Aline Shiohara - Faculdade de Educação/UFRGS
O tema deste trabalho é, inicialmente, um relato
de experiência e um olhar reflexivo acerca das práticas cotidianas
de registro e documentação. A partir disso, buscarei pontuar
o caráter do registro exigido pela instituição escolar
ao professor, contrapondo-se a outros meios de registros que também
ocorrem durante o desenvolver do trabalho e, a partir disso, também
o constitui e se dá a ver na ação pedagógica
cotidiana.
O invisível no real:
o que não é dito, o que não pode ser dito, o dever
de dizer.
“Como é que o senhor, eu, os restantes próximos
somos no visível?”
João Guimarães Rosa.
O registro sistemático do professor sobre sua rotina,
atividades realizadas, planejamentos de projetos, planejamentos semanais
e/ou quinzenais, desenvolvimento das crianças/alunos, reuniões
com as famílias, etc. fazem parte da dinâmica (e exigência)
de algumas escolas, porém, se caracterizando de diferentes maneiras
e recebendo variadas denominações, tais como: relatório,
diário, anedotário, portfólio etc.
Registros que, em certa medida, nos apresentam um panorama geral sobre
o trabalho desenvolvido na turma, apontam algumas dificuldades, traduzem
um pouco as relações estabelecidas com as famílias,
indicam algumas conquistas individuais, etc.. Mas que não contemplam
um conhecimento real acerca do que (ou como) caminha o grupo e suas especificidades
individuais e coletivas.
Mas, para que(m) se escreve?
No caso do registro escrito no qual estive inserida, uma escola da rede
privada de Porto Alegre/RS, como professora de Maternal 2 (4 anos), de
acordo com o Plano de Estudo e Regulamento Interno da instituição
traduz-se da seguinte maneira:
3. AVALIAÇÃO
A avaliação na Escola... acontece sobre vários aspectos:
1. A avaliação diária do professor - relatório
com reflexões: registro diário da rotina, com reflexões
do professor avaliando o trabalho desenvolvido, bem como manejos do aluno
e do professor sobre os fatos ou aconselhamentos (PLANO DE ESTUDO, 2002)
4. RELATÓRIO
4.1. PROFESSORES DE TURMA:
Registro dos itens da rotina diária e reflexões diárias
sobre projetos e/ou situações em relação aos
alunos, pais e escola. O relatório deve conter: missão,
P.P.P, plano estudo, calendário, lista de alunos com telefone,
informações escolares, circulares internas, externas, de
turmas e bilhetes aos pais.
Para facilitar a reflexão pedagógica também devem
constar: (grifo meu)
• Planejamento quinzenal ou semanal com metas;
• Calendário mensal informando eventos, atividades coletivas
e específicas das turmas (opcional);
• Chamada mensal (Educação Infantil);
• Metas individuais e de grupo bimestrais (inclusive do professor);
• Planejamento do projeto: enfoque, metas e atividades organizadas
por área do conhecimentos para visualização do todo;
• Serão feitas trocas bimestrais de relatório entre
a equipe. Ao final do ano a equipe entrega-o para o setor pedagógico.
(REGULAMENTO INTERNO, 2002)
Na prática, se traduz na função de
relatar os momentos e/ou atividades realizadas diariamente com o grupo,
bem como, descrição de entrevistas realizadas com as famílias,
assuntos abordados e metas estabelecidas. Cada professor, por opção,
também descreve o andamento de cada criança, caminhada do
grupo, intervenções e manejos. Reflexões, dúvidas
e questionamentos. Deve-se também agrupar no relatório todos
os instrumentos destinados à organização do professor,
conforme indica o “regulamento interno”.
Um instrumento de registro riquíssimo em informações
e de acordo com a “marca escrita” de cada professor que, a
cada início de semana, o entrega à coordenadora pedagógica
que realiza sua leitura. Bimestralmente, os relatórios são
trocados entre os professores e retornam com um bilhete sobre as impressões
causadas. Um registro construído diariamente pelo professor mas
que ao final do ano letivo permanece na escola, portanto, um documento
“público”, disponível ao acesso de todos os
membros da equipe: professores e auxiliares, coordenação
e direção.
Assim, podemos ir percorrendo o caminho a quem se destina este registro
escrito. Há de se pensar que o ato do registro (e da escrita!)
exige um interlocutor, ou ainda, um objetivo para que se realize de modo
que “a voz” da escrita possa ressoar e produzir outros sentidos
e desdobramentos. Há de se lembrar também que, mesmo sendo
rico em “informações”, tal riqueza (ou seriam
exigências?) não são, necessariamente, relevantes
ao professor em sua dinâmica cotidiana ou uma tradução
que contemple realmente o trabalho e os movimentos da turma.
