OS LIVROS E SUAS DIFICULDADES
Márcia Abreu

Os livros e suas dificuldades Se você interessou-se por este artigo, pois ao ler seu título acreditou que aqui se trataria das dificuldades de aproximar as pessoas dos livros, dos problemas dos alunos enquanto leitores, do desinteresse pela literatura, enganou-se. Ao contrário, nosso objetivo é questionar a tão alardeada crise da leitura e discutir as dificuldades de falar sobre livros decorrentes de nosso desconhecimento sobre as reais condições em que se lê no Brasil.
 
A suposta crise da leitura não deveria resistir ao confronto com alguns dados, como os apresentados no texto " As letras e os Números" (publicado no boletim número 6). Os brasileiros lêem e fazem do mercado editorial um bom negócio. Recentemente, foi criada uma nova editora - a Camelot - a partir de um investimento R$ 40 milhões. Esperam alcançar um faturamento de R$ 150 milhões por ano, colocando no mercado 14 ou 15 títulos.
 
Os brasileiros não só lêem, mas escrevem. Soterrados sob uma montanha de textos literários submetidos aos concursos promovidos pela Bienal Nestlé de Literatura - 15 mil inscrições apenas em 1994 -, os organizadores decidiram alterar o regulamento e limitar a inscrição aos livros já publicados. Mesmo assim, candidataram-se 800 obras.
 
Uma objeção fácil aos dados aqui apresentados é dizer: "mas as pessoas lêem livros sem valor", ou "este tipo de leitura não interessa". Estas observações - filhas do mesmo discurso que gera comentários como "esta é uma nação de iletrados", "este é um povo ignorante" - visam manter o status social e intelectual daqueles que lêem alta literatura e que têm sua formação e desempenho profissionais fortemente vinculados aos livros.
 
Estes setores querem manter seu privilégio de opinar sobre os textos, de hierarquizá-los, de decidir os que devem ser canonizados e os que devem ser banidos do mundo das letras. Numa atitude totalitária, imaginam que todos deveriam ler os mesmos livros e apreciá-los da mesma forma.
 
Aceita-se que as pessoas tenham religiões diferentes; que tenham opiniões políticas distintas; que falem de várias maneiras; que pensem seu lugar no mundo das formas mais variadas. Mas é difícil aceitar que elas possam ter interesse por livros de auto-ajuda, que gostem de ler best-sellers, que consultem livros esotéricos para organizar sua vida.
 
O campo da leitura - com destaque para a literatura erudita - é dos mais dogmáticos e, por isso mesmo, aquele que oferece maior resistência a questionamentos e modificações. O autocentramento dos profissionais ligados ao livro faz com que desconheçamos as práticas, os objetos e os modos de ler distintos daqueles presentes nos meios eruditos. Faz também com que a leitura se revista de juízos de valor. Tomando-se como modelo de leitura e tomando os livros que lêem como modelos de livro, inferiorizam os demais leitores, tidos como ingênuos, despreparados ou, simplesmente, não-leitores. O prestígio social destes profissionais faz com que sua opinião seja tida como a única verdadeira, fazendo com que as pessoas sintam-se diminuídas por não lerem os livros certos, da maneira certa.
 
Outra resposta fácil é dizer: "então não há mais nada a fazer, já não há problemas a ser enfrentados no campo da leitura". Na realidade, há muito o que fazer, principalmente porque, nos últimos anos, temos enfrentado falsos problemas e nos despreocupado de questões fundamentais. Voltando aos dados apresentados, vê-se que 14% da população brasileira é analfabeta - porcentagem que dobra se consideramos o Nordeste isoladamente. Estes números devem cair nos próximos anos, mas o analfabetismo não desaparecerá enquanto se mantiver a taxa atual de 8,8% de crianças (entre 7 e 14 anos) fora da escola. As desigualdades regionais também tendem a se manter, pois no Nordeste o percentual de crianças fora da escola sobe para 15,2%. Os números mostram outro dado perverso da realidade brasileira: pessoas de "cor preta e parda" permanecem em média 2 anos menos na escola que os brancos.
 
Ao invés de criar programas para convencer as pessoas a ler determinados livros, para difundir o "prazer" de ler, é fundamental que se garanta a todos o acesso aos bens culturais, o que se faz não apenas alfabetizando a população, garantindo escolas e bibliotecas públicas de qualidade, mas também enfrentando as violentas desigualdades sociais brasileiras. Um desempregado, um faminto, não pode se interessar pela "viagem" proporcionada pelos livros, pelo conhecimento de si e do mundo proporcionado pela alta literatura. Talvez ele se interesse pelo Guia do Trabalhador, livro de auto-ajuda escrito por um metalúrgico desempregado, impresso às suas próprias expensas, que já vendeu 1000 exemplares.
 
Além das lutas a serem travadas em sociedade, contra as injustiças sociais, há questões a serem enfrentadas também no campo da leitura. Não parece razoável que continuemos a nos interessar apenas pelas obras consagradas, pelos grandes escritores e pensadores. É preciso conhecer as leituras correntes, aquelas que pessoas comuns realizam em seu cotidiano.
 
