Valdeci Luiz Fontoura dos Santos - Universidade
Estadual Paulista – FCT/UNESP - Faculdade de Ilha Solteira –
FAISA
Este artigo socializa os resultados de minha pesquisa
de mestrado focando minha revisão de literatura que foi levada
a cabo com o fim de compreender um programa específico de formação
contínua de professores alfabetizadores realizado no ano de 2003
na cidade de Andradina, interior do estado de São Paulo.
Diante dos limites deste artigo apresento, por meio de uma reflexão
teórica, o conceito de formação contínua em
serviço na tentativa de contribuir para o debate sobre formação
de professores em nosso país. Para tanto organizo este texto em
dois momentos: no primeiro foco a compreensão possível sobre
formação neste momento e no segundo anuncio o conceito de
formação contínua em serviço.
A FORMAÇÃO DE PROFESSORES...
Ao pensar a formação dos professores, recorro
a Garcia (1999) para inicialmente destacar a dimensão da formação
enquanto processo, já que ele, a partir de Sharoon Feiman (1983),
destaca quatro fases neste processo formativo específico:
a)Fase de pré-treino (que) inclui as experiências
prévias de ensino que os candidatos a professor viveram, geralmente
como alunos, as quais podem ser assumidas de forma crítica e influenciar
de um modo inconsciente o professor. b) Fase de formação
inicial (que) é a etapa de preparação formal numa
instituição específica de formação
de professores, na qual o futuro professor adquire conhecimentos pedagógicos
e de disciplinas acadêmicas, assim como realiza as práticas
de ensino (Marcelo, 1989). c) Fase de iniciação (que) corresponde
aos primeiros anos do exercício profissional do professor, durante
os quais os docentes aprendem na prática, em geral através
de estratégias de sobrevivência (Marcelo, 1991) d) Fase de
formação permanente (que) é a última fase
referida por Feiman, e inclui todas as atividades planificadas pelas instituições
ou até pelos próprios professores de modo a permitir o desenvolvimento
profissional e aperfeiçoamento de seu ensino (GARCIA,1999, p.25-26)
Pacheco e Flores (1999) referem-se também à
proposição de Feiman caracterizando assim, três grandes
etapas formativas: inicial (pré-serviço), iniciação
e a formação contínua. Destacam eles que Feiman acrescenta
uma fase prévia a essas três, por ela designada de pré-formação,
que comportaria “o conjunto de experiências e representações
que o candidato a professor possui e que poderão influenciar, de
forma (in)consciente, ao longo do seu percurso formativo, e concretamente,
na sua prática profissional” (PACHECO e FLORES, 1999, p.52)
Tal categorização permite, além de aferir ao conceito
de formação de professores a idéia de continuidade,
estabelecer fases para que se possa entender a formação,
para além da continuidade, enquanto um processo muito peculiar
quando se pensa a formação dos professores.
A partir do referido teórico pode-se mapear, provisoriamente, a
seguinte conceitualização:
É possível perceber que existe forte relação
entre as experiências dos professores enquanto alunos, sua formação
inicial e as diversas modalidades de formação contínua
a que venham a ter acesso em suas trajetórias profissionais; que
dada à natureza do trabalho docente, dar-se-á ad eternum,
caracterizando assim, um processo de formação ininterrupto,
ainda mais se considerarmos que o próprio exercício da docência
implica aprendizagem para os professores, pois, como negar que também
se aprende a ser professor o sendo?
Ressalve-se ainda que não há como garantir mecanicamente
o avanço de uma fase para outra, a exemplo são todos os
estudantes que não vieram a ingressar na fase de formação
inicial posto que não optaram pela docência, ou ainda, os
professores que se comportam como professores iniciantes, mesmo no fim
de suas carreiras, por não terem adentrado à fase da formação
permanente, que implicaria em uma outra relação com a profissão
docente, se considerarmos o desenvolvimento profissional também
como um processo.
Além disso e de acordo com o “perfil dos professores brasileiros”
(UNESCO,2004), 53% deles ingressam na carreira antes da obtenção
da titulação mínima exigida.
