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OS
PROCESSOS DE NOMEAÇÕES PARA O SUJEITO IDOSO CONTEMPORÂNEO
Geralda
Maria de Carvalho Zaidan - Universidade Estadual de Campinas (ILE)
A pesquisa
reflete sobre as diferentes formas de poder nomear as pessoas com mais
de sessenta anos de idade. Essas nomeações circulam em nossos
meios de comunicação, tanto na mídia escrita quanto
na televisiva, de modo que as formas de nomear esse sujeito trazem no
ato da enunciação diferentes sentidos para as nomeações
que (re)significam esse sujeito. A partir do aparato teórico da
teoria da Semântica da Enunciação, a qual nos remete
a diferentes formas de compreender o processo de (re)nomear que se desgarram
das composições da sociabilidade para se (re)significar
como naturais, que podem ser compreendidos no processo de constituição
da identidade desse sujeito “idoso”.
“Fugaz
é a juventude, um suspiro a maturidade, avança terrível
a velhice e dura uma eternidade”
BELLEZA, Dario (1996).
Neste trabalho
fazemos uma reflexão sobre os processos de nomeação
que significam o sujeito a partir dos sessenta anos de idade em nossa
sociedade. Observamos como as designações: Ancião,
Velho, Idoso e 3ª Idade são representadas nas materialidades
da mídia por diferentes sentidos. Entendemos que o sujeito significa
em condições determinadas pela língua e pelo mundo,
o que nos permite observar o modo que essa relação (re)significa
os nomes acima e predicam este sujeito. Isso se dá na medida em
que ele é significado-simbolizado pela linguagem e seus elementos
históricos de constituição de sentidos.
Desta forma, a mídia está inserida no campo das tecnologias
de comunicação, onde a ciência tem contribuído
muito para sua evolução com o intuito de estar inserido
em todas as camadas da sociedade, articulando relações sociais
e influenciando conceitos. Assim, ao constituir os sentidos de suas informações,
a mídia reformula o que vemos a todo o momento e desenvolve novas
estratégias para atrair leitores e telespectadores para os acontecimentos
cotidianos da nossa sociedade. Podemos dizer que o discurso da mídia
está submetido ao jogo de relações de poder, de modo
que ocorre apenas a ilusão da imparcialidade e da informatividade
das reportagens. As circulações das notícias audiovisuais
são compreendidas como gestos de interpretações marcadas
pelo interdiscurso, que o veículo midiático produz na construção
da sua imagem de imparcialidade, atuando na institucionalização
social dos sentidos e com isso, promovendo consensos de que a notícia
veiculada tem a aparente neutralidade.
De acordo com Mariani (1998), no discurso midiático já se
tem uma memória da própria constituição histórica
da imprensa agindo na produção das notícias. Esta
memória é atravessada pela ética dos direitos humanos
promovendo filiações nos processos de produção
de sentidos das informações e, conseqüentemente, no
modo como o mundo político é significado. É a partir
disso que as notícias da mídia (escrita/televisiva) se reinscrevem,
sob o efeito ideológico da evidência, da obviedade, na direção
de sentidos desejados/determinados politicamente pela formação
discursiva hegemônica.
Nesta medida, tomamos como suporte teórico a teoria da Semântica
da Enunciação e a da Análise do Discurso dada a singularidade
do objeto na construção da identidade do sujeito sob a ordem
do repetível. Para Pêcheux (1997), o sujeito é tratado
como forma-sujeito, i. é, produto das formações ideológicas
materializadas nas formações discursivas que designam posições
de sujeito determinadas sócio-histórico e ideologicamente.
A relação entre a ideologia e a língua enquanto historicidade
discursiva nos permite observar a formação dos processos
de significação do discurso e compreender que a linguagem
se caracteriza pela incompletude constitutiva. Também, o caráter
da pluralidade e da opacidade da linguagem remete ao interdiscurso , o
que permite observar diferentes movimentos de sentidos e o funcionamento
da memória.
Então, Pêcheux (1994:55-56) afirma que na discursividade
da língua pode ocorrer uma tentativa de “mascarar”
sentidos porque a linguagem não é “transparente”;
ela camufla outros sentidos. E nessa tensão entre “mascarar”
e “transparecer” acontece uma tentativa de apagamento de outros
sentidos devido à evidência de uma superficialidade que parece
não permitir outras interpretações. É necessário
salientar que ao trabalhar com essa discursividade da língua, a
memória é considerada como um acontecimento que funciona
com o histórico e o lingüístico e, a todo o momento,
os retomamos para a estabilização e a hegemonia dos sentidos.
