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PRODUÇÃO DE RELATÓRIOS E ARTIGOS NUM CURSO DE LICENCIATURA:
IMPLICAÇÕES NA FORMAÇÃO DO FUTURO PROFESSOR
Odisséa Boaventura de Oliveira –
Universidade Federal do Paraná – UFPR
Silvia L. F. Trivelato – Universidade de São Paulo - USP
INTRODUÇÃO
O presente ensaio faz parte da pesquisa de doutorado em andamento, nele
analisamos os relatórios e artigos produzidos por alunos do curso
de Ciências Biológicas quando realizaram estágio nas
escolas de Ensino Médio. Buscamos os sentidos produzidos por esses
licenciandos ao observarem as aulas do professor efetivo e ao analisarem
as próprias aulas ministradas na condição de estagiário.
Também nos interessa a forma como eles, enquanto autores dos relatórios
e artigos se posicionaram nos textos, isto é, se se referem a si
mesmos como “eu” ou “nós” ou se falam de
um lugar aparentemente sem sujeito, o que dá margem para compreender
a contribuição da escrita destes gêneros na formação
de professores.
Acreditamos que esses dois aspectos forneçam indícios para
se pensar sobre a disciplina Prática de Ensino de Biologia que
solicita tarefas para os estagiários realizarem. Primeiramente
um certo direcionamento nos olhares dos licenciandos em relação
à sala de aula e depois a escrita de suas observações
dentro de um certo gênero. Diante do que cabe perguntar: O que dizem
os textos dos futuros professores?
Para isso, tomamos de empréstimo da Análise de Discurso,
como referência a noção de formação
discursiva, entendida como o lugar da identificação do sujeito
e da constituição do sentido. Palavras iguais podem significar
diferentemente ao se inscreverem em formações discursivas
diferentes. Assim, o que se diz tem seu sentido derivado da formação
discursiva em que se está inscrevendo suas palavras. Por exemplo,
a palavra avaliação tem sentidos diferenciados para o professor
e para os alunos. Ou ainda, ser professor pode ser visto como assumir
um compromisso, quando identificado a uma formação discursiva
jurídico-política, ou como abraçar uma causa, numa
formação discursiva religiosa-assistencialista. A posição
sujeito é diferente nessas duas formações (Orlandi,
2003).
Também Maingueneau (1989) aponta fatores importantes para pensarmos
no papel da escrita, como a “deixis discursiva” referente
ao EU (locutor discursivo), TU (destinatário discursivo), AQUI
(topografia), AGORA (cronografia), que define a coordenada espaço-tempo
da enunciação. Outro aspecto mencionado por ele é
o lugar de onde se fala, o que determina a identidade de cada indivíduo,
sendo que este também ao enunciar garante sua autoridade institucional.
Esta posição de onde fala o sujeito seria o lugar encenado
no discurso, sendo a encenação uma das formas do real o
qual só é acessado através do discurso. Outra idéia
discutida por esse autor é a do gênero do discurso (diálogo,
editorial, científico, manifesto, diário, carta, panfleto
etc) que relacionado ao lugar e época da enunciação,
implica em pensar nas condições da comunicação
e no estatuto assumido pelo enunciador. Desta forma o gênero é
mais um elemento que legitima o lugar enunciativo.
Portanto acreditamos que se justifica um olhar mais atento aos textos
escritos por futuros professores considerando esta produção
escrita um lócus privilegiado de reconhecimento das manifestações
de sentidos.
Investigamos aqui 4 artigos e 4 relatórios produzidos por 7 licenciandos
(alguns foram escritos em duplas), sendo que os relatórios foram
produzidos na fase de observação e diagnóstico da
escola e os artigos quando ministraram aulas e desenvolveram seus projetos
de investigação sobre a própria prática.
1- A ESCRITA DO GÊNERO RELATÓRIO
Vale destacar que o gênero relatório já traz para
a memória a idéia de impessoalidade, por se tratar de alunos
do curso de Ciências Biológicas este gênero pode estar
vinculado à idéia de relatório de aulas práticas
ou de experimentos de laboratórios e que pela própria nomenclatura
induz a apenas relatar, descrever o que foi visto, deixar os dados falarem
por si. Nesse momento indagamos se seria um gênero adequado para
trazer a singularidade e a subjetividade de quem escreve. Responderemos
a essa indagação no final deste texto.
a) Licenciandos Ra e Fa
A percepção desses estagiários quanto ao professor
observado é relatada quase sempre fazendo ressalvas positivas ou
negativas. Estas ressalvas parecem indicar certa cumplicidade entre os
estagiários e o professor, há uma tendência em comentar
algumas ações com as quais não concordam, mas logo
em seguida tendem a justificar tal atitude, por exemplo:
“O professor é bastante preocupado com que os alunos tenham
uma boa educação, mas parece estar um pouco cansado desta
atividade, demonstrando às vezes desinteresse pelas próprias
aulas, mas em detrimento das suas falhas, consideramos sua prática
pedagógica bastante boa”.
