Elaine Fernanda Dornelas Souza - Faculdade de
Ciências e Tecnologia/UNESP- Programa Mestrado em Educação/CAPES
Ana Archangelo, - Orientadora
Introdução
Atualmente muito se discute sobre Educação
Especial, mais especificamente questões relacionadas à Educação
Inclusiva.
De acordo com Omote (2004):
A última década se caracteriza como aquela que definitivamente
trouxe a discussão sobre as questões relacionadas a deficiências
e pessoas deficientes para o cenário da educação
de um modo geral. Em alguns poucos anos, os educadores em geral e vários
segmentos da sociedade envolveram-se profundamente em debates sobre temas
até então pouco familiares a eles, relativos a direitos
e acesso a oportunidades de pessoas deficientes e de outras com características
acentuadamente diferentes de pessoas comuns.
Daí, frequentemente passa - se a idéia de que, na década
de 90 do século passado, iniciaram-se movimentos em prol da inclusão
de pessoas com necessidades especiais. Na verdade, as sociedades humanas
vêm tornando-se progressivamente inclusivas há longos séculos.
A história das conquistas humanas revela uma evolução
inalcançável e imaginável para qualquer outra espécie
animal (Omote, 2004, p. 02).
Desse modo, as questões relativas à Educação
Especial não só proporcionam grandes discussões como
também se transformam em eixo temático para muitas pesquisas
relacionadas ao campo da Educação Especial. É o caso
desta pesquisa que procura entender a psicodinâmica do processo
de avaliação e encaminhamento do aluno deficiente visual
aos atendimentos especializados.
Durante muito tempo, o deficiente foi colocado à margem da educação
recebendo atendimento separado ou simplesmente sendo excluído do
processo educativo que tinha como base princípios de normalidade
. A Educação Especial, mesmo quando existente, mantinha-se
apartada em relação à disposição dos
serviços educacionais, mantendo assim, o aluno deficiente excluído
de uma vida social ampla.
Há muito tempo, deparamo-nos com teorias e práticas sociais
de segregação. Pessoas com alguma “deficiência”
eram vistas como “doentes” e “incapazes”, sempre
colocadas em situação de desvantagem em relação
à grande maioria. Percorriam o caminho da exclusão, tendo
muitas vezes, na justificativa para esse tipo de segregação
a crença de ser esta a melhor opção para o seu bem-estar,
indicando o ambiente segregador como um “benefício”
ao desviante que deveria assim conviver com seus iguais, protegendo-se
do mundo dos “normais”.
Observando a evolução da visão social sobre a deficiência,
percebe-se que um longo caminho foi trilhado desde que o deficiente foi
percebido como ameaçador, atendido como segregado e vitimizado
por preconceitos e estereótipos. Atualmente tentativas de superação
dessas concepções que estão sendo debatidas e edificadas
com base nos princípios democráticos de Igualdade, Liberdade
e Respeito à Dignidade que fundamentam a Educação
Especial, pois de acordo com a Política Nacional de Educação
Especial (1994), “a educação deve ser, por princípio,
liberal, democrática e não doutrinária”. Dentro
dessa concepção o educando é, acima de tudo, digno
de respeito e do direito à educação de melhor qualidade.
Desse modo, a proposta da Educação Especial incorpora-se
gradativamente neste cenário transformador apresentando modificações
conceituais e práticas objetivando propiciar aos indivíduos
com deficiência condições de vida semelhantes às
que são oferecidas aos demais indivíduos. Mas, ainda que
um longo caminho já tenha sido percorrido nesse sentido, as transformações
práticas não se dão no mesmo ritmo das transformações
conceituais e vice-versa.
Assim, esta pesquisa aborda a identificação as práticas
de atendimento do deficiente visual analisando sua trajetória desde
a avaliação até o encaminhamento ao atendimento especializado.
Justificativa
De acordo com as Políticas de Educação Especial,
o enfoque utilizado atualmente é totalmente contrário ao
modelo clínico anteriormente adotado, ou seja, a avaliação
atual está voltada aos aspectos pedagógicos, procurando
identificar as barreiras que estejam impedindo o progresso educativo dos
alunos deficientes. Essa avaliação de cunho pedagógico,
leva em consideração todas as variáveis que incidem
sobre a aprendizagem e quem a realiza são os profissionais que
acompanham o aluno no âmbito escolar.
Em relação a essa questão, parece prevalecer uma
dicotomia: de um lado, uma abordagem totalmente voltada ao modelo clínico,
com avaliação realizada por especialistas externos à
instituição escolar e que atribui a responsabilidade das
eventuais dificuldades do sujeito exclusivamente a ele. De outro, contrária
à anterior, uma avaliação voltada totalmente aos
aspectos pedagógicos, realizada por profissionais que atuam dentro
da escola, que acompanhem o aluno, mas que não necessariamente
estejam habilitados para a avaliação mais global. Cabe reiterar,
que embora seja citado nas Diretrizes Nacionais para Educação
Especial na Educação Básica (2001. p. 34-35) que
“quando os recursos existentes na própria escola mostrarem-se
insuficientes para melhor compreender as necessidades educacionais dos
alunos e identificar os apoios indispensáveis, a escola poderá
recorrer a uma equipe multiprofissional”, no caso o aluno somente
poderá usufruir desse apoio se os profissionais das escolas considerarem
este artifício necessário, e não como um complemento
de rotina da prática avaliativa.