Ainda, para compreender o movimento dos sentidos das designações
para o sujeito acima de sessenta anos, torna-se pertinente mobilizarmos
os conceitos da teoria da Análise do Discurso. Para tanto, assinalamos
de acordo com Orlandi (1996) que a produção de linguagem
se faz na articulação de dois processos: o polissêmico
na forma de haver uma multiplicidade de sentidos e o parafrástico
nas diferentes formulações para o mesmo sentido. Como diz
(ibidem) em termos discursivos teríamos na paráfrase a reiteração
do mesmo e na polissemia a produção da diferença.
Nesse sentido, a memória se constitui pela ideologia que coloca
em jogo a relação entre a situação e os locutores
e estes com a historicidade, com o interdiscurso permitindo a retomada
de sentidos pré-existentes. (ibidem) ainda postula que:
É daí que se dá a necessidade de se pensar o gesto
de interpretação como lugar da contradição:
é o que permite o dizer do sujeito pela repetição,
o efeito do já dito, e pelo deslocamento, historicização.
A interpretação se faz assim entre a memória institucional,
arquivo, é a possibilidade do sentido vir a ser outro, no movimento
de efeitos da memória, interdiscurso. No domínio do arquivo
a repetição contraditória entre o mesmo e o diferente.
Desta forma, a Análise do Discurso sustenta o sentido de se pensar
a língua capaz de produzir jogos que afetam a repetição
que não reproduz uma substituição do conteúdo
e a discursividade como inscrição desses efeitos lingüísticos
na história.
Para a Semântica da Enunciação a estrutura da linguagem
se dá no espaço onde a palavra e as línguas regulam
ou disputam um lugar atravessado pelo político, e esse atravessamento
pelo político estabelece a divisão da língua, disputa
dos falantes divididos pelo seu modo de pensar e pelo seu modo de dizer.
Assim, o falante diz certas coisas e não outras e em certos lugares
e não outros. Guimarães (2002: 14) afirma que ao falar o
sujeito está afetado pelo interdiscurso, pela memória de
sentidos, estruturado pelo acontecimento que faz a língua funcionar,
portanto, falar é estar na memória.
Segundo Guimarães (1997/2000), os papéis sociais são
tomados de formas diferentes pelos falantes na relação com
a língua, decorrendo daí a sua divisão social, portanto,
a língua não é variável, mas sim dividida
por uma disputa política. Nesta medida, o autor afirma que ”enunciar
é estar na língua em funcionamento”, ou seja, o dizer
está no lugar de disputa ou obediência e exercendo uma relação
de poder.
Para Ducrot (1998:418-426), o falante de uma língua sempre acredita
que as coisas foram, são ou serão como ele as descreve instituindo
o mundo como seu juiz, quer dizer, o autor considera que a palavra não
significa nela mesma, pois o seu significado está voltado para
o exterior porque o valor depende do mundo em que está inserida,
de forma que (...) a palavra diz respeito a um objeto no exato momento
em que o constitui. Ainda, o autor postula que no funcionamento da referência
há duas relações diferentes para operar na relação
de linguagem: a ordem e o desejo, de forma que o sentido e a referência
funcionam diferentemente. O sentido dá pistas de coincidir com
as coisas por elas designadas e o referente está de fora do plano
lingüístico, auxiliando nas direções que possibilitam
a acepção para o sentido. Então, o referente é
constituído também pela linguagem e formado pelas várias
construções de designações enunciadas.
A partir dessa posição sobre o sentido e o referente, procuramos
compreender através dos recortes , o funcionamento das designações
para os nomes: Ancião, Velho, Idoso e 3ª Idade, a relação
dos sentidos com os objetos constituídos pela relação
dos discursos que se confrontam. É através da relação
de materialidades que a designação torna-se instável,
entre a linguagem e o objeto, pois o cruzamento de discursos não
é estável, é ao contrário, exposta à
diferença. Para Zoppi-Fontana (1999), as designações
são caracterizadas como relações semânticas
instáveis produzidas pelo cruzamento de diferentes posições
de sujeito, a partir das quais se instala um sentido apagando outros possíveis.
Ou seja, ao enunciar, uma designação não está
só classificando os objetos e seres, em nosso caso, os sujeitos
com mais de 60 anos, mas fazendo uma alusão à história,
à produção de sentidos determinados pelo funcionamento
do interdiscurso que os significam como indivíduos ao ocuparem
uma posição de sujeito no acontecimento. É nesse
momento que instaura os conflitos entre o mesmo (sujeito com mais de 60
anos) e o diferente (Ancião, Idoso, Velho e Terceira Idade), pois
são constitutivos da linguagem, de forma que alguns sentidos permanecem
e outros silenciam.
