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A
LEITURA CRÍTICA DE TELEJORNAIS COMO INSTRUMENTO DE CONSTRUÇÃO
DA CIDADANIA
Ivete
Cardoso do Carmo Roldão - Pontifícia Universidade Católica
de Campinas
Pesquisa
ação, realizada com agentes da Igreja Católica e
universitários, utilizando a técnica de grupos focais, verifica
em que medida esses grupos fazem a leitura crítica dos telejornais
e busca um modo de análise que possibilite a multiplicação
dessa leitura, tendo como objeto o Jornal Nacional e o Jornal da Cultura.
O referencial bibliográfico baseou-se nos trabalhos do Núcleo
de Comunicação e Educação da USP, considerando,
também, estudos de recepção: MARTIN-BARBERO (1995
e 1997). Entre outros resultados, foi possível comprovar que um
grau de conhecimento que requer que o telespectador seja capaz de questionar
possíveis estratégias da mídia é privilégio
de poucos e que o viés político e econômico é
de fundamental importância na leitura de qualquer programa de TV.
O papel da
televisão na sociedade e a sua influência sobre a mesma é
uma discussão antiga e que sempre desperta polêmica. SODRÉ
(1980) apresenta um ensaio crítico à televisão, segundo
o qual, a finalidade aparente da informação é ordenar
(ou reordenar) a experiência social do cidadão, tendo, assim,
uma função política. Para o autor, a mensagem na
televisão é produzida a partir da busca de um suposto denominador
comum, que renda o máximo de aceitação por parte
do público, já que a tevê visa à universalidade,
ou seja, atingir todo e qualquer receptor indistintamente. Essa necessidade
de padronizar o conteúdo condiciona a formação da
mensagem e tende a empobrecê-la.
Reflexão semelhante à de Muniz Sodré viria a ser
feita, no final da década de 90, no livro Sobre a televisão,
(BOURDIEU: 1997), quando o sociólogo francês afirma que “quanto
mais um jornal estende sua difusão, mais caminha para assuntos-ônibus
que não levantam problemas. Constrói-se o objetivo de acordo
com as categorias de percepção do receptor” (p. 63).
Os estudos mais recentes de recepção têm como principal
referência na América Latina, Martín-Barbero. Esse
estudioso parte para a análise interpretativa das mediações,
rompendo com a linha teórica-metodológica centrada nos meios,
tendo como exemplos de mediação a cotidianidade familiar,
a temporalidade social, a competência cultural e as lógicas
da produção e dos usos dos mass media.
Nas pesquisas da recepção há um deslocamento dos
pólos emissor/mensagem para a dimensão do sujeito-receptor.
MARTÍN-BARBERO (1995: 39) salienta que “a recepção
não é apenas uma etapa do processo da comunicação.
É um lugar novo, de onde devemos repensar os estudos e a pesquisa
de comunicação”. Ainda segundo o autor, o modelo de
comunicação em que se privilegia a recepção
pode-se rever e repensar todo o processo comunicativo, em nossas culturas
e em nossa sociedade.
Partindo desse referencial em que há um consenso da influência
da televisão na vida da sociedade em geral, mesmo que seja teorizado
a partir de diferentes abordagens, este artigo objetiva demonstrar como
exercícios de leitura dos meios de comunicação podem
melhorar a percepção de quem participa e o rico aprendizado
coletivo que pode ser obtido.
Além disso, entendemos que a possibilidade de democratização
da comunicação passa por dois caminhos: as discussões
e perspectivas de avanços das questões estruturais, como
as políticas de concessão e a exigência de uma Lei
Geral dos Meios Eletrônicos de Massa; mas também o engajamento
da população na fiscalização da programação,
que só será possível com um maior entendimento sobre
as técnicas que envolvem a construção da mesma.
Uma rica experiência de fiscalização da programação
é a campanha “Quem Financia a Baixaria é contra a
Cidadania” realizada pela Comissão de Direitos Humanos da
Câmara dos Deputados, presidida pelo deputado federal Orlando Fantazini,
do PT - São Paulo. A Campanha, que tem parceria de organizações
da sociedade civil, visa promover os direitos humanos e a dignidade do
cidadão na mídia.
