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IMAGEM E A ESCRITA: EVOLUÇÃO E RECEPÇÃO
Dulce
Adélia Adorno-Silva - Pontifícia Universidade Católica
de Campinas – Puc-Campinas -Centro de Linguagem e Comunicação
1. O HOMEM
PRIMITIVO E A REPRESENTAÇÃO
1.1 O Insólito e a Magia
As primeiras
figuras explícitas conhecidas, conforme Leroi-Gourhan, estão
distantes de nossa época pelo menos cerca de 20 mil anos. Nessa
época também se encontram os primeiros testemunhos de identificação
da forma, que se origina na curiosidade em relação ao incomum.
O insólito (o incomum, o desconhecido), que precede a visão
refletida na forma, só existe, quando o sujeito confronta uma imagem
organizada do seu universo de relação com os objetos que
invadem o seu campo de percepção. O contato com o desconhecido,
com o mistério, levou o homem primitivo a relacionar sua curiosidade
à magia.
Além do contato com a forma insólita que o atraiu devido
ao impacto que lhe causou, como os cristais, cujo brilho deve tê-lo
impressionado, junto aos fósseis do homem primitivo foram encontrados
também os desenhos de ossos (de 35mil anos antes de nossa era)
marcados com incisões regulares, que denotam intenção
de repetição (ritmo), que representam o primeiro testemunho
de uma verdadeira figuração. Nesse momento, o homem já
possuía domínio do ritmo e da figuração. As
manifestações da arte de pintar e de esculpir (30 mil a
8 mil anos antes de nossa era), representam grupo de figuras masculinas
e femininas e de animais, principalmente o cavalo e o bisonte, que traduzem
a figura de um mito e como as figuras das cavernas, expressam um pensamento
religioso coerente e, não, figuras dissonantes.
1.2 O surgimento
da forma
Aproximadamente
em 30 mil a.C. aparecem as primeiras formas e, pelo modo como se inscrevem,
“a arte figurativa está, na sua origem, diretamente ligada
à linguagem e muito mais próxima da escrita no sentido lato
do que a obra de arte”. As primeiras figuras são transposições
simbólicas e, não, decalque da realidade: há grande
distância entre a representação e o objeto representado.
Nesse sentido, as cenas mais antigas representadas não são
descrições da realidade, mas suporte de um contexto oral
perdido (apud), portanto de caráter mitológico. O ritmo
é, portanto, anterior às figuras explícitas cuja
evolução se dá no decurso dos tempos. Deduz-se que
o conteúdo verbal já havia sido dominado e precede os esforços
de tradução manual que se processa lentamente por mais de
10mil anos. A representação icônica evolui junto com
a percepção do mundo, que se faz pelos sentidos.
1.3 Os detalhes
(o pormenor)
A evolução dos três aspectos do realismo paleolítico:
forma, movimento e pormenor – foi uma aquisição extremamente
lenta na vida das artes e tudo conduz para o ponto de coincidência
entre imagem e realidade, procurando, assim como as técnicas o
fazem, um ponto ideal em que a representação não
mais se distinguisse do modelo. Então, um mesmo estilo mantém-se
invariável por milênios e, quanto às formas, a sua
exatidão, o movimento e o pormenor são pouco realistas porque
mulheres, bisonte e cavalos obedecem a uma mesma convenção:
em torno do corpo inscrevem-se atributos de identificação.
Os contornos dorsais dos animais são quase idênticos para
todas as espécies.
1.4 O Movimento
Nos animais
ou nas figuras humanas nenhum movimento é perceptível, a
não ser por volta de 15 mil anos antes de nossa era “o realismo
de movimento já começa a aflorar. Assim, certos membros
surgem contorcidos para exprimir a deslocação, havendo inclusive
um cavalo que se encontra realmente empinado, enquanto outros trotam com
uma verossimilhança bastante aceitável,...” Para Leroi-Gourhan,
a evolução do realismo na arte paleolítica corresponde
a um processo de amadurecimento que se compara às etapas da evolução
técnica e, assim, “o acumular das inovações
gráficas ou plásticas orienta-se para uma aproximação
cada vez maior à reprodução fisicamente exata.”
Pelo fato de as figuras serem incompletas, constata-se que precisavam
da ajuda das palavras para se tornarem inteligíveis e que, desde
20 mil antes da nossa era, podiam afastar-se do realismo, até mesmo
do mais relativo, para tomarem a forma de signos não convencionais
como os de qualquer escrita.
Retomando o processo de distanciamento da natureza por meio de sua representação
sígnica e da evolução da técnica, Leroi-Gourhan
caracteriza o afastamento do homem da sua ligação com o
mundo vivo, o qual, envolvido pelo progresso, cria um mundo de processos
e objetos artificiais, mas, que, na verdade não é diferente
daquele ser primitivo que data, pelo menos, de 40 mil anos.
1.5 Ritmo
e movimento
A mobilidade,
que diferencia os animais dos vegetais, fez o homem superior aos outros
animais porque lhe propiciou maior domínio do espaço, assim
como a constituição da linguagem não instintiva,
livre e móvel, possibilitou-lhe desenvolver o pensamento e evoluir;
e ambas ofereceram-lhe maior liberdade. Embora a capacidade de configurar
o movimento tenha demorado tantos milênios depois da representação
da realidade, parece que a mobilidade sempre foi a sua estratégia
para mostrar sua superioridade sobre o mundo natural. Em meio ao fascínio
pela imagem representada, completada e integrada pela palavra, o movimento
foi tardio em sua representação, talvez porque lhe fosse
inerente, talvez porque a palavra o suprisse ou, talvez, porque o ritmo
o suprisse. A representação do ritmo nada mais é
que a signização dos movimentos do próprio corpo
e da fala, que é essencialmente rítmica.
Assim, ritmo e imagem, embora aquele seja mais primitivo, durante milênios
fizeram-se expressão da realidade, ou pela representação
figurativa ou pela fala e, depois, pela escrita. Como caminharam e qual
o significado que adquiriram no decorrer de sua evolução?
Na tentativa de responder a essa indagação, procuramos fazer
uma reflexão sobre a evolução da imagem como linguagem
produzida, não apenas apreendida pelos olhos e reproduzida pelas
mãos, sempre com o concurso da inteligência, mas como signo
técnico, cuja tessitura (sintaxe) se fez linguagem por meio da
fabricação de objetos.
2. A ALMA
APRISIONADA
2.1 A Imagem
Refletida
A imagem
sempre exerceu fascínio sobre o ser humano. Desde tempos imemoráveis
tem-se notícia de mitos e lendas marcados pela sua presença.
Não se sabe quando o homem a observou pela primeira vez, mas o
mito de Narciso mostra-nos como foi esse primeiro contato.
O mito revela a essência humana, de modo que as amarras da imagem
narcísica não foram suficientemente exemplares para que
o homem dela se afastasse. Das águas para o espelho passou muito
tempo, durante o qual o homem continuou amarrando-se à própria
imagem. Outras narrativas – A Branca de Neve, por exemplo - retomaram
esse tema, como o conto de mesmo nome, escrito por Machado de Assis, em
que o personagem despe-se diante do espelho, despojando-se de todo o jogo
de aparências exigidas pela sociedade, desnudando-se em completo
vazio. E assim, fazendo o contrário do que fez o personagem do
conto, o espelho corresponde ao limite entre a vida egocêntrica,
que se prende à própria imagem, e a vida social, palco de
múltiplas imagens de interação entre o eu e os outros.
