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... se há uma cultura específica se constituindo no mundo virtual, há um modo de pensar específico desta cultura se compararmos aos modos de pensar daqueles que dela não participam ...

REFLEXÕES SOBRE A INSERÇÃO NA CULTURA DIGITAL

No momento em que produzo este texto na tela de computador, questiono-me o quão difícil seria fazê-lo manuscrito ou em uma máquina de escrever, tendo em vista todas as vezes que apaguei e reescrevi o mesmo. Além disso, a todo instante recorro ao dicionário disponível em meu provedor de acesso para conferir ortografia e escolher alguns sinônimos. Concomitantemente, recorro aos sites de busca para conferir as referências bibliográficas e comprar algum livro de que necessito. Não só a Internet, mas até os mais simples recursos do computador – como o processador de texto – evidenciam a recriação das funções do ler e escrever.

A partir de fatos como esse é que busco refletir sobre a inserção na iminente cultura digital. Será tarefa fácil introduzir-se na cultura digital? Como será que jovens de meios populares, que não possuem computador em casa com acesso à Internet, fazem para responder às demandas do mundo digital, em seu trabalho ou na escola?

É claro que não posso adotar uma visão simplista a respeito de jovens do meio popular, pois são raríssimos aqueles radicalmente alheios ao universo digital. O uso do telefone celular ou dos caixas eletrônicos, por exemplo, os aproximam de algumas práticas relacionadas a esse universo. No entanto, utilizar a Internet como um novo suporte de leitura e escrita ainda constitui um obstáculo tendo em vista os jovens que não herdam essa condição de letrado digital na família ou em outros espaços de formação.

Para ilustrar essa situação, busco como exemplo uma observação que realizei no início deste ano em um laboratório de informática dentro da biblioteca de uma universidade pública da região sudeste. No primeiro - e único - dia de treinamento para aprender a lidar com o sistema de busca de livros e outros materiais, o instrutor pediu aos alunos que acessassem a Internet. Uma aluna caloura logo se manifestou dizendo não saber usar o computador. Ele aconselhou que ela se sentasse com quem soubesse. Observei que durante todo o treinamento ela encontrava-se imóvel, entre duas colegas que sabiam como usar a máquina e a Internet. Apenas seus olhos, com certo ar de angústia, acompanhavam a navegação das outras. Ela permaneceu de braços cruzados e ombros caídos, excluída daquele momento. Cabe, então, indagar de que forma essa aluna caloura – infoexcluída - vai desenvolver estratégias para atender às demandas de uso da Internet no mundo acadêmico.

Presenciei, neste mesmo dia no auditório da faculdade, minutos antes desse episódio, um dos professores alertarem que esse treinamento na biblioteca seria um momento de suma importância, pois os alunos deveriam se instrumentalizar o mais rápido possível para lidarem com a base de dados. Essa é uma forma de cobrança dos usos da Internet logo no início de uma trajetória acadêmica. O que essa cobrança representa para os calouros infoexcluídos? Ainda não há respostas para essas perguntas, mas é importante observar que a sociedade, ainda que de forma desigual, tem demandado um uso intenso das novas tecnologias.

No âmbito da educação, principalmente no que se refere ao ensino universitário, saber fazer uso da Internet e de suas possibilidades/facilidades, é uma necessidade quase diária. Nas bibliotecas, para se encontrar um livro, uma tese, ou qualquer outro material, é preciso saber como funciona o programa de busca disponível nos computadores – a base de dados - caso contrário, o estudante dependerá sempre da ajuda de funcionários ou se encontrará perdido entre as prateleiras de livros. Para ler artigos de alguns periódicos disponíveis na Internet é preciso saber “o caminho” que se faz na rede para encontrá-los – digitar corretamente o endereço do site em que se encontra o periódico, decifrar comandos, entender termos tais como download, saber ler um artigo em pdf, etc; para pesquisar notícias ou variados temas é mais fácil quando se sabe utilizar as ferramentas de triagem oferecidas nos sites de busca; a grande maioria das universidades só faz a renovação de matrícula via Internet. Logo, o estudante precisa estar em sintonia com essa nova tecnologia para que consiga resolver o mínimo de suas atividades acadêmicas diárias.

Pode-se hipotetizar que se há uma cultura específica se constituindo no mundo virtual, há um modo de pensar específico desta cultura se compararmos aos modos de pensar daqueles que dela não participam. Como Soares (2002) defende, a hipótese é de que as mudanças recorrentes do uso da Internet provoquem conseqüências sociais, cognitivas e discursivas, e estejam, assim, configurando um letramento digital. O que pode resultar desta nova forma de relacionamento com a leitura e com a escrita na tela? Quais são as práticas/saberes organizados em torno da cultura digital?

