TEMÁRIO

“Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las” – Ferreira Gullar

Há muitas armadilhas no Brasil contemporâneo e sem dúvida que é preciso cuidadosa, coletiva e solidariamente, identificá-las para desarmá-las e quebrá-las. Extirpá-las... A realidade brasileira que hoje se vê e que hoje se vive, produzida no transcurso da história, tem muito de embustes, de embromações; tela pintada com as cores do ardil e da armação; entrelaçado no qual se misturam, disfarçadamente, arapucas e alçapões.

As armadilhas econômicas: fundos buracos sulcados em todas as regiões brasileiras. Nos sertões. Nos morros. Nas periferias das cidades. Em beiras de rios. Ao lado das estradas. Debaixo de pontes. Ocupações, favelas. E junto, o exército de famintos e miseráveis, existindo precariamente, sem dignidade, à base de reais contados, estipulados, minguados. Ainda se constata, em pontos do país, o trabalho infantil, o trabalho escravo, a exploração selvagem do trabalho. Reina o desemprego!

As armadilhas da política: logros e manobras tapados à peneira, ofuscando responsáveis e responsabilidades. O mote e os botes do mensalão. As sanguessugas chupando benesses da saúde. Sovinice, enriquecimento ilegal, ilícito. Muitos truques, várias ratoeiras. Currais eleitorais. Voto de cabresto. O político coronel mandão enverrugado na paisagem social. Impera a impunidade!

As armadilhas da globalização: lógicas internacionais que não constituem uma lógica universal humanizante, que são vesgas e caolhas, a ditarem comportamentos e estilos padronizados de vida aos brasileiros. Os mercadores, dominadores do passado e do presente: ingleses, franceses, norte-americanos, japoneses, coreanos, espanhóis, noruegueses, finlandeses, etc A subliminar ação arrasadora da tecnologia e da mídia: o apagamento da memória, a destruição galopante da identidade nacional. Erguem-se as falsas portas!

As armadilhas culturais: a erudição e o beletrismo perfunctórios, incrustados nas mentes e nas mentalidades. O imaginário, potente e prepotente, reproduzido no avanço dos séculos. Hoje o luxo e o lixo. A elite e a ralé, o povão. As cortes e os súditos. Os “socialites” e as putas de esquina. Os brancos contra os negros e os índios, eternos subalternos. O preço inatingível da pintura, da escultura, do paisagismo, da entrada do teatro, do cinema, do livro, do show de música. Fronteiras e divisões preconceituosas, perigosas, falsas. Amplifica-se exponencialmente o sensacionalista e o grotesco!

As armadilhas educacionais: escolas enlaçadas na mediocridade e os sonhos que sempre redundam em pizza. Morrem na praia. A luta dos educadores: água mole em pedra dura, tanto bate e nunca fura. O comércio das particulares: burro carregado de livro é doutor. O estado das escolas públicas brasileiras: casa de ferreiro, espeto de pau sem carne salarial, sem brasa infra-estrutural. O esquecimento calculado da educação pública e universal: por fora bela viola por dentro pão bolorento. Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades. Entristecem-se os professores!

E todas essas armadilhas se concretizam às escondidas, enjauladas em palavras, em símbolos, em discursos. Como pode o leitor desenjaulá-las, desvelá-las, desocultá-las ou, como diz o poeta, “quebrá-las”? Talvez, um ser-leitor historicamente situado lutando com, nos e pelos discursos que circulam nessa sociedade injusta e de privilégios. Talvez, uma experiência de leitura, como placenta geradora de reflexões e ações críticas sobre o mundo, como chave para a destravagem das ratoeiras da informação, das ciladas dos imorais, das velhacarias dos emporcalhados, dos conluios dos conservadores e das armações do poder. Nas iniciativas e nos movimentos, nos gestos e desejos, o leitor, pela leitura, talvez, possa entremear-se nas armadilhas discursivas perigosas e traiçoeiras, produzir sentidos outros das coisas, dos fatos, dos fenômenos, desarmá-las. Verso e reverso? Contradições talvez melhor mostradas na penúltima estrofe do mesmo poema de Ferreira Gullar:

“O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não tem nem para o almoço de hoje”

Ezequiel Theodoro da Silva Campinas,
novembro de 2006