Análise dos Processos de designações:
Então, como diz Orlandi (2001) formular é “dar corpo
às palavras” e na produção dos sentidos faz
com que compreendemos o funcionamento da “materialidade” da
linguagem, e a interpretação (id:1998:18) é o vestígio
do possível, o lugar próprio da ideologia materializado
pela história. Nesse sentido podemos compreender que o discurso
midiático traz a ilusão da imparcialidade que foram constituídas
para sustentar a imagem de apenas informar e o efeito imaginário
que afeta o leitor/ouvinte são as instituições funcionando
harmonicamente na sociedade e aos expectadores/leitores cabe seguir o
papel que a mídia impõe. Para compreender os efeitos de
sentidos e os lugares de produção desses nomes, recortamos
enunciados veiculados pela mídia televisiva e pela imprensa para
demonstrar que o ato de designar aparentemente se apresenta com naturalidade
dentro do contexto recortado, pois se tem a impressão que o sujeito
social, ou seja, a sociedade em comum é quem determina essa escolha,
pois ao nomear alguma coisa no mundo, está-se de certa maneira
classificando distintamente o mundo, a partir da relação
do homem com a língua. Bobbio (1996) afirma que: nomem omen –
o nome é um presságio. Guimarães (2002) afirma que
o nome é fundamentalmente a representação do lugar
político-religioso e esta determinação individualiza,
particulariza o que se descreve e, é assim que a expressão
é um nome.
Nesta perspectiva, analisamos o funcionamento semântico-enunciativo
da designação: Ancião, em dois diferentes acontecimentos,
não temos o intuito de analisar as imagens postas visto que trazemo-las
na intenção de ilustrar este trabalho sobre as diferentes
designações para o sujeito acima de 60 anos de idade.

A revista
VEJA divulgou o processo de eleição para o novo Papa, intitulada
como: O desafio de eleger um novo papa com carisma, força moral
e sabedoria. Quem?
No primeiro recorte, remetemos a uma das maiores divulgações
da mídia sobre o processo de nomeação do Papa (Joseph
Ratzinger), sucessor de João Paulo II. No mês de abril, do
corrente ano, o mundo ouviu informações sobre como um nome
pode representar uma autoridade mundial da instituição Católica.
Assim, o fato de receber outro nome significa, além da referência
que o nome próprio produz, também carrega diferentes sentidos.
A primeira apresentação do Papa à comunidade católica
ocorreu na sede da Igreja Basílica de São Pedro, no Vaticano.
Neste momento, o mundo conheceu seu novo líder católico
e o nome que recebeu para representar esta nova posição-sujeito.
A escolha do novo nome próprio do Papa é um fator muito
importante para a comunidade Católica, pois explicita os fundamentos
da administração do novo papado.
O Papa Joseph Ratzinger , de 78 anos de idade, renomeado por Bento XVI,
ao se apresentar para a comunidade católica, anuncia a escolha
de seu novo nome em homenagem a outro Papa antecessor, Bento Quinze (XV),
o qual havia trabalhado por grandes causas, como foi o de pacificador
da 1ª Guerra Mundial em 1917 e para a fundação da Ordem
Monástica dos Beneditinos, no século V. Assim, o nome de
Bento XVI traz, juntamente com a sua representação, sentidos
históricos que resgatam um passado da Igreja Católica. Ou
seja, esta nomeação funciona rememorando as irrenunciáveis
raízes cristãs de sua cultura e civilização.
O Papa, falou dos valores que levou em consideração ao assumir
esse nome próprio. Por ser o padroeiro da Europa, o Santo Bento
simbolizou “um chamado às inalienáveis raízes
cristãs” da civilização européia, pois,
reverenciado na Baviera pela progressiva expansão da Ordem Beneditina
que ele fundou. Além disso, exerceu uma enorme influência
na difusão do cristianismo pelo continente. Assim como, uma homenagem
à união deste continente, Bento XVI disse que trabalhará
pela paz e harmonia entre os povos do mundo.

A revista
BRASIL CRISTÃO , desenvolveu a Campanha da Fraternidade da Igreja
católica de 2003, e teve como tema: “Fraternidade e Pessoas
Idosas - Vida, Dignidade e Esperança”. Esta campanha categoriza
as pessoas na faixa etária acima de 60 anos de idade como “idosas
”.
