
da mãe de Antônio também é recordado por Verônica.
O fato de a mãe ser leitora tem relação com a construção
da identidade de Antônio como leitor. A esse respeito, Lahire diz
que:
“O
fato de ver os pais lendo jornais, revistas ou livros pode dar a esses
atos um aspecto “natural” para a criança, cuja identidade
social poderá construir-se sobretudo através deles (ser
adulto como seu pai ou sua mãe significa naturalmente, ler livros...)”
(LAHIRE, 1997, p. 20)
Depois que
Antônio e Verônica se casaram, sua mãe voltou definitivamente
para Belo Vale. O intervalo de tempo entre o término do curso técnico
e do casamento foi de três anos.
3.1.3 Tios
de Antônio: afastamento da família
Não parece ser na figura dos tios que Antônio encontra motivação
para os estudos. Por parte de pai, seus tios logo que atingiam uma certa
idade saíam de casa para trabalhar em São Paulo. Não
os conheceu. Só conheceu a avó, mesmo assim, foi apenas
um único encontro, quando foi com seu pai para São Paulo
em uma viagem de férias.
Também por parte de mãe, nenhum irmão avançou
nos estudos. As mulheres foram ser donas de casa e o único homem
trabalhou na roça. Eram cinco tios.
A esse respeito, não é apenas pelo fato de não terem
atingido níveis de escolaridade mais altos que os tios não
motivaram Antônio para os estudos. Segundo Lahire, o contato estabelecido
entre os membros da família é fundamental para que a transmissão
do capital escolar, por exemplo, possa acontecer. Desse modo, mesmo que
os tios tivessem alcançado um nível de escolaridade avançado,
possivelmente não teria havido situações singulares
que pudessem transmitir o capital escolar para o sobrinho. (LAHIRE, 1997,
p. 37)
3.1.4 Sr.
I - pai de Verônica: um leitor assíduo
O pai de Verônica nasceu em Rochedo de Minas. Ele teve doze irmãos.
As dificuldades econômicas o fizeram sair de casa aos dez anos para
trabalhar com seu irmão em uma farmácia no Rio de Janeiro.
Era com muito sofrimento, segundo sua filha, que ele falava de sua saída
de casa.
De acordo com Verônica, gostava de estudar. Completou a quarta-série
“com honra ao mérito”, o que parece ser motivo de muito
orgulho para ele e para a família: “... Deve ter com minha
mãe ainda uma... louça... parabéns... honra ao mérito”.
(Entrevista 2)
Depois de casado, passou a residir na região central de Belo Horizonte,
trabalhava com venda de consórcio médico-hospitalar, o que
corresponde hoje aos planos de saúde. Para isso, fazia constantes
viagens.
Assim como no caso de Antônio, a família de Verônica
também desfruta de um leitor. Nesse caso é a figura do pai
que transmite aos filhos a idéia de leitura como algo natural e
importante. A respeito das disposições do pai em relação
à leitura, Verônica diz que sempre via seu pai ler. Ela recorda
de o ver ler jornais e principalmente a revista Seleções.
3.1.5 Sra.
R. - mãe da Verônica: grande mobilizadora para o estudo dos
filhos
A mãe de Verônica nasceu em Juiz de Fora e teve dois irmãos.
Cursou até a sexta-série na sua cidade natal. Segundo Verônica,
a mãe parou de estudar por opção. Sra.R. fala para
a filha que as razões do seu desligamento da escola são
a falta de incentivo dos pais e problemas de saúde.
Depois de casada, foi morar em Belo Horizonte. Além de cuidar da
casa e dos filhos, fazia algumas “costuras para fora”. Apesar
de sua “baixa” escolaridade e do pouco envolvimento que tinha
com a leitura, a mãe teve papel muito importante na escolarização
dos filhos.
Essa importância não se manifestou pelo acompanhamento diário
das atividades escolares. No entanto, seu investimento na escolarização
dos filhos pode ser percebido de outras maneiras. Ela confeccionava os
uniformes escolares e vestidos de quadrilha, que, segundo Verônica,
ficavam muito “bem feitinhos”. Ela também costurou
o quadro valor de lugar, material utilizado nas aulas de matemática.
