Cleide dos Santos Pereira Sopelsa - Fundação
Universidade Regional de Blumenau - FURB
Este estudo é parte da pesquisa de mestrado desenvolvida
pela autora, que teve como propósito investigar O papel da mediação
pedagógica para a apropriação da linguagem escrita
no contexto da sala de aula de alfabetização, realizada
no ano de 2003 em duas salas de aula de alfabetização. Neste
trabalho, serão abordados, na voz das crianças, os sentidos
atribuídos à linguagem escrita, a partir das experiências
vividas no contexto da sala de aula de alfabetização e no
ambiente familiar. Algumas questões que orientam a investigação
são: O que, para que e para quem se escreve no contexto da sala
de aula de alfabetização? Quais são os usos sociais
da escrita da escrita a que as crianças têm acesso no ambiente
familiar? E, quais as implicações dessas informações
para o processo de mediação pedagógica para a apropriação
da linguagem escrita? O foco da análise é as concepções
dos sujeitos em processo de alfabetização sobre a linguagem
escrita.
A pesquisa se fundamenta teoricamente nos pressupostos da perspectiva
histórico-cultural, mais precisamente nos aportes teóricos
de Vigotski (1998; 1999), Luria (1988) e Bakhtin (1995).
Vigotski (1999) destaca o caráter mediado como uma das características
que demarcam a especificidade da atividade humana. Segundo o autor (1998,
p. 94),
todas as funções no desenvolvimento da criança aparecem
em cena duas vezes: primeiro no nível social, e, depois, no nível
individual: primeiro entre pessoas, (como uma categoria interpsicológica)
e, depois, no interior da criança (como categoria intrapsicológica).
O processo que possibilita “a reconstrução interna
de uma operação externa” Vigotski (1999, p. 74) denomina
de internalização. Esta consiste na apropriação,
pelo indivíduo, das produções culturais socialmente
construídas ao longo da história da humanidade, presentes
nos signos. De acordo com Leontiev (1978, p. 320), a apropriação
é “o processo que tem por resultado a reprodução
pelo indivíduo de caracteres, faculdades e modos de comportamento
formados historicamente”. É a partir desta conversão
das funções externas em meios de regulação
interna que o sujeito se constitui.
A linguagem escrita, de acordo com Vigotski (1999, p. 140),
é constituída por um sistema de signos que designam os sons
e as palavras da linguagem falada, os quais por sua vez, são signos
das relações e entidades reais. Gradualmente, esse elo intermediário
(a linguagem falada) desaparece e a linguagem escrita converte-se num
sistema de signos que simboliza diretamente as entidades reais e as relações
entre elas.
Luria (1988), colaborador de Vigotski, com base nos estudos que realiza
a respeito do processo de simbolização da escrita, esclarece
que, “em contraste com um certo número de outras funções
psicológicas, a escrita pode ser definida como uma função
que se realiza, culturalmente, por mediação” (LURIA,
1988, p. 145). Desse modo, para que a criança aprenda a ler e escrever,
não é suficiente nascer em um contexto social onde circulam
práticas de letramento. A alfabetização é
uma aprendizagem complexa cuja apropriação envolve um conjunto
de processos que precisam ser, necessariamente, mediados pelo outro e
pela linguagem.
Bakhtin (1995) define a linguagem como um fenômeno social, histórico
e, conseqüentemente, ideológico. Dessa forma, diferentemente
de conceber a linguagem como um universo de signos que serve apenas como
instrumento de comunicação, agindo de forma neutra, inocente,
natural, propõe a noção de linguagem como produção
social, lugar de conflito e de confronto ideológico, compreendendo
os processos que a constituem como históricos e sociais.
O autor considera o dialogismo o princípio constitutivo da linguagem
e a condição do sentido do discurso. Entende a enunciação
como produto da interação verbal e propõe que, “o
centro organizador de toda a enunciação, de toda a expressão
não é interior, mas exterior: está situado no meio
social que envolve os indivíduos” (BAKHTIN, 1995, p. 121).
Segundo ele, o sujeito se constitui na e pela linguagem, através
dos processos interativos dos quais participa. Dessa forma, tecidos numa
rede de relações onde a multiplicidade de vozes sociais
de uma dada época se entrelaça e entrechoca, os sujeitos
se constituem mutuamente e continuamente.
Neste sentido, esta pesquisa investiga, na voz das crianças em
processo de alfabetização, os sentidos atribuídos
à linguagem escrita a partir das experiências vividas no
decorrer do processo de apropriação da linguagem escrita
no contexto da sala de aula de alfabetização, e dos usos
sociais da escrita a que têm acesso no ambiente familiar.
1 METODOLOGIA
Para realizar a pesquisa sobre O papel da mediação pedagógica
para a apropriação da linguagem escrita no contexto da sala
de aula de alfabetização, a permanência no contexto
escolar estendeu-se por durante cinco meses, aproximadamente . Neste período,
houve a participação, por parte da pesquisadora, em diferentes
situações que caracterizam esse espaço social, como:
o início da aula, o lanche no refeitório, o recreio (das
crianças e das professoras), o encontro de planejamento das professoras
do 1o Ciclo de Formação e, fundamentalmente, a observação
no cotidiano das duas salas de aula de alfabetização partícipes
deste estudo.
