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“CIDADE
DOS HOMENS” - CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE E ESTRATÉGIA
PEDAGÓGICA NA TV
Denise
Tavares da Silva - Pontifícia Universidade Católica de Campinas
/ PUC-Campinas
I. Introdução
Este texto
retoma, sob outra perspectiva, uma reflexão explicitada em artigo
que publiquei na revista Idéias & Argumentos , titulado Narrativas
da inclusão: realismos e universos simbólicos em Cidade
de Deus e Cidade dos Homens. O que pautava esta primeira abordagem do
filme e série realizados pela O2 Filmes (no caso da série,
em parceria com a Rede Globo), era uma discussão em torno, fundamentalmente,
desta questão: se as estratégias de “reconstrução
artístico-cultural” são canais possíveis para
uma trilha de inclusão, já que existe uma polêmica
em torno da possibilidade ou não do olhar do “outro”
ser revelador de não de um universo do qual se é observador.
Ou, se cair-se-á, quase que inevitavelmente, nas esteriotipias
e/ou clichês, já tão presentes na mídia atual.
Recuperar o texto citado acima significa, inicialmente, reconhecer o quanto
estas obras são motivadoras de múltiplas abordagens e reflexões
o que já, neste momento, é delimitar o primeiro marco que
norteia este trabalho. Ou seja, se em um primeiro diálogo que estabeleci
com estas obras, busquei recuperar, grosso modo, o quanto estas teciam
elos com a tradição da narrativa oral – em especial,
com as sagas finlandesas, em Cidade de Deus – a proposta agora,
centrada apenas na série da TV que nasce como desdobramento do
filme, é recuperar a força desta mídia como decisiva
para a construção dos episódios, sem, no entanto,
chegar ao extremo proposto por McLuham, resumido em seu dito clássico
o meio é a mensagem. Afinal, como disse Eugênio Bucci olhar
a TV é olhar o Brasil e algo muito maior que o Brasil. É
olhar, por exemplo, o modo como o indivíduo se torna sujeito no
mundo, para usar aqui uma terminologia cara a Maria Aparecida Baccega
. (Bucci, E.: 2000, p.9). Também vale aqui, lembrar Canclini:
A origem
do valor estético é um problema estrutural, que não
depende só de decisões individuais, por mais criativos ou
poderosos que sejam aqueles que as promovem. As variações
que os sujeitos produtores introduzem nos códigos compositivos
ou perceptivos são sempre um ato secundário, derivado que
tem como base determinações coletivas: o maior criador começa
sempre sendo sujeito no sentido de estar sujeito a uma estrutura. Isso
foi comprovado a propósito das inovações das vanguardas:
a originalidade edifica-se a partir das condições sociais
que a tornam possível; as manifestações subjetivas
são, em primeiro lugar, relações objetivas interiorizadas.
(Canclini, N. G.: 1979, p.112)
É
seguindo esta trilha, portanto, que reconhece na TV uma contribuição
decisiva para a constituição da nacionalidade brasileira
e, neste sentido, seu papel fundamental no campo da educação,
que a série Cidade dos Homens, em seus quatro primeiros episódios,
será aqui abordada. O foco será a construção
destas narrativas, considerando não só sua temática,
mas principalmente como ela é tecida a partir de determinados modelos
que a TV e, em particular, o “padrão globo de qualidade”,
foi cimentando ao longo dos anos em que se tornou praticamente hegemônica
no país, quanto ao que o público reconhece como linguagem
televisiva. Nesta trilha, pretende demarcar o quanto a filiação
ao cinema permeia os episódios e se este veio pode ser, afinal,
uma das possibilidades de renovação dramatúrgica
das produções ficcionais das tevês. Ou seja, de antemão
este texto faz coro com os autores que destacam a urgência de novas
estratégias dos produtos produzidos e veiculados por esta mídia
que no Brasil acumula dados impressionantes quanto ao seu consumo, em
perfil muito particular, que atravessa todas as classes sociais e condiciona
a TV pública a um reduzido espaço.
Assim, os episódios da série que serão discutidos
são A coroa do imperador, O cunhado do cara, Uólace e João
Victor e Correio. Os protagonistas destes episódios são
Acerola e Laranjinha, garotos moradores de uma favela no Rio de Janeiro,
que têm por volta de 12 anos. Os atores (Darlan Cunha e Douglas
Silva) que representam estes personagens extraídos do romance de
Paulo Lins – Cidade de Deus – base para o filme homônimo,
têm a idade próxima das personas que representam. Vale dizer
que na obra de Lins, Acerola e Laranjinha aparecem rapidamente não
sendo, portanto, centrais, em um romance que acumula nada menos que 252
personagens. Como se sabe, o livro de Paulo Lins é fruto de seu
papel de entrevistador para a pesquisa da antropóloga Alba Zaluar.