A formação de professores, ainda para Garcia, pode ser entendida
como a
área de conhecimentos, investigação
e de propostas teóricas e práticas que, no âmbito
da Didática e da Organização Escolar, estuda os processos
através dos quais os professores – em formação
ou em exercício – se implicam individualmente ou em equipa,
em experiências da aprendizagem através das quais adquirem
ou melhoram seus conhecimentos, competências e disposições,
e que lhes permite intervir profissionalmente no desenvolvimento do seu
ensino, do currículo e da escola, com o objectivo de melhorar a
qualidade da educação que os alunos recebem (GARCIA, 1999,
p.26).
Nesse sentido, por “formação de professores”
pode-se compreender um processo contínuo de aprendizagens que toma
como mote as diversas temáticas da profissão docente que
didaticamente podem ser organizadas em três grandes dimensões:
saber, saber-fazer e saber-ser.
Dentro desse processo contínuo, encontram-se duas grandes categorias:
a Formação Inicial e a Formação Contínua,
que são diretamente marcadas pelos processos de auto/hetero/inter-formação
e também pelas teorias de formação formal, categorial,
dialogística e técnica; sabendo-se que, à medida
que a confluência entre elas privilegie uma ou outra combinação,
implicarão em distinções tanto teóricas quanto
práticas, principalmente na modalidade da formação
contínua.
Tais combinações não parecem estar encerradas definitivamente
em uma única possibilidade, mas parecem se diferenciar também
pelo que poderia chamar de protagonismo dos sujeitos nelas envolvidos.
A formação contínua que diretamente emana das agências
formadoras parece não ser equivalente às práticas
formativas das agências empregadoras e vice-versa. Caberia, porém,
perguntar: todas as práticas de formação contínua
emanadas das agências formadoras e empregadoras são de formação
contínua em serviço?
Antes de responder a essa questão, faz-se necessário destacar
que a formação contínua encerra em sua natureza duas
idéias principais: “uma de mudança para novos saberes
directamente relacionados com a prática profissional; outra de
atividades conducentes a uma nova compreensão do fazer didáctico
e do contexto educativo” (PACHECO, 1995, p.120).
Além disto, Howey citado por Pacheco (idem) distingue na formação
contínua
seis dimensões principais: desenvolvimento pedagógico,
conhecimento e compreensão de si mesmo, desenvolvimento cognitivo,
desenvolvimento teórico, desenvolvimento profissional pela investigação
e desenvolvimento na carreira, através de adopção
de novos e variados papéis docentes.
Dessas dimensões, parece que o desenvolvimento
profissional pela investigação/pesquisa abarcaria, mesmo
que indiretamente, todas as outras dimensões e poderia realizar-se
a partir dos paradigmas formativos que são o paradigma da deficiência,
o paradigma do crescimento, o paradigma da mudança e por fim, o
paradigma de solução de problemas.
Desses paradigmas, e considerando a singularidade do ato educativo, interessa,
para discutir a formação contínua em serviço,
o paradigma de solução de problemas por apontar a atividade
docente como um conjunto de novas situações e, por extensão,
sujeita à ocorrência de fatos inusitados e não repetitivos
que possivelmente não foram abarcados na formação
inicial dos professores; concordando aqui com a propositura de uma trilogia
da formação contínua que produza a vida, a profissão
e a escola (NÓVOA, 2002).
Na produção da vida, toma-se o professor como parte de uma
pessoa, sua profissão, na complexidade de sua profissionalização
e seu local de trabalho em uma perspectiva organizacional. Posto isso,
o compromisso da formação contínua em serviço
poderia vir a ser o de estruturar e organizar o processo de aprendizagem
do professor que está em exercício, tomando a atuação
docente como eixo desencadeador do processo de formação
contínua.
Cabe chamar a atenção para o fato de que, ao manter e desenvolver
o ensino, as agências empregadoras deveriam respeitar as duas dimensões
da profissão docente - ensinar e aprender -, ao contrário
de explorar o ensino em detrimento da aprendizagem contínua dos
professores. A partir dessa inferência, parece que muitos sistemas
ofertam programas de formação contínua que de serviço
sustentam apenas o rótulo, já que são programas para
professores que se encontram em exercício, muitas vezes reproduzindo
a organização da formação inicial no que se
refere à verticalidade entre formadores e professores.