Ele não se presta à interpretação, pois a
imagem reflete o objeto e só existe enquanto ele estiver presente
para ser refletido. A imagem especular não permanece na ausência
do objeto, por isso não é um signo (algo que representa
alguma coisa). Portanto os espelhos definem-se como prótese, ou
seja, “todo aparelho que aumenta o raio de ação de
um órgão”, podendo estender sua ação:
aumentar como fazem as lentes ou diminuir como as pinças como extensão
da habilidade de preensão manual. Eles são canais –
“Um canal é cada medium material que permite a passagem da
informação” e ressalva que informação
refere-se a sinais cuja quantidade é computável, mas não
realiza uma semiose.
Reconhecendo a magia dos espelhos, em milhares de anos de uso, Umberto
Eco a situa na possibilidade de nos vermos como as outras pessoas nos
vêem, ao fornecer uma “duplicata absoluta do campo estimulante”,
porque a imagem só se mantém em presença do campo
estimulante, ao qual poder-se-ia ter acesso, olhando o próprio
objeto. “É exatamente dessa experiência de iconismo
absoluto que nasce o sonho de um signo que tenha as mesmas características.”
2.2 A Imagem
Aprisionada
A imagem
sempre conviveu com o homem, presa no interior de seus olhos. A visão
comandada pelo cérebro, demarcou o espaço de seu domínio
(limitado?), determinando os limites do meio circundante e determinando
para ele a meta em função da presa que lhe era submissa.
Foi a partir do olhar que o pensamento se lançou no espaço
para ampliá-lo continuamente, assim como pela linguagem pôde
associar-se com outros homens para exercício do poder.
A diferença entre o olho humano e o dos outros animais para a realização
da semiose configura toda a diferença entre aquele e esses que
jamais foram capazes de representação sígnica e de
evolução. Embora o homem não tenha a maior acuidade
visual dentre os vertebrados – ela é privilégio dos
pássaros – tem maior capacidade de interpretação
visual graças ao desenvolvimento do cérebro; sabemos que
um “aparato capaz de atender ao sentido de visão altamente
desenvolvido depende tanto da representação nervosa central
que interpreta suas imagens como do aparato periférico sensorial
que recebe e desenvolve.”
Os olhos são importantes órgãos de recepção
para os insetos, capazes de interpretar os movimentos, contudo não
o são para a maioria dos vertebrados que usam muito mais o olfato
e a audição do que a visão. Somente o homem possui
excelência em sua performance visual devido ao desenvolvimento do
sistema nervoso central de coordenação e percepção.
Ele é uma criatura marcadamente visual, dotado de privilégios
visuais em relação aos movimentos, que são suplementados
pelos movimentos do pescoço, que faz com que a cabeça se
volte rapidamente para um objeto de atenção colocado no
campo binocular; serve à regulação da conduta, para
exame próximo de objetos manipulados; a bipedia como base de sua
percepção do espaço e a conseqüente liberação
das mãos também colaboraram com a visão para que
tivesse maior julgamento fino.
2.3 A imagem
liberta do olho
Como sempre
fez, do mesmo jeito que interiorizava em seus olhos as imagens recebidas
instintivamente do mundo, passou a pensar sobre elas e projetá-las
em forma de objetos que a representassem. Por esse motivo, lançou
mão da magia para, por meio da imagem, satisfazer seu desejo de
dominação. A imagem projetada para fora do olho adquiria
a forma da pessoa ou animal que se pretendia prejudicar ou, no caso do
totemismo, o objeto considerado ancestral do clã ou de uma tribo
tornava-se símbolo e era reverenciado por todos os seus membros.
Assim, ela se desprende do olho e adquire a função semiósica
de representação; o totem não é o objeto em
si mesmo, mas o seu representante. Não eram próteses, extensões
do homem, mas reuniam significados importantes, simbolizando a própria
origem da comunidade. Foi a imagem que se projetou do olho humano para
dar forma ao objeto que a representou.
A magia tinha por objetivo submeter os fenômenos naturais à
vontade do homem, proteger o indivíduo de perigos e de inimigos,
bem como conceder-lhe poderes para prejudicar o outro. Segundo Freud,
“o princípio da magia consiste em tomar equivocadamente uma
conexão ideal por uma real.” O princípio que rege
um dos procedimentos mágicos mais difundidos para prejudicar o
inimigo consiste em fazer uma efígie dele com qualquer material
adequado. O que se fizer à efígie acontecerá ao original.
Para produzir chuva, muitas vezes, os povos primitivos realizavam atos
que se assemelhassem à chuva (magia imitativa ou homeopática).
O canibalismo entre os povos primitivos assentava-se na crença
de que, devorando-se partes do corpo do inimigo, adquiriam-se poderes
ali contidos ou representados (magia contagiosa). Certamente, esse tipo
de magia corresponde à origem do signo indicial, assim como a magia
homeopática ao ícone – representação
da imagem.
2.4 A imagem liberta do objeto
A imagem,
ao libertar-se do objeto e do olho humano pela magia homeopática,
expandiu-se pelas paredes das cavernas em representações
icônicas (os desenhos) que fixavam a história do homem. Tanto
efígie quanto desenho iniciam o processo da fixação
da imagem, memória da evolução humana. Mas processos,
instrumentos e meios de representação não possuíam
mobilidade e estavam sujeitos à ação do tempo. Da
mesma forma, embora estando o objeto ausente, a representação
jamais conseguia ser verdadeira e real como a imagem especular. A evolução,
como característica principal do homem, não se satisfez
com o desenho que se direcionou para a escrita, embora tenha descaracterizado
o referente, e nem com a efígie que também possuía
pouca semelhança com o objeto representado.
A visão, tão importante para o domínio do espaço,
não ficou adstrita ao real, palpável e visível a
olho nu. Surgiram então as próteses que se multiplicaram
a partir da Renascença e nos forneceram “mais e melhor o
não-visto do universo”. Segundo Virilio, “o telescópio
projeta a imagem de um mundo fora de nosso alcance” e uma nova forma
de percepção “cria o encaixe entre o próximo
e o distante, um fenômeno de aceleração que abole
nosso conhecimento das distâncias e das dimensões.”
Esse fenômeno aconteceu com qualquer tipo de lente, luneta, microscópio.
Se o modo de ver o mundo se tornou dissociado, porque dependente de próteses
ópticas, a representação da imagem obviamente também
seria afetada e não se faria apenas como representação
real visível, mas como representação do real invisível,
ou seja, daquele que depende da interposição do instrumento
entre o olho e o objeto para ser reconhecido. Uma nova forma de ver associa-se
a novos meios e instrumentos expandindo o exercício de poder que
se dá pelo domínio do espaço.
Assim, o avanço técnico caminhou no sentido da tecnologia,
a fim de que se pensasse em um olho técnico capaz de representar
e fixar a imagem cuja percepção é modificada de acordo
com a evolução da visão instrumental. Da mesma forma,
a multiplicação das próteses visuais exige uma codificação
de imagens mais elaborada , que implica redução de tempo
de retenção pela memória, sem grande possibilidade
de recuperá-las depois. Parece que a redução da retenção
mnésica corresponde à exigência, cada vez maior, da
fixação sígnica da imagem e de seu arquivamento.