O capricho com esses materiais evidenciava uma preocupação
e uma valorização com a questão escolar que acabava
preparando para uma boa escolaridade. Ao abordar sobre o cuidado com os
cadernos, com a apresentação de exercícios, Lahire
aponta que:“O ofício de aluno no curso primário, o
tipo de ethos, de caráter que a escola exige objetivamente, podem
ser parecidos com o ethos desenvolvido pelas famílias.” (LAHIRE,
1997, p.26) Nesse caso, a semelhança dos ethos significaria propensão
a uma boa escolaridade.
Além disso, sempre que as crianças chegavam com alguma atividade
diferente para ser feita, geralmente relacionada às artes, a mãe
ajudava com muito interesse. Mesmo nas atividades extra-escolares é
grande seu incentivo pelas artes. Queria que as filhas fizessem cursos
voltados para a arte, como música, pintura, etc, mesmo em momentos
em que os recursos financeiros não eram grandes.
Se o hábito de leitura não era forte durante seu tempo de
casada em Belo Horizonte, a mudança para Sete Lagoas, resultado
de um convite que uma das filhas fez para o pai de trabalhar em uma farmácia
que ela montou, mudou suas disposições. Com mais tempo livre,
já que estava apenas com a filha caçula, e com mais recursos
financeiros, ela adquiriu o hábito de ler revistas sobre a área
da saúde. Nessa época, Antônio tinha banca de revistas.
Ele e Verônica constantemente levavam revistas para ela que as lia
com muito interesse.
3.1.6 Os
tios da Verônica: motivação, investimento e orientação
quanto ao futuro educacional da sobrinha.
A influência dos tios de Verônica no seu processo de escolarização
é decorrente das relações existentes na configuração
de sua família. Conforme expõe Lahire:
“...as
heranças – com sucesso ou fracassadas – não
são nunca processos mecânicos, mas efetuam-se sempre, para
a criança, nas relações concretas com outros membros
da configuração familiar, que não se reduzem às
figuras, normalmente sacralizadas e reificadas, do Pai e da Mãe.”
(LAHIRE, 1997, p.105)
Desse modo,
um dos tios por parte de mãe - são dois tios - teve importância
significativa nos estudos da Verônica. Ele não chegou a fazer
curso superior. Trabalhava em escritório, era chefe de seção.
Por não ter casado, freqüentava muito a residência da
Verônica para fazer as suas refeições. Na época
que ela prestou concurso para o CEFET, foi ele quem pagou o curso Orville
Carneiro. Foi ele também quem a influenciou pela escolha do curso
técnico em eletrônica, já que tinha feito alguns cursos
nessa área e julgava ser um bom campo.
Por parte de pai, eram 12 irmãos. Verônica não sabe
por que razão o mais velho foi morar com outras pessoas e acabou
tendo a oportunidade de fazer curso superior. Além disso, todos
os filhos desse seu tio, logo que saíam da escola ingressavam na
universidade, cursavam Engenharia ou Direito. Além de ter nesse
tio e nos seus primos motivação para prosseguir os estudos,
constantemente os filhos ouviam o pai se referir ao irmão com muito
orgulho, o que possivelmente deixava nos filhos o desejo de um dia proporcionarem
o mesmo orgulho que o pai sentia pelo irmão:
3.2 Segunda
Geração: um salto na escolarização
3.2.1 Antônio: um leitor profissional
Antônio nasceu em Contagem, no bairro das Indústrias. Ele
diz que sua infância foi “totalmente rua”, “era
brincar o dia inteiro”. Ele é o filho mais novo, possui um
irmão quatro anos mais velho.
Ele diz que a primeira residência onde morou, foi um barracão.
Não havia água encanada, nem energia elétrica. Possuíram,
mais tarde, uma televisão em preto e branco. A segunda casa, localizada
no bairro Jardim Riacho das Pedras, possuía três quartos,
copa com mobília, mas era modesta em termos de equipamentos. É
nesta casa que Antônio mora hoje com a família.
Antônio conta que não tinha horário para fazer dever.
Ele tem apenas uma lembrança de seu pai cobrando o dever de casa,
nos fins da quarta série. Verônica o interrompe dizendo que
sua sogra fala com muito orgulho de como seu filho era responsável,
“não precisava falar nada...você sentava... fazia seu
para-casa aí sim...você saía pra brincar”(Entrevista
1).
Na época da juventude, quando estudava no CEFET, Antônio
escrevia constantemente poesias para a Verônica. Essas poesias estão
guardadas numa pasta com plásticos que fica na mesinha do quarto
do casal. As filhas têm acesso ao material.