Avançando nessa discussão, as práticas formativas
organizadas em cursos modulares fora do horário de trabalho dos
professores não seriam formação contínua em
serviço, mas sim, mera reprodução de práticas
formativas desenvolvidas pelas agências formadoras, que em suas
manifestações organizadas pelas agências empregadoras
poderiam ser entendidas com base no paradigma da deficiência, de
inspiração clássica, que coloca como mote da formação
contínua, a atualização ou reciclagem das aprendizagens
realizadas na formação inicial.
Cabe ainda, sobre formação de professores, assumir que a
formação inicial sem a formação contínua,
ou ainda essa última sem a primeira, não dão conta
de responder às necessidades formativas dos professores. O que
também torna os esforços investidos na formação
dos professores (inicial e contínua) fundamentais para que, por
meio da reflexão sobre sua prática, seja alcançado
seu desenvolvimento profissional na perspectiva de que nessa reflexão
se organize e se edifique ainda mais o conhecimento dos professores nas
suas mais variadas dimensões.
A formação contínua é um fenômeno em
escala mundial e não se refere somente à formação
de professores. Na verdade, sua ênfase recai sobre a colocação
profissional dos trabalhadores em geral. Na França, a temática
é abordada a partir da visão da sociologia enquanto objeto
de estudo focado na inserção profissional dos trabalhadores
em um cenário onde se coloca a “crise da empregabilidade”
como problema a ser superado.
Dubar (2000) faz um recorte na realidade francesa e a compara com os outros
países da Comunidade Européia, analisando historicamente
o fenômeno da formação profissional contínua,
destacando o surgimento de políticas de formação
contínua na França com a instauração de um
verdadeiro “sistema de formação contínua”
enquanto meio para vencer a exclusão dos trabalhadores do mundo
do trabalho; datando dos anos 70 do século passado.
É possível perceber em Dubar que a formação
profissional contínua adquire um objetivo claro de fomento à
inclusão profissional tanto dos jovens trabalhadores quanto de
outros trabalhadores que se encontram excluídos do mundo do trabalho.
Ao fazer a tensão comparativa entre a França e outros países
europeus, Dubar discute as ações públicas, privadas
e sindicais de atuação na área de formação
contínua, enfatizando as sindicais tanto na perspectiva de formação
enquanto acesso a melhores salários (ou até a manutenção
do posto de trabalho), quanto na formação, enquanto elemento
de organização dos trabalhadores. Destaca, ainda, que a
mobilização sindical na França envolve inclusive
a reivindicação por recursos para serem usados especificamente
na formação contínua dos profissionais.
Apesar de Dubar não conceituar o que viria a ser formação
profissional contínua objetivamente, ele destaca a ação
pública através das preocupações da Fédération
de l’Éducation Nationale que apontam para a necessidade do
estabelecimento de um vínculo entre a formação inicial
e a contínua através da proposição de um “grand
service public de l’education permanente” , enquanto prioridade.
O aspecto mais interessante da discussão de Dubar encontra-se no
relato da obrigatoriedade legal a que têm sido submetidas às
agências empregadoras no destino e uso de percentuais pecuniários
para a formação continua de seus funcionários, fato
que poderia sinalizar para uma diferenciação entre essas
ações e outras no cenário da formação
contínua por remeter especificamente aos que se encontram no exercício
da profissão.
Interessa destacar o ‘aparato’ legal que orienta as ações
na área de formação contínua na realidade
francesa e que também se apresenta, neste caso, especificamente,
aos professores, nas realidades portuguesa e italiana. Nos dois últimos
casos é possível encontrar dispositivos legais que de uma
forma ou de outra, delineiam a formação continua dos professores.