Partindo da idéia de que semanalmente o relatório escrito
é entregue a coordenação, sabemos a quem também
se destina esta escrita. Com isso, alguns movimentos são instaurados:
quem escreve, escreve para alguém ler; esse alguém, que
se encontra num lugar social (e de poder) diferenciado, lê com algumas
lentes que lhe são próprias e norteados por alguns objetivos
que não são, necessariamente, explícitos, mas compreendidos
no modo como são encaminhados na articulação com
a leitura.
A partir disso, vamos construindo o valor/caráter que lhe é
atribuído: um registro de uso do professor ou de controle da escola?
Um registro como mais um instrumento de reflexão e interlocução
ou um instrumento de burocratização do fazer pedagógico?
Como essas construções e valorizações vão
se constituindo ao longo do tempo? Em que medida o uso desse instrumento
de registro escrito contempla a multiplicidade de ações
(e reflexões) que ocorrem nas relações estabelecidas
ao longo de todo o ano letivo? Suas nuanças, descobertas e (des)construções?
Deste modo, vamos compreendendo o uso do relatório diário
não apenas como um importante instrumento de organização,
planejamento e avaliação do professor, mas também
como mecanismo de controle e supervisão dos saberes em desenvolvimento.
Com isso, nos deparamos com alguns desencadeamentos sutis na realização
destes relatórios, pois em se tratando de um mecanismo de poder
e de um instrumento “público”, tais questões
estão diretamente ligadas à aprendizagem institucional.
Seus limites e possibilidades, suas concepções, sua maneira
de relacionar-se, etc. o que vai nos indicando a medida acerca do que
deve ser registrado. Mas sobre o que é preciso dizer, sobre o que
é preciso não dizer e sobre o que é dever dizer explicitamente?
Qual o limite público e privado?
Estas são algumas indagações que me faço constantemente
e que poderão estar nos auxiliando durante a discussão.
A procura do suporte:
as bases que sustentam as escolhas e construções.
Retorno um pouco a minha própria formação
e nela também encontro o registro escrito. O valor que lhe foi
atribuído ao longo de toda trajetória de estágio
de modo a me constituir como estudante e/ou professora em formação
e, em contra partida, se constituir, aos olhos da estudante e/ou professora
em formação, como instrumento fundamental do saber/fazer
docente.
A construção escrita de uma situação vivida
como possibilidade de, através dela, narrar o vivido e, a partir
dessa ação, reconstruir o vivido e o saber docente. A apropriação
desse saber e todos os movimentos que o acompanha neste processo: angústias,
dúvidas, questionamentos, busca por sentidos e significados.
Larrosa (2001) discute a experiência ao nos apresentá-la
como sendo o modo como vamos dando sentido ao acontecer do que nos acontece.
Diferente do movimento de busca pela verdade das coisas, mas do sentido
ou dos sem-sentido do que nos acontece. Há de se compreender a
ruptura, ou ainda, o posicionamento diante do acontecimento, de modo a
lhe atribuir um sentido (ou sem-sentido, como diz o autor) que seja único
e particular.
Diante disso, compreendo o valor próprio que foi adquirindo o registro
como elemento imprescindível no cotidiano pedagógico, de
modo a podermos marcar o vivido e, a partir disso, realizar o movimento
de nos deslocar, poder olhar o vivido e lhe atribuir (sem) sentidos e
(sem) significados.
Através de uma experiência sueca, os autores Dahlberg, Moss
e Pence (2003) apresentam o conceito (e a prática) da documentação
pedagógica como um instrumento que possibilita a criação
de uma prática reflexiva a partir do uso de materiais que registrem,
em diferentes linguagens, o que as crianças estão fazendo,
dizendo, etc. Um movimento de integração do professor entre
esses materiais com o próprio trabalho, de modo que possa relacionar
e enxergar como entende, interpreta e se posiciona diante do que está
acontecendo na prática.
A documentação pedagógica se caracteriza como uma
construção social, na medida em que o professor, ao selecionar
aquilo que lhe é relevante a ser documentado, mostra-se co-construtor
participativo desse processo. Os significados são construídos,
produzidos e interpretados, não estão prontos a serem captados
aos olhos de quem os lê.