Posteriormente, cursou Matemática no Unicentro-BH. Iniciou na área
da pesquisa com um curso de especialização em Educação
Matemática e recentemente concluiu mestrado na Faculdade de Educação
da Universidade Federal de Minas Gerais. Sua entrada na área da
educação significou também o início de leituras
profissionais que continuam fazer parte de sua vida.
3.2.2Irmão do Antônio: o abandono dos estudos
O irmão de Antônio é quatro anos mais velho do que
ele e teve um percurso escolar bem diferente. “Não avançou
muito nos estudos...não se interessava muito pelo estudo.”
“Foi até o Ensino Médio aos trancos e barrancos...não
concluiu o Ensino Médio...embora seja uma pessoa assim...de leitura...de
filmes.” (Entrevista 1)
A falta de interesse pelos estudos e seu fracasso na escola levaram-no
a optar pela vida no sítio. Conforme Antônio relata na primeira
entrevista, a colocação no mercado de trabalho estava difícil
em Belo Horizonte/Contagem. Assim, o irmão foi morar no sítio
em Belo Vale, para trabalhar com o pai na venda de leite para a Cooperativa
Itambé.
Até hoje seu irmão reside no sítio. Casou-se com
uma professora primária e teve dois filhos.
3.2.3 Verônica:
grande mobilizadora no estudo dos filhos
Verônica passou a sua infância no centro de Belo Horizonte,
em um apartamento alugado, muito simples. É a quinta filha de seis
filhos. Sua infância foi praticamente dentro do apartamento. Sua
rotina parece ter sido bastante organizada. Tinha horário de ir
para a aula e depois para fazer as tarefas domésticas, que eram
divididas com os outros irmãos. Quando tinha feito a sua parte
na limpeza da casa, sentava e ia fazer as tarefas da escola. Depois disso
era hora do lazer, que se constituía, muitas vezes, de brincadeiras
dentro de casa (pular corda, maré, etc) ou um pouco de televisão
que, na família, só podia ser assistida à noite.
Ela iniciou sua escolarização aos seis anos. Segundo conta
em seu memorial, “era uma menina muito assustada, tinha medo de
ser chamada à atenção, de me perder dentro da escola,
de fazer as atividades erradas, da minha irmã esquecer de me buscar...”
(MEMORIAL, p. 3) No entanto, o ingresso de forma tensa na escola não
parece prejudicar seu desenvolvimento, pois conclui o pré-primário
sendo considerada a melhor aluna da classe.
Contrariamente ao ambiente tenso da escola, Verônica lembra como
o ambiente familiar era acolhedor. Em casa, mesmo antes de ingressar na
escola teve o incentivo à leitura através de livrinhos que
havia em casa ou mesmo de manchetes dos jornais.
A primeira série foi vivida de forma trágica por Verônica.
“A professora D. Arízia era de um mau humor assustador, nervosa
e exigente.” (MEMORIAL, p.3) O grande medo de Verônica era
quando D. Arízia cobrava leitura oral de improviso. Ela nunca conseguia
ler direito, gaguejava e tremia. Até que um dia levou escondido
para a casa o livro de leitura e treinou bastante. Seus problemas com
a professora acabaram.
O incidente com a leitura merece ser destacado, pois a figura da mãe
tem papel relevante na superação da sua dificuldade. Quando
Verônica apresentou problemas com a leitura, sua mãe, após
ser chamada na escola, manifestou um sentimento de confiança na
filha. Ao invés de uma incessante cobrança, ela soube lhe
ouvir e acreditou em sua capacidade. A esse respeito, Lahire menciona
que:
“A
herança familiar é, pois, também uma questão
de sentimentos (de segurança ou de insegurança, de dúvida
de si ou de confiança em si, de indignidade ou de orgulho, de modéstia
ou de arrogância, de privação ou de domínio...),
e a influência, na escolaridade das crianças, da ‘transmissão
de sentimentos’ é importante, uma vez que sabemos que as
relações sociais, pelas múltiplas injunções
preditivas que engendram, são produtoras de efeitos de crenças
individuais bem reais”.(LAHIRE, 1997, p.172)
No Ensino
Médio, Verônica estudou no Colégio Estadual Central.
Certamente foi a possibilidade de estudar nessa escola que a levou posteriormente
a optar em prosseguir os estudos em uma escola técnica, pois, quando
estava no terceiro ano, representantes do curso Orville Carneiro (como
já foi dito, trata-se de um “cursinho” que prepara
o exame de ingresso nessa escola técnica) foram à escola
falar um pouco sobre o CEFET. Verônica demonstrou-se muito animada,
sobretudo com a possibilidade de sair empregada do curso técnico.
