LEITURA DE UMA ESCRITA DE VISIBILIDADE
Rosalia de Ângelo Scorsi*

“O búfalo negro estava imóvel no fundo do terreno. Depois passeou ao longe com os quadris estreitos, os quadris concentrados. O pescoço mais grosso que as ilhargas contraídas. Visto de frente, a grande cabeça mais larga que o corpo impedia a visão do resto do corpo, como uma cabeça decepada. E na cabeça os cornos. De longe ele passeava devagar com seu torso. Era um búfalo negro. Tão preto que à distancia a cara não tinha traços. Sobre o negror a alvura erguida dos cornos. (...) Ah! disse provocando-o. Ah! disse ela. (...) Ah! instigou-o com os dentes apertados. Mas de costas para ela, o búfalo inteiramente imóvel. Apanhou uma pedra no chão e jogou para dentro do cercado. A imobilidade do torso, mais negra ainda se aquietou: a pedra rolou inútil. Ah! disse sacudindo as barras. (...) O búfalo de costas. Ah, disse. Mas dessa vez porque dentro dela escorria enfim um primeiro fio de sangue negro. (...) Então o búfalo voltou-se para ela. O búfalo voltou-se, imobilizou-se, e à distância encarou-a. Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo. Enfim provocado, o grande búfalo aproximou-se sem pressa. Ele se aproximava, a poeira erguia-se. A mulher esperou de braços pendidos ao longo do casaco. Devagar ele se aproximava. Ela não recuou um só passo. Até que ele chegou às grades e ali parou. Lá estavam o búfalo e a mulher, frente à frente. Ela não olhou a cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos. E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranqüilo de ódio, a olhava. ”

Proponho neste pequeno texto um passeio ao zoológico, vendo, aprendendo e apreendendo os significados contidos na representação verbal dos bichos segundo a pena imaginativa de Clarice Lispector (1920-1977), no conto O BÚFALO.
1 Primeiro a girafa, depois o hipopótamo, o macaco, o elefante, o camelo, o quati e o búfalo. Sete animais capturados pelo olhar atento da autora, expressos em sua escrita visual.

Uma reflexão sobre a leitura do texto que produz imagens deve necessariamente passar pela apreensão intelectual da matéria literária e, simultaneamente, empreender a compreensão do estrato profundo do fato escrito. Em todo leitor, no ato da leitura, é convocada sua ação imaginante, com a qual mobilizará as imagens armazenadas em sua memória em um processo associativo que tornará seu ato de leitura único e, ao mesmo tempo, profícuo, pois suas experiências perceptivas, acumuladas, entrarão no trabalho de visualização da imagem escrita e da construção do sentido literário. A grande arte literária é “linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”.
2 O artista, ao manipular a linguagem na construção da imagem literária, age como o atirador da flecha que tensionando o arco quase além de seu limite deseja poder realizar o destino certeiro da flecha. Por isso, a apreensão de uma imagem bem construída nos proporciona a súbita sensação de liberdade e compreensão com que ampliamos nosso universo cultural. Este é o ato de leitura visceral, nem sempre possível, mas desejado por todo leitor.

