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....Nossa
meta principal é fazer configurar o Centro
de Estudos da Leitura como espaço para essa
articulação efetivamente, pela consolidação
de seus grupos de trabalho e afirmação de
sua cinco linhas de pesquisa... |
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ESTAÇÃO DA LEITURA
- Jequié, BA
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Maria Afonsina
Ferreira Matos

Maria Afonsina vem
fazendo um trabalho irretocável em Jequié, sertão da
Bahia. Sob a sua competente liderança e o seu operante
trabalho, muitas pesquisas e ações vêm beneficiando a
formação de pesquisadores na região bem como a
realização de programas de valorização da leitura.
Vale a pena ler a entrevista para conhecer as
vivências e experiências em andamento naquela região
brasileira. Se der, vale a pena visitar para ver!
Afonsina conte um
pouco da sua formação aos leitores de Linha Mestra.
Quem é de onde veio, escolas cursadas e coisas assim.
Sou professora de Literatura Infanto-juvenil e Teatro
Grego da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia –
UESB/ campus Jequié, onde também faço trabalhos de
coordenação geral do Programa Estação da Leitura -
ESTALE desenvolvido no Centro de Estudos da
Leitura - CEL. Dentro do ESTALE, sou responsável por
dois cursos de Pós-Graduação “lato sensu”: um em
Leitura e outro em Literatura Infanto-Juvenil e pelo
projeto de criação do Mestrado em Leitura, além de
fazer pesquisa e extensão continuada. Sou mineira, de
São Gonçalo do Abaeté, cidadezinha situada entre o
Triângulo Mineiro e a região do Alto São Francisco. Em
escolas públicas, iniciei a vida escolar até a
conclusão do 2º Grau. Em cidade vizinha, pela Fundação
Educacional de Patos de Minas, me formei em Letras.
Essa mesma Fundação me indicou para cursar
Especialização em Lingüística e Teoria da Literatura
na Universidade Federal de Viçosa. Já como professora
da UESB cursei, pela PUC da Minas, Especialização em
Língua Portuguesa-Redação e em Lingüística Aplicada;
depois, fiz Mestrado e Doutorado em Letras pela
PUC/Rio, onde também fiz sete semestres do Curso de
Direito e freqüentei, como aluna especial, disciplinas
de Pós em Educação e Filosofia. Hoje, curso
Psicanálise, pela SPOCB, incentivada pelo Professor Luciano Chaves
Sampaio, meu companheiro na vida e no trabalho do
ESTALE.
Fale um pouco da Afonsina “leitora”... e quais os
livros que realmente mexeram com você...
Como sempre digo, minhas primeiras leituras se
deram num grande livro aberto, onde, em eterno “estado
de lenda”, punha significados em pessoas, espaços,
comportamentos, reconhecia os mecanismos de controle,
exclusão, liberação, normas e limites do meu grupo
social e sabia o custo de tentar negociá-los. São
inesquecíveis pessoas e situações ligadas a histórias,
“causos” e tudo o mais que me permitia o jogo, a
alegria, o humor e a imaginação. Nesse berço poético,
até mesmo o contato com a escrita se dava pela
oralidade, quando Teresa – uma das minhas irmãs mais
velhas – me contava de peças do teatro de Maria Clara
Machado lidas no colégio interno, ou, quando ouvia D.
Cecília ler os contos de fadas na escola, isto é, no
“Jardim de Infância”. Quanto aos livros (publicações),
uma vez alfabetizada, passei a procurá-los com
insistência. Primeiro, foi o meu As mais belas
histórias, depois João Bolinha virou gente, Alice no
país das maravilhas, Heide e tantas histórias, onde
exercitava emoções, escutava a vida, reencontrava o
mundo da sonoridade folclórica e passava horas
enxergando pelos olhos da imaginação, às vezes, me
identificando confortavelmente, outras, me estranhando
e vendo o mundo, pra me ver melhor. Aos 11 anos, tive
um encontro fabuloso com o Sítio do Picapau Amarelo,
onde li a minha história e a do meu grupo social – a
família vivendo entre o rural e o urbano, entre a
cultura de subsistência, troca e a cultura industrial
- como acontecia nos anos 70 lá em São Gonçalo/MG.
Nessa época, influenciada por meu pai, descobri
também
o mundo das Enciclopédias: Trópico, ilustrada em
cores!, foi a primeira viagem... A partir daí,
leituras se perfilam: José Mauro de Vasconcelos, José
de Alencar, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Júlio
Diniz e tantos outros autores rechearam minha
adolescência de personagens, eventos e considerações
sobre o mundo. Hoje, sempre que posso retorno, a
algumas literaturas, como a de Guimarães Rosa e
Fernando Pessoa, mas, quase sempre, acabo nas
literaturas técnicas, onde faço incluir, sem
preconceito, Filosofia, Sociologia, Psicanálise...
