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DO ENCANTAMENTO AO “VER PARA CRER”: O QUE SUSTENTA A VONTADE
DE APRENDER?
Maria da Conceição de Carvalho Rosa - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ Este texto é produto de uma pesquisa sobre a formação
dos professores no Centro de Atividades Comunitárias de São
João de Meriti – CAC, localizado na Baixada Fluminense, estado
do Rio de Janeiro. O levantamento de dados para esta pesquisa foi realizado,
prioritariamente, através de entrevistas com os professores que
atuaram com turmas na Escola do CAC de 1989 a 2001. Analisando as longas
conversas, que privilegiaram as vozes dos professores, foram definidos
os aspectos fundamentais que caracterizam a formação desses
profissionais na instituição: a constituição
do coletivo, a relação com o erro, o encantamento com o
conhecimento, a escrita, a leitura e a relação prática/teoria.
Neste texto trato de um destes aspectos: o encantamento com o conhecimento Eu me lembro que vi um filme, Em Nome de Deus, que é
a história de Abelardo e Heloísa, e uma coisa que me marcou
muito, me chamou muito a atenção é o quanto a questão
do intelectual era uma grande fonte de realização para o
Abelardo. A coisa do intelectual, de ser o professor, de ser alguém
que está pensando... e o quanto ter se apaixonado por Heloísa
fez com que ele investisse em ter duas fontes de prazer. Ao descobrir
a Heloísa, ele tentou investir e conciliar ainda esse mundo, do
afetivo, do sensual com esse mundo intelectual. E o que me chamou a atenção,
no primeiro momento que eu vi o filme, foi o quanto ele é castrado,
o quanto ele abre mão da afetividade, da sexualidade, para garantir
o que ele achava que não poderia perder de maneira nenhuma que
era... (fora a época de repressão que ele viveu), o intelectual.
Quer dizer, o quanto o intelectual é um mundo de prazer. Aprender,
para mim, sempre foi uma coisa muito prazerosa. (Professora Dalva) A gente curtia muito o trabalho que era desenvolvido aqui
no CAC. Isso era uma coisa legal. E a gente via claramente os resultados.
Era uma coisa nova e a gente estava buscando cada vez mais. Dava prazer,
na verdade. (Bosco) não educamos a vontade. Damos conhecimentos, mas não educamos os motivos. Para educar é preciso que se tenha um motivo, um projeto, uma ideologia. Isso não é ciência, isso é vontade, é querer fazer, querer transformar.(p 86) (...) Educar não só a razão, mas também o sentimento e a vontade. (...) A vontade pode transformar montanhas, quando é forte, bem enraizada e é auxiliada pela inteligência. Mas o que sustenta a vontade de aprender dos professores
do CAC? e aquele curso (...) foi o primeiro curso de alfabetização que você deu: aquele curso superapaixonado... E aquele encontro, para mim, foi um marco. Porque eu lembro de ter voltado para escola, para o Normal, para o Curso de Formação de Professores encantada. Inclusive a minha professora de ‘Metodologia da Alfabetização’, o primeiro contato dela com reflexão em cima da alfabetização, foi porque eu levei. E ela, depois, passou a conhecer o trabalho do CAC... Eu lembro de estar falando... lembro como se fosse hoje, de estar chegando na sala de aula, muito agitada como eu sou, e querendo falar sobre aquilo, querendo informar, querendo dizer... e até porque eu lembro que quando eu saí desse primeiro curso que você deu, foi muito legal, porque aquelas questões que você apontava, que você dizia, sobre as hipóteses... eu não tinha, eu não dava aula ainda. E eu fui pegar vizinhos meus, filhos dos meus vizinhos, para fazer entrevista, para perguntar, para pedir para escrever. E aí localizei aquelas coisas, vi aquelas hipóteses e lembro que foi muito marcante. (Professora Marliza) Quando eu fiz o curso (‘Refletindo sobre Alfabetização’, não era isso? )... ‘Reflexões sobre a Alfabetização segundo Emília Ferreiro e Ana Teberosky. No primeiro dia de aula com você, eu fiquei doida. Cheguei em casa avaliando a minha sobrinha, pesquisando