“O professor tem uma linguagem bastante científica,
mas não deixa de explicar termos que porventura os alunos não
conheçam”.
Talvez essas contraposições possam ser explicadas
no fato deles remeterem a prática do docente observado a um modelo
de professor que eles já possuem. Por exemplo, quando escrevem,
“No geral, o professor Y, na nossa opinião, é bastante
bom, comparando-se com outros professores de Biologia da rede pública”.
“É visível que o conhecimento de biologia
dos seus alunos é bastante bom, comparando-se com a média
dos estudantes do ensino Médio”.
Percebe-se que Ra e Fa também comparam os alunos
e a escola a este modelo que apesar de não explícito, traz
uma referência negativa. Como se pode ver a seguir,
“A Escola Z, pelo fato de fazer um processo de seleção
dos alunos, faz com que o nível destes seja, em geral, bastante
bom, o que facilita o trabalho do professor em sala de aula. Eles são
mais comportados, prestam mais atenção na aula e se aplicam
mais aos estudos fora de sala de aula. Isso influi enormemente na prática
docente”.
“A Escola Z, comparando-se com as demais escolas
de Ensino Médio da rede pública, oferta um ensino de melhor
qualidade aos seus alunos”.
Ao lançar referência a um modelo negativo
de escola, esses licenciandos estariam se filiando a uma formação
discursiva de que a escola pública tem um ensino de má qualidade
que já compõe os seus imaginários. No entanto, o
estágio possibilitou um deslocamento desse discurso, permitindo-lhes,
ainda que por comparação a esse modelo, reforçar
o lado bom da escola observada. Assim, eles destacam como bons exemplos:
o nível de participação dos alunos; a preocupação
do professor em não apenas ensinar, mas educar; a aula dialogada;
a adequação da linguagem do professor.
De um modo geral, o texto de Ra e Fa centrou mais na descrição
das ações do professor do que na dos alunos, fato compreensível
dada as solicitações da disciplina, tendendo a destacar
os aspectos positivos. As poucas referências feitas à escola
estavam relacionadas ao seu funcionamento.
O mesmo deslocamento não foi observado quanto a outro ponto que
chamou a atenção, a impessoalidade dos licenciandos Ra e
Fa se referirem a si mesmos no decorrer do relatório. Eles utilizam
a seguinte forma: “o professor apresenta os estagiários...”;
“o professor pedia aos estagiários para explicar...”;
“os estagiários mereciam respeito...”; “todos
estavam cansados, professor e estagiários”. Somente quando
no final do texto fazem comentários gerais sobre o professor citam-se
como nós, como no trecho citado acima (assistimos, acreditamos,
na nossa opinião) e em outros três momentos: “aqui
descobrimos...”; “notamos que...”; “para nós
estagiários...”.
b) Licenciandos Ra e Le
O aspecto mais enfatizado por Ra e Le foi a estrutura física e
funcional da escola, assim relatam a respeito do projeto pedagógico,
das normas, dos recursos encontrados e os necessários. Finalizam
o texto com o seguinte parágrafo:
“A escola luta por se manter e parece que faz o melhor que pode.
Porém, a escola deveria solicitar mais fundos para fins pedagógicos,
ao invés de esperar a ajuda promover campanhas para arrecadação
de fundos para melhora do patrimônio educativo, mostrar a necessidade
de tais ferramentas no desenvolvimento dos alunos. E também valorizar
os recursos que já tem, mesmo que até precários,
como laboratório de ciências, laboratório de informática,
sala de ginástica e de artes que ninguém os mencionou para
nós, o pátio enorme e arborizado que há, etc”.
Percebe-se neste fragmento que esses licenciandos estão
identificados a uma formação discursiva atualmente difundida
de que a sociedade deva se mobilizar e assumir compromissos para a melhoria
de serviços que utiliza, reduzindo, assim, o dever do Estado. Estes
estagiários se filiaram ao discurso dos “amigos da escola”.
Já quanto aos professores, os licenciandos Ra e Le observaram três
docentes atuando, sendo que na descrição das aulas, os únicos
aspectos que eles manifestam algum tipo de julgamento são a relação
entre professor e alunos e a condução da aula com questionamentos.
