Juliana Pereira de Albuquerque Storniolo - UNIMEP
Maria Nazaré da Cruz - Orientadora
I – Apresentação
Seja pela constatação de altíssimos
números de analfabetos em nosso país, pela exigência
da sociedade no nosso dia-a-dia, ou pelos próprios desafios que
a educação ainda não conseguiu superar, o processo
de ensino da leitura e escrita tem sido cada vez mais valorizado e, com
isso, tem despertado estudos diversos sobre vários métodos
de ensino utilizados ou não nas salas de aula atualmente. Segundo
os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), exige-se, hoje, níveis
de leitura e escrita diferentes e muito superiores aos que satisfizeram
as demandas sócias até bem pouco tempo atrás –
e tudo indica que essa exigência tende a ser crescente. Apesar das
divergências entre certos métodos e conceitos, o que podemos
afirmar com convicção é que a finalidade intrínseca
de todos os investimentos educacionais no âmbito da alfabetização
é a construção de cidadãos que saibam ler
e escrever, a fim de responder a essas exigências atuais.
Durante muito tempo acreditou-se numa prática pedagógica
da Língua Portuguesa baseada na repetição, na estrutura
formal da língua e na gramática normativa. Pensava-se que
essa prática poderia levar crianças e adolescentes a falar
e escrever melhor. O estudo da língua se dedicava ao que era interno
a ela, que parecia ser algo muito distante da realidade do aluno. Não
havia uma preocupação com a relação existente
entre linguagem e sociedade. Muitas vezes nossos alunos produziam e ainda
produzem inúmeros textos, sem nem mesmo saber a existência
de um leitor para eles. Em uma visão como esta, cabe ao professor,
apenas o tratamento de problemas formais (relacionados à ortografia
e às normas gramaticais) e aspectos discursivos (como paragrafação,
pontuação, repetição de palavras, relações
sintáticas) relacionados à produção de sentido
no texto. Sem dúvida algumas estes foram e são os reflexos
escolares da lingüística estrutural, a qual tinha como preocupação
básica a análise das relações internas entre
os elementos lingüísticos.
Segundo Fiorin (1998), essa ciência experimentou, nas últimas
décadas, duas situações distintas e até mesmo
antagônicas: fastígio e declínio.
Numa certa época, foi tomada como “ciência –piloto”
das demais ciências humanas. Lévi- Strauss, Dumézil,
Lacan, Barthes e outros teóricos tomaram os conceitos da lingüística
e transladaram-nos para outro ramo do saber. Mais tarde, a reação
que se operou contra o avassalador domínio dos conceitos da lingüística
produziu um comportamento oposto. Passou-se a considerar as aquisições
da lingüística estrutural, que, sem dúvida alguma,
representam um inegável avanço no âmbito dos estudos
lingüísticos, como um conjunto de práticas puramente
“ideológicas”. Os problemas colocados até então
pela ciência da linguagem eram considerados falsos problemas. A
lingüística estrutural foi chamada lingüística
burguesa. (FIORIN, 1998, P.5)
Este processo de reconhecimento do que foi feito, deixou de ser feito
ou pode ser feito pela lingüística, levou a uma reflexão
ampla sobre a linguagem, considerando-a uma instituição
social, veículo de ideologias, instrumento de mediação.
A ausência de uma prática de ensino da língua que
a reconheça como um produto social e histórico, sujeito
a mudanças no decorrer dos tempos e dos espaços sociais
em que é falada, tem sido considerada uma das razões do
insucesso da escola no ensino da língua padrão. Começa
a surgir, então, sugestões de práticas pedagógicas
que considerem essa nova visão de linguagem. Despertam-se estudos
estimulantes de uma reflexão sobre a prática de ensino da
Língua Portuguesa, apontando que a grande repetição
de exercícios, o conteúdo desinteressante e o autoritarismo
da escola não garantem necessariamente esta aprendizagem. (FIORIN,
2001; MORAIS, 2002; NASPOLINI, 1996).
