| |
LEITURA
E PRODUÇÃO DE SABERES: UM OLHAR SOBRE AS CULTURAS INFANTIS
Solange Estanislau dos Santos – Programa
de Pós-Graduação em Educação –
UNESP
COMEÇANDO OUTRA VEZ...
A origem desta investigação se vincula aos
resultados da pesquisa de Iniciação Científica, em
que realizamos um levantamento das abordagens dos conceitos de “criança”
e “infância”, presentes nos estudos apresentados no
Grupo de Trabalho sobre “Educação da Criança
de 0 a 6 anos” - GT7 - da ANPED (Associação Nacional
de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação),
no período de 1998 a 2000 (SANTOS, 2003). A questão inicial
que originou este trabalho foi a relevância desses conceitos para
a prática pedagógica escolar com crianças. Para discutir
tal problemática, o recorte bibliográfico excluiu a análise
dos estudos cujo referencial teórico era da Psicologia.
Foi a partir da análise dos trabalhos apresentados no ano 2000
que verificamos um crescente e insistente uso de determinado vocabulário
que, recorrentemente, se fazia presente em grande parte dos textos: “cultura(s)
infantil(is)” e “identidade(s) infantil(is)”. Tal fato
provocou indagações de diferentes ordens, que, alimentadas
pela literatura acadêmica que teoriza e discute esses temas, fizeram
configurar-se um novo caminho de pesquisa, delineando-se, assim, o objeto
da investigação proposta para esta pesquisa de Mestrado,
que terá a própria produção bibliográfica
como fonte de um trabalho de natureza epistemológica.
Para viabilizar tal empreendimento, continuamos a analisar os trabalhos
apresentados no GT7 da ANPED, no período de 2000 a 2004, haja vista
que é a partir desse marco temporal inicial que ocorre uma maior
incidência do uso dos conceitos de “identidade” e “cultura
infantil”. Porém, serão levantados, agora, também
alguns dos textos completos que deram origem a tais trabalhos e que estão
publicados sob a forma de dissertações, teses ou livros.
Será realizada uma pesquisa junto à coordenação
da ANPED, que possibilite contatar os autores das pesquisas e suas publicações
completas, de forma que tais trabalhos possam ser adquiridos ou xerocopiados.
Portanto, tais produtos de pesquisas acadêmicas, assim como os textos
completos publicados nos anais das reuniões anuais da ANPED, compõem
o corpus documental, de natureza textual e bibliográfica, que configuram
o objeto e principal questão desta pesquisa, qual seja: a identificação
e descrição das filiações teóricas
que balizam os princípios organizadores das concepções
de “infância” e “criança”, quando
articulados às concepções de “cultura(s) infantil(is)”
e “identidade(s) infantil(is)”.
Vários autores já têm afirmado a necessidade de observar
a relação entre os conceitos produzidos na literatura educacional
e os seus usos e implicações, na prática pedagógica.
Mais do que isso, salientam que os saberes educacionais e de ensino são
elementos indissociáveis das práticas pedagógicas
e das relações interpessoais que produzem a realidade da
cultura escolar.
Considera-se, ainda, que todo material escrito ou impresso é produto
de certas estratégias, determinando seus usos e seus destinatários
(CARVALHO, 1998).
[...] determinar a apropriação que educadores,editores e
autores fazem dos saberes pedagógicos e que “aquilo que põem
em circulação, em suas estratégias de difusão
e imposição desses saberes é questão de interesse
para uma história cultural dos saberes pedagógicos”.
(p. 40).
Este trabalho ainda se inspira no questionamento proposto
por Bourdieu: “o que é que as pessoas fazem com os modelos
que lhes são impostos ou com os objetos que lhes são distribuídos?”
(BOURDIEU, apud CARVALHO, 1998, p. 39).
Parte-se dos próprios resultados da pesquisa preliminar, e que
deu origem a esta, para corroborar a pertinência da investigação
aqui proposta. Alguns trabalhos analisados apontam para a existência
de um “universo infantil” que se caracteriza pelas peculiaridades
dessa faixa etária, sinalizada pela existência de uma cultura
e uma identidade particulares.
Recentemente, emergem na literatura científica e acadêmica,
publicada e divulgada entre os pesquisadores brasileiros, várias
referências a essa questão. São estudos que avançam
em discussões sobre o tema da “cultura infantil”. Entre
eles, podemos destacar: Faria et al. (2002); Kramer, Leite (1998); Sarmento
(2002, 2003); Cerisara (2002); Rocha (1999); Quinteiro (2001). Cada um
desses autores, apesar de possíveis convergências conceituais,
privilegia explicações diversas e aponta propostas e críticas
específicas, para se pensar o tema em evidência: “cultura(s)
e identidade(s) infantil(is)”.
É considerando os instigantes questionamentos e análises,
propostos pelos autores referidos, que propomos uma investigação
que inicie uma discussão sobre as apropriações e
usos dos conceitos de “identidade(s)” e “ cultura(s)”
que estão sendo feitos nos estudos sobre a educação
da criança ou da infância. Quais seriam os significados e
fundamentos teóricos implícitos nos conceitos de “cultura(s)
infantil(is)” e “identidade(s) infantil(is)”? O que
propõem para a prática pedagógica com crianças
de 0 a 6 anos?