O segundo recorte faz parte desta revista que desenvolveu a matéria:
“O que fazer com os idosos?” , nomeia este sujeito com mais
de 60 anos, como Ancião e faz referência a uma parábola
do sábio Salomão que era generoso e sábio com aqueles
que convivia, sempre tomava conselhos com os mais velhos para se dirigir
ao povo e demonstrar sua capacidade de justiça. Com a sua morte,
seu filho Roboão herdou o posto para conduzir aquele povo. No poder,
Roboão quis reformular a administração que era praticada
aumentando as taxas dos impostos, os quais tornaram pesados os jugos daquela
sociedade. Ao tornar público essa decisão, Roboão
criticou a administração de seu pai e disse que ele seria
mais severo. Com isso, ocorreu a primeira grande divisão do povo
de Deus que se enfraqueceu e tempos depois foi completamente dizimado,
porque não mais obedeciam a Roboão.
A Igreja Católica, através dessa parábola, faz circular
sentidos entre os interlocutores de que o Ancião é o sujeito
detentor de grande sabedoria, de pessoas honradas, de grandes capacidades
de reflexões e de conselhos, pois experiência e sabedoria
só se conseguem com o tempo. À medida em as pessoas envelhecem,
elas passam a ocupar na sociedade o lugar que lhes compete, contribuindo
para uma sociedade mais justa. Neste sentido, as Igrejas em geral, recorrem
às pessoas mais velhas para fazerem parte do ritual da celebração
de maneira que a representação do lugar social do Ancião
ultrapassa os sentidos de sabedoria adquiridos com o tempo e passa a funcionar
como símbolo de Deus. Assim, os sentidos para o sujeito Ancião
se sustentam no esteriótipo do ser simbólico representante
dessa voz celestial, o qual é sedimentado através do senso
comum que é determinado pela ideologia do ser (abençoado
por Deus). Desse modo, vemos que o assujeitamento é constituído
historicamente e, é pela língua que o sujeito Ancião
aceita a interpelação do aparelho disciplinar da Igreja
e do Estado para que os sentidos se desloquem e se movimentem ideologicamente
passando a ter significados diferentemente.
Assim, os sentidos além de serem social e familiar apresentam-se
ao senso comum de uma certa comunidade lingüística como uma
etiqueta rotulada ao objeto, Fournier (2001:112) diz que:
“O
rótulo é colocado na via a ser identificada. É a
relação de co-presença entre o objeto nomeado e o
rótulo, que produz a função denominativa da seqüência
discursiva que figura como rótulo. Dessa forma o odônimo
só é determinado como tal dentro e por meio da sua figuração
neste dispositivo complexo, heterogêneo, que consiste na contigüidade
entre um segmento discursivo e o espaço nomeado”.
Nesse sentido,
o nome comum determina uma classe de objetos porque além de referir,
também descreve, e isto o diferencia de nome próprio que
aponta para um objeto único no mundo e que não tem referência.Então,
a Semântica da Enunciação, nos remete à diferentes
formas de compreender o processo dessas designações que
se desgarram das composições da sociabilidade para se (re)significar
como natural, as quais podem ser apenas modificadas politicamente e compreendidas
na multiplicidade de sentidos da identidade desse sujeito com mais de
60 anos.
Visto isso, dizemos que o funcionamento enunciativo do nome próprio
tem sua condição determinada pela posição-sujeito
que se inscreve no acontecimento de linguagem e que determina e assegura
(re)nomeações cristalizadas pela grande mídia. Ou
seja, o processo de nomeação mostra, especificamente, que
os funcionamentos discursivos dos nomes próprios têm sua
condição determinada pela posição sujeito
que determina e assegura um lugar de enunciação no processo
da nomeação.
Desse modo, a (re) nomeação de Josef Ratzinger por Bento
XVI é um acontecimento que não constitui legitimidade jurídica
porque é sobre o nome de Estado (Josef Ratzinger) que recai essas
responsabilidades e a Igreja católica reafirma o nome próprio
(de Josef Ratzinger) que o Estado constituiu através do ritual
de batismo, de modo que ocorre a confirmação do nome próprio
e não um novo processo de nomeação. Então,
a designação de Bento XVI é legitimada pelo Conclave
produzindo efeitos de sentidos de santidade, autoridade, respeito, reverenciação
que se dá através do efeito de memória, ou seja,
significa universalmente a maior autoridade da Igreja Católica.
Essa designação, no contexto religioso e social, tem como
efeito de pré-construído que, segundo Pêcheux (1997:99)
“consiste no fato de que nenhuma determinação pode
ser aplicada ao nome próprio, pela excelente razão de que
o nome próprio é resultante da operação de
determinação”. Com isso, podemos compreender como
o nome e a (re)nomeação são determinados pela instância
política, social e econômica que dissimula o funcionamento
do aparelho do Estado.