Atualmente, as Propostas Curriculares Nacionais (1997) contemplam a Língua
Portuguesa, tal como se fala e se escreve fora da escola, a língua
que se fala em instâncias públicas e a que existe nos textos
escritos que circulam socialmente. A escola se coloca como um local privilegiado
para o ensino/aprendizado da língua escrita e ela o é, ou
pelo menos, deveria ser.
A partir dessas colocações iniciais, venho questionando
a formação, em especial a inicial, no ensino superior brasileiro,
dos professores que decidem enfrentar o desafio de ensinar crianças
a ler e a escrever. Entendendo que os professores dos anos iniciais não
saem prontos de nossas mãos, professores universitários,
mas também entendendo que existem alguns aspectos a serem trabalhados
e consolidados neste momento de sua formação, tenho me preocupado
sobre como acontece essa formação inicial do professor alfabetizador.
Acredito ainda, na constituição do sujeito mediada pelo
outro e por suas vivências. Esses futuros professores têm
uma história e muitos, se não todos, além de terem
sido ensinados a ler e a escrever numa prática pedagógica
centrada na aquisição correta de algo que lhes parecia muito
distante - a língua, conviveram e se constituíram em uma
ambiente escolar, social e familiar onde predominou, se não predomina
ainda, essa visão de língua.
Com seus modos de pensar sendo constituídos por essas múltiplas
vozes de suas vivências, conforme Bakhtin (2002: 121) para quem
“O centro organizador de toda enunciação, de toda
expressão, não é interior, mas exterior. Está
situado no meio social que envolve o indivíduo”, hoje, esses
futuros professores são incentivados, a partir de uma nova concepção
sobre o ensino da língua, a levar em conta a relação
entre língua e sociedade, além de acreditar que o aluno
já entra na escola com uma certa “bagagem” que não
pode ser ignorada.
Atrevendo-me a refletir sobre o assunto, comecei a levantar certos questionamentos.
Entendo, como CHARLOT (2000:84) que “nascer é ingressar em
um mundo onde se é obrigado a aprender”, e, neste momento,
me deparo procurando dar um conjunto de significados às emoções,
percepções, pessoas e aos fatos que ancoraram uma experiência
de ensinar e aprender a ser professora de língua portuguesa nos
anos iniciais.
II – Problema e Justificativa
Como professora da disciplina “Estrutura e Metodologia
da Língua Portuguesa” em um Curso Normal Superior para os
anos iniciais, no interior de São Paulo, entendia que deveriam
existir “saberes da docência”, que poderiam ser referências
das disciplinas didático-pedagógicas e das práticas
cotidianas nas escolas e que como professora-formadora seria capaz de
colaborar na elaboração de um conhecimento não neutro,
mas sim relacionado a valores que prezava, alguns explícitos e
conscientes, outros subjetivos e até inconscientes. Percebi, então,
que em seu processo de formação, no movimento do cotidiano
escolar e no seu universo de ação pedagógica, o futuro
professor pode ter acesso a recursos que podem levá-lo a uma reflexão
crítica e imaginativa, re-elaborando os seus conhecimentos. Mas
a reflexão nunca se dá como atividade individual. O professor,
como todo ser-humano é expressão de um sujeito coletivo,
ou seja desenvolve o seu ser num tecido social.
Saberes científicos já elaborados fazem parte desse processo,
muitas significações são feitas deles, com eles e
através deles, reafirmando, negando ou redimensionando suas intenções.
A fim de contribuir neste processo, muitas vezes, professores formadores
buscam alternativas para que os licenciandos entrem em contado direto
ou indireto com práticas educativas relacionadas à disciplina
em questão. Essa foi minha opção, quando procurei
proporcionar situações em que os alunos estivessem em uma
sala de aula e vivenciassem certas práticas educativas ou em outros
momentos em que trouxe materiais das próprias crianças para
serem analisados em sala.