Falou com a mãe que queria fazer curso no Orville Carneiro e pediu
dinheiro para o tio.
Verônica conta que cresceu em meio a discussões sobre o futuro
educacional das irmãs. Até o Ensino Fundamental, era a mãe
quem escolhia as melhores escolas para os filhos, mesmo que isso significasse
um gasto com vale transporte. No entanto, a partir do Ensino Médio,
Sra. R. conferia mais liberdade aos filhos, pois entendia que os estudos
podiam estar relacionados com um futuro profissional. Ela acredita que
se deve trabalhar em algo que se goste.
Quanto às disposições em relação à
escrita, em seu memorial, Verônica destaca o papel afetivo que a
escrita apresenta na família. Como foi dito anteriormente, Antônio,
por várias vezes, expõe seus sentimentos por meio de poesias.
Da mesma forma, embora não com a mesma intensidade, Verônica
também utiliza a escrita para expor seus sentimentos. Um exemplo
é uma poesia que fez para a filha Luísa, dias após
o seu nascimento. A relação afetiva com a escrita na família
é, pois, algo importante ao se tentar compreender a transmissão
de um gosto pela leitura e escrita.
Em relação às ocupações profissionais,
depois de terminar o curso técnico em eletrônica, Verônica
trabalhou como técnica por dez anos, recebendo um bom salário.
Em 1995, já casada e com duas filhas, ela é demitida. Pensando
em alguma alternativa de trabalho, já que a colocação
como técnica estava a cada dia mais difícil, Verônica
passou a dar aulas particulares em casa. Com isso, as filhas cresciam
em meio a livros, alunos e assuntos sobre educação.
O trabalho com aulas particulares aguçou sua curiosidade em entender
melhor o campo da educação. Hoje, ela está concluindo
o curso de Pedagogia na UFMG.
3.2.4 Irmãos
de Verônica: apoio mútuo
“O negócio era muito de irmão pra irmão também”.(Entrevista
2) Essa frase dita por Verônica revela bem a ajuda mútua
dos irmãos no percurso de escolarização. Diante da
impossibilidade de o pai de ajudar financeiramente, pagar um cursinho
para os filhos que tentavam vestibular, era a ajuda dos irmãos
que prevalecia. Foi o caso da filha mais velha, que teve ajuda de uma
irmã para pagar seu cursinho.
Dos seis filhos, quatro fizeram curso superior. Duas ingressaram no Ensino
Superior logo que saíram do Ensino Médio, concluindo os
cursos de Administração e Letras. Verônica ingressou
no Ensino Superior depois de dez anos que havia concluído o curso
técnico. E T. ingressou após três anos, já
que não foi aprovada nos dois primeiros vestibulares que fez.
O único irmão não terminou o Ensino Médio.
Era considerado pela família como “o inteligente”.
No entanto, conseguiu emprego durante o dia, foi estudar à noite
e suas notas caíram. Envolveu-se com movimento estudantil. Foi
reprovado no segundo ano do Ensino Médio e não fez o terceiro
ano. Foi para o Paraguai fugido da ditadura. Hoje trabalha com artesanato.
3.3 Terceira
Geração: a apropriação do gosto pela leitura
e escrita
3.3.1 Um pouco da infância de Luísa e Ana
Verônica me diz que as duas filhas ingressaram na escola aos quatro
anos, em uma escola particular de pequeno porte próxima à
casa onde moram. Ela as levava e buscava na escola. Apesar disso, não
era sua preocupação manter um diálogo com os profissionais
da escola.
As meninas passaram a infância em meio a brincadeiras físicas
e jogos educativos. Era comum se reunirem com os vizinhos para brincar
de esconde-esconde, amarelinha, etc. Também brincavam muito com
jogos de tabuleiro.
Não era só com os vizinhos que as filhas brincavam de jogos.
O lazer na família se organizava muito em torno de jogos. Além
disso, Verônica comprava: revistinhas de colorir e ligar pontos,
palavras cruzadas e, sobretudo, lia muitos livrinhos, principalmente ao
deitar.
Em relação à leitura antes de dormir, Verônica
recorda que leram a coleção de Monteiro Lobato. Luísa
se lembra de a mãe ler fábulas e contos clássicos.