O próprio termo cidadania vem sendo banalizado pelos meios de comunicação,
portanto, é importante reforçar que para o presente trabalho
este conceito deve ser entendido como:
A participação dos indivíduos de uma determinada
comunidade em busca da igualdade em todos os campos que compõe
a realidade humana, mediante a luta pela conquista e ampliação
dos direitos civis, políticos e sociais, objetivando a posse dos
bens materiais, simbólicos e sociais, contrapondo-se à hegemonia
dominante na sociedade de classes. (MARTINS 2000: 58)
De acordo
com o site da Campanha “Quem Financia a Baixaria é contra
a Cidadania” , ela “consiste no acompanhamento permanente
da programação da televisão para indicar os programas
que - de forma sistemática - desrespeitam convenções
internacionais assinadas pelo Brasil, princípios constitucionais
e legislação em vigor que protegem os direitos humanos e
a cidadania”. Posteriormente, os patrocinadores são procurados
com o objetivo de solicitar que parem de financiar tais programas.
Entretanto, embora essa campanha tenha ganhado visibilidade em nível
nacional, infelizmente percebe-se uma pequena participação
da sociedade em geral neste tipo de iniciativa. Isso ocorre pela falta
de discussão da mídia em espaços nos quais ela poderia
ocorrer sistematicamente, como a igreja, a escola, sindicatos e associações
comunitárias em geral.
Assim, este trabalho trata-se de uma pesquisa ação, para
a qual foram formados dois grupos: um de agentes pastorais da igreja católica
em Campinas-SP. e um de alunos da Pontifícia Universidade Católica
de Campinas. Durante a pesquisa foi efetivada uma intervenção
pedagógica e desenvolvida também a técnica de grupos
focais, que, de acordo com CRUZ NETO (2002: 5), é uma técnica
na qual o pesquisador “reúne, num mesmo local e durante um
certo período, uma determinada quantidade de pessoas que fazem
parte do público-alvo de suas investigações, tendo
como objetivo coletar, a partir do diálogo e do debate com e entre
eles, informações acerca de um tema específico”.
Escolhemos como objeto para análise dois telejornais de horário
nobre: Jornal Nacional (Rede Globo) e Jornal da Cultura (TV Cultura).
Eles foram escolhidos pela sua importância para o telejornalismo
brasileiro. As edições dos telejornais analisados são
de um período aleatório, de acordo com as datas definidas
dentro do calendário de encontros com os grupos. A amostragem foi
composta por quatro edições de cada um.
O processo metodológico teve início com um questionário
para identificação do perfil dos participantes e um debate
de como vêem a televisão, utilizando a técnica de
grupos focais. No segundo e terceiro também foi utilizada a mesma
técnica. Do quarto ao sétimo encontro foi realizada a intervenção
pedagógica, que enfocou a história da TV; um painel da política
de concessões no Brasil; o que é e como se dá a produção
do jornalismo na televisão. Nos oitavo e nono encontros foi repetida
a utilização da técnica de grupos focais, porém
com um roteiro prévio de análise dos telejornais.
A idéia de GRAMSCI (1968) de que os intelectuais têm uma
função nos grupos sociais a que se ligam, deve ser considerada
no contexto atual, quando diversos estudiosos passam a chamar a atenção
de comunicadores e educadores para a sua responsabilidade de educar cidadãos
no sentido de desenvolver a leitura crítica da mídia. De
acordo com SILVERSTONE (2002: 267) “nós, estudiosos da mídia,
temos a responsabilidade de nos engajar com o mundo que foi o objeto de
nossa atenção. A fronteira que separa a academia do mundo
concreto não pode mais, pelo menos nesta área, ser defendida.”
