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DESCRITURA
Rubens
da Cunha

"Descritura", palavra
inventada por um aluno. Ou melhor, errada por um aluno. Queria tanto a
palavra pra mim. Ter sido eu a inventá-la, a misturar descrição com
escritura e sair por aí me gabando de ter inventado uma palavra. De ter
feito o verbo delirar, conforme sugere Manoel de Barros.
Mas não, a palavra me veio pelo descuido de um adolescente. Descuido ou
descaso, sabe-se lá. Pior é não conseguir explicar para ele a força de sua
palavra errada, a dimensão sempre inovadora que acontece na gramática, na
língua, na poesia, quando alguém inventa uma palavra.
Não que ele não possa compreender, ou perceber, o jogo que fez. Não é
isso, falo da não intencionalidade. Do estar escrevendo algo padrão,
"acadêmico", para o professor, como a escola exige e, de repente,
distraidamente, incorrer no delicioso "erro" de criar uma palavra. E não
saber disso. Não perceber o poder que tem nas mãos. Imagino os muitos que
apagaram seus erros criativos, sob a pena de uma nota baixa. Apagaram suas
invenções, intencionais ou não, porque a ditadura do gramaticalmente
correto corrói em muito a criatividade.
Mexer com as palavras, reordená-las, é ato de coragem, ato que muitos
tentam e pouco atingem o objetivo com precisão. Em português, o exemplo
máximo disso é João Guimarães Rosa, seguido por Manoel de Barros e pelo
moçambicano Mia Couto. Existe muitos outros que embasam suas escritas
nesse terreno de desconstruir/reconstruir a gramática com resultados
díspares. Porém, isso é literatura. Há em sua essência a necessidade de
alterar, redimensionar a linguagem. O que me encanta realmente é pensar na
"literatura" diária que começa assim, pelo "erro" de um aluno, ou por um
daqueles achados lingüísticos que as crianças nos brindam, geralmente por
falta de experiência com a linguagem. A falta de experiência faz bem
porque retira os medos e freios. O medo de errar abafa a poesia natural
que temos quando usamos a linguagem.
Não prego o erro gramatical pelo erro gramatical, mas a consciência do
poder de alterar a linguagem para produzir novos significados. O ensino da
escrita nas escolas deveria passar por esse viés também. Deveria inserir
no aluno não somente a escrita dentro da norma culta, mas os caminhos
possíveis para ultrapassar a norma culta. No entanto, na maioria das vezes
em que o aluno ultrapassa, esbarra na insensibilidade do
professor-corretivo. Aquele que apaga não somente as, digamos,
"imperfeições imperfeitas", mas faz toda uma limpeza nas imperfeições
perfeitas, aquelas que geram novos caminhos, estabelecem novas relações
com a linguagem. Seja por incapacidade de explicar ao aluno que ele
conseguiu ir além da gramática, seja porque o próprio professor desconhece
as fronteiras do "além da gramática".
Enfim, num mundo ideal, a linguagem fluiria, provocaria sensações,
escorreria farta pela criatividade humana. Porém, são tantos os
cerceamentos, tantos os cortes, que só nos resta brindar o invento-susto
de um aluno distraído. Longa vida à "descritura" e a qualquer outra
palavra "errada" que nasça por aí.
Leia outros textos do autor:
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