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... Elo entre duas linguagens que davam (e dão) conta do mundo a sua volta diferenciadamente, a saber, a literária, via ficcional, a jornalística, via reprodução de fatos, a crônica criou no leitorado oitocentista a vontade de ler ...

Patrícia Kátia da Costa Pina (*)

A profissão do folhetim não é ser exato, como um relógio...
Machado de Assis, “Ao Acaso”, 1 de agosto de 1864, Diário do Rio de Janeiro

Desde que passou a ser visto como um segmento considerável da sociedade brasileira, o leitor tornou-se objeto de caça por parte da intelectualidade local: os escritores e os editores de periódicos e livros oitocentistas perceberam cedo que tinham tarefas hercúleas pela frente – a de criar hábitos de consumo do impresso, a de estabelecer padrões de gosto literário que mantivessem os hábitos criados, a de constantemente ampliar o grupo de indivíduos interessados em ler.

Não se tratava de uma missão fácil. A empreitada demandava esforço conjunto. Nossos intelectuais do período colonial acostumaram-se a produzir obras de circulação restrita aos grupos formados por eles próprios. Estavam, no dezenove, em face de uma realidade que mudava inclusive a concepção de arte literária tida como adequada até então. Se, até os primeiros anos do oitocentos, ainda se concebia a literatura como produção privilegiada de poucos, com as alterações políticas e sociais que se operavam aqui e no restante do mundo ocidental, a compreensão do objeto literário ganhou novos tons.

Nos tempos coloniais, o livro era um objeto herético, não cabia em quaisquer mãos ou sob quaisquer olhos, apenas os religiosos poderiam fazer uso de materiais impressos. O Brasil assentava as bases de sua sociedade no escravismo, mesmo havendo algumas bibliotecas particulares em finais do século XVIII, a leitura não era necessária para que a ordem sócio-política se mantivesse em níveis satisfatórios; ao contrário, era até perigosa.

Com a chegada da Corte portuguesa em 1808, a situação mudou um pouco: as informações se fizeram obrigatórias, seu registro para comunicação com lugares mais distantes tornou-se importante. Surgem, então, dois periódicos: um, oficial, a Gazeta do Rio de Janeiro; outro, clandestino, feito na Inglaterra, o Correio Brasiliense, de Hipólito da Costa. A Gazeta assemelhava-se ao que posteriormente viríamos a compreender como jornal, quer pelo tamanho, quer pela periodicidade, quer pelo preço; o Correio era doutrinário, assemelhava-se mais a uma revista de caráter contestador.

A Coroa portuguesa financiou um jornal de reação ao de Hipólito da Costa, outros jornais surgiram Brasil a fora, como o Idade de Ouro do Brasil, publicado na Bahia. Além dos periódicos indicados, começaram a ser abertas livrarias, o que denuncia a existência de um público leitor culto. O saber, o conhecimento, a cultura parecem ter sido, entre os poucos leitores de então, ferramentas, instrumentos de reação às práticas colonialistas de que éramos vítimas. Essa transformação do livro e dos demais impressos, que, de coisas do “diabo” passavam a ser coisas do homem, do mundo, da vida, inclusive de Deus, aponta para mudanças na sociedade, mudanças estas que se concretizaram na Independência e nas questões dela decorrentes.

Embora ainda artesanal, a imprensa cresceu de importância a partir de 1830. Passou a ser palco de disputas políticas, passou a ser a voz de dominadores e, também, ainda que timidamente, de dominados, os quais tinham nos jornalistas engajados nas questões sociais seus porta-vozes.

Nesses primeiros tempos, a imprensa associou-se à literatura. Nossa intelligentsia escrevia poemas, romances, contos, novelas e... crônicas, editoriais, pequenas reportagens. Os jornais acolheram os homens de letras, veiculando seus textos em meio a anúncios os mais variados, a notícias de guerra, de fuga de escravos, de assassinatos. Nelson Werneck Sodré aponta:

O grande público iria sendo lentamente conquistado para a literatura principalmente pelo folhetim, que se conjugou com a imprensa e foi produto específico do Romantismo europeu, aqui imitado com sucesso amplo, nas condições do tempo. O folhetim era, via de regra, o melhor atrativo do jornal, o prato mais suculento que podia oferecer, e por isso o mais procurado. Ler o folhetim chegou a ser um hábito familiar, nos serões das províncias e mesmo na Corte, reunidos todos os da casa, permitida a presença das mulheres. A leitura em voz alta atingia os analfabetos, que eram a maioria.” (SODRÉ, 1999, p.242-243)

Os folhetins brasileiros não copiavam integralmente a fórmula francesa, de enredo intrincado, chegando à falta de verossimilhança. Narrativas menos tortuosas ocuparam esse espaço e, com a crescente capitalização da sociedade urbana, o tipo de narrativa que passou a disputar a alcunha “folhetim” com novelas, contos, romances, foi a crônica.