Os dados apresentados neste estudo foram coletados por meio de entrevistas
realizadas com as crianças das duas turmas de primeiro ciclo denominadas
de Grupo A e Grupo B (pertencentes à mesma escola). A escola é
localizada na periferia da cidade e atende a uma clientela considerada
de baixa renda. Muitos dos alunos são atendidos por programas assistenciais
. Com o objetivo de não seguir uma seqüência rígida
na realização das entrevistas, estas foram organizadas de
forma semi-estruturada. De acordo com Bogdan e Bicklen (1991, p. 134),
esse tipo de entrevista possibilita “recolher dados descritivos
na linguagem do próprio sujeito, permitindo ao investigador desenvolver
intuitivamente uma idéia sobre a maneira como os sujeitos interpretam
aspectos do mundo”.
Para a realização das entrevistas foram organizados pequenos
grupos, de no máximo três crianças, com o propósito
de provocar a interlocução entre as mesmas. A composição
desses deu-se de forma aleatória, por meio de sorteios. As próprias
crianças sorteavam os nomes dos componentes dos grupos. Foram entrevistadas
quarenta e seis crianças, organizadas em 17 grupos. Dessas, dezenove
pertenciam ao Grupo A e vinte e sete ao Grupo B. Como recurso de memória
foi utilizado um gravador de tamanho pequeno. O objetivo da presença
deste aparelho foi explicado a cada grupo de crianças antes do
início da entrevista. Seu uso, no entanto, não causou muito
impacto. A maioria demonstrou curiosidade em saber como funcionava o aparelho
e em ouvir sua voz gravada. De certo modo, esse instrumento acabou por
motivar um interesse maior em participar da “conversa”.
As informações obtidas foram interpretadas com base nas
contribuições teóricas de Vigostski (1998/1999);
Bakhtin (1995); Luria (1988); Freire (1990); Smolka (1999); Soares (1998)
entre outros.
2 ANÁLISE
A seguir, são apresentados os questionamentos realizados, acompanhados
de síntese das respostas emitidas pelas crianças organizadas
em pequenos grupos. A cada questão apresentada, é acrescentada,
simultaneamente, reflexão interpretativa. Os dados (provenientes
do Grupo A e do Grupo B) obtidos através deste procedimento são
analisados conjuntamente.
2.1 OS SENTIDOS ATRIBUÍDOS ÀS EXPERIÊNCIAS VIVIDAS
NO CONTEXTO DA SALA DE AULA DE ALFABETIZAÇÃO
2.1.1 Vocês gostam de vir para a escola? O que vocês mais
gostam de fazer aqui?
Esta pergunta tinha como objetivo investigar o gosto das crianças
pela escola e as atividades que preferem realizar neste espaço.
Estaria a escrita (e a leitura) entre elas?
Em ambos os grupos, todas as crianças confirmaram que gostam de
ir à escola. Algumas deram ênfase à resposta dizendo
que “gostam muito”. Como atividades preferidas, citaram a
Educação Física (brincar de bola, futebol, basquete,
pular corda...), a aula de informática, o parque (brincar de gangorra,
escorregador, balanço...), o recreio (brincar de pega-pega), assistir
vídeo (Grupo A), fazer jogos na sala, brincar com massinha de modelar
e com o alfabeto móvel (Grupo B). E, entre as atividades preferidas,
a maioria das crianças citou, ler, escrever, fazer continhas e
estudar. Como aparece nas falas do Grupo B:
Gosto de brincar. Gosto de escrever, de pintar. (Val)
Eu gosto de brincar, de escrever. (Lea)
Eu gosto de estudar. (Joi)
Eu gosto de fazer continha. (Dav)
Eu gosto de fazer continha e trabalhar na sala. (Far)
No entanto, ao serem questionadas sobre por que gostam de escrever, algumas
crianças responderam:
Grupo A:
Ah, porque é bom. Daí se a gente não vem, daí
a gente não sabe ler e escrever, daí a gente fica burro.
(Tai)
Daí a gente vai ler, e só lê um pouquinho. (Bro)
Porque a gente tem que aprender a ler e a escrever. (Bru)
Para saber o que nós vamos fazer, lembrar. (Joe)
Grupo B:
Por que senão fica... senão a gente vai ler, daí
a gente não sabe ler nunca. (Bru)
Para a gente saber pegar ônibus. (Jul)
As palavras de Bar (do Grupo A) parecem sintetizar o que motiva a maioria
das crianças entrevistadas a querer aprender a escrever:
Por que quando a gente crescer, a gente vai ter trabalho melhor. Para
a gente passar de ano. Meu pai como ele não estudou muito agora
ele não sabe nem ler. Eu tenho que ler as coisas para ele. Ele
fez amigo invisível e eu sei o dele, porque li para ele.