O autor foi criado na favela Cidade de Deus e construiu seu romance em
três partes. A primeira, A História de Cabeleira, foi escrita
enquanto realizava as entrevistas para Zaluar. Já a segunda, A
História de Bené, e a terceira, A História de Zé
Pequeno, são escritas com o apoio da Bolsa Vitae de Artes.
Em trecho da “orelha” que escreveu para a edição
de Cidade de Deus, Alba Zaluar, caracteriza o livro de Lins como um anti-épico:
Juntando etnografia e fantasia, ele nos conduz imaginária e objetivamente
pelo anti-épico de uma guerra entre jovens imaginários mas
terrivelmente verossímeis, uma guerra que foge aos modelos convencionais,
mas que mata na vida real tantos jovens... Esta caracterização
é reveladora da trágica realidade tratada no livro de Lins,
reconhecida no filme dirigido por Fernando Meirelles, mas não incluída,
pelo menos neste tom, na série veiculada, com sucesso, pela Rede
Globo. E já temos, então, uma diferença crucial entre
os dois produtos, já que, uma das críticas à obra
cinematográfica era o que alguns consideraram excesso de violência.
Por outro lado, a ausência de contextualização histórica,
também fator de crítica ao filme de Meirelles, se não
acontece na série, se justifica por sua despretensão aparente,
de um aspecto didático, inserindo-se, portanto, como produto de
entretenimento. Pois, enquanto o filme, recuperando a estrutura do livro,
aponta raízes do presente no passado – mas um passado preso
ao recorte geográfico da obra, como se este fosse o único
condicionante que gerasse o que ocorre no presente da diegese –
na série, a marca do presente dialoga fácil com boa parte
da programação das TVs que, cotidianamente estão
mostrando o poder do tráfico localizado nas favelas, em particular
nas favelas cariocas. Assim, a não-pretensão didática,
de certo modo, distancia a possibilidade de crítica, ao mesmo tempo
que demarca a ficção o que, como se verá adiante,
é negado pela linguagem que a constrói.
II. Realismo
e Identidade
Na história
da linguagem audiovisual, o cinema é ainda a grande referência.
Em que pesem as diferenças técnicas, o fato é que
a televisão, comercializada a partir da década de 50, apropriou-se,
grosso modo, da gramática cinematográfica, tanto em termos
de captação como de edição. Assim, como no
cinema, fala-se em enquadramento, planos, movimentos de câmera,
seguindo a mesma nomenclatura que é usada para se fazer filmes
em película. Como lembra Dubois:
Nas críticas,
nas revistas e nos catálogos, desde que se fale de uma imagem de
vídeo, usam-se termos como plano, montagem, corte (de olhar, de
movimento), espaço off (fora de campo), voz off, close, campo/contracampo,
ponto de vista, profundidade de campo, etc. Todo o vocabulário
forjado para se falar da imagem cinematográfica acaba sendo transposto,
tal e qual, sem maiores cautelas, como se esta transposição
não apresentasse problema. Como se pudéssemos apenas pensar
a imagem eletrônica por meio dos conceitos (e do filtro, e da linguagem
em si) do cinema. Como se não houvesse diferenças entre
ambos. (Dubois, P.: 2004, p.75).
Esta transposição
é explicada historicamente não só porque a linguagem
cinematográfica é anterior ao vídeo, mas também
porque a película foi utilizada, várias vezes, na TV brasileira
(por exemplo, os primeiros e, considerados melhores produtos do Globo
Repórter foram realizados por cineastas que não desprezaram
o fotograma, mesmo fazendo TV), em especial antes do aparecimento do digital,
justamente por suas vantagens técnicas em relação
à gravação magnética. No entanto, como em
todos os espaços de criação, também no vídeo
existiram os rebeldes... Em um primeiro momento este papel foi ocupado
pelos representantes da vídeoarte que faziam TV exatamente para
desqualificá-la enquanto arte. São as experiências
realizadas por Paik, Vostell e Averty, da primeira metade dos anos 60,
que se estende até os meados dos 70. A partir deste momento, cabe
a alguns dos grandes cineastas de desde sempre, como Nicholas Ray, Michelangelo
Antonioni e Jean-Luc Godard, realizar experiências em vídeo
que, de certa forma, facilitaram uma espécie de troca de linguagem
que podemos reconhecer hoje, por exemplo, nas obras do brasileiro Jorge
Furtado.