Narrativa curta, própria do jornal, caracterizada pelo registro circunstancial de acontecimentos contemporâneos a sua publicação, a crônica atendia ao diferenciado público, o qual ganhava contornos específicos na escolha do periódico a ser lido. Estudantes, homens de negócio, senhoras mães de família, mocinhas casadouras, todos eram atraídos pela temática do jornal, por sua ideologia. Segundo Jorge de Sá,

Sendo a crônica uma soma de jornalismo e literatura (daí a imagem do narrador-repórter), dirige-se a uma classe que tem preferência pelo jornal em que ela é publicada[...], o que significa uma espécie de censura ou, pelo menos, de limitação: a ideologia do veículo corresponde ao interesse dos seus consumidores, direcionados pelos proprietários do periódico e/ou pelos editores-chefes de redação. (SÁ, 1987, p.7-8)

Elo entre duas linguagens que davam (e dão) conta do mundo a sua volta diferenciadamente, a saber, a literária, via ficcional, a jornalística, via reprodução de fatos, a crônica criou no leitorado oitocentista a vontade de ler, de ler a notícia e a literatura, funcionando como um anzol capaz de fisgar os peixes mais ariscos no mar de oralidade e analfabetismo que era o Brasil de então.

Na década de 1860, Machado de Assis publica crônicas, sob o título “Ao Acaso”, no Diário do Rio de Janeiro. A paixão desse escritor pelo jornalismo ressalta em vários textos seus. Em 1859, no estudo “O Jornal e O Livro”, ele desenha a supremacia do jornal sobre o livro na sociedade brasileira, destacando que, por ser mais barato, por ter publicação diária, semanal ou quinzenal, o jornal abrangeria um número bem mais significativo de receptores, sendo mais “popular”. Ele é categórico: “O Jornal é a verdadeira forma da república do pensamento.” (ASSIS, 1985[1859], V.III, p.945).

Nessa república, o escritor fluminense desenvolveu grande parte de sua produção, formou grupos fiéis de leitores e leitoras, gerou algumas inimizades, cultivou imensas simpatias, participou do e construiu o cotidiano e a história do Brasil durante quatro décadas. Cônscio de que o perfil do jornal lhe daria o perfil do leitor a ser conquistado, Machado de Assis soube ocupar as páginas de periódicos diferenciados, como A Marmota, o Jornal das Famílias, A Estação, o Diário, já apontado, o Correio Mercantil, entre outros.

A crônica machadiana apresenta alguns instrumentos de envolvimento e sedução do leitorado: em geral, há uma profusão de assuntos tratados, desde questões políticas nacionais e internacionais, até citações literárias, passando pelo relato de situações humanas e locais, como traições e crimes. Além disso, o cronista cria uma espécie de teatralidade, ao encenar, em diferentes ocasiões, uma interação com leitores e leitoras, o que estabelece certo clima de familiaridade. Pode-se intuir que o escritor lança mão de uma prática cultural bastante comum em nossas relações cotidianas na época (e ainda hoje), a da relativização de limites entre o público e o privado, como aponta Sérgio Buarque de Holanda (1995, p.148).

Tomo como objeto de análise a crônica publicada no dia 27 de setembro de 1864, sob a rubrica “Ao Acaso”, conforme indiquei acima. O cronista começa o texto justificando o atraso de um dia em sua publicação, por estar viajando: “O folhetim demorou-se um dia porque, à hora em que devia preparar-se e enfeitar-se, para conversar com os leitores, corria pelo caminho de ferro...”(ASSIS, 1957[1864], p.158)[grifos meus] A personificação da coluna dá conta de sua importância no mercado cultural da época, enquanto os dois primeiros verbos grifados desmascaram a rubrica “Ao Acaso”. Da pena do cronista não corriam textos improvisados, eles demandavam estudo e aplicação. A próxima expressão grifada permite a compreensão do tipo de discursividade própria da crônica: trata-se de texto construído em tom de oralidade, de prosa familiar e domingueira. Nesse sentido, Antonio Candido afirma sobre a crônica: “...ela fica perto de nós...”(CANDIDO, 1992, p.13). O cronista machadiano quer provocar intimidade com o leitor, quer fazer parte de seus prazeres e afazeres cotidianos. O espaço público do jornal torna-se parte da privacidade familiar. E vice-versa...

No correr do texto, a questão do preparo e do cuidado necessários para a publicação semanal se expande e perpassa os demais assuntos tratados: as estradas de ferro brasileiras, o leitor representado como estudante frustrado de música, uma nova invenção que permitiria a qualquer indivíduo criar música de boa qualidade estética, uma nova comédia de um estudante de medicina, o casamento da Princesa Isabel, o falecimento de um poeta. Esse mosaico tem como cola a crítica ao improviso em todas as áreas do fazer humano.