Observa-se assim, que (com exceção das palavras de Joe,
do Grupo A, e de Jul, do Grupo B, que expressam a compreensão do
uso social da escrita) mais do que gostar de escrever, explicita-se nessas
falas o reconhecimento, por parte das crianças (e, certamente de
suas famílias), de que ser alfabetizado é uma condição
imposta pela sociedade atual, na qual a escrita se faz onipresente e seu
domínio necessário para executar desde as mais simples tarefas
cotidianas às mais complexas, incluindo a possibilidade de acesso
ao trabalho. Vivendo nesse contexto grafocêntrico, em que ser apenas
alfabetizado já não é suficiente, as crianças,
provenientes de famílias, muitas vezes, analfabetas, parecem ter
incorporado a idéia de que quem não sabe ler e escrever
é inferior, como se pode perceber nas palavras de Tai: daí
a gente não sabe ler e escrever, daí a gente fica burro.
Freire (1990), comenta que o fato de haver tantos homens e mulheres que
não sabem ler e escrever constitui uma “profunda injustiça”.
Segundo o autor (1990, p. IX),
Essa injustiça tem graves conseqüências, como a incapacidade
dos analfabetos de tomarem decisões por si mesmos, ou de participarem
do processo político. Desse modo, o analfabetismo ameaça
o caráter mesmo da democracia. Solapa os princípios democráticos
de uma sociedade.
Percebe-se, portanto, que viver em uma sociedade letrada não altera
o fato de que, para muitas pessoas, a escola continua a ser um dos principais
espaços onde se possibilita a apropriação da linguagem
escrita. A escola continua a ser a mais importante das agências
de letramento (KLEIMAN, 1995). Dessa forma, a mediação pedagógica
para a construção da linguagem escrita na alfabetização
pode se constituir, para crianças provenientes de contextos sócio-culturais
como o da escola investigada, “um fator de mudança de comportamento
diante do universo, que possibilita ao homem integrar-se à sociedade
de forma crítica e dinâmica, constitui uma das formas de
promover o homem, tanto do ponto de vista social, como individual”
(ABUD, 1987, p. 5).
2.1.2 O que vocês escrevem na sala de aula?
No decorrer das observações realizadas no contexto das salas
de aula de alfabetização, percebeu-se que as situações
de escrita desenvolvidas no contexto de cada uma das salas de aula eram
muito parecidas umas com as outras. No Grupo A, a maioria das propostas
envolveu a produção de textos a partir de desenhos mimeografados
e no Grupo B, apesar de uma diversificação maior, as propostas
giraram em torno da escrita de palavras com as letras móveis. Partindo
da idéia de que as propostas realizadas no contexto da sala de
aula não se restringem a essas atividades, questionou-se às
crianças a respeito de “que tipo de coisas escrevem na sala
de aula?”.
No Grupo A, a maioria das crianças falou que escrevem a data, atividades
de matemática (contas, histórias matemáticas, tabuada...),
e atividades de escrita, como: palavras, frases, histórias e jogo
de bingo. Algumas falaram do registro diário das atividades realizadas
na escola. Várias citaram a presença de atividades “estimulantes”
para a produção de textos. Como pode ser percebido nas seguintes
palavras:
A professora dá coisa para pintar. Quando a gente termina de desenhar
a professora pede para fazer uma historinha (Sab.)
... A professora também dá a folha para nós pintarmos
e depois fazer a historinha (Joi).
A gente vê filme e a gente escreve a parte que a gente mais gostou
(Bar).
Agora a professora deu uma folha para a gente pintar a árvore de
Natal. Fazer frases para o Papai Noel (Ale).
Em alguns casos, a atividade realizada pela criança é diferenciada
das demais. No caso de Gei, por exemplo, surge uma atividade que não
é citada por mais ninguém.
... Copiar o abcd... (Gei)
Algumas propostas parecem não ser bem compreendidas pelas crianças,
como no caso de Fer que tenta explicar a atividade realizada no dia anterior
à entrevista:
Ontem nós fizemos um trabalhinho do nome dos animais faltando letra
e sobre o nome do gato, do pato, do cachorro e do gatinho... era tudo
pequenininho e grandinho... (Fer)
No Grupo B, as crianças se referem a propostas de escrita parecidas
com as do Grupo A (data, calendário, palavras, nomes). No entanto,
a maioria cita também a “pauta”. Perguntei a alguns
grupos o que é a pauta e as crianças explicaram:
A gente faz o número um e depois a gente escreve. (Escrevem o quê?).
Escrevemos sobre o parquinho, a Educação Física...
Escrevemos o que vamos fazer. (Bru)
A gente escreve o que a gente vai fazer hoje. (Cris)
O que a gente come no recreio também... (Lea)
Nós escrevemos o que a gente brinca. (Dan).
Algumas crianças citam atividades que parecem ter como propósito
trabalhar com a função social da escrita.
Às vezes a gente escreve a receita da massinha. (Para que vocês
escrevem a receita?). Para trazer os ingredientes para fazer. (Bru)
Tem que trazer trigo, açúcar, farinha, sal, suco em pó...
(Let).
Observa-se que, nas falas do Grupo B, a referência ao que se escreve
na escola, presente na voz da maioria das crianças, está
vinculada a um objetivo explícito: registrar o que se faz. O envolvimento
das crianças no planejamento diário das atividades escolares
através do registro da “pauta”, faz com que a escrita
assuma a função de auxiliar na memória (função
mnemônica) das atividades que serão (ou foram) desenvolvidas,
o mesmo acontece quando as crianças registram os nomes dos ingredientes
necessários à massa de modelar. Desse modo, a funcionalidade
da escrita parece ser, mesmo que sutilmente, apresentada às crianças.