Assim, o trabalho que se configura como um problema e desafio para esta
investigação é o de: 1º) realizar um levantamento
e análise de textos completos publicados nos anais das reuniões
anuais da ANPED e de alguns dos textos completos que deram origem a tais
trabalhos, os quais estão publicados sob a forma de dissertações,
teses ou livros que trabalham com os conceitos de “cultura(s) infantil(is)”
e “identidade(s) infantil(is)”; 2º) distinguir as suas
vinculações teóricas e as significações
que propõem para os conceitos de “criança” e
“infância”, observando-se qual é a sua particularidade
e sentido, nos estudos mais recentes, em que se verifica a sua associação
às idéias de “cultura(s) infantil(is)” e “identidade(s)
infantil(is)”.
Na primeira etapa da análise, realizamos uma leitura preliminar
de todos os textos completos do GT 7, no período referido. Parte
desses textos foi estudada e organizada sob a forma de registros escritos
(fichamentos). Será a continuidade e conclusão deste trabalho,
porém, que deverão proporcionar o reconhecimento daqueles
estudos que devem ser destacados, na análise proposta, seguindo
o critério da busca de identificação daqueles que
problematizam mais densamente os conceitos de “cultura(s) infantil(is)”e
ïdentidade (s) infantil (is)”. Para isso, também está
sendo feito um levantamento das referências bibliográficas
utilizadas nesses trabalhos apresentados na ANPED.
Portanto,efetivamos uma primeira abordagem desses trabalhos, expondo,
além do levantamento de dados quantitativos acerca dos textos coletados,
no período referido, algumas análises que indicam as formas
de identificação de tais conceitos, assim como uma primeira
aproximação dos enfoques teóricos utilizados nessas
pesquisas.
COSTURANDO ALGUNS RETALHOS...
Os procedimentos metodológicos de análise
desse tipo específico de base documental supõem levantamento
do conjunto de textos, sua seleção e classificação.
Em uma primeira instância, a partir da distinção,
em seu conteúdo, de temas, problemas e abordagens teóricas
de análise. O trabalho de análise textual, relacionado ao
estudo da linguagem expressa em textos escritos, pode ser remetido às
considerações de Michel de Certeau, citado por Hansen (1995),
acerca desse tipo de pesquisa, ou seja, do estudo sobre a construção
dos discursos. O autor afirma que se trata de uma “caça furtiva”,
em que se vai “pilhando aqui e ali o que lhe interessa”. Tais
táticas de apropriação dos sentidos e significados,
que cada texto carrega, podem ser pensadas e problematizadas a partir
das análises teóricas propostas por Mikhail Bakhtin e Roger
Chartier.
A pesquisa de base bibliográfica constitui-se em análise
e interpretação de uma ou mais obras, permitindo a compreensão
interpretativa do pensamento do autor e possibilitando a relação
deste com sua posição teórica. Isso supõe,
a meu ver, a necessidade de realizar um exame das referências teóricas
que são utilizadas nesses textos. Este trabalho permite adentrar
ao campo de disputas teóricas, identificando quais são os
principais interlocutores de cada autor, com quem se concorda e de quem
se discorda, o que se quer afirmar e o que se quer negar. Para isso, privilegia-se
a observação dos procedimentos argumentativos, na produção
de significados e na afirmação de sua relevância,
com o exame das formas explícitas e implícitas de afirmar/negar
determinadas explicações. Essa prática de análise
se aproxima dos estudos em que os discursos são concebidos como
sendo produzidos num processo de diferenciação interna (negação
e afirmação, no interior de cada pólo ou elemento
destacado) e também a partir de lacunas presentes nas análises.
Tais diferenciações, ainda, devem ser vistas como formas
de intervenção social e política.
Os procedimentos que constroem e configuram cada texto podem ser distinguidos
a partir das respostas às seguintes questões: O que se fala?
Quem fala? Para quem, como e por quê? A identificação
dos produtores dos textos, de seus interlocutores e destinatários
é um exercício para se proceder à análise
do processo dialógico da produção social desses saberes.
Para que, quando e onde se fala são questões paralelas e
simultâneas, que permitirão situar o lugar e tempo social
em que e do qual o conjunto de saberes acerca de “identidade infantil”
e “cultura infantil” faz parte.
Na proposta de uma determinada forma de abordagem e interpretação
de material discursivo, Magnani (1997) utiliza-se da expressão
configuração textual, para referir-se ao “conjunto
de aspectos constitutivos de determinado texto” e através
dos quais ele pode ser interrogado. São eles:
as opções temático-conteudísticas
(o quê) e as estruturais formais (como?), projetadas por um determinado
sujeito (quem?) que se apresenta como autor de um discurso produzido de
determinado ponto de vista e lugar social (de onde?) e momento histórico
(quando?), movido por certas necessidades (por quê?) e propósitos
(para quê?), visando a determinado efeito em determinado tipo de
leitor (para quem?) e logrando determinado tipo de circulação,
utilização e repercussão.
Para Bakhtin (1990), os pontos em que os discursos se
cruzam e se interpenetram podem ser entendidos como os centros organizadores
dos enunciados, os quais devem ser remetidos ao meio social: “o
centro organizador de toda enunciação, de toda expressão,
não é interior, mas exterior, está situado no meio
social que envolve o indivíduo” (p.121). Além disso,
a busca de compreensão dos textos, tal como é defendida
por esse autor, pode ser vista como um ato de renúncia e de modificação
dos textos lidos.