Mas é preciso falar de um outro fator, também determinante
para se compreender o papel formador da TV. Quando olhamos a trajetória
do cinema identificamos em seu surgimento o teatro e o circo e, ainda,
os filmes de família no que pode ser chamado de primeiríssimo
cinema. Mas, a partir de O Nascimento de uma Nação, de Griffith
e do cinema soviético de a partir da Revolução Russa,
particularmente das concepções de montagem de Eisenstein,
o caminho que se abriu para a ficção consolidou-se com Hollywood,
mesmo, claro, mantendo sua parcela de documentário e até
de cinema experimental. Já no campo da televisão o percurso
é outro. Se é verdade que, em termos brasileiro, há
a predominância das “telenovelas”, ou seja, obras de
ficção, também é verdade que estas produções
convivem, lado a lado, com o mundo real veiculado pelos programas jornalísticos
que, por sua vez, também podem ser colocados como campeões
de audiência. Além disso, com o desdobramento crescente do
culto à celebridade, explicitado pela multiplicação
de revistas que se debruçam sobre a vida privada de atores e astros
da TV, o que temos é um quadro francamente favorável a identificar
como real tudo o que está relacionado à televisão.
Este dado é essencial para se compreender os riscos e potenciais
embutidos nas obras de ficção, quando veiculadas pela TV,
já que a ficção produzida caminhou, em sua quase
totalidade, para uma representação do real que busca explorar
ao máximo a capacidade de verossimilhança permitida pelo
meio, em grande parte dos seus produtos. Ou seja, a ficção,
na TV, apresenta-se como “fiel cópia” do real, mesmo
quando cria situações obviamente absurdas, constituindo
um universo com pretensão de espelhar a realidade.
III. Os episódios
A série
Cidade dos Homens gira, como já destacado, em torno de dois personagens
com idade próxima de 12 anos: Acerola e Laranjinha. O primeiro,
interpretado por Douglas Silva, seria o personagem mais “coracional”,
ou seja, movimenta-se muito mais pela emoção o que não
significa que em vários momentos funcione como o cérebro
da dupla. Laranjinha é construído em uma vertente próxima
ao garoto esperto mas, também, assim como Acerola, não pode
ser reduzido a este estereótipo. Pelo contrário, um dos
méritos dos roteiristas da série e criar personagens com
nuances e valores em construção, típicos da faixa
etária. Uma ausência de julgamento que não exclui
uma espécie de “moral da fábula” ao fim de cada
episódio. Esta estrutura aproxima a série do filme que a
gerou pois os personagens vivem em ritmo de saga, vencendo obstáculos
para sobreviverem, equilibrando-se entre o bem e o mal, caracterizados,
o primeiro, simplesmente pela negação de se vincular ao
tráfico (ou seja, ao mal).
Em outras palavras, se é possível elegermos um eixo dramático
para a série, ele assenta-se em: mostrar o cotidiano de dois garotos,
que vivem rodeado e até atravessam e se batem, em vários
momentos, com os personagens do tráfico, conseguindo resistir a
ele por sua persistência, pura e simples, de não quererem
aderir. Esta voluntariedade, que marca a recusa à imersão
no mundo do crime por Acerola e Laranjinha, é explicitada, didaticamente,
em suas falas que acentuam o quanto o tráfico cobra do menor quando
este é incorporado – nos episódios há mortes
de crianças e jovens que são reconhecidas pelos dois protagonistas,
quase sempre, como se fossem algo banal, previsível – e,
também, em estratégias de linguagem que acentuam o tom realista
que a câmera, quase documentária, dá aos episódios.
Um exemplo é o diálogo entre um grupo de garotos, do qual
fazem parte Acerola e Laranjinha, em A Coroa do Imperador. O diálogo
é mostrado inicialmente “dentro” da narrativa, para
se deslocar, pela adesão ao preto e branco, para a realidade. Neste
momento, os garotos estão despidos dos seus personagens e relatam
um cotidiano que conhecem bem e onde a presença e violência
do tráfico é revelada em sua intensidade justamente pela
banalidade infantil com que os garotos narram suas vivências.
Este jogo com o real, acentuado, como dito acima, pela câmera documentária
e também pelo ritmo ágil da edição –
por sua vez, intensificado pela trilha sonora, que sobrepõem-se
aos ruídos, escondendo-os, como é típico da ficção
– convive com a opção pelo grafismo, que surge como
uma estratégia didática em vários momentos da série.
Por exemplo, ao descortinar a questão central de uma batalha que
será apresentada logo em seguida, utiliza-se a imagem do morro,
sobreposta por flechas e caminhos que mostram ao espectador porque, afinal,
existe a disputa de espaço por parte dos traficantes. Estes, invisíveis,
apresentados de forma rápida sem conseguirem ser personagens, movimentam-se
segundo o ponto de vista que Acerola e Laranjinha apresentam ao espectador.
Não há como questioná-los: afinal, eles vivem ali,
sobrevivem ali e recusam-se a ser incorporados. Portanto, suas informações
são dignas de confiança. Portanto, são verdades.