No Grupo A, algumas crianças também citam o registro diário
das atividades realizadas na escola, no entanto, para elas esta atividade
parece não fazer tanto sentido, como faz para o Grupo B.
Percebe-se, nesse grupo, a referência constante à escrita
vinculada a gravuras (desenhos mimeografados), atividade que contribui
para destituir a linguagem escrita de seu caráter social, apresentando-a
as crianças de modo artificial. Geraldi (1997) caracteriza esse
tipo de atividade como “ilustração da gravura”,
segundo o autor (1997, p. 138), nesse tipo de produção escrita
“o que se tem a dizer é uma história suscitada pela
gravura, ou seja, não se trata de contar algo vivenciado e que
por extraordinário na cotidianidade, merece, no julgamento do locutor,
ser contado para outrem”. Trata-se de ilustrar a gravura com o verbal
e dessa forma mostrar à professora que sabe escrever, o que se
torna um contra-senso uma vez que a criança está na escola
para aprender a escrever.
Observa-se, também, nos dizeres das crianças deste grupo,
certa dificuldade em compreender determinadas atividades. Qual seria o
objetivo, por exemplo, de escrever nomes pequenininhos e grandinhos, a
que se refere Fer? E, da cópia do abcd , citada por Gei? Seria
o de realizar uma atividade diferenciada devido ao fato da criança
ainda não estar lendo e escrevendo alfabeticamente? Caso fosse
este o objetivo, em que a cópia do alfabeto o auxiliaria?
Nos dados apresentados acima, percebe-se a naturalização
no contexto da sala de aula de alfabetização de algumas
atividades (data, alfabeto, palavras, “historinhas”...), como
se estas fossem as atividades e as funções principais da
linguagem. Desse modo, aflora a importância da professora refletir
sobre o que se escreve durante o processo de construção
da linguagem escrita e questionar-se a respeito do que a motiva a propor
tais atividades.
2.1.3. Para que vocês escrevem na sala de aula?
Ao serem questionadas a respeito do “para que” escrevem na
sala de aula, as crianças do Grupo A foram enfáticas:
Por que a professora bota no quadro para a gente escrever. (Ale)
Para a gente aprender melhor. (Van)
Por que a professora bota no quadro para a gente aprender mais. Mais que
a gente já tinha aprendido. (Joi)
Estas falas se repetem na maioria dos grupos e revelam que as atividades
escolares, desenvolvidas na alfabetização, nesta turma,
justificam-se pela necessidade de aprender a ler e escrever imposta pela
escola, como dizem Sab e Tat:
A gente escreve, a gente aprende mais coisas, as coisas que a gente não
aprendeu ainda. (Sab)
A gente faz para a gente aprender mais a ler, a gente aprende mais as
letras. (Tat)
Em alguns casos, o escrever é motivado pela necessidade de justificar
para a família o que se faz na escola (o que denota a preocupação
da mesma com a aprendizagem das crianças), como se explicita na
fala de Fer:
Temos que escrever muito. A gente toca escrever muito porque daí
a gente chega em casa e tem que sabe ler e escrever.
No Grupo B, a resposta da maioria das crianças se coaduna ao Grupo
A, afirmando que escrevem “para aprender a escrever e ler”.
Algumas responderam simplesmente, com ar de obviedade, “para saber”
ou “para aprender”, como pode ser percebido nos seguintes
dizeres:
Para saber o que nós vamos fazer, lembrar. (Joe)
Saber o que a gente não sabe. (Bru)
Se a escrita não tava na es... (cola?), ela não tava aqui
para ajudar a gente, a gente não sabia ler, escrever... (Tai).
Estas informações revelam que, o que motiva o escrever no
contexto da sala de aula de alfabetização (principalmente
no Grupo A) é o cumprimento de atividades escolares que tem como
principal propósito ensinar a escrever. Quando apresentada dessa
forma, percebe-se nos dizeres das crianças que, sem função
explícita, a escrita na escola “perde o sentido; não
suscita e até faz desaparecer o desejo de ler e escrever. A escrita
na escola, não serve para coisa alguma a não ser ela mesma.
Evidencia-se uma redundância: alfabetizar para ensinar a ler e a
escrever” (SMOLKA, 1999, p. 38).
Desse modo, torna-se contundente a importância da professora, ao
mediar o processo de apropriação da linguagem escrita, ter
em vista a necessidade de restituir seu caráter de prática
social. Entretanto, isto não significa abrir mão da especificidade
do processo de alfabetização, pois como adverte Soares (2003,
p. 7),
a progressiva perda de especificidade do processo de alfabetização
que parece vir ocorrendo na escola brasileira ao longo das duas últimas
décadas [...] é fator explicativo – evidentemente,
não o único, mas talvez um dos mais relevantes – do
atual fracasso na aprendizagem e, portanto, também no ensino da
língua escrita nas escolas brasileiras, fracasso hoje tão
reiterada e amplamente denunciado.
No entanto, cabe à escola compreender que a alfabetização
e o uso da escrita como prática social (letramento), “não
são processos independentes, mas interdependentes e indissociáveis”
(SOARES, 2003, p.15). Segundo a autora (2003, p.15),
a alfabetização se desenvolve no contexto e por meio de
práticas sociais de leitura e de escrita, isto é, através
de atividades de letramento, e este, por sua vez, só pode desenvolver-se
no contexto da e por meio da aprendizagem das relações fonema-grafema,
isto é, em dependência da alfabetização.