O que foi avaliado de forma positiva por eles, conforme os seguintes comentários,
“Era difícil imaginar uma professora tão jovem e semelhante
aos alunos dominar a turma. Mas pela conversa amigável e, quando
necessário, uma postura firme e irredutível, a professora
conseguia manter a ordem na sala”.
“A professora tinha um relacionamento excelente
com os alunos. Era muito calma e meiga e os alunos a respeitavam, e ela
se fazia superior no sentido de era ela a ‘administradora’
da aula”.
“Começou a fazer uma pequena explicação
e, ao mesmo tempo, captando as dúvidas, conhecimentos prévios
e opiniões. A aula seguiu bem, em um tom descontraído e
amigável, onde a grande maioria expressava-se e emitia opinião”.
Ra e Le deixam transparecer no texto uma valorização
do aspecto afetivo na sala de aula. No entanto, no final do relatório
quando fazem comentários gerais sobre a escola, os docentes e os
alunos, manifestam-se de maneira mais negativa dando a impressão
de não estarem falando dos mesmos professores por eles observados.
Como é possível perceber nos trechos:
“A escola é boa, só que alguns professores não
sabem cativar os alunos, e alguns alunos têm o problema de não
ter o conhecimento prévio da matéria (...). os alunos são
indisciplinados...”
“A indisciplina causa no professor muita falta de
vontade em fazer e envolver o aluno. O salário é ruim, mas
vemos muitos professores se queixarem demais disso, mas que não
se esforçam nem um pouco por merecer salários melhores ou
por merecer o tanto que ganham”.
Prevalece aí o discurso que já faz parte
do imaginário comum, como o fato de que os alunos são sempre
indisciplinados e mal preparados, que os professores são desmotivados
e de que há um círculo vicioso que por receberem pouco os
professores fazem pouco e que por isso não merecem melhores salários.
È interessante esta contraposição porque no relato
das aulas eles destacam somente a observação de aspectos
positivos. Talvez esses não tenham sido suficientes para produzir
um deslocamento das imagens já cristalizadas na memória
desses licenciandos, como ocorreu com Ra e Fa citados anteriormente.
Quanto ao posicionamento dos autores, em todo o relatório descrevem
o que foi observado e somente se auto referenciam como “nós”
nos parágrafos finais citados e em um momento de observação
das aulas, como se quisessem mostrar certo envolvimento na prática
docente:
“O professor havia nos dito para fazermos uma espécie de
monitoria. Também nos explicou que a ideologia da escola visa o
construtivismo e que, no atendimento aos alunos não deveríamos
dar respostas, mas questionar as idéias prévias do aluno,
guiando-o à idéia correta. Esta monitoria nos deu um preparo
para enfrentar as aulas por nós ministradas”.
c) Licenciandos Ju e Pe
Esses estagiários descrevem as aulas seguindo uma seqüência
cronológica de eventos. Por exemplo: “8:20 – sinal
; 8:25 – Professora pergunta...; 8:35 – Professor chama ...;
8:40 – Professora faz ... ; 9:00 – Alunos terminam..”.
O maior problema apontado por eles foi a indisciplina dos alunos e parece
que ao tentarem retratar o decorrer das aulas evidenciam que a produtividade
é muito baixa. Assim, Ju e Pe relatam:
“9:00 - Durante todo o período da aula a maioria dos alunos
conversavam, entravam e saiam livremente e um deles até tocava
violão. Uma minoria realmente fez os exercícios”.
“9:08 – Alunos começam a guardar o
material e a levantar mesmo com o professor explicando a matéria”
“10:55 – Apenas uma aluna continua resolvendo
o questionário”.
As aulas descritas referem-se a três professores
observados por eles, nas quais não fazem comentários explicitamente
positivos nem negativos, mas deixam transparecer por alguns termos ou
expressões certa reprovação, por exemplo: “durante
todo o período ... maioria conversava”, “até
tocava violão”, “minoria realmente fez...”, “apenas
uma continua...”.
Somente no final do relatório quando fazem uma análise geral
da escola é que se manifestam de forma mais negativa: “os
professores não conseguiam, na maioria, nem sequer passar o conteúdo”.
Para reafirmar a idéia de improdutividade da escola
observada, eles comentam:
“O colégio parece um grande depósito de crianças
e adolescentes. Parece um local onde eles ficam para passar o tempo e
conversar com os colegas. Mesmo fora do horário do recreio o pátio
está sempre cheio, porque nem ficar na sala de aula parece ser
obrigatório”.