Segundo as filhas mais velhas, mesmo antes de saberem ler, a mãe
lia para elas. Depois que aprenderam, acompanhavam a leitura. Pergunto
de onde vêm os livros lidos por Verônica e Luísa me
diz que eram comprados por sua mãe, mas não eram dados como
presente.
Ana diz que elas também herdaram livros das tias, quando a avó
se mudou de Belo Horizonte para Sete Lagoas. O hábito de ler antes
de dormir continua. Atualmente, Verônica tem lido crônicas
de Luiz Fernando Veríssimo para as meninas.
O hábito da mãe de ler histórias antes de dormir
provavelmente tem relação com o êxito escolar das
filhas. Um estudo de Heath sobre os modos como famílias de diferentes
culturas do sudoeste dos Estados Unidos ensinam os seus filhos a atribuírem
sentido ao que lêem aponta a leitura antes de dormir como uma forma
natural de interação entre pais e filhos, importante para
o sucesso escolar nas atividades de leitura e escrita. Segundo a autora,
“As formas de apreender dos livros são uma parte de aprendizagem
do comportamento, tal como comer, sentar, jogar, e construir casas”.(HEATH,
1987, p. 97) .
Desde cedo a mãe procurou desenvolver nas meninas noções
de autonomia e de responsabilidade em relação aos compromissos
escolares. Nesse caso, foram as formas de exercício da autoridade
familiar que deram relativa importância ao autocontrole, permitindo
que as crianças se apropriassem da noção de autonomia,
propícia ao sucesso escolar. A autonomia é considerada,
segundo Lahire, “como a capacidade de seguir sozinho pelo caminho
certo e da maneira certa” (LAHIRE, 1997, p.28)
E ainda, embora Verônica não explicite, há uma preocupação
em garantir que as filhas cumpram com seus deveres como estudantes, fazendo
o “para-casa” e estudando para provas. Ela não faz
um acompanhamento sistemático das atividades, mas cuida para que
as crianças tenham tempo e um ambiente propício para o estudo.
Além da mobilização, fica evidente a preocupação
da mãe quanto ao respeito às autoridades escolares na seguinte
passagem, também do memorial:
“Embora
a Pedagogia tenha me sensibilizado a ver mais facilmente as incoerências
ou enganos dos professores, o discurso aqui em casa é que elas
saibam relevar algumas pequenas injustiças. Se quiserem reclamar
algum suposto erro de correção de prova que o façam
com respeito e educação”.(MEMORIAL, p.15)
Tanto Ana
quanto Luísa têm a mesma percepção dos pais
como leitores. No caso do pai, elas enxergam a leitura como sendo parte
da sua profissão. Ele é um leitor profissional. Ana não
consegue diferenciar o que é leitura e o que é trabalho.
Luísa fala da sala onde ficam os livros do pai com certa admiração.
Ela achava “legal” aquele “monte de livros”, ficava
olhando, lendo as capas e achava tudo muito curioso.
Quanto à mãe, ambas a filhas comentam das suas leituras
acadêmicas para o curso de Pedagogia. Luísa também
fala dos livros espíritas, que além de ler, servem para
a mãe preparar palestras que são proferidas num Centro Espírita.
O casal é praticante do espiritismo desde 1994.
3.3.2 Luísa: uma leitora herdeira que sonha em ser escritora
Em entrevista individual com Luísa, percebo que sua escolarização
inicial tem semelhanças com a experiência de sua mãe.
Ela tinha medo de ir à escola. Era comum ela chegar até
a escola e chorar para não entrar. Diante dessa situação,
Verônica permitia que ela voltasse para casa. O consentimento da
mãe nas constantes faltas sugere uma volta ao seu próprio
processo de escolarização. Como foi dito anteriormente,
Verônica também tinha medo de ir para a escola. Entendia
o medo da filha e permitia suas faltas.
Nesse estágio inicial o papel do pai assume grande importância,
pois é ele quem interrompe as constantes faltas. Certo dia, após
uma das insistências da filha mais velha de não querer entrar
na escola, ele diz se ela voltar para casa ficará de castigo. Mesmo
assim Luísa volta para casa. Segundo Luísa essa foi a última
vez que ela faltou a aula por medo.
Além da preocupação do pai em garantir freqüência
da filha na escola, Luísa lembra que ele sempre incentivou o estudo,
elogiava as notas das provas e perguntava para a Verônica se as
filhas tinham feito o “para-casa”. Todas essas atitudes demonstram
a tentativa do pai em verificar o cumprimento às regras escolares.