2.1.4 Quem lê o que vocês escrevem?
Saber das crianças “quem lê” o que elas escrevem
na escola, tinha como objetivo investigar, a partir de suas falas, quem
são os possíveis interlocutores de seus textos. Haveria
para “quem escrever” o que se escreve na escola? Os/as colegas,
as professoras, os familiares se constituem interlocutores da escrita
das crianças?
No Grupo A, a maioria das crianças disse que quem lê o que
elas escrevem é a professora ou são elas próprias.
Explicam:
Nós escrevemos, daí depois a gente lê, daí
a gente dá para a professora. (Tat)
A professora lê. A gente escreve no caderno. A professora foi lá
e fez de caneta o que tava errado, daí nós copiamos. (Gui)
Algumas crianças se referem ao fato de lerem para os/as colegas,
como é o caso de Sab:
A gente pega a folha vai lá na frente e lê.
Gio se refere à carta escrita pelo grupo ao Papai Noel, dizendo
com convicção:
Eu escrevo para o Papai Noel.
Eva diz que é a professora quem lê o que
escreve, e fala a respeito do elogio que ela fez a uma das histórias
que escreveu:
A professora leu, aí ela falou: Que legal a sua historinha Eva!
(E acrescenta) Se a gente não lê, quando bate o sinal, ela
lê em casa, pros filhos deles.
Somente Joi disse que quem lê o que ela escreve são as pessoas
da sua família, em casa:
O meu pai, a minha mãe e o meu irmão.
No Grupo B, as respostas, na maioria dos casos, repetem as do Grupo A.
Ao serem questionadas se “alguém lê” o que elas
escrevem na escola e, em caso afirmativo, “quem lê?”,
as crianças responderam que é a professora ou são
elas próprias. Neste grupo, a maioria das crianças está
começando a ler (por ser o primeiro trimestre do ano). Desse modo,
se referem às tentativas que fazem para ler o que escrevem para
os/as colegas, e à importância do auxílio da professora
nesse processo.
Às vezes eu tento ler para os meus amiguinhos... às vezes
a professora (referindo-se à leitura que a professora faz daquilo
que escreve). (Sab)
Ás vezes eu consigo ler um pouquinho do que eu escrevo. (Bro).
Às vezes eu não sei ler. Só um pouquinho. Mas quando
eu vou com a professora daí eu sei. (Die)
Nós lemos um pouquinho, daí a professora termina. (Cris)
Nos dizeres de várias crianças deste grupo explicita-se
que quando as pessoas da família lêem o que elas escrevem
no caderno, geralmente, o objetivo é saber o que fizeram na escola,
ou auxiliá-las a ler e a escrever. Outras, no entanto, disseram
que as mães olham seus cadernos com o objetivo delas próprias
aprenderem a ler e a escrever:
A minha mãe olha para aprender a escrever que ela não sabe,
ela ainda está no 1o Grau. (Dav).
A minha mãe também não sabe ainda. (Vil)
A minha mãe olha para aprender a escrever. (Dar)
Por meio dessas informações, observa-se que as respostas
dos dois grupos são praticamente unânimes: quem lê
o que se escreve na sala de aula é a professora. Com menor ênfase
e importância, as crianças destacam a sua própria
leitura, a dos/as colegas do grupo ou familiares. Percebe-se, no entanto,
que a leitura que se faz no ambiente familiar daquilo que se escreve na
escola reflete uma relação “escolarizada” com
a escrita. Os familiares lêem com o propósito de ensinar
a escrever, ler, ou corrigir o que as crianças fizeram na escola.
Ou seja, repete-se em casa o que acontece na escola. Em alguns casos,
as famílias não têm nem mesmo a possibilidade de auxiliar
a criança, pois se encontram na condição de analfabetas.
Desse modo, parece não haver interlocutores reais para a escrita
das crianças, já que as professoras lêem para corrigir
o que as crianças escrevem (no caso do Grupo A) ou para ensiná-las
a escrever (no caso do Grupo B). Ao analisar essa forma de relação
que a professora estabelece com aquilo que a criança escreve, Ferreiro
(2001, p. 144) diz que esta se torna, no contexto escolar, a “revisora
dos textos das crianças”. Segundo a autora, “a criança
sabe que o professor é o encarregado das correções
e entrega-lhe seu texto para que ele cumpra sua função de
revisor”.
Certamente, o sentido atribuído pelas crianças à
linguagem escrita seria outro se os textos escritos na sala de aula deixassem
de ser privados (restringindo-se à leitura da professora e em alguns
casos da própria criança, com objetivo de ensinar a escrever
ou corrigir o texto escrito) e passassem a ser públicos, com interlocutores
reais (os quais poderiam ser a própria professora, os/as colegas
do grupo, de outras salas, pessoas da escola e familiares). Possibilitar
que a criança tenha “para quem” dizer o que ela tem
a dizer através da linguagem escrita, parece ser um importante
ponto a ser considerado no processo de mediação pedagógica
para a construção da linguagem escrita.