2.5 A Alma
Aprisionada
A obsessão
pela imagem é histórica: iniciada por Narciso continua até
nossos dias. Foi buscada por Alhazen, no século X, com a câmara
escura de paredes opacas com um pequeno orifício em uma das paredes
e um vidro fosco na parede oposta, onde a imagem se projeta invertida.
Nos séculos XII e XIII, o observador permanecia no interior da
câmara e olhava o lado oposto ao orifício. Quanto menor fosse
o orifício, mais nítida a imagem observada.
Segundo McLuhan, já no século XVI, o passatempo de se observarem
imagens móveis projetadas nas paredes de uma sala escura, chegava
no mesmo tempo que a escrita mecânica, com os tipos móveis.
Mas essa visão da imagem ainda era invertida e foram necessárias
as lentes para que as figuras aparecessem em posição normal.
Mesmo que as próteses tenham sido fundamentais na alteração
do modo de ver e de conceber o espaço, assim como uma etapa da
linguagem visual para a invenção de máquinas que
produzissem signos técnicos, elas não fixaram a imagem.
Os mundos distantes – micro ou macro – que se aproximavam
por meio delas somente eram fixados por meio de esquemas e desenhos.
No século XIX, Niepce, cujas experiências o levaram a entender
que era possível fixar a imagem graças à ação
dos raios luminosos, descobriu o negativo, embora não conseguisse
fixar a imagem. Em 1827, encontra-se com Daguerre em Paris. Mas só
em 1829, depois da morte do irmão Claude, que inventara o movimento
contínuo e de ter gastado sua pequena fortuna em pesquisas, associa-se
a Daguerre. Niepce morre, (1833) desconhecido, mas foi o primeiro que
conseguiu reproduzir a imagem do mundo, que pretendia fixar.
Narciso deixa de ser único, proliferando-se - pois a luz tornou
possível a fixação da imagem de cada um, como afirma
Baudelaire: “Uma loucura, um extraordinário fanatismo, apoderou-se
dos admiradores do sol.” - a sociedade, como Narciso, pára
para contemplar sua imagem trivial. Todos desejam, por meio da luz, apanhar
a própria imagem nas mãos e a luz que se fizera por si,
torna possível refletir a imagem. Enfim, por meio da luz as pessoas
podem contemplar-se indefinidamente.
O projeto sacrílego, crença que muitos possuíam no
século XIX e à qual se refere Walter Benjamin - “Fixar
efêmeras imagens de espelho é um “projeto sacrílego”.
O homem foi feito à semelhança de Deus e a imagem de Deus
não pode ser fixada por nenhum mecanismo humano.” - estava
consumado. O homem já havia expressado o pensamento por meio da
fala, que era um frágil suporte para a memória. Depois,
registrou-o por desenhos que se tornaram imotivados e arbitrários
com a escrita que se fonetizou e se distanciou do mundo. A escrita registrou
o pensamento, a vida, a história do homem, mas não a sua
imagem, que só se realizou pelo desenho que ele próprio
fez: traços que o insinuavam e o decifravam como forma e, não,
enquanto pensamento, legado da linguagem que o diferenciou dos animais.
A memória e o pensamento por meio da escrita, mesmo significando
o distanciamento do homem em relação à natureza,
é uma conservação mnemônica mais duradoura;
com o signo fotográfico, não só a memória
se altera, porque restringe a imaginação suscitada pela
escrita, mas a própria visão, porque relegada ao olho mecânico
e à luz artificial:
...a retirada
da órbita anatômica da visão, a delegação
da visão às retinas artificiais de Niepce
assumem aqui um sentido preciso. (...) Só se vêem porções
instantâneas tomadas pelo olho de
ciclope da objetiva e a visão passa de substancial a acidental(...).
Na medida em que o olhar
humano se congela, perde sua velocidade e sensibilidade naturais, os instantâneos
se tornam,
ao contrário, mais rápidos.
Em relação
às transformações que a objetiva operou, Virilio
refere-se à “padronização do olhar”,
que resulta na “proliferação de logotipos, siglas
hitleristas, silhueta chapliniana, pássaro azul de Magritte ou
boca carnuda de Marilyn” que constrói “um sistema de
intensificação da mensagem.” , porque decorrentes
da reprodutibilidade técnica da comunicação visual,
a que Benjamin aludiu em seu ensaio .
A fotografia é a apreensão metonímica do todo –
momento tomado do espaço que também se transforma. Nem passou
pela cabeça de Narciso, inebriado, em êxtase pela imagem,
que ela é apenas uma parte do todo capaz de ser percebido pelo
olho humano. Da mesma forma, a imagem fotográfica acentua detalhes,
pelo fracionamento e imobilização de um pedaço apenas
da realidade intensificado pela iluminação. A fotografia
é um detalhe selecionado pelo fotógrafo que deseja sedimentá-lo,
pois se faz testemunha ocular de fragmentos da realidade.
A imagem fixada produziu o signo fotográfico, que se prendia ao
papel representando o objeto ausente. O instante fotográfico, no
momento de sua revelação já se tornava passado, porque
o presente não se fixa. Mas um novo mundo havia sido descoberto.
Da letargia de Narciso à raiva manifestada em ação
pela madrasta de Branca de Neve e à personagem machadiana do conto
mencionado, que se esvazia diante do espelho, a fotografia alterou o modo
de ver o mundo e agir sobre ele, incluindo a concepção de
beleza, que se situa em pequenos momentos e detalhes. Talbot, em 1844,
ao publicar o primeiro livro ilustrado com fotografias, O Lápis
da Natureza, conseguindo dominar os recursos da fotografia, por meio dos
quais vê a possibilidade de apreender o belo, escreve:
Um raio
de sol fortuito ou uma sombra que atravessa o caminho, uma roble ressequida,
uma
pedra coberta de musgo podem despertar uma série de pensamentos,
de sensações e de
imaginações pitorescas.
Da banalização
da imagem cotidiana, ao encontro com a beleza única do momento
que se desfaz sem cessar, o signo fotográfico modificou nosso modo
de ver e de pensar o mundo, mostrando as veleidades da beleza fixada na
imagem e não apenas dita (falada/escrita); ao prender a alma, limitou
a imaginação, aprisionou o fato no tempo em que acontece,
tornando-o espacial, flagrante, estático, impossível à
realidade humana; diferenciou a verdade da ciência do verossímil
da arte, que procurou representar a realidade como a vemos e não
como o olho fotográfico a apreende; enfim a reprodutibilidade técnica
atenuou a ambiciosa busca humana pela eterna beleza.
A fotografia é um modo de representação que, como
a imprensa, favoreceu a multiplicação sígnica e questionou
a pintura enquanto arte (embora já existissem as cópias
manuais) destruindo o caráter sagrado da obra de arte. Essa extensão
técnica do olho humano, possibilitou também, ampliar a visão,
no sentido de perceber detalhes da realidade nunca antes percebidos, como,
por exemplo, a série de fotografias feitas em 1878 por Muybridge,
que identifica, na série que registra a seqüência dos
movimentos de um cavalo a galope, alguns, que o olho não consegue
enxergar sem o uso da máquina fotográfica. O signo fotográfico,
no entanto, mesmo diferente do signo verbal devido à inserção
do aparelho para observar a realidade, mantém algo em comum com
a linguagem humana: o registro do momento que não se perde.
Há, ainda, que considerar o valor da imagem em detrimento da escrita.