Pe e Ju procuram explicar a indisciplina, baseando-se
em idéias próprias e na opinião de uma das professoras
entrevistadas que comenta sobre a incompatibilidade entre professores
e coordenação. A princípio eles não fazem
uma afirmação contundente, pelo contrário descrevem
um prognóstico, deixando espaços para outras interpretações
sobre a indisciplina, utilizando expressões do tipo “parece”,
“pode ser”, mas no final emitem um diagnóstico das
causas, explicitamente apoiado a um discurso que enaltece o aspecto metodológico
do ensino, conforme citação abaixo:
“Um dos maiores problemas observados no colégio é
a indisciplina, chegando ao ponto de os alunos não respeitarem
os professores, tornando as aulas inviáveis. Esse problema parece
ter origem na falta de motivação dos alunos, e esta pode
ser relacionada a fatores do próprio aluno como traços individuais
de personalidade, a fatores relacionados ao ambiente como aspectos sociais,
culturais e familiares e ainda a fatores relacionados ao ambiente pedagógico.
(...) Na nossa opinião, o problema da indisciplina pode ter várias
origens, mas as duas maiores seriam a desmotivação dos professores
que não aplicam aulas diferentes com jogos e aulas práticas
ficando sempre naquele marasmo de passar textos com questionários
para os alunos responderem. A outra origem seria a diretoria e coordenação
que não possuem pulso firme, tirando a autoridade dos professores.”
Aliás, esse é um dos poucos momentos que Ju e Pe se auto
referem no texto (“na nossa opinião”), em outros dois
eles dizem “a professora nos explicou que...” para contar
que a docente havia se dirigido a eles para justificar o problema da indisciplina
e do atraso do conteúdo.
Ju e Pe não manifestam claramente um imaginário sobre o
professor, o aluno ou a escola, a não ser que diante do que foi
observado, há uma idéia implícita no texto, principalmente
em relação ao fato de que um professor deveria ser mais
preocupado com a aprendizagem dos alunos e por isso planejar uma aula
mais interessante com o uso de mais recursos. Já quanto aos alunos
não há uma referência de como deveriam agir, a não
ser que se tiverem uma aula mais envolvente eles poderão responder
mais positivamente a ela. Quanto à escola, eles a consideram um
espaço no qual deveria integrar os propósitos dos professores,
coordenação e direção.
d) Licencianda Si
Vale destacar que o estágio desta licencianda foi realizado em
uma escola da rede particular de ensino, fato que talvez explique sua
indignação com a predominância de aulas expositivas
e com a reduzida utilização dos recursos didáticos
disponíveis, como a biblioteca, o laboratório, o vídeo
e a sala de informática. Mas o centro de suas atenções
se voltou para a pequena participação dos alunos durante
as aulas, principalmente nas de um dos dois professores observados. Segundo
sua visão, essa não participação é
responsável pela apatia dos alunos.
Em contraposição, Si observou aulas de outro professor que
ao contrário do primeiro estimulou a participação
dos estudantes, conforme ela relata:
“Durante toda a correção o professor faz questionamentos
aos alunos, os quais ajudam na resolução da questão.
As perguntas não dão a resposta e sim induzem ao raciocínio.
Este é um ponto positivo do professor, pois ele faz com que os
alunos pensem sobre a matéria e não simplesmente aceitem
o que ele está dizendo”.
O imaginário de professor implícito em seu
discurso, como se vê, é o de alguém que interage com
os alunos. Em relação a estes Si manifesta a idéia
de que eles são um elemento desencadeador para a atuação
do professor, sua visão é de que se os estudantes agirem
estimuladamente o docente responderá a altura, como é perceptível
nestas colocações,
“Bastou os alunos se mostrarem interessados e participarem da aula
para que esta fosse muito mais produtiva e melhorasse o ambiente em sala
de aula"
“É necessário prioritariamente que
os alunos estejam interessados em aprender e o professor esteja interessado
em ensinar”.
Quanto ao posicionamento no texto, a estagiária
Si faz intervenções no decorrer de seu relatório.
Em vários momentos ela se auto referencia tentando explicar aquilo
que relata, da seguinte forma: “acredito que os alunos...”;
“esta aula me levou a crer...”; “considero importante...”;
“não acredito que esta aula...”; “tive acesso
à prova...”, geralmente os fatos apontados são acompanhados
de uma tomada de posição aprovando ou não os atos
dos dois professores observados.
2- A ESCRITA DO GÊNERO ARTIGO
Centraremos a análise dos artigos produzidos pelos licenciandos
nos aspectos já citados na introdução, ou seja, os
sentidos manifestados e o posicionamento do locutor no texto. Adiantamos
que se destaca nestes artigos é a relação, problemática,
que estabelecem entre o referencial teórico adotado com as questões
práticas relatadas.