2.2 OS USOS DA LINGUAGEM ESCRITA NO AMBIENTE FAMILIAR
2.2.1 Vocês escrevem em casa? O que escrevem?
Este questionamento tinha como objetivo remeter a atenção
das crianças para as coisas que acontecem em casa, no ambiente
familiar. Escreveriam as crianças ao estarem fora do contexto escolar?
Quais seriam as experiências de escritura vivenciadas fora desse
espaço?
No Grupo A, apenas uma criança (Gei) disse que não escreve
nada quando está em casa. As demais disseram que escrevem o alfabeto,
histórias, palavras, Blumenau (data), atividades, desenhos, a tarefa,
fazem continhas, a tabuada ou tentam escrever de “letra pegada”.
Como se pode perceber nas falas de algumas crianças:
Eu faço historinha. (Sab)
A gente escreve o alfabeto. (Gui)
O A, um monte de palavras que começam com A. (Ali)
A professora manda a tarefa e a gente escreve, daí a gente ganha
nota. (Rog)
Escrevo Blumenau no caderno, outro caderno (refere-se ao caderno que possui
em casa). Desenho. (Gio)
Eu, só continha de vezes. ( Dav)
Eu faço palavrinhas. (Kel)
Eu estudo. (Joi)
Algumas crianças imitam situações vivenciadas na
sala de aula brincando de “escolinha”, como é o caso
de Bar, de Tat e de Wil:
Eu brinco de escolinha com a minha amiguinha e eu ensino ela a escrever
e a ler. Eu leio historinha para ela. Eu peço para ela escrever
o que tem no livro, para ela copiar numa cadernetinha, daí eu passo
o alfabeto no quadro, que eu tenho um quadro grande, daí ela me
diz as letrinhas na cadernetinha, daí eu digo “não
Josiane”, daí eu falo que letra é?E ela continua.
Três aninhos ela tem. (Bar)
Nós estudamos. A gente pega um monte de livrinho que eu tenho lá,
tenho um CD com as historinhas em música (...), daí eu vou
brincar com um monte de coisas (...) Eu faço continha, tabuada,
escrevo historinha nos livros... (Tat)
Eu dou tarefa. Eu escrevo. Eu faço que sou professor da minha irmã.
(Wil)
Joi diz escrever de uma forma diferenciada das demais crianças.
Como mora somente com o pai (sem a mãe), é ela quem faz
a lista de compras da casa. Ela diz:
Eu também, às vezes, quando o meu pai não está
em casa que ele está lá trabalhando, eu também faço
a lista para ele... Aí eu vejo tudo o que está faltando
e escrevo. Eu marco arroz, açúcar. Primeiro eu marco toda
a comida, depois a limpeza, depois a limpeza da casa.
No Grupo B, as respostas das crianças a respeito do que escrevem
em casa são muito parecidas com as respostas do Grupo A. As crianças
dizem que em suas casas escrevem palavras, fazem cópias dos livros,
desenhos, escrevem Blumenau (data) e tentam juntar as letras para ler
e escrever. As falas de algumas delas são representativas das demais
crianças do grupo:
Eu escrevo Blumenau, aí eu escrevo um monte de coisas que tem no
meu livro lá em casa. Primeiro eu leio, depois eu copio. (Cri)
Lá em casa eu tenho um livro e eu copio as coisas para mim fazer
historinha. (Dan)
A minha irmã me dá o caderno aí eu copio Matemática,
Inglês, Português. (Dav)
Eu faço desenho... Blumenau. (Ala)
O alfabeto, Blumenau. (Pab)
A minha mãe quando vai fazer bolo ela faz a lista, né. Enquanto
ela ponha as coisas eu vou lá e marco. (Dav)
Nos dois grupos, a maioria das crianças diz escrever em casa. O
que escrevem, no entanto, reproduz, em grande parte das situações,
as atividades desenvolvidas na escola: escrevem histórias, o alfabeto,
palavras, a tarefa, “continhas” e cópias. Desse modo,
parece que a maioria delas (com exceção de Joi e de Dav
do Grupo B) faz pouco uso da linguagem escrita como prática social
em seu ambiente familiar, uma vez que, geralmente, as situações
de escrita em que se envolvem em seus lares reflete as atividades escolares
ou as têm como objetivo (como já apontado anteriormente).
Percebe-se, dessa forma, que a “escolarização”
da linguagem escrita no processo de alfabetização se faz
presente, inclusive, no ambiente familiar, resultado do vínculo
consensual e tradicional existente entre alfabetização e
escolarização, “considerado natural e inquestionável,
tanto para o senso comum quanto mesmo para área de educação”
(SOARES, 2003, p. 93).
2.2.2 E as pessoas da sua família escrevem? O quê?
O propósito desta pergunta era identificar se os familiares das
crianças fazem uso da escrita em suas casas e qual a finalidade
desse uso.
