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Esta ocupação redesenha o território da
história da educação na medida em que propõe
novos temas e objetos de estudo e (...)
apresenta novas perspectivas de análise para
temas que já vinham sendo investigados |
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NOTAS DE ESTUDO: A
HISTÓRIA CULTURAL E
AS POSSIBILIDADES DE PESQUISAR A LEITURA
-
Carlos Humberto Alves Corrêa
(*)
NOTAS INICIAIS
Este texto recupera de maneira mais sistematizada
algumas notas de estudo sobre a história cultural
produzidas, em grande parte, no interior da Disciplina
Cultura, Educação e Leitura (ED-728), oferecida em
2003 no Programa de Pós Graduação em Educação da
Unicamp.
[1]
A organização dessas anotações de estudo em forma de
texto deve-se ao desejo de partilhar o resultado de um
investimento de estudo gerado a partir de uma demanda
pessoal e, também, acadêmica.
Reunir, ordenar e encadear em um mesmo espaço (texto)
o que antes existia como notas de estudo, faz emergir
um tipo de escrita que, pelo menos explicitamente,
guarda pouca identidade com as anotações - espalhadas,
abreviadas, soltas – que lhe deram origem. No entanto,
o início do título deste texto anuncia que o vínculo
com as notas de estudo permanece. De um lado, ele
pretende lembrar a origem de sua produção; de outro,
ele busca apresentar o texto como uma produção
provisória e inacabada, como algo que quer ser lido
como uma das leituras possíveis que se pode realizar
dos estudos ligados à história cultural.
NOTAS SOBRE O MOVIMENTO DOS
ANNALES E A FORMULAÇÃO DE UM PROJETO DE HISTÓRIA DA
CULTURA
É possível definir a história cultural como sendo uma
tendência historiográfica contemporânea que propõe uma
nova forma de interrogar a realidade. Para isso lança
mão de novos princípios de inteligibilidade,
salientando o papel das representações na criação,
manutenção e recriação do mundo social. No entanto, é
impossível continuar falando desta tendência
historiográfica sem fazer menção ao modo como ela se
constituiu.[2]
A história cultural tem sua origem associada à escola
do Annales que surge em 1929, com Marc Bloch e Lucien
Febvre, como um movimento que se contrapunha ao
paradigma da historiografia tradicional. Na fase
inicial da escola dos Annales os interesses de estudo
estavam voltados para a construção de uma história
social e econômica em oposição a uma tradição
historiográfica centrada nos grandes feitos dos
grandes hom ens. A denominação escola dos Annales surge
em função da publicação do Annales d´histoire
économique et sociale, um periódico que traduzia o
movimento de reorientação que queria se imprimir aos
estudos historiográficos. A partir de 1940, a escola
dos Annales, em sua segunda geração (Fernand Braudel,
Robert Mandrou), caracterizou-se por uma produção
historiográfica predominantemente demográfica. Em 1946
a revista Annales muda de nome com a intenção de
tornar-se um periódico de ciências sociais - Annales.
Economias, Sociedades, Civilizações.
No final da década de 60 e início dos anos 70 há um
declínio dos temas socioeconômicos, desinteresse por
temas demográficos e aparecimento de temas outrora
raríssimos ou desconhecidos (criança, família, morte,
sexualidade, criminalidade, delinqüência...). É o
período que se convencionou a denominar como a
3ª
geração da escola dos Annales e que é marcado por um
crescente interesse dos historiadores por temas
pertencentes ao domínio da cultura e o questionamento
do primado até então conferido, ao estudo das
conjunturas econômicas ou demográficas.
Embora o interesse pela produção da história da
cultura tenha favorecido um papel central da dimensão
cultural na constituição do mundo social, ela não foi
capaz de romper com o modo de perceber as práticas e
os objetos culturais como reflexo de divisões
sócio-econômicas. Isto porque as primeiras
iniciativas de se produzir a história da cultura
mantinham uma forte ligação com alguns dos
pressupostos metodológicos desenvolvidos no campo da
história sócio-econômica. Esta fase inicial da
história cultural é reconhecida como
história das
mentalidades.