Mas será que o professorando realmente percebe qualquer ligação
entre a fundamentação teórica trabalhada durante
os anos de formação inicial e a realidade em que ele há
de viver? Magnani (1997, p.125) relata que, finalizando seu curso de graduação,
ao se ver como professora, não sabia como – e se deveria
– inserir os conhecimentos acadêmicos que a formaram e habilitaram
como professora.
Ainda, em uma conferência, Nóvoa na sessão de abertura
do III Congresso Estadual Paulista sobre a Formação de Educadores
em 1994, fez um relato sobre a história da escola e a história
do progresso, inserindo como reflexão a crise profissional docente
que o professor dos anos 90 estava vivendo. O autor afirmou que:
“Os professores têm de afirmar a sua profissionalidade num
universo complexo de poderes e de relações sociais, não
abdicando de uma definição ética – e, num certo
sentido, militante – da sua profissão, mas não alimentando
utopias excessivas, que se viram contra eles, obrigando-os a carregar
aos ombros o peso de grande parte das injustiças socais. A causa
do mal-estar dos professores prende-se, sem dúvida, à defasagem
que existe nos dias de hoje entre uma imagem idílica da profissão
docente e as realidades concretas com que os professores se deparam no
seu dia-a-dia”. (Nóvoa, 1994 )
É pensando em questões como esta que, neste trabalho, parto
de uma pesquisa - ainda, em andamento - junto aos futuros professores
dos anos iniciais do Ensino Fundamental, em processo de formação
inicial no ensino superior, com a finalidade não só de ampliar
meu conhecimento como docente e pesquisadora, mas principalmente de buscar
maior significação ao trato metodológico no ensino
da Língua Portuguesa e contribuir no processo de formação
de professores como um todo.
Vygotsky, em seu livro “A Formação Social da Mente
(1888 / p.42)” afirma que na medida em que a linguagem possui uma
função específica de ação reversa,
conferindo à operação psicológica formas qualitativamente
novas e superiores, ela permite aos seres humanos, controlar o seu próprio
comportamento. Considerando que o processo interlocutivo da sala de aula,
envolvendo as intervenções dos colegas e da professora no
seu cotidiano educativo, o material didático utilizado e a referência
à ação pedagógica dos próprios licenciandos
(em situações de ação educativa) pode levar
ao processo interno de elaboração e re-elaboração
do conhecimento, interessa-me saber como acontece e se acontece, nessa
sala de formação inicial, a produção de novos
saberes e, talvez, de novas práticas pedagógicas, ao meu
ver, situações de controle do próprio comportamento
do futuro professor. Assumo, então, o papel de pesquisadora a fim
de buscar compreender as relações reais entre o comportamento
e suas condições reais de produção.
III - Abordagem teórico-metodológica
O processo pesquisado aconteceu durante o 2º semestre
de 2004, nas aulas de Estrutura e Metodologia da Língua Portuguesa
ministradas por mim, com 24 estudantes que estavam iniciando a segunda
metade do Curso Normal Superior de formação de professores
para os anos iniciais. Entre eles apenas um já atuava como professor
, devido à sua formação nível médio.
Preocupada especialmente com o processo de construção de
conhecimento desses futuros professores e tendo como apoio os dizeres
de Vygotsky (1984, p.74): “estudar alguma coisa historicamente significa
estudá-la no processo de mudança”, assumo uma visão
teórica que concebe a dinâmica interativa como lugar de produção
simbólica e material, sendo fundamental para o processo de conhecimento.
Assim, para investigar como a disciplina em questão promoveu a
significação e re-significação da prática
pedagógica do professor de Língua Portuguesa nos anos iniciais
do Ensino Fundamental, recorro a uma abordagem metodológica que,
segundo Góes (2000, p.9)
Trata-se de uma forma de construção de dados que requer
a atenção a detalhes e o recorte de episódios interativos,
sendo o exame orientado para o funcionamento dos sujeitos focais, as relações
intersubjetivas e as condições sociais da situação,
resultando num relato minucioso dos acontecimentos.