Lembremos que os artigos aqui analisados foram resultados do desenvolvimento
dos projetos de investigação dos licenciandos que optaram
por utilizar alguma estratégia didática, como jogos (Ra
/Fa, Si), aulas práticas (Ju/Pe), leitura e imagens (Ra/Le), quando
ministraram suas aulas de biologia no Ensino Médio.
a) Licenciandos Ra e Fa
Iniciando pela relação teoria-prática, nota-se que
seus artigos fazem uma abordagem teórica já no início
que, contudo não é retomada posteriormente, onde são
citadas idéias de cinco autores, sendo que quatro são específicos
sobre jogos didáticos. A única relação entre
o referencial teórico e as atividades desenvolvidas por eles nas
aulas foi relativa à idéia de que a utilização
de modelos didáticos pode simplificar o conhecimento, por exemplo,
um modelo que representa a célula ao mesmo tempo em que auxilia
a compreensão, igualmente oferece uma ilustração
distanciada da realidade.
Adiantemos que a escrita do gênero artigo, nesse caso, não
constituiu um instrumento de avanço na análise da própria
prática, nem sequer há referência sobre as aulas por
eles ministradas, pois são apenas citadas as regras do jogo, como
deveria ser aplicado na sala de aula. Dessa maneira não há
nenhuma referência à prática deles enquanto professores.
O que demonstra a não relação entre teoria e prática,
fica evidenciado quanto à compreensão do que caracteriza
uma análise. Para esses licenciandos, nada mais é do que
a quantificação. Por exemplo, o destaque dado aos resultados
dos testes aplicados aos alunos antes e depois do jogo para verificar
o desempenho das duas turmas. São feitas algumas considerações
negativas, em geral simplistas, tanto em relação ao teste
aplicado, quanto em relação à atividade lúdica.
As poucas considerações feitas são predominantemente
de caráter negativo (jogo é indicado para revisão
do conteúdo e não para a abordagem inédita, os modelos
usados podem simplificar o conhecimento, o jogo gera competição
e com isso há agitação, jogo toma muito tempo de
aula). As considerações positivas são que o jogo
prende a atenção dos alunos, portanto a aula torna-se mais
proveitosa e que ele incrementa a aprendizagem.
O imaginário sobre o aluno que transparece no artigo é de
alguém interessado, participativo. Já no que se refere ao
professor, ele deve ser um controlador da prática que, quando não
bem administrada pode gerar indisciplina. Mas são raros os momentos
em que são feitos comentários específicos a esse
respeito.
Não há um locutor no artigo, todas as asserções
são feitas em nome de “o jogo..”, “o teste ...”,
“a turma de alunos...”, somente em dois momentos do artigo
os estagiários se posicionam como “nós”.
b) Licenciandos Ra e Le
O artigo produzido por esses licenciandos, intitulado “Metodologias
pedagógicas aplicadas a estratégias educacionais”
relata a utilização de vários recursos (texto, vídeo,
transparências) atrelados às aulas dialogadas. Dimensão
que já aparece na própria elaboração do título
adotado. Destacam-se nele muitas referências teóricas, totalizando
treze autores, somente um deles foi lido na disciplina Prática
de Ensino. Essas referências estão entremeadas com citações
das aulas ministradas, procurando relacioná-las ao trabalho por
eles desenvolvido. Como os fragmentos abaixo:
“Ler Alice no País das Maravilhas, por exemplo, para recriar
o encanto do mundo mágico ficcional para um público infantil
supõe selecionar elementos do texto que desencadeiem o fascínio
do inusitado (...)(LeiturAção, 1996). Ao levar para a sala
de aula a leitura de um artigo, propomos relações com o
texto assim como aquelas relações com Alice no País
das Maravilhas, entretanto de cunho biológico.”
“Segundo Mortimer, são diferentes as formas
pelas quais os professores interagem com seus estudantes ao falar sobre
os conteúdos científicos (...). Foi baseado no diálogo
estruturado pela leitura que esta aula foi desenvolvida”.
Trata-se, como pode-se ver, de uma tentativa de analisar
a própria prática, na medida em que estabelecem uma relação
com o referencial teórico. Há ainda um misto no posicionamento
deles enquanto autores, pois em alguns momentos se referem a eles mesmos
com o pronome “nós”, em outros se auto referenciam
“professor”, mas na maior parte do texto o locutor está
indeterminado, por exemplo, “foi demonstrado..”, “foi
perguntado..”, “foi comentado...”
Já as poucas referências aos alunos manifestam uma imagem
bastante participativa. Já quanto ao professor há menção
ao seu papel no desenvolvimento das aulas, mas pouco julgamento sobre
os resultados de sua prática, a não ser em alguns momentos
quando comentam:
“Durante toda a aula houve interação entre professor
e aluno”
“Durante
a leitura o professor procurava pausa-la e, por meio do diálogo,
ir construindo com os alunos as definições contidas no texto”.
