ACELERAÇÃO TECNOLÓGICA E VIDA DE PROFESSORES
Ezequiel Theodoro da Silva

Mesmo depois da invenção do livro impresso, ele não era o único instrumento para a aquisição de informações. Havia pinturas, imagens populares gravadas, ensino oral, etc. Pode-se dizer que os livros eram o mais importantes instrumentos para a transmissão da comunicação científica, incluindo informações sobre eventos históricos. Nesse sentido, eles eram os instrumentos supremos usados nas escolas. Com a difusão dos vários meios de comunicação de massa, do cinema à televisão, alguma coisa mudou.  Umberto Eco, Da Internet a Gutenberg 1

A esta afirmação de Umberto Eco, feita em 1996, eu ecoaria: mudou, mudou, mudou aceleradamente e continua velozmente mudando e impondo a nós, em decorrência das múltiplas mudanças, uma série de adaptações, re-adaptações e reaprendizagens para acompanhar os tempos presentes. Por também acompanhar estes velozes tempos na qualidade de cidadão brasileiro e de professor, tudo me leva a crer que a máxima do filósofo Heráclito de Éfeso, em 470 aC - PANTA RHEI – “tudo se move”, “tudo corre”, “tudo flui” - encontra a sua confirmação mais objetiva na vida de cada pessoa deste planeta. De fato, talvez nunca o homem tenha vivido tão concretamente a variação, a mudança, a pluralidade das coisas no devir da sua existência. Sim, PANTA RHEI – transformação incessante e, aqui parodiando Heráclito, “não é mesmo mais possível banhar-se duas vezes no mesmo rio” porque quem sabe nem mesmo esse rio esteja lá em função das tantas catástrofes ambientais. O dinamismo, inverso do imobilismo, é, sem dúvida, o grande signo deste início de milênio, afetando, para melhor ou para pior, a vida de todos nós em todos os quadrantes da sociedade, inclusive o vasto universo da educação.

E trago cá comigo que a educação - e mais especificamente a escola e o ensino - tem a ver com o aprimoramento das pessoas para a vida em sociedade. Essa intenção maior, consubstanciada em projetos pedagógicos e currículos específicos, prevê a exposição ou a incursão dos estudantes a um corpo de conteúdos do conhecimento e, num percurso seqüencial ou espiralado, compactado ou distendido, o desenvolvimento de competências, condutas, atitudes, valores e posicionamentos para que esses estudantes se formem cidadãos e participem ativamente dos rumos da sociedade. Ao longo de toda a história da humanidade, independente de lugar ou época, independente de estagnação ou progresso, levanta-se, dentro do universo da educação, o ofício de professor – um ofício que simbolicamente sempre expressou alguma forma de ensinar, de fazer aprender, de conduzir ao conhecimento. Variam as formas, os percursos, os espaços, os materiais e as tecnologias do ensino, mas a essência do ser professor – a de fazer aprender – mantém-se firme, inquebrantável, mesmo em tempos de rápidas transformações como as deste agora histórico. Supõe-se, inclusive, que o professor faça os estudantes aprenderem como se posicionar frente ao acelerado dinamismo do mundo contemporâneo. Inclusive, um mundo globalizado, assim representado por uma piada recente que me chegou pela Internet:

                                                          
Você sabe o que é globalização?
 
Pergunta : Qual é a mais correta definição de Globalização ?
 
Resposta: Morte da Princesa Diana.
 
Pergunta: Por quê?
 
Resposta: Uma princesa inglesa com um namorado egípcio tem um acidente de carro dentro de um túnel francês, num carro alemão com motor holandês, conduzido por um belga, bêbado de uísque escocês, que era seguido por paparazzis italianos, em motos japonesas; a princesa foi tratada por um medico americano, que usou medicamentos brasileiros. E isto é enviado a você por um brasileiro, usando tecnologia americana, e provavelmente, você esta lendo isso em um computador genérico que usa chips feitos em Taiwan, e num monitor coreano montado por trabalhadores de Bangladesh, numa fabrica de Singapura, transportado em caminhões conduzidos por indianos, roubados por indonésios, descarregados por pescadores sicilianos, reempacotados por mexicanos e, finalmente, vendido a você através de uma conexão paraguaia.