No caso desta pesquisa, defendemos que o conhecimento de como se desenvolve
a produção do jornalismo na televisão - restrito
àqueles que fazem parte do cotidiano de uma redação
e a estudiosos da mídia - precisa ser compreendido também
pelos telespectadores. Mas apenas isso não basta. É preciso
que esses telespectadores tenham a dimensão das relações
econômicas e políticas que envolvem esse processo, já
que uma grande parcela dos meios de comunicação possui relações
comerciais com outros segmentos empresariais e também porque a
informação atualmente, mais do que nunca, é vista
como “um negócio”. Além disso, é também
evidente a intrínseca relação dos empresários
da comunicação com as decisões tomadas por aqueles
que detêm o poder na política brasileira.
Acreditamos que o conhecimento adquirido com o exercício de leitura
da televisão poderá ser um instrumento através do
qual os diversos grupos da sociedade, principalmente aqueles que constituem
as classes politicamente dominadas, “passarão a intensificar
sua postura crítica, sua análise de conteúdo e forma,
diante dos órgãos de comunicação.” (ABRAMO,
2003: 49)
Nosso objetivo vai ao encontro do pensamento de MORAN (1991: 53): “não
se trata de afastar as pessoas dos jornais e telejornais, mas de ajudá-los
a perceber melhor o contexto da informação, alguns mecanismos
internos da informação como indústria e produto,
despertando nelas a necessidade de comparar as notícias, sem deixar
se levar pela primeira fonte” Esta pesquisa, que está inclusa
em uma área denominada educação para os meios, identifica-se,
de acordo com a classificação de SOARES (2002: 21) com a
vertente culturalista “que busca garantir aos educandos os conhecimentos
necessários para que os mesmos adquiram o hábito de ler
de forma adequada as mensagens dos meios”.
A televisão
vista pelos integrantes dos grupos
O perfil
dos integrantes dos dois grupos demonstra que eles incluem-se no quadro
geral da sociedade brasileira, confirmando a constatação
de diversas pesquisas de que a televisão é a principal fonte
de informação para a maioria da população.
O que mais assistem na TV são os telejornais, gênero citado
por quase todos os componentes do grupo (15), seguido pelos documentários,
filmes/séries e novelas, com quatro citações cada.
Os telejornais que mais assistem são o Jornal Nacional, citado
11 vezes; seguido pelo Jornal da Globo, citado oito vezes. O Jornal Regional
(EPTV Campinas/Globo) e Jornal da Cultura, foram citados sete vezes. Uma
parcela deles (sete) dificilmente lê jornais; cinco lêem um
ou mais jornais alguns dias da semana; três lêem um jornal
todos os dias e dois afirmaram ler mais que um jornal todos os dias.
Entretanto, quando perguntado aos participantes, sobre que os atraiu para
o grupo, as respostas demonstram que, embora se informem prioritariamente
pela TV, já havia da parte deles uma atenção especial
para com a comunicação e/ou a televisão, principalmente
entre aqueles que trabalham com comunidades:
Cláudia: Acho que não tem como a gente trabalhar com uma
comunidade, para que ela se emancipe, se eu não tenho uma consciência
crítica, e sei que eu tenho que melhorar muito meu nível
crítico. (G. Universitários)
Marta: uma
coisa que eu falei hoje na reunião das mulheres é que a
nossa era é a era da informação, só que muitas
vezes são informações que não são exatas,
que chegam ao conhecimento da gente, assim, já deturpadas... (G.
Agentes Pastorais)
No grupo
de estudantes universitários, no primeiro encontro, quando foi
realizado um debate sobre o que eles acham da televisão, foi possível
observar referências significativas, como: não mostra causas,
conseqüências e/ou soluções; fragmentação;
superficialidade; banalização; bombardeio de informações,
etc. No grupo de agentes pastorais, a falta de caráter social no
telejornalismo; a inversão de valores, muitas vezes não
se distinguindo o que é ficção ou realidade, foram
algumas das questões negativas abordadas.