Para a coleta de dados, foi utilizado o recurso de áudio-gravação
das aulas, além de um caderno de registro para anotações
de fatos que não poderiam ter sido registrados pelo áudio-gravador,
mas que se tornam relevantes na dinâmica da sala de aula. O trabalho
de construção dos dados foi iniciado através da transcrição
das gravações e do recorte e análises preliminares
de episódios. Optei por examinar cada passo das aulas transcritas
e nelas selecionar episódios interativos que permitam ressaltar
as mudanças de qualidade das ações dos sujeitos mediante
as condições de produção e as mediações
presentes.
Ao considerar as dificuldades e a complexidade de uma aula formativa de
professores, encontrei a noção de alteridade constitutiva,nos
textos de Bakhtin, segundo o qual o outro é presença constitutiva
em todas as instâncias vivas da linguagem. Comecei a refletir então
sobre o meu papel e o papel de cada um naquela instância de formação
de professores nos constituindo como tais.
Nas relações instauradas e mediadas pela linguagem, os interlocutores
buscam significar os enunciados que circulam em discursos que polemizam,
contrapõem-se ou respondem uns aos outros. Bakhtin nomeia esse
movimento como processo dialógico. A dialogia é o princípio
constitutivo da linguagem e a condição do sentido do discurso
porque resulta do encontro e confronto de muitas vozes sociais.
Subjacente a essas concepções de linguagem e desenvolvimento,
encontramos a idéia de intersubjetividade, ou seja, a subjetividade
se constituindo com e pelo outro, na dinâmica interlocutiva. Nós
nos constituímos e somos constituídos pelos outros, nossos
discursos são produzidos a partir dos discursos de outros, vamos
nos apropriando daquilo que os outros nos “trazem”.
Assim, no trabalho com os discursos e materiais dos licenciandos sobre
a prática, tenho procurado identificar indícios de como
as práticas pedagógicas vão sendo significadas e
re-significadas dentro de seu processo de formação. “Essa
análise fornece uma base sólida para que se designe o uso
de signos à categoria de atividade mediada, uma vez que a essência
do seu uso consiste em os homens afetarem o seu comportamento através
dos signos”.(VYGOTSKY, p. 61)
Abordagens como esta, segundo Smolka e Góes (1993, p.67):
...focalizam práticas socioculturais, levando em conta aspectos
pragmáticos e contextuais, centram-se na esfera simbólica
e consideram a linguagem como ação/interação;
tornam possível a análise de eventos, ultrapassando a simples
descrição e priorizando o estudo de processos; partilham,
ainda de uma concepção de pesquisa como trabalho histórico
e construtivo, em que o pesquisador pode ser também protagonista
no evento estudado.
Torna-se importante lembrar que, como professora participante do processo
em estudo, mesmo não tendo como foco central a minha atuação,
acabo por articular ensino à pesquisa em atitudes analíticas,
reflexivas, questionadoras e problematizadoras. Não há ensino
sem pesquisa e pesquisa sem ensino, pois, como afirma Paulo Freire:
... Esses que-fazeres se encontram um no corpo do outro. Enquanto ensino
continuo buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei,
porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, contatando, intervenho,
intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não
conheço e comunicar ou anunciar a novidade (1999, p.32).
Além disso, cumpre esclarecer que minha participação,
enquanto professora que propõe e conduz as atividades, discussões
e reflexões, objetos de análise nessa pesquisa, não
poderá ser, de forma alguma negligenciada no trabalho analítico.
Acredito que o próprio referencial teórico-metodológico
adotado possibilita o enfrentamento deste ponto, ao propor que analisemos
os sentidos que se produzem na dinâmica interativa considerando,
entre outros aspectos, os lugares sociais a partir dos quais cada um participa
nos movimentos de interlocução.