com ela, entrevistando... “Gente! Descobri um negócio superlegal!” E aí foi que eu fui lembrar do meu primeiro relatório de estágio, onde eu coloquei que parecia que a professora falava uma língua e o aluno falava outra. “É isso! Descobriram que a professora falava uma língua e o aluno falava outra”. Então fui pesquisar com a Juliana, guardei a entrevista dela, está até hoje aqui comigo guardadinha, foi um momento superimportante para mim. Eu a coloquei para escrever... Então eu peguei a Juliana e fui avaliar, ver se aquilo era verdade, se aquilo acontecia com todo mundo mesmo e ela me retornou exatamente como eu tinha visto no dia do curso. Aí, eu fiquei me achando logo o máximo. E achando que eu já conseguia prever o futuro, porque eu sabia o que a criança estava escrevendo e o que ela ia escrever depois. E aí, eu achei que era o máximo dar aula para o CA, que alfabetização era o máximo e que era nesse campo que eu queria trabalhar. (...) O curso, a psicogênese em si, mudou a minha visão de alfabetização, mudou o meu desejo em relação à alfabetização, porque o desejo era estar longe de tudo quanto era sala de alfabetização do mundo. Meu desejo passou a ser o quê? Estar estudando mais, lendo mais, pesquisando mais, sabendo mais e estar trabalhando com essa questão. A relação com a leitura também mudou. Mudou muito, porque eu tinha um desejo de estar lendo mais. (Professora Eliane) Foram dois anos que você deu aula para mim? Eu não lembro. Mas, depois daquele período, eu fiquei apaixonada e tal, era o que eu queria fazer! Eu acho que eu descobri assim: eu passei a ter certeza do que eu não queria fazer. E essa coisa de buscar, de que existem caminhos e você pode estar buscando como fazer. Tudo bem, até hoje eu estou buscando. Acho que a gente busca para sempre, né? (Professora Adriana) Foi uma grande descoberta para mim, que tinha um outro processo... Inclusive, tem um detalhe: por mais que fôssemos militantes (é até uma coisa interessante), não imaginávamos que era possível, no processo de aquisição da leitura e da escrita, a criança reconstruir todo o processo da história da escrita. Da evolução da escrita. Aquilo foi uma descoberta. (...) Uma coisa incrível para nós, foi uma descoberta. Interessante, porque éramos militantes com toda uma atuação que até facilitou nossa intervenção, mas foi uma descoberta, na verdade, para a gente. (Professor Bosco) Todos os professores entrevistados, diante de um conhecimento
novo, que se tornou muito significativo, apesar de não o dominarem
totalmente, relatam um sentimento de encantamento. Sentem-se arrebatados
por uma espécie de paixão. Li o livro A Paixão de Conhecer o Mundo, fiquei tão encantada que consegui o telefone da autora, Madalena Freire, e tive a ousadia de telefonar. Ela me falou dos estudos de Emília Ferreiro. Pouco tempo depois, fiz um curso com a professora Sônia Barreira, em São Paulo – na escola a qual Madalena Freire se refere em seu livro –, sobre a psicogênese da língua escrita e ouvi falar de Piaget, pela primeira vez de uma maneira que fazia sentido. Quando voltava desse curso, encontrei Camila, minha aluna, que me acompanhou até minha casa. Ao chegarmos, pedi que ela escrevesse. Qual não foi a minha surpresa ao ver que sua escrita era silábica! Isso gerou uma mudança conceitual muito significativa. Eu sabia que algo muito importante estava acontecendo comigo, me sentia mais inteligente, com muita vontade de estudar, queria divulgar o que eu tinha aprendido, montei um curso e chamei professores que eu conhecia. Nesse ano, fui trabalhar com a primeira turma de alfabetização do CAC. Só fui ter a dimensão, de fato, do significado da mudança conceitual que tinha ocorrido, quando vi o que aconteceu com as crianças. Tornaram-se leitoras vorazes! As crianças da mesma comunidade que antes eu não ensinava, esperando que amadurecessem. Entre a revolta e a alegria, decidi fazer do investimento na formação pedagógica e do compartilhar com outros professores a minha militância. Este parece ser um ponto de articulação