Penso que a participação da imaginação, no sentido empregado por Bachelard, associada à leitura atenta da imagem textual, concorrerá para a ampliação do universo cultural do leitor que, de experiência a experiência, irá se construindo. São palavras do autor: “Graças ao imaginário, a imaginação é essencialmente aberta, evasiva. É ela, no psiquismo humano, a própria experiência da abertura, a própria experiência da novidade. (...) essas imagens literárias dão esperança a um sentimento, conferem um vigor especial na nossa decisão de ser uma pessoa, infundem tonicidade até mesmo à nossa vida física.”
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Destaquei, do conto O BÚFALO, apenas a descrição/narração dos bichos diante dos quais a personagem ― a mulher de casaco marrom, a amante desprezada ― desfila, no zoológico que entra, para aprender a odiar com os bichos enjaulados, magoada que está com o homem, “cujo crime único era o de não amá-la”. Dentre os escolhidos, apenas o encontro com o búfalo a colocará frente a frente com o ódio que busca, enquanto os outros bichos só reforçam o sentimento de amor que engravida tudo que a rodeia, naquela primavera. Não é do interesse deste texto fazer um resumo do conto antológico de Clarice Lispector, conhecido por muitos e leitura obrigatória para os apreciadores da grande literatura do qual faz parte. O que acho surpreendente nesse conto é o modo como os bichos, um a um, foram sendo projetados como se fossem imagens animadas. É a representação deles que nos dá subsídios para refletir sobre um processo de escrita sensorial-imagética que enlaça o leitor em sua teia de palavras muito bem tecida de cujo núcleo irrompe a imagem no esplendor de um brilho nítido e elucidativo, brilho esse que leva a um “pensar por imagens” ou a um “deixar-se ser carregado pela imagem literária”.

Como se sabe, Clarice produz uma ficção enxuta de fatos, em cuja ficção entramos sem que sejamos arrastados pela costumeira avalanche seqüencial de fatos. Estes obviamente existem, porque narrar é relato factual, mas sempre para averiguar a repercussão dos fatos sobre o indivíduo que o experimenta.
4 Neste caso, a observação e descoberta da natureza de cada animal enjaulado vão acionar o componente psíquico-emocional da personagem que realiza sua travessia a um novo patamar de experiência, ali, naquele espaço-tempo do conto. Junto com a personagem o leitor caminha. Os bichos são representados de forma realista, sim, porque o búfalo é aquele nosso conhecido e, assim, também os outros, no entanto, ao receberem esses tons simbólico-metafóricos que a palavra poética lhes concede, esses bichos, mesmo sendo os mesmos de sempre de cada espécie, tornam-se imagem única, fantástica, e por isso pronta para fixar-se em nossa memória. O búfalo já nos foi apresentado acima, vejamos, agora, os outros, com atenção, interagindo com cada imagem:

“Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir — diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas — sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa que mais era paisagem que um ente. Não diante daquela carne que se distraíra em altura e distância, a girafa quase verde.”

“O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar.”

“Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e a outra macaca dando de mamar. Ela os mataria com quinze secas balas: os dentes da mulher se apertaram até o maxilar doer. A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho.”

“Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar. Mas que não esmagava. Aquela potência que no entanto se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.”

“A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. (...) Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. (...) Somente o cheiro de poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas.”

“De dentro da jaula o quati olhou-a. Ela o olhou. Nenhuma palavra trocada. Nunca poderia odiar o quati que no silêncio de um corpo indagante a olhava. Perturbada, desviou os olhos da ingenuidade do quati. O quati curioso lhe fazendo uma pergunta como uma criança pergunta.”

Já nas primeiras décadas do século XX, Jean Epstein constatara a assimilação de elementos da linguagem cinematográfica pela linguagem literária. De modo crescente, somos uma civilização da imagem, em cujo cerne o cinema como linguagem da arte assume importante papel, na nova cultura visual em movimento, que inaugura.

Bela Balázs nos diz sobre a novidade do cinema: “Algumas pessoas acreditam que as novas formas de expressão proporcionadas pela câmera se devem apenas à sua mobilidade. Ela não só nos mostra novas imagens o tempo todo, como também a faz de ângulos e distâncias que mudam constantemente. Aí, estaria a novidade histórica do cinema. É verdade que a câmera cinematográfica revelou novos mundos, até então escondidos de nós: como a alma dos objetos, o ritmo das multidões, a linguagem secreta das coisas mudas.”
5 O cinema veio para ficar e seu advento propicia um salto transformador do olhar do homem sobre o mundo e a realidade que o circunda. Olhos esses até então não acostumados com tamanha exposição que a nova linguagem permitia. Nunca a realidade havia sido vista com tanta fidelidade, em tamanho natural, em closes, em detalhes mínimos, como a partir da invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumière.6 A primeira apresentação pública, paga de cinema, na segunda metade do século XIX, no Grand Café de Paris, foi constituída de 10 filmes com duração de 40 a 50 segundos cada. O público, entre extasiado e amedrontado, pode ver a chegada de um trem à estação, um bebê sendo alimentado, funcionárias saindo da fábrica, o mar, entre outros. Georges Meliés, presente ao evento, diz sobre o trem chegando à estação: “A mostra começou com uma fotografia estática que depois de alguns segundos começou a se mover. O trem apareceu e acelerou em direção ao público. Nós estávamos estonteados por este espetáculo.” 7