Para isso, “o pai parece exercer uma autoridade baseada não
na violência física, mas na interiorização
da legitimidade de suas palavras pelos filhos”.(LAHIRE, 1997, p.170)
Assim como no caso de Ana, são constantes os episódios de
leitura e escrita na escola lembrados de forma positiva. Luísa
gostava de ditado, era boa na leitura e na escrita na sala. Pergunto sobre
sua alfabetização, se a escola indicava livros de literatura.
Ela diz recordar apenas de cartilhas. Sobre o início de sua escolarização
o único livro que ela lembra ter lido para a escola é o
livro “Bebê Maluquinho”. Ela diz que não gostou
muito, pois não se identificou com o livro. “(...) falava
de bebê...não tinha nada a ver comigo”. (Entrevista
4) Nesse período, era a família que possibilitava o acesso
à literatura.
Hoje, além de ler os livros literários selecionados pela
escola, Luísa freqüentemente vai à biblioteca e escolhe
um por conta própria. “Eu ... tô sempre com um livro
rodando...sabe...e assim quando não tem nenhum livro pra ler eu
pego dicionário e começo a ler [risos] ...que eu gosto de
ler dicionário...”(Entrevista 4)
Referindo-se a família de modo mais amplo, ela diz que raramente
ganha livros de presente. Lembra-se de dois episódios. Uma tia
a presenteou com o Hary Potter e um tio com uma coleção
de contos. Segundo Luísa, os familiares não têm o
hábito de presentear com livros.
Também pergunto como é que Luísa faz suas escolhas
na biblioteca. Ela diz que procura escolher os melhores autores, recorre
aos autores mais comentados. Então questiono: Comentados por quem?
E ela diz:
“Ah
comentados...comentados pela mídia...não sei...o que eu
escuto mais falar né...aí eu acho que/ é comentado
pela minha tia que é professora...e tá sempre falando...aí
(...)e comentados também na escola” (Entrevista 4)
Embora Luísa
não tenha clareza sobre a origem dos seus conhecimentos a respeito
de quem são os melhores autores, percebe-se que ela já está
construindo uma disposição para a legitimidade cultural,
no caso, a literária.
Quando fala de suas leituras, Luísa diferencia-se da mãe.
Enquanto ela gosta de ler literatura, sua mãe gosta de livros espíritas
e textos sobre educação. Essa diferenciação
entre os gostos pela leitura sugere uma construção de uma
identidade individual distinta da mãe. É o que DE SINGLY
(1996) indica acontecer entre a maioria de estudantes leitores filhos
de pais leitores.
Como foi dito anteriormente, o plano de Luísa é ser escritora.
Saber desse seu desejo é fundamental para entender melhor os investimentos
que ela faz para concretizá-lo. Conforme diz Elias,
“Para
se compreender alguém é preciso conhecer os anseios primordiais
que este deseja satisfazer. A vida faz sentido ou não para as pessoas,
dependendo da medida em que elas conseguem realizar tais aspirações
(...) os anseios não estão definidos desde os primeiros
anos de vida, os desejos vão evoluindo, através do convívio
com outras pessoas, e vão sendo definidos, gradualmente, ao longo
dos anos, na forma determinada pelo curso da vida...” (ELIAS, 1995,
p.13)
No caso de
Luísa, os desejos foram sendo construídos ainda na infância,
em parte por causa da escola, em parte por causa da família. Ela
diz que a escrita entrou em sua vida através da escola. Até
hoje a maioria de suas produções escritas estão vinculadas
à escola, sejam elas atividades que todos os alunos fazem, ou concursos
promovidos e/ou divulgados pela escola.
A família também tem sua importância na construção
do anseio em ser escritora. Luísa assistiu a sua madrinha fazer
concursos, tendo inclusive, ganhado alguns prêmios. O convívio
com essa pessoa certamente foi importante, pois mostrou que ser escritora
era algo concreto e possível.
Dessa forma, a construção do desejo de ser escritora ultrapassa
a descoberta, pela menina, do prazer que essa atividade lhe provoca. Desde
pequena ela teve demonstrações, principalmente da escola,
de que ela tinha aptidão para a escrita. Exemplos dessas demonstrações
são os prêmios recebidos em concursos de redação,
os elogios das professoras e também as boas notas. A escola lhe
ajudou a ter consciência de que era muito hábil na leitura
e na escrita e que, portanto, valia a pena investir nessas atividades.