A imagem, em sua relação com o objeto ou referente, diferentemente
do signo verbal, representa-o por analogia ou seja, a representação
sígnica de algum modo remete ao referente. Assim, o desenho de
uma árvore faz com que se lembre dela, ao passo que o signo verbal
nada tem de semelhante com o referente.
A fotografia é uma técnica capaz de revelar ao homem um
mundo, até então, desconhecido (conforme Benjamin ) como
um signo mágico. Mas à reprodução exata do
real, acrescente-se outro signo técnico que incorpora mais uma
faceta do real não própria da fotografia, mas apreendida
a partir dela: o movimento.
3. IMAGEM
E MOVIMENTO
3.1 Ritmo e movimento
A mobilidade,
que diferencia os animais dos vegetais, fez o homem superior aos outros
animais porque lhe possibilitou maior domínio do espaço,
assim como a constituição da linguagem não instintiva,
livre e móvel, possibilitou-lhe desenvolver o pensamento. Ambas
ofereceram-lhe maior liberdade. Embora a capacidade de configurar o movimento
tenha demorado tantos milênios depois da representação
da realidade, parece que a mobilidade sempre foi a sua estratégia
para mostrar sua superioridade sobre o mundo natural.
A vida animal baseia-se na movimentação para busca e apreensão
de alimentos (de modo diferente dos vegetais), caracterizando-se pela
mobilidade no espaço e por movimentos mais precisos e numerosos
que correspondem ao maior desenvolvimento do sistema nervoso. A consciência
fundamenta-se na mobilidade, ou seja, na capacidade de voltar-se para
o passado e retomá-lo, por meio da percepção de imagens
ou da linguagem que dá sustentação à inteligência,
e redirecionar o futuro, a partir da liberdade de decidir dentre muitas
escolhas. Isso é consciência, é o que envolve duração.
Significa invenção, criação de forma, elaboração
contínua do novo.
O movimento faz parte da vida e ele não é uma série
de tomadas, porque não se limita e não se confina a elementos
justapostos, mas a conjuntos; assim, a percepção não
é um processo fotográfico, pois as imagens fazem parte do
mundo e a percepção não produz imagens, mas seleciona
as que têm a possibilidade de levar a ações. A percepção
humana é impregnada pela memória de imagens.
Se o homem primitivo representou o ritmo antes da figura, justamente porque
o movimento - que não era desordenado, mas regular - já
fazia parte de seu universo de significações, antes mesmo
que conseguisse expressar o real; se a representação do
ritmo seria suprida pelo verbal – a fala – (sabe-se da antigüidade
do verso que atendia à magia), e se o movimento é mais antigo
do que a própria fala, foi preciso haver a confluência entre
desenho e movimento para que a escrita se fizesse. Do mesmo jeito que
a fabricação de objetos, em seu processo evolutivo, caminhou
no sentido da técnica para interferir na natureza, houve convergência
entre fabricação e representação, aquela já
pensada e incorporada ao discurso fez com que o homem acabasse por fabricar
objetos que produzissem linguagem. Assim foi com a câmera fotográfica.
A confluência entre fabrico e linguagem não foi, apenas,
no sentido da fixação da imagem figurativa do real. A inteligência
sempre insatisfeita não se contentou em ampliar o campo de visão
do homem, no sentido de que seu espaço se estendeu para o universo
(macrovisão) ou para o micro-mundo até então desconhecido,
pois foi preciso que a máquina reproduzisse também essa
característica humana que fez com que o homem se libertasse da
vida instintiva, tornando-se senhor do espaço e superior aos outros
seres pelo pensamento. Seria preciso representar, também, o movimento
por meio de um objeto técnico. A percepção da forma,
sua representação técnica por desenhos assim como
o movimento representado, mas fixo, não lhe bastaram.
3.2 Movimento
e Percepção
O cinema
surgiu numa cadeia evolutiva que se iniciou com o movimento natural do
ser humano, cuja mobilidade se expressou na linguagem e no fabrico e teve,
há 30 mil anos, primeiramente a representação do
ritmo – ritmo é movimento – antes de ser imagem. Do
mesmo modo que a escrita significou uma confluência do pensar com
o signo verbal oral e do pensar com as mãos, o cinema significou
a confluência de duas habilidades humanas: a percepção
e o movimento. Aquela, pelo ato de selecionar imagens e este, de colocá-las
em movimento repetido uniforme, retomando os esquemas rítmicos
do homem primitivo, para oferecer a ilusão da realidade que se
move.
O filme não é mera fotografia em movimento, do mesmo modo
que o som que a ele se integra, não é simples reprodução
de ruídos e de palavras, mas deve fazer parte de uma totalidade.
Como a poesia, que deve colocar o leitor em determinado estado poético,
embora sempre possua uma idéia ou uma história, o filme
as possui não em função da inteligência, mas
da imaginação. Para o autor, é mediante a percepção
que podemos compreender a significação no cinema; um filme
não é pensado e sim, percebido. A consciência se funde
com o universo, visto que o cinema, enquanto forma (conjunto) insere-se
na intuição (concepção bergsoniana) e, seu
processo técnico, coloca-se também como metáfora
da inteligência por causa de seu caráter metonímico
A inteligência fica à vontade quando trabalha com o estático,
motivo pelo qual, para compreender o movimento, recorre a unidades imóveis
como pontos no espaço ou instantes no tempo, fora do qual o movimento
é reconstruído. Para Bergson, a inteligência compara-se
a uma câmera cinematográfica que traduz o movimento em uma
série de “construções” estáticas.
Se a percepção seleciona imagens (diferentemente do que
propõe Merleau-Ponty) que têm possibilidade de levar à
ação e se a inteligência (que é social) fabrica
objetos a partir do pensamento e da linguagem – princípio
da comunicação humana – base da consciência
que se faz pela memória, a imagem em movimento da linguagem do
cinema não é apenas o exemplo, mas a metáfora bergsoniana.
A montagem cinematográfica seleciona imagens da realidade (trabalha
com a percepção), organizadas como se configurassem o real
tal como ele é. Fotografa e cada tomada é como se fosse
o seccionamento da realidade (atividade própria da inteligência):
secciona, analisa o real, toma-o de fora, em sua exterioridade e relaciona
em unidade seqüencial as imagens percebidas. Assim, faz como se retomasse
a linearidade da fala (sucessão de sons) ou da escrita (justaposição
linear de caracteres). Mas, como as imagens são complexas, cada
tomada em si é uma unidade de memória, ou seja , um complexo
de figuras coerentes que se fazem memória: o caráter da
maioria dos filmes é essencialmente narrativo.
O cinema não é apenas percepção (seleção
de imagens) e inteligência. Ele se exterioriza, analisa metonimicamente
e relaciona as imagens, ele é sobretudo intuição,
porque é capaz de refletir sobre a própria vida e ampliá-la
indefinidamente. E, além de produzir uma experiência estética,
a partir da qual se permite produzir conhecimento, essa linguagem produzida
por um objeto tecnológico, por meio de imagens, nos transporta
para o interior da história que narra, fazendo, exatamente, coincidir
o que possui de único e de inexprimível com nossas experiências
passadas ou, a partir delas, com as expectativas em relação
ao futuro. Tanto na fotografia como no cinema, a imagem nos envolve, dispensa
símbolos (os nossos) e produz conhecimento.