Podemos dizer ainda que no funcionamento das designações
há uma contradição entre Bento XVI e Ancião.
A designação de Bento XVI traz efeitos de sentidos estabilizados
e de forma positiva, pois é um sujeito preparado e formado para
o posto e a designação de Ancião traz sentidos de
autoridade constituídos no ambiente religioso, seja pelo poder
de acumular saberes e conhecimentos, como forma de dominação
através da fé, das relações de forças
sócio-histórica e ideológicas, ou seja, neste caso,
pelas enunciações das designações para o Ancião
apontarem para uma discursividade bíblica que produz a ilusão
da estabilidade referencial, isto é, produz a ilusão de
um único sentido para o sujeito com mais de 60 anos (Ancião)
nessa relação referencial. Assim, o funcionamento discursivo
nos possibilita retornar a partir de outro lugar, em nosso caso, o lugar
religioso de que o sujeito Ancião não é descartável,
portanto se o for, o representante de Deus não tem valor para a
sociedade contemporânea ?
No acontecimento enunciativo da designação Ancião,
ela se constitui nas relações de poder, pois ao observarmos
o enunciado da capa da revista Brasil Cristão – Será
que eles são descartáveis? Há sentidos constitutivos
de que a determinação para o Ancião se apresenta
como opacas pelo processo de nomeação, ou seja, a sua não
transparência. Em outras palavras, o que individualiza é
o que traz a posição do enunciado. Aqui o enunciado sintetiza
exemplarmente o confronto entre a dimensão do acontecimento e a
memória que necessariamente comparece para que o acontecimento
seja tanto de linguagem e de sentidos. Pois, o enunciado da capa da revista
Brasil Cristão evidencia essa dimensão do acontecimento
de forma pejorativa porque os Anciãos continuam sendo os velhos
que a sociedade não quer, pois eles não servem para nada,
por isso eles são descartáveis.

A revista
ISTO É veiculou a matéria: "A Sociedade não
está preparada para lidar com a população que mais
cresce no país". O recorte 3 nos informa que:
(...) as relações entre as gerações não
são fáceis em nenhum lugar do mundo, nem hoje nem em tempo
algum. De uma geração para outra, costumes e valores mudam.
Há sempre conflitos, independentemente de classe social. O que
nos faz pensar que o tratamento dado hoje aos idosos é pior que
há 40 ou 50 anos? (...) a idéia de que os velhos deveriam
ser e eram respeitados e até reverenciados pôr sua sabedoria.
Em culturas de menor complexidade, nas quais a transmissão de conhecimentos
se dava de forma oral, havia valorização dos mais velhos,
porque eles detinham o conhecimento e isso lhes dava poder.
Algumas décadas
atrás, as reações das sociedades em relação
ao tempo eram mais calmas e lentas, o que não ocorre nos dias atuais.
Naquela época, o velho era considerado o guardião da sabedoria,
da tradição. Mas, o progresso é tão vertiginoso
e irreversível que a elasticidade mental do velho fica cada vez
mais distante em relação aos conhecimentos, científicos
e tecnológicos, com isso contribui cada vez mais para uma realidade
irremediável, a exclusão técno-científico.
Assim, as designações deste recorte nos remetem a Guimarães
(1995:103) quando afirma que a designação de uma expressão
lingüística se apresenta como se fosse única e, na
verdade significa que suas relações interdiscursivas são
constitutivas enquanto designação. O ato de designar alguém,
aparentemente, se apresenta a partir de uma absoluta naturalidade, pois
tem-se a impressão de que o desejo de uma pessoa ou grupo social
é que determina essa escolha. Então, ao nomear alguma coisa
no mundo é estar, em certo sentido, classificando distintamente
o mundo. Assim, as nomeações "velho, idoso" neste
recorte acima, trazem sentidos pejorativos, de inutilidade para os sujeitos
de sessenta anos de idade porque eles não conseguem acompanhar
a evolução da sociedade.
Ainda na
revista ISTO É afirma que: “(...) nas sociedades contemporâneas,
o conceito continua o mesmo: Mas a ânsia pelo novo e pela rapidez
de informação relega ao desprezo as pessoas que não
compartilham desse mundo de consumo rápido. Isto é, o velho
”.
Nesse sentido podemos observar que o velho significa como alguém
isolado e discriminado do meio social, sem interesse pela vida e sem ocupação.