Pensando evolutivamente a partir do surgimento e assentamento dos veículos de comunicação entre os homens e sociedades, percebemos que houve (1º) um aumento do alcance da transmissão de idéias pela invenção de instrumentos que estendem espacialmente os nossos órgãos do sentido (é muito difícil discordar da tese de Marshall McLuhan de que os meios de comunicação são extensões do homem, visando diálogos e interações mesmo na distância dos espaços e dos tempos) 2 ; (2º) um aumento, pela descoberta inédita, pela adaptação, reinvenção ou síntese inovadora, de sistemas de signos que servem para movimentar as idéias através desses novos veículos (parece haver consenso entre os estudiosos de que cada linguagem - verbal ou não - apresenta as suas especificidades, os seus potenciais e as suas limitações para a efetivação das interações ou interlocuções entre os indivíduos, perto ou longe); e (3) que os veículos e as linguagens, a cada instante que passa, estão simbioticamente se cruzando e produzindo influências recíprocas, conforme as necessidades e os desafios comunicacionais postos pelos homens (fácil ver isso atualmente por exemplo na transmissão de um jogo de futebol: o telespectador que vê o jogo na tela é chamado ininterruptamente a participar pelo telefone, usando a oralidade, e/ou pela Internet, usando o computador e os recursos fornecidos pela linguagem digital) – a mescla dentro de um mesmo sistema de signos, misturando gêneros ou configurações, ou então entre os sistemas é uma constante, tornando os processos e atos de comunicação cada mais eficientes em termos de trocas de mensagens para a construção de sentidos.

As velozes descobertas e mudanças no universo dos mídia (entendida aqui como o conjunto de veículos e linguagens para a realização da comunicação humana, visando o cumprimento de diferentes interesses e propósitos) se refletiram no mundo da escola, tornando mais amplo os conceitos de alfabetização e de letramento (literacia ou alfabetismo). Para muitos pensadores, entre os quais destaco Francisco Gutièrrez 3, a alfabetização e o letramento devem abarcar a compreensão e o manejo mídia; portanto, uma política bem informada de alfabetização-letramento deveria levar em consideração as potencialidades de todos os mídia existentes em sociedade, organizando-se práticas pedagógicas específicas para essa finalidade. Dessa forma, uma preocupação sadia com os destinos e a qualidade da educação precisa ser estendida à compreensão e ao manejo dos mídia indistintamente, sob o risco de, com a supressão ou apagamento de um ou outro recurso ou tecnologia pela escola, levarmos adiante uma educação fora do seu tempo, além, é claro, de não aproveitarmos as características dos diferentes veículos e linguagens para a melhoria dos processos de ensino-aprendizagem. Quer dizer, a escola e os professores devem selecionar criticamente os meios ou veículos comunicacionais conforme a natureza do objeto ou conteúdo a ser ensinado, sabendo justificar os porquês dessa seleção. Traduzindo mais especificamente ainda, a cultura pedagógica dos professores deve também prever um espaço para conhecimentos voltados à operação dos veículos e das respectivas sintaxes de linguagem a eles vinculados.