IV – Análises preliminares
Neste momento da pesquisa, iniciei o recorte e a análise
de dados. Para isso foram transcritas todas as aulas de “Estrutura
e Metodologia da Língua Portuguesa” ministradas por mim em
uma sala do segundo ano do Curso Normal Superior durante o segundo semestre
de 2004, possibilitando a seleção de alguns episódios
para análise preliminares. È importante perceber que inicio
essas análises na intenção de conhecer um pouco das
minúcias que “inundam” uma sala de aula de formação
de professores. Procurando olhar, em uma instância como esta, para
os “cantos”, as “lacunas” e o “preenchimento”
desses momentos de discussão, reflexão e re-elaboração.
Conforme Geraldi:
Inspirado em Bakhtin, entende-se que o sujeito se constitui como tal a
medida que interage com os outros, sua consciência e seu conhecimento
de mundo resultam como “produto sempre inacabado” deste mesmo
processo no qual o sujeito internaliza a linguagem e constitui-se como
ser social, pois a linguagem não é o trabalho de um artesão,
mas trabalho social e histórico seu e dos outros e para os outros
e com os outros que ela se constitui. Isto implica que não há
um sujeito dado, pronto, que entra em interação, mas um
sujeito se completando e se construindo nas suas falas e nas falas dos
outros (Geraldi, 1996:19)
Durante o recorte e as análises preliminares dos dados, é
possível perceber que numa situação de ensino, alunos
do ensino superior procuram estabelecer relações entre os
conhecimentos que vêm sendo elaborados nas aulas e a realidade vivida
por eles. Alguns conceitos são objeto de reflexão e têm
os seus significados elaborados e re-elaborados, na dinâmica de
relação entre os interlocutores.
Com a intervenção e questionamentos, eu, como professora,
procuro conduzi-los a estabelecer relações com momentos
de análises de suas vivências ou das vivências de outros,
vejo suas falas se modificando e certezas sendo re-elaboradas.Cada um
vai repetindo (e transformando) o discurso do outro.
Assim, os conceitos trabalhados vão assumindo múltiplos
sentidos a medida que a fala de um interlocutor responde e provoca a fala
de outro, na tentativa de dar sentido às relações
entre conhecimentos teóricos e práticas vividas por estes
licenciandos. Neste processo, sentidos vão sendo modificados e
outros permanecem.
As marcas das concepções que eles formaram durante anos
de vida escolar – em que os resultados, o ponto de chegada, o fazer
corretamente, é que foram sempre valorizados - estão explícitas
em seus discursos. Diversos conhecimentos – acadêmicos e vivenciais
- vão sendo confrontados, negados e rearticulados, num movimento
tenso de relação entre o antigo (já consolidado)
e o novo (em elaboração). Candau ressalta que
...a escola tem como função específica a socialização
do saber, saber este acumulado historicamente pela humanidade. Vale a
pena ressaltar que esta socialização deve passar não
somente pela transmissão pura e simples do conhecimento, mas também
pela assimilação ativa por parte dos alunos e pela possibilidade
de reavaliação crítica dos conteúdos trabalhados.
(CANDAU, 1991, P.105)
Deste modo, o processo de formação não pode ser compreendido
como mera transmissão do saber elaborado. Como afirma Magnani a
respeito da especificidade da escola:
... Não se descarta a tradição e a informação,
mas o objetivo se concentra na tensão constante entre reprodução
e produção do novo, que pressupõe problematização
e elaboração das obviedades por parte de sujeitos sócio-históricos
(professores e alunos). (MAGNANI, 1997, p.268).
Venho, então, me percebendo como alguém que desenvolve um
esforço na tentativa de compreender as indagações,
angústias e suposições vivenciadas na dinâmica
interativa produzida na sala de aula, perguntando como participar, como
formadora de professores, das elaborações e re-elaborações
da prática pedagógica da língua portuguesa e como
mediar esse processo de relação entre essa prática
e o saber elaborado, tendo em vista o desenvolvimento de novas práticas
relacionadas ao ensino da leitura e da escrita.