Nesse aspecto, a realidade portuguesa parece mais interessante por apresentar
a formação continua regulamentada através do “Estatuto
da Carreira dos Educadores da Infância e dos Professores dos Ensinos
Básico e Secundário” e garantida pela “Lei de
Bases do Sistema Educativo” que em seu artigo 35º define que
1.A todos os educadores, professores e outros profissionais
da educação é reconhecido o direito à formação
contínua.
2.A formação contínua deve ser suficientemente diversificada
de modo a assegurar o complemento, aprofundamento e actualização
de conhecimentos e de competências profissionais, bem como a possibilitar
a mobilidade e a progressão na carreira.
3. A formação contínua é assegurada predominantemente
pelas respectivas instituições de formação
inicial, em estreita cooperação com os estabelecimentos
onde os educadores e professores trabalham.
4. Serão atribuídos aos docentes períodos especialmente
destinados à formação contínua. (LEMOS e CARVALHO,
2000, p.232)
O ordenamento jurídico da formação
dos professores portugueses tem como objetivo principal, segundo Pacheco
(1995, p.120):
melhorar a competência profissional dos docentes
nos vários domínios de sua actividade; incentivar os docentes
a participar ativamente na inovação educacional e na melhoria
da qualidade da educação e do ensino; adquirir novas competências
relativas à especialização exigida pela diferenciação
e modernização do sistema educativo.
A experiência italiana aponta para a educação
contínua em seu sistema de ensino, mas merece maior destaque, a
reflexão que a academia italiana vem tecendo, segundo Guasti (1986),
no sentido de se pensar sobre a instituição de um sistema
de formação em serviço dos professores que supere
o sistema vigente nos anos 80 de formação dos professores
italianos.
No primeiro artigo do livro organizado por ele, Calidoni cita Howey para
assim definir formação em serviço
in sintesi, la FIS/CS puó essere definita come
l’insieme di quelle attivitá di formazione continua focalizzatta
sull’interesse, i bisogni, i problemi direttamente connessi con
il ruolo e le responsabilitá degli operatori in uns especifica
sede scolastica. (in GUASTI, 1986. p 18) .
Tal conceito aponta para o processo de formação
a que devem ter acesso os professores que já se encontram em exercício
profissional nas escolas, dando margem a entendê-lo assim, como
um recorte no conceito maior: formação contínua.
No Brasil, a discussão sobre a formação continua
de professores toma corpo efetivamente no âmbito da academia conectada
à questão da formação inicial e, progressivamente,
tem avançado para o recorte e estudo da formação
contínua, sabendo-se que esta última, e segundo Mizukami
(2002, p.28)
busca novos caminhos de desenvolvimento, deixando de ser
reciclagem, como preconizava o modelo clássico, para tratar de
problemas educacionais por meio de um trabalho de reflexividade sobre
as práticas pedagógicas e de uma permanente (re)construção
da identidade docente.
Nesse sentido, é possível afirmar que muitas
já são as produções sobre a formação
contínua, entretanto, no cenário legal, a garantia do acesso
à formação contínua encontra-se, apenas turvamente
, garantida no Inciso IV do artigo 76 a Lei 9.394/96: “Art. 76 –
Os sistemas de ensino promovem a valorização dos profissionais
da educação, assegurando-lhes, nos termos dos estatutos
e dos planos de carreira: (...) IV – formação contínua
visando ao aprofundamento e atualização de sua competência
técnica”
Além do problema de centralizar a temática da formação
contínua na dimensão do saber-fazer, para não dizer
que trata-se de um reducionismo técnico, a LDB delega a cada sistema
de ensino, tanto a definição do que seria a formação
contínua, quanto a garantia e as formas de acesso a essa etapa
do desenvolvimento profissional dos professores.
Concilie-se a isso, ainda, o reducionismo técnico da concepção
de formação contínua presente no texto da Lei 9394/96,
que mais parece um “eco” re-significado da racionalização
do ensino. Entretanto, não há como negar que existe neste
país uma garantia legal, que confrontada com o passado apresenta-se
como que inusitada.
A realidade brasileira, diferentemente das realidades portuguesa e italiana,
principalmente, ensaia a instituição e regulamentação
legal da formação contínua, que em alguns aspectos
parece equivocada.