O cinema dá início à produção de imagens animadas que não mais parou de crescer com o desenvolvimento tecnológico. A contrapartida desse progresso foi termos nos constituído no que hoje é reconhecido como a atual “civilização da imagem”. Se este desenvolvimento permitiu que o homem tomasse consciência da realidade e do mundo, levou-o também a uma absorção confusa dessa avalanche de imagens que toma conta das sociedades modernas, a ponto de moldar uma memória estilhaçada em fragmentos de imagens vistas. Muito se absorve, porém pouco é retido de forma relevante.

A Literatura, como a mais antiga linguagem da arte, pode beneficiar-se da influência que recebe do cinema. A absorção de mecanismos da gramática do cinema infunde rejuvenescimento e vitalidade à linguagem literária.

Jean Epstein, quando fala do natural intercâmbio entre literatura moderna e cinema, enumera as estéticas de ambas as artes e diz da necessidade de superposição dessas estéticas, para que ambos, literatura e cinema, possam manter-se mutuamente:

ESTÉTICA DA PROXIMIDADE – “Entre o espetáculo e o espectador, nenhuma rampa. Não olhamos a vida, nós a penetramos. Esta penetração permite todas as intimidades.(...)”

ESTÉTICA DA SUGESTÃO – “Não se conta mais nada, indica-se. O que permite o prazer de uma descoberta e de uma construção. Mais pessoal e sem entraves, a imagem se organiza. (...)”

ESTÉTICA DA SUCESSÃO – “(...) Cinema e letras, tudo mexe. A sucessão rápida e angular tende para o círculo perfeito do simultaneísmo impossível. A utopia fisiológica de ver ao mesmo tempo é substituída pela aproximação: ver depressa.”

ESTÉTICA DA RAPIDEZ MENTAL – “É, no mínimo, possível, que a rapidez do pensar possa aumentar durante a vida de um homem ou de sucessivas gerações. Nem todos os homens pensam com a mesma velocidade. Os filmes passados rapidamente nos fazem pensar rápido. Um modo de educação, talvez. (...)”

ESTÉTICA DA SENSUALIDADE – “Em literatura, “nada de sentimentalidade!”, pelo menos na aparência. No cinema a sentimentalidade é impossível. Impossível por causa dos primeiríssimos planos, da precisão fotográfica. O que fazer das flores platônicas quando se nos oferece a pele de um rosto violentado por quarenta holofotes? (...)”

ESTÉTICA DE METÁFORAS – “O poema: uma cavalgada de metáforas que se empinam. (...) O princípio da metáfora visual é exato na vida onírica ou normal; na tela, ele se impõe. Na tela, uma multidão. Um carro passa com dificuldade. Ovação. Tiram-se chapéus. Mãos e lenços, como manchas claras, acima das cabeças, agitam-se. Uma inegável analogia nos lembra desses versos de Apollinaire: ‘E mãos, para o céu cheio de lagos de luz voavam às vezes como pássaros brancos’.”

