15º CONGRESSO DE LEITURA DO BRASIL

 

A rosa de Hiroshima
Vinícius de Moraes
Na voz de Emmanuel Marinho

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada
(in Antologia Poética. São Paulo:
Companhia das letras, 1992, p. 196)

 

 

Tema: Pensem nas crianças mudas telepáticas

A criança indaga, em seu silêncio de desesperança vindo da nuvem de poeira que sobe dos escombros:
para quê?

A criança, insistente, indaga, em sua mudez causada pela sinfonia de metralhadoras:
para quê?

A criança ainda indaga, em seu espanto silencioso diante de sirenes e pedaços de corpos ensangüentados:
para quê?

A criança continua a indagar na cegueira que lhe causam os muros da apartação:
para quê?

Para que estudar, ler, brincar, fazer arte, viver?

Ela quer brincar, e joga bola entre colunas de fogo, cuida da boneca entre restos de lixo. Ela quer escrever, ler, contar, dizer-se ao mundo. E de sua mudez telepática, que mal ouvimos, chega a pergunta: que sentido tem querer ser neste tempo?

A beleza da tecnologia só se lhe manifesta em artefatos de morte. A riqueza humana só se lhe aparece em produtos da diferença e em anúncios de competição e disputa.

Longe, muito longe, no outro lado do mundo que pode estar bem perto – no bairro vizinho ao morro, na cidade intacta e movimentada, na tela em que um pintor desenha uma rosa, nas palavras escritas de uma história maravilhosa, na música que convida à ciranda –, ela vislumbra a vida que não é sua, a vida em que pessoas brincam, vão à escola ou ao trabalho, manuseiam a matéria da fantasia, sonham que fazer o existir faz sentido.

Não nos iludimos nem nos negamos. Nosso discurso de Educação participativa e transformadora e de estímulo à Leitura não é vão. Nem são vãs as imagens de vida que a arte projeta. São a expressão do desejo de que é possível instituir uma nova ordem social, em que Poder não seja sinônimo de opressão, miséria e terror, em que a possibilidade de ser não se resuma à competitividade empresarial e territorial. Por isso seguimos.

Mas sabemos de sua (nossa) insuficiência. Sabemos que não basta ler para ser mais que número na lógica da produção. Sabemos que toda nossa ação pode apenas servir à Ordem do consumo, do terror e da negação da existência. Sabemos que a atividade intelectual, mesmo quando sinceramente comprometida com os gestos que querem a destruição das rosas pútridas de Hiroshima, não basta. Sabemos que as palavras de ordem de solidariedade e contestação não são mais que um antigo chavão, pois assim querem as ideologias novidadeiras, que tratam de difundir as imagens ocas da inauguração de uma modernidade que não é mais que a ordem da competição e da destruição.

E sabemos disso tudo porque é isso o que contam as crianças mudas telepáticas, cuja mudez carrega toda sua capacidade de recriar e sobreviver em esperança.
Há repetições que são criativas e devem resistir.