O cinema corresponde a um corte na evolução tecnológica
por meio da qual, mais uma vez, o homo sapiens demonstra que inteligência
e fabricação são duas faces de uma mesma moeda, que
convergem em termos de evolução técnica e sígnica
(pensamento e intuição).
3.3 Movimento
e fruição
Para distinguir a arte pictórica e o cinema, Herbert Read define
o filme como imagem mais movimento e estabelece as seguintes diferenças:
a pintura é composta subjetivamente e o filme, objetivamente; a
pintura é uma síntese e o cinema é, essencialmente,
análise. Tanto o pintor, como o diretor de cinema, compõem
a partir de uma experiência visual: a do pintor é subjetiva
e a do diretor limita-se ao seu material. Esse é obrigado a proceder
a uma ruptura em sua percepção do mundo para analisar os
aspectos significantes que devem compor a cena. Embora o instrumento condicione
a linguagem, não é apenas dele que depende a realização
do filme. A câmera é a ferramenta do diretor e o seu meio
é a luz. Comparando ainda o filme com a escultura, declara que
o objeto é modelo para atingir um estado imóvel, absoluto;
no filme, a imobilidade dos objetos existe para se chegar a um objeto
móvel. Assim, o cinema é a arte do espaço-tempo.
Há três direções de movimento: o movimento
da câmera, o movimento da luz e o movimento do objeto fotografado.
Ele é a arte de cortes, onde cada parte remete ao todo: sua única
unidade é a continuidade.
Sobre a relação com o espectador, Read alude ao fato de
que ela se realiza pela imaginação, que é a capacidade
para perceber semelhanças entre dois objetos, de outro modo desiguais
- é o que ele denomina ingenium, que é o princípio
da metáfora (o símile, a analogia).
O cinema
produz seus efeitos mediante imagens projetadas. Essas imagens lançadas
na tela,
estão de imediato, associadas com as imagens armazenadas na memória
do espectador e,
através de suas disposições e associações,
fluem as emoções de supresa, encanto, prazer,
orgulho ou tristeza que sentimos nas salas de espetáculo.
Como a memória
envolve duração, conforme a concepção bergsoniana,
que é fluxo, portanto movimento do passado que nos impulsiona para
o futuro, o cinema desperta em nós o que estiver adormecido ou
recompõe um movimento do fluxo do passado ou desse transformado
em expectativa, ou futuro.
Para entender melhor, a ação do cinema sobre o espectador,
tomemos a comparação feita por Susanne Langer, na qual mostra
o caráter onírico do filme. Ele tem a forma de um sonho
no sentido de que nos faz lembrar o passado, mas não como faz a
narrativa verbal. Como no sonho, gera um presente virtual : a pessoa que
sonha participa do próprio sonho. No cinema, a câmera ocupa
o lugar desse sujeito; é por meio desse instrumento que nos fazemos
presentes em meio a imagens, ação e acontecimentos que constituem
a história. Diferente do sonho do qual podemos ser agentes, a câmera
e o microfone não aparecem na tela e, sim, no olho da mente; e,
em termos de estrutura, o sonho é diferente do filme, que é
uma composição poética, orgânica, dirigida
por uma visualização preconcebida em definitivo, e não,
condicionada por impulsos emocionais contingentes. O sonho, como imediatismo
da experiência, é diferente do filme que abstrai da atualidade.
A câmera é o olho do espectador (o microfone, o seu ouvido),
que substitui a pessoa que sonha de modo objetivado, porque não
faz parte da história, mas possui um desenrolar uno e contínuo.
O filme possui outra característica estética do sonho: a
natureza do seu espaço, que é móvel, e sempre uma
ilusão secundária (apud).
Mesmo com uma posição surrealista a respeito da relação
do espectador com o filme, diferente do que se poderia observar sobre
a leitura de um texto, que depende do conhecimento anterior do código
lingüístico, de sua aprendizagem e está a serviço
do pensamento, o contato com a imagem parece corresponder exatamente ao
que propõe a autora. Importa ressalvar, contudo, que, como o filme,
a parte do espectador propõe-se ao discernimento se não
através do gosto, pelo menos por meio de debates opinativos sobre
a qualidade do filme. Assim, o espectador do cinema define-se como público,
porque muitas vezes pretende produzir não apenas uma reação
emocional, mas também estética. Não é a primeira
fruição que permite a crítica.
4. A MENTE
CONTROLADA
4. 1 A Mediação
Sígnica
Os signos
fílmicos e o fotográfico não possuem, como a linguagem
verbal oral, a possibilidade de funcionar como mediação
direta entre os homens, o que a escrita, de certa forma, faz de modo mais
reduzido. Os dois signos técnicos têm em comum o anonimato
do produtor da mensagem. Não interessa a quem vê uma fotografia
ou vê um filme o sujeito que os produziu (a não ser que se
proponha como arte), mas a atenção concentra-se exclusivamente
no próprio filme e na própria fotografia. O filme, diferente
da fotografia, pode projetar o futuro ou remontar ao passado, assim como
a palavra, mas desde que a montagem seja feita no estúdio com a
ajuda de efeitos especiais. Outro traço do filme, que o difere
da fotografia e o aproxima da linguagem verbal é que ele se constitui
seqüência e, por isso, é sucessão, tempo, o que
lhe permite caráter narrativo, como o signo verbal, que imita a
realidade dos acontecimentos como sucessão, que se organizam com
coerência, mesmo que incoerentemente. Se o manejo da câmera
cinematográfica envolve equipamentos, montagens, locação,
enfim todo um aparato; não é a realidade que nos é
mostrada, a não ser em poucos filmes realizados até agora,
mas a ilusão da realidade, ou uma reconstrução possível.
Assim, o verossímil nos envolve com a ilusão da verdade
do real palpável e, como uma obra de arte fechada permite que o
fruidor retome, como na Grécia Antiga (a.C.), o efeito catársico
desse signo.
Apesar de a linguagem verbal ter sido usada durante milênios como
exercício de poder, aquela mediação entre seus usuários
a que nos referimos (o diálogo) não é mais possível
devido à técnica (manejo do instrumento que cria distância
entre emissor e receptor). A identificação do receptor com
o emissor, sujeito que produziu o discurso oral ou escrito, perde-se com
o signo técnico, mas o caráter de remeter ao passado mantém-se
na fotografia e no cinema apesar da espeficidade de cada um.
Quanto à analogia, podemos, com ousadia, substituí-la pela
relação homológica dos signos técnicos com
a realidade, porque a substituem pela imagem procurando estabelecer com
ela uma similaridade cada vez maior (como na magia simpática),
incorporando a bidimensionalidade.
A TV, enquanto representação sígnica, merece atenção
especial não só porque participa da vida doméstica
do cidadão atual, mas também por ser um signo que possui
distinção em relação aos próprios signos
técnicos, embora seja um deles, e em relação à
própria linguagem humana. Se a fotografia é capaz de representar
pela imagem estática um dado momento que pode ser retomado pela
observação posterior; se o filme mantém a noção
de tempo como sucessão de acontecimentos; se a própria linguagem
representa também pela justaposição dos sons da fala
(fonemas) a linearidade que também ocorre na escrita, a TV altera
essa face dos signos através da simultaneidade. Inúmeras
informações são apresentadas ao mesmo tempo, enquanto
os outros signos, mesmo com a possibilidade de ambigüidade, trasmitem
uma única mensagem por vez, ou relacionam-nos em linearidade temporal,
por meio da seqüência de imagens como no cinema. Outra característica
desse signo técnico é a perda da dimensão histórica,
do tempo - o passado, como da relação possível de
representação, que se faz com um dado objeto com o qual,
de algum modo, a distância se coloca através do instrumento.