Reside talvez aqui os dois grandes desafios da escola brasileira· para uma literacia midiática: (1º) com raríssimas exceções, a contar nos dedos, os instrumentos de comunicação que não o texto oral ou escrito praticamente inexistem nos ambientes escolares para efeito de produção e muitas vezes até mesmo para efeito de recepção, com aquilo que essa produção e recepção demandam em termos de salas, recursos, manutenção, atualização, pessoal especializado, etc. Cabe-nos pensar em termos gerais de país, lembrando, inclusive, que mais de 30 por cento das escolas brasileiras de nível fundamental sequer energia elétrica têm; e ainda dentro das agruras ou das trágicas carências de infra-estrutura, são poucas as bibliotecas escolares dignas desse nome em nosso país, evidenciando que até mesmo na esfera da cultura impressa, dinamizada e democratizada desde os tempos de Gutenberg na grande maioria das sociedades do mundo, temos sérias lacunas para uma vivência letrada autêntica e produtiva em termos de aprendizado da escrita; (2º) o professorado brasileiro, por força das opressões vividas no trabalho (de salário real à possibilidade de apoio por diferentes profissionais, principalmente técnicos que conhecem o funcionamento dos mídia) e em decorrência de uma formação básica cada vez mais aligeirada, não sabe como manejar o leque dos mídia disponíveis, permanecendo, por isso mesmo, na velha dependência ou escravidão dos livros didáticos; ou então, quando muito, se as circunstâncias da escola assim o permitirem, usando outros mídia a esmo, simplesmente para efeito de recepção, como um mero apêndice de estudos feitos a partir de textos escritos.

Em verdade, esses dois desafios nada mais são do que carências reproduzidas dentro do contexto da educação brasileira – carências reiteradamente denunciadas através das décadas e dos governos, mas sem ecos práticos de transformação, para melhor, da estrutura e da dinâmica das escolas. Outrossim, a tentativa de superá-las sem uma política clara, contínua e eficiente de ações e de investimentos, vem gerando um samba do crioulo doido na cabeça do professorado ou, se quiser, uma sopa intersemiótica das mais insípidas em relação a qualquer parâmetro pedagógico decente. Parece que o ensino do manejo dos meios ou o uso dos meios para efeito de dinamização de aprendizagens não segue e não tem uma fundamentação coerente no âmbito dos coletivos escolares; com isto, surge uma “atroz” recaída no tão-criticado tecnicismo ou envereda-se pelo modismo de último minuto até que o equipamento se quebre e tenha que ficar meses e meses parado por falta de manutenção ou conserto que necessite verbas para pronto-pagamento. O efeito pior fica por conta de um pensamento absurdo que corre na cabeça de muito governos, achando que os mídia podem substituir os professores na tarefa de educar as crianças.

As essas clássicas carências da esfera tecnológica dentro da maioria das escolas brasileiras devem ser somadas, para efeito de reflexão, outras mudanças gerais do panorama socioeducacional bem como do trabalho docente propriamente dito. Pelo menos quatro dessas transformações devem ser aqui explicitadas porque tornam ainda mais complexas as suas soluções para uma educação atualizada (que faça justiça ao seu tempo) e de qualidade.

(A)  Redução do Número de Agentes de Socialização – A desintegração ou a pulverização da família nuclear e a necessidade de trabalho por pais e me reduziram significativamente as tradicionais interlocuções da educação familiar, fazendo com que as escolas assumissem mais funções educativas a fim de cumprir as lacunas existentes. Dessa forma, o professor passa assumir uma quantidade maior de responsabilidades profissionais e geralmente sem preparo específico para tal; a colega Helena Lopes de Freitas, da Faculdade de Educação, uma vez disse que o professor brasileiro de educação infantil e de ensino fundamental, em decorrência das múltiplas funções que vinha somando para si, já poderia ser chamado de “super homem”; eu adicionaria para as professoras, de “mulher maravilha”.

(B)  Alteração dos Conteúdos Curriculares – Com a avalanche de informações dos dias atuais e com a veloz circulação de conhecimentos, os currículos não mais encontram estabilidade em termos de programas organizados, cabendo aí, na maior parte das vezes, a inovação pela inovação ou o que é bem pior, o caos nos referenciais ensinados nas séries escolares. Em que pesem os chamados “temas transversais”, “PCN”s”, centros ou núcleos de interesse, parece que os professores vivenciam um forte impasse e agudas contradições do desempenho da docência, principalmente no que se refere ao o quê ensinar.

(C)  Quebra do Consenso sobre o Valor da Educação e da Escola – Se no passado não muito remoto era fácil justificar a escolarização como fator de melhoria de vida, emprego, construção do patrimônio, etc, hoje em dia essa argumentação não é aceita com tanta facilidade. Segue-se, daí, a desvalorização crescente dos professores e do próprio magistério. São muitas as caricaturas feitas sobre a profissão dos professores atualmente; entre nós, destaca-se a da Escolinha do Professor Raimundo, que ao reiterava publicamente a desvalorização dos professores por um salário minguado, que não fazia jus ao seu trabalho.