João: As pessoas assistem novelas, que são ficção,
e choram. As pessoas vêem uma tragédia no jornal e falam
graças a Deus não foi comigo. Eu acho essa coisa das pessoas
gostarem de ver tragédia diminui um pouco a sua própria
tragédia pessoal, a sua condição de vida. Elas se
sentem um pouco melhores, mais consoladas.(G. Agentes Pastorais)
A violência
e o sensacionalismo na televisão, questão que vem merecendo
destaque nas discussões, inclusive entre a classe política
brasileira e o fato de os telejornais darem prioridade para o lado negativo
dos acontecimentos, deixando de lado os fatos positivos e questões
culturais foram mais abordadas pelo grupo de agentes pastorais. No grupo
de estudantes universitários a discussão ficou mais voltada
para a alienação e a falta de interesse da televisão
em aprofundar as questões políticas e econômicas.
A linha de construção do debate nesse grupo voltou-se mais
para a questão ideológica:
Douglas: Eu retomo o que a gente já começou a falar, sobre
o uso da questão ideológica. ... Eu lembro da questão,
não é muito do meu tempo, mas a questão do Collor,
quando houve um impeachment. A própria Rede Globo, através
dos telejornais e de outros meios, até de novela. ... Então
não sei, eu acho que eles se aproveitam dos momentos e utilizam
isso a favor deles. Uso ideológico.
A idéia
de que a TV influencia a sociedade é compartilhada pelos membros
dos dois grupos. A discussão se dá, no entanto, sobre os
diferentes aspectos em que ela ocorre:
Marialba: Eu acho que a gente está caminhando para ter uma babá
eletrônica. Senta a criança na frente da televisão
e fala: fica quietinha aí que a mamãe já volta. ...
Ela vai crescer um adulto que só vai assistir televisão.(G.
Universitários)
Henrique:
Na religião, antes tinha uma influência muito maior. Antes,
as pessoas se aconselhavam com o líder religioso. Hoje é
o líder midiático. (G. Universitários)
João:
A escola discute muitas vezes família e igreja. Igreja, discute
às vezes família e escola. A família, algumas, acompanha
a escola, acompanha a igreja. Mas é a televisão que falta.
Nenhuma das três entidades, escola, igreja e família tem
como base fazer um contraponto com a televisão. As famílias
não discutem a TV, as escolas não fazem o uso de crítico
da TV e a igreja usa a TV de outras formas. Acho que falta um movimento
contrário. (G. Agentes Pastorais)
Quando solicitados
que contassem se eles próprios ou a comunidade da qual participam
já haviam vivenciado alguma situação que posteriormente
tivesse virado notícia na televisão, duas histórias,
contadas no grupo de universitários, apresentam situações
completamente diferentes, mas que demonstram o quanto uma notícia
pode ser distorcida, de acordo com a gravação, redação
e, principalmente, a edição. A primeira foi sobre uma passeata
da ALCA, da qual participou um aluno de Ciências Sociais:
... A gente chegou lá, os policiais todos tiraram a identificação
e nós saímos da Paulista, o chefe da polícia de São
Paulo chegou para gente e disse: “Olha eu vou garantir a segurança,
não vai acontecer nada, vocês podem fazer a passeata e voltam
para as suas casas.” No meio do caminho, tropa de choque, todos
sem identificação, batendo. Ali tinha gente de doze anos,
[ ...] até gente mais velha. Um monte de Ong, era sociedade civil
mesmo. Eles meteram o cacete e daí quando eu fui ver na Globo e
em outro que eu não me lembro mais: “BADERNA NA AVENIDA PAULISTA”.
Não falam quem bateu primeiro, como começou o negócio.
A segunda
foi sobre os cem anos do Seminário de Aparecida, onde um aluno
de filosofia era seminarista:.