Aparentemente, a TV não possui qualquer arranjo sígnico,
pois o aqui e agora é o que satisfaz, não há pois
representação, mas presentação. A expressão
“ao vivo”, pela supressão do passado, apaga a possibilidade
mnemônica dos outros signos
Vejamos, então, quais são as causas por que a televisão,
que vem se tornando referência da escrita, se fez fonte de informação
para a humanidade. Do mundo, os homens extraíam as informações
que lhes eram necessárias para a vida em comum e, depois de devidamente
processadas pelo pensamento, retornavam a ele a fim de modificá-lo.
Assim, sempre se processou essa troca feita por meio da palavra oral.
Mas essa relação comunicativa foi-se distanciando do mundo,
à medida que a técnica foi-se fazendo tecnologia, provocando
o distanciamento entre os homens no próprio processo de comunicação.
A mediação entre eles deixou de ser direta, face a face
pela palavra oral reduziu-se por causa da distância no envolvimento
comunicativo. Depois, com as linguagens visuais: a fotografia, cuja emissão-recepção
mantém uma relação de um emissor para muitos receptores,
faz-se referência do narcisismo humano e relega a relação
biunívoca da fala coloquial; o cinema industrializa a comunicação,
porque se faz linguagem produzida por equipe (empresa: a comunicação
passa a ser um empreendimento), diluindo a figura do emissor e apagando
a identidade da grande quantidade de receptores. Mas, eles ainda podem
reagir como público, porque podem emitir opinião, ao pensar
sobre o produto que recebem. Já a televisão, com as especificidades,
como o exercício de poder amplia determinadas características
do cinema, cuja linguagem foi usada a serviço do poder durante
as grandes guerras, conflitos mundiais e Guerra Fria.
Sem nos alinharmos junto aos apocalípticos ou aos integrados, em
uma posição destrutiva ou reiterativa, procuramos entender
de que modo a imagem da televisão interfere na vida humana e se
a relação que possui com os receptores de sua linguagem
altera irreversivelmente a expressão do pensamento.
4.2 A Recepção
Tátil
Segundo
Mcluhan, na obra citada, “O modo da imagem da TV nada tem em comum
com o filme ou a fotografia – exceto a disposição
de formas ou gestalt não-verbal. Com a TV, o espectador é
a tela” A imagem da televisão requer uma participação
maior do receptor porque exige que, a cada instante, “fechemos”
os espaços da trama por meio de uma participação
convulsiva e sensorial que é profundamente cinética e tátil,
por que a tatilidade é a inter-relação dos sentidos,
mais do que o contato isolado da pele e do objeto” Para reforçar
sua posição em relação à TV, Mcluhan
critica os “indivíduos semiletrados” que possuem uma
visão de mundo centralizada na informação conteudística
dos livros e que desconhecem as outras linguagens da comunicação,
colocando-se a favor da censura dos programas, por exemplo, quando comentam
sobre a violência na TV. Mas, se a televisão é um
meio inclusivo (envolve emissor e receptor), não funcionando como
pano de fundo, não seria esse contato com a imagem e não
com o conteúdo dela, que foi responsável pelo aumento da
violência no mundo moderno?
Mcluhan, constata que o advento da TV propõe uma participação
tátil na vida de tal forma que provoca uma passagem mais rápida
da infância para a vida adulta. Ao comparar o signo verbal escrito
com a imagem televisiva, sustenta que a escrita corresponde a uma extensão
do olho, ao passo que a imagem da televisão é uma extensão
do sentido do tato. Isso faz com que as crianças procurem envolvimento
total no agora, por isso são incapazes de ver longe e não
conseguem aceitar um objetivo no aprendizado ou na vida.
Se os meios de comunicação fossem unicamente extensões
do corpo seriam próteses, cuja função seria complementar
ou substituir um órgão em suas funções primeiras,
como os óculos são extensões dos olhos para aumentar
o campo de visão. Embora essa tenha sido sua função
primeira – como a do telescópio, por exemplo - o processo
de complexificação e de síntese das funções
primárias do corpo foi aumentando e acabou por estender-se para
o difícil processo de produção de linguagem. A extensão
reduziu-se ao processo de recepção com a ampliação
do ato de ouvir no caso do rádio, da telefonia, ou da visão,
mas o processo de produção fez-se de tal modo complexo que
depende de muitos instrumentos para se fazer linguagem.
Ainda sobre a recepção da imagem, Umberto Eco , citando
Cohen-Séat diferencia a recepção da imagem da recepção
verbal. A experiência com a imagem denomina-se “fortuismo
inicial”, que diz respeito à expectativa que se tem diante
da tela branca quando as luzes se apagam; em seguida, quando a imagem
se delineia, há “várias possibilidades de empenho
psicológico que vão do mais total distanciamento crítico,
(...), ao juízo crítico, que acompanha a fruição;
ao abandono inadvertido; a uma evasão irresponsável; até
à participação, à fascinação
ou (em casos patológicos) à própria hipnose. Mas
o juízo crítico só parece possível, depois
que o espectador (o crítico, no caso), vê o filme pela segunda
vez, ao passo que “as massas passam rapidamente do fortuismo inicial
a um estado de participação-fascinação.”
(apud) Para comprovar sua afirmação cita o fenômeno
da indução póstero-motriz:
(...)...se, naquela tela, uma personagem dá um murro, o eletroencefalograma
revela no cérebro
do espectador, uma oscilação equivalente a um “comando”
que o órgão central, por uma
espécie de instintiva mimese, dá ao aparelho muscular; comando
que não se traduz em ação só
porque, na maioria dos casos, o comando é mais fraco do que o seria
necessário para passar
da realização nervosa à ação muscular
autêntica.
Isso é
diferente da reação diante da palavra que, quando recebida,
põe em movimento todo um sistema semântico correspondente
a todos os significados armazenados do qual se extrai apenas aquele que
se deseja pôr em evidência num dado contexto, a imagem faz
com que se associe a ela um “todo indiviso” de emoções
e significados que suscita. Não se pode isolar apenas uma emoção
adequada ao contexto que interessa. A linguagem verbal é lógica
e a imagem, intuitiva.
O espectador raramente possui atitude crítica diante da imagem,
porque, em uma comunicação, é preciso ter consciência
da relação em que se encontra e desejar essa atitude. Isso
pode acontecer em duas situações: pública, um debate
por exemplo, ou privada, de intimidade como a leitura de um livro. Segundo
o autor, a audiência de televisão possui uma recepção
de intimidade, que, diferente da leitura, constitui uma aceitação
passiva, como uma hipnose, pois o espectador em situação
de relaxamento aceita o que lhe é oferecido.
A aceitação passiva, a relação intuitiva que
se tem com a imagem da TV resulta no conformismo apontado por Hannah Arendt
– O fenômeno do conformismo é característico
do último estágio dessa evolução moderna.
Conformismo e padronização são características
dessa sociedade em que o debate público, a mediação
pelo diálogo deixam de ser válidas para a manutenção
da pluralidade humana e da divergência de opiniões, típicas
da democracia para, abandonando a riqueza das diferenças de pensamento
– as controvérsias – guiar-se pelo entretenimento que
define o comportamento e o pensamento uniformizado.