(D) Convulsão no Âmbito das Relações de Ensino – Se desde a instalação da escola moderna, por Comenius (1631), imperou a razão docente, com a hegemonia do poder na alçada exclusiva dos professores, mais recentemente, com a chegada de novas clientelas e em decorrência das críticas à escola autoritária e conservadora, houve uma inversão perversa dessa relação, com uma maior preponderância da razão discente, centrando o poder no grupo de estudantes e com uma forte normatividade para proteger esse tipo de razão. Ao invés de se buscar um equilíbrio nas relações de poder nas salas de aula, optou-se por um movimento total da gangorra; em alguns casos neste Brasil, conforme noticiam os jornais, os professores chegam a apanhar dos seus alunos – um a loucura!

Faço um breve parênteses nesta reflexão para discorrer sobre certas condições que julgo da maior importância no que se refere a uma educação conseqüente através dos mídia nas escolas. Enquanto a escrita manuscrita cabe em um caderno, bastando para a sua produção um lápis ou uma caneta nas mãos dos estudantes, já a escrita impressa em livros (que não apenas os livros didáticos, mas os técnicos, de referência, literários, etc.) impõe à escola uma reorganização espacial, arquitetônica e de serviços de modo que ela (a escrita impressa) possa circular dinâmica e condignamente a favor do ensino e da aprendizagem. Isto pode parecer óbvio, porém até hoje, 2006 e início do 3º milênio, em meio às sociedades da informação e do conhecimento, são raras as escolas que dispõem de espaços planejados para as suas bibliotecas, que dirá serviços biblioteconômicos para a organização e dinamização dos livros porventura acumulados ao longo do tempo. Os demais mídia – como televisão, computador, cinema, teatro, etc. –, caso fossem objetivamente levados para as escolas, deveriam gerar alterações radicais na arquitetura do espaço escolar e no quadro dos seus recursos humanos. Exemplificando, o conjunto ou acervo de livros precisa da biblioteca e do bibliotecário; o computador precisa da sala de informática e do técnico para manter em ordem e atualizados as máquinas e os programas; a televisão precisa da sala de projeção e o responsável pelos audiovisuais da escola, cinemateca, videoteca, dvd-teca, etc; as artes plásticas precisam do atelier e de técnicos para organizar a galeria e os acervos de pinturas; a fotografia necessita de laboratórios e pessoal especializados para tal; o teatro precisa do auditório e uma equipe de apoio para produzir as montagens teatrais e assim por diante. Não quero que estas colocações sejam entendidas como luxos ou supérfluos dentro de um espaço escolar; quero, isto sim, que sejam tomados como condições imprescindíveis para uma educação que contemple objetivamente os mídia em termos de produção, circulação e fruição dentro desse espaço educativo. As gambiarras pedagógicas e arquitetônicas implementadas nesta área vão desde a adaptação apressada de salas de aula para um segundo tipo de uso alternativo até a morte de bibliotecas para acomodar computadores a fim de atender políticas caolhas que vêm de cima para baixo ou então para seguir um modismo tecnológico sem o devido preparo dos professores e demais profissionais que trabalham na escola.