Eles toleram os limites que lhes são impostos, aceitando-os como
algo cristalizado pela sociedade, pois são determinados por sentidos
pejorativos que se significam como efeito de evidência.

A revista
Aterceiraidade aborda especificamente questões que dizem respeito
à faixa etária que chamamos metalinguagem de "terceira
idade" como, por exemplo, as formas de inserção e esclarecimentos
para esse sujeito nas várias possibilidades de continuar incluído
socialmente. No recorte 4, a administração regional do SESC
de São Paulo esclarece que:
O Plano de Ação Internacional de Madrid sobre o Envelhecimento
em 2002, destaca como objetivo que os idosos possam desfrutar plenamente
de seus direitos humanos, envelheçam de forma segura e fora do
alcance da pobreza, participem integralmente da vida econômica,
política e social, e tenham a possibilidade de realização
em idade avançada
A partir dos meados dos anos 80, diversas iniciativas se proliferaram
no sentido de tratar esses sujeitos, considerados como: os sujeitos da
"terceira idade", que são (re)significados pela grande
mídia (escrita/televisiva) como novo velho e significados como
inclusos socialmente, como ativos, detentores de poder aquisitivo, etc.
Aqui, não será considerado como recorte, mas de forma elucidativa,
as propagandas veiculadas nas emissoras de televisão, como: Rede
Globo, SBT e Bandeirantes apresentam atualmente, propagandas de bancos
que oferecem créditos sem burocracias, como exemplo: empréstimos
de dinheiro para essa faixa etária com condições
de taxas de juros e pagamento diferenciados dos demais. Também,
as propagandas de produtos de beleza que prometem a eterna juventude,
define um novo mercado de consumo. Conforme a socióloga, Debert
(1999:213). “ O consumidor na Terceira Idade: Um mercado Adolescente”,
da CBBA/Propeg, concluído e, 1989, considera que:
(...) pesquisas em vários países surpreendem ao apontar
para este enorme mercado do sênior citizen, seu elevado poder de
compra e potencial como consumidores. O senior citizen norte americano
é caracterizado como “uma pessoa com muito tempo livre, sem
algumas das despesas essenciais básicas e com rendimento seguro,
ou seja, um consumidor alvo”.
Ainda a socióloga, Debert (1999:138),define estes sujeitos como:
“Terceira Idade” é uma expressão que, recentemente,
popularizou-se com muita rapidez no vocabulário brasileiro. Mais
do que referência a uma idade cronológica, é uma forma
de tratamento das pessoas de mais idade, que ainda adquiriu conotação
depreciativa. A expressão originou-se na França –
país onde os primeiros gerontólogos brasileiros foram formados
(Stucchi, 1994) –com a implantação, nos anos 70, das
“Universités du Troisième Age”. Da mesma forma,
a expressão “third age”, de acordo com Laslett (1987),
foi incorporados ao vocabulário anglo-saxão com a criação
das “Universities of thr Third Age” em Cambridge, na Inglaterra,
no verão de 1981 e, é hoje de uso corrente entre os pesquisadores
de língua inglesa.

A revista
CLAUDIA traz uma das chamadas na capa intitulada como: O novo velho. Assim
, no recorte 5, abordamos esta reportagem desenvolvida pela revista sobre
O novo velho. É produtivo, exige respeito e vive a vida com intensidade.
Uma turma que não para de crescer. Susana de 78 anos diz:
Sou assistente social e professora-doutora em gerontologia, da PUC de
São Paulo, ainda atuante na área da educação,
afirma que os avós das gerações anteriores tinham
lugar reservado na cabeceira da mesa, transmitiam sabedoria e eram reverenciados
pelos seus feitos do passado. Nas famílias modernas,onde os costumes
são diferentes e a agitação permeia as relações,
os velhos deixaram de ser referência e se submeteram á solidão,
pois é um desafio encontrar o seu espaço, fazendo com que
busquem alternativas .
Segundo Sartre,
a velhice é irrealizável, é uma situação
composta de aspectos percebidos pelo outro e, como tal, reificados que
transcendem nossa consciência. Pois a sociedade rejeita o velho,
não oferece nenhuma sobrevivência à sua obra. É
a sua condição social e financeira que constitui uma defesa
contra o outro, de forma que o poder aquisitivo o defende da desvalorização
de sua pessoa, caso contrário, é um sujeito que sobrevive
à margem da sociedade. Então, questionamos se a atual sociedade
perceberá esse sujeito, e se uma nova constituição
corrigirá as falhas da velha, no sentido que estes sujeitos com
mais de 60 anos sejam respeitados, tanto pela sua condição
física, intelectual, social e pela idade. Pois, a realidade do
sistema contemporâneo não aceita as limitações
desses sujeitos que estão mais lentos, por exemplo, com dificuldades
de transportes, locomoção nos grandes centros urbanos, o
grande fluxo de pessoas circulando pelas ruas ao mesmo tempo, a agilidade
dos semáforos, etc., são práticas sociais que não
incluem as limitações destes sujeitos.
