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DESAFIOS
DO SÉCULO XXI À FORMAÇÃO DE PROFESSORES
Fernando Casadei Salles - Universidade de Sorocaba/UNISO
Para abordar o tema dos desafios do século XXI
à formação de professores é preciso reconhecer
de início a abrangência da problemática na qual o
tema se insere e, em seguida, a complexidade que envolve a sua compreensão.
É ingênuo pensar que no espaço curto de uma comunicação,
realizada num evento acadêmico, se aborde exaustiva e minuciosamente
os aspectos mencionados.
Por conta desta dificuldade restringimos a reflexão a quatro pontos
que, a nosso critério, resumem, mais ou menos, de maneira satisfatória,
as dificuldades anteriormente citadas. O que não quer dizer, que
mesmo estes pontos serão tratados na exaustão. Nem tampouco,
que outros diferentes dos escolhidos para serem refletidos neste trabalho,
não possam servir de base à reflexão da presente
comunicação.
Feita estas ressalvas cabe alertar o leitor que os pontos apresentados
só podem ser vistos de forma holística, como partes de uma
única realidade, no que pese suas apresentações terem
sido objeto de reflexões separadas.
Assim, os pontos escolhidos são os seguintes: 1-a questão
demográfica mundial; 2-ciência-tecnologia e educação;
3-ciência e humanismo; 4-crise da cultura ocidental.
Para finalizar esta introdução, cabe destacar que a escolha
dos pontos acima mencionados não obedeceu a nenhum critério
hierárquico de grandeza, de ordem ou de importância.
A escolha deveu-se, exclusivamente, a idéias que entendem a problemática
da formação de professores, no século XXI, como um
desafio subordinado a duas grandes questões. Por um lado, como
desdobramento, ou conseqüência, do processo de globalização,
ao qual o mundo se encontra submetido, de forma mais intensa, principalmente,
depois do final da Segunda Grande Guerra Mundial. Por outro lado, pelo
entendimento da crise que atualmente envolve a educação
como um subproduto da crise mais geral da cultura ocidental, que vem sendo
seguidamente denunciada, pelo menos, desde meados do século XIX,
por inúmeros pensadores e filósofos, dentre os quais se
destaca Friedrich Wilhelmam Nietzsche.
1º Ponto – A crise demográfica mundial
O fenômeno da crise demográfica não
é desconhecida do homem. Por várias vezes, na sua experiência
histórica, ele se viu na contingência de enfrentá-la.
Em todas as crises vividas, principalmente pelos nossos antepassados,
transpassam sempre as mesmas características, tais como, a escassez
de recursos naturais e a baixa produtividade do trabalho humano.
Não se trata de mera coincidência geográfica que a
maior parte destas crises tenham se localizado em territórios econômicos
pobres, nas periferias do sistema capitalista mundial. E nem tampouco,
que se entenda crise populacional e subdesenvolvimento econômico-social
como simples partes da mesma realidade.
A modernidade, no entanto, muda o enfoque desta problemática ao
registrar, nos países desenvolvidos, alguns casos da realização
do fenômeno em países centrais do capitalismo mundial, como
foi o caso da primeira grande crise demográfica da modernidade,
acontecida na Inglaterra, em fins do século XVIII, em pleno apogeu
da Revolução Industrial .
O inédito acontecimento do fenômeno desencadeado, no coração
do capitalismo mundial, no país de maior capacidade produtiva,
trazia pelo inusitado, pelo estranhamento que acarretava junto aos estudiosos,
profundas perplexidades e incompreensões para o seu entendimento.
Entre estas não faltaram teorias que predissessem futuro pessimista
para a humanidade. Thomas Robert MALTHUS, um dos mais importantes economistas
da Escola Clássica, ao lado de Ricardo, e pastor da igreja anglicana,
foi responsável por uma destas incompreensões ao construir
uma teoria que, com base científica, procurou dar explicação
racional para o surgimento daquela realidade.