Quando o Seminário de Aparecida completou cem anos, a Rede Globo
foi fazer uma matéria. [...] Ela gravou o que cada um falou. E
ela insistiu nessa questão : “Mas o sexo, como vocês
trabalham isso?” Aí teve um corajoso que disse : “Não
isso é uma questão muito clara para a gente. É uma
questão de você arrumar meios para sei lá, válvula
de escape. Infelizmente ele usou esse termo.” ... E aí, o
que ela fez? No horário da oração ela pegava um trechinho
da fala de cada um. Por exemplo, eu lembro que eu falei que era cansativo,
levantar quatro horas da manhã. Ela usou isso: Olha acordar de
manhã , até os padres não gostam. Daí ela
colocou a minha fala, mas ela só colocou isso, não colocou
o que eu disse depois. Pois o que é cansativo é um ideal,
o cansaço se transforma em prazer, enfim. ... Aí chegou
nessa parte do afetivo, do sexual . Daí ela pergunta, como vocês
se relacionam, como que é conviver com trinta, quarenta e sete
homens. Aí ela usa da fala do cara lá: É uma válvula
de escape, você tem vontade de manter relação, de
transar, só que você vai jogar bola para ... Quer dizer,
ela pegou uma fala que era lá do esporte e colocou aqui. Ela catou
um recorte. Então eu passei por isso e é muito chato.
Mesmo sem
conhecer profundamente as técnicas jornalísticas, os depoimentos
confirmaram o que já foi demonstrado por diversos autores, entre
eles PEREIRA JR., (2000: 12): “é na edição
do telejornal que o mundo é recontextualizado.” E nos casos
narrados por esses dois universitários, com um grau de distorção
acentuado.
Os grupos
assistem aos telejornais
Para que
fosse realizada a análise do Jornal Nacional e Jornal da Cultura
, foi feita a gravação dos mesmos, bem como o espelho de
cada telejornal, com as notícias transmitidas nessas edições.
Foram analisadas antes da intervenção pedagógica,
reportagens sobre: a CPI dos Bingos; o pagamento de parcela ao FMI feito
pela Argentina e a greve de Policiais Federais entre outros. A seguir
será descrita a análise feita da cobertura da CPI dos Bingos,
notícia escolhida entre as veiculadas nos telejornais do dia 02
de março de 2004:
A CPI dos bingos vista pelos universitários e agentes pastorais
O JN concentrou
o assunto no primeiro bloco apresentando três reportagens, já
o JC dividiu o assunto. No primeiro bloco apresentou uma reportagem, seguida
por um comentário do apresentador Heródoto Barbeiro. No
terceiro bloco o JC apresentou duas notas que tinham relação
com o assunto; mais uma reportagem e ainda uma entrevista com o Secretário
da Segurança do Paraná sobre o tema.
Após os universitários assistirem ao bloco do JN que apresentou
a cobertura da CPI dos Bingos, chama atenção o fato de alguns
membros do grupo falarem com propriedade sobre a edição.
Alguns deles consideraram ter havido uma defesa do Ministro da Casa Civil,
José Dirceu.
Gustavo: Essa coisa que eles resumiram em cinco minutos, deve ter levado
umas duas horas. Então o que eles fizeram? Eles fizeram um compacto
e privilegiaram a defesa do ministro que estava sendo acusado que era
o Zé Dirceu.
Depois de
assistirem ao JC, houve discordância na comparação
entre a cobertura que os dois telejornais fizeram do assunto neste dia:
Gustavo: Acho que as reportagens foram praticamente, foram parelhas as
duas.
Henrique: Eu não concordo que o da Cultura seguiu a mesma linha.
Porque na hora que apresentou a matéria, ele falou o governo está
maquiando , tá tentando encobrir a CPI.
Fernanda: Eu concordo com o Henrique.[...] eu acho que nisso, ele (JC)
já foi imparcial, muito mais imparcial que o JN.
Os universitários
questionam também o JN pelo fato de ser uma cobertura rápida
e superficial, enquanto o JC, na opinião de diversos membros do
grupo, proporciona, além da informação, a reflexão
e a aquisição de conhecimento.
Ricardo: A Globo vai jogando informação, mas ela não
deixa um tempo para que a gente faça uma leitura daquela situação
para ganhar conhecimento. A Cultura leva você a refletir. Porque
o jogo do bicho não é lícito, porque a raspadinha
é lícita?