Conforme a reportagem da Revista CLAUDIA, no recorte 6, observamos que
a sociedade contemporânea está revendo seus estereótipos
associados ao envelhecimento e construindo uma nova imagem de forma que
esses sujeitos possam ser reconhecidos como um ser autônomo e capaz
de exercer sua cidadania.
(...) Frederico Paulo, 66 anos, desfilou na São Paulo Fashion Week
de julho de 2004, atiçando a platéia com alegria e sensualidade
contagiantes. Na reportagem para a revista, ele disse que (...) alguém
na minha idade não pode jamais vestir o pijama, foi a alternativa
que o aposentado bancário encontrou para se tornar modelo publicitário
.
Nos recortes 5 e 6 observamos uma deriva de sentidos para pessoas com
mais de sessenta anos. Pois, ao (re)significar esse sujeito nos enunciados
dos recortes acima, podemos constatar que pelo processo designativo há
um movimento de sentidos que resignifica estes sujeitos de modos diferentes
pôr serem inclusos socialmente e ao mesmo tempo apontados para a
estabilização de um lugar único de significação,
isto é, um lugar de consenso social para estes sujeitos se significarem
como os novos velhos. Portanto, o discurso midiático da visibilidade
para as práticas interdiscursivas, de modo que podemos observar
a determinação da (re)formulação que permite
a repetição ou o apagamento pelo esquecimento da memória
do dizer e também, contribui para estabilização de
sentidos como prática social que repete uma certa ideologia que
se deixa atravessar pelas muitas vozes divergentes que são também
constitutivas da história, bem como uma desestabilização
dos mecanismos tradicionais da sociedade capitalista. Na afirmação
teórica da determinação dos funcionamentos enunciativos
pelo interdiscurso, levam a estabelecer uma relação necessária
de um lugar de enunciação com as posições
de sujeito que o definem e das quais é uma dimensão constitutiva.
Nesta medida questionamos se os nomes não classificam, ou eles
significam de forma diferente? Ou melhor, podemos considerar que o sujeito
com mais de 60 anos, designado nesta análise se significa nesta
prática discursiva como (re)dividido na relação com
o nome e mundo, numa relação instável, onde os sentidos
são determinados pelas condições de sua produção,
no interdiscurso que cruza diversas posições ocupadas pelo
sujeito, segundo as formações discursivas das quais se falam.
Assim, podemos dizer que no funcionamento de linguagem há um discurso
circular que traz diferentes sentidos para o novo velho. Ou seja, a mídia
reconhece este sujeito com mais de 60 anos como Novo porque é bonito
e está na moda. O Novo (idoso) é aceito pela sociedade porque
ele é Novo e atuante, portanto, este sujeito desconstroe os sentidos
pejorativos que o significaram anteriormente, pois, nesta análise,
o Idoso e o Ancião são inclusos socialmente. Mas, ao analisarmos
os sentidos para essa nomeação (Novo-Velho, Idoso) podemos
compreender que a mídia nos provoca uma ilusão de que este
sujeito com mais de 60 anos é incluso pelo fato dele participar
da sociedade, então ele é Novo. Mas, no momento em que nomeia
o Novo como Novo-Velho , esta nomeação traz todos os sentidos
pejorativos que a sociedade lhes imputa porque ele é Velho, isto
é, são Novos-Velhos.
Segundo Guimarães (2002:12) as (re) escriturações
podem ser compreendidas como “aquilo que faz diferença na
ordem da linguagem, pois não é o sujeito que temporaliza
e sim o acontecimento”. Então, todo acontecimento de linguagem
é um novo redizer. Nesse sentido podemos compreender que as predicações
para o sujeito acima de 60 anos de idade são determinações
que pelas relações de linguagem se constituem como anáfora,
catáfora, sinonímia, substituição, repetição
entre outros como lugar de redizer o mesmo, mas de modo diferente, pois
todo dizer é um (re) dizer do mesmo. Desta forma, neste recorte
do novo- velho há uma contradição porque os sentidos
históricos nos remetem a uma memória que já tem sentidos
pejorativos para este sujeito, mesmo ele sendo o novo-velho.