necessário, o teste de São Tomé, pois, se num primeiro
momento o prazer vem de uma informação teórica significativa,
num segundo momento, ele precisa vir da prática, do agir, do movimento
da teoria na ação. Uma atividade é tanto mais significativa quanto mais relações com sentido o aluno for capaz de estabelecer entre o que já conhece, seus conhecimentos prévios e o novo conteúdo que lhe é apresentado como objeto de aprendizagem. A relação do sujeito com um novo conceito
é sempre mediada pelos seus conceitos anteriores. Neste sentido,
a própria ação pedagógica se transforma em
atividade significativa para o professor, pois é um terreno fértil
para que estabeleça relações entre o que já
sabe e o que está fazendo e entre o que faz e os novos conteúdos
a que tem acesso. A prática. Por mais que eu entendesse tudo o que estava escrito lá, se eu não visse que acontece de verdade com crianças aqui no CAC (ou em qualquer outro lugar), acho que seria muito mais difícil de acreditar. Se eu tivesse apenas lido, e tudo bem, não teria tanta validade quanto eu estar fazendo. Eu não lia mais e vinha fazer; eu fazia e ia ler. “Ihhh, caramba, eu fiz isso. Acho que eu já li isso em algum lugar.” E voltava com aquele monte de texto para lembrar. “Ihhh, o meu aluno de verdade fez a mesma coisa que uma criança com a Emília Ferreiro, lá não sei aonde, fez também. Isso é verdade! Acontece mesmo!”. É como se a teoria fosse incompleta até
ser traduzida em prática. A completude se dá na ação,
como se houvesse uma necessidade de refazer o caminho percorrido para
a construção daquele conhecimento no próprio agir. Eu pegava o meu irmão, e jogos da Constance Kamii, ele tinha 8 anos na época. “Reinaldo, senta aqui que nós vamos jogar.” E jogava com ele, chamava as filhas da minha vizinha para fazer uns jogos de Matemática, e ficava vendo: “Realmente ela tem razão, a autora tem razão”. Mas eu só via isso porque eu li o livro e passei a entender. Porque, até então, eu não entendia. Isso tudo, para mim, foi muito bom. (Professora Maria) Maria afirma que só é possível ver
aquilo que as informações que se tem permitem ver. A ação
não pode ser vazia de reflexão, e talvez seja impossível
de ser. Por isso, informações anteriores entram em movimento,
quando se está empenhado em pensar sobre algo, quando se busca
ver para crer, ou melhor, ver para compreender. Sou apaixonada. Acho que é essa palavra: apaixonada. Eu adoro estar vendo que aquilo acontece. De ver as crianças. Quando te mostram trabalhos das crianças, imagina, um moleque de 5 anos escreve CAVALO, já pensa no A, pensa no V e pensa também no L. E lê para você CAVALO e aí, você olhar aquilo e entende e vê como ele pensou. E vê como ele consegue chegar lá, como conseguiu chegar lá, a gente não vai: “nossa, esse garoto é burro. Está comendo letra.” Imagina! Se ele está colocando letra, se tem o A realmente. Você vê criança que entra fazendo bolinha: “Ah, eu não sei ler, eu não sei escrever...” e, com dois meses, ele vai e lê um livro para você. Isso é maravilhoso de ver. Está acontecendo com você. Você foi uma das pessoas que proporcionaram aquilo para aquela criança. Porque também acredito que (aí vou ter que ser um pouquinho metida) a gente, professor, proporciona aquilo também. A gente é que conta para eles que acredita. A gente é que acredita que aquelas bolinhas que ele escreveu, ele vai ler. A gente se emociona com aquilo. Uma vez, eu chorei, porque (não sei se foi o Renan... não, o Mike.) ele escreveu uma carta para mim, ele botou o meu nome. Escreveu IARA, pensando: o I, o RA é do rato que roeu a roupa. Ele foi buscar... O RA de IARA, a professora dele. Essas coisas emocionam a gente. Acontece com a gente de verdade. E milhares de coisas que as crianças escrevem, que falam, que trazem para você escrito. Aí você vê: “Caramba, acontece mesmo.” Aí a gente acredita. Não que a gente desacreditasse. Mas