Nesta discussão a respeito de uma relação ou de uma convivência saudável entre as tecnologias e os professores, convém lembrar que “
o computador é um instrumento através do qual pode-se produzir e editar imagens (...); mas é também igualmente certo que o computador se transformou, antes de tudo, num instrumento alfabético. Na tela do computador, correm palavras, linhas, e para usar um computador o sujeito precisa saber ler e escrever. A nova geração que usa computadores é treinada a ler a uma velocidade espantosa 4. Esta colocação de Umberto Eco reforça, de certa forma, a importância do ensino da leitura e da escrita na escola na medida em que o manejo de um outro potente meio, como é o computador, impõe ao sujeito o domínio prévio das competências do ler e escrever. A escrita e a leitura virtuais são, na sua origem, antes de tudo, “escrita” – daí a necessidade de não desequilibrarmos as coisas, pensando que a alfabetização e o letramento em linguagem impressa podem ser descartados ou passados para segundo plano em termos ensino-aprendizagem. Além disso, partindo de uma análise ligeira da comunicação no mundo contemporâneo, mesmo que fosse verdade que atualmente a comunicação visual supera a comunicação escrita, o problema que se coloca aos professores não é jogar a comunicação escrita contra a comunicação visual ou vice-versa. O problema da escola e dos professores é como melhorar ambas ou todas as comunicações em favor do aprimoramento das competências comunicacionais dos estudantes ao longo de sua história de escolarização. Além disso, em termos de seqüências pedagógicas em direção ao aprofundamento de conteúdos ou temas, o professor deve possuir conhecimento e sensibilidade para decidir quais os veículos e linguagens privilegiar de modo a levar os seus estudantes à melhor compreensão dos conteúdos ou assuntos em pauta no transcurso daquilo eu inicialmente chamei de “fazer aprender”. O bom senso e algumas investigações mostram que o uso exclusivo abordagens visuais em aula, ainda que mais fáceis de serem implementadas pelo professor (por exemplo, apenas ligar a TV e o vídeo e colocar uma fita para rodar), pode reduzir a criticidade dos estudantes. Daí, cabe-me insistir mais uma vez, principalmente nas fases de planejamento educacional, a necessidade de conhecimento da sintaxe e efeitos de cada meio de comunicação por parte dos professores de modo que a seleção, manejo e uso não gere desastres na formação dos estudantes. Eis aqui mais um desafio para os professores, seja no seu tempo de formação básica, seja em tempos de sua formação continuada.

A comunicação escrita, especialmente aquela provocada por livros ou similar, permanece e permanecerá indispensável não apenas para a fruição da literatura, mas para qualquer situação em que o sujeito precise ler cuidadosamente, não apenas para “escanear” ou “receber” informações, mas também pensar, especular e refletir sobre as mesmas. Daí a imagem de um estudante eclético, cuja maturidade vai se formando no acesso e na convivência com os diferentes veículos e configurações de linguagem e, através do entendimento da sintaxe e conteúdos dos mesmos, possa abordar criticamente as múltiplas informações que circulam em sociedade. Cabe sempre lembrar que “
hoje o mundo é trazido até o horizonte de nossa percepção, até o universo do nosso conhecimento. Como não podemos estar presentes em todos os acontecimentos, temos que confiar nos relatos. O mundo que nos é trazido pelos relatos, que assim conhecemos e a partir do qual refletimos, é um mundo que nos chega editado, ou seja, ele é redesenhado num trajeto que passa por centenas, às vezes milhares de mediações, até que se manifeste no rádio, na televisão, no jornal. Ou na fala do vizinho e nas conversas dos alunos. São essas mediações – instituições e pessoas – que selecionam o que vamos ouvir, ver ou ler; que fazem a montagem do mundo que conhecemos”. 5 Nestes termos, a maturidade e a criticidade desse estudante devem fazê-lo ver que dentro do mundo da palavra, dentro do universo dos discursos que se cruzam ininterruptamente em sociedade, existem mentiras, simulacros, fraudes, falsidades, além é claro de discursos que fazem justiça aos fatos da realidade. Daí defendermos que um dos objetivos principais de uma educação voltada para o uso concreto dos mídia - e daquilo que corre por eles – é o refinamento contínuo do discernimento, quer dizer, da capacidade de separar a verdade da mentira, de distinguir o certo do errado, de discriminar fatos de opiniões, enfrentar ajuizadamente o bem e o mal e assim por diante. Saber distinguir a verdade e o humor contidos neste nosso pensamento do dia:

Um dia li que fumar faz mal...
deixei de fumar.
 
Um dia li que beber faz mal...
deixei de beber.
 
Um dia li que sexo faz mal...
deixei de ler.
 