É possível afirmar que uma nova cultura vem se constituindo em relação à cultura oral e escrita, seria o que Lévy (1999) chama de cibercultura. Esta cultura digital pode ser vista como uma produção híbrida, ou seja, um agregado de características que compõem tanto a cultura oral quanto a cultura escrita; uma interpenetração de formas de comunicação oral e escrita em que os limites entre ambas se tornam tênues.

Olson (1997) ressalta que “nossa compreensão do mundo, nossa ciência, nossa compreensão de nós mesmos, são subprodutos da maneira como interpretamos e criamos textos escritos, isto é, da maneira como vivemos num mundo em que está no papel” (p.35-36). É necessário refletir sobre essas maneiras de pensar sem considerá-las inseridas numa hierarquia, pois as tecnologias digitais não possuem uma superioridade em relação à escrita ou à oralidade, não é um instrumento de desenvolvimento cognitivo e cultural.

A entrada na cultura digital tem sua origem na entrada da cultura escrita por esta ser a base das novas tecnologias. No entanto, é interessante observar quais são os impactos que esta nova cultura provoca. Se a entrada de indivíduos na cultura escrita leva-nos a denominá-los letrados, então se pode considerar como novos letrados indivíduos participantes dessa nova cultura que chamamos digital ou cibercultura. Para Chartier (2003), ler numa tela de computador pode ser considerado uma das revoluções mais radicais dos últimos tempos, pois a representação eletrônica dos textos modifica a relação com o escrito, permite intervenções no texto antes impossíveis. Além disso, Chartier (2003) relembra a grande quantidade de informações que, como ele mesmo diz, o leitor da era eletrônica tem a sua disposição.

A “construção” do novo letrado talvez comece por aí. Pela infinita quantidade de informações disponíveis para uso de seu próprio desenvolvimento e pelas inferências exigidas numa leitura coerente de hipertextos (fragmentos indefinidamente manipuláveis, segundo Chartier). Além disso, há outros indícios externos que, talvez, desnaturalizados, também revelem a entrada no mundo digital: a escrita na tela, a ausência de correções ortográficas, o uso de símbolos em vez de palavras, as abreviações, a desconstrução da escrita alfabética, a tentativa de compensar na tela o que é naturalmente perdido da fala para a escrita através dos emoticons, as hesitações, o tamanho das letras indicando raiva ou gritos, as repetições, os reinícios, as fragmentações etc.

Enfim, como já foi dito, há uma cultura digital se constituindo, há os responsáveis pela construção desta cultura, há características que lhe são próprias (sincronia escrita), há também um hibridismo (fala/escrita) ainda não bem conhecido. Então, como tem sido a entrada neste mundo digital pelos jovens que estão se inserindo recentemente? Quais são os impactos sofridos por eles?

Até aqui, pelo pouco que presenciei em minha pesquisa, posso afirmar que há uma enorme inquietude por parte dos jovens que tentam se inserir neste universo digital. Esta inquietude parece ser uma mistura de curiosidade e medo, certos de que a Internet influenciará o seu modo de pensar e agir diante da leitura e da escrita. Por tais razões, insisto ser importante pensar criticamente a importância da presença da Internet e sublinhar o modo como esta nova tecnologia tem gerado um impacto sobre seus usuários contribuindo para o desenvolvimento de um possível letramento digital.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHARTIER,
Roger. Formas e Sentido – Cultura Escrita: entre distinção e apropriação. Campinas, SP: Mercado de Letras; Associação de Leitura do Brasil (ALB), 2003 – (Coleção Histórias da Leitura).

LÉVY,
Pierre. Cibercultura. Trad. Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999. 260p.

OLSON,
D. R. O mundo no papel: as implicações conceituais e cognitivas da leitura e da escrita. São Paulo: Ática, 1997. 343p. (Coleção Múltiplas Escritas)

SOARES,
Magda. Novas práticas de leitura e escrita: letramento na cibercultura. Educação e Sociedade: Revista de Ciência e Educação, Campinas, v.23, p. 143-160, dez. 2002.
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(*) Daniela Perri Bandeira de Albuquerque é Mestre em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais - Programa de Pós-graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social. Título da dissertação:"A influência do uso da Internet no processo de letramento de adolescentes". Orientadora: Aparecida Paiva. Doutorado em andamento, com o título provisório "Novos letrados? Um estudo sobre o processo de formação de letrados em meio digital'. Orientador: Antônio Augusto Gomes Batista - Faculdade de Educação da UFMG.  

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