No Grupo A, duas crianças não se manifestaram, permanecendo
em silêncio diante deste questionamento (Fer e Gio). E outras duas
disseram que seus pais/ mães não sabem escrever:
A minha mãe não escreve nada. Ela só bota o nome
dela porque ela não sabe escrever. (Val)
Eles falaram que estudaram só até a 2a série, eles
falaram... Eles sabem ler só um pouquinho. (Wil)
A maioria das crianças observa o uso da escrita em suas casas do
seguinte modo:
A minha mãe... às vezes ela tenta saber como é que
faz remédio. (Sab)
Marca o número do telefone. (All)
Escreve Matemática. (Gui)
Escrevem um bilhete para mim ir comprar coisas. (Gei)
A minha mãe coloca eu e a minha irmã, daí tem um
quadrinho lá, daí escreve, daí eu leio tudo. (Tat)
Ela (mãe) escreve historinha, assim, sempre alguma coisa que eu
consiga ler. (Lea)
Às vezes quando leva bilhete para casa para assinar. (Ale)
O meu padrasto escreve um monte de coisas de violão. O meu irmão
também. (Kel)
Eu vejo o meu pai escrevendo para o trabalho. As coisas que meu pai e
minha mãe tem que escrever para a escola (os pais estudam). E eles
têm que fazer o que está na minha cadernetinha... Por exemplo,
se eu for faltar, tava com dor de cabeça. Aí eles escrevem:
Professora, (...) Fer não pode ir à aula porque está
com dor de cabeça. (Fer)
Eu moro com a minha avó e com as minhas tias... A mais nova escreve
poesia, ela tem um livro cheio de poesias, só poesias ela escreve.
E a outra mais velha, a mais nova pede para ela escrever música...
ela pede para fazer cartinha para mandar para o namorado... (Bar).
No Grupo B, seis crianças disseram que não vêem ninguém
escrever fora do ambiente escolar (All, Dan, Cri, Dav, Vil e Ale). As
demais falaram que em suas casas, seus pais, mães, irmãos
e irmãs escrevem para resolver problemas do dia-a-dia (bilhete
para a venda, contas do mês), para assinar bilhetes (da escola),
ou ajudar a fazer tarefas. Algumas também disseram que seus familiares
ensinam-nas a escrever nomes de pessoas da família, as letras do
alfabeto ou fazem desenhos para pintar. As falas a seguir, exemplificam
algumas das situações de escrita que as crianças
do Grupo B presenciam em suas casas:
A minha mãe faz bilhetinho e manda eu lá comprar as coisas,
lá na venda... A minha mãe tem um caderno ela faz continha.
(Bru)
O meu pai escreve coisas para mandar comprar. (Juc)
Eu aprendi a ler com meu pai na cartilha, lá na Assembléia
de Jeová. Eles dão uma cartilha que me ajudou a ler. (Joe)
O meu pai. Às vezes faz as contas, assim, do trabalho, do dia,
do mês. (Lea)
Eles escrevem um monte de coisas só que eles não falam para
mim o que está escrito. Eu vejo, só que eu não sei
o que está escrito. (Bre)
Só a minha irmã, mas eu não fico perto porque a minha
mãe não deixa. (Tai que está no mesmo grupo pergunta,
justificando) - Porque às vezes é tarefa, né? - É.
(Sab).
A minha cunhada. Ela escreve, assim, bilhetinho para mim ir no bar comprar
coisinhas. Daí ela escreve, só que eu não sei ler.
Daí eu esqueço até chegar lá no bar. Daí
eu não sei o que está dizendo lá. (Jul)
Observa-se, a partir destas informações que a necessidade
do uso da escrita se faz presente na maioria dos lares, no entanto, as
crianças, geralmente, não são envolvidas nessas atividades
diretamente. Além disso, o número de crianças que
não presencia atos de escrita realizados por pessoas de suas famílias
é significativo: quatro crianças no Grupo A e seis crianças
no Grupo B. Este fato confere importância ainda maior às
situações de escritura desenvolvidas no contexto da sala
de aula de alfabetização, reforçando a idéia
de que para muitas crianças que estudam na Escola Esperança,
esse pode se constituir num dos únicos espaços em que lhes
será possibilitada a interação com a linguagem escrita.
2.2.3 Quais são os materiais escritos presentes em sua casa?
Ao fazer esta pergunta foram exemplificados os materiais escritos como
sendo livros, revistas, jornais, gibis, listas telefônicas, entre
outros. Como as respostas provenientes dos dois grupos tiveram pontos
comuns apresenta-se a síntese (conjunta) dos materiais escritos,
presentes nas casas das crianças do Grupo A e do Grupo B.
A maioria das crianças diz possuir, listas telefônicas, livros
didáticos (doados pela escola ou usados por irmãos mais
velhos) e cadernos usados. Várias (quatro do Grupo A e seis do
Grupo B) disseram não possuir nem um tipo de material escrito em
casa a não ser papéis onde escrevem. Como algumas crianças
confirmaram a presença de jornais, revistas e livros em seus lares,
questionou-se a respeito do uso que fazem destes. As falas registradas
a seguir exemplificam as respostas obtidas:
Para ler e ver as notícias que tem. (Bru)
Para ler. Para ver o que, que tem. (Sab)
Algumas vezes a minha mãe lê aquilo lá que está
escrito e eu circulo com lápis e daí eu escrevo. (Tai)
No decorrer das entrevistas, as respostas de duas crianças me surpreenderam
e, por considerar que elas podem remeter ao que se vive nos lares de muitos
sujeitos que estudam na escola investigada, decidiu-se lhes dar destaque
especial. A primeira é de Bre (do Grupo B), a respeito do uso que
se faz dos jornais e revistas em sua casa:
Só não tem jornal porque o meu cunhado pegou. (Ele pegou
para quê?) Ele foi lá em casa e pegou. A minha mãe
falou que não tinha mais, porque ela tava precisando do jornal
para colocar na pia, para cobrir as panelas, porque vinha um monte de
barata lá em casa. A revista também, o pai precisa para
botar no carro, para não sujar o chão.