Gostaria de encerrar esta reflexão abaixando um pouco a bola e reduzindo um pouco o entusiasmo dos chamados “tecnólogos da educação” – entusiasmo esse que muitas vezes pode ofuscar o bom senso ou equilíbrio na hora utilização dos mídia pelos professores e, ao mesmo tempo, o que é bem pior, pode elevar as novas tecnologias audiovisuais à condição de panacéia, servindo como remédios para a cura de todos os males da educação escolarizada brasileira. E eu diria até que os pensamentos e discursos oriundos da febre tecnológica servem, num certo sentido, para justificar os baixos salários dos professores. Daí alguns cuidados a serem tomados para que os engodos não venham a ocupar espaço nas discussões em torno da melhoria do ensino e da aprendizagem da escola. Componho e comento inicialmente esses cuidados através de uma análise de um poema da poetisa paranaense, de origem ucraniana, Helena Kolody, cuja obra merece ser mais bem conhecida e disseminada pelos professores brasileiros. Helena é autora, entre outras coisas, de hai-kais lindíssimos, como estes: “No poema e nas nuvens/ cada qual descobre/ o que deseja ver”; e “Tudo o tempo leva/ a própria vida não dura./ Com sabedoria,/ colhe a alegria de agora/ para a saudade futura”.

MAQUINOMEM

O homem esposou a máquina
e gerou um híbrido estranho:
um cronômetro no peito
e um dínamo no crânio.

As hemácias do seu sangue
são redondos algarismos.
 
Crescem cactos estatísticos
em seus abstratos jardins.
 
Exato planejamento
a vida do maquinomem.
Trepidam as engrenagens
no esforço das realizações.
 
Em seu ínfimo ignorado,
há uma estranha prisioneira,
cujos os gritos estremece
a metálica estrutura.
 
E há reflexos planejantes
de uma luz imponderável,
que perturbam a frieza
do blindado maquinomem.
6

Esse poema de Helena Kolody tem tudo a ver com a ideologia do neoliberalismo, que esparrama pelo mundo globalizado a chamada “razão instrumental” em detrimento da “razão crítica”. E um dos efeitos mais deletérios da razão instrumental é esquecer que as tecnologias, os mídia, as descobertas científicas devem ser assumidos como realmente o são, ou seja é, como “meios” para a promoção do homem e nunca como fins em si mesmos ou então como elementos para a opressão e a manutenção de privilégios, como parece estar ocorrendo atualmente na nossa sociedade e no mundo. Nita Freire, em prefácio para um livro de Peter Mclaren, nos dá o seguinte puxão de orelha sobre esse tema: a “(...) capacidade criadora (de inventar tecnologias) vem se distorcendo, contraditória e generalizadamente, em atos e ações que negam a eticidade que deveríamos ter dentro de nós para delimitar e reger os comportamentos sociais. A comunicação verdadeira, que amplia contactos e conhecimentos imprescindíveis para o progresso e a equalização dos diferentes povos e segmentos sociais do mundo, está se transformando numa mera extensão, usando categorias freireanas, a serviço da globalização da economia, que vem tomando a todos nós como reféns de alguns poucos ‘donos do mundo’. A ‘era da comunicação está sendo, na realidade, a era das fronteiras, dos limites mais marcantes do que nunca da incomunicabilidade humana, do campo do desamor”.  7

O segundo cuidado que eu gostaria de explicitar em relação à formação de professores e estudantes para a interação com os diferentes mídia diz respeito à problemática da solidão. Enfatizo que é muito curta a distância entre solidão, isolamento, desamparo e exclusão social. De fato, no caso de excesso de interação com os elementos do mundo virtual, o sujeito pode ser levado a se esquecer do mundo real e da necessidade de interação com seres de carne e osso. Isso pode parecer paradoxal, mas pode acontecer que, ao sentir parte de um universo virtual intergaláctico, a pessoa se sinta solitária e desprotegida interiormente, neurotizando-se e se auto-excluindo cada vez mais. Como, por exemplo, é demonstrado nesta piada que me chegou recentemente pela Internet:

                                 
         Você já percebeu o que Internet fez com você?