... Quando você documenta, você constrói
uma relação entre você mesmo como pedagogo e a criança/crianças,
cujo pensamento, cujas palavras e cujas ações você
documenta. Nesse aspecto, a prática da documentação
não pode, de modo algum, existir à parte do nosso envolvimento
no processo. Do mesmo modo que a encenação, ela é
o que desempenhamos daquilo que documentamos, é também seletiva,
parcial e contextual. O que documentamos representa uma escolha, uma escolha
entre muitas outras escolhas, uma escolha de que os próprios pedagogos
estão participando. Da mesma forma, aquilo que não escolhemos
é também uma escolha. (DAHLBERG, MOSS e PENCE, 2003, p.
193)
Assim, o educador ao registrar, registra-se. Constrói
narrativa coletiva onde a criança pode inserir-se nos significados
grupais. Construir trajetórias.
A busca por fragmentos:
outros registros, outras linguagens, outras possibilidades.
A função da arte 1
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago de Kovadloff, levou-o
para
que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia,
depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos.
E foi tanta imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino
ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!
Eduardo Galeano
Pensando um pouco no registro escrito, oficial e obrigatório,
sua intenção como instrumento de reflexão, interlocução
e possíveis desencadeamentos, é através das intervenções
acerca do como é lido, proposto, organizado e mediado, que acaba
se caracterizando como um texto burocrático, vazio de sentidos
e significados a quem o redige.
A partir disso, acreditando que o ato de escrever nos instiga à
questionamentos, ao levantamento de hipóteses, ao processo de reflexão
do que (não) é sabido, etc., porém, ao não
conseguir contemplar alguns questionamentos, ao não satisfazer
meus desejos por uma interlocução investigativa e instigadora,
pautados através dos registros formais e/ou oficiais, ao não
compreender os modos de “avaliação” como realmente
avaliadores e passíveis de questionamentos, bem como, ao não
reconhecer o trabalho e as crianças/alunos nessas avaliações
e relatos, passei a construir uma outra maneira de registrar o próprio
trabalho.
Aliado a esse “incômodo”, a compreensão de que
não lemos a vida (o mundo!) apenas e tão somente com palavras
e palavras escritas, que as crianças também nos dizem coisas
importantes sobre elas mesmas, suas percepções e descobertas,
de diferentes maneiras e com a possibilidade de olharmos (ou seria ler?)
de diferentes modos.
O instrumento “relatório escrito” não me era
suficiente... talvez a necessidade singular de criar, de traduzir e registrar
de diferentes jeitos o que as crianças também me dizem de
múltiplas formas e linguagens. Modos que não “constam”
no relatório escrito, que acaba não constando em nosso cotidiano
se não houver o exercício da escuta, do olhar e da apreensão
significativa à todos.
O início se deu através de registros fotográficos,
uma linguagem que me é própria e no intuito de captar “instantes
poéticos” aliado ao exercício de, ao final cada tarde,
relembrar falas das crianças de modo a anotá-las, ou ainda,
o movimento acerca do que as imagens captadas diziam. Posteriormente,
o “esforço” da memória foi substituído
por um “bloco de anotações”, parceiro constante
ao longo de todas as tardes e também produtor de sentidos nas crianças
ao me verem anotando e questionarem sua função e/ou atuação.
Visto isso, podemos pontuar alguns posicionamentos nesses registros:
... quando registramos, tentamos guardar, prender fragmentos
do tempo vivido que nos é significativo, para mantê-lo vivo.
Não somente como lembranças, mas como registro de parte
da nossa história, nossa memória. Através destes
registros, construímos nossa memória pessoal e coletiva.
Fazemos história. (FREIRE, 2003, p. 6)
Em que medida então, essa história ali registrada,
auxilia no desdobramento reflexivo dela mesma?
Quem indica alguns indícios desse percurso são Dahlberg,
Moss e Pence ao afirmar que:
... quanto maior a nossa consciência das nossas
práticas pedagógicas, maior a nossa responsabilidade de
mudar por meio da construção de um novo espaço, no
qual um discurso, ou contra discurso, alternativos pode ser estabelecido
para produzir nova prática. É, acima de tudo, uma questão
de conseguir um insight sobre a possibilidade de ver, falar e agir de
uma maneira diferente, e daí transpor limites ... (p. 200)
Com isso, as imagens, as falas e anotações,
foram constituindo meu cotidiano não de modo sistemático
e disciplinar, como o desejado, mas de acordo com as possibilidades cotidianas,
seja por questões financeiras (filme e revelação),
seja pela organização de uma rotina que contemple aspectos
institucionais e, ao mesmo tempo, particulares de cada turma, mas que
exigem algumas escolhas em detrimento de outras que, não necessariamente,
satisfaçam as necessidades do grupo. E nessa dinâmica, também
se inclui o tempo, interior e exterior à escola, para o registro
e sua organização.