Sem, aparentemente, compreender a extensão econômica, social
e cultural provocada pelo movimento da revolução industrial
que se encontrava na base daquela realidade, Malthus predisse, através
de sua famosa teoria sobre população, especificamente criada
para aquela realidade, um futuro de dificuldades tanto para a Inglaterra
como para o mundo que dava, naquele momento, os seus primeiros passos
em direção a sua globalização.
Segundo a teoria malthusiana, a Inglaterra passava por forte descompasso
entre a sua capacidade de produção de alimentos e o crescimento
da sua população. Enquanto a primeira crescia em progressão
aritmética, a segunda tenderia a aumentar em progressão
geométrica, o que, ao fim e ao cabo, acarretaria pobreza e fome
generalizadas.
Felizmente para a Inglaterra a previsão tal como foi feita não
se realizou. E isso não teria acontecido por alguns motivos que,
segundo os entendidos, haviam sido desconsiderados, ou subestimados, na
análise de MALTHUS. Segundo estes, seriam três os motivos
responsáveis por este desacerto da teoria malthusiana. O primeiro
deles deveu-se ao enorme aumento da produtividade do trabalho humano acarretado
pela aceleração da revolução industrial que
acontecia, naquele momento, na Europa, mais especificamente na Inglaterra.
O segundo deveu-se ao impacto da revolução industrial, um
fenômeno de tipo exclusivamente urbano, sobre a produção
agrícola. Para atender a pressão gerada pelo aumento crescente
da demanda por alimentos dos trabalhadores urbanos e matérias primas
para a indústria, a agricultura teria passado por um processo muito
parecido ao acontecido na indústria, demandando o aumento da produtividade
do trabalho empregado na sua produção. O terceiro motivo
deveu-se à expulsão por razões religiosas de grande
contingente da população inglesa para os Estados Unidos;
pode-se falar em praticamente 1/3 de toda população residente,
na época, na Inglaterra.
A intenção em fazer estas considerações é,
tão somente, para chamar atenção a um fato bastante
singular, que diz respeito à diferença entre a crise demográfica
vivida no século XVIII e a que, potencialmente, o mundo atravessa
na atualidade. Apesar de semelhantes as crises são, entre si, diferentes.
Partem de naturezas estruturais distintas. Fato este que implica afirmar
que as diferenças de natureza, além de provocarem impactos
políticos, econômicos, sociais, etc. diversos, demandam ações
específicas, dadas exatamente pelas diferenças de naturezas
existentes entre elas.
Assim sendo, três dessas diferenças, entre muitas outras,
mereçam ser mais refletidas, tendo em vista a discussão
sobre os desafios da formação de professores, no século
XXI.
A primeira destas diz respeito ao período e ao espaço onde
as crises aconteceram. Enquanto a crise anterior se deu em fins do século
XVIII, em uma região determinada do mundo, na Inglaterra, a atual,
que vem se desenvolvendo desde, pelo menos, meados do século XX,
acontece em escala mundial, atingindo diversos continentes. A segunda
diferença, diz respeito ao cenário histórico-social
que permeia cada uma das crises. Enquanto a acontecida na Inglaterra tinha
por fundo o movimento da Revolução Industrial que marcou,
a partir de sua realização, indelevelmente, o futuro de
quase toda sociedade mundial, a crise atual parece apontar, muito mais,
através dos seus fantásticos índices concentração
do capital, de exclusão social e de aumento das desigualdades planetárias,
para o retrocesso da humanidade. Por fim a terceira diferença diz
respeito à base numérica em torno da qual as mencionadas
crises teriam se desenvolvido. Enquanto na crise da Inglaterra o mundo
apresentava uma população total que mal chegava a um bilhão
de habitantes, a atual já atinge um pouco mais de seis bilhões
de habitantes.
Diante do exposto cabe tirarmos algumas conseqüências acerca
das diferenças apresentadas com o fim da delimitação
real do significado da crise demográfica mundial, tendo em vista
os processos de formação de professores.