Segundo este critério, a avaliação do educando com
deficiência visual pode ficar prejudicada, principalmente nos casos
considerados de baixa - visão ou visão subnormal, onde as
avaliações oftalmológicas e ortóptica são
imprescindíveis para a elaboração de atividades adequadas.
Diante dessas observações, o que se questiona neste trabalho
é a maneira como tem se dado à avaliação e
o encaminhamento do educando deficiente visual total e de baixa- visão,
ao atendimento especializado (Salas de Recursos e Escola de Educação
Especial), no município de Presidente Prudente.O Intuito é
desvelar “o sentido, o que significa esse aluno nas instituições,
ou seja, o que é relevante no processo de avaliação
e encaminhamento do aluno deficiente visual que faz com que o aluno deficiente
visual seja encaminhado para uma determinada instituição
e não outra.
Metodologia
A pesquisa envolve a investigação de três
eixos: O primeiro, com levantamento de documentos oficiais relacionados
às Políticas de Educação Especial voltada
ao atendimento de deficientes visuais. O segundo, de coleta de dados,
através entrevistas com profissionais que atuam na triagem, avaliação
e encaminhamento e na área de atendimento de alunos com deficiência,
assim como os responsáveis pelas instituições de
ensino voltadas ao atendimento dessa demanda. E o terceiro que consiste
na análise interpretativa dos dados coletados através do
método análise institucional.
A opção pelo método de análise institucional
nesta pesquisa, incide no fato do trabalho em psicologia institucional
requerer “uma investigação ampla e profunda que permite
configurar mais claramente as técnicas e critérios a empregados,
tanto como o caráter do problema que se tem a enfrentar”.
(BLEGER, 18984, p. 46).
Assim, de acordo com o autor, “não se trata em psicologia
institucional, de um campo no qual há de “aplicar”
a psicologia, mas sim de um campo no qual há que se investigar
os fenômenos psicológicos que nele têm lugar. (BLEGER,
1984).
Portanto, através da abordagem interpretativa será investigado
o significado do percurso do aluno desde sua avaliação até
o encaminhamento. E, principalmente, será discutido até
que ponto tal trajetória é um facilitador ou não
do processo de desenvolvimento do aluno deficiente visual.
Caracterização
Presidente Prudente dispõe de três modalidades de atendimento
especializado para alunos com deficiência visual: uma na modalidade
de Escola de Educação Especial e as outras duas, na modalidade
de Sala de Recursos.
Caracterização das modalidades:
- Escola de Educação Especial – vinculada à
entidade mantenedora Associação Filantrópica de Proteção
aos Cegos e subsidiada por recursos Estaduais (convênio com a Secretaria
de Educação do Estado de São Pulo) direciona o atendimento
especializado prioritariamente aos alunos com deficiência visual
e/ou múltipla deficiência nos níveis da educação
infantil e ensino fundamental. Oferece atendimento especializado na modalidade
de Sala de recursos e Escola Especial.
Atualmente, dos 70 usuários deficientes visuais que freqüentam
a Associação Filantrópica de Proteção
aos Cegos, 27 são cegos e 43 tem baixa visão).
Destes 70 usuários, 45 estão matriculados na Escola de Educação
Especial.
Destes, 45 alunos matriculados na Escola de Educação Especial,
10 são cegos, sendo 3 crianças e 7 adultos e os outros 35
alunos tem baixa visão.
Na sala de recursos da Escola de Educação Especial estão
inscritas 07 crianças que são matriculadas na rede regular
de ensino.
A escola conta com 07 profissionais, sendo: 1 diretora, 1 coordenadora
pedagógica, 5 professores sendo 1 com habilitação
específica em educação especial e um de educação
física, conta também com estagiários do curso de
pedagogia. Recebe também o apoio dos funcionários contratados
pela Associação Filantrópica de Proteção
aos Cegos que é uma assistente social, uma psicóloga,1 (uma)
atendente e 1 (uma) cozinheira.
As atividades desenvolvidas são: estimulação precoce,
estimulação visual, braile, orientação e mobilidade,
A.V.D. (atividades da vida diária) entre outros projetos oferecidos
através pela Associação dos Cegos.
O encaminhamento dos alunos matriculados nesta escola dá-se através
de contato dos pais coma instituição, pela iniciativa de
funcionários que conhece algum familiar da pessoa com deficiente
e algumas vezes por solicitação/encaminhamento da creche
ou escola regular que a crianças estuda.