“Simultaneamente
eram mostradas transparências (...) o que deixou os alunos admirados
e interessados. A partir desse momento os alunos se entusiasmaram com
a aula e com o professor”.
“Ao
bater o sinal todos os alunos levantaram e o professor lhes chamou a atenção,
eles retomaram seus assentos”.
“O
professor transitava calmamente em toda a sala durante a discussão
e diante de algum grupinho de alunos que conversavam, parava e lhes fazia
uma pergunta”.
É
perceptível nessas expressões (a interação,
o diálogo, o entusiasmo dos alunos, a autoridade, a calma) a mesma
valorização, apontada no relatório, da questão
da afetividade na prática pedagógica. De certa forma as
palavras dos estagiários deixam transparecer certa satisfação
com as aulas ministradas e com a atuação docente.
c) Licenciandos
Ju e Pe
O artigo intitulado “Utilização de aulas práticas
com o objetivo de se facilitar a aprendizagem e motivar os alunos”,
escrito por esses estagiários, faz menção a apenas
uma referência teórica sobre experimentação
nas diferentes tendências pedagógicas. As idéias do
autor são apresentadas por eles no início do artigo e no
final eles comentam:
“De acordo com Amaral (1997), as aulas práticas efetuadas
se enquadram no modelo de ensino pela redescoberta, pois através
da prática dirigida o aluno alcança a teoria”.
É
interessante que os licenciandos selecionaram no início do artigo
trechos do texto de Amaral (1997) críticas a respeito da experimentação
nos três modelos de ensino: o tradicional; a redescoberta e o de
projetos. Ainda assim eles identificaram suas aulas ministradas a um deles,
a redescoberta. Por isso acabaram concluindo que as aulas práticas
serviram para motivar e facilitar o desempenho dos alunos nas provas.
Já na visão de Amaral (1997) as aulas práticas deveriam
aguçar conflitos cognitivos no aluno, compreender possibilidades
e limites do raciocínio científico e ser extensão
dos estudos ambientais. Tal fato denota que esses licenciandos se filiam
ao discurso restrito à função motivadora e cognitiva
das aulas práticas.
Os licenciandos citam no artigo somente os temas das aulas ministradas
e anexam os roteiros nelas utilizados, portanto não há qualquer
referência a eles enquanto professores. Em todo o artigo o locutor
está indeterminado, falam apenas os dados, como: “O presente
estudo teve...”, “O questionário foi elaborado para...”,
“Os alunos demonstraram...”, ”As aulas práticas..”.
Mais uma vez, para avaliar os resultados, também eles aplicaram
um questionário para levantar as observações dos
alunos sobre as aulas práticas, isto é, se julgavam que
aprenderam de um modo diferente o conteúdo e o por quê; aquilo
que mais e menos gostaram. Foi realizada uma quantificação
dessas respostas, que confirmam que tais aulas contribuíram para
resolver o problema da falta de motivação. Dessa forma,
os alunos, segundo as palavras de Ju e Pe “compareciam, permaneciam
na sala de aula e participavam observando o material, preenchendo os questionários
e fazendo perguntas”. A imagem de aluno é, portanto de alguém
que deseja e precisa de atividades diferenciadas.
d) Licencianda Si
O artigo desta estagiária traz uma parte teórica no início
sobre jogos que é retomada ao longo da análise dos dados.
São citados cinco autores, um deles lido na disciplina Didática,
os demais específicos sobre jogos. De um modo geral o texto da
estagiária Si está bem centrado na experiência vivida
à qual ela procura relacionar alguns textos lidos, conforme é
possível observar no fragmento abaixo:
“Cunha (1999) trabalhando com entrevistas realizadas com professores
de diversas disciplinas reconhecem como fundamental para a aprendizagem
a ação do aluno em sala de aula (...) A partir do momento
em que os alunos perceberam que deveriam agir frente ao conteúdo
encontraram-se motivados, o que facilitou a aprendizagem”.
O principal problema detectado na fase de observação era
que os alunos não se interessavam pelas aulas e que o professor
não variava suas estratégias de ensino. Ao relatar sua experiência
comenta que na primeira aula ministrada por ela, os alunos estavam desmotivados,
mesmo no início da realização do jogo de memória,
que no final contou com a participação da metade da sala.
Mas na segunda aula, segundo o relato de Si, a reação dos
estudantes foi diferente, como sabiam que haveria algum jogo no final,
logo no início começaram a participar, pois seria necessário
para poder vencer o jogo.