Assim sendo, cabe destacar, de início, que a natureza distinta
de cada crise nos leva a alguns paradoxismos, tais como: 1- os espaços
vazios ou de áreas de colonização, para onde poderiam
estar sendo mandados os “excessos” de população,
caso adotado na crise inglesa do século XVII, são praticamente
nulos, o que impede a tomada de qualquer posição neste sentido;
2-o crescimento da população mundial, entre as duas crises
passou de um bilhão para seis bilhões de habitantes, o que
implica reconhecer que o mundo levou milhões de ano para acumular
um bilhão de habitantes e em menos de duzentos anos quase que,
praticamente, sextuplicou seu tamanho, passando para seis bilhões
de habitantes.
Esta situação que por si só já é bastante
complexa, dadas às inúmeras problemáticas que cercam
o atual quadro de crescimento da população do mundo, se
agrava ainda mais se considerarmos, em primeiro lugar, as tendências
demográficas futuras quantitativas de crescimento da população
e em segundo lugar, as tendências qualitativas apresentadas pelas
projeções referentes ao crescimento populacional do mundo.
Segundo algumas projeções, consideradas até mesmo
como otimistas, se prevê para os próximos vinte anos do século
XXI, um acréscimo populacional da ordem de quatro bilhões
de habitantes. O que significa, no espaço curto de menos de vinte
anos, que o mundo atingirá a fantástica quantidade de, aproximadamente,
dez bilhões de habitantes. Do ponto de vista qualitativo, por sua
vez, estas projeções são ainda bem mais catastróficas.
Isto porque a incidência geográfica deste crescimento deverá
se localizar quase que totalmente nos bolsões de pobreza do mundo.
Diferentemente, portanto, da crise ocorrida no século XVIII, na
Inglaterra, que acontecia em pleno centro dinâmico do desenvolvimento
do capitalismo mundial onde se concentrava boa parcela da riqueza mundial,
esta agora acontece na periferia do sistema, nos centros de pobreza e
miséria do planeta.
A implicação destas questões na problemática
dos desafios do século XXI à formação de professores
é simples e imediata. Ora, se estamos preocupados na definição
de um processo de formação de professores que atenda os
princípios democráticos de justiça e igualdade, com
a realização de um processo educacional de qualidade, será
necessário que coloquemos, desde já, na discussão
das prioridades envolvendo as políticas de formação
de professores, qual o significado de educar uma população,
na sua grande maioria formada por pobres e miseráveis, competentemente,
na quantidade que as projeções indicadas requerem para a
população do mundo nos próximos vinte anos?
Trata-se, enfim, não só de respondermos o desafio da formação
de professores para a escala mundial de dez bilhões de habitantes,
mas, sobretudo, de formá-los política e profissionalmente
para um quadro social marcado quase que, estritamente, pela miséria
da população.
2º Ponto – Ciência-tecnologia e educação.
É
impossível discutir os temas da ciência, da tecnologia e
da educação do ponto de vista deste artigo, se não
considerarmos duas questões fundamentais. A primeira, diz respeito
a indissociabilidade entre os temas. A segunda, à forma globalizada
como as questões estão propostas para a discussão
nos campos da produção de conhecimento, de bens materiais
e imateriais e da cultura.
Por outro lado, é preciso considerar que, tanto a indissociabilidade
do tema, quanto a sua globalidade, não os limitam ao âmbito
estrito da economia. Assim como há um pressuposto baseado nas questões
aventadas anteriormente é preciso que haja também uma disposição
igual em relação ao conceito de globalização
para que não se dissociem, na análise, os aspectos da economia
dos da cultura. A globalização caracterizada como expansão
das relações capitalistas mundiais de produção,
no sentido radical da sua internacionalização, é
forte evidência desta afirmação.
Enfim, não se trata apenas de uma globalização econômica
do mundo, mas, também de uma globalização cultural.
Mesmo porque, ciência e tecnologia, que são representações
da cultura moderna, indicam, mais do que qualquer outra coisa, o núcleo
e a alma do processo de globalização da economia. Além
disso, assim como é impensável, nos padrões de concorrência
estabelecidos no mercado mundial, se fazer uma proposta de desenvolvimento
capitalista independentemente da ciência e da tecnologia, não
se pode pensar a ciência e a tecnologia desvinculadas da cultura
para a qual foram inicialmente imaginadas.