é mais forte quando acontece com você. Eu acho assim: por que a gente quer confirmar na prática? Porque acho que a gente não acredita... até porque a gente aprendeu que, para aprender a ler e escrever, tem que ficar fazendo BA, BE, BI, BO BU... LA, LE LI, LO LU... para conseguir escrever BOLA. A gente estudou assim. E quando você vai, quando uma pessoa te conta que não precisa isso e uma criança escreve BOLA pensando, aí você vai ter que falar assim: “ah, não. Isso aconteceu comigo e aconteceu por quê? Porque a gente deu esses meios para eles. Nós é que fomos capazes de fazer isso”. Acho que a gente não acredita... Não é nem na capacidade da criança, pelo menos no meu caso. Eu não acreditava na minha capacidade de fazer com que isso acontecesse. (Professora Iara) A fala acima é repleta de elementos importantes
para a reflexão. Neste depoimento emocionado, Iara parece revelar
os elementos provocadores deste estado de paixão. Com certeza, se eu olhar para trás, do início da minha trajetória até hoje, tanta coisa que eu não fiz que hoje eu saberia fazer de outra forma. Apesar das lacunas que ficaram, o avanço... o que a gente conseguia de produção das crianças, até para mim, de fato foi muito mágico. Hoje eu sei até como as coisas aconteceram. Mas, na primeira experiência, ver aquele primeiro momento tão insegura... Eu sabia que teoricamente é apontado dessa forma. Mas, de repente, você conclui um período onde os alunos aprendem a ler, onde eles se tornam com possibilidade de fazer uso social da escrita. Isso foi marcante! É alguma coisa que não sei, acho que você vai poder estar avaliando isso nas falas das outras pessoas, acho que isso é meio que uma alavanca. Se a gente tivesse feito todo o investimento e ficasse patinando e não minimamente visse o avanço dos alunos, não sei, teria que mudar... Quando eu trabalhava em escola particular e no Estado, eu já tinha essa preocupação de fazer uma coisa legal, mas isso não me garantiu. Eu tinha uma intenção, um desejo de ser uma boa profissional. (Professora Marliza) O desejo de competência é dirigido, seletivo e persistente por satisfazer uma necessidade intrínseca de lidar com o meio. Segundo Webster, citado por Bruner, Competência significa aptidão ou capacidade e os sinônimos sugeridos incluem habilidade, destreza, eficiência, proficiência e perícia. É, portanto, uma palavra adequada para descrever coisas como a compreensão e a exploração, o rastejar e o caminhar, a atenção e a percepção, que promovem todos eles, uma efetiva – uma competente – interação com o meio. As pessoas não desenvolvem as mesmas competências.
O interesse numa atividade está ligado ao grau de competência
que elas atinjam para realizá-la. “Nós interessamo-nos
por aquilo em que nos tornamos bons”. É importante saber
como estamos nos saindo na realização de uma atividade para
que tenhamos vontade de nos superar. Neste sentido, para manter o interesse,
“deve-se saber o que se pretende e sentir que isso preenche alguma
necessidade (de saber, de realizar, de informar-se, de aprofundar)”.
Marliza aponta como marcante, como uma alavanca, verificar que o investimento
que fez valeu a pena, já que as crianças aprenderam. Eu ficava assustada. A Marliza mandava as crianças escreverem. Que é isso? Aquelas criancinhas, daquele tamanho! E quando eles foram assinar o caderno na biblioteca? “Assina aí”. “Mas eles não sabem assinar, Marliza”. “Não, mas eles assinam.”. Aí, por curiosidade, eu fui pegar o caderno de assinatura. Meu Deus, cada coisa. Ai, cada letra desse tamanho. Aí ela mandou escrever e depois eu perguntei: “‘Seu Manoel, por que essa menina manda eles escreverem? Eles não sabem escrever. Para quê eles escrevem?” “Não, Iara. Aqui é assim, eles escrevem e eles lêem.” Seu Manoel falava que eles escreviam e eles liam. Ele também... mas isso chama a atenção. E eles procurando livro na biblioteca? E quando eles viam: “Vou ler esse aqui: O Pequeno Polegar”. “Esse garoto já sabe ler? Porque era o Pequeno Polegar. Esse garoto já sabe ler?” “Não sabem ler. Mas estão acostumados, conhecem o livro.” E a autonomia deles na biblioteca, sabendo mexer. E decidindo o livro que eles iam pegar. Às vezes, a mãe: “Vamos, garoto. Pega logo.” “Péra, mãe... estou lendo ” E estavam lendo o livro e botavam no saquinho. E perguntavam: “Onde eu assino?”