A imagem de professor construída em seu texto é de alguém
que não desanima, mesmo frente ao desinteresse inicial dos alunos,
a estagiária buscou a participação deles, conforme
suas palavras:
“Percebe-se que esta postura (aluno ser agente frente ao conteúdo)
quando assumida pelo professor, tem uma boa receptividade por parte dos
alunos como pode ser observado na realização deste trabalho.
Os alunos passam a demonstrar maior interesse, agindo a postura do professor
como um fator de motivação dos alunos”.
Ela descreve todas as aulas ministradas registrando sua impressão
quanto à participação dos alunos, em alguns momentos
também relaciona o que foi observado em sala de aula ao referencial
teórico escolhido. Seu julgamento sobre os jogos é bastante
positivo, dado o sucesso obtido nas aulas e o bom rendimento dos alunos
na prova que constavam questões dos conteúdos estudados
com o professor efetivo da sala e conteúdos ministrados por ela.
Si faz uma quantificação dos acertos das perguntas, verificando
que os alunos se saíram melhor naquelas que ela formulou.
Para confirmar essas considerações Si solicitou dos alunos
que escrevessem suas impressões sobre as aulas com o professor
efetivo e depois sobre as aulas por ela ministradas. Seu objetivo era
saber se houve aceitação dos jogos e se os estudantes achavam
que eles tinham facilitado a aprendizagem.
Ela descreve sua vivência na sala de aula referindo-se a si mesma
como “a estagiária”.
3- ALGUMAS
CONSIDERAÇÕES
Retomando nossa pergunta inicial, isto é, verificar o que dizem
os textos dos futuros professores e quais as implicações
na sua formação, procuremos respondê-la por partes.
Em primeiro lugar vamos pensar nos sentidos manifestados nos textos dos
licenciandos. Observamos que há uma filiação de seus
discursos a modelos imaginários, por exemplo:
a) má qualidade da escola pública: os textos de Ra/Fa e
Ra/Lê fazem referência a essa imagem, sendo que os primeiros
conseguiram diferenciar o professor observado deste modelo, mas Ra e Lê
não o superaram.
b)metodologia de ensino resolve os problemas: o relatório de Ju
e Pe destaca que na escola por eles escolhida para o estágio predominava
a improdutividade e a indisciplina, apresentando sugestões metodológicas
(jogos e aulas práticas) para esta superação. Também
o texto de Si faz menção a esse modelo para superar apatia
e desinteresse dos alunos, no entanto ela reforça a interação
entre o professor e os alunos por meio de questionamentos. Há uma
valorização, principalmente do “como” ensinar,
o que pode indicar a filiação a uma formação
discursiva construtivista, ainda que não esclarecida, mas que parafraseia
uma voz hegemônica de prática que destaca a interação
professor-aluno e a relaciona a questões metodológicas basicamente.
Em segundo lugar, a respeito do posicionamento do autor no texto, Orlandi
(2000) aponta três funções enunciativas que o sujeito
pode assumir: como locutor, quando se representa como ‘eu’
no discurso; como enunciador, quando representa as ‘perspectivas
que o eu assume’ no discurso e como autor quando se assume enquanto
‘produtor’ da linguagem, portanto afetado pelo contato com
o social e suas coerções. Por exemplo, num texto sobre avaliação
o locutor é o sujeito que está falando, é aquele
que assina o texto, é a fonte do dizer, pode ser o aluno ou o professor.
O enunciador é a perspectiva assumida no texto, pode ou não
coincidir com o locutor, portanto ele pode falar como professor ou como
aluno. Já na função autor, é preciso que o
sujeito tome uma posição.
É possível observar nos textos dos licenciandos algumas
implicações dessas funções enunciativas. É
perceptível que quando os estagiários utilizaram o “eu”
ou o “nós” havia o propósito de opinarem, sugerirem,
emitirem julgamentos, o que aponta para uma manifestação
de subjetividade, uma exposição, um comprometimento do autor
com a asserção feita.
Já quando o licenciando não se posiciona no texto, fazendo
uso de vários recursos como voz passiva e ativa, futuro do pretérito,
imperativos, por exemplo: “é observado que o professor...”;
“o que se percebe é...”; “nota-se que ...”;
“a aula foi ..”; “o professor fez ...”; “a
escola é, “seria necessário...”, “sabe-se
que...”, pode estar significando que ele não quer se comprometer
em ser o locutor, estando assim transferindo o que asserta para um outro
genérico, o que põe em evidência o objeto de estudo
ao fazer um discurso sobre as coisas enquanto secundariza sua opinião.
