|
Poema

voltar
menu revista 01 |
|
-
...Avisto
crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem e
fecham os olhos...
|
-
A ARTE DE SER FELIZ
-
Cecília Meirelles
Houve
um tempo em que minha janela se abria sobre uma
cidade que parecia ser feita de giz. Perto da
janela havia um pequeno jardim quase seco. Era
uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o
jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha
um pobre com um balde e, em silêncio, ia
atirando com a mão umas gotas de água sobre as
plantas. Não era uma rega: era uma espécie de
aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para
as gotas de água que caíam de seus dedos magros
e meu coração ficava completamente feliz. Às
vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em
flor. Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os
olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas,
duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de
Lope de Vega. Às vezes um galo canta. Às vezes
um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar,
cumprindo o seu destino. E eu me sinto
completamente feliz. Mas, quando falo dessas
pequenas felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas não
existem, outros que só existem diante das minhas
janelas, e outros, finalmente, que é preciso
aprender a olhar, para poder vê-las assim.
-
Mais sobre a poetisa
|