Ao tecermos comentários sobre os trabalhos examinados, corremos
o risco, assim como nos alertou Foucault, de “dizer pela primeira
vez aquilo que, entretanto, já havia sido dito” (LARROSA,
2000, p.118), pois, embora, saibamos o quão infinito e inalcançável
seja o texto, ele também carrega múltiplas possibilidades
de interpretações. É na busca de significados e sentidos
para aquilo que se está denominando “cultura(s) e identidade(s)
infantil(is)”que este estudo está se direcionando, encarando
o sentido, assim como o fez Bakhtin, como potencialmente infinito, elos
que se renovam e renascem outra vez, e que “só se atualiza
no contato com outro sentido (sentido do outro)”(BAKHTIN, 2000,
p.386).
Para Foucault, ao mesmo tempo em que tentamos falar e escrever a respeito
de um texto, ele, na mesma medida, se retira, escapa e resiste a qualquer
apropriação e, por isso, nunca chegamos a ele: o seu sentido
é ausente, inalcançável. Por outro lado, para Bakhtin,
o texto é único e infinito, pois carrega uma “multiplicidade
e pluralidade de suas traduções e de suas encarnações
dialógicas”; ao falar e escrever de um texto, nós
o “fazemos vir até nós, o mesclamos com nossas próprias
palavras, o encarnamos em nossas vidas” (LARROSA,2000, p. 118).).
Texto é todo sistema de signos cuja coerência
e unidade se deve à capacidade de compreensão do homem na
sua vida comunicativa e expressiva. O texto não é uma coisa
sem voz; é, sobretudo, ato humano (MACHADO, 2001, p.235).
Utilizando as idéias de Bakhtin, nas palavras de Castro (2002),
tomamos as Ciências Humanas como construídas “através
de diálogo entre pontos de vista distintos sobre o homem, sua natureza
e sua história”, na qual “estudar as coisas do mundo
humano é, na verdade, se debruçar sobre o pensamento do
outro, sobre o texto do outro, sobre os valores do outro” (p.109).
É nessa perspectiva que analisamos os textos acadêmicos produzidos
e difundidos na comunidade acadêmica, que produzem sujeitos e que,
ao longo da história, vão delimitando e conceituando a infância.
Na perspectiva de Bakhtin (2000), para entender os enunciados é
necessário analisar os gêneros dos discursos, os quais se
dividem em discursos secundários e em discursos primários.
Nesta pesquisa, trabalharemos com discursos científicos, que são
considerados discursos secundários e que, por sua vez, empregam
discursos primários para construir suas narrativas, tais como:
cartas, relatos orais, diálogos informais etc.
A transmissão assimilativa do discurso alheio, nessa ótica
de análise, dá-se ou por meio da memória ou pelo
uso das próprias palavras ligados ao conceito de autoridade. Para
Bakhtin, a transmissão através da memória é
o que se denomina “palavra autoritária”, a qual é
sagrada, monológica e detentora de poder. Por outro lado, a transmissão
pelo uso das próprias palavras é chamada de “palavra
intrinsecamente convincente”, a qual é aberta, sempre contemporânea,
bivocal, responsável pela “formação da consciência
individual” e “essencial para a constituição
de nossas próprias palavras”, mantendo uma “relação
constante com nossas outras palavras”, as quais são “semi-nossas”,
“semi-alheias” (LARROSA, 2000, p.121-2).
A concepção de “dialogismo”, formulada por Bakhtin,
tem sido uma referência bastante utilizada nas propostas teóricas
de análise do discurso. Esse princípio dialógico
está situado em um olhar sobre a natureza do social, no qual a
sociabilidade é de essência intersubjetiva; na natureza do
signo, em que o signo é para agir; e numa natureza do sujeito,
tomando o sujeito como feito do que ele não é. Em vista
disso, “o reconhecimento do sujeito e do sentido são indispensáveis
para a constituição de ambos” (DAHLET, 1997, p.59).
Dialogismo é entendido como “elemento que instaura a constitutiva
natureza interdiscursiva da linguagem”. Com seu “caráter
polifônico”, estabelece diálogo, nem sempre simétrico
e harmonioso, com outros discursos e com “o eu e o outro, nos processos
discursivos instaurados historicamente pelos sujeitos que, por sua vez,
instauram-se e são instaurados por esses discursos” (BRAIT,
2001, p.79). O discurso é tomado como “instância significativa”
e não como “fala individual”. O que ocorre é
um “entrelaçamento de discursos que, veiculados socialmente,
realizam-se nas e pelas interações entre sujeitos”,
constituindo um “fenômeno lingüístico” de
dimensão histórica, a partir de questões específicas
de interação, de compreensão e da significação,
trabalhadas discursivamente” (ibidem).
A enunciação está ligada à comunicação,
que, por sua vez, está relacionada às estruturas sociais.
Toma-se a palavra como “confronto de valores sociais” e toda
comunicação verbal como “inseparável das outras
formas de comunicação”. É na junção
da enunciação com a alteridade que conseguimos a unidade
do discurso, entendido como uma “construção híbrida,
(in)acabada por vezes em concorrência e sentidos em conflito”
( DAHLET, 1997, p.60).