É importante salientar a necessidade da formação
de professores englobar um maior aprofundamento da compreensão
do papel estratégico da ciência e da tecnologia na globalização
da economia capitalista mundial e, ao mesmo tempo, uma avaliação
de como as suas presenças econômico-culturais, nas sociedades
capitalistas, de forma geral, vêm influenciando na mundialização
do processo educacional.
Assim sendo, estaremos nos apoiando, inicialmente, em Herbert Marcuse,
para fazer algumas considerações a respeito do papel político
que a ciência e a técnica cumprem na nova ordem mundial.
Especialmente, quando o autor se refere à simbiose entre o capital
produtivo, a ciência e a tecnologia, como cumprindo, entre as suas
principais finalidades a de se constituírem em uma nova forma inconfessada
de dominação política nas sociedades contemporâneas.
Para chegar a esta conclusão, Marcuse parte da hipótese
do conceito de razão técnica já se constituir desde
o início do processo produtivo capitalista como uma nova ideologia.
“Não apenas a sua aplicação, mas já
a própria técnica é dominação (sobre
a natureza e sobre o homem), dominação metódica,
científica, calculada e calculadora (MARCUSE apud HABERMAS, 1982:304).
Marcuse critica duramente qualquer ilusão de se usar a ciência
e técnica a partir das suas finalidades, dispensando as matrizes
político-culturais de onde foram especificamente criadas, ao lembrar
de
que não é apenas de maneira acessória, a partir do
exterior, que são impostas à técnica fins e interesses
determinados – eles já intervêm na própria construção
do aparato técnico; a técnica é sempre um projeto
(PROJECT) histórico-social, nela é projetado (PROJEKTIERT)
aquilo que a sociedade e os interesses que a dominam tencionam fazer com
o homem e as coisas. Tal objetivo de dominação é
imaterial e, nessa medida, pertence à própria forma de razão
técnica(1982:304).
Em outras
palavras, a forma como a ciência se coloca desde o seu surgimento
já é, segundo o autor, uma forma intencionada de dominação
política e de imposição de interesses históricos
socialmente construídos. Segundo ainda Marcuse,
os princípios
da ciência moderna foram estruturados a priori de modo a poder servir
de instrumentos conceituais para um universo de controle produtivo que
se perfaz automaticamente; o operacionalismo teórico passou a corresponder
ao operacionalismo prático. O método científico que
levou à dominação cada vez mais eficaz da natureza
passou assim a fornecer tanto os conceitos puros, como os instrumentos
para a dominação cada vez mais eficaz do homem pelo homem
através da dominação da natureza [...] Hoje a dominação
se perpetua e se estende não apenas através da tecnologia,
mas enquanto tecnologia e esta garante a formidável legitimação
do poder político em expansão que absorve todas as esferas
da cultura. (1982:305).
Segundo
esta análise, a intensificação do uso da razão
técnica tende a transfigurar o problema da exploração
do regime capitalista. E nisso consiste o fundamental do esforço
de reengenharia da sociedade moderna, ou seja, dar a questão da
dominação uma nova configuração. Uma configuração
que seja, ao mesmo tempo, mais exploração no sentido do
aumento da mais-valia e menos politicamente compreendida como exploração.
É como se estivéssemos diante de uma atitude que deixasse
de ser irracional e passasse a ser falsamente entendida como racional.
Com isso o novo sistema de dominação social espera não
só a ampliação da sua dominação política
e econômica sobre a sociedade, mas, também, a legitimação
deste domínio se apoiando na racionalidade lógica da ciência
e da técnica.
Trata-se, portanto de duas fases a cumprir: a primeira diz respeito à
construção de um aparato cientifico-tecnológico capaz
de ser operado internacionalmente, e a segunda de propagar e difundir
esse aparato, o que implica fazê-lo reconhecido e manipulado em
qualquer lugar do mundo.
Quanto a primeira fase, o vertiginoso crescimento da tecnologia, concentrado
exclusivamente nos poucos países desenvolvidos do mundo, nos últimos
vinte a trinta anos, praticamente, se completou, com a vantagem de se
realimentar em movimento aparentemente infinito. Ou seja, quanto mais
o aparato científico-tecnológico amplia sua diversidade
de recursos, mais cria condições para seu autodesenvolvimento.
Quanto à segunda fase, caracterizada pelo objetivo da propagação
do aparato científico-tecnológico, sua implantação
está em desenvolvimento através de diferentes agências
internacionais, tais como a UNESCO- OREALC ; a CEPAL , além do
Banco Mundial. Em comum, essas agências atuam no sentido da fomentação
da educação difundindo e propagando o conhecimento científico-tecnológico
na região.
Segundo a CEPAL-OREALC, no seu documento, lançado em parceria,
Educacion y Conocimiento – En su propuesta titulada Transformación
productiva con equidad , la Comisión Economica para América
Latina y el Caribe (CEPAL) sostuvo una idea central, en torno a la cual
se articularon las demás: la incorporación y difusión
deliberada y sistemática del progresso técnico constituye
el pivote de la transformación productva y de su compatibilización
con la democratización política y una creciente equidad
social. [...] es el progresso técnico lo que permite la convergencia
entre competitividade y sustentabilidad social, y, fundamentalmente, entre
crescimiento económico y equidad social. (1990:15).
Segundo se deduz da proposta destes organismos internacionais, a propagação
do progresso técnico se constitui como importante estratégia
para a América Latina vencer definitivamente suas dificuldades
sociais, políticas e econômicas.
Celso Furtado nos chama constantemente a atenção para o
entendimento do capitalismo como um processo de difusão do progresso
técnico, difusão irregular, comandada pelos interesses das
economias criadoras, de novas técnicas. (FURTADO, 1992:37).
Além disso, Furtado tem insistido também na tese de que
a propagação do progresso técnico, objetivo máximo
das reformas educacionais patrocinadas pela CEPAL-OREALC para os países
da A. L. e Caribe, tem se constituído na grande responsável
pela configuração do que chama sistema “centro-periferia”.
Atrás desta propagação, além das conseqüências
técnicas na forma de processos produtivos mais eficazes e do desenho
de novos produtos, estaria, segundo ainda o autor, a imposição
ideológica de uma determinada civilização, a civilização
industrial. Para Furtado, a propagação de novas técnicas
inerentes ao processo de acumulação capitalista é,
antes de tudo, “a difusão de uma civilização
que instila nas populações padrões de comportamento
em transformação permanente” (1992:40).
Não estaríamos, desta forma, diante de um progresso científico-tecnológico
reconhecido como tal, mas sim, de um processo de difusão de valores,
de uma determinada forma de sociedade, historicamente construída,
cuja finalidade é, exclusivamente, a imposição universal
da sua dominação.
Nesse contexto, os cursos de formação de professores têm
um grande desafio a enfrentar, no século XXI, que é, por
um lado, incorporarem à cultura a ciência e a técnica
e, por outro lado, formar uma forte consciência política
contra qualquer forma de dominação do homem, quer esta seja
propagada na escola ou fora dela.
3º Ponto
– Ciência e humanismo
Começar
esta discussão da ciência e do humanismo significa iniciá-la
discutindo a invenção da ciência moderna. Quando se
fala do início da ciência moderna acaba-se sempre remontando
a Galileu, as ciências baconiana e cartesiana.
Em comum, estas manifestações do pensamento científico
que começam a dar os seus primeiros sinais de vida surgem no período
conhecido como Renascimento e têm como alvo a ruptura epistemológica
radical em relação à idéia de verdade revelada,
pregada pela filosofia religiosa da escolástica.
Tratava-se, segundo seus inventores, de uma manifestação
cultural predisposta ao rompimento com o pensamento contemplativo, prevalecente
ao longo do período de hegemonia da filosofia religiosa, responsável
pela postura de estrito imobilismo em relação à natureza.
Deve-se notar que a ruptura que a ciência moderna provoca no pensamento
humano não se restringe apenas a falta de instrumentalidade apresentada
pelo pensamento contemplativo, mas a proposta de uma nova forma para a
obtenção da verdade verdadeira. É assim que, ao invés
da postura contemplativa da verdade revelada, a ciência proclama,
no fim do século XVI, a sua forma definitiva de inventar a verdade,
o método científico.
Por outro lado, qualquer verdade a partir de então, que não
fosse metódica, poderia servir ao aperfeiçoamento do espírito,
mas nunca ao domínio das coisas da natureza. A ciência nasce
delimitando e definindo rigorosamente o seu espaço na cultura.
Mais do que isso surge requerendo o seu domínio absoluto sobre
a verdade.
Não é por menos que, como movimento de ruptura epistemológica
com a filosofia religiosa, seu pensamento tivesse assumido, conforme Isabelle
Stengers(1990), a conotação radical de uma “revolução
antiescolástica”.
É tão expressiva esta luta por espaço, desenvolvida
pela ciência, que alguns a entendem como um verdadeiro marco de
separação entre duas civilizações, uma anterior
ao seu advento e outra posterior.
Este momento, no entanto, não virá desacompanhado de outras
contendas. No afã da instrumentalização do conhecimento,
da construção da hegemonia do pensamento baseado nas coisas
sobre o conhecimento religioso, se operará, também, paralelamente,
a supremacia do conhecimento das coisas materiais sobre o conhecimento
das coisas do homem. Mais especificamente, do cientificismo experimentalista
sobre a dialética.
É bem verdade que Francis Bacon, o grande inventor do método
experimental, um dos fundadores da ciência moderna, nunca tenha
defendido tal ponto de vista. Na sua obra mais famosa, o “Novun
Organom”, nome que designa uma contraposição simbólica
ao Organon aristotélico, Bacon deixa claro a diferença de
finalidade entre as duas formas de pensamento. Enquanto o cientificismo
experimentalista se prestaria ao domínio da natureza, a dialética,
em contrapartida, serviria ao domínio das pessoas.
O experimentalismo empirista baconiano é baseado na experimentação
associada ao matematismo, sobretudo na sua formulação cartesiana.
Baseia-se na indução rigorosa e permanente, na experimentação,
na verificação de todos os fenômenos que possam ser
pesquisados pelos cientistas. É este método que resulta
em tudo aquilo que conhecemos sobre a história da ciência
moderna. Desde os seus grandes êxitos, avanços, conquistas
tecnológicas mirabolantes, até mesmo os impasses atuais
que resultaram no surgimento de fronteiras, além das quais esse
êxito começa a ser contestado, tais como: a poluição
ambiental em geral, a poluição dos resíduos atômicos,
a depredação dos recursos naturais, bem como a construção
da mais fantástica indústria bélica capaz de destruir
de vez qualquer vestígio de vida humana sobre a terra (PESSANHA,
1997).
Seja como for, o valor desse modelo é incalculável para
o desenvolvimento da humanidade. Esse reconhecimento, no entanto, não
implica elegê-lo como método único e absoluto para
o conhecimento da verdade, tampouco para aplicá-lo indiscriminadamente
no campo do contigencial, do concreto, do histórico e do humano.
Para todos esses campos a linguagem matematizada não serve, é
insuficiente; formalizada demais.
Não se trata assim, como nos aponta Pessanha(1997), de querer provar
quão errada é a perspectiva da ciência moderna, mas
sim, da necessidade de reconstruir o discurso da cientificidade do homem.
É impossível que as ciências humanas queiram se orientar
pelo modelo matemático, por natureza um modelo monológico,
verticalizante, demonstrativo e geométrico. Quando devemos, ao
contrário, fora das seqüências e conseqüências
lógicas das provas matemáticas irrefutáveis e absolutas,
procurar os modelos próprios da cientificidade humana – que
são os modelos do litígio e da disputa, sem conclusão
definitiva onde nada se encerra definitivamente – o campo por excelência
do discurso dialético.
O modelo da linguagem natural jamais é verticalizante, ele é
por natureza, necessariamente, dialógico. “Somos as almas
linguageiras, persuasivas e sedutoras que somos porque o tempo todo estamos
arbitrando e lidando com um tipo de linguagem em que não há
conclusão definitiva”. (PESSANHA,1997:27). É como
se sempre nossas conclusões estivessem “sub judice”,
abertas a novas ponderações.
Trata-se apenas de ressaltar para os modelos pedagógicos e de educação,
propostos para a formação de professores, as repercussões
negativas que a adoção de paradigmas epistemológicos
próprios das ciências monológicas podem acarretar
para as concepções de formação de professores.
É, desta maneira, na inflexão do modelo cientificista ou
positivista de formação de professores que devemos (re)propor
a formação contemporânea de professores. Ou seja,
repensar a formação de professores fora do campo dos modelos
matematizados, no campo do litígio, da disputa, das incertezas,
do obscuro e por excelência no campo do discurso dialético.
4º Ponto
– A crise da cultura ocidental
Começamos
a discussão sobre o ponto referente à crise da cultura ocidental
destacando, inicialmente, que boa parte das reflexões aqui expostas
se baseiam em considerações feitas por Mario Vieira de Mello,
que as fez de forma muito mais exaustiva e aprofundada no livro de sua
autoria, pouco divulgado, “O conceito de uma educação
da cultura”.
Feita a ressalva, começamos com uma constatação sobre
o quadro atual que atravessa a humanidade, que, no mínimo, é
um quadro extremamente sombrio. Há nuvens carregadas, constantemente
sobre a maior parte da superfície da terra. Não existe lugar
algum neste mundo que o homem se sinta plenamente seguro e confiante.
Há um clima inevitável de crise. Um clima que ultrapassa
em muito os limites territoriais de cada um dos Estados-nação
existentes na sociedade mundial. Não se trata, portanto, deste
ou daquele país. Todos parecem assentados na mesma embarcação,
quase que como esperando um fim trágico antecipadamente anunciado,
como aquele antecipado por Gabriel Garcia Marques ao seu personagem de
“A crônica de um crime anunciado”.
Além deste aspecto abrangente, que não poupa praticamente
nenhum estado, nenhuma região ou território, a sensação
de crise que atinge a humanidade parece não se localizar apenas
em um determinado aspecto da sua existência, mas sim na sua globalidade.
Aparentemente, o que se observa é que não se trata de uma
crise localizada. Há crise religiosa, crise social, crise política,
crise econômica e naturalmente a maior delas, da que menos se fala,
que é a crise cultural. Enfim, ela pode ser observada em cada canto
da nossa existência.
Paradoxalmente, no entanto, o discurso pedagógico parece completamente
imune à situação. Ao contrário de outros campos
da existência do saber humano, seu discurso evolui num ambiente
de confiante euforia e no mais irrestrito otimismo. Como explicar tão
estranha conjuntura? Não são cultura e educação
fenômenos intrinsecamente relacionados? Por que então a crise
que se pronuncia na cultura não se reflete na educação?
Negar a crise da cultura é praticamente impossível. Convivemos
com ela diariamente tanto em termos internacionais (guerra da Iugoslávia,
do Iraque, do Oriente Médio, Chechenia, etc) como em termos nacionais
(violência urbana, narcotráfico, miséria, fome, etc).
Ou seja, drogas, violência, guerra, Cidade de Deus, crise econômica,
Fernandinho Beira-Mar, Bangu I, terrorismo, mensalão, filho do
Pelé, guerra nas estrelas, fome, etc., são evidências
difíceis de serem recusadas, de instalação, entre
nós, de uma crise cultural na nossa civilização.
Negá-la, como podem pretender alguns, é exercício
pouco viável.
A farta produção de novos métodos criados constantemente
na difícil arte de formar o homem, é evidência eloqüente
do caráter otimista do discurso pedagógico, que evolui sem
parar, imune a qualquer sintoma da crise.
É preciso que se reconheça que essa literatura, empenhada
em descobrir novas formas e métodos de ensino-aprendizagem, não
deixa de abordar em várias de suas formulações a
questão da crise. Mas é óbvio que essa abordagem,
quase sempre, a vê de um modo muito especial. Não pelo ponto
de vista do conteúdo, como é a preocupação
da cultura, mas sim do ponto de vista do desempenho e dos recursos.
O discurso oficial das autoridades responsáveis pela educação
do país é uma prova empírica inquestionável
desta afirmação. Em todos, o que observamos, invariavelmente,
é, quase sempre, uma preocupação gerencial-econômica.
Ora são os recursos que são mal administrados, ora porque
são poucos, ora é a baixa produtividade do sistema, ora
o desempenho custo-aluno, ora a descentralização da gestão,
ora o uniforme dos alunos, etc., nunca, no entanto, nenhuma palavra sequer
sobre a crise ética, moral e filosófica que envolve a sociedade
mundial de uma forma geral. A esse respeito, ao contrário, o que
se percebe é um silêncio total.
Tão abrangente é o silêncio que faz-nos voltar a sensação
do paradoxo e perguntar aos educadores de ofício: porque esta situação,
se já havíamos progredido tanto em métodos e processos
pedagógicos? Se sabemos, atualmente, tão bem como educar
o homem, como se explica que seu nível espiritual esteja baixando
e que a ameaça de uma bancarrota intelectual e moral se adense
cada vez mais sobre nossas cabeças como uma nuvem negra?
Já vimos, anteriormente, que de nada vale querer contornar a crise
negando-lhe a existência. Ela é uma crise incontornável,
tem sua essência focada na globalidade da cultura. Por esta razão
só o confronto com essa essência pode revigorar a pedagogia.
A didática ou as metodologias de ensino que se encontram já
suficientemente desenvolvidas, são limitadas por suas naturezas
a dar qualquer sentido de fim à ação educativa.
Naturalmente, nem todos perceberão seus sintomas como uma crise
da cultura, como um caso grave. A maioria, ao contrário, parece
mais propensa a acreditar que a crise espiritual é efeito e não
causa das outras que conhece. Mas o educador não, este deverá
saber não só percebê-la como começar o seu
próprio discurso pedagógico por ela. O educador não
pode falar de educação se não estiver assentado em
uma base sólida de Cultura.
Para concluir, pode-se dizer que esse desafio da reintegração
da educação com a cultura exposta a uma situação
de crise, quase que como sintetiza todos os desafios anteriormente colocados,
em quatro perguntas fundamentais. 1-Como rejuntar fenômenos separados
atualmente, tão tradicionais e intrinsecamente ligados como são
a cultura e a educação? 2-Como responder às questões
propostas pela crise cultural que atualmente nos envolve? 3-Quais são
suas possíveis causas? 4-Há perspectivas de superarmos os
impasses colocados pela crise da cultura em termos a uma educação
do tipo universal e democrática?
CONCLUSÃO
Por fim,
se tivesse que se fazer um fecho geral para esta abordagem, seria afirmar
que, por tudo que foi comentado, a formação de professores
só pode se realizar no contexto de um pensamento circular entre
os imperativos da cultura, da racionalidade, da crítica à
racionalidade, da imaginação e da ética.
Mais concretamente, a formação de professores na contemporaneidade
deve-se guiar pela busca de um modelo que forme o professor como um elemento
democrático, plural, portador de sólida consciência
cultural, social e ecológica, rico de imaginação
criadora, capaz de enfrentar, resistir e superar o quadro de descalabro
e decadência ética e moral atualmente atravessado pela humanidade.
Talvez, na verdade, essa conclusão não faça mais
que re-propor as observações nietzscheniana sobre a cultura
ou, mais singelamente, os versos da nossa querida poetisa Cecília
Meirelles:
Renova-te
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos,
para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado.
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.
BIBLIOGRAFIA
CEPAL-OREALC
– Educacion y conocimiento. Santiago do Chile: Naciones Unidas,
1992.
HABERMAS, Jürgen. Técnica e ciência como ideologia.
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