Gilberto: A Cultura deixa mais informado para você pensar depois.
Douglas: Eu acho que a diferença é muito grande, até
mesmo pelo cenário. A maneira que os jornalistas conduzem a notícia.
Marialba: A Globo não dá este espaço para pensar.
A Cultura já dá esse espaço, quando você faz
uma entrevista com alguém, você pensa depois sobre a entrevista,
você pensa sobre o que a pessoa falou.
.
É interessante observar como o grupo de agentes pastorais fez uma
leitura diferente, analisando o enfoque do JN, que se preocupou em relacionar
a denúncia do senador com as alterações do mercado
financeiro e o JC que ficou mais centrado na CPI dos bingos.
José Alberto: A Globo se preocupou em mostrar que essa denúncia
provocou uma alteração no mercado de ações.
Já a Cultura não se preocupou com isso, mas já enfocou
a questão dos bingos.
Givanildo:
Eu observei também que a Globo foi mais para o lado econômico
e a Cultura começou a explicar o que realmente interessava naquele
fato.
Também
apareceu no grupo de agentes pastorais a idéia de que o JN é
mais governista, embora não tenha sido com tanta intensidade como
no grupo de universitários.
Cristiane: O JN colocou que o Mercadante tem 24 anos de luta. O JC já
colocou a falsidade das coisas. ... Eu anotei aqui que são cinco
ou seis senadores que ela coloca contra as acusações. O
JC são só três.
André:
Eu acho que mais uma vez você tem uma porcentagem governista, é
uma pena isso acontecer, mas, mais uma vez é o JN.
A maioria
dos membros do grupo de agentes pastorais considera que foi mais fácil
compreender o tema através do JC e critica o formato mais sensacionalista
do JN:
Carolina: Eu acho que a Cultura usou uma linguagem mais fácil.
Eu entenderia melhor pela Cultura do que pela Globo, até as imagens
que eles utilizaram eu achei muito mais fácil.
José
Alberto: É uma adrenalina atrás da outra. Depois o JC, o
jeito “light” que ele fala, você vai entendendo a notícia,
absorvendo. O outro (JN), você vai criando uma expectativa, para
depois vir fazer o desfecho.
Ivair: Mais
ou menos isso aí, a Globo tem uma preocupação de
manter o telespectador até o final, suspense.
O exercício de leitura dos telejornais, também proporcionou,
além da discussão sobre a forma como eles apresentaram os
diversos assuntos analisados, a abordagem de temas relacionados direta
ou indiretamente às reportagens: se foi correta ou não a
greve dos policiais federais; a forma como o governo tratou o problema
dos bingos; a questão religiosa que envolve o Haiti; o risco Brasil;
a localização de Brasília e como repassar a discussão
da comunicação para outras pessoas que envolvem seus círculos
de convivência.
Ao final desta primeira fase foi possível perceber que, em sua
maioria, os membros dos dois grupos já tinham uma visão
crítica do telejornalismo. Mas, em que pese a análise apresentada,
poucas vezes foram feitas observações que indicassem um
conhecimento das questões técnicas ou da lógica de
construção dos telejornais.
A compreensão
depois da intervenção pedagógica
Depois da
intervenção pedagógica, no oitavo e no nono encontros
foi utilizada também a técnica de grupos focais, porém
com um roteiro prévio de análise, nos quais foi pedido que
os participantes prestassem atenção em alguns pontos considerados
importantes para a compreensão dos telejornais.
A prisão
de Celso Pitta
Na análise
dos telejornais do dia 04 de maio de 2004, o objetivo é que os
grupos percebessem os detalhes da construção da reportagem,
desde onde vem uma pauta, como é elaborada até a edição
final. Nesse dia a reportagem escolhida foi sobre a prisão do ex-prefeito
de São Paulo, Celso Pitta, que havia sido detido porque teria desacatado
uma autoridade durante sessão da Comissão Parlamentar de
Inquérito que investigava o escândalo do Banestado.