É no interior desta terceira geração que Chartier
desenvolve as suas reflexões e críticas acerca da
história das mentalidades e, a partir delas, propõe
algumas mudanças no modo de abordar a cultura. Uma de
suas primeiras recusas se dá em relação ao “primado
quase tirânico do social” (Chartier,1990:45), que
alimentou a produção de uma história social da
cultura, preocupada em caracterizar culturalmente os
grupos sociais (erudito x popular) ou caracterizar
socialmente os produtos culturais (elite x povo). Com
isso, Chartier recusa o pressuposto de que os
contrastes e as diferenças culturais estejam
forçosamente organizados em função de um recorte
social previamente constituído.
Com efeito, as modalidades de apropriação dos
materiais culturais, são sem dúvida, tão ou mais
distintos do que a inegável distribuição social desses
próprios materiais. A constituição de um escala de
diferenciações sócio-culturais exige, portanto, que
paralelamente às sinalizações das freqüências de tais
e tais objetos, em tais e tais meios, sejam
encontradas, em seus desvios, as práticas de sua
utilização e consumo. (Chartier, 1996:78)
Ao reconhecer a fragilidade do esquema de
interpretação utilizado pela história social da
cultura para abordar os objetos e práticas culturais,
Chartier sinaliza para a necessidade de se pensar em
outros termos a relação entre recortes sociais e as
práticas culturais. Para responder a essa necessidade
propõe o deslocamento de uma história social da
cultura para uma história cultural da sociedade
Uma sociologia retrospectiva, que durante muito tempo
fez da distribuição desigual dos objetos o critério
primeiro da hierarquia cultural, deve ser substituída
por uma outra abordagem, que centre a sua atenção nos
empregos diferenciados, nos usos contrastantes dos
mesmos bens, dos mesmos textos, das mesmas idéias.
(Chartier, 1990:136)
Nos limites deste texto cabe apontar de maneira
abreviada algumas das idéias que considero relevantes
na composição da abordagem proposta por Chartier.
[3]
Dentro de sua proposição, alguns pares de oposição
(Criação x Consumo, Produção x Recepção), são
problematizados de maneira a dar visibilidade às
imbricações, às circularidades, aos intercâmbios e aos
influxos recíprocos entre estes campos
tradicionalmente apresentados como dicotômicos. É
possível afirmar que esse modo de perceber os
contrastes culturais elimina a noção de superioridade
de uma determinada modalidade cultural sobre a outra.
Isto porque o tensionamento das diferentes formas
culturais revela que elas são constituídas de maneira
imbricada, através de um jogo sutil de apropriações,
de reempregos, de desvios a partir dos quais se
agrupam, elementos de origens bastante diversas.
Saber se pode chamar-se popular ao que é criado pelo
povo ou àquilo que lhe é destinado é, pois, um falso
problema. Importa antes de mais identificar a maneira
como, nas práticas, nas representações ou nas
produções, se cruzam e se imbricam diferentes formas
culturais. (Chartier, 1990:56)
Duas noções são centrais na proposição que Chartier
faz para a produção de uma história cultural. A
primeira delas é a noção de apropriação, tomada de
empréstimo de M. de Certeau (1994), para definir o
consumo cultural como uma operação de produção que
embora não fabrique nenhum objeto, assinala a sua
presença a partir da maneiras de utilizar os produtos
que lhes são impostos. As práticas de apropriação
(táticas) são o contraponto às operações (estratégias)
que visam disciplinar e regular o consumo cultural.
A segunda noção trabalhada por Chartier é a de
representação. É uma noção que ele lança mão para
designar o modo pelo qual em diferentes lugares e
momentos uma determinada realidade é construída,
pensada, dada a ler por diferentes grupos sociais.