Mas mesmo que não sistemático e disciplinar, um registro
capaz de modificar as práticas e a relação com/entre
as crianças através da tentativa de escuta e da inserção
e/ou modificação de diferentes mecanismos e propostas que
contemplem o que é “dito” de modo que haja a apropriação
de todos nós, atores envolvidos nessa dinâmica, dos instrumentos
de registros, bem como, nossas escolhas e construções.
A escolha das partes que irão compor a peça:
instrumentos, parcerias e co-construção.
“O olhar então implicava descobrir um sentido
que se tornava por dado nos indivíduos , relações
e paisagens (...). como se constitui aquilo que hoje se apresenta ao nosso
olhar?”
Nelson Brissac Peixoto.
E neste movimento de busca por uma interlocução
e de mecanismos para melhor apreender as experiências vividas e
suas possíveis significações, fui agregando diferentes
instrumentos de modo que pudessem me possibilitar estes movimentos para
uma melhor compreensão, reflexão e apropriação
da prática cotidiana.
O primeiro deles, como já foi explicitado, foi a imagem fotográfica,
ou ainda, o meu olhar fotográfico de fragmentos que eram significativos
ao longo das tardes. Ao passar do tempo, a descentralização
do instrumento e a apropriação das crianças desse
suporte. Com isso, vou sendo interpelada por imagens e ações
imagéticas, que traduzem preferências, recortes, momentos,
enfim, fragmentos significativos a cada um do grupo. O olhar deles também
sobre o nosso trabalho e a vontade em querer registrar o que lhes era
marcante, importante e, sobretudo, produtor de sentido. E através
desse percurso, vou percebendo o grupo de um outro jeito, sentindo-o a
partir de outros olhares e percepções.
Aluna nova, recém-chegada na turma e na escola.
Pouco sabemos dela, pouco sabemos uma da outra... Com o tempo, vai indicando
seu gosto pela tinta e como se manifesta em contato com esse material.
Em vários momentos, ao longo de quase duas semanas, pára
para deitar e apreciar a produção, no caso, um grande painel
de 10 folhas de color set agrupadas; convida outras crianças a
deitarem com ela e ‘fruir’... Com a máquina fotográfica
nas mãos, busca a imagem a ser fotografada: “Aline, posso
tirar foto com a tua máquina, da pintura?! Porque aí eu
vou guardar pra sempre...”
E com essa “fala” vamos colhendo indícios sobre significados,
sentidos e percepções. A aluna indica o que lhe é
marcante, o que a mobilizou naquele momento e, aliado a esse movimento,
traduz o papel e/ou a função da fotografia para ela.
Nesse mesmo percurso, relembro um início de tarde em que um grupo
de crianças jogavam uma memória de cores que, em seguida,
se transformou num grande tapete colorido. Ao tapete, incluíram
peças de montar e constituíram uma casa com chão
colorido. Ao final, orgulhosos de suas novas produções,
a solicitação pela máquina fotográfica.
Assim, estas duas situações tão cotidianas, nos mostram
a apropriação do grupo pelo registro ao saber da possibilidade
em poder registrar/documentar; seu significado como co-construção
de uma memória a ser revisitada, resignificada e constituidora
de uma trajetória, além de realizar a escolha do instrumento
para tal ação.
Aliado a isso, o movimento de ida e volta das imagens, o encantamento
e a exploração em se ver através de um suporte que
nos levam ao retorno de um tempo/espaço que vai constituindo a
memória e a história dessa caminhada, possibilitando reconstruir
impressões e significados.
“Ih, eu saí com cara engraçada!! E
o C. tá tirando foto e saiu na foto!! Ué, mas se ele tá
tirando foto como é que ele apareceu?! Aline, tu não te
lembra quando a gente conversou sobre foto?! Então porque é
que o C. conseguiu aparecer se ele é que tá tirando?!?!?!”
“Que engraçado! Até o Power veio para
a brincadeira! Ué, mas não tem Power no Sítio do
Pica Pau Amarelo...”
O registro escrito das falas, aparecem como um aliado
às imagens. A atenção se faz num exercício
constante e rigoroso, vai dando sentido ao vivido e traduzindo diferentes
mecanismos de compreensão e construção de idéias,
vivências e percepções, além de indicar relações
afetivas e elaborações simbólicas.
