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“O
KRÓ” E A FORMAÇÃO DO LEITOR EM CALDAS NOVAS
Kênia
Rodrigues - Faculdade Federal de Goiás – UFG
Os discursos
são formas de narrar o mundo e essas formas são também
determinadoras de como vivê-lo. Os discursos midiáticos são
partes de uma teia discursiva que (re) produz os discursos possíveis
e contribuem para uma construção de imagens sobre cada um
e sobre o espaço social. O poder encontrado no discurso jornalístico
ordena e disciplina a sociedade tornando os indivíduos dóceis
ao controle político, introjetando-lhes o olhar da vigilância,
aumentando sua utilidade econômica, diminuindo sua força
política. Mas a mídia não é um poder absoluto
que oprime com mão de ferro. É, sim, parte de um poder capilar,
descentralizado (FOUCAULT, 2002) que entranha nos hábitos cotidianos
e conduz, à custa de uma luta silenciosa, à manutenção
ou transformação de costumes. Esse jogo faz com que a sociedade
seja tanto determinada, quanto determinadora dos discursos que ela produz.
É sob esse olhar que pretendemos desenvolver os trabalhos de análise
do jornal “O Kró” que foi publicado mensalmente na
cidade de Caldas Novas - Go, entre 1934 e 1939. Ele trata em suas páginas
de assuntos cotidianos, políticos e culturais. Dialoga com seus
leitores, publica suas cartas, crônicas sobre os moradores, informações
sobre a região, sobre o estado e até mesmo sobre a política
internacional. Numa época em que a urbanização apenas
começa a alcançar o interior do país, as poucas estradas
são precárias, alguns povoados são alcançados
apenas se o viajante seguir por trilhas e atravessar rios e córregos
pela água, a imprensa periódica garante seu espaço
como veículo necessário que informa sobre o espaço
civilizado, a moda, a política e os costumes das grandes cidades,
dita determinadas condutas, revoga outras. Para Bretas (1991), a função
do jornal nessa época é a de civilizar, levar conhecimento,
educar. Acabava sendo também divulgador da ideologia do grupo que
o controlava, que, na maioria dos casos, era também a ideologia
do Estado (PINA, 1971). Sob o ritual da periodicidade e formato semelhante
ao dos grandes jornais do país, “O Kró” alcançou
um prestígio na cidade de Caldas Novas que garantiu sua circulação
periódica por mais de cinco anos. Seus leitores eram os moradores
e, ocasionalmente, turistas que buscavam as águas termais para
tratamento. Extremamente opinativos, os redatores posicionavam-se sobre
os fatos noticiados.
Há no discurso de “O Kró” uma condução
no imaginário do leitor sobre si mesmo e sobre a sociedade, que
deve ser observada atentamente. O caldasnovense (caldense) deste período
era leitor, pois lia o jornal ou partes dele, além de outros impressos
que circulavam na cidade vindos de Araguari, Uberaba e, posteriormente,
Goiânia. Eram leitores porque liam e eram capazes de interpretar
o que liam (ou o que ouviam outros lerem). O Kró era um jornal
crítico e opinativo, e sua leitura, especialmente das crônicas,
funcionava como controladora de costumes. O jornal determinava pela sua
exposição nas crônicas sobre a vida particular das
pessoas da cidade, certas normas, e delimitava certos espaços;
sua apresentação formal, (uma das melhores organizações
gráficas de jornais interioranos da época) garantia-lhe
um status de jornal respeitável e, conseqüentemente, de voz
da verdade. A leitura desse periódico compelia o caldasnovense
(caldense) a formar uma imagem ufanista, forjando uma identidade nacional.
Cada discurso está filiado a um conjunto de regras que, segundo
Bakhtin (1997, p. 279), emergem de uma atividade socialmente estruturada
e padronizam a comunicação. Compreender o gênero de
um texto constitui também compreender a instância social
à qual está ligado. Bakhtin chama de “gêneros
do discurso” o “todo enunciativo” filiado a uma esfera
de utilização da língua, responsável por um
“tipo relativamente estável” de enunciado.
A expressão “relativamente estável” é
bastante justa, já que os gêneros não são formas
cristalizadas, pois sua riqueza e variabilidade acompanham a riqueza e
variabilidade das atividades humanas, modificam-se, tornam-se mais complexos
acompanhando a evolução da esfera social onde foram desenvolvidos.