(Chartier, 1990:16) A construção das identidades
sociais seria o resultado de uma relação de força
entre as representações impostas por aqueles que têm
poder de classificar e de nomear e a definição,
submetida ou resistente, que cada comunidade produz de
si mesma. (Chartier, 2002:73)
Em linhas gerais são esses os contornos mais gerais da
história cultural que passam a orientar os estudos
relativos à história da leitura.
CONHECER A LEITURA A PARTIR DA
PERSPECTIVA DA HISTÓRIA CULTURAL
O investimento na produção de uma história da cultura
fez com que certos temas passassem a ser privilegiados
por historiadores ligados à história cultural. Segundo
Nunes e Carvalho,
o campo tradicionalmente relegado à história da
educação vem sendo progressivamente ocupado e
redefinido pelas investigações da nova história
cultural. A ênfase no estudo dos processos de
circulação e apropriação culturais vem fazendo com que
esta privilegie, como constitutivo de seu próprio
campo de investigação, estudos relacionados a questões
educacionais, que vinham sendo de certa forma sendo
relegados pela produção historiográfica anterior a uma
situação de desprestígio intelectual e
institucional. (1993:46)
Esta ocupação redesenha o território da história da
educação na medida em que propõe novos temas e objetos
de estudo e, ao mesmo tempo, apresenta novas
perspectivas de análise para temas que já vinham sendo
investigados. O crescente número de estudos sobre
cultura escolar, história das instituições escolares,
história das disciplinas expressam esse movimento de
reconfiguração do território da história da educação.
Além das práticas escolares, o horizonte de interesse
da história cultural se estendem ao tema da leitura
enquanto prática cultural.
Dentre os autores da história cultural que tematizam a
leitura podemos destacar os trabalhos de Chartier
(1990, 1991, 1992, 1994, 1995, 1996), Darnton (1992,
1996) e Ginzburg (1995). Para os propósitos modestos
deste texto, iremos privilegiar apenas as trilhas de
investigação da leitura sugeridas por Chartier e Darnton.
MERGULHANDO NA ROTA DE INVESTIGAÇÃO PROPOSTA POR
ROGER
CHARTIER
Chartier é um historiador que tem se destacado por sua
produção teórica e metodológica a partir das quais vem
problematizando os impasses e possibilidades de
produção de uma história da cultura. Embora seja um
historiador da cultura escrita, tem dedicado especial
atenção ao estudo das práticas da leitura do passado
(trabalhos sobre a leitura na França do Antigo Regime,
por exemplo) e do presente (as reflexões que tem
realizado sobre a relação entre leitura e o mundo
digital).
Suas buscas concentram-se no esforço de reconstituir,
nas suas distâncias e proximidades, as diferentes
maneiras de praticar a leitura, cujos modelos e modos
variam de acordo com os tempos, os lugares e as
comunidades. Percebe-se que este esforço parte de uma
percepção da leitura como uma prática plural, o que
lhe obriga de antemão a opor-se às classificações
rígidas e simplistas que restringem a realidade da
leitura a duas categorias: leitores e não-leitores ou
alfabetizados e analfabetos. Nos seus estudos é
possível identificar a pluralidade de práticas
leitoras, uma prática cambiante e permeada de nuanças.
No entanto, ele alerta que nem sempre esta dimensão
plural da leitura é reconhecida.
Os grandes leitores (...), não há dúvida, têm
dificuldade em aceitar que existem outras leituras
além da sua, ou ainda em conceber que entre sua
leitura de douto e as da maioria existem outras
diferenças afora estas: ler muito ou pouco, rápido ou
lentamente. (Chartier, 1996:19)
Orientado pela disposição de enfocar a leitura na sua
diversidade e nas suas variações, Chartier (1991)
localiza três modalidades de contraste que regulam as
maneiras variantes de utilização, compreensão e
apropriação dos textos e ajudam a compreender as
leituras e os leitores em suas diferenças:
contrastes entre as competências de leitura;
contrastes entre normas de leitura - definem para
cada comunidade de leitores, usos do livro, modos de
ler, procedimentos de interpretação; e
contrastes entre as expectativas e os interesses que
os diferentes grupos de leitores investem nesta
prática (ler para se informar, para se inspirar, por
prazer/fruição).