O cronista relata fatos e situações que são do conhecimento dos leitores habituais daquela e de outras folhas: ele não precisa ser original nos assuntos, seu valor está na forma como reconta o já sabido, nas reflexões que propõe, nas associações que faz. É a subjetividade de sua interpretação que seduz os leitores, é seu estilo que os atrai.

Daí outra característica interessante na crônica machadiana da década de 1860, e que foi sendo burilada com o tempo, a experiência e as alterações no gosto do leitorado: o uso de frases, expressões, palavras em outros idiomas. Machado de Assis conhecia seu público, sabia do grande número de analfabetos no país, sabia que as mulheres enfrentavam condições adversas para se instruírem, sabia que boa parte dos homens tinha uma educação voltada para o comércio, para as finanças, sabia que latim, francês, inglês, alemão eram línguas que poucos dominavam. Como, então, fazia uso delas em suas crônicas? Talvez a resposta esteja na posição de autoridade ocupada pelo cronista em face de seus leitores, como estuda Lúcia Granja (2000). Tal autoridade provinha de seu lugar com intérprete da semana, intérprete cujas elucubrações casavam perfeitamente com as opiniões do público de cada periódico, como se percebe pela seguinte afirmação do cronista: “Tudo isto que acabo de dizer, diria naturalmente o leitor se acaso estivesse na hipótese que figurei.”(ASSIS, op. cit., p.162) Suas colocações, por mais complexas que fossem as formas a revesti-las, por mais estrangeiras e estranhas, combinavam com o que os leitores da folham queriam ler.

A mesma autoridade organizava-se retoricamente também pelo uso vocabular elitista, acima referido. Haveria uma espécie de hermetismo voluntário nas crônicas, o qual instituiria certo paradoxo, em relação aos objetivos do texto e à natureza da mídia. Essa construção discursiva desenha um dos perfis de leitor a ser alcançado pela publicação: os intelectuais, os políticos. O cronista machadiano ratifica e sustenta a opinião do leitorado próprio do periódico: “O poder da palavra impressa no texto semanal é tão grande que faz com que as autoridades políticas da nação se rendam a ele.” (GRANJA, op. cit., p.75) O comentário político, central nas crônicas publicadas pelo escritor fluminense na época recortada, despertaria o interesse do leitor, num movimento metafórico que faria da página jornalística uma representação simbólica das boticas, confeitarias, ruas e dos salões da cidade.

A crônica, especialmente a machadiana, constrói-se num espaço de encenação, em que realidade, história, cultura, ficção, imaginação convidam o leitor a participar do jogo narrativo. Assim, é possível pensá-la enquanto tipo de narrativa que pode cumprir as três maiores necessidades do mercado cultural que se formava no Brasil do século XIX: por circular tanto pelo campo ficcional, como pelo documental, real, através de relatos do cotidiano, muitas vezes recheados de humor, a crônica prestou-se muito bem ao papel de formadora de hábitos de consumo do impresso, fosse ele literário ou não, construindo padrões de gosto e ampliando regularmente o leitorado brasileiro.

Como na epígrafe, ao folhetinista não cabia a aridez da contagem rigorosa do tempo, nem do cálculo, mas a pena sedutora do imaginário a esboçar aspectos insuspeitos do cotidiano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSIS,
Joaquim Maria Machado de. Crônicas. Rio de Janeiro/São Paulo/Porto Alegre, W. M. Jackson Inc., 1957. V. 23.

________. “O Jornal e O Livro”. In.: ______. Obra completa. 5 ed. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1985. V.III.

CANDIDO, Antonio. “A Vida ao Rés-do-Chão”. In.: _____ et alii. A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas/Rio de Janeiro, Ed. da UNICAMP/Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992.

GRANJA, Lúcia. Machado de Assis escritor em formação: à roda dos jornais. Campinas, Mercado de Letras; São Paulo, FAPESP, 2000.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26 ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

SÁ, Jorge de. A crônica. 3 ed. São Paulo, Ática, 1987. [Coleção Princípios, 5]

SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. 4 ed. Rio de janeiro, MAUAD, 1999.
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Patrícia Kátia da Costa Pina é Mestra em Literatura Brasileira(UERJ,1995), Doutora em Literatura Comparada(UERJ, 2000). É professora Adjunta de Literatura Brasileira da Universidade Estadual de Santa Cruz-UESC, em Ilhéus, na Bahia. Organizou o resgate e a publicação do livro Vindiciae, de Lafaiete Rodrigues, pela UERJ, em 1998, sob o título Vindiciae: em defesa de Machado de Assis; publicou o livro Literatura e jornalismo no oitocentos brasileiro, em 2002, pela EDITUS. Organizou, também pela EDITUS, a revista Literatta, em 2002. Tem artigos publicados em jornais e em revistas especializadas.

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