- Sala de Recursos da Rede Estadual: subsidiada por recursos
do Estado, localizada nas dependências de uma Escola da Rede Estadual
de Ensino. Oferece atendimento aos alunos deficientes visuais (cegos e
de baixa - visão) matriculados no ensino, fundamental e médio
da rede regular de ensino, do município de Presidente Prudente
e região. O atendimento é ofertado em períodos alternados
ao que o aluno esta matriculado no ensino regular. Atende um total de
26 alunos, sendo 6 cegos e 20 com baixa visão.
O atendimento, oferecido nesta sala de recursos dá-se através
de apoio na transcrição de textos em braile, textos ampliados,
Sorobã e eventualmente atividades de orientação e
mobilidade. São responsáveis pelos atendimentos duas professoras
especialistas em deficiência visual.
- Sala de Recursos da Rede Municipal: vinculada à
Secretaria de Educação do Município de Presidente
Prudente - SEDUC, oferece atendimento especializado aos alunos deficientes
visuais cegos e de baixa visão na modalidade de sala de recursos.
Atende prioritariamente alunos do ensino fundamental matriculados na rede
municipal de ensino. Localizada nas dependências de uma escola da
rede municipal, iniciou o atendimento especializado no primeiro semestre
de 2005. O objetivo da abertura desta sala é a ampliação
de acesso ao atendimento especializado aos alunos deficientes visuais
matriculados na rede regular de ensino do município, de maneira
a garantir a inclusão desse aluno .
Atualmente são atendidos 05 alunos com baixa visão na sala
de recursos. Com atendimento semanal em dois dias da semana em períodos
alternados. Nos demais dias da semana o professor responsável por
esta sala de recursos, realiza o trabalho de itinerância, através
de visitas as Escolas da Rede Municipal de Ensino.
O atendimento desta sala de recursos baseia-se em oferecer apoio escolar
aos alunos com baixa visão matriculados na rede municipal de ensino
atendendo a necessidade específica de cada aluno e de oferecer
apoio aos professores das escolas municipais através do serviço
de itinerância auxiliando-os no esclarecimento de dificuldades em
relação ao atendimento educacional do aluno deficiente visual.
Análise
Através de entrevistas e análise documentais
realizadas foi possível reunir elementos que passam a subsidiar
as discussões acerca das propostas da Política de Educação
Especial, Documentos Oficiais e Leis versus Práticas diárias
de atendimentos das instituições especializadas na modalidade
de Educação Especial, sejam Salas de Recursos ou Escola
de Educação Especial.
O que podemos pontuar em relação a essas três modalidades
de atendimento é a maneira divergente de como essas práticas
são efetuadas, embora atendam as especificações da
Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional, nº
9.394/96 . Ocorre que, de maneira implícita, é exigida do
aluno deficiente visual exclusividade a uma das opções de
atendimento, limitando dessa forma o acesso a outras modalidades. Isso
significa que, uma vez inserido numa das opções de atendimento,
a inserção numa segunda fica impedida, pois burocraticamente,
o aluno não pode ter duplicidade de atendimento , impedindo dessa
forma, um atendimento global às necessidades educacionais especiais
dos alunos deficientes visuais.
Outro ponto relevante passível de discussão diz respeito
à ênfase dada à preocupação com a manutenção
financeira dos atendimentos. Nas entrevistas concedidas pelos profissionais
que atuam diretamente com os alunos deficientes visuais, fica evidente
que a preocupação com atendimentos de qualidade compete
com a diária necessidade de pensar alternativas de sobrevivência
financeira da própria instituição, quando estas não
são as escolas públicas.
Outra questão passível de análise é em relação
a evidente preocupação que os técnicos da Escola
de Educação Especial e da Sala de Recursos do Estado têm
em relação à matrícula/ inscrição
do aluno deficiente visual nos respectivos atendimentos especializados,
que implicitamente favorece uma disputa entre instituição
nas quais os interesses dos alunos deficientes visuais não são
priorizados.
Apesar do cenário desfavorável aos interesses educacionais
dos alunos deficientes visuais neste município, é importante
destacar que as propostas de atendimento especializado oferecido pela
SEDUC - Secretaria Municipal de Educação – Presidente
Prudente tem-se destacado neste contexto através de iniciativas
direcionadas aos alunos da Rede Municipal de Ensino, através de
capacitação de professores para o atendimento especializado,
campanhas de mapeamento de alunos com dificuldades visuais, e na adequação
da sala de recursos em relação as determinações
oficiais da proposta de Inclusão.
Enfim, é importante ressaltar que, embora em andamento, ainda há
importantes questões a serem discutidas nesta pesquisa. Mas já
é possível inferir que conformidade legal com as políticas
educacionais não se traduz, necessariamente, a uma conformidade
com os princípios e orientações ali defendidas. Este
parece ser o caso da maioria dos atendimentos dos alunos deficientes visuais
em Presidente Prudente.
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