A partir dessas modalidades de contraste, Chartier
cria as condições para inventariar algumas diferenças
- antes apagadas pelas generalizações – existentes nos
modos como os leitores realizam a operação de ler os
textos.
Mas a trilha de investigação proposta por Chartier
pressupõe que a leitura seja abordada não apenas a
partir das práticas de recepção dos textos, mas
também, dos dispositivos que tentam normalizá-la,
modelá-la, controlá-la. Tal projeto impõe a
necessidade de reunir duas perspectivas,
freqüentemente separadas: o estudo da maneira como os
textos, e os impressos que lhes servem de suporte,
organizam a leitura que deles deve ser feita e, por
outro lado, a recolha das leituras efetivas, captadas
nas confissões individuais ou reconstruídas à escala
das comunidades de leitores. (1990:123)
A disputa entre estas duas perspectivas a partir das
quais a leitura é compreendida resulta em uma polêmica
que tem atravessado toda a história da leitura. De um
lado, a perspectiva estruturalista que pensam os
textos em si mesmos, desprendidos de toda a
materialidade. De outro, a teoria da recepção que
postula uma relação direta e imediata entre texto e
leitor, percebendo a leitura como uma coleção
indefinida de experiências irredutíveis umas às
outras. De um lado, o “mundo do texto”; de outro, “o
mundo do leitor”.
A aproximação destas perspectivas tão distintas visa
transformar esta tensão em uma condição
potencializadora da história da leitura. É preciso
ressaltar que esta aproximação não elimina o
tensionamento existente entre essas duas perspectivas
uma vez que ele é constitutivo do campo da leitura. A
proposta de Chartier para abordar a leitura a partir
de um tensionamento operatório entre o mundo do texto
e o mundo do leitor poderia assim ser representado.

De um lado teríamos o pólo da produção que
representaria o mundo dos textos e dos suportes que
lhes dão sustentação. Neste pólo estariam localizadas
as operações de escritura de textos (escritores) e de
fabricação dos suportes que o colocarão em circulação
(editores, impressores). Estas operações, orientadas
por certas representações de leitura e do público
leitor, criam uma série de dispositivos escriturários
e editoriais, os quais Chartier nomeia como protocolos
de leitura, que buscam refrear a liberdade do leitor
tendo em vista a realização daquilo que ele imaginam
ser a compreensão correta, a leitura autorizada.
Talvez aqui pudéssemos localizar Foucault como sendo
um dos interlocutores de Chartier para pensar esse
pólo que se configura como um espaço produtor de
controle, disciplinamento, estratégias de controle.
O outro pólo, o da recepção, é o terreno onde reside o
leitor e as operações de apropriação dos textos que
lhes são propostos. Estas operações de apropriação são
marcadas pelo uso de táticas que Certeau, outro
interlocutor importante de Chartier na construção
dessa abordagem da leitura, vai definir como uma série
de atentados ao poder, no espaço de suas previsões,
capazes de inventar o cotidiano e se contrapor às
estratégias de ordenamento. No campo da leitura essas
táticas se expressariam como uma
“... produção silenciosa: flutuação através da página,
metamorfose do texto pelo olho que viaja, improvisação
e expectação de significados induzidos de certas
palavras, intersecções de espaços escritos, dança
efêmera (...) incapaz de fazer estoque (salvo se
escreve ou ´registra´), o leitor não se garante contra
o gasto do tempo ( ele se esquece lendo e esquece o
que já leu) (...) ele insinua astúcias do prazer e de
uma reapropriação do texto do outro. (Certeau,
1996:49)
Talvez seja importante mais uma vez lembrar que esses
pólos (o da produção e o da recepção) estão sendo
percebidos por Chartier como estando em uma relação um
com o outro. Não se trata de uma relação meramente de
oposição é uma relação de tensão, de co-ocorrência e
concorrência. Ao instalar a leitura nesse espaço de
tensão, os processos de produção de sentido que
conferem aos textos significados plurais, só podem ser
compreendidos no cruzamento dos pólos de produção e
recepção, portanto, nas diferentes relações que se
estabelecem entre o texto, o suporte que lhe dá
sustentação e a maneira como é lido. Portanto, os
sentidos e as possibilidades de sua produção deixam de
estar fixados em um único pólo. Eles seriam
construções resultantes, ao mesmo tempo, do trabalho
empreendido pelos escritores (nas suas estratégias
escriturárias), pelos editores (no processo de
fabricação do livro) e pelos leitores (nos modos como
eles interagem com os textos que lhes chegam às mãos).