“Aline, posso levar o Miro lá prá
baixo?! Acho que ele vai gostar de brincar com a gente lá embaixo!
E quando eu chegar lá vou levar o Miro para o D. porque ele gosta
muito do Miro e ele vai ficar muito feliz .”
N: - Aline, porque você pediu para a K. ver os bilhetes?
Aline: - Para ver se eles já estão prontos; se a J. já
conseguiu imprimir todos.
N: - Lá na secretaria?
Aline: - É.
N: - É dali que saem os bilhetes ?!
Aline: - É.
N: - Todos?!
Aline: - A maioria. Às vezes eu trago de casa.
N: - Então eles vem da secretaria?
Aline: - Sim.
(Pausa. Olhar parado e pensativo... De repente, como num susto, expansão
total!!)
N: - Pessoal! Pessoal!! Eu descobri! Eu descobri uma coisa! Eu descobri
que os bilhetes nascem na secretaria!!
Na prática, o registro escrito das falas acontecem
através da minha própria memória e de um bloco de
anotações que carrego diariamente no bolso, durante todas
as tardes. Nessa dinâmica, a descoberta das crianças de que
suas falas podem se constituir em texto escrito e, tendo em vista que
são crianças de Educação Infantil e, portanto,
não alfabetizadas na leitura e escrita de letras e palavras, tal
processo se dá como num encantamento... aí então,
me dou conta do uso social da escrita, sua potencialidade em criar outras
situações de aprendizagens, percepções e descobertas
ao poderem revisitar suas falas e compreensões, além da
intimidade que se vai construindo de modo que as crianças também
possam se apropriar desse instrumento.
“Aline, quê que tu tá escrevendo aí?!”
“Olha achei o meu nome!! Aline, o quê que
eu disse aqui, ó!”
“Aline, cadê o caderno do Miro que tava aqui?
Eu tô procurando porque eu queria ler tudo pra poder lembrar tudo
o que os amigos disseram e tá escrito no caderno do Miro quando
ele foi passear na casa da gente”.
Há também o uso deste instrumento no transcorrer
de atividades, projetos e momentos diversos que, posteriormente, me auxiliam
na elaboração de planejamentos e propostas em momentos seguintes.
Uma criança aprendeu com a mãe a música Canto do
povo de um lugar (Caetano Veloso) , perguntou se eu sabia e juntas tentamos
lembrar e cantar com o grupo.
V: - Eu gostei da parte que a terra chora
Aline: - Por que a terra chora?
V: - Eu acho que é porque a chuva traz o trovão!
No dia seguinte, retomando o canto e ouvindo a música original:
V: - E a parte que a terra chora?!
Aline: - Pois é, a gente cantou errado ontem...
N: - É a terra cora, minha mãe que contou!
V: - Mas então vamos ouvir de novo porque eu gostei da parte que
‘a lua mansa’!
Durante o momento de pátio, no período de realização
do projeto “Flechas e localização”:
C e D: - Aline! O que é que tá escrito aqui?!
Aline: - Secretaria.
C: - Então tá errado!
Aline: - O que é que está errado?
C: - Olha só! Porque se a gente seguir essa flecha, vai chegar
no sofá e na parede, não na secretaria!
(Num outro momento)
D: - Aline, uma flecha!!! O que é que tá escrito aqui?
Aline: - Maternais.
D: - Mas tá indicando para o banheiro!?!
Outro instrumento é a pasta de trabalhos utilizada
como suporte para levar para casa os materiais realizados ao longo do
bimestre. Procuro, mesmo com as adversidades cotidianas, fazer de cada
momento de organização das pastas uma situação
de aprendizagem de modo que possamos conversar, avaliar, reencontrar,
etc. Vejo que a ida desses materiais para casa acontece de modo descontextualizado
em relação aos momentos em que aconteceram, as construções
que os suscitaram, os crescimentos, descobertas e percepções
ali registrados. Percebo também que quem as recebe também
nota a lacuna produzida neste movimento de interação com
os materiais, bem como, a tentativa de criar mecanismos interlocutivos
com as crianças e suas produções. Para o grupo, noto
seu valor simbólico em relação à quantidade
de produções realizadas e “dias letivos”. A
organização das pastas é motivo de muito orgulho
e sua ida, recheada de muita, muita excitação.
“Aline, né que essa pasta de trabalho é
todo o monte de dias que eu vim na escola?!”
“Essa pasta é o quanto eu venho aqui?!”