Essa influência do dialogismo acarreta dois processos distintos:
um “enraizamento da descontinuidade do sujeito no discurso e um
descolamento (do sujeito) das superfícies discursivas, sob o efeito
de determinações psico-sociológicas”. Por isso,
o sujeito não é homogêneo, e não é uma
coisa, o qual “não pode tornar-se objeto de teoria, a não
ser com a condição de ser reconstruído como tal,
a partir da realidade das vozes de seu discurso” (DAHLET, 1997,
p.62).
Esse sujeito ora “ancora a consciência na palavra”,
na qual “a consciência de si é sempre verbal”,
ora na comunidade, onde o “eu só pode se realizar no discurso,
apoiando-se em nós” (ibid.). É nesse aspecto que Bakhtin
critica a idéia de sujeito de Freud, afirmando um sujeito de consciência,
em que “no fundo do homem não está o ‘id’,
mas o outro”(idem, p.64). Introduzem-se as idéias de ideologia
e a natureza social da enunciação e de toda atividade mental,
aplicando o que chamou “método sociológico em lingüística”(ibidem).
No conjunto dessas idéias, o “sujeito de consciência”
é relacionado a “concepção dinâmica do
sujeito de (re) enunciação” ligados ao dialogismo,
na sua gradualidade, no seu grau de consciência e no seu deslocamento.
Esse deslocamento do dialogismo ocorre pelo chamado “discurso interior”,
o qual é uma “intervenção ininterrupta do outro
no sujeito”, sendo “também de parte a parte dialógicos”
(idem, p.67).
Assim como Bakhtin, pretendemos analisar “qual é a natureza
deste sujeito no olhar de outrem, que ele convoca em sua teoria”
(DAHLET, 1997, p.61). Trata-se de analisar como a criança é
identificada e concebida pelos teóricos acadêmicos da área
da educação, tomando a ANPED como o lugar onde “os
diferentes discursos que constituem o interdiscurso social, que caracterizam
as diferentes fontes da heterogeneidade da linguagem, movimentam-se de
forma a disputar os lugares institucionalizados” (BRAIT, 2001, p.89).
Para a História Cultural francesa e, mais especificamente, para
Chartier, os discursos são concebidos como representações
do mundo social e como geradores de “classificações,
divisões e delimitações que organizam a apreensão
do mundo social como categorias fundamentais de percepção
e de apreciação do real”, graças aos quais
o “presente pode adquirir sentido, o outro tornar-se inteligível
e o espaço a ser decifrado”(CHARTIER, 1990, p.17).
Para o autor, o conceito de representação social possibilita
analisar os aspectos simbólicos e mentais da realidade social,
cujos sentidos são determinados e observados em contextos históricos
mais particulares e determinados. Trata-se de representações
que os grupos sociais vêm modelando, ao longo dos séculos,
deles próprios e dos outros, determinadas por interesses de alguns
grupos que as forjam. Refere-se, assim, às “lutas de representações”
que, através dos discursos, configuram as práticas de dominação,
subordinação e / ou resistência entre os diversos
grupos ou classes sociais que compõem a sociedade.
Por isso, os discursos nunca são neutros, mas produzem estratégias
e práticas que visam a manipular os subordinados e impor uma autoridade,
legitimando-se, muitas vezes, com discursos reformadores de caráter
salvador, que prescrevem o que os outros precisam e devem fazer. Essas
lutas de representação “impõem ou tentam impor,
a sua concepção de mundo social, os valores que são
os seus, e o seu domínio” (CHARTIER, 1990, p.17).
Ao abordar o conceito de representação, Chartier o articula
a três modalidades da relação com o mundo social,
quais sejam:
[...] o trabalho de classificação e de
delimitação que produz as configurações intelectuais
múltiplas, através das quais a realidade é contraditoriamente
construída pelos diferentes grupos [...] as práticas que
visam fazer reconhecer uma identidade social, exibir uma maneira própria
de estar no mundo, significar simbolicamente um estatuto e uma posição
[...] as formas institucionalizadas e objetivadas graças às
quais uns ‘representantes’(instâncias coletivas ou pessoas
singulares) marcam de forma visível e perpetuada a existência
do grupo, da classe ou da comunidade (CHARTIER, 1990., p.23).
Os textos que selecionamos para ser investigados podem
ser considerados segundo tais modalidades de análise da produção
social das representações: eles são produzidos através
de processos de classificação e de delimitação
de conceitos e significados para criar os esquemas interpretativos que
propõem (algumas categorias são aceitas e outras negadas),
assim como produzem simbolicamente identidades, estatutos e posições
sociais. Também são ancorados em instituições
e “representantes” reconhecidos e autorizados socialmente
para realizarem tais tarefas, tal como se configura a ANPED, com seus
dirigentes e representantes legitimados para tomar decisões, definir
suas políticas e indicar direções teóricas
em GTs e outras modalidades de debate. Portanto, essa associação
pode ser considerada como uma instância privilegiada na promoção
da divulgação e produção do conhecimento,
ao mesmo tempo em que é um lugar onde são realizadas as
seleções, classificações e delimitações
dos tipos de pesquisa e modelos interpretativos.
Para Chartier (1990), existem dois processos de análise dos textos:
o exame das formas como os textos e seus suportes delimitam a leitura
que deles devem fazer e a maneira como os indivíduos ou grupos
lêem, as “leituras efetivas”. O livro muda “enquanto
muda o seu modo de leitura” (idem, p.131), em vista disso, é
importante examinar os diferentes tipos de leituras e mais especificamente
os “paradigmas de leitura válidos para uma comunidade de
leitores, num momento e num lugar determinados”(ibid.).