A filiação de um texto a um modo padronizado de comunicação
facilita a interação entre emissor e receptor, principalmente
quando o gênero é conhecido previamente por ambos. Além
disso, pode também, servir ao escritor (neste caso específico)
como modo de direcionar a compreensão do leitor. Em alguns casos,
conhecendo o grupo receptor ou fazendo uma determinada imagem desse grupo,
e, escolhendo determinado gênero, o escritor pode até mesmo
antecipar a recepção do leitor. O discurso jornalístico
é, segundo Bucci (2003), um fator organizador do que chamamos de
realidade.
Ordena conceitos e valores, estabelecendo o lugar do certo e do permitido,
do errado e do proibido. Essa função simbólica exercida
pela mídia inclui o efeito normatizador e punitivo, ainda que esse
controle não esteja totalmente nas mãos daqueles que detém
o poder sobre as instituições midiáticas. Nesse jogo
de imagens, num diálogo delimitado mais pelos redatores que pelos
leitores – já que as cartas e as impressões coletadas
do público leitor que são publicadas o são por escolha
dos redatores –, no qual não se pode deixar de pesar também
a autoridade do leitor, existe um jogo de poder. Não é uma
forma de poder absoluto, mas que controla o homem moderno a partir de
uma forma de dominação instituída pelo poder disciplinar
(FOUCAULT, 2004). A identidade do homem moderno é pautada pela
docilidade e pela utilidade, moldada pelas tecnologias e torna o homem
politicamente dócil e economicamente útil para preencher
as necessidades da sociedade. Essa identidade é forjada a partir
da disciplina para funcionar no corpo social de forma dócil e útil.
Os mecanismos de controle o tornam tanto mais útil quanto mais
dócil. As práticas de coerção que trabalham
o corpo, os gestos, o comportamento, as projeções, a tudo
sobrepuja. Tudo vai se modulando, o corpo vai sendo submetido a essa maquinaria
para que se torne adequado para esta sociedade que é a sociedade
contemporânea, a sociedade da vigilância, da punição,
sob a qual estamos todos submersos. As identidades do homem e do corpo
estão sob a vigilância constante da sociedade, do Estado,
do outro. Existe uma identidade coletiva, mas em contrapartida existe
também uma identidade individual e aí se dá uma luta
silenciosa de rejeição e aproximação na busca
de submeter o outro. O condicionamento do corpo do século XVIII
é o mesmo do século XX. Com requintes de sofisticação,
mas, a mesma disciplina (FOUCAULT, 2004). A pretensão é
observar como o leitor se relacionava com o periódico e como os
redatores formavam a imagem desse leitor para observar o jogo discursivo
instalado e demonstrar a formação do leitor do gênero
jornalístico caldasnovense (caldense) atravessada pelo discurso
do jornal “O Kró”. Para isso é preciso verificar
a imagem que tanto leitores faziam dos redatores, quanto a que os redatores
faziam dos leitores; identificar e analisar os gêneros jornalísticos
encontrados em “O Kró” para avaliar o modo de recepção
do jornal. Os instrumentos utilizados para alcançar esse resultado
são: a análise dos textos existentes do periódico,
pesquisa bibliográfica, análise iconográfica e entrevistas.
Referências
BAKHTIN,
M. Os gêneros do discurso. In: Estética da criação
verbal. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
BRETAS, G. F. História da instrução pública
em Goiás. Goiânia: CEGRAF-UFG, 1991.
BUCCI, E. O jornalismo ordenador. In: GOMES, M. R. Poder no jornalismo.
São Paulo: EDUSP, 2003.
FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 17ª ed. Rio de Janeiro:
Edições Graal, 2002.
______. Vigiar e punir: o nascimento da prisão. 29ª ed. Petrópolis:
Vozes, 2004.
PINA, B. W. P. Goiás: História da imprensa. Goiânia:
Departamento Estadual de Cultura, 1971.
Bibliografia
Básica
BOURDIEU,
P. O poder simbólico. 5ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
2002.
______. Memórias de um botocudo.
BURKE, P. A escrita da história: novas perspectivas. São
Paulo: Editora da Universidade Paulista, 1992.
CHARTIER, R. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo:
UNESP, 1999.
______. Leituras e leitores na França do antigo regime. São
Paulo: UNESP, 2004.
______. Os desafios da escrita. São Paulo: UNESP, 2002.
______. Práticas da leitura. São Paulo: Estação
Liberdade, 1996.
ECO, U. Lector in fabula. São Paulo: Perspectiva, 1986.
VAN DIJK, T. A. La noticia como discurso: comprensión, estructura
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1996. |
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