Portanto, é assim que acontece nos morros...
É claro que esta discussão não pode esconder os méritos
que uma série como esta tem. Em primeiro lugar, por colocar em
horário assistível uma produção cujos protagonistas
são negros e favelados e, ainda por cima, ousar tocar em uma ferida
gravíssima do tecido social do país. Tudo isto conquistando
uma audiência que permitiu a continuidade da série. Em um
país marcado pelo preconceito escondido ferozmente embaixo de tapetes,
não se pode, portanto, desprezar o papel desempenhado por esta
proposta. Por outro lado, é importante ressaltar que as estratégias
utilizadas pelos roteiristas e direção, nos episódios,
precisam ser discutidas sob o risco de uma absorção que,
mais uma vez, paralise ou cristalize imagens, memórias e histórias,
que tornam quaisquer iniciativas que visem modificar esta realidade, absolutamente
descartadas. Só como indicativo, vale lembrar a rejeição
pública de moradores da favela Cidade de Deus em relação
ao filme, com o argumento de que este configurou uma imagem negativa de
quem morava ali. Tal imagem contribuiu, segundo o que estes moradores
disseram em reportagens divulgadas pelos jornais à época
de maior repercussão do filme, quando este foi indicado ao Oscar
(melhor atriz, fotografia e direção), para dificultar acesso
a emprego e de uma identificação imediata destes moradores
com o crime. Ou seja: ser morador da Cidade de Deus passou a significar
traficante ou ligado ao tráfico. Só este dado já
mostra a importância de se ter cuidado quanto à proximidade
com a realidade que a ficção promove.
Mas, voltando à linguagem da série, um caminho interessante
para identificação da construção do discurso
narrativo é ater-se ao chamado ponto de vista. Se acompanharmos
os seus deslocamentos, em um processo de decupagem muito particular, é
possível demarcar os momentos de autoria e os da participação
direta dos personagens. Um momento interessante, entre o mundo da favela
e o do asfalto, é a seqüência em que Acerola, em A Coroa,
vai a um prédio, localizado fora do seu mundo. Primeiro, Acerola
afirma-se enquanto criança quando, diante da câmera de TV,
controladora da portaria, brinca, faz caretas, imaginando-se não
observado para, em seguida, recompor-se mostrando-se sério, quando
é chamado pelo porteiro. Paralela a esta excursão de Acerola,
o outro personagem, Laranjinha, é mostrado percorrendo as ruas
da favela, de forma livre, dominando o terreno em que vive. Nesta montagem,
tem-se, de um lado, a reflexão de Acerola, impressionado com as
grades do edifício e emendando um dos textos didáticos da
série: pelo dinheiro que eles gastam com segurança, você
imagina quanto dinheiro eles têm... parece prisão... eu nunca
iria querer morar aí... o problema aqui é falta de segurança...
na favela não tem porteiro e ninguém assalta... aqui é
a fronteira entre o lá e o aqui... a polícia é o
guarda de lá e estes (os traficantes, n.a.) os daqui...
Completando esta reflexão que faz no trajeto de volta à
favela, Acerola ainda fala sobre as drogas, afirmando que estas são
o tempero dos playboy (os que moram no asfalto) e que eles pagam para
poder viver melhor lá, na prisão. Ora, se pode-se creditar
este discurso á ingenuidade infantil do personagem, não
se pode descartar uma outra leitura: ele é feliz na favela e os
do asfalto vivem presos. Não é exatamente esse o discurso
de muitos da classe média, especialmente quando assaltados, quando
frágeis e impotentes diante da violência do crime que circula
pelo asfalto? Mas, na série, este é o discurso do favelado,
do garoto que consegue, por ter vontade, não aderir ao tráfico.
Ou seja, quem adere é porque quer! Neste mesmo episódio,
Laranjinha explica para o espectador, já que não está
interagindo com ninguém a não ser com quem o assiste, que
é melhor respeitar os caras do movimento... Enfim, ao adotar a
estratégia documentária, tanto pela câmera como pelo
diálogo direto dos personagens com o espectador, quase sempre apresentados
como reflexão dos dois protagonistas, revela-se como, afinal, pensam
os autores e direção da série. E eles são
moradores do asfalto, vítimas potenciais, portanto, dos crimes
vinculados às drogas.