Mas não são apenas esses pontos que fazem o novo homem que
se vislumbra, mas outros como o da passagem da mediação
dialógica entre os homens para o imediatismo e a simultaneidade.
4.3. Imediatismo
e Perda da História
Diferente
da comunicação verbal oral que é direta e atendeu,
primeiramente, a uma função mediadora, os signos técnicos
gradativamente vão produzindo o distanciamente entre emissor e
receptor. A distância entre esses dois constituintes da comunicação
aumenta na mesma proporção em que se multiplica a artificialização
dos processos de intervenção no mundo: a relação
emissor-receptor passa a ser intermediada por uma infinidade de instrumentos
e, agora, de equipamentos. Enquanto o processo de emissão de mensagens
torna-se mais abrangente, porque passa a atingir, cada vez mais, um maior
número de receptores, a comunicação visual até
o advento da televisão substitui o processo dialógico iniciado
com a fala pela comunicação massiva. Quanto maior for a
abrangência da comunicação mais difícil é
o retorno do fluxo de informação.
Uma das razões desse fato é o imediatismo que se tornou
característica atual: para ser imediata, a informação
precisa ser veloz – Tudo deve circular o mais rapidamente possível:
os veículos, os enunciados, as imagens, as informações,
os homens. “No entanto, tudo parece estar no lugar, todas as diferenças
se anulam, tudo se tornou intermutável.” - Imediatismo e
presentação não estão presentes apenas na
vida, mas estão afetando a expressão lingüística
que se torna o campo de realização das mudanças verbais
que nos marcaram. A história se rarefaz nos textos dos jovens e
neles permanecem os fatos que foram veiculados insistente e diretivamente.
O homem tipográfico que se fez a partir da imprensa, com suas relações
formais e individualistas, dá lugar ao homem massa. A tecnologia
nos afeta em profundidade.
A civilização que se construiu a partir da sucessividade
ou da seqüência linear dos fatos que têm como base a
linguagem verbal, que expressa a noção de tempo, bastante
definida em presente, passado e futuro, dá lugar à velocidade
do imediatismo e da simultaneidade. Paul Virilio esclarece:
“Ao
contrário do cinema”, dizia ainda Hitchcock, “ na televisão
não há tempo para o suspense,
nela só pode existir a surpresa”. Esta é a própria
lógica paradoxal do videograma.Uma lógica
que privilegia o acidental, a surpresa,em detrimento da substância
durável da mensagem, como
era o caso na era desta lógica dialética do fotograma, que
valorizava de uma só vez a
extensividade da duração e a ampliação da
extensão das representações.
O suspense depende da elaboração narrativa que o prepara,
organizando as seqüências de ações de modo que
o segredo que prende a atenção do leitor, não seja
revelado antes da hora. Embora os fatos narrativos se sucedam, suspendem-se
intencionalmente os acontecimentos, preparando o momento exato da revelação.
Ele é uma estratégia narrativa que faz com que o espectador
fique preso ao desenrolar da história do livro ou do filme. A surpresa,
no entanto, faz parte do tempo real. Para apreender o tempo real é
preciso anular a sucessividade da história, que acontece no cinema
como simulação do real e dar lugar à simultaneidade
dos fatos, nova lógica imposta pela intensividade revelada pela
tecnologia.
Para que a realidade seja apanhada em sua multiplicidade e abertura, o
passado e o futuro ficam restritos à era tecnológica que
os produziu. A memória fica confinada ao território do tempo
presente, que, para atender à multiplicidade e à simultaneidade,
reduz ao máximo o tempo de exposição dos fatos e
das cenas na tela da televisão. Diferente da leitura da escrita
e da observação fotográfica, como observa Paul Virilio:
Existem
numerosas afinidades entre o instante da escrita e o instantâneo
fotográfico, cada um
se inscreve menos no tempo que passa do que no tempo de exposição.
Com a impressão, já se
estabelece uma nova interface técnica em que o meio de comunicação
retém o imediato e
desacelera-o para fixá-lo em um tempo de exposição
que escapa à duração diária ao calendário
social, aprofundando a separação entre o instrumento de
transmissão e nossa capacidade de
assumir a existência presente.
Segundo
Virilio, o que estava escrito era absolutamente confiável, porque
cada leitor em seu contato individual, no momento da leitura, tinha a
impressão de que era o único a ver o que estava no texto.
A verdade, atualmente é a da imagem projetada ‘ao vivo’
ou, em tempo real. Com a tecnologia televisiva, o importante não
é apenas ver muito ao mesmo tempo, mas ver depressa.
Virilio chama a atenção para o desaparecimento do tempo
de exposição da leitura silenciosa “no olho anatômico
da câmera, provocando nos países subdesenvolvidos uma enorme
onda de analfabetismo: os jogos eletrônicos renovam a antiga sideração
leve porque, a partir de então, se trata menos de compreender do
que de ver.”
Ainda sobre a recusa da história, retomemos esse apocalipse da
história tal como o apresenta Umberto Eco:
(...) ...: enquanto a informação tradicional era, o mais
das vezes, de ordem histórica, (aquilo que
acontecera – tendo-se do que estava acontecendo notícias
imprecisas e retardadas) , o homem
da era “visual” passa a ter uma massa vertiginosa de informações
sobre as ocorrências
temporais ( mesmo porque a notícia visual envelhece, a comunicação
jornalística baseia-se na
novidade, o fato de ontem não faz mais notícia, e acontece
que o cidadão da cidade
contemporânea sabe tudo sobre quanto ocorre hoje na cidade de Nova
Iorque, mas não recorda
mais nada, nem mesmo as datas, sobre o conflito coreano). Essa perda do
senso histórico é
indubitavelmente grave, mas o que Cohen-Séat deixa na sombra é
que a informação sobre tudo
quanto “está acontecendo” é sempre uma garantia
de liberdade.
O imediatismo da informação tem suas vantagens como afirma
o próprio Eco, uma vez que “saber o que está acontecendo
faz-me sentir co-responsável pelo acontecimento.” (apud),
e o contra-argumento reforça sua idéia visto que de nada
adianta ficar sabendo de um acontecimento, dez anos depois; não
se pode modificá-lo. Essa reflexão pode ser reforçada
pela divulgação que foi feita, no Brasil, sobre os problemas
havidos no governo Collor e a conseqüente reação da
massa para que o presidente fosse deposto. Mas, deve-se lembrar que o
movimento em favor do impedimento do presidente também foi, como
a sua eleição, desencadeado pela televisão. Da mesma
forma que, na década de 70, no governo Médici, a Copa do
Mundo foi trabalhada politicamente, no sentido de fazer com que o governo
mais repressivo da Ditadura Militar ganhasse credibilidade. Portanto,
a intenção da co-responsabilidade seria legítima,
se acreditássemos na neutralidade e na imparcialidade da transmissão
televisiva, mas, por ora é uma atitude bastante ingênua,
principalmente em um país onde as emissoras de TV dependem de concessão
governamental e do mercado para o qual desejam vender produtos.
Apesar da co-participação ser importante, por exemplo, pudemos
nos posicionar em relação à guerra do Timor Leste
contra a Indonésia, não só devido às notícias
veiculadas (foram poucas), mas ao trabalho de líderes e intelectuais
timorenses que nos visitaram em busca de apoio. Além disso, tomar
uma decisão participativa (política – o mundo hoje
é a pólis) depende do conhecimento histórico, da
memória dos acontecimentos, da consciência que se fez a partir
deles para uma participação crítica e não
ingênua. No entanto, é a linguagem televisiva a que mais
afeta os jovens estudantes.