E a sua ligação com o estudo da problemática da
leitura, como surgiu em você? Que influência teve? De
quem?
Não fica preciso na lembrança, o momento em que se
deu minha ligação com o estudo da problemática da
leitura. Creio que as primeiras reflexões sobre o
assunto ocorreram quando, aos quatorze anos, me vi
ministrando aulas para meus colegas. Percebi aí, que
todas aquelas leituras, feitas somente por prazer, me
instrumentalizaram para a ação pedagógica. Como
professora de línguas Portuguesa e Inglesa de ensino
fundamental e médio cuidava com atenção especial do
trabalho de promover leitura. Não tínhamos livrarias
na cidade e eu encomendava livros pelo reembolso
postal. Nossas aulas eram eventos mágicos com peças de
teatro, debates, produção de painéis... São memoráveis
as adaptações e encenações de obras literárias feitas
pelos alunos do Ensino Médio e um debate sobre O meu
pé de Laranja Lima, pela 6ª série. Entre os meus
iniciadores como pesquisadora do assunto, posso citar
meu avô Antônio e meus tios contadores de “causos”,
meu pai e minhas irmãs mais velhas – leitores
apaixonados – meus professores: D. Cecília e seus
contos, Tereza e o Sito de Lobato, Agenor Gonzaga e o
Curso de Letras , o Profº Mário Perini e suas
pesquisas. Eliana Yunes, Tânia Dauster no Mestrado e
Doutorado; as leituras de: Magda Soares, Roland
Barthes, Regina Zilberman, João Wanderley Geraldi,
Ezequiel Theodoro da Silva, Marisa Lajolo, Jorge
Larossa...; e o debate com os colegas do GT de Leitura
e Literatura Infantil da ANPOLL, a exemplo de Vera
Aguiar, João Luiz Ceccantini, Maria Tereza Gonçalves,
Zaira Turchi, entre outros...
Conte um pouco sobre essa mudança de ares, indo
parar em Jequié na Bahia.
Quando estava cursando Especialização na UFV, conheci
a Profª. Neide Amorim da UESB. Ela me deu notícias de
um concurso em Jequié. Como tinha um fascínio pela
Bahia dos romances de Jorge Amado, fui seduzida pela
idéia de passar uma temporada na região e, se
possível, fazer o trabalho com esse contador de
histórias escritas. Fiz o concurso, passei e vim para
a Bahia... Acabei fazendo também um trabalho com o
escritor. Depois, outros motivos foram surgindo e fui
ficando: casamento, filhos – Bruno e Átila – novos
projetos. Peguei amor por Jequié e a carência de ação
intelectual do lugar me convoca a permanecer, mesmo
que, vez ou outra, as dificuldades e a lentidão de
tudo incomode muito a ponto de desejar bater asas.
Gostaríamos de saber como surgiu e quais as
principais metas do projeto ESTAÇÃO DA LEITURA, hoje
sob o seu comando. E quais as principais conquistas
desse projeto.
O Estação da Leitura surgiu em 1991 com um pequeno
projeto de pesquisa participante realizado por mim e
pela profª. Ednalva Santos de Almeida. Desenvolvemos o
trabalho em turmas de 5ª e 6ª séries, em uma escola
pública e outra particular. Em 1992, o resultado desse
projeto nos surpreendeu, acordando, entre nós a
suspeita de poder ampliá-lo para aprofundamento das
questões relacionadas às práticas e condições da
leitura nos espaços de educação formal. Partimos para
nossa qualificação em cursos de Mestrado/Doutorado. Em
2001, retornamos às atividades em Jequié,
redimensionamos o projeto, transformando-o em Programa
de articulação entre pesquisa, ensino e extensão à
comunidade. Nossa meta principal é fazer configurar o
Centro de Estudos da Leitura como espaço para essa
articulação efetivamente, pela consolidação de seus
grupos de trabalho e afirmação de sua cinco linhas de
pesquisa. Dentre nossas principais conquistas, podemos
enumerar: 60 experimentos com Literatura
Infanto-juvenil em escolas, creches, hospitais,
entidades de assistência da microrregião de Jequié/ 14
Eventos regionais e I Evento Nacional/ 09 vídeos
produzidos/ 03 cursos de pós-graduação/ 04 publicações
em capítulo de livros/ 60 apresentações de resultados
das Pesquisas em Eventos Externos nacionais e
internacionais/ 30 Monografias de graduação/ 18
trabalhos apresentados em eventos e publicados em
anais/ 10 Posters apresentados em eventos/ 02
informativos publicados/ 33 trabalhos de conclusão de
pós/ 16 bolsas de Iniciação Científica/ 15 trabalhos
de graduandos orientados para a apresentação em
eventos/ 01 Grupo de Pesquisa e Extensão em Lobato –
GPEL/ 01 Núcleo de Estudos em Leitura e Produção
Textual/ 02 sub-grupos de pesquisa e extensão –
Leitura de Imagens, Café Philo com Sócrates-/ 20
colaborações em outros projetos de Leitura e
Literatura Infanto-juvenil/ 20 participações em bancas
examinadoras/ Participação Efetiva no GT de Leitura e
Literatura Infanto-juvenil da ANPOLL./ 05 linhas de
Pesquisa: Didática da Leitura; Leitura e Saúde;
Leitura e Produção Textual; Memórias de Leitura;
Representações e Imagens de Leitura/ Projetos de
Extensão continuada: Círculo de leitura; Estação da
Leitura – ESTALE; Leitura de Imagens; Literatura
popular e diversidade cultural em sala de aula;
Workshop Lobato – Outros Horizontes, Novos olhares/
Páginas Formando Leitores: uma proposta de criação de
salas de leitura/ Proposta de Extensão do GPEL.