Vale ainda
destacar que este episódio mostra um espaço caro à
educação: a escola. Na sala de aula, mais um gancho para
que os protagonistas, de certa forma, amenizem a guerra que acontece no
morro. Como já dito, Laranjinha explica para o espectador, em voz
off, porque há a disputa de espaço do morro. Neste discurso,
traça um paralelo com a estratégia de Napoleão Bonaparte,
algo que acabou de aprender na escola. Isto é, guerras não
são privilégios do tráfico, ao contrário,
o homem já aplaudiu e colocou no trono de imperador, personagens
como Napoleão. Além disso, seus feitos mereceram ser estudados
e discutidos em aula. Por que não os do tráfico se também
ali o mote é a sobrevivência, o melhor negócio? Esta
leitura, portanto, pode ser vista como uma crítica aos modelos
que a versão oficial dos livros didáticos adotam quanto
à visão do percurso histórico do ocidente e oriente.
No entanto, quando é apresentada desta forma, pode também
levar, outra vez, ao conformismo da impossibilidade da mudança
já que sempre o homem agiu desta forma.
A linha adotada neste episódio onde o asfalto é mostrado
poucas vezes, com quase 100% do episódio centrado no cotidiano
dos personagens circunscrito à favela, se acentua em O Cunhado
do Cara para se desvanecer, razoavelmente, em Carteiro e, de forma mais
radical em Uólace e João Victor. Em O Cunhado o foco narrativo
é centrado em uma característica particular do personagem
Acerola, mas que é recuperada de um dos clichês da chamada
sabedoria popular: a soberba que cresce assustadoramente com o acesso
ao poder. Neste sentido, pode ser visto como o episódio em que
a presença do tráfico e o cenário da favela são
os menos determinantes para a narrativa, apesar de desencadeados pela
relação do protagonista com um poderoso – um poder
conquistado, claro, no crime. Como bem registrou Ismail Xavier, temos
agora a diferença fundamental entre a fábula e a trama sendo
que esta última sublinha a particularidade de uma narrativa específica
da série enquanto a fábula, de caráter geral, apontaria
para muitos cenários.
Portanto, neste episódio o espectador, na verdade, acompanha as
transformações de Acerola que, investido do poder de ser
momentaneamente cunhado do chefe local, passa a agir com a crueldade e
arbitrariedade deste (ou destes). Neste percurso, chega a romper a amizade
com Laranjinha para, ao final, como uma boa fábula, ser por este
resgatado e salvo, passando, claro, pelo processo de reparação
bem ao gosto do cristianismo medieval: a humilhação diante
daqueles que havia anteriormente humilhado. Este episódio, portanto,
muito próximo de uma versão de bom-mocismo, tão cara
aos contos infantis, poderia até ser transgressor se estivéssemos
em uma sociedade em que a mobilidade social é concreta e não
apenas virtual, como acontece no Brasil. Mas, nesta estrutura tão
estratificada, parece muito difícil que um morador do asfalto,
mesmo em suas piores previsões, consiga se enxergar como alguém
que vive na favela. Neste sentido, apesar de um certo esquematismo, o
episódio Uólace e João Victor é mais denso
e rico, justamente porque caminha em um processo que alterna as distâncias
e proximidades tão possíveis entre crianças.
A estrutura é a mesma do título, ou seja, a narrativa é
tecida em contrapontos, alternando-se a insatisfação de
Uólace (Laranjinha), com a de João Victor, quanto a seus
cotidianos que, por sua vez, não são determinados pelo que
desejam. Os dois vivem situações de solidão, isolamento,
insatisfação e incompreensão por parte dos familiares.
No entanto, esta proximidade emocional não garante a interação
mesmo quando há uma proximidade física como na cena em que
dois grupos de garotos – um da favela, com Uólace, e outro
do asfalto, de João Victor, cobiçam um tênis exposto
na vitrine de uma loja. O que pensa cada personagem em relação
ao outro grupo, como não sabem nada um do outro, mas mesmo assim
já carregam seus julgamentos prontos, incluindo o medo é
o caminho explorado pela narrativa.
Assim, em primeiro plano, o olhar admirado dos garotos à vitrine.
Em ritmo cada vez mais rápido, conduzido pelo aceleramento cardíaco
que o medo provoca, a cena vai ganhando tensão até a explosão
final, quando cada um corre para um lado, embalados por um rap cuja letra
resume o que cada personagem sente. De novo, as oposições
pautadas em diagnósticos equivocados e preconceituosos são
superdimensionadas, justamente pela aceleração da música
e câmera, que enfatizam as distâncias se ampliando entre os
dois grupos. O eixo do episódio, então, é muito claro:
enquanto não se conhecer a face “verdadeira” de cada
um, o que vai acontecer é esta espaço amplo, de separação
entre tão próximos, espaço que gera medo e mantém
a solidão, a tristeza, o isolamento. Esta leitura é relevante
quando se pensa no massacre cotidiano a que a imagem da criança,
chamada menor pela mídia, é submetida. Mesmo que esta seja
uma construção tímida, como seu contorno coloca em
primeiro plano os sentimentos e identidades infantis e juvenis, temos,
finalmente, uma outra referência, alternativa objetiva às
reportagens sobre a Febem, por exemplo. Nesta perspectiva, o papel pedagógico
da série é significativo e bem-vindo.