Por esse motivo, iletramento, ou com outra denominação,
o analfabetismo funcional , tem sido por isso uma característica
dos estudantes que chegam à universidade. Muitos não mais
diferenciam os atos de ler e ver denunciando-se pelo uso de verbos como
ver, assistir e mostrar em lugar de ler, relatar ou escrever. Assim, escrevendo
sobre a imprensa, muitos acabam confundindo o jornalismo televisivo com
o jornalismo impresso e seus textos, na sua maioria, circulam em torno
das informações veiculadas pela televisão.
4.4 A Televisão e a Leitura
Corrigindo
redações do Vestibular da Pontifícia Universidade
Católica de Campinas durante vários anos, observamos que
a escrita tornou-se padronizada, porque as informações que
nelas ocorrem são, quase na totalidade, as mesmas. A intertextualidade
é rara e o que mais ocorre nos textos escritos é a informação
proveniente dos textos rápidos. Procurando compreender esse fenômeno,
foi realizada a pesquisa sobre as redações e outra bibliográfica
que respondesse o motivo por que a leitura, que deveria ser uma prática
contínua a partir da alfabetização, estava desaparecendo
dos textos dos estudantes com nível médio de escolaridade
que buscavam a universidade.
Como já foi esclarecido, a televisão participa do universo
doméstico das pessoas, de sua intimidade, portanto constitui uma
fonte de conhecimento tão imediata como foi, durante milênios,
a linguagem oral. É um meio que exige percepção e
não compreensão, possui como características a aceleração,
a simultaneidade e não necessita, para ser fruída, de conhecimento
prévio de seu código como é o caso da escrita. Passamos,
então, a dimensionar, através de alguns autores selecionados,
que interferência esse meio exerce na leitura. Tomemos, em primeiro
lugar, a visão de Umberto Eco sobre o problema.
...: a prática
da TV não parece ter desviado da leitura dos jornais (os únicos
capazes de
fornecer certo tipo de informação, ligados, além
do mais, a uma espécie de ritual doméstico,
estreitamento conexo com a primeira refeição e o percurso
até o local de trabalho);..”
Fazendo
um balanço sobre as modificações nos hábitos
de leitura, Umberto Eco apresenta, em sua análise, o que se integra
no âmbito da leitura à diretividade da televisão e
o que se exclui, ou seja, o que é compatível com a derrota
apocalíptica. Do lado apocalíptico encontram-se: os magazines
populares que publicavam novelas muito semelhantes, no empenho moral e
no nível artístico, às estórias de TV; os
semanários de atualidades, derrotados no tempo pelos noticiosos
de TV; as publicações mensais de alto nível. Ao lado
dos integrados, alinham-se os jornais que se viram obrigados a “visualizarem-se”
mais, tomando o aspecto de revista; as revistas “monográficas”.
Quanto aos livros, comenta “o sucesso que sorri aos editores (...)
ao lançarem suas novas edições de obras célebres,
por ocasião da encenação de um romance”. Continuando
sua posição de intermediário entre derrotistas e
integrados, Eco refere-se à possibilidade de a televisão
provocar mudanças em “grupos humanos adormecidos em resignações
seculares e insanáveis.”
Se a TV modifica o homem tipográfico, ela não se limita
somente a uma ação apocalíptica em relação
a tudo que foi produzido por ele. Teria ela a possibilidade de levá-lo
a uma escolha consciente e crítica em relação ao
que produz e veicula? Parece pouco provável. Ao lado da divulgação
de livros, cujo enredo foi feito roteiro e transformado em novelas, minisséries
etc, muitas vezes com bastante qualidade, divulgam-se também outros
que atendem ao nivelamento do gosto, padronizado pela TV em sua constante
busca pelo aumento de audiência. No Brasil, pode-se citar O Caminho
das Borboletas, escrito e lançado pela última namorada de
Ayrton Sena, piloto de Fórmula 1, o qual, em vida e após
a morte, foi transformado pela mídia em herói nacional.
Assim, a indústria cultural empenha-se em vender, mais raramente
os produtos do gosto estético e, com mais freqüência,
os seus próprios, carregados de interesse comercial e que reafirmem
a divulgação de seus profissionais e produtos.
Uma das causas principais do nivelamento do gosto situa-se na audiência,
ou seja, “a população mundial passa, anualmente, diante
da imagem eletrônica, 300 bilhões de horas, que chegarão
a mil bilhões com a utilização industrial dos satélites
retransmissores.” Só que a “lareira das famílias”
(como a designa Umberto Eco) assistida por grande parte do globo, apesar
do caráter democrático que muitos lhe atribuem , visto que
é uma linguagem recebida passivamente [o grifo é nosso]
pela maioria da população, é produzida por uma minoria
que atende aos interesses do poder no qual se inclui.
Por outro lado, não nos parece que o fato de ser um meio de massa
faça com que a televisão se torne democrática; o
que se sabe é que a democracia se realiza pela mediação,
ou seja, por um fluxo informativo de dupla mão de direção
e não pela unilateralidade do controle centralizado da produção
informativa.
Outro fato relevante a se considerar, abandonando o ponto de vista daqueles
que colocam a televisão como gênero artístico ao lado
do cinema, teatro, poesia lírica, é que ela presta serviços
e um dos mais importantes é o serviço publicitário,
que se propõe a criar necessidades para vender produtos. E para
fazê-lo, não importa se são realmente necessários
ou não. Lança-se mão de estratégias mercadológicas
bastante sutis e inteligentes. Como vimos, em pesquisa com as redações
do Vestibular, muitos estudantes têm consciência disso, quando
comentam o fato de a Rede Globo ter lançado o candidato a presidente,
Fernando Collor de Mello, utilizando-se de estratégias adequadas
para ganhar as eleições a que concorreu. Era uma pessoa
desconhecida do grande público, com uma imagem de jovem bonito,
simpático, inteligente, sem passado que o maculasse (embora também
tivesse, foi feita a denúncia apenas contra o passado do candidato
da oposição) cujas propostas apresentadas revestiam-se do
caráter de super-herói, que salvaria a pátria dos
responsáveis pela corrupção, embora ele mesmo estivesse
com ela envolvido (os marajás não foram caçados).
Isso mostra que a televisão associa-se ao poder ou nele se insere
e, como serviço, acaba por vender o produto que lhe interessa.
No Brasil, ganhar as eleições ou destituir um presidente
requer uma estratégia mercadológica que implique uma representação
do real, a fim de atender às expectativas da grande massa de eleitores.
André Parente explica-nos que a constituição do real
para o cinema depende de uma montagem, que busca mostrar o real por meio
da ficção. Citando Baudrillard, o cinema pode se definir
como encenação da ficção como realidade, enquanto
a televisão pretende encenar a realidade como realidade, mas é
a encenação da ficção como realidade. A apreensão
da realidade por meio da ficção sempre se constituiu a preocupação
do filme, por isso, conforme o autor, pertence ao campo do imaginário,
enquanto a televisão, que pretende encenar a realidade como realidade,
é, de fato, a encenação da ficção como
ficção. A realidade como um todo é inapreensível.
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