A garantia legal de acesso à formação contínua,
nessas quatro realidades, não deve ser entendida como concessão,
mas sim enquanto resultado da mobilização dos profissionais,
das agências formadoras e de pesquisa, e também das organizações
representativas dos professores, na busca por melhores condições
tanto de trabalho quanto de formação.
Essa teia teórico-prática, enquanto cenário, pode
conduzir ao fato de que formação contínua se faria
institucionalmente, com o necessário estabelecimento de uma política
de qualificação dos diversos profissionais, com ênfase
na reflexão dos professores sobre sua própria formação.
Afirma-se institucionalmente, chamando aqui, a atenção para
o papel dos sistemas de ensino, que, enquanto agências que empregam
os professores da educação básica, deveriam ter um
sério compromisso com a formação contínua.
Ao contrário disso, tem-se assistido à instituição
de uma verdadeira indústria de formação contínua,
pois colocada como elemento unicamente de progressão na carreira
dos professores, notadamente os brasileiros, transforma-os em clientes
e não sujeitos da formação contínua.
Dubar (1996), citado por Canário (2000, p. 90), explicita que esse
aspecto da oferta da formação contínua
Trata-se, no fim de contas de tornar o indivíduo
responsável pela sua própria formação, pela
sua inserção, mesmo pelo seu despedimento. O título
de alguns grandes programas de formação “a empresa
de si” diz claramente que cada um deve gerir-se a si próprio
como uma empresa (...). Cada um deve ter consigo próprio a relação
de um empresário com o seu produto, procurar “vender-se”,
negociar o “capital” em que se tornou”
o que sinaliza para o “descompromisso” das
agências empregadoras dos professores com a formação
contínua como uma estratégia de mercado, pois coloca sobre
os professores não só a responsabilidade de gerir sua própria
formação, mas também de fazê-lo para garantir
seu trabalho, o que demonstra que não se concebe a formação
contínua como elemento efetivo da constituição da
carreira docente, mas sim, e segundo a lógica mercantil, como um
“up grade” muito comum no meio empresarial, no qual a formação
contínua resume-se a um bem simbólico.
AS MANIFESTAÇÕES DAS PRÁTICAS DE
FORMAÇÃO CONTÍNUA E O CONFRONTO COM A TEORIA: DESVELANDO
O FENÔMENO
Diante da complexidade do fenômeno em que consiste
a formação e formação de professores, destacam-se
as práticas de formação contínua destinadas
aos professores em exercício.
Tal tipo de formação parece inserir-se primeiramente na
confluência entre as fases de iniciação e de formação
permanente (FEIMAN apud GARCIA, 1999), mas todos aqueles que venceram
a etapa da formação inicial também são sujeitos
de práticas de formação contínua, mesmo que
não tenham ainda ingressado na carreira docente.
Caberia então uma distinção em favor de práticas
formativas que se destinem aos professores em exercício, efetivamente,
o que poderia sinalizar para a possibilidade de mais de uma modalidade
de práticas em formação contínua. O que está
posto é que a formação continua destina-se àqueles
que já possuem a formação inicial ofertada pelas
agências formadoras.
Seguindo a linha de raciocínio estabelecida até aqui, vale
tentar alinhavar as práticas de formação contínua
a que temos notícia e também acesso no Brasil, combinando-as
aos modelos de auto/hetero/inter-formação (DEBESSE apud
GARCIA, 1999), cruzados com as teorias de formação formal,
categorial, dialogística e técnica (MENZE apud GARCIA, 1999)
na tentativa de melhor compreender esse fenômeno.
A partir do protagonismo dos atores envolvidos no fenômeno que se
constitui hoje a formação contínua, esboça-se,
esquematicamente, tanto as áreas em que existiriam protagonismos
independentes e também as áreas em que existiria interdependência.
Veja o esquema que segue:
É possível perceber que as várias
práticas de formação contínua não se
encerram definitivamente em uma mesma modalidade, já que se diferenciam
inicialmente pelo protagonismo tanto de seus propositores quanto de seus
sujeitos.