Logo, na análise das designações, compreendemos que
o nome constrói uma identidade que não se apreende, mas
determina, (ibidem:30), “estas posições se constituem
em processos de memória afetada pelo inconsciente e pela ideologia”.
Sendo assim, a ilusão da identidade da unidade sujeito, neste caso,
o sujeito com mais de 60 anos, é parte do imaginário que
constrói certas identidades e negam outras. Ou seja, a designação
é determinada discursivamente a partir das relações
sociais que significam os sujeitos idosos diferentemente. Vale lembrar
que (Id.) a política dos sentidos está na língua
a partir da constituição de sentidos das enunciações.
Pois bem, esses efeitos na constituição das designações
feitas sobre o idoso desconstroem a ilusão produzida nas diversas
comunicações (publicações escritas e discursivas)
que a mídia faz ao se institucionalizar também, no sentido
de demonstrar que no seu funcionamento produz a ilusão e assegura
o diferente significar o mesmo.
Como explica Mariani (1998), somos levados a desconstruir a ilusão
de imparcialidade da mídia, pois tanto o sujeito produtor da comunicação
audiovisual como o sujeito receptor se esquece de que ambos são
afetados pela ideologia, pois a prática discursiva midiática
ao se institucionalizar faz o mesmo parecer diferente, pois está
inscrita no campo histórico-social das relações de
forças em luta pela hegemonia na produção de sentidos.
Neste jogo da representação dos valores de idades para os
sujeitos, temos a díade do jovem-velho, “o jovem” denota
o lado positivo do inteiro, “o velho” traz sentidos de negativo
e do não inteiro. O jovem Adão contrapõe-se ao Velho
Homem (Deus). A confirmação do Novo Testamento sobre o Velho
Testamento. A Nova Ordem a ser restaurada contrapõe-se à
Velha Ordem que deverá ser sepultada sob seus escombros. A jovem
Europa dos povos contra a Velha Europa dos príncipes. A Nova Classe
Burguesa substituirá a Velha Classe da Aristocracia, assim como
a Nova Classe do Proletariado derrubará a Velha Classe da Burguesia.
Por fim, as atuais discursividades que significa a terceira idade como
o "novo velho", sujeito ativo, irrompem os sentidos pejorativos
cristalizados até então. Assim, constituem um acontecimento
discursivo, visto que a história brasileira dos movimentos sociais,
políticos, econômicos e culturais enfatizava a juventude,
a velocidade das máquinas e, conseqüentemente ocorrendo um
apagamento que negava o velho. Na sociedade atual, estes sentidos se irrompem,
pois os velhos serão a maioria. De fato, estamos às vésperas
de um novo acontecimento impulsionado por uma modificação
demográfica, pois a população dentro de poucos anos,
pela primeira vez na história, será em sua maioria composta
pela terceira idade. E com isso os pais, filhos, avós, e alguns
casos, até bisavós conviverão no mesmo ambiente,
pelo menos podemos supor no contexto brasileiro, isso porque com o aumento
da expectativa de vida, várias gerações viverão
simultaneamente.
Então, nessa conjuntura social no futuro, teremos uma nova exclusão
de modo que os novos velhos serão os incluídos socialmente
por serem participativos e haverá também, os velhos-velhos,
os quais não serão capazes de acompanhar o que veicula na
sociedade do momento, de forma que serão exclusos socialmente.
Nesse processo de lugares de significações (Zoppi-Fontana,
1997:4) afirma que: “ (...) permite ao sujeito se situar no mundo
porque se situa no mundo das significações, reconhecido
num lugar da memória” .
Podemos compreender que no próprio funcionamento da linguagem ocorre
uma nova exclusão porque o velho não irá deixar de
ser velho em nenhum momento, apenas há no processo de linguagem
a ilusão de (re) significá-lo diferentemente .
Enfim, podemos compreender que a mídia tem um papel muito importante
na sociedade, pois contribui para mudanças de acordo com o interesse
do Estado nas questões de Políticas Sociais e Mercadológicas,
evidenciando a atuação das relações poder,
as quais vão contribuindo para um mundo contemporâneo diferente,
isto é, no sentido de que a consciência social pode mudar
e legitimar conceitos de valores estigmatizados em nossa memória
histórica e no meio social, de modo que as discursividades veiculadas
na mídia de forma geral, se significarão por meio das evidências
ideológicas materializadas pelas relações políticas
que a linguagem midiática produz, a qual não é apenas
de informação, mas de ter um papel central na construção
de valores das relações sociais.
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