V – Um episódio
Outubro, 2004.
Durante a nossa aula, os professorandos (os quais serão identificados
por nomes fictícios) se dividiram em grupos de dois ou três,
para analisar textos escritos pelas crianças em sala de aula, fazendo
um levantamento dos aspectos que eles achavam relevantes citar sobre esses
textos. Para isso, cada grupo escolheu seus critérios de análise.
Os textos foram trazidos por eles mesmos, devido à diversas situações
em que lhes foi possível encontrá-los. Cada grupo possuía
ao menos uma redação de cada ano dos chamados “anos
iniciais” (1º a 4º).A professora passava nos grupos e
lá se detinha durante alguns minutos, orientando, questionando,
sugerindo, etc. Para a análise, preferi dividir o episódio
em dois momentos, vividos por diferentes grupos.
1º grupo – Lívia, Ale, Eliza: As professorandas
possuíam dois textos de cada série e iniciaram a atividade
fazendo a leitura coletiva de todos os textos. A professora sugere que
avaliem quais aspectos elas achavam relevantes citar sobre os textos.
Sendo assim, elas optam por ler rapidamente cada um, a fim de selecionar
os critérios que utilizarão para a análise.Os textos
foram trazidos por Ale, a qual já leciona em duas séries
(2º e 4º),e pediu para colegas de trabalho os textos de outras
séries.
Ale – A proposta era sobre dragão, mas ela
já trocou o nome de dragão para dinossauro. (risos)... Bastante
erro de ortografia...
Eliza – São da mesma série.
Lívia -E daí? E daí? Lê essa aqui Ale! É
de uma menina.
Ale – Quanto “ela”, “dela”... Essa parece
que está na segunda série porque ela escreve direitinho...
Prof. – Mas ela está na primeira e não na segunda....
Ale – É o crescimento, né? A construção...
Prof. – Mas como está acontecendo essa construção?
Continua a ler o texto... Sentiu certa dificuldade.
Ale -Ah! O pessoal percebeu que eu não li os textos?
(fazendo referência ao fato dos textos terem muitos “erros
ortográficos”) – ergue a mão como um sinal de
defesa.
Eliza – Que sala é essa? Segunda? Ela troca o d pelo t?
Ale – Igual ao que a professora falou na outra aula. Essa menina
é repetente na 2º série.
Lívia – Olha como ela tem erros!
Segundo grupo - Roberta e Patrícia – As professorandas discutiam
os critérios de escolha que colocariam em seus relatórios,
entre eles citaram como opção, observar coesão e
coerência de cada texto. Os textos foram trazidos por Patrícia,
da escola onde fazia estágio.
Roberta – Qual é a diferença entre
coesão e coerência mesmo?
Patrícia – É aquilo que a professora falou: coerência
é apresentar as idéias tendo uma a ver com a outra e coesão
é a questão gramatical.
Roberta – Ah! Esse aqui não tem nem uma nem outra mesmo.
No primeiro momento do episódio, na discussão
ocorrida no primeiro grupo, os textos das crianças vão sendo
significados pelas licenciandas de diversos modos. Percebemos a aproximação
dos textos pelos licenciandos, marcada por critérios que estão
implícitos devido a suas histórias e formação.
Ale inicia sua leitura olhando para o texto como espelho dos conhecimentos
ortográficos de seus (Bastante erro de ortografia...), apesar de
durante várias aulas termos discutido a importância de olhar
para os textos de nossos alunos como um todo significativo e comunicativo.
Mais adiante a própria Ale olha para o texto de outra aluna como
sendo um objeto de identificação de onde ela está,
em que série, (Essa parece que está na segunda série
porque ela escreve direitinho). A necessidade de classificação
é fruto de uma formação visando fases de desenvolvimento
da aprendizagem como algo linear.