Como exemplo, é possível citar a diferença entre
os objetivos que uma agência formadora estabelece ao criar e manter
um programa de Pós-Graduação dos objetivos de uma
Secretaria de Educação, que institui uma Oficina Pedagógica.
Entretanto, e para além de uma simples diferenciação,
vale se entregar ao desafio de discriminar as práticas de formação
contínua implementadas pelas agências formadoras das práticas
implementadas pelas agências empregadoras, destacando a formação
contínua em serviço.
As agências formadoras comprometidas, que estão com o desenvolvimento
intelectual dos professores, apostam na implementação de
Programas de Pós-Graduação com o fim de ofertar a
possibilidade de formação contínua aos que já
venceram as barreiras da formação inicial, independentemente
de estarem ou não em exercício. Temos aqui uma pista de
que essa formação, não obrigatória, depende
essencialmente da iniciativa da agência formadora, posto que os
professores poderiam, diante de suas necessidades e nível de organização,
no muito solicitar a instituição de Programas de Pós-Graduação
junto as IES e nunca às Agências que os empregam, uma vez
que as mesmas não são Instituições formadoras
na concepção legal que, no presente, levamos a cabo.
Considerando isso, as práticas de formação contínua
que podem ser desenvolvidas junto aos Programas de Pós-Graduação
nas agências formadoras, não se dão em serviço,
inclusive pressupõem o afastamento das atividades profissionais
dos que nelas ingressam através das agências de fomento à
pesquisa por meio de bolsas de ajuda de custo.
Aliada a essa constatação, apresenta-se ainda, outro elemento
que pode auxiliar nessa conceituação: as agências
formadoras, mesmo comprometidas que estão com a formação
contínua dos professores, não são responsáveis
diretas pelo desenvolvimento profissional desses, na medida em que eles
não são seus funcionários e permanecem ligados aos
Programas de Pós-graduação até a conclusão
de seus cursos, fato que dificulta o estabelecimento, com elas, de uma
relação de continuidade existencial e profissional.
Cabe explicitar que a formação de professores se dá
em um contínuo processo permanente, e objetiva melhorar as atividades
de ensino dos professores, está claro também, que tal profissão
tem imbricadas duas grandes dimensões: ensinar e aprender.
Ao manter e desenvolver o ensino, as agências empregadoras deveriam
considerar que a docência possui essas duas dimensões. Uma
delas já consagrada: ensinar, dar aulas, conduzindo o processo
de aprendizagem dos estudantes, e outra: continuar aprendendo. Ao contrário
disso, as condições de trabalho da maioria dos professores
brasileiros exploram a dimensão do ensinar em detrimento da dimensão
do continuar aprendendo. Há que se mencionar que, ao dar suas aulas,
o professor está automaticamente imerso em um processo de aprendizagem,
mas, para além da empiria, é preciso discutir a instituição
da aprendizagem enquanto elemento constitutivo da profissão docente.
FORMAÇÃO CONTÍNUA EM SERVIÇO: ANÚNCIO
DE UM CONCEITO
As práticas formativas organizadas em cursos modulares
fora do horário de trabalho dos professores não podem ser
consideradas como formação contínua em serviço,
posto que estão fora da jornada de trabalho dos professores, consistindo
assim, em mera reprodução das práticas formativas
desenvolvidas pelas agências formadoras, sem o necessário
envolvimento histórico dessas últimas com a formação
em si.
É possível entender, então, por formação
contínua em serviço, as práticas formativas que as
agências empregadoras levariam a cabo com a necessária re-organização
da estrutura do trabalho docente, contemplando tanto a dimensão
do ensinar quanto a dimensão do aprender.
Um programa de formação contínua, para ser considerado
como de formação contínua em serviço, precisa
estar contemplado dentro da jornada de trabalho do professor, evitando
assim, a responsabilização unicamente dos professores pela
continuidade de sua formação (enquanto clientes), tomando
para si, enquanto agência responsável pela manutenção
e desenvolvimento do ensino, o compromisso de possibilitar a formação
contínua em serviço.