Você tenta teclar o seu password no display do microondas e até nas ligações que faz no seu celular...

Há muito tempo você não joga buraco, pif-paf e paciência com carta de baralho de verdade...
Você não mais escreve textos, apenas, copia, recorta, salva e cola...

Você pergunta, via e-mail, se seu colega do lado gostaria de tomar um chopinho com você e ele responde por e-mail “Me dá 5 minutos”...
Você tem 15 diferentes endereços de e-mail para encontrar-se neste mundo com a sua família que tem apenas três pessoas...

Você fala via Chat (bate-papo) com gente desconhecida do mundo inteiro, mas não conversa nenhuma vez com o seu vizinho do lado...

A maioria das piadas que você conhece chegou para você por e-mail; agora você não mais ouve piadas, você lê piadas para esquecer logo...

O terceiro - e último - cuidado trata de questões relativas ao excesso de informações (ou explosão bibliográfica e imagética) em circulação no mundo e uma incapacidade da pessoa em selecionar e discriminar aquilo que é relevante para a sua vida. Além disso, como eu mostrei anteriormente, no universo dos mídia (impresso, imagético, radiofônico, virtual, etc) existem fontes confiáveis e fontes “malucas”, existem mensagens objetivas e mensagens mentirosas. Além do mais, as linguagens não servem apenas para comunicar coisas sãs e bonitas, mas colocam-se a serviço do poder para vender, persuadir, mentir, conquistar e coisas do tipo.

O homem blindado (...) não está aberto à visitação dos afetos ou da palavra. O blindado móvel em design estético é o homem moderno e ele é o ápice de um fechamento que o fecha inteiramente em si mesmo e sobre si mesmo e já não há espaço para a visitação do afeto ou par o jorro da língua, mas apenas para vivências autofabricadas e auto-afetadas”. 8 À luz deste alerta certeiro de Juliano Garcia Pessanha, no livro Certeza do Agora (2002), cabe enfatizar mais uma vez que a educação dos educadores para a vida contemporânea precisa levar em conta esses fenômenos e essas diferenças no sentido de constituir um quadro de competências críticas ou, se quiser, uma nova sabedoria ou erudição a ser promovida através dos trajetos de atualização no horizonte de todos os mídia e de todas as linguagens sociais.

Antes de encerrar em definitivo a minha exposição, gostaria de eliminar qualquer idéia de acusação que culpabilize os professores pela pequena inserção das tecnologias de comunicação e informação nas suas atividades escolares de “fazer aprender” ou de “fazer a aprender a aprender”.  De fato, a nossa profissão foi sendo crescentemente esquecida a partir dos anos 70, tendo sido acumulada em torno dela uma imensa dívida social de difícil – mas não impossível solução – no momento presente. Esse esquecimento vem escancaradamente demonstrado na pesquisa nacional “O perfil dos Professores Brasileiros: o que fazem, o que pensam, o que almejam”, feita em 2002, envolvendo 5000 docentes da 27 unidades da Federação – entre outras descobertas lamentáveis, mostra-se que 60% nunca usaram um correio eletrônico, 60% nunca navegaram pela Internet, 90% nunca participaram de uma lista de discussão através do correio eletrônico. Como explicar esse fenômeno senão nesse esquecimento calculado para atender aos interesses voltados à privatização do ensino, à exploração do país pelo capital internacional, pelo empobrecimento das condições do ensino público para manter as massas na ignorância? Daí a nossa luta pessoal em prol de investimentos direcionados ao todo das organizações escolares, incluindo aí a dignificação e a valorização dos professores de modo que não se repitam situações de vida como as abaixo descritas, tão bem percebidas e expressas pelo meu grande amigo Samir Curi Meserani, antes de sua morte há alguns atrás: 


                                                        
Vida de Professor

Viver é ter que preparar aula correndo, não encontrar o livro desejado, sair de casas às pressas, dirigir o carro com uma perua Kombi bem na nossa frente, ficar rodando em volta do prédio da escola à procura de um lugar para estacionar, entrar na aula ofegante e pergunta: “Onde foi que paramos na última aula? E ver que ninguém sabe.
Viver é ter que a mais uma reunião na escola na segunda feira, sabendo que não vai ser decidida coisa nenhuma.