. Essa autonomia, isso tudo... (Professora Iara) Era muito distante da minha realidade (...) não vou negar que a questão do como que se faz ainda estava assim. Então, tinham determinadas cenas que eu ficava assim: “Meu Deus, mas como é que a Dinalva fica sentada ali, olhando essas crianças, tudo em pé, um vai pra cá, um vem para lá!” E os assuntos? Eles estudavam cores, tons, tonalidades, os tons das cores, e eu assim: “Meu Deus, pra que essas crianças estão estudando isso?” Curioso, né? A postura das crianças, a produção de texto... E, ao mesmo tempo que aquilo me fascinava, me atemorizava, porque e agora, como é que eu faço? (Professora Adriana) A curiosidade relatada pelas professoras acima surgia a partir de suas suspeitas sobre como era encaminhada a prática pedagógica no CAC. Iara, diante de sua suspeita, começa a investigar, observando o que ocorria e perguntando para outras pessoas. Os seus conceitos de leitura não coincidiam com o que era afirmado, inclusive pelo servente. É uma série de indagações provocadas pela suspeita que fazem com que tanto Iara como Adriana iniciem o espionar. A curiosidade é quase um protótipo de motivo intrínseco para aprender. A nossa atenção é captada por algo obscuro, inacabado ou incerto. Mantemos a atenção até o assunto em mãos se tornar claro, acabado ou certo. Aquilo que satisfaz é a obtenção da clareza ou a mera procura dela. (...) O que ativa e satisfaz a curiosidade é algo inerente ao ciclo de atividade pelo qual expressamos a curiosidade. O ser humano é curioso em sua essência. A
curiosidade é um fator fundamental para a aprendizagem, pois se
dá no misterioso, no duvidoso, e provoca a busca de descobertas.
Freire diz que ensinar exige curiosidade e que exercê-la é
um direito do professor, pois a construção do conhecimento
implica em exercitá-la. “Como professor devo saber que sem
a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não
aprendo, nem ensino.” “Ai, Dinalva, vou ter que procurar um curso de inglês.” “Por quê?” “Eu tenho que fazer mestrado”. Imagina! Nem cheguei a terminar a faculdade ainda, já estou pensando no mestrado. Numa pós-graduação. E isso é porque eu estou aqui. Porque tenho contato... porque eu estou aqui com essas pessoas. Porque eu poderia estar aqui com outras pessoas e não estar pensando assim. Eu estou aqui e penso assim... Acho que (se não estivesse aqui) não estaria nem fazendo faculdade. Não teria essa preocupação. Ou estaria fazendo Pedagogia, porque é normal: eu fiz Normal, tenho que fazer Pedagogia. Não teria essa visão que eu tenho agora. Também não sei se é por causa da idade, mas eu conheço a Dinalva há muito tempo. Muito tempo mesmo. Eu sempre falei para Dinalva que eu queria ser igual a ela. Eu falava para ela: “Dinalva, eu quero ser igual a você. Não quero casar, quero estudar primeiro. Aí, sim, eu começo a pensar na minha vida de outra forma, mas primeiro eu quero estudar. E eu vou ser professora igual a você.” Isso eu fazia contabilidade, era da Igreja, participava do grupo jovem. Eu devia ter uns 17 anos quando eu falei isso, não esqueço... descendo a passarela lá da Matriz. Eu falei: “ainda vou ser professora.” E quando eu venho para cá, com a Dinalva. E quando eu tenho a Dinalva hoje, como orientadora, Meu Deus do Céu! É o paraíso. É a realização de um sonho de criança. Uma moleca que participava de sindicato! Quando eu tinha 17 anos, eu era do sindicato de plástico. Eu trabalhava numa fábrica de plástico. Eu participava do sindicato. Então já tinha uma visão mais ou menos. Aí, dou de cara com um pessoal que tem uma visão inteira? Isso só tem a ampliar minha visão do mundo... Eu não fui preparada para isso, pelo contrário, na minha casa nós fomos preparados para trabalhar. Com 14 anos, todo mundo na minha casa foi trabalhar fora. (Professora Iara) Iara atribui ao grupo uma mudança no que era considerado