O que parece ser perceptível é o fato de que a formação
contínua está sendo instituída, mas não como
elemento constitutivo da concepção da carreira docente,
como já mencionado neste capítulo, mas sim, como uma corrida
em busca de ínfimos acréscimos salariais por meio da progressão
na carreira.
Os compromissos das agências empregadoras com os professores têm
que ir além das práticas já cristalizadas de mera
certificação em cursos pontuais e descontínuos ainda
mais se for assumido que hoje em dia
os professores não são apenas consumidores, mas também
produtores de materiais de ensino; que os professores não são
apenas executores, mas também criadores e inventores de instrumentos
pedagógicos; que os professores não são apenas técnicos,
mas são também profissionais críticos e reflexivos.
(NÓVOA, 2002, p. 36)
Assim, o acesso à formação contínua
é um direito dos professores brasileiros que estão em exercício,
mas, diante da trajetória histórica e incipiente consolidação
de um sistema nacional de educação, não constitui
efetivamente um dever para as agências que empregam os professores.
O estudo deste objeto, por meio da análise de um programa de formação
contínua inserida na jornada de trabalho dos professores, possibilita
um avanço conceitual, cumprindo assim com o chamamento de Cachapuz,
pois enuncia um novo quadro teórico de referência.
É fato que
as perspectivas de formação presentes nas políticas
educativas e nas práticas são o resultado de diferentes
paradigmas, embora os professores valorizem a sua formação
mais pelo paradigma da deficiência do que pelos paradigmas do crescimento,
da mudança e da resolução de problemas (PACHECO E
FLORES, 1999, p.131)
Entretanto, independente da significação que se dá
à formação contínua, por parte dos professores,
já parece ser consenso a sua necessidade, tanto no que se refere
à instituição de uma escola de qualidade quanto na
perspectiva da consolidação da profissão docente.
Junto a isso, parece que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (9.304/96), em seu artigo 76 inciso IV, ao colocar que cada sistema
de ensino deverá regulamentar a forma de acesso à formação
continua no Brasil, regula de forma mui incipiente o acesso à formação
contínua dos professores brasileiros.
Tal fato que tem feito surgir uma verdadeira indústria de formação
contínua que assedia e seduz inúmeras secretarias de ensino
em nosso país com verdadeiros “pacotes” de formação
continua, que de “em serviço” ostentam apenas o adjetivo
posto que se destinam aos professores em exercício.
A Formação contínua em serviço, enquanto uma
das modalidades da formação contínua, deve ser um
compromisso dos sistemas de ensino para o enfrentamento da universalização
de uma escola que atenda tanto às necessidades quanto às
expectativas das camadas populares, que, para além da visão
de ascensão social, possibilite às gerações
mais jovens a efetiva compreensão do mundo em que vivem.
É claro que tal proposição assume uma posição
que coloca, mais à esquerda este movimento de pensamento. Digo
isto pois considero aqui o papel dos sistemas de ensino, notadamente os
públicos, imprescindível no que se refere à edificação
de uma profissionalidade docente digna e condizente com o papel da escola.
Se, e de acordo com Teodoro (2003, p. 44)
nas últimas duas décadas do século
XX, assistiu-se à lenta mas segura afirmação de um
novo bloco social hegemónico que tem vindo a impor um novo senso
comum as políticas públicas de educação, assente
uma redução dos conceitos de democracia às práticas
de consumo, de cidadania a um individualismo possessivo
a formação contínua é concebida,
nesta lógica, como um investimento pessoal pois resume-se a um
bem de consumo. Pensar a formação contínua em serviço
enquanto elemento constitutivo da carreira docente estaria no mínimo,
na contra mão do senso comum estabelecido.
Assim, se faz necessário assumir que a instituição
da formação contínua em serviço seria notadamente
um compromisso, que por meio de uma política educativa, instituir-se-ia
na confluência de elementos formativos de três ordens: a)
as de ordem individual; b) as de ordem coletiva e c) as de ordem sistêmica.