Há o meu registro diário, além do
oficial e obrigatório, pontuando alguns acontecimentos marcantes,
dúvidas e questionamentos, rotina, possíveis desencadeamentos
e perspectivas. Há também a seleção de alguns
materiais como desenhos, pinturas, livros marcantes no grupo, o caderno
do nosso boneco de pano (Miro), músicas, materiais de projetos,
etc. que também me indicam desdobramentos.
Um outro instrumento utilizado é o exercício (e desafio)
diário em escrever um aspecto a partir da seguinte pergunta: O
que as crianças me ensinaram hoje? Registro esse, que de tempos
em tempos revisito no intuito de elaborar as aproximações
e distanciamento em relação aos meus olhares e leituras
da prática diária.
Assim, estes diferentes suportes me possibilitam traduzir sentidos e significados,
mas sobretudo, indicam pistas para onde (ou como) caminhar. Auxiliam na
compreensão e acompanhamento no andamento e desenvolvimento da
turma, bem como, nas questões individuais. Sua realização
exige que seja constante e rigorosa, o que nem sempre é viável,
porém, o olhar acolhedor e o exercício da escuta nos indicam
muitas possibilidades e desdobramentos, além da ampliação
na relação com as famílias e planejamentos diversos.
A organização:
é possível construir em conjunto e compor uma unidade?
Chega mais perto e contempla a palavra
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Carlor Drummond de Andrade
Nas práticas cotidianas, um dos possíveis
desdobramentos e organização destes registros surgem na
relação com as famílias, nas intervenções
e na busca em melhor compreender e acompanhar a dinâmica do grupo.
Visualizar a prática requer que o processo de documentação
se torne parte integrante do trabalho cotidiano e não algo que
está fora. É o trabalho que tem que se alternar entre focos
diferentes: as próprias experiências da pessoa, a aquisição
de um entendimento teórico do que está acontecendo e os
valores filosóficos e sociopolíticos que determinam as direções
e as visões para o trabalho pedagógico. (DAHLBERG, MOSS
e PENCE, 2003, p. 201)
Elementos, experiências e direções
que são indicados nos registros e vão sendo articulados,
agrupados, resignficados de modo a modificar e reelaborar o dia-a-dia
com a turma.
- Na minha casa, minha mãe e meu pai colocam toalha
na mesa quando a gente vai comer.
- Na minha casa também.
- Na minha também.
- E na minha eu também ajudo às vezes.
- Aqui a gente só usa o guardanapo de cada um né?!
- É, mas né que a gente também pode dividir com o
amigo que não tem?!
- Aline, porque que a gente não tem toalha para o lanche?!
Esse trecho de uma das conversas surgidas no grupo durante
o momento do lanche, foi uma das situações significativas
vividas ao longo do ano letivo. Com essas colocações e,
tendo sempre como um dos eixos norteadores, a integração
e formação do grupo, podemos observar o olhar seletivo e
parcial ao acreditar que essa situação era importante e
relevante ao grupo, passível de ser documentada e sendo compreendida
como “um processo de aprendizagem, mas também como um processo
de comunicação, pressupõe a criação
de uma cultura de exploração, reflexão, diálogo
e envolvimento”. (DAHLBERG, MOSS e PENCE, 2003, p. 201).
Com isso, pudemos vivenciar uma experiência única na relação
escola e famílias, bem como, a construção de um momento/ambiente
mais acolhedor, aconchegante e estimulante possível.
A proposta feita ao grupo foi a confecção de uma toalha
para os momentos do lanche, idéia essa, acolhida por unanimidade.
Cada criança trouxe um pedaço de pano de sua preferência
em cor, estampa e textura. Juntos, começamos a pensar como seria
organizada e, por motivos diversos, não conseguimos confeccioná-la
em conjunto; com a aproximação de uma reunião de
pais, a situação foi reelaborada.
Mas o que fazer quando não se quer falar sobre as mesmas coisas
de sempre? Como fazer da reunião de pais um momento prazeroso,
significativo e de possíveis encontros? O que propor quando a caminhada
e o crescimento da turma são nítidos mas não são
possíveis traduzi-los em temas “prontos” para discussão,
tais como: limites, projetos, autonomia, alfabetização/letramento,
etc.etc.etc.?
Diante disso, elaborei o encontro a partir do que me era mais particular
e significativo: os registros! Iniciamos a reunião já na
porta de entrada da escola, com setas indicativas espalhadas que levavam
à reunião do Maternal 2, com isso, a alusão ao projeto
“Flechas e localização” realizada no bimestre.