Neste tensionamento, as estratégias que visam ordenar
e disciplinar as maneiras de ler seriam sempre
estratégias passiveis de perturbações, transgressões,
subversões. Do mesmo modo, a liberdade dos leitores,
suas táticas, sua liberdade seriam sempre operações
vigiadas, controladas pelas estratégias de disciplinamento. Isso supõe investigar a leitura na
tensão entre disciplina e invenção ou, dito de outra
maneira, entre estratégias de ordenamento e táticas de
apropriação dos textos dados a ler.
Nessa perspectiva mais ampliada de perceber a leitura
como uma prática plural e tensionada, Chartier vai
eleger três eixos a partir dos quais um projeto de
investigação da história da leitura pode se apoiar.
São eles:
o estudo crítico dos textos (literários ou não,
canônicos ou esquecidos);
a história dos livros e de todos os objetos que
contêm a comunicação do escrito e servem de suporte
para o texto; e
a análise das práticas de leitura que, diversamente,
se apropriam dos bens simbólicos, produzindo assim
usos e significações diferenciados.
Esses eixos supõem uma relação triangular com os
textos e que podem ser representada no seguinte
esquema

Em linhas gerais, estas são as anotações que buscam
apresentar de maneira abreviada alguns dos pontos que
considero centrais no modo como Chartier vem abordando
a leitura no curso de suas investigações sobre a
história da leitura.
Primeiros passos para uma história da leitura;
sugestões de R. Darnton para a investigação da
história da leitura
Robert Darnton é outro historiador ligado à história
cultural e que tem desenvolvido reflexões e pesquisas
sobre a história da leitura.
[4]
Aqui não será feita
uma explanação acerca do seu modo de abordar a leitura
que, guardada algumas proximidades, apresenta
diferenças em relação ao modo proposto por Chartier.
As anotações que serão apresentadas buscam apresentar
algumas rotas que Darnton (1990, 1992) identifica como
possibilidades para investigar a história da leitura.
É possível recuperar a história da leitura? Como
recuperar a história da leitura? Essas são as
perguntas que orientam o balanço que ele faz sobre os
limites e possibilidades de produção de pesquisas na
área.
Parte do pressuposto que a recuperação da história da
leitura será sempre parcial, uma vez que existem
limitações de acessar todos os seus vestígios.
Reconhece as contribuições da história do livro na
reconstituição de história externa da leitura (quem,
onde, quando lia?). No entanto, outras perguntas
continuam sendo difíceis de serem respondidas (como e
por que lia?)
Neste balanço que fala, Darnton identifica algumas
tendências/rotas de pesquisa até então desenvolvidas.
Procurar os leitores e o material de leitura nos
arquivos / Buscar o registro dos leitores
Tenta responder às questões quem lê e o que lê em
diferentes épocas?
Dentre os estudos ligados a esta primeira
tendência/rota destacam-se as investigações de:
Ginzburg (Menocchio), Darnton (Jean Ranson e os
leitores de Rousseau), (Jean Hébrard – Jamerey-Duval).
