Nº 45 –
Leitura: Teoria e Prática
Ano XXIV- Setembro de 2005 - 80 p.
Estudos
A “leitura literária” e a outra nas vozes do currículo e dos programas
– António Branco – pág. 5
A mais recente Revisão Curricular do Ensino Secundário (2003), em
Portugal, introduziu, entre outras, a novidade de uma disciplina optativa
de Literatura Portuguesa, para os alunos que escolherem o Curso de Línguas
e Literaturas. No entanto, o texto orientador dessa reforma atribui à
disciplina universal e obrigatória de Português a função de “valorização
da literatura portuguesa”. A partir desses elementos, analiso os
documentos oficiais, encarando-os como instrumentos ideológicos e
políticos de regulação do sistema de ensino, para demonstrar que a eles
subjaz uma perspectiva autoritária e excludente das práticas de literacia
escolarizáveis e que em nada mudou a orientação literaturocêntrica da
formação escolar em Língua Materna, em Portugal.
Os clássicos universais: de como as adaptações servem à tradição e a
permanência de Dom Quixote – Maria Teresa Gonçalves Pereira – pág. 17
A modernidade dos clássicos universais. Obras para leitores de todas
as idades e de todas as épocas. A leitura dos clássicos na formação do
indivíduo ético. A linguagem como instrumento de mediação entre os
originais e as respectivas adaptações. Razões de exigência da leitura de
tais textos. O clássico como expressão do sentido da vida; como elemento
deflagrador de reflexões sobre o estar no mundo.
Um clássico e suas adaptações: D. Quixote em diferentes linguagens –
Maria Lilia Simões de Oliveira – pág. 23
Manifestação de heranças culturais e afetivas que atuam no
inconsciente coletivo ou individual. (Re)leituras que levam a
(re)descobertas. Dom Quixote e as grandes utopias: a liberdade e a
justiça. A análise do espírito humano pelo viés do trágico e do cômico.
Fronteiras evanescentes entre realidade e fantasia. O reconhecimento da
obra imortal de Cervantes nas adaptações existentes: aspectos relevantes.
“Ao sol nas bancas de revistas”... Ao livros de bolso de Corín Tellado
(1965-1975) – Maria Teresa Santos Cunha, Felipe Matos e Mônica Sol Glik –
pág. 29
Este texto se constitui em um relato inicial de pesquisa sobre as
novelas sentimentais de Corín Tellado, publicados em forma de livros de
bolso e muito populares como leituras femininas entre as décadas de 1960 e
1970. Na clave de uma História da Leitura procura-se refletir sobre a
produção desses impressos e as representações iconográficas de sua capas a
partir do estudo de uma coleção particular e de registros de uma leitura.
Leitura, literatura infantil e biblioteca escolar: alquimia para a
constituição do sujeito-leitor – Maria Emilia Ganzarolli – pág. 37
O trabalho enfoca a biblioteca escolar como um espaço de leitura
essencial à constituição do sujeito-leitor. Apresenta um breve panorama
histórico da literatura infantil no Brasil, procurando mostrar como cada
momento contribuiu para a construção de sentidos da leitura e do
sujeito-leitor. Enfatiza a representação da biblioteca escolar como espaço
de leitura, de produção de sentidos e aproximação com os objetos
culturais.
O professor de Língua Estrangeira e o compromisso social – Clarissa
Menezes Jordão – pág. 43
Esta interferência apresentará questionamentos sobre a importância das
línguas estrangeiras na contemporaneidade, com destaque para a posição da
língua inglesa no processo educacional. Adotando a perspectiva educacional
de formação para a cidadania e tomando como referência conceitos de
discursos e de cidadania em Foucault e Freire, respectivamente, defende-se
a língua estrangeira como espaço privilegiado de construção de
procedimentos interpretativos e essencial para o processo de formação de
cidadania ativa. Além da formação dos alunos, discutiremos também a
formação continuada dos professores de línguas estrangeiras, abordando
especialmente dois programas de formação continuada desenvolvidas
recentemente no Estado do Paraná.
O professor formador de leitores e escritores: saberes e competências –
Ana Maria Sá de Carvalho – pág. 53
Abordam-se experiências pedagógicas com professores dos ensinos
fundamental e médio, através do compartilhamento de vivências com a
leitura/escrita, tendo por base teórica e as concepções
sociointeracionista, estética da recepção e letramento e como instrumento
de pesquisa e portfólio. Os resultados apontam para um professor
repassador de conhecimentos, ressentido da falta de oportunidade de
convivência íntima com a palavra escrita, isto a confirmar uma formação
pedagógica deficiente transmitida aos alunos o que, na maioria das vezes,
impede o alcance de uma melhor qualidade educacional. Propõem-se saberes e
competências que contemplem no seu contexto e no seu conjunto o preparo do
professor formador de leitores e escritores.
Marcas gramaticais no texto injuntivo das instruções de uso: subsídios
para a prática do professor – Wagner Rodrigues Silva – pág. 59
Este trabalho analisa as formas verbais no modo imperativo e no
infinitivo nominal, bem como as de função adverbial na estrutura do gênero
instrução de uso. Os usos regulares dessas formas lingüísticas são
concebidos como marcas gramaticais. Esse enfoque gramatical está pautado
nas orientações do ensino de gramática atreladas à atividade de leitura
textual de gêneros, apresentadas nos PCN de Língua Portuguesa para o
Ensino Fundamental II. Nesse sentido, o ensino de gramática fundamentado
na concepção de gramática normativa, característico da tradição escolar
brasileira, é criticado, enquanto o ensino de gramática fundamentado na
concepção de gramática funcional é assumido no documento. A assunção da
abordagem gramatical funcional a partir da noção de texto como unidade de
análise e de gênero como objeto de ensino possibilita o enfoque da
expressão de sentido semiotizada pelo uso das marcas gramaticais,
resultando, algumas vezes, na desestabilização de preceitos apresentados
na gramática normativa.
La internacionalización de la evaluación de los aprendizajes em la
educación básica – Emilia Ferreiro – pág. 69
A avaliação é intrínseca ao funcionamento de um sistema educativo, o
qual tem a responsabilidade de garantir que seus ingressantes tenham os
conhecimentos e habilidades requeridos pelo programa de formação. Sempre
houve avaliação no contexto educativo, em todos os níveis. Porém a
novidade da última década do século XX é a internalização ou globalização
das avaliações. Também são novidades as agências avaliadoras. Uma
organização que não tem tradição em suas origens com a educação (a OCDE)
tem imposto a seus membros – e a vários países não membros – uma avaliação
internacional, chamada Pisa, que tem grande impacto social e incide no
currículo real. As autoridades locais (as Secretarias ou os Ministérios da
Educação de diferentes países) têm avaliações que estão em grande medida
“modeladas”, ou pelo menos influenciadas pelos parâmetros internacionais.
A América Latina não é exceção.