As flechas indicavam a sala de vídeo, posteriormente, a indicação
de retorno à sala de aula que, por sua vez, indicavam um caminho
a ser percorrido de modo que os pais pudessem visualizar os materiais
ali organizados e dispostos.
Nos materiais, a disposição de trabalhos, atividades, projetos,
etc. acompanhados de fotografias, falas e impressões das crianças
sobre o que estava ali disposto e sobre momentos e situações
diversas ao longo de nossas tardes. Com isso, a percepção
dos pais de que “as próprias crianças estão
explicando tudo!”, ou ainda, a não necessidade de alguém,
no caso eu, discursar acerca do vivido.
Posteriormente, a caminhada terminava numa roda com chá, tecidos,
linhas e agulhas. A idéia de, após percorrermos esse caminho
de falas, imagens, impressões, o que elas nos suscitaram? Após
encontrarmos as crianças aqui “presentes” o que podemos
conversar e refletir enquanto elaboramos esta toalha de retalhos em que
cada pedaço representa um integrante do grupo? Lembrando que a
idéia da toalha também surgiu de uma conversa.
Aos poucos, o grupo de pais e mães ali presentes foi se apropriando
da dinâmica, dos materiais e das possibilidades ali criadas, bem
como, a compreensão acerca da importância simbólica
em torno daquele elemento ali sendo constituído.
“Aline, será que a gente pode cortar os tecidos?!
Será que eles não vão se chatear com isso?! Penso
que se a gente cortar, como cada pedaço representa uma criança,
então cada um estará ao lado de diferentes amigos ao mesmo
tempo...”
Na reunião do bimestre seguinte, a última do ano, a proposta
de uma conversa “ao redor da mesa grande”, com a toalha estendida,
a retribuição das crianças à toalha confeccionada
na reunião anterior ao recepcioná-los com biscoitos feitos
durante a tarde e a proposta de uma avaliação da turma/filho/a
pela caminhada a partir de dois elementos desencadeadores: fotografia
e fala.
O material foi organizado da seguinte maneira: uma imagem individual aliada
a uma fala recorrente e muito particular de cada criança, tais
como:
“Não precisa, eu consigo sozinho!”
“Sabia que eu também sou do time vermelho? (Qual?!) Flamengo!”
“Ih, me enganei!! riso encabulado...”
“Eu tô com um pouquinho de saudade da mamãe...”
“Eu quero dá uma espiadinha no mano...”
“Me faz carinho com pena...”
“aLine! Eu quero uma história! Uma história aLine!!”
“Quando eu crescer quero ser que nem meu pai”
“Aline: BUUUU!!! (susto)”
“Arine, né que aqui todo mundo é amigo?!”
A fotografia foi coberta com um bilhete carinhoso de agradecimento
e no intuito de não ser identificada. O objetivo da dinâmica
era que cada família identificasse seu/a filho/a pela fala, a partir
disso, o desencadeamento da conversa e avaliação.
Surgiram discussões muito ricas, posicionamentos firmes, críticas,
sugestões, reflexões, enfrentamentos, agradecimentos, etc.
Para mim, a sensação de que os registros ressoam, produzem
outros possíveis e nos fazem modificar e/ou atentar o olhar. A
certeza de que fizeram/fazem sentido nas famílias ao possibilitarmos
o encontro e a mediação com a própria “voz”
de seus/as filhos/as.
“Essa toalha é o retrato dessa turma: a diversidade
nela existente e o acolhimento através do olhar e da escuta atenta
e carinhosa. Acredito que, simbolicamente, só o fato de cada um
poder escolher pano azul, roxo ou verde, com ou sem flor amarela ou vermelha
e todos poderem trazer o seu pedaço de pano pra cá, do seu
jeito e tendo respeitada essa individualidade diante desse todo colorido
e bonito, pra mim isso é o fundamental, a base. Principalmente
por vocês acreditarem nisso e terem claro essas idéias.”
“A ida do Miro lá pra casa fez com que o
L. parasse de chupar bico... Aline, tu faz idéia da dimensão
e da importância do teu trabalho?!”
“Olha Aline, agora é sério. Presta
atenção que agora eu tô mandando (risos!!!!!): tu
vai pegar essa toalha e colocar ela bem grande e bonita na festa de encerramento,
combinado?! Nada de painel ou sei lá o quê. O nosso painel
é esse e já tá pronto. Quer painel mais bonito que
esse?! Aqui tá TUDO!!”