As necessidades formativas, de ordem individual, referem-se às
condições objetivas de acesso a e permanência na etapa
da formação contínua, considerando-se, para tal,
a pessoa do professor e seu meio, o que perpassa tanto sua condição
econômica para, por exemplo, comprar livros até suas condições
psicológicas, quando consegue se perceber enquanto ser em formação.
As de ordem coletiva referem-se à dimensão profissional
do professor na confluência das suas condições de
trabalho e de interação com o lócus do seu ofício:
a escola. Refiro-me aqui ao engajamento profissional que tem como elemento
os vínculos pessoais e profissionais que o professor estabelece
no seu trabalho, tanto interna quanto externamente, se for considerado
que a escola é um dos cenários onde a pessoa do professor
se insere.
E por sua vez, as de ordem sistêmica encontram-se na tensão
entre o anunciado enquanto profissionalização docente o
as frentes de luta dos professores brasileiros em diversas instâncias
entre as quais se destaca a sindical. Além disso, tal ordem está
inserida na esfera dos direitos trabalhistas dos professores em um contexto
em que se responsabiliza a escola por uma crise de ordem muito mais complexa
que enfrenta o capitalismo real.
Na tensão dessas três ordens de fatores, não cabe
conceber a formação contínua em serviço como
sinônimo de formação contínua, posto que essa
última é como que um grande “guarda-chuva”,
que abarca dentro de si inúmeras possibilidades de organização
e implementação de modalidades formativas dos professores.
Mas recortando dela uma modalidade inerente à responsabilidade
de um sistema de ensino, destaco, como alternativa a formação
contínua em serviço, que, se elevada especificamente como
modalidade, pode servir para o delineamento de uma carta de princípios
para a formação contínua destinada aos professores
que se encontram no exercício da profissão.
Na tentativa de contribuir para a discussão e possível articulação,
em nosso país, de políticas de formação continua
que enfrentem os desafios colocados hoje ao magistério brasileiro,
afirmo que a formação contínua em serviço,
instituir-se-ia na garantia de:
a) Redefinição objetiva das dimensões da docência
enquanto profissão, considerando-se para tanto, horas para especificamente
ensinar e horas especificamente para continuar aprendendo;
b) Instituição de setores destinados à formação
contínua nos sistemas de ensino, edificando-se assim, uma rede
de formadores que pertença ao sistema articulados com as agências
formadoras;
c) Reorganização do lócus de trabalho do professor
com a instituição de políticas de aquisição
e manutenção de acervo bibliográfico para os docentes,
e;
d) Construção coletiva dos programas de formação
contínua em serviço, na mediação entre as
necessidades dos professores e as necessidades do sistema, tendo a produção
teórico-científica como elemento mediador deste processo.
Inspiro-me no conceito de formação em serviço de
Howey (apud GUASTI, 1986), buscando conceituar a formação
contínua em serviço ao definir sua condição
(em serviço) e seu dimensionamento (ordens pessoal, coletiva e
sistêmica), o que tornaria os aspectos elencados acima como constitutivos
para o estabelecimento dessa modalidade formativa. A mesma pode ser imprescindível
para que os professores em exercício venham a galgar um efetivo
estágio de formação permanente, sem o que, pensar
em uma escola que dê conta dos desafios colocados a ela hoje, pode
não passar de uma falácia que oculta um projeto vil e pernicioso
que não comunga efetivamente da busca necessária por igualdade
e justiça social.
Para finalizar, faço das palavras de Nóvoa (2002, p.66)
as minhas, pois
o debate aí está. Uma vez mais (...) num
desses momentos raros na vida das profissões em que sentimos que
vários frutos são possíveis: o modo como a concebermos,
mas sobretudo o modo como a praticarmos, vai ajudar a construir um desses
futuros. Porque qualquer projecto de formação transporta
uma “utopia”, que não é a imagem do impossível,
mas a introdução no presente de uma outra maneira de pensar
e de viver a educação
que torna possível vislumbrar a continuidade desta
pesquisa no decorrer de minha trajetória acadêmica e profissional
com o declarado compromisso de contribuir intervindo neste emaranhado
complexo onde vivo a minha existência e sou professor.
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