O outro sentido é o da inserção escolar da leitura. Esta inserção poderá aparecer vinculada à alfabetização (aprender a ler e a escrever), ato de decodificar o signo lingüístico e a leitura adquirir assim o caráter de “estrita aprendizagem formal” (Orlandi, 2001), ou pensar a leitura como um processo de instauração de sentidos também inserido pela escola na formação do leitor. Embora muitos estudiosos defendam a idéia de que no ambiente (espaço) escolar todos sejam considerados educadores, o ofício de introduzir a leitura no mundo do aluno é feito pelo professor e pela professora, conforme explicitado por Silva, 2003, p.109:
Se a reflexão é sobre os sentidos da leitura cabe aqui uma questão: o que é leitura? Os dicionários, de maneira geral, descrevem o verbete como: o que se lê, decifrar, interpretar o texto, nos remetendo então à idéia de que ler é ver apenas o produto e a informação que já está nele. No entanto, Roland Barthes, em 1986, afirmava que “a palavra ‘leitura’ não remete para um conceito, e sim para um conjunto de práticas difusas”, e hoje, para muitos estudiosos a leitura é constituída de verdadeira prática significante. E por que sentidos da leitura? Porque a leitura é um processo que envolve apreensão, interesse, percepção, aprendizagem, sensibilidade, e a produção do sentido é histórica, intangível, pois se dá conforme o repertório de experiência, de leitura, de vida vivida que o indivíduo traz em si. O sentido não está pronto ele é construído. Sob o olhar da Análise de Discurso, a leitura é produzida porque, conforme Orlandi, 1996, nos explica:
Como então formar leitores que gostem de ler e mais que isso, leitores críticos capazes de pensar a história da sociedade na qual estão inseridos e transformá-la? Ao pensar no sistema educacional brasileiro e em nossos professores, observa-se a incontestável força que o livro didático ainda exerce sobre a prática docente.
Ezequiel Theodoro da Silva, educador, participante
ativo da luta pela democratização da leitura, em um de
seus trabalhos, a partir de pesquisa feita com
professores, e analisando as respostas a duas questões
básicas: o que é leitura para o professor? e como ele
trabalha a leitura em sala de aula?, construiu um
quadro teórico o qual denominou de concepções
reducionistas de leitura. Evidencia-se neste conjunto o papel do livro didático, ou melhor, o uso que o professor faz ou deveria fazer dele, um tema bastante discutido por muitos estudiosos, uns defendendo o uso por considerar ser o único livro acessível ao aluno e ao professor, outros condenando seu uso por justificarem que o livro didático tornou-se o único instrumento de leitura e pesquisa inviabilizando assim a formação do leitor. Bárbara Freitag, em 1997, assim o definiu:
No mesmo texto Freitag comenta que em uma pesquisa feita em uma área rural do interior nordestino revelou que 88,5% dos professores das quinze escolas estudadas nunca leram um livro e 11% tinham o hábito de ler jornal de vez em quando (p.111). Dessa forma, ao aceitar o conteúdo do livro didático e retransmitir ao seu aluno, o professor acaba por repetir o discurso pedagógico autoritário e, na instituição escola. O discurso pedagógico autoritário “se dissimula como transmissor da informação e faz isso caracterizando essa informação sob a rubrica da cientificidade” (ORLANDI, 1996). Refletir acerca destas concepções reducionistas é lembrar que há décadas elas vêm sendo praticadas por nossos professores e minha própria experiência em escola me mostra isso. Pesquisas atuais, como a que foi feita em 2001 pela Câmara Brasileira do Livro, Retrato da Leitura no Brasil, revelaram que são dois os fatores determinantes para a compra e a busca do livro: a escolaridade e o poder aquisitivo. Assim, do universo amostral pesquisado resultou que em nosso país, especialmente em maior número, na região sudeste e São Paulo, as pessoas lêem por obrigação escolar ou empregatícia e somente a classe A compra livros efetivamente. A pesquisa revelou que quanto mais baixa a escolaridade e a classe econômica a preferência é pelo gênero de leitura religioso, em especial a Bíblia, que, ou é adquirida do vendedor porta-a-porta, ou o entrevistado disse que ganhou na igreja ou de presente de um amigo mais próximo ou parente. Mesmo diante desse quadro aterrador, cujas evidências poderiam conduzir a uma atitude pessimista em relação ao futuro da leitura em nosso país e desanimarmos, deve-se observar, atentamente, os trabalhos que vêm sendo discutidos e desenvolvidos por educadores que, inconformados com a circularidade pedagógica autoritária lançam-se em novos desafios e experiências, por vezes temerosos, incompreendidos, solitários, mas persistentes, sempre. Em 1964, uma professora chamada Marilena já praticava a dinâmica da leitura, apesar de estar em um educandário dirigido por padres franciscanos rigorosamente tradicionais. E a professora lia, compartilhava sua leitura com seus alunos. E estes, envolvidos por esse afeto também liam seus pequenos trechos de sonho. Ela sabia, como diz Silva, 2003 que “Você, que vê a cada momento aquilo que nunca antes tinha visto, sabe do poder de iluminação de uma boa leitura”.(p.4). Educadores como a professora Marilena sabem que as coisas podem ser diferentes do que são, viveram isto. Sabem que o professor, para promover um ensino de leitura e formar um leitor que conviva com a leitura deve ter a sua própria competência e sensibilidade de leitura e demonstrar isto aos seus alunos. A redução de leitura do professor tem como conseqüência a morte do leitor.
Novos olhares são propostos em relação à prática do
professor e sua competência como leitor. O professor
deve, na medida do possível, buscar estas novas
propostas, não como fórmulas milagrosas ou receitas
para resolver seus problemas em sala de aula. Mas, ser
um estudioso delas e, principalmente ousar
experimentar, adequando-as às finalidades e aos
conteúdos do ensino. A concepção construtivista da dinâmica da leitura proposta por Silva, 2003, demonstra a interação complexa, social, histórica, na produção da leitura. Por ser processo, a leitura é afetada pelo contexto histórico, repertório do leitor e pelo contexto do próprio texto (lexical e sintático). Na interação leitor-texto acontece a recriação, construção ou reconstrução e produção de significados, e assim a produção de sentidos. O leitor lê porque há um projeto de leitura, uma finalidade que leva à compreensão e à interpretação, e vice-versa. Os níveis de interação de leitura propostos por Silva compreendem três situações: o nível independente, quando o leitor, dado o seu repertório e formação lê facilmente o texto proposto. O nível educacional, quando há alguma produção de sentido, e, com a reorganização do repertório o leitor pode chegar a dominar o texto e quem sabe tornar-se um leitor crítico. E o nível de frustração, quando o leitor não consegue entrar no texto, produzir sentido.
Assim, reconhecendo este terceiro nível e fazendo a
escolha do caminho que irá seguir, o professor poderá
então optar por impor o seu sentido ao texto ou o do
autor do livro didático, ou então optar por, com
sensibilidade, conhecer a leitura de sua sala e, a
partir daí estabelecer projetos e práticas pedagógicas
que visem um ensino novo, de novas competências.
SILVA, Ezequiel T. da. Leitura na Escola e
na Biblioteca. (8ª ed) Campinas, SP: Papirus,
p.109, 2003. ____________Elementos de Pedagogia da Leitura. São Paulo: Martins Fontes,1988.
____________ Concepções Reducionistas da Leitura. (mímeo
não-publicado)
____________Uma Reflexão sobre o Ato de Ler.
Tese de Doutorado, PUC-SP, 1981. |
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