Assim, vamos encontrando os sentidos sendo produzidos
por todos os atores envolvidos nessa dinâmica. Vamos construindo
nossa trajetória e nos apropriando de seus signos e significados.
Vamos compreendendo os movimentos e os desdobramentos proporcionados a
partir destes registros pessoais/coletivos que vão traduzindo particularidades
que compõem o grupo.
A imagem final:
intenção e busca
A função do leitor 1
Quando Lucia Peláez era pequena, leu um romance escondida. Leu
aos pedaços, noite após noite, ocultando o livro debaixo
do travesseiro. Lucia tinha roubado o romance da biblioteca de cedro onde
seu tio guardava os livros preferidos.
Muito caminhou Lucia, enquanto passavam-se os anos. Na busca de fantasmas
caminhou pelos rochedos sobre o rio Antióquia, e na busca de gente
caminhou pelas ruas das cidades violentas.
Muito caminhou Lucia, e ao longo de seu caminhar ia sempre acompanhada
pelos ecos daquelas vozes distantes que ela tinha escutado, com seus olhos,
na infância.
Lucia não tornou a ler aquele livro. Não o reconheceria
mais. O livro cresceu tanto dentro dela que agora é outro, agora
é dela.
Eduardo Galeano
E pensando na trajetória traçada aqui neste
texto, os caminhos percorridos, a busca e reunião destes diversos
elementos que vão compondo o registro e a documentação,
percebo que a procura é pela produção de sentidos,
pois “a questão não é buscar o indescritível,
não é revelar o oculto, não é dizer o não-dito,
mas, ao contrário disso, coletar o já dito, reunir aquilo
que se pôde ouvir ou interpretar”. (FOUCAULT apud DAHLBERG,
MOSS E PENCE, 2003, p. 205).
A intenção e a busca pelos registros de modo que possam
nos auxiliar nas construções e elaborações
dos saberes docentes, das práticas pedagógicas e cotidianas
de modo reflexivo. Que através de diversificados instrumentos,
possamos compreender e nos apropriar desta dinâmica do trabalho
também de diferentes maneiras, diferentes modos de intervenção
e significação.
A intenção e a busca desta reflexão foi, a partir
de uma experiência muito particular, suscitar alguns questionamentos,
possibilidades de resignificar e de se apropriar do que realmente faz
sentido a cada um(a) de nós, professores/as e educadores/as.
BIBLIOGRAFIA
ANDRADE, Carlos Drummond de. Chega mais perto e contempla
a palavra. In: Pranchas de imagens e textos, no 10. 4a Bienal do Mercosul
- Ação Educativa, 2003.
BRAGA, Elizabeth dos Santos. A constituição social da memória.
Ijuí: Ed. Unijuí, 2000.
DAHLBERG, Gunilla, MOSS, Peter e PENCE Alan. Qualidade na educação
da Primeira Infância: perspectivas pós-modernas. Porto Alegre:
Artmed, 2003.
FONTANA, Roseli Aparecida Cação. Como nos tornamos professoras?
Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
FREIRE, Madalena. A paixão de conhecer o mundo: relatos de uma
professora. São Paulo: Paz e Terra, 1991. 8a ed.
______ . Observação, registro, reflexão: instrumentos
metodológicos I. São Paulo: Espaço Pedagógico,
2003. 3a ed.
______ . Grupo - indivíduo, saber e parceria: malhas do conhecimento.
São Paulo: Espaço Pedagógico, 2003. 3a ed.
GALEANO, Eduardo. O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM,
1997.
GANDINE, Lella e EDWARDS, Carolyn. Bambini: a abordagem italiana à
educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 2002.
GNERRE, Maurizio. Linguagem, escrita e poder. São Paulo: Martins
Fontes, 1998.4a ed.
LARROSA, Jorge. Nota sobre a experiência e o saber da experiência.
Campinas/SP, Leituras SME, julho/2001, n° 04.
______ . Pedagogia Profana. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
MACHADO, Maria Lucia de A. (org.). Encontros e Desencontros em Educação
Infantil. São Paulo: Cortez, 2002.
MUNDURUKU, Daniel. Histórias de índio. São Paulo:
Cia. das Letrinhas, 1996.
ROSA, João Guimarães. Primeiras Estórias. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1988.
VASCONCELOS, Teresa Maria Sena de. Ao redor da mesa grande: a prática
educativa de Ana. Porto: Porto Editora, 1997.
ZABALZA, Miguel. Diários de aula. Porto: Porto Editora, 1994.
______ . Qualidade em Educação Infantil. Porto Alegre: Artmed,
1998.