Como você vê o problema da leitura no Brasil hoje?
Foque um pouco a sua região onde atua diretamente.
Embora reconheça a importância do investimento oficial
em livros, pela distribuição gratuita de obras
importantes da nossa literatura nas escolas, vejo com
pesar a ausência de políticas públicas no que se
refere à formação de leitores, à promoção da leitura:
não há um investimento efetivo na preparação de
professores para dinamizar o acervo distribuído pelo
FNDE e assim por diante... Iniciativas isoladas e
“heróicas”, como a nossa, não recebem o apoio devido:
não somos “área prioritária” para os órgãos
financiadores de pesquisa, nem mesmo para a FAPESB e
para o comitê de extensão/UESB que deveriam estar mais
sensíveis às questões locais; toda realização mais
ousada, como é o caso do nosso ENLLIJ – Encontro
Nacional de Leitura e Literatura Infanto-Juvenil, é
tomada como loucura ou tratada quase com indiferença
enquanto não prova o seu “sucesso de público”.
Se pudesse ter uma varinha mágica para fazer
rapidamente um Brasil leitor de verdade, para onde
dirigiria essa varinha?
Com uma varinha de condão, eu faria mágicas com os
nossos órgãos financiadores de pesquisa, colocando
neles o firme propósito de democratizar o
financiamento dos projetos de leitura que vagam por
iniciativas solitárias de alguns sonhadores; eu faria
outra mágica com os nossos professores, colocando no
coração deles uma certeza: a imaginação é fonte de
poder; mais uma mágica, eu faria com todos os setores
da sociedade para que tornassem a decisão política de
sair do discurso para a prática no que refere à
leitura como fundamento da educação...
Quais os programas, projetos e atividades a curto
prazo do Estação da Leitura e qual o seu endereço
completo para quem se interesse em fazer contacto?
Queremos implantar um Mestrado em Leitura, ampliar
nossas parcerias com outros grupos de pesquisa,
realizar o II ENLLIJ/ UESB em 2008, investir em
publicações de resultados das nossas atividades, criar
a FAPEL - Fundação de Apoio aos Estudos da Leitura;
especializar nossa equipe de trabalho, reformar nossa
sede própria – um prédio cedido pelo governo do Estado
– criando uma biblioteca especializada em Leitura e
Literatura Infanto-Juvenil e construindo espaços
próprios e apropriados para nossas propostas de
pesquisa, ensino e extensão. Nessa reforma,
pretendemos construir a residência do pesquisador,
para abrigar professores visitantes, o espaço de
Lobato para crianças de todas as idades, uma área para
feiras de livros, entre outras coisas.
Nossos contados são:
Home page:
http://www.uesb.br/estacaodaleitura/index.html
E-mail:
esatacaoleitura@yahoo.com.br
Telefone: (73) 3528-9646
Fax: (73): 3525-6683
Avenida José Moreira Sobrinho s/n
Bairro Jequiezinho
CEP: 45.206-510 - Jequié - BA
Expresse o que talvez quisesse dizer e a entrevista
não previu...
Gostaria de homenagear a Equipe ESTALE pela dedicação
amorosa e comprometida com o Programa. Pessoas
sensíveis, estudiosas e críticas que garantem o
triunfo da vontade sobre a indiferença e a
mesquinharia circundante. Gente, como: Cris, Elenita, Jéssica,
Patrícia, Carlos, Vanelma, Marivone, Maria Célia, Ana
Sayonara, Luiz Cláudio, Luciano, Adriana, Ellem,
Laura, Davi, Ezequias, Genilton,
Daiana, Midian, Nayara e tantos
voluntários e tantas vozes de incentivo que nos
convencem a permanecer...

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