Viver é ir correndo ao banco no fim das aulas da manhã, desfilar fila por fila em frente ao guichês para pagar a conta de luz, da água, do gás, do telefone, o aluguel, o condomínio, o carnê da prestação, o IPTU, o IR, o INSS, a licença do carro 94 que venceu, o plano privado da saúde... perdendo longas horas que nos ao roubadas pelos sistema financeiro nacional.

Viver é ter guardado em casa uma lista de livros que um dia a gente acha que vai ter tempo de ler.

Viver é ter que ler mais uma proposta curricular feita por pessoas que parecem jamais ter entrado em uma sala de aula, uma proposta cheia de jargão acadêmico, com objetivos delirantes e, ainda por cima, com aquele jeitão de ciência.

Viver é ter que acordar cedo, tirar xerox, autenticar, reconhecer firma, ir ao dentista, passar no supermercado, levar o aspirador de pó para o conserto, procurar um encanador, ajudar os filhos nas lições de casa, tentar renovar o cheque especial, dar aula, ir a uma assembléia dos professores e... de repente perceber que esqueceu o mais importante.  


                                                 BIBLIOGRAFIA

BONAZZI, Marisa & ECO, Umberto. Mentiras que parecem verdades. SP: Summus Editorial, 1972.

FURTADO, José Afonso. “O livro – que perspectivas?” IN Colóquio Educação e Sociedade – Metamorfoses da Cultura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Revista Quadrimestral, março/julho de 1995, p. 159-192.

GROSSMAN, Marcia. Como te leio? Como-te livro! SP: Cultura Autores Associados, 2002.

IANNI, Octavio. A sociedade global. RJ: Civilização Brasileira, 1993.

LOMBARDI, José Claudinei (org). Globalização, pós-modernidade e educação. Campinas (SP): Autores Associados, UNC e Histedbr, 2001.

MERLEAU-PONTY, Maurice. A prosa do mundo. SP: Cosac & Naify, 2002.

SILVA, Ezequiel T. A leitura nos oceanos da Internet. SP: Cortez, 2003.
_______________ Leitura - Trilogia pedagógica. Campinas (SP): Autores Associados, 2003.
_______________ Leitura e criticidade. Campinas (SP): Mercado de Letras, 1999.

VALENTE, José Armando. Formação de educadores para o uso da informática na Escola. Campinas (SP): UNICAMP-NIED, 2003.

                                                                   NOTAS

1 ECO, Umberto. From Internet to Gutenberg. Palestra apresentada na Italian Academy for Advanced Studies in America em 12/novembro/1996. http://www.italianacademy.columbia.edu/pdfs/lectures/eco_internet_gutenberg.pdf 

2 McLuhan, Marshall. Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem. SP: Cultrix, 1974.

3 GUTIÉRREZ, Francisco. Linguagem Total. SP: Summus Editorial, 1976.

4 ECO, Umberto, op. cit.

5 BACCEGA, Maria Aparecida. “Comunicação e Educação: a construção do campo” IN Nas Telas da Mídia. Maria Inês Ghilardi & Valdir Heitor Barzotto (org.) Campinas: Alínea e ALB, 2002, p.79.

6 KOLODY, Helena. “Maquinomem” IN Helena Kolody por Helena Kolody. Rio de Janeiro: Luz da Cidade Promoções Artísticas Ltda, 2000. Coleção Poesia Falada, nº 04.

7 FREIRE, Ana Maria Araújo (Nita Freire). “Apresentação” IN Utopias Provisórias. As pedagogias críticas num cenário pós-colonial. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 1999, p. 12.

8 PESSANHA, Juliano Garcia. “Província da Escritura” IN Certeza do Agora, SP: Ateliê Editorial, 2002, p. 24.

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Ilustração: Pictograma da Gruta dei Cervi, Itália

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