Sob essa perspectiva, a atribuição de significado ao texto
depende de dispositivos discursivos e formais, em que sua aplicação
ao leitor se dá numa “relação móvel,
diferenciada, simultâneas ou separadas, do próprio texto,
da passagem à impressão que o dá a ler e da modalidade
da sua leitura”. O texto é, nesse sentido, produto de uma
leitura, uma construção de seu leitor, “aberto a múltiplas
leituras e presos na rede contraditória que os constituíram
historicamente”.
Nesse processo de leitura, existem algumas “identificações
explícitas, que designam e classificam os textos, criando em relação
a eles expectativas de leitura, antecipações de compreensão”
(CHARTIER, 1990,p.132). O texto está “situado relativamente
a outros textos, onde se investem conceitos e obsessões dos seus
produtores e se estabelecem as regras de escrita próprias do gênero
de onde emana”, “nenhum texto [ ] mantém uma relação
transparente com a realidade que apreende”(id., p.63). Trata-se
de um “sistema construído consoante categorias, esquemas
de percepção e de apreciação, regras de funcionamento,
que remetem para as suas próprias condições de produção”
(ibid.).
A relação do texto com o real é construída
a partir de “modelos discursivos e delimitações intelectuais
próprios de cada situação de escrita”, de modo
que
o real assume um novo sentido: aquilo que é real,
efectivamente, não é (ou não é apenas) a realidade
visada pelo texto, mas a própria maneira como ele a cria, na historicidade
da sua produção e na intencionalidade da sua escrita (CHARTIER,
1990, p.63).
Ainda na perspectiva de Chartier, o autor do texto é
considerado “dotado de competências ou autoridade”,
o qual se torna responsável por classificar e distribuir os discursos,
o que necessariamente implica algumas “escolhas de materiais e orientações
de leitura assinaladas por um ‘ponto de vista’ nos dispositivos
textuais” (HANSEN, 1995, p.124).
O segundo aspecto destacado pelo autor, em seus estudos sobre a relação
entre textos impressos ou livros, leitura e leitor refere-se ao modo como
os textos são lidos e apropriados por seus leitores. Para isso,
rompe-se o conceito de sujeito universal e abstrato e se começa
a pensar na individualidade, nas suas variações históricas,
na perspectiva da fenomenologia e da estética da recepção
(ibid.).
Ler, olhar e escutar são, efectivamente, uma série
de atitudes intelectuais que – longe de submeterem o consumidor
à toda-poderosa mensagem ideológica e / ou estética
que supostamente o deve modelar – permitem na verdade a reapropriação,
o desvio, a desconfiança ou resistência (CHARTIER,1990, p.59-60).
Para a História Cultural, a leitura configura-se
como um ato concreto, concebido como um processo de construção
de sentido e de interpretação, em que os leitores devem
ser “dotados de competências específicas, identificados
pelas suas posições e disposições, caracterizados
pela sua prática de ler” (CHARTIER,1990,p.25-6). No ato da
leitura, o leitor
inventa nos textos uma coisa diferente daquilo que era
a ‘intenção’ deles. Separa-os da sua origem
(perdida ou acessória).Combina os seus fragmentos e cria o desconhecido
no espaço organizado pela capacidade que eles possuem de permitir
uma pluralidade indefinida de significações. (DE CERTEAU,
apud CHARTIER,1990, p.61).
Apesar disso, o leitor é socialmente organizado
e possui uma liberdade determinada, na medida em que os dispositivos discursivos
e formais determinam a leitura e a apropriação do texto.
Entretanto, na relação leitor-livro-texto, existem outras
determinantes sociais relativas ao perfil social do leitor, quais sejam:
os aspectos sócio-econômicos, religiosos, de gênero,
de geração etc., os quais possibilitam mediações
entre o mundo social e o mundo da produção e da recepção
cultural. Configura-se, assim, um campo de tensão e polarização,
em que é preciso “ver os elementos contraditórios
que constituem o mundo social” (GOLDMAN; ARFUCH, 1995).
Esta pesquisa recorre às orientações propostas por
Chartier, delimitando, porém, o seu enfoque analítico. Trata,
mais particularmente, da análise de como os textos, partindo do
lugar em que são produzidos, de seus suportes e dispositivos formais
e de como são postos em circulação, produzem sentidos
e significações, determinando modos de ser e de agir do
sujeito infantil. Fica para uma pesquisa posterior as formas ou “maneiras
de ler” do público a quem esses textos se destinam. Contudo,
não se deve esquecer que a pesquisadora se posiciona como leitora
dos textos que analisa e, portanto, é preciso estar atenta para
as análises teóricas e críticas que permitem observar
a própria posição que ocupa.
DANDO VOZ AOS NÚMEROS!!!
Tabela 1 – Trabalhos, nas modalidades de pôster e oral, apresentados
nas reuniões anuais da ANPED (2000-2004)
|
|
 |
Fonte: www.anped.org.br
e CD-ROM das reuniões anuais da ANPED.Organização:
Solange Estanislau dos Santos
1 Em 2002,
aparece o GT 21, denominado “Relações raciais/étnicas
e educação”; em 2003, aparece como Grupo de Estudo
– GE – “Afro-brasileiros e educação”,
permanecendo em 2004 com essa mesma denominação.