“normal” na sua família: estudar até os 14 anos
para trabalhar. Encontra no coletivo um novo modelo com o qual se identifica
e busca se inserir. A professora Dinalva é, para ela, um outro
modelo, não só de profissional, mas de vida. Eu me senti o máximo, porque eu estava lendo com o pessoal do CAC. Eu fiquei metidona. Eu era a única ali do Instituto [de Educação de São João de Meriti] que estava sendo chamada para participar desses estudos... Eu achei o máximo... (Professora Eliane) A professora Maria demonstra orgulho de ter conseguido realizar, na escola onde trabalha atualmente, o que admirava no CAC e desejava ser capaz de fazer. A escola tem 25 anos e chega uma pessoa e tátátá... Lá, o que não é certo, não é certo. E estou trazendo isso à tona. É uma revolução entre as professoras: “Por que a gente tem que fazer isso? Não é melhor pegar um livro para ler?” E eu me senti muito orgulhosa, realmente eu me senti... “Pôxa, eu estou discutindo tal coisa...”, coisa que eu jamais imaginei de estar discutindo com a pessoa, discutindo um livro com a pessoa: “O que você achou do livro?”. Porque eu sempre achava o maior barato você chegar num lugar, como eu via aqui no CAC, as discussões, as conversas entre você, a Dinalva, a Marliza e tal, falando assim: “o livro tal fala assim e assado. Esse autor realmente acha que a educação...” e eu ficava pensando: “Pôxa, eu acho que um dia eu vou estar discutindo isso e tal”. E quando realmente eu consegui, comecei a ler o livro de outra maneira, eu achava o máximo isso. (Professora Maria) Bruner comenta sobre a aspiração de emular,
como modelo de competência, àqueles com quem nos identificamos
em determinadas situações. O modelo “em cima do acontecimento”
com quem se estabelece uma relação de confiança e
interação. O sujeito identifica determinadas pessoas ou
grupos como seus modelos referenciais por demonstrarem controlar alguma
competência desejada e que pode ser alcançada por meio da
interação. Nós tínhamos algumas responsabilidades. Uma delas era: procurando saber de fato as diferentes concepções de aprendizagem, naquele momento, isso era vital. E a responsabilidade maior que era estar mostrando para fora do CAC, para diversos segmentos da sociedade, esse conhecimento, estar dividindo esse conhecimento. Isso foi muito marcante. Dividir esse conhecimento com o SEPE, com a própria ABM, que tipo de Educação, que concepção de Educação, na verdade, se queria naquela época. Até porque o movimento pedia isso. Naquela época, nos anos 80 (nunca esqueço isso), já no final dos anos 80, o movimento estava passando por uma mudança que deixava de ser só reivindicatório para apresentar uma política de Educação. O CAC foi esse referencial, na época. Ajudou a refletir um pouco, a pensar que política de educação se quer, qual política pública de educação pode se pensar para a cidade.(...) O fato de você estar em grupo tem essa coisa: “O grupo vai ter que produzir isso.” e eu tenho a minha tarefa”. E todo mundo tem que produzir de alguma maneira. Tem que ler, todo mundo. O grupo ajudou nesse aspecto. Não que fosse uma coisa forçada. Obviamente. Muito pelo contrário. Era prazeroso, porque a gente tinha interesses maiores em estar reproduzindo isso mais na frente. Ou o grupo estudava ou não tinha sentido. (Bosco) A história da instituição é
marcada pela partilha de objetivos e pela diversidade de papéis
que diferentes pessoas precisavam assumir para a própria sobrevivência
do trabalho. Neste sentido, na própria equipe de educação,
as pessoas assumiam diversas funções e executavam diferentes
tarefas. Isso ocorria tanto no que se referia às atividades desenvolvidas
internamente quanto às atividades que eram desenvolvidas externamente.