Outro aspecto importante, presente nos quatro episódios, é
o tom leve, com situações de non sense provocadas, quase
sempre, pela ingenuidade do mundo infantil e que extraem risos do público,
criando empatia com os personagens. Esta característica é
particularmente acentuada em Carteiro, com cenas antológicas como
a descoberta da dupla Laranjinha e Acerola, de como se organizam as ruas
do asfalto. Ou, ainda, com o deslumbramento da camada intermediária
do tráfico quando se vê diante da possibilidade de perpetuar-se
na memória do local e assemelhar-se à lógica do asfalto,
ao cogitarem seus nomes batizando as ruas e vielas da favela – em
uma proposta extraída da esperteza dos protagonistas que, encurralados
por terem mentido aos integrantes do movimento, são salvos, mais
uma vez, por esta lógica que é emocional e reveladora das
fragilidades daqueles que sabem agir de forma tão dura, quando
acham necessário.
É neste episódio também, que é possível
destacar uma outra estratégia do roteiro e o papel essencial da
direção de atores. Elevados à condição
de organizadores da ação que deve resultar na identificação
dos caminhos da favela (ora ruas, ora becos, ora vielas, ora... nem eles
mesmos conseguem definir em alguns momentos o que são alguns espaços),
Acerola e Laranjinha agem quase como adultos e, fato interessante, impõem
uma estratégia que é facilmente aceita pelos adultos, em
um processo de docilidade impensado no asfalto. Agem, assim, como os protagonistas
reais instituídos pelo poder do tráfico, em mais uma manifestação
clara de quem, afinal, rege a vida nas favelas, segundo a ótica
dos autores de Cidade dos Homens. Há, ainda, situações
de conflitos, caricatas, em que se reforça o clichê das mulheres
de baixa renda que brigam por coisa nenhuma, em uma leitura pautada na
visão estereotipada do cotidiano dos pobres e favelados.
Correio repete a câmera colada, trepidante, de deslocamentos rápidos.
Há, novamente, poucos interiores, ressaltando um mundo em que tudo
acontece fora de casa, invertendo uma situação historicamente
presente na vida da classe média que, cada vez mais, recolhe-se
ao lar. Na série, as figuras familiares pouco aparecem, mesmo quando
são fundamentais para a narrativa, caso de A Coroa do Imperador.
Neste episódio, a movimentação da dupla é
acionada pela necessidade de Laranjinha levar um remédio para a
avó doente só que, não consegue, porque o tráfico,
em guerra, impede sua passagem e a de Acerola. Em pleno desalento, um
diálogo ótimo em uma das seqüências mais interessantes
de Cidade dos Homens. A dupla é apresentada em um espaço
semi-aberto, com Laranjinha sentado, desolado, enquanto Acerola equilibra-se,
brinca, mostrando a sua distância do problema do amigo. Os cortes,
rápidos, alternam os planos médios e os planos detalhes,
como os pés de Laranjinha balançando nervosamente. Diante
do argumento do amigo que se não levar o remédio sua avó
morrerá, Acerola responde que, se subirem, são eles que
morrem: E é melhor ela morrer porque você é mais jovem,
justifica. Fica difícil não concordar com ele. Mais uma
vez, a empatia com os personagens é estabelecida a partir de uma
seqüência que, de certa forma, pára o espectador pois
a câmera faz o seu papel, a montagem/edição idem e,
mais ainda, a atuação dos garotos, naturais em seus discursos
cujos valores revelam a distância que vivem do mundo adulto.
IV. O ser
brasileiro
No início
de um dos seus artigos presentes em Videologias , Eugênio Bucci
relembra dois casos de mortes diante das câmeras de TV, distantes
no tempo e no espaço geográfico. O primeiro, um suicídio,
ocorreu nos EUA, em 22 de janeiro de 1987, e a televisão americana
congelou a imagem, não mostrando o momento definitivo do disparo
da bala. O segundo, em morte também por arma de fogo, aconteceu
em 23 de maio de 1997, no interior de São Paulo: um policial atira
em um jovem de 23 anos que seqüestrara uma garota de dois anos e
a ameaçava com uma faca. A tevê não congelou a imagem.
Ao contrário, não só a exibiu reiteradamente como
se permitiu fazer uma pesquisa junto ao telespectador, para que este se
posicionasse se o policial havia agido certo ou não. O resultado,
também destacado por Bucci: 96% disseram que sim.