2 Surge, em 2003, como GE 22, o “grupo de estudo em educação
ambiental”, que permanece em 2004.
3 Em 2004, surge o GE (Grupo de Estudo – Gênero, sexualidade
e educação), com 18 trabalhos apresentados e um trabalho
encomendado.
• Não foi * Não foi encontrado no CD-ROM
Tabela 2
– Incidência dos termos: “criança” ,”infância”
e ““[...] infantil” nos títulos dos trabalhos,
nas modalidades de pôster e oral, nos GTs (exceto o GT7) da ANPED,
no período de 2000 a 2004

Fonte: www.anped.org.br
e CD-ROM das reuniões anuais da ANPED. Organização:
Solange Estanislau dos Santos
1. Excluímos
desse levantamento os termos: “aluno/educando/meninos/meninas/estudantes”
etc., por não fazerem parte das categorias estudadas neste trabalho.
2 Foram encontrados dois trabalhos cujos títulos traziam o termo
“criança/infância”: um foi apresentado no GE
(Grupo de Estudo) em Gênero, sexualidade e educação.
E o outro não foi inserido, pela coordenação da ANPED,
em nenhum GT.
3 Estou nomeando como GT 21, no ano de 2004, o novo GT Afro-brasileiros
e educação, pois no CD-ROOM não está definida
sua numeração.
Tabela 3
– Quantidade de trabalhos apresentados no GT 7 (Educação
da Criança de 0 a 6 anos) da ANPED, no período de 2000 a
2004 , distribuídos em suas diversas modalidades Criança
de 0 a 6

anos) da
ANPED
Fonte: www.anped.org.br
e CD-ROM das reuniões anuais da ANPED.Organização:
Solange Estanislau dos Santos
Tabela 4
– Os tipos de pesquisas apresentadas no GT 7 da ANPED (2000-2004)

Tabela 5
– Instituições acadêmicas de origem das pesquisas
apresentadas no GT 7 da ANPED (2000-2004)
Tabela 6
– Bibliografias utilizadas pelos
Fonte: trabalhos apresentados no GT 7 – ANPED - (2000-2004), disponível
em www.anped.org.br
Organização: Solange Estanislau dos Santos
ENSAIANDO OS PRIMEIROS PASSOS...
Inicialmente, realizamos um levantamento quantitativo dos dados, com o
objetivo de rastear, quantificar e identificar onde, quanto, como e de
que forma os temas criança e infância aparecem no âmbito
dos trabalhos apresentados nos Congressos da ANPED, como um todo, e, particularmente,
no GT7. Em relação ao GT 7, foram apresentados 102 textos
relativos a trabalhos orais, pôsteres, encomendados, completos,
excedentes, sessões especiais e mini-cursos. Dessa totalidade,
aproximadamente 80% são de pesquisadores oriundos das regiões
sul e sudeste do país, sendo cerca de 29% da Universidade Federal
de Santa Catarina. Nota-se, portanto, uma concentração geográfica
das pesquisas sobre a infância e sua educação num
espaço de divulgação acadêmico-científico
considerado de âmbito nacional: parece que a educação
de crianças só é pensada e discutida neste lado de
cá do país?
Outro dado importante, é que a maioria das pesquisas é de
caráter qualitativa acompanhada de trabalho de campo, são
estudos de caso utilizando a observação; pesquisa-ação
seguidas de um projeto de intervenção, pesquisas etnográficas
etc. O fato é que um número significativo dos trabalhos
apresentados no GT7 da ANPED, no período referido, tratam de problemáticas
relacionadas ora ao sistema de ensino de seu estado ora a uma ou duas
creches de sua cidade. Trata-se, portanto, de estudos dirigidos às
crianças de um determinado local, nesse caso, as crianças
mais estudadas, ou pelo menos os estudos sobre as crianças que
estão sendo amplamente divulgados, são sobre as crianças
das regiões sul e sudeste do país. Há, dessa forma,
uma parcela da população infantil que não está
sendo vista, pensada e estudada, ou então, estas pesquisas não
estão sendo notadamente divulgadas.
Em relação
as referências bibliográficas mais comuns, nota-se a freqüência
com que autores como Ariès, Walter Benjamin e Vigotsky aparecem
nos trabalhos, apoiados em estudos que já os tomaram como referência,
tais como os de Sônia Kramer, Eloísa Rocha, Maria Luiza Machado,
Moisés Juhlmann Jr., Tizuko Kishimoto, Maria Malta Campos, Ana
Lúcia Goulart de Faria e Fúlvia Rosemberg.. Nesses últimos
anos, incluem-se os estudos de autores portugueses, como Manuel Jacinto
Sarmento e Manuel Pinto.
Não podemos deixar de salientar que alguns estudiosos importantes
da área, como Angotti, Arroyo, Brougère, Azanha, Gobbi,
Regine Sirota e Maria Carmem Barbosa, também foram referidos nesses
trabalhos, mas tomamos aqui apenas aqueles que numericamente foram mais
citados. Foram excluídos de nossa análise os demais autores
que serviram de base especificamente para cada objeto de estudo, quais
sejam, aqueles autores citados como referência na discussão
de temas como “o brincar, a formação de professores,
os estágios de desenvolvimento”, a cultura, a linguagem e
demais teóricos que serviram de aporte filosófico e/ou sociológico
para tais pesquisas.