Ao ser “provocada” pela professora (Mas ela está na
primeira e não na segunda...), acaba por utilizar o texto como
um instrumento de avaliação (É o crescimento, né?
A construção...). Aceitando a provocação,
sua fala nos dá indícios de percepção da posição
da professora, contrária a essa visão tão linear.
Mas volta ao conceito de construção, vista ainda, como tijolos
colocados um em cima do outro, a fim de construir algo.
Além disso, percebemos as estruturas sociais encontradas dentro
da própria sala de formação, onde Ale assume o seu
papel de professora da aluna analisada, se preocupando com a visão
que suas colegas teriam a seu respeito, ao dizer “O pessoal percebeu
que eu não li os textos?”.Deixando transparecer claramente
em sua fala e gesto (erguer a mão em sinal de defesa) sua inibição
por não ter “cumprido” o papel de ler e corrigir os
erros ortográficos encontrados nos textos.
Vemos então, o saber elaborado e as marcas das formações
desses professorandos tomarem os seus lugares em uma discussão
sobre a prática de produção de textos das crianças,
às vezes reproduzindo, outras re-significando ou confrontando modos
de conhecer já arraigados nos próprios professorandos.
Em uma situação de ensino-aprendizagem como a vivenciada
pelo segundo grupo, as professorandas refletem sobre aqueles textos reais,
escritos por alunos com os quais elas deverão trabalhar.
Conceitos como coesão e coerência haviam sido trabalhados,
apesar da dificuldade de defini-los. Foram citadas as idéias de
Koch e Travaglia que definem coerência através da apresentação
de vários aspectos e/ou traços que, em seu conjunto, permitem
perceber o que esse termo significa.(Koch & Travaglia, 1992, p. 21).
Os autores tendem a concordar que a coerência é algo relacionado
ao sentido do texto, sendo um princípio de interpretabilidade que
confere ao texto uma unidade e relação entre seus elementos”.
Já o conceito de coesão foi trabalhado na perspectiva de
Savioli e Fiorin (1999), no livro “Lições de texto:
leitura e redação”, que cita os principais mecanismos
de coesão com a retomada de termos, expressões ou frases
já ditos ou sua antecipação; além do encadeamento
de segmentos do texto.
Vemos aqui como a tomada desses conceitos é feita de modo sintético.
As palavras de Patrícia (É aquilo que a professora falou:
coerência é apresentar as idéias tendo uma a ver com
a outra e coesão é a questão gramatical) nos revela
uma certa compreensão dos conceitos, embora não possamos
perceber uma profundidade ou as relações feitas por ela.
Essa fala estabelece uma relação com a fala de Roberta (Ah!
Esse aqui não tem nem uma nem outra mesmo) que nos indicia uma
outra apropriação do mesmo conceito, pois estabelece critérios
de sim e não, certo e errado. Mais uma vez, a prática da
classificação parece atravessar a questão da elaboração
dos conceitos.
VI – Possíveis contribuições
Assim, se o saber elaborado ocupa um lugar fundamental
no processo de formação dos professores, é necessário
que nos indaguemos sobre que lugar é este. Como este saber se articula
com os saberes adquiridos no contexto das mais diversas práticas
sociais? Como este saber, na relação com as práticas
vividas e refletidas, pode auxiliar na produção de novas
práticas?
É de algumas respostas a estas questões que pretendo me
aproximar com o desenvolvimento desta pesquisa, esperando poder construir
uma compreensão, a partir de um referencial histórico-cultural,
sobre alguns momentos de formação inicial de futuros professores-alfabetizadores,
refletindo não sobre aquilo que deveria acontecer e não
acontece, mas buscando sentidos para aquilo que, de fato, está
acontecendo. Acredito que este modo de aproximação do objeto
de estudo, pode possibilitar o direcionamento das discussões, bem
como proposituras de ações e abordagens, de forma que contribuam
para a formação dos futuros professores.
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