Os estudos ligados a esta tendência se subdividem em 2
grupos:
* estudos microanalíticos - O moleiro de C. Ginzburg
(1987) e o comerciante de La Rochelle, leitor de
Rousseau esquadrinhado por R. Darnton (1996) são
exemplos de estudos dessa natureza. As possibilidades
de definição do perfil de leitores particulares podem
ser concretizadas com a utilização de catálogo de
bibliotecas (estudo das bibliotecas particulares);
correspondências de leitores enviada aos autores,
editores, livreiros; anotações de leitores em seus
livros; processos religiosos e/ou policiais.
* estudos macroanalíticos (ligados a uma história
social quantitativa). Os estudos macroanalíticos usam
séries de longa duração Como vimos, é uma tendência
que Chartier se opõe. Entendiam que a quantificação
dos dados culturais servia como a chave para entender
cientificamente a circulação e a posição dos livros e
a identidade das populações escolares.
Esta produção faz uso de uma diversidade de fontes:
depoimentos legais, registros de direito do livro,
bibliografias (+ usados p/ estudos franceses),
catálogos das feiras de livros (+ utilizados nos
estudos alemães), documentos de empresas tipográficas
e registros alfandegários (ingleses ), registros
notariais, inventários, lista de assinantes, registros
de empréstimos nos arquivos das bibliotecas
(circulantes ou fixas). Apesar das limitações, tanto
Darnton quanto Chartier reconhecem que estudos dessa
natureza produzem algumas configurações estatísticas
importantes. Permitem, por exemplo, observar a
conjuntura da produção do livro, identificar diversos
meios de leitores a partir do nº de livros que
possuíam, observar as categorias bibliográficas
dominantes em suas bibliotecas ou em um dado meio
social, estabelecer porcentagens dos que em seus
inventários tinham livros e os que não tinham.
A diversidade disparidade de documentação é apontada
por Darnton como um problema comum a estes dois tipos
de estudos, uma vez que tem provocado divergências nas
conclusões, fazendo com que as pesquisas anulem os
resultados umas das outras.
Buscar indício sobre os espaços de leitura
Tenta responder à questão Onde se lia? Os estudos têm
destacado alguns espaços de leitura, dentre eles: os
clubes de leitura, os gabinetes literários, as
cafeterias. Para localizá-los, os estudos fazem uso de
fontes pouco usuais, como: a iconografia e os
equipamentos (incluindo aí o mobiliário e as roupas).
Buscar indícios sobre os modos e
os motivos de leitura
É uma tendência onde residem os maiores silêncios da
história da leitura. Dizem respeito às perguntas mais
difíceis de serem respondidas pela história da
leitura. Como liam e por que liam? Relatos
autobiográficos conhecidos (Santo Agostinho, Santa
Tereza de Ávila, Montaigne, Rousseau e Stendhal).
Estudar os relatos autobiográficos + conhecidos e
seguir para fontes menos familiares (pode mostrar que
as letras tinham um lugar na cultura do homem comum).
É possível, também, estudar a disposição tipográfica
dos textos tendo em vista que ela pode indicar o modo
como o texto era lido pelo leitor. É uma modalidade de
análise baseada na Bibliografia Analítica.
Estudar os modos de aprendizagem da leitura/ de como
a leitura era ensinada
São estudos que podem fornecer informações importantes
sobre os modelos de ensino da leitura, as técnicas
pedagógicas utilizadas, os livros que serviram para o
seu ensino.
Estudar as representações da leitura
- Como a leitura
era pensada?
Estudar descrições de época sobre a leitura no
interior da ficção, das autobiografias, dos textos
polêmicos , das cartas, dos quadros e gravuras podem
fornecer pistas sobre o que era a leitura no interior
de uma determinada comunidade.
NOTAS DE FECHAMENTO
As notas aqui inscritas nos dão uma visão panorâmica
desta tendência historiográfica contemporânea que tem
tomado a leitura como tema de pesquisa. A partir delas
é possível identificar um modo mais alargado de
perceber e estudar o fenômeno da leitura.