As reportagens tanto do JN como do JC têm três minutos e cinco
segundos. A diferença é que a TV Cultura apresenta também
um comentário. Deve-se levar em consideração que
três minutos é um tempo normal de reportagem para a JC, mas
não para o JN, já que neste telejornal as matérias
têm em média 1 minuto e meio. Depois de analisarem a cobertura
da prisão do ex-prefeito em cada um dos telejornais, os universitários
fizeram a comparação.
O que foi possível perceber é que, como Celso Pitta é
um político polêmico e antipático ao grupo, a maioria
aprovou as reportagens, mesmo considerando que ambos os telejornais utilizaram
termos e sonoras que poderiam ser negativas para o ex-prefeito. No caso
do JN, eles justificam até um certo sensacionalismo apresentado
na reportagem
Alexandre:
Uma coisa que fizeram no JN, que deu um tempo legal, foi o questionamento
do Antero Paes, a resposta do Pitta, a reação e o bate-boca.
Você vê que demora, dá pelo menos uns 40 segundos.
E não é uma coisa sem corte, é inteiro.
Sen. Antero
Paes de Barros – Pres. da CPI: É impossível deixar
de estabelecer relações entre a existência de contas
no exterior em seu nome e os cargos que vossa senhoria ocupou na administração
pública paulista e as denúncias de corrupção
que pairam sobre a execução de obras públicas na
cidade de São Paulo.
Celso Pitta: Eu mantenho silêncio em relação a essa
questão.
Senador: Seu eu lhe indagar que vossa senhoria vê essas afirmações
como sendo informações que vossa senhoria é corrupto,
vossa senhoria mantém o silêncio também.
Celso Pitta: Se eu indagasse a vossa excelência se o senhor continua
batendo na sua mulher, como é que o senhor responderia?
Senador: Eu exijo respeito de vossa excelência!
Celso Pitta: Eu também, eu também porque estou aqui na condição
de depoente e não na condição de pessoa para sofrer
um tipo de acusação tão grave como vossa excelência
está colocando para mim.
Senador: Eu não bato na mulher e nem sou assaltante de cofres públicos.
Gustavo:...
o pessoal fez sensacionalismo, mas o objetivo é importante. São
coisas que têm relevância e têm mudança prática
se isso for combatido, a corrupção, no caso.
Ricardo:
A discussão dos dois, eu também achei que foi desfavorável
ao Pitta. E por que isso? Em função de eles quererem que
o Pitta seja desmerecido, colocam o bate-boca.
A afirmação
da apresentadora do JN de que Celso Pitta insultou o presidente da CPI
causou polêmica entre os membros do grupo.
Gustavo: Eu achei que o Pitta ofendeu, porque ele estava perguntando sobre
os assuntos políticos da CPI e o Pitta foi perguntar da mulher
dele.
Cláudia:
Você acha que insultou, todo mundo acha que insultou. Para o advogado
isso não foi um insulto. Não cabe a apresentadora colocar
o insulto, acho que podia ter colocado como você falou “se
sentiu insultado e deu voz de prisão.” E depois quem assiste
vê o que acha.
A reportagem que abordou a prisão do ex-prefeito, Celso Pitta,
causou bastante discussão, também, entre os agentes pastorais.
No JN, tanto o texto da chamada da reportagem como o primeiro off da mesma,
apresentou diversos termos que foram questionados pelo grupo.
Givanildo: Ela(apresentadora) usou a palavra “insultar”, que
ajudou o Senador. Claro, o senador pode ter visto como um insulto e, tanto
não foi, que depois acabou não sendo indiciado por desacato.
... Acho que não era o papel dela.
André:
Na hora que a Fátima Bernardes fala do ‘insultar’,
ela está num tom de voz normal, de repente ela fala “insultar”,
dá aquela impressão maior.
Cristiane:
Foi preso por desacato. ... Acho que ela estaria repetindo a palavra do
senador. Diria “foi preso sob acusação de desacato”...
Quando diz que foi um insulto, ela diz também “o escândalo
do Banestado”, ela está chamando a atenção,
é sensacionalista.