Entre outros argumentos para discutir as diferenças, Bucci destaca:
Em primeiro
lugar, é preciso ter em conta que ocorreu um relaxamento nos limites
do jornalismo e do entretenimento mundial no que diz respeito à
violência. A morte real tornou-se um recurso que requer menos cerimônia
da parte dos programadores. Fuzilamentos de guerra na África, moribundos
de fome, suicidas no Oriente, carnificinas, campos de concentração
na Bósnia. A propaganda da Beneton estetiza o sangue na camiseta.
A morte é um clipe publicitário, um must jornalístico.
(Bucci, E.: 2004, p.110)
Esta mudança
crucial, balizada, claro, pelo aumento crescente da violência das
ruas, (dado não ignorado no artigo citado), boa parte provocada
pela ação do tráfico (sem se discutir aqui a violência
que também gesta e embala, cinicamente, a ação do
tráfico) pode explicar, em parte, primeiro, o sucesso e a adesão
do público ao filme Cidade de Deus para, em seguida, também
aderir à Cidade dos Homens. No entanto, outros fatores, creio,
motivam este comportamento. Primeiro, por assumir-se, cada vez mais, como
um universo com regras e linguagem próprias, conformando um mundo
à parte – fato que é acentuado na série que
coloca a fronteira da beira do asfalto como os limites do mundo de lá
e o de cá -, a favela, de certo modo, passa a ser algo que desperta
curiosidade: afinal, como vivem e sobrevivem estes que a qualquer momento
podem voltar-se contra nós, os do asfalto? A esta indagação,
esclarecida parcialmente pela série, que cerca no cotidiano suas
narrativas e recorre a elementos dramáticos que podem ser identificados
pelo público, soma-se um momento da vida do país que já
não consegue mais ignorar o peso social e cultural que esta população
representa quanto à identidade do brasileiro. Se por tantos anos
a televisão reservou-se o direito de apresentar até mesmo
brancos pintados de negros – Sérgio Cardoso em A Cabana do
Pai Tomás – hoje, como uma das resultantes de um movimento
afirmativo da população negra, tal estratégia é
impensada. Neste percurso, à trilha cristalizada pela série
somam-se outras mudanças como a primeira protagonista negra de
uma novela e uma ampliação, mesmo que ainda muito pequena,
de papéis de destaque para atores negros e também jornalistas.
Esta situação, que perto da imensa dívida social
que a população brasileira branca e bem-nascida tem em relação
à maioria da população brasileira – que é
negra e mestiça, em números difíceis de oficializar
mas fáceis de perceber, basta andar pelas ruas e saber que a população
de miseráveis só fez multiplicar nos últimos anos
– já coloca a viabilização e o sucesso de Cidade
dos Homens como um marco positivo na tevê brasileira. Estes aplausos,
entretanto, não podem ignorar os aspectos discutidos neste texto,
especialmente quanto à necessidade de se romper com a passividade
com que se consome os produtos veiculados pela televisão brasileira,
especialmente pela campeã de audiência. E uma revisão
pontual, exige dos educadores a perda da inocência quanto aos discursos
formulados por uma linguagem que utiliza-se da tecnologia para construir
o seu discurso. Assim, decupar esta construção é
tarefa também do educador que pretende ir além de uma análise
de conteúdo cujo maior limite é justamente ignorar o “como”
é contada tal e tal história.
Uma proposta como esta significa compreender o audiovisual em sua gramática
e não mais valer-se dele como, por exemplo, elemento disparador
ou complemento de conteúdo dado em sala de aula. Aos educadores
cabe a tarefa de reconhecer no audiovisual, em especial na tevê,
um papel de formador e norteador de identidades que são construídas
histórica-social e culturalmente. E, como já destacou Arlindo
Machado, não se pode mais adotar uma postura que paute o diálogo
com a televisão a partir da dicotomia bem x mal. Entre tantos e
significativos argumentos que apresenta, ressalto este:
A verdade é que a televisão opera numa tal escala de audiência,
que nela o conceito de “elitismo” fica completamente deslocado.
Mesmo o produto mais “difícil”, mais sofisticado e
seletivo, encontra sempre na televisão um público de massa.
A mais baixa audiência de televisão é, ainda assim,
uma audiência de várias centenas de milhares de telespectadores
e, portanto, muito superior à mais massiva audiência de qualquer
outro meio, equivalente à performance comercial de um best seller
n área da literatura. Essa é, talvez, a contribuição
mais importante da televisão para a superação da
incômoda equação “melhor repertório/menor
audiência”: agora, mesmo a menor audiência é
sempre a maior que um trabalho de alta qualidade poderia almejar. Esse
simples fato já não justifica toda a televisão? (Machado,
A.: 2000, p.30).