Recorrer à forma parcialmente indefinida do sujeito juntamente
com a tentativa de envolver o leitor tem o propósito de tornar
o argumento incontestável, segundo Coraccini (1991). Este aspecto
pode ser notado na ocorrência rara nos textos de expressões
como “é possível...”, “talvez...”,
“parece que...”, que admitem possíveis refutações
à asserção. Essa impressão de objetividade
oferece credibilidade ao locutor para se impor como autoridade, ou seja,
como alguém que conhece.
Também foi perceptível nos textos dos licenciandos certa
dificuldade em articular o referencial teórico à prática
desenvolvida, em dois artigos (Ra/Le, Si) se deu essa articulação.
Vale acrescentar que o encaminhamento do estágio em solicitar a
elaboração de um projeto de investigação sobre
algum aspecto da própria prática docente tinha por objetivo
fazer o licenciando vivenciar uma experiência de pesquisa em educação.
No entanto, talvez por uma condução inadequada ou mal orientada
a relação teoria-prática ficou a desejar. Até
mesmo a escolha do referencial teórico se deu de maneira independente
pelos estagiários sendo que as disciplinas pedagógicas pouco
influenciaram nessa escolha. Ao que cabe perguntar se os autores indicados
nessas disciplinas têm possibilitado explicar a sala de aula?
Outro aspecto que se destaca nesses artigos é o predomínio
de algum tipo de levantamento de opinião ou de conhecimento dos
alunos, dos três artigos (Ra/Fa, Ju/Pe, Si) que fazem tal questionamento
somente um (Si) não quantifica os resultados, ainda assim ela recorre
à percentualização de acertos de questões
na prova. Esses aspectos parecem indicar a importância atribuída
à mensuração de resultados, ou seja, uma tentativa
de apontar menos subjetividade nas conclusões.
Também se relaciona à busca da objetividade, a ausência
de um locutor explícito nos artigos, como comentado, em nenhum
texto o estagiário fala em seu nome, ao contrário, ocorre
remissão aos dados, isto é, as aulas, os questionários,
os alunos, ou ocorre indeterminação do sujeito, remetendo
ao “foi realizado...”, “foi questionado...”, “foi
notado...”.
Pode-se concluir também que os relatórios, mais que os artigos,
possibilitaram a expressão de modelos imaginários. Tal fato
pode ser explicado, pela generalidade de abordagem, enquanto nos relatórios
a sala de aula foi relatada tendo em vista a atuação do
professor, dos alunos, dos conteúdos, dos materiais didáticos,
os artigos estavam direcionados para relatar a utilização
de estratégias didáticas pelos licenciandos. Outro fator
que pode ter influenciado pode ser porque ao observar a prática
de outro docente, os licenciandos falam do lugar de aluno-estagiário,
já nos artigos falavam do lugar de professor. E como diz Maingueneau,
o lugar de onde se fala determina a identidade de cada indivíduo
e garante sua autoridade institucional. Esta posição de
onde fala o sujeito seria o lugar encenado no discurso. E pelo que consta
nesses textos, falar sobre o outro proporcionou mais expressividade que
falar de si próprio.
Vale a pena relatar o porquê dessa preocupação com
os gêneros escritos utilizados nas instituições educacionais,
particularmente no que tange à formação do professor.
Lembramos que na pesquisa de mestrado de uma das autoras observou-se que
a escrita de cartas, diários, pequenas estórias, nas aulas
de Ciências possibilitou ao aluno assumir-se como autor, ou seja,
a emancipar-se da formação discursiva em que estava inscrito,
passando a constituir sentidos próprios. Então agora questionamos
se os gêneros que têm sido utilizados na universidade em que
uma das autoras trabalha, na disciplina Prática de Ensino, são
os mais indicados para promover a aproximação do licenciando
com algo idêntico, como diz Coraccini (1991, p.193), “encarar
o(s) texto(s) como parte integrante de seu ‘eu social’ e abordá-lo(s)
criticamente, tanto na sua forma de apresentação quanto
no seu conteúdo”.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
CORACINI,
Maria José. (1991) Um fazer persuasivo: o discurso subjetivo da
ciência. Campinas: Pontes
GARCIA, Luiz M. (2004) O professor escreve sua história: um exercício
de análise de relatos interativos produzidos em uma situação
de concurso livre de redação. Campinas: IEL/UNICAMP, Dissertação
de Mestrado
MAINGUENEAU, D. (1989) Novas tendências em análise de discurso.
Campinas: Pontes, p. 29-51
ORLANDI, Eni (1987) A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso.
São Paulo: Brasiliense
¬¬¬¬¬_____________ (2000) Discurso e leitura. São
Paulo: Cortez, 5 ed
_____________ (2003) Análise de discurso: princípios e procedimentos.
Campinas: Pontes, 5 ed |
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