A respeito disso, Elias nos diz que:
“(...)
a consciência, qualquer que seja sua forma específica, não
é inata a ninguém. No máximo, o potencial para formar
uma consciência é um dote humano natural. Tal potencial é
ativado e toma forma numa estrutura específica através da
vida de uma pessoa com outros. A consciência individual é
específica à sociedade”.(ELIAS, 1995, p.66)
3.3.3 Ana:
uma aluna exemplar e admiradora da irmã
Consigo entender melhor a relação de Ana com a escrita e
com a leitura quando ela fala da relação com a irmã
mais velha e da sua vida escolar. É principalmente Luísa
e a escola que a apresentam ao mundo das letras. Ora Ana aceita com prazer
a introdução pela irmã nos mundos da escrita, ora
ela apresenta certo receio. É com grande prazer que ouvia as histórias
contadas pela irmã. No entanto, demonstra certa resistência
quando a irmã propõe brincar de escolinha. Entendo que ela
aprecia os momentos em que a escrita aparece “naturalmente”
e rejeita quando a escrita acontece para avaliar seu desempenho.
A representação que tem da irmã mais velha se confunde
em duas perspectivas quase opostas. Ora fala com certa ironia do fato
de a irmã ter parado de brincar cedo devido aos seus compromissos
com o estudo, ora fala com orgulho de a irmã ser uma aluna excepcional.
Essa ambigüidade leva a pensar que, ao mesmo tempo em que ela quer
se diferenciar de Luísa, pois continua achando que brincar é
bom e que não é interessante uma pessoa estudar em excesso,
ela admira a estudante comprometida que a irmã é. Ela “opta”
então por uma posição intermediária: não
pára de brincar, mas continua estudando e levando a escola a sério.
Em relação à formação de Ana como leitora
e escritora, a escola aparece de forma bastante significativa. São
vários os relatos de episódios de leitura e escrita dentro
da instituição escolar ou para ela. “Surpresinha literária”
é um desses episódios que é lembrado por Ana com
gosto. Ela gostava das apresentações que havia sobre os
livros literários.
O uso constante da biblioteca escolar também é algo marcante.
Ela utiliza a biblioteca diariamente no turno diferente das aulas, sendo
que nenhum colega de classe faz o mesmo. Pergunto quem freqüenta
a biblioteca e ela me diz que a maioria são alunos do Ensino Médio.
O objetivo de sua freqüência está relacionado com uma
leitura e escrita para pesquisa e tarefas escolares, levando em conta
que em casa muitas vezes o ambiente não seria dos mais propícios
ao estudo devido a presença dos dois irmãos mais novos.
São raros os momentos em que ela procura a biblioteca para uma
leitura desinteressada.
3.3.4 André:
crescimento em meio aos livros e ao estudo
Entre os filhos, André é o único menino. Nasceu quando
Ana já tinha nove anos. Tem dois anos e adora ouvir os familiares
lendo histórias para ele. Diferentemente das irmãs mais
velhas, André conta com todos os familiares para ler os livrinhos.
Em uma das visitas em sua casa, presenciei Verônica lendo dois livros
de literatura infantil para ele. Ela começava a frase e ele completava.
Sabia de cor os dois livrinhos. Ambos os livros eram antigos, da época
em que as meninas eram pequenas.
André ainda não vai para a escola. A mãe pretende
matriculá-lo quando ele tiver quatro anos. Gosta de brincar com
as irmãs. Ele também gosta de ver o filme da Branca de Neve.
No entanto, conforme foi relatado pela própria Verônica sobre
sua repulsa à televisão, ela proibiu o filho de ver o filme.
Diz que emprestou a fita para o vizinho. Presenciei o menino acordar e
pedir para ver o filme. Vi Verônica negar, justificando que a fita
estava emprestada. É provável que sua atitude esteja relacionada
a uma preocupação que tem de ver outros prazeres da infância,
entre eles o prazer das histórias escritas, serem inibidos pelo
prazer imediato provocado pela televisão.
Assim como suas irmãs, ele cresce cercado de livros. Em uma estante
na sala, na parte de baixo, estão os seus livrinhos de literatura.