Pode-se discordar de Machado, considerando, por exemplo, a efemeridade
do meio, em relação, por exemplo, à perenidade da
literatura. Ao livro, sempre poderemos recorrer; à tevê,
só se nos programarmos para tal e, nas casas de menor renda, onde
o videocassete nem sempre está presente, isto não é
possível. Mas até a este argumento a televisão, de
certa forma, deu respostas, quando o tema é uma série como
Cidade dos Homens. Calcada no sucesso do programa, colocou no mercado
o DVD permitindo recorrências que facilitam, inclusive, um re-exame
do que foi visto e, ainda, maior circulação em espaços
como, por exemplo... a escola! Outro fator que também responde
à fragilidade imposta pelo caráter efêmero da programação
é justamente o fato de ser uma série e, portanto, sustentada
pela possibilidade de ser indicada, sugerida, etc. Por último,
a série solidifica uma estratégia de produção
que, de certo modo, rompe com um modelo construído paulatinamente
pela TV Globo, destacado por José Mario Ortiz Ramos, que é
o de uma racionalizada produção em estúdios, um planejamento
e uma estrutura tecnológica que permitem também a gravação
com rapidez em locações, e usando somente a técnica
do videoteipe... (Ramos, J.M.O: 2004, p. 61).
Ou seja, recupera ou re-elabora iniciativas que resultaram em produções
como as séries O tempo e o Vento ou Grande Sertões: Veredas,
apostando, agora, em uma estratégia que traz resultados animadores
em outros países, ou seja, a articulação do cinema
e da publicidade com a tevê. E vejo positivamente este entrelaçamento
já por não entender que o processo industrial, por si só,
torna inevitavelmente negativo o produto cultural. Quero crer, ainda,
que a somatória de esforços das áreas que produzem
audiovisual neste país, pode criar fissuras por onde seja possível
dimensionar esforços que resultem no respeito à inteligência,
no estímulo à sensibilidade e em uma revisão de valores,
urgências urgentíssimas para este país devastado por
desalentadoras imagens de si mesmo: ora, grandiloqüentes, nos cobram
sermos fortes, capazes de agüentar qualquer tranco; ora, devastadoras,
revelando uma matriz sem caráter, corruptora e corruptível,
em todos os níveis sociais.
Enfim ao ser produzido em processo de parceria, ao ser uma série
que pode ser revista e teve continuidade Cidade dos Homens apresenta um
perfil que a define, inicialmente, como uma possível ocupante dos
patamares com que se constrói o imaginário cultural que,
por sua vez, é componente-chave na construção da
identidade. Reconhecê-la, portanto, como produto cultural, significa
submetê-la às questões que permeiam a produção
artística sob as quais se debruçam diversos autores. Entre
eles, destaco Muniz Sodré:
Evidentemente,
o filme, o livro ou qualquer outra forma resumida pela obra são
traduzidos à luz no interior de relações que, de
um modo ou de outro, se articulam com o mercado. Não existe produto
cultural independente de uma demanda social gerida por um mercado. Mas
isso não parece extinguir aquilo que os alemães têm
chamado de Kunstwollen ou “querer artístico”. Em outras
palavras, o desejo de sair da demagogia (movimento adulatório do
mercado) e reencontrar na atividade simbólica algo do que Tolstoi
atribuía à arte: “Não é uma atividade
lúdica em que o homem despende o excedente de energia; não
é a produção de objetos agradáveis; não
é um prazer; é um meio de reunir os homens, angariando-os
pela unidade de sentimentos”. (Sodré, M.: 1996, p.127)
Aberto está
o convite.
Referências
Bibliográficas:
BUCCI, Eugênio
e KEHL, Maria Rita. Videologias. São Paulo: Boitempo Editorial,
2004.
BUCCI, Eugênio (org). TV aos 50 – Criticando a televisão
brasileira no seu cinqüentenário. São Paulo: Fundação
Perseu Abramo, 2000.
CANCLINI, Néstor Garcia. A produção simbólica.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.
DUBOIS, Philippe. Cinema, vídeo, Godard.São Paulo: Cosac
Naify, 2004.
MACHADO, Arlindo. A Televisão levada à Sério. 2ª
ed. São Paulo: Senac, 2001.
JAMBEIRO, Othon. A TV no Brasil do século XX. Salvador: EDUFBA,
2002.
RAMOS, José Mario Ortiz. Cinema, Televisão, Publicidade.
2ª ed. São Paulo: Annablume, 2004.
SODRÉ, Muniz. Reinventando a Cultura – a comunicação
e seus produtos. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2001.
XAVIER, Ismail. “Do texto ao filme: a trama, a cena e a construção
do olhar no cinema”. In PELLEGRINI,
Tânia... (et al.). Literatura, Cinema e Televisão. São
Paulo: Senac/Itaú Cultural, 2003
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