A outra é a de Gio (do Grupo A) a respeito da presença de
livros em sua casa.
Eu tinha livro na minha casa só que a minha mãe jogou fora...
Quando eu sair da escola a minha mãe vai pegar meus cadernos e
jogar tudo fora... Porque ela não gosta dos livros da escola...
Meu pai também não gosta. Ele acha feio, aqueles bichos...
Mas, meu pai pega os livros para olhar, se ele vê uma coisa ele
joga fora.
Percebe-se, desse modo, que o acesso da maioria das crianças a
materiais escritos, é restrito. Poucas possuem em sua casa livros,
revistas, jornais, revistas em quadrinhos ou literaturas infantis. As
que se referem à leitura realizada por alguém da família
explicitam que o objetivo desta é principalmente ensiná-las
a ler. Diante dessas informações, a idéia de que
a escola, neste contexto, representa a principal instituição
responsável pela apropriação da linguagem escrita
por parte das crianças se torna ainda mais contundente.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os dados apresentados apontam que as crianças partícipes
deste estudo são provenientes, na sua maioria, de ambientes familiares
onde seu acesso a práticas sociais de uso da linguagem escrita
é bastante reduzido, ou praticamente inexistente. Denotam, dessa
forma, o modo desigual com que o letramento, considerado, pelo menos nas
modernas sociedades industrializadas, “um direito humano absoluto,
independente das condições econômicas e sociais em
que um dado grupo humano esteja inserido” (SOARES, 2001, p. 120),
está distribuído entre a população, e foi
efetivamente alcançado por grupos sociais pertencentes a comunidades
como a que se situa a escola investigada. Mesmo assim, as falas das crianças
apontam a intenção da maioria das famílias em contribuir
no processo de alfabetização de seus filhos/as. Algumas,
no entanto, são impossibilitadas de fazê-lo pela condição
de analfabetismo ou pouca escolaridade, o que não significa que
não façam exigências com relação ao
cumprimento das atividades escolares por parte de seus filhos/as, ou não
se preocupem com esse processo.
Em decorrência desse quadro, reafirma-se a idéia de que a
escola é, para grande parte dessas crianças, um dos poucos,
senão o único espaço que possibilita a interação
destas com a linguagem escrita, haja vista que apenas o contato visual
com portadores de textos (em casa ou na rua), não garante a aquisição
dessa importante forma de linguagem. Entretanto, paralela e simultaneamente
à distribuição desigual do direito ao acesso ao letramento
presente nessa comunidade, persiste na escola, principalmente no contexto
da sala de aula do Grupo A, uma concepção restrita de linguagem
escrita, que a transforma em uma atividade exclusivamente escolar, destituindo-a
de seu valor sócio-cultural. Confirmando, desse modo, o que diz
Kleiman (1995, p. 20), a respeito de que,
a escola, a mais importante das agências de letramento, preocupa-se,
não com o letramento, prática social, mas com apenas um
tipo de prática de letramento, a alfabetização, o
processo de aquisição de códigos (alfabético,
numérico), processo geralmente concebido em termos de uma competência
individual necessária para o sucesso e promoção na
escola.
Dessa forma, ao mesmo tempo em que afasta a escrita de seu uso nas práticas
sociais, desconsidera, também, o fato de que a alfabetização
é um processo fundamentalmente discursivo. Ao proceder desse modo,
“a escola tem ensinado as crianças a escrever, mas não
a dizer – e sim, repetir – palavras e frases pela escritura”
(SMOLKA, 1999, p. 112). Assim, homogeiniza os grupos e ignora as diferenças
sócio-culturais, privando as crianças de dizerem, através
da escrita, a sua palavra, pois “não convém que elas
digam o que pensam, que elas escrevam o que dizem, que elas escrevam como
dizem (porque o ‘como dizem’ revela as diferenças)”
(SMOLKA, 1999, p. 112).
Concluindo, pode-se perceber, a partir da interpretação
dos sentidos que as crianças atribuem à linguagem escrita,
questões importantes a serem consideradas no processo de mediação
pedagógica. Entre elas, destacam-se: a) a importância de
reflexão sobre o quê se propõe que a criança
escreva, rompendo com a naturalização de determinadas atividades
de escrita durante o processo de alfabetização; b) a necessidade
de compreensão acerca de para quê se propõe que a
criança escreva o que ela escreve, atribuindo sentido ao ato de
escrever; c) a importância da criança ter para quem dizer
o que ela tem a dizer através da linguagem escrita; d) a necessidade
de se conceber a alfabetização como prática social,
aproximando o modo como a linguagem escrita se faz presente no contexto
da sala de aula de seu uso nas práticas sociais. Ou seja, reafirma-se
a necessidade de significação social da linguagem escrita
no contexto das salas de aula de alfabetização.
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