De todos que vi não consegui identificar nenhum que tenha sido
comprado depois de seu nascimento. Ana me diz que são de quando
ela e Luísa eram pequenas. Além de ter contato com seus
próprios livros, ele presencia os pais lerem e também as
irmãs. Segundo a mãe, quando ele vê as meninas lendo,
pergunta: “Tá estudando?”.
Conclusão
A pesquisa proposta pretendeu compreender os modos pelos quais uma família,
ao longo de três gerações, tem buscado transmitir
um conjunto de saberes, práticas e disposições que
visam assegurar o sucesso na escolarização das crianças
nas três gerações e, no caso da terceira, também
visam à construção de um “gosto” pela
leitura e escrita. Pretendeu-se, ainda, compreender o modo pelo qual,
em uma configuração familiar específica, os filhos
se apropriam desses saberes, práticas e disposições.
Tratou-se de um estudo de caso com uma família de origem popular
e hoje pertencente às camadas médias.
Para apreender os traços sócio-culturais da família
que estavam relacionados a essa transmissão, além das observações
nos momentos de visita à residência da família, foram
feitas análises de entrevistas, de um pequeno livro de Memórias
e de um Memorial. Os longos relatos permitiram compreender os aspectos
da ordem moral familiar, as formas familiares da cultura escrita, as condições
e disposições econômicas, as formas de autoridade
familiar e também as formas de mobilização familiares
quanto à escolarização.
Alguns traços na configuração familiar no caso pesquisado
demonstram características interessantes. O primeiro é a
uma forte mobilização para a escolarização
das crianças que está presente desde a primeira geração.
Esse investimento familiar está, em todas as gerações,
mais relacionado com a figura da mãe. São as mães
que mais se preocupam com a escolha dos estabelecimentos de ensino, com
as tarefas escolares, com o comparecimento em reuniões na escola.
Em segundo lugar, em todas as gerações nota-se uma ordem
moral doméstica baseada no bom comportamento e no respeito às
regras escolares. Esse traço se fortalece da primeira para a segunda
geração. Na primeira geração, na maioria das
vezes, é a mãe quem procura cobrar um comportamento dos
filhos condizente com as expectativas da escola. Já na segunda
geração, tanto a mãe quanto o pai procuram transmitir
aos filhos noções de autonomia e de respeito aos professores
(eles próprios, além disso, são professores).
Em terceiro lugar, não há como desconsiderar as disposições
econômicas. Esse traço pode ser visto de dois ângulos
diferentes: o primeiro é a escolarização como estratégia
para um futuro melhor, perspectiva presente principalmente na primeira
geração. O segundo são as possibilidades de estudo
que a ascensão familiar da primeira geração permitiu
à segunda, e por sua vez, esta vem permitindo à terceira
geração.
No entanto, vale ressaltar que nenhum desses aspectos indica causas únicas
para o sucesso das crianças nas duas gerações mais
escolarizadas e para o gosto pela leitura no caso da terceira geração.
“O caso só pode ser entendido nas relações
de interdependência dentro do contexto familiar”.(LAHIRE,
1997, p.40).
Dessa forma, sobre as relações entre os membros da constelação
familiar, percebe-se, ao longo das gerações, uma disponibilidade
de tempo e oportunidades de socialização da mãe com
os filhos. A respeito disso, Lahire diz que:
“A
presença objetiva de um capital cultural familiar só tem
sentido se esse capital cultural for colocado em condições
que tornem possível a sua ‘transmissão’. Ora,
nem sempre isso acontece. As pessoas que têm as disposições
culturais susceptíveis de ajudar a criança e, mais amplamente,
de socializá-la num sentido harmonioso do ponto de vista escolar
nem sempre tem tempo e oportunidade de produzir efeitos de socialização”.(LAHIRE,
1997, p.338)
Além
disso, o apoio moral, afetivo e simbólico também está
presente na família. Foram diversos os relatos de momentos de suporte
em relação às atividades escolares, seja ajudando
em providenciar algo que a escola pediu, transmitindo confiança
no filho que estava com dificuldades e até mesmo demonstrando orgulho
com a aprovação do filho em um concurso. Ou seja, “a
herança familiar é, pois, também uma questão
de sentimentos”. (LAHIRE, 1997, p.172)
Enfim, no caso da terceira geração, cabe também ressaltar
a relação afetuosa que a escrita assume. Tanto nos momentos
de leitura, através dos momentos de leitura de histórias
antes de dormir, quanto nos momentos de escrita, através das poesias
escritas para expressar os sentimentos.
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