Uma abordagem que cruza, transporta e desloca
informações; que estabelece relações de contraste e
tensionamento entre diferentes componentes da leitura;
que estabelece diálogos, rompe fronteiras
disciplinares em busca de outras possibilidades de
inteligibilidade de seu tema; trilhar caminhos
inusitados para recolher os vestígios de uma história
que se sabe, de antemão, que é lacunar. Apresenta uma
maneira de perceber e praticar a pesquisa que se
contrapõe àquele que busca encontrar modelos,
parâmetros; que pretende identificar relações de
causa-efeito; que visa produzir hierarquias.
Por ser assim, exige do pesquisador outras habilidades
e competências que alimentem uma sensibilidade e uma
abertura para o diferente, o plural, o inusitado, o
não revelado, o silenciado....
Por ser assim, se apresenta como uma possibilidade de,
ao lado de outras tendênias de pesquisa, adensar a
nossa compreensão sobre a leitura na historicidade dos
seus modos de ser produzida, difundida e recebida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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história nova. LE GOFF, J. 3ª ed. São Paulo. Martins
Fontes. 1995.
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perspectivas. São Paulo. Ed. UNESP, 1992.
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representações. Lisboa. Difel, 1990.
______________ A ordem dos livros. Brasília.
Ed. UNB, 1994.
______________(org). Práticas da leitura. São
Paulo. Estação Liberdade, 1996.
______________ Textos, impressões,
leituras. IN: A nova História Cultural. Hunt, Lynn.
São Paulo. Martins Fontes, 1995.
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Getulio Vargas. 1996.
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In: Estudos Avançados. 11(5),1991.
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episódios da história cultural francesa. Rio de
Janeiro. Graal, 1986.
______________ Boêmia literária e revolução: o submundo
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Borges. São Paulo. Companhia das letras, 1987.
______________ O beijo de Lamourette. Trad. de Denise
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______________ História da leitura. In: A escrita da
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______________ Edição e sedição. São Paulo. Companhia das
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______________ A leitura rousseauista e um leitor “comum”
do século XVIII. In: CHARTIER, Roger (org.) Práticas
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Companhia das Letras, 1987.
HUNT, Lynn. A nova história cultural. São Paulo.
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NUNES, Clarice, CARVALHOS, Marta M. C. de.
Historiografia da educação e fontes. In: Cadernos Anped. Porto Alegre, n. 05, set. 1993.
LE GOFF, Jacques. A história nova. 3ª ed. São Paulo,
Martins Fontes, 1995.
MAROTTA, Claúdia Otoni de Almeida. O que é História
das mentalidades. São Paulo. Brasiliense. 1991.Coleção
Primeiros Passos nº 253.
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NOTAS
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[1] Disciplina oferecida no 1º semestre de 2003 no
Programa de Pós-graduação da Faculdade de Educação da
Unicamp, sob a responsabilidade das Professoras Drª
Lilian Lopes Martin da Silva e Drª Norma Sandra de
Almeida Ferreira.
[2] O movimento de constituição da história cultural é
abordado por vários autores, entre eles destacam-se os
trabalhos de: ARIÉS (1995), BURKE (1992), CHARTIER
(1990), HUNT (1992)e LE GOFF (1995)HUNT (1992)
[3] Um quadro mais preciso dos contornos desta
abordagem pode ser encontrado nos seus próprios
escritos. Ver, por exemplo, A história cultural: entre
práticas e representações. Lisboa. Difel, 1990. Já
existem trabalhos de autores nacionais que se dedicam
a tarefa de refletir sobre as idéias desse autor,
veja: CARVALHO (1993) e NUNES, CARVALHO (1993).
[4] Ver especialmente DARNTON (1986), (1987), (1990),
(1992 a) (1992 b) e (1996)
-
___________________________________________________
-
*
Carlos Humberto Alves
Corrêa é professor adjunto
da Faculdade de Educação da Universidade Federal
do Amazonas.
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