Já o fato de o JN apresentar, praticamente na íntegra, a
discussão entre o presidente da CPI e o ex-prefeito, também
foi considerado normal pelos agentes pastorais.
Marta: Eu achei que ela fez uma explicação do que estava
acontecendo e do que procedeu.
Ivair: Como
eles não abordaram a CPI, só falaram desse episódio,
do desacato, eles só usaram essas imagens. Então, está
mostrando isso, libera o som dele, depois fecha e coloca o off.
João:
Sobe som fica mais contundente do que fazer uma sonora com os dois a respeito,
para exemplificar o que aconteceu.
Depois de
assistirem às duas reportagens sobre o mesmo tema, os agentes pastorais
fizeram a comparação e consideraram a reportagem do JC melhor
estruturada e menos sensacionalista, apesar das críticas:
André: Queria chamar a atenção para a questão
do sensacionalismo. [...] a gente vai perceber que nas falas, no bate-boca,
existe muito menos bate-boca entre os dois na Cultura..
Cristiane:
Eu reparei também na posição das âncoras, porque
elas deram mais ou menos a mesma informação. Agora, a Fátima
Bernardes coloca uma tensão maior para a coisa. É a mesma
coisa com as repórteres, elas fazem a sonora na frente da Polícia
Federal falando do crime e das punições, mas na Cultura
tem uma expressão mais tranqüila.
Carolina:
Acho que a Cultura amenizou [...] Tem a repórter explicando o que
foi o desacato, o que pode acontecer, tal. Achei que foi bem melhor a
reportagem.
Observamos
que este grupo teve mais dificuldade em analisar as reportagens levando
em consideração as técnicas estudadas durante a intervenção
pedagógica, mesmo assim é possível detectar uma maior
intimidade com alguns termos utilizados. Além disso fica evidente,
na reportagem sobre o ex-prefeito Celso Pitta, que o grupo de agentes
pastorais é mais crítico ao sensacionalismo do JN do que
o grupo de universitários.
Considerações
Finais
Foi possível
verificar, nesta pesquisa, que um grau de conhecimento que requer que
o telespectador seja capaz de questionar possíveis estratégias
da mídia é privilégio de poucos e que o viés
político e econômico são de fundamental importância
na leitura de qualquer programa de TV.
É necessário ter claro que esta é apenas uma forma
de se fazer a leitura de um produto específico da televisão.
As pessoas que participaram dos grupos em questão já tinham
uma visão, que pode ser considerada crítica, seja pelo conhecimento
adquirido na escola, ou pela participação em atividades
na igreja ou nos movimentos sociais (em maior ou menor grau). O que procuramos
desenvolver no trabalho realizado com os dois grupos, foi embasar esses
conhecimentos, reforçando, assim, a necessidade e o hábito
de fazer a leitura dos meios.
Consideramos importante a afirmação de CITELLI (2000: 36).
Para ele
O desafio da escola parece ser, cada vez mais, o de apreender analítica
e criticamente o que diz televisão, o rádio, o jornal, etc.
Posto de outro modo, se a escola deve melhorar seus jogos interlocutivos
com os meios, precisa fazê-los, não só para estar
em sintonia modernizante com o novo, com o sedutor, mas também
para tensionar e desestabilizar, quando necessário, um tipo de
mensagem da qual não se exclui o elemento do espetáculo
e da manipulação.”
Finalmente,
pretendemos reforçar a necessidade de que a discussão sobre
os meios de comunicação seja inserida na escola de forma
oficial, ou seja, nos currículos escolares Apenas, acreditamos
ter atingido o nosso objetivo se este trabalho, contribuir para colocar
a Educomunicação em destaque no meio acadêmico, entre
os estudiosos da comunicação, mas principalmente entre os
educadores.
Referências
Bibliográficas
ABRAMO, Perseu.
Padrões de manipulação da grande imprensa. São
Paulo : Fundação Perseu Abramo, 2003.
BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro : Jorge Zahar,
1997.
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