ESTÉTICA MOMENTÂNEA – “(...) Sempre a escrita envelhece, mais ou menos rapidamente. A escrita atual envelhecerá muito depressa. Isto não é uma censura. (...) A rapidez do pensamento aumentou. (...) O filme, como a literatura contemporânea, acelera metamorfoses instáveis. (...)”8

Em uma outra vertente de reflexão, Calvino, no ensaio sobre a Visibilidade, como um dos valores a ser preservado, não apenas na atividade literária, mas também em cada gesto de nossa existência, alerta para o perigo de proliferação do que chama “da peste da linguagem” ou o empobrecimento atroz da capacidade humana de articular pensamento e expressão verbal. Nesse mesmo ensaio o autor chama a atenção aos dois processos imaginativos do artista: um, parte da palavra para chegar à imagem visiva; outro, da imagem visiva para chegar à expressão verbal. “O primeiro processo é o que ocorre normalmente na leitura: lemos, por exemplo, uma cena de romance ou a reportagem de um acontecimento num jornal, e conforme a maior ou menor eficácia do texto somos levados a ver a cena como se esta se desenrolasse diante de nossos olhos, se não toda a cena, pelo menos fragmentos e detalhes que emergem do indistinto.”
9 Nesse momento, o “cinema mental” da imaginação humana faz correr imagens em nossa “tela interior”.

Somos, na leitura da imagem projetada pelo escritor na página impressa, contempladores, cuja ação imaginária completa, no contexto de nossa experiência, a tarefa iniciada por ele. Tarefa essa que, como vimos em O BÚFALO, ao doar visibilidade surpreendente aos bichos escolhidos, executa uma das funções da literatura que é manter a língua revigorada e jovem. E nós, leitores, nos beneficiamos desse frescor.

NOTAS

1 LISPECTOR, Clarice. LAÇOS DE FAMÍLIA. RJ: J. Olympio, 1979.
2 POUND, Ezra. ABC DA LITERATURA. SP: Cultrix, 1990, p. 32
3 BACHELARD, Gaston. “Imaginação e Mobilidade. In O AR E OS SONHOS ensaio sobre a imaginação do movimento. SP: Martins Fontes, 1990, p. 1/3.
4 LISPECTOR, Clarice. “Conversa Meio à Sério com Tom Jobim (I). In A DESCOBERTA DO MUNDO. RJ: Nova Fronteira, 1984, p. 56
5 XAVIER, Ismail (org). Bela Balázs.“Nós Estamos no Filme”. In A EXPERIÊNCIA DO CINEMA. RJ: Ed. Graal, 1983, p. 84.
6 RITTAUD-HUTINET, Jacques. OS IRMÃOS LUMIÈRE – A INVENÇÃO DO CINEMA. SP: Scritta, 1995, p. 259.
www.fafich.ufmg.br/~labor/cursocinema/pageoutorder/19trem.html
8 XAVIER,
Ismail (org). Jean Epstein. “O Cinema e as Letras Modernas. In A EXPERIÊNCIA DO CINEMA. RJ: Ed. Graal, 1983, p. 270/4.
9 CALVINO, Ítalo. “Visibilidade”. In SEIS PROPOSTAS PARA O PRÓXIMO MILÊNIO. SP: Cia das Letras, 1990, p. 99.

BIBLIOGRAFIA

BACHELARD,
Gaston. O AR E OS SONHOS ensaio sobre a imaginação do movimento. SP: Martins Fontes, 1990.
CALVINO,
Ítalo. SEIS PROPOSTAS PARA O PRÓXIMO MILÊNIO. SP: Cia das Letras, 1990.
LISPECTOR,
Clarice. LAÇOS DE FAMÍLIA. RJ: J. Olympio, 1979.
_________________. A DESCOBERTA DO MUNDO. RJ: Nova Fronteira, 1984.
POUND,
Ezra. ABC DA LITERATURA. SP: Cultrix, 1990. p. 32
RITTAUD-HUTINET,
Jacques. OS IRMÃOS LUMIÈRE – A INVENÇÃO DO CINEMA. SP: Scritta, 1995, p. 259
XAVIER,
Ismail (org). A EXPERIÊNCIA DO CINEMA. RJ: Editora Graal, 1983.

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* Doutora pela Faculdade de Educação - Unicamp

 
Ilustração: "Six Degrees of Buffalo", Rich Frederich

 

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