A Associação de Leitura do Brasil propõe a realização de um Censo de Leitura, com o objetivo de, mapeando uma amostra estaticamente representativa de pessoas, identificar que tipo de texto se lê, de que maneira, com que finalidade. O resultado desta pesquisa talvez ajude a banir idéias pré-concebidas sobre competências de leitura e sobre circulação dos livros, jornais e revistas. Embora ainda esteja em fase inicial, a elaboração das questões a partir das quais se realiza o Censo, assim como o trabalho com dados quantitativos sobre publicação e venda de materiais impressos, evidenciou o quanto desconhecemos das práticas leitoras e as dificuldades de trabalhar de forma isenta com questões relativas a livros e leitura.
 
Vejamos. Pesquisa do Ibope, realizada de dezembro a fevereiro de 99 , indica que 71% dos moradores do Rio de Janeiro lêem jornal diariamente. O que significa esta informação? Pode-se pensar que os cariocas são muito bem informados, interessados em questões de atualidade e, portanto, têm uma visão mais crítica da realidade. Ou, ao contrário, pode-se acreditar que se interessam por notícias sensacionalistas, crimes e mortes sangrentos, resultados de jogos de futebol e, portanto, são alienados e têm uma visão distorcida da realidade.
 
Colocando a questão de outra maneira: a informação de que uma certa quantidade de pessoas lêem jornal não nos esclarece sobre o tipo de publicação que preferem, a sessão que mais as atrai, a motivação que as leva a estes periódicos. Além disso, a nomenclatura empregada é, muitas vezes, inadequada.
 
O CERLALC-UNESCO, a CBL e a ABIGRAF, ao avaliar a produção editorial, classificam os livros em quatro categorias: didáticos, obras gerais, religiosos, técnicos/científicos/profissionais. As chamadas obras gerais foram responsáveis, em 1997, por 65.995.581 de exemplares, tendo tido um crescimento de 55,02% em relação a 1996. Como interpretar estes dados se, supõe-se, as obras gerais contemplem publicações tão variadas quanto livros de culinária, literatura erudita, guias de viagem, livros de auto-ajuda, best-sellers? O aumento de mais de 50% do interesse dirige-se para que tipo de obra?
 
A categoria técnicos/científicos/profissionais coloca outro tipo de dificuldade, pois pressupõe uma certa destinação da leitura. Imagina-se que se insiram aí obras lidas com o objetivo de aprofundar conhecimentos úteis para a profissão dos indivíduos ou para solucionar problemas técnicos. É possível supor, ainda, que uma coleção como História da Vida Privada (Companhia das Letras) faça parte desta categoria. Mas não parece razoável acreditar, dado o sucesso desta coleção, que todos os seus leitores sejam intelectuais da área de Ciências Humanas. Se a suposição for correta, alguns livros técnicos/científicos/ profissionais devem ser lidos por curiosidade ou para o entretenimento. Nenhuma das fontes consultadas esclarece sobre a publicação e venda de romances seriados disponíveis em bancas de jornal (como as séries Sabrina ou Júlia) ou sobre outro gênero de interesse popular como os folhetos de cordel publicados em São Paulo pela Editora Luzeiro e vendidos em todo o Brasil.
 
As listas dos "mais vendidos" publicada na revista Veja, traz, em nota, a informação: "esta lista não inclui livros vendidos em banca". Ou seja, estamos trabalhando com dados elaborados a partir de um recorte específico, que exclui segmentos sociais e tipos de texto a priori.
 
Uma das áreas mais difíceis parece ser a da literatura, a começar pelo próprio conceito. O que se entende por leitura literária? Aquela que se volta para os textos consagrados, reconhecidos pela crítica e historiografia como grandes obras ou para o conjunto das obras ficcionais, poéticas e teatrais? Se poesia é literatura, por que excluir os folhetos de cordel? Se narrativas são literatura, por que desconsiderar romances sentimentais em séries. Mesmo a categoria best-seller é complicada. Tomada a expressão em sentido literal, ela significaria apenas livros muito vendidos. Mas, em geral, é usada de forma pejorativa para designar obras tidas como fáceis, produzidas segundo fórmulas de sucesso editorial. Contrapõe-se best seller a literatura "de autor", de forma que nem todo livro muito vendido é um best seller.
 
A reunião de mais de duas mil pessoas no COLE pareceu-nos uma excelente oportunidade para a realização de uma pesquisa-piloto do Censo de Leitura. Desta forma, encontra-se neste boletim um questionário, cujas respostas devem fornecer uma primeira indicação sobre os materiais impressos lidos com mais freqüência, as formas de acesso aos livros, os modos de ler, as motivações que levam as pessoas à leitura, etc. Embora tenhamos tentado ser claros e imparciais, muitas das limitações apontadas acima também encontram-se presentes em nosso questionário. Apontá-las não significa menosprezar as informações que trazem, indicando, apenas, como nosso conhecimento é restrito acerca de matéria central no mundo contemporâneo: a leitura.
 
Esperamos conseguir não apenas um conjunto de dados privilegiado - porque oriundo de pessoas cujo desempenho profissional depende fortemente da leitura - mas discutir a própria concepção das questões, sua clareza e adequação.
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Ilustração: Cordelistas pernambucanos (notícia)

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