Na minha vida, a questão do coletivo sempre foi uma coisa importante, para eu estar investindo, pensando... Exercer meu pensamento e pensamento é isso: tem conflitos, tem dúvidas... tem ansiedades, tem o não sei mesmo... Se eu não me sinto cúmplice do outro e o outro meu cúmplice, a gente não consegue exercitar essas coisas que nos fazem avançar. O coletivo, para mim, sempre foi uma coisa muito importante. Mas é importante também a gente se dar conta que, no coletivo, as pessoas exercem papéis diferentes. E acho que o CAC teve sempre uma pessoa que esteve à frente na coisa dos projetos e dos sonhos. Porque, na verdade, os nossos projetos são os nossos sonhos. A gente primeiro precisa estar sonhando. Quando a gente sonha e depois transforma isso em projetos, significa buscar caminhos para que esse sonho se torne real. E você cumpria esse papel no CAC, como a pessoa que estava com os sonhos, sempre vendo o CAC à frente do que ele tinha, do que ele era. Você conseguia seduzir as pessoas para aquele caminho. Isso é uma coisa muito legal, a gente reconhecer papéis diferentes dentro do grupo. Eu acho que isso é uma coisa que a gente vivenciou no CAC. O CAC ter hoje uma biblioteca, ter sido tudo o que ele construiu ao longo do tempo, é um marco. A gente encontra pessoas em diferentes lugares que passaram pelo CAC, fizeram curso lá, se lembram do curso até hoje como algo importante na sua formação, algo que teve a ver com esse sonho. A gente ter vivenciado. Essa é uma outra coisa importante de estar lembrando: Luiza, que estava na época do início do grupo, cuidava da organização dos cursos, Icléa preparava as propagandas... Funcionavam como a equipe de educação de trabalho voluntário. Nós estávamos diretamente com as crianças e fazendo a formação de professores. O Bosco [na coordenação]... Éramos um coletivo, mas tínhamos, dentro desse coletivo, papéis diferenciados mesmo. Mas sempre teve alguém vendo um pouco à frente e que conseguia envolver todo mundo nessa conquista, no trabalho de chegar lá onde achava que era importante ele estar. O que era possível ele ser, o que ele podia estar fazendo. Eu acho que isso é uma coisa muito legal e isso faz falta nos lugares que a gente atua. A gente sente muita falta de muitas coisas que a gente vivenciou naquela época e foram muito legais, muito boas. Para Bruner, reciprocidade aos outros membros da espécie é provavelmente a base da sociedade humana. É na necessidade de ação conjunta para atingir objetivos comuns que se desenvolve um processo que parece arrastar o indivíduo para a aprendizagem e o empurrar para a competência necessária ao grupo. Uma cultura é, pela sua própria natureza, um conjunto de valores, aptidões e modos de vida que nenhum membro da sociedade domina na totalidade. O conhecimento, neste sentido, é como uma corda cujos fios têm apenas uns centímetros de comprimento e, todos entrelaçados, dão solidez ao conjunto. A condução do nosso sistema educativo tem sido curiosamente cega a esta natureza interdependente do conhecimento. Temos professores e alunos, peritos e leigos. Mas a comunidade do saber é de certa forma negligenciada. (...) Se quisermos que a aprendizagem seja apoiada por grupos reciprocamente operativos que estimulem cada pessoa a juntar os seus esforços aos de um grupo, vamos precisar de tolerância para com os papéis especializados que se desenvolvem – do crítico, do inovador, do segundo coadjuvante, do admoestador. É no cultivo destes papéis entrelaçados que os participantes extraem a sensação de operarem reciprocamente num grupo. O coletivo, no CAC, parece se constituir numa comunidade
de saber, que, perseguindo objetivos compartilhados, opera reciprocamente
e se sustenta com a vontade de aprender que é mantida pela própria
relação do grupo, pela curiosidade, pela escolha de modelos
referenciais, pelo desejo de ser bom profissional. Vontade de aprender
que surge por meio do encantamento e se multiplica no prazer alcançado
na visibilidade da ação. É momento de celebração! Celebrar as conquistas deste ano. Conquistas que se tornam realidade, porque se construiu o espaço do sonho. Sonhos que deixam de ser utopias e se tornam realidade, por encantamento! Não aquele encantamento que coloca diante de nós a fada madrinha com sua varinha de condão, mas aquele que nos contagia, nos seduz pelo prazer de fazer. Fazer pedagógico! Prazer, conquistado não meramente pelo discurso da vontade, mas pela ação que implica em resgatar ao professor o seu verdadeiro papel, na busca da competência profissional, no espírito investigador, no estudo sistemático, no registro da experiência, na análise constante, no acompanhamento das pesquisas pedagógicas e descobertas científicas.(...) Prazer que faz enfrentar inúmeras dificuldades e não desistir, porque não está perdida a capacidade de sonhar! (p. 1) REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA BRUNER, J. 1999. Para uma teoria da educação.
Lisboa. Relógio D’Água. |
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