Com base na tabela acima, é possível afirmar a presença
unânime dos estudos de Sônia Kramer, nas referências
bibliográficas de grande parte dos textos analisados no período
referido. Professora da Faculdade de Educação da Universidade
Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e do Departamento de Educação
da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRJ),
essa autora discute e problematiza, em seus trabalhos, questões
que envolvem desde perspectivas metodológicas até políticas
públicas para a educação infantil, percorrendo os
estudos de Philippe Ariès, Bernard Charlot e Walter Benjamin. Nome
conhecido e respeitado nessa área acadêmica, Kramer também
já foi coordenadora do GT7, o qual reapresenta, por meio de vários
trabalhos expostos, as idéias dessa autora.
Entre outros autores que aparecem, em quase todos os anos analisados,
destaca-se Eloísa Acires C. Rocha, do Centro de Ciências
da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC),
que recentemente também ocupou o cargo de coordenadora do GT7.
Da mesma forma, a autora teve os seus trabalhos constantemente citados
pelas atuais pesquisas sobre educação infantil. É
reconhecida e citada especialmente em função de sua tese
de doutorado, defendida em 1999, intitulada A pesquisa em educação
infantil no Brasil – trajetória recente e perspectivas de
consolidação de uma pedagogia.
Outras autoras consideradas são Fúlvia Rosemberg e Ana Lúcia
Faria de Goulart. A primeira é pesquisadora da Fundação
Carlos Chagas e tem contribuído com os estudos sobre mulher, raça,
gênero e exclusão social, ligados ao processo de constituição
e expansão da educação infantil, no Brasil. Ana Lúcia
Goulart de Faria, professora da Faculdade de Educação da
Universidade de Campinas (UNICAMP), realiza estudos em torno de problemas
tanto sobre a educação da criança pequena, ligados
à condição das famílias de classe operária,
como sobre a cultura na pré-escola.
Manuel Pinto e o Manuel Jacinto Sarmento são autores portugueses
do Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho. Ambos
desenvolvem estudos relacionados à infância e à criança,
nos seus aspectos culturais, sociais, econômicos e políticos.
São trabalhos que problematizam a situação atual
da infância, no mundo globalizado. O segundo estudioso é
tomado como base de alguns trabalhos, no ano de 2004, com destaque para
as suas abordagens da chamada “Sociologia da infância”.
Ele tem discutido, dentre outras problemáticas, os processos de
exclusão da criança e os impactos das mudanças sociais
e econômicas na infância.
Demais autores que aparecem com uma certa freqüência, principalmente
nos três primeiros anos, são: Moysés Kuhlmann Jr.
(FCC), Ana Beatriz Cerisara (UFSC) e Maria Malta Campos (FCC). Já
nos dois primeiros anos, estão presentes os estudos de Tizuko Kishimoto
(USP) e Maria Lúcia de A. Machado.
Apesar de alguns autores permanecerem citados nos anos de 2003-2004, a
incidência com que são citados é bem menor, quando
comparada com o número de vezes com que foram citados nos primeiros
anos. Conforme já foi observado, nestes dois últimos anos,
diminui o número dos trabalhos apresentados e há uma tendência
de mudança nas temáticas abordadas. Pode ter ocorrido de
alguns autores terem “migrado” para outros GTs, o que é
possível ser constatado em um próximo momento da pesquisa.
Como podemos observar, os autores que estão sendo constantemente
citados ganham maior notabilidade e continuam sendo chamados para dialogar
com os atuais pesquisadores, que estão vinculados aos programas
de pós-graduação em educação, no Brasil,
e que tomam como objeto de estudo a criança e a infância.
São autores que recebem o apoio institucional para fazer parte
desse diálogo, na medida em que são convidados para ministrarem
minicursos, conferências, sessões especiais ou coordenar
os Grupos de Trabalho, Forma-se um círculo de debate que muitas
vezes tende a tornar hegemônicos determinados temas e tendências
teóricas de análise e que vão direcionando os rumos
das futuras investigações . Podemos observar, nas sessões
especiais e trabalhos encomendados, que os temas estão quase sempre
relacionados às abordagens metodológicas para as pesquisas
em educação e cujos autores são freqüentemente
introduzidos como ponto de referência e definem tendências
teóricas e de análise, em pesquisas futuras ou em desenvolvimento.
É diante desses resultados preliminares que aprofundaremos a nossa
análise sobre como alguns pesquisadores se instituem como referências,
nas pesquisas.
Juntamente com os autores mais citados levantamos os aportes teóricos
utilizados nesses trabalhos. Percebemos que grande parte dos trabalhos
não discute os referenciais teóricos e metodológicos
que foram utilizados nas pesquisas. Sobre o assunto, é possível
enfatizar alguns ângulos de análise que estão sendo
esquadrinhados na pesquisa, tais como os autores que são mais citados
nas bibliografias dos trabalhos apresentados e os referenciais teóricos
explicitamente declarados, por parte dos seus autores.
Notamos que não é comum, nessa área de investigação,
tomar algum teórico ou teoria como ponto de referência para
analisar o objeto de estudo. O que a maioria das pesquisas descreve são
os pontos de vista de alguns teóricos com os quais dialogam, porém,
sem indicar explicitamente que eles são tomados como referências
teóricas de seu trabalho.
No período estudado, há uma mudança dos aportes teóricos
utilizados para explicar e fundamentar a educação da “criança
pequena”. Esse é um termo bastante utilizado pelos trabalhos
analisados, que ora se referem a crianças pequenas, ora a crianças
de 0 a 6 anos, ora a crianças de 0 a 3 anos, sempre delimitando
a sua faixa etária.
Em 2000, alguns trabalhos elegem a psicologia histórico-social
como a abordagem teórica mais adotada, mais especificamente as
idéias de Vigotsky, Wallon e Piaget. Embora muitos não tenham
nomeado tal perspectiva de análise, isso se torna explícito,
nas referências bibliográficas utilizadas.
Nos anos seguintes, nota-se uma considerável referência aos
estudos da cultura e da linguagem, com referências tanto aos estudos
de Mikhail Bakhtin , como às vertentes teóricas dos estudos
culturais, através de Michel Foucault e Jorge Larrosa . Evidenciam-se,
então, vários trabalhos preocupados mais com os processos
históricos, sociais e culturais que constituem a idéia de
criança/infância e de sua educação do que aqueles
ligados aos processos psicológicos de desenvolvimento infantil.
No ano de 2004, surgem trabalhos baseados na Sociologia da Infância,
com citações às abordagens teóricas adotadas
por autores tais como Manuel Jacinto Sarmento, Règine Sirota e
Cléopâtre Montandon. Sarmento é um autor que foi convidado
como conferencista em uma sessão especial da Anped, no ano de 2000.
Nos anos subseqüentes, aumenta o número de trabalhos apresentados
que fazem referências e seguem caminhos apontados por seus estudos.
De modo geral, porém, ganham maior proporção os estudos
baseados em perspectivas sociológicas, que tomam a criança
na sua condição de sujeito de direitos e inserida numa cultura
e num mundo globalizado e excludente.
Essas são apenas considerações iniciais sobre este
tópico de análise, o qual será devidamente aprofundado
e analisado, no decorrer desta investigação.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAKHTIN,
M. Marxismo e Filosofia da Linguagem. 3.ed. Trad. de Michel Lahoud e Yara
F. Vieira. São Paulo: Hucitec, 1990.
BRAIT,B. A natureza dialógica da linguagem: formas e graus de representação
dessa dimensão constitutiva. In: FARACO, C. A.; TEZZA, C.; CASTRO,
G. (org.). Diálogos com Bakhtin. 3 ed. Curitiba: Ed. Da UFPR, 2001,
p.69-91.
CHARTIER, R. A história cultural : entre práticas e representações.
Trad. Maria Manuela Galhardo. Lisboa: Difel, 1990.
COSTA, M. V.; SILVEIRA, R. H.; SOMMER, L. H. Estudos Culturais, educação
e pedagogia. In: Revista Brasileira de Educação, n.23, p.
36-61, maio/jun/jul/ago 2003 (Número especial).
DAHLET, P. Dialogização enunciativa e paisagens do sujeito.
In: BRAIT, B. (Org.). Bakhtin, dialogismo e construção de
sentido. Campinas: Ed. Da Unicamp, 1997, p.59-84
.DE CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: artes de fazer.
Trad. Ephraim Ferreira Alves. 8. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.
DEMARTINI, Z. B. F.; FARIA, A.L.G.; PRADO, P.D. (Org.) Por uma cultura
da infância: metodologias de pesquisa com crianças. Campinas,
SP: Autores Associados, 2002.
HANSEN, J.A. Leitura de Chartier. In: Revista de História, n.133,
São Paulo, p.123-129, 1995.
LARROSA, J. Os paradoxos da repetição e a diferença.
Notas sobre o comentário de texto a partir de Foucault, Bakhtin
e Borges. In: ABREU, M. (Org.). Leitura, História e História
da Leitura.
MACHADO, I.A. Os gêneros e a ciência dialógica do texto.
In: In:FARACO, C. A.; TEZZA, C.; CASTRO, G. (Org.). Diálogos com
Bakhtin. 3 ed. Curitiba: Ed. Da UFPR, 2001, p.225-271.
MAGNANI, M. R. M. Os Sentidos da Alfabetização. A “questão
dos métodos” e a constituição de um objeto
de estudo (São Paulo - 1876-1994). Presidente Prudente, SP: FCT
/ UNESP, 1997. Tese (Livre - Docência).
__________________.
Em Sobressaltos: formação de professora. Campinas, SP: Editora
Unicamp, 1993.
REUNIÃO ANUAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
EM EDUCAÇÃO. Trabalhos apresentados no GT7 1998-2002. Disponível
no site www.anped.org.br <http://www.anped.org.br>. Acesso em out./2002
a ago./2003.
ROCHA, E. C. A educação infantil no Brasil: trajetória
recente e perspectiva de consolidação de uma Pedagogia da
Educação Infantil. Florianópolis: NUP/UFSC,1999.
SARMENTO, M. J. Imaginário e culturas da infância, 2002 (mimeo).________________.
As culturas da infância nas encruzilhadas da 2ª modernidade,
2003, (mimeo).
___________________. A globalização e a infância:
impactos na condição social e na escolaridade. In: GARCIA,R.L.
& FILHO,A.L. (orgs.). Em defesa da educação infantil.
